O médico falou por quase dez minutos. Pedro e Carolina ouviram sem interromper.
Noah tinha dois anos e meio. A infecção nas meninges resistia ao quarto antibiótico. Uma criança não aguenta muito tempo.
— Ele está sem febre agora e acabou de acordar perguntando por vocês. Podem vê-lo, mas não o deixem se agitar. Está muito debilitado.
Ficaram com o filho até ele adormecer. Depois saíram.
Na garagem do prédio, Pedro desligou o motor e ficou com as mãos no volante, olhando para o concreto escuro. Carolina estava ao lado, a bolsa ainda no colo, os olhos fixos em nada.
Ninguém falou.
O choro veio devagar, como se precisasse de permissão. Primeiro dela — um soluço contido que tentou engolir e não conseguiu. Depois dele, mais fundo, o tipo de choro que um homem carrega anos sem soltar. Se abraçaram ali mesmo, no banco dianteiro, sem sair do cinto, e choraram até se esgotarem.
Quando conseguiu respirar sem tremer, Carolina limpou o rosto com força.
— Você demorou demais pra levar ele no hospital.
Pedro soltou as mãos do volante devagar.
Ela fechou os olhos na mesma hora, arrependida. Mas a frase já estava no carro.
Lá em cima, o apartamento os esperava com a árvore de Natal que haviam montado três semanas antes, quando Noah ainda corria pela sala.
Subiram. Tomaram banho, trocaram de roupa, não comeram. O médico havia prescrito calmante. Tomaram o dobro.
Não estavam em condições de dirigir. Carolina pediu um carro pelo aplicativo.
O interfone tocou enquanto esperavam o elevador. Pedro olhou para ela. Ela já sabia.
O motorista era um homem de meia-idade, comum. Tão comum que os dois esqueceriam seu rosto antes mesmo da corrida terminar. Não disse nada quando entraram. Seguiu pela Lagoa, depois pelo Aterro, o Rio em véspera de Natal passando pela janela como alguma coisa acontecendo do lado de fora da vida deles — as luzes nas árvores, grupos na calçada, um casal discutindo num sinal fechado enquanto uma menina dormia no colo do pai. A cidade inteira continuando.
O motorista parou em frente ao hospital. Abriu o porta-luvas, retirou um recipiente de cristal, quase translúcido, e estendeu o braço para o banco de trás sem se virar.
— Cole na parte de trás da orelha do Noah. Deixe por seis minutos. Depois retire e guarde em local seguro.
Pedro pegou o recipiente.
Silêncio.
— Como o senhor sabe o nome dele? — Carolina perguntou.
O motorista não respondeu.
Pedro chegou a tocar a maçaneta, mas hesitou.
Por um segundo absurdo, teve medo de perguntar qualquer coisa e perder aquilo.
Saíram.
Quando se viraram, o carro não estava mais lá.
O desespero acredita em tudo.
O médico os recebeu no corredor com a expressão de quem já havia escolhido as palavras com cuidado. A febre havia voltado. Ele começava a ceder. Permitiu que entrassem no CTI.
Noah dormia cercado de aparelhos. Dois anos e meio. O corpo tão pequeno que a cama parecia engoli-lo.
Pedro e Carolina sentaram cada um de um lado.
Ela abriu a mão sem olhar para ele.
Pedro não entregou o cristal imediatamente.
Ficou segurando o recipiente entre os dedos, olhando para o filho, como se ainda procurasse alguma parte racional do mundo onde aquilo não fosse ridículo.
— Pedro.
Ele soltou o ar devagar e colocou o recipiente na mão dela.
Carolina segurou o cristal por um momento. Depois retirou o adesivo com a ponta dos dedos, com o cuidado de quem manuseia algo sagrado ou algo perigoso — ela mesma não saberia dizer qual dos dois — e fixou-o na parte de trás da orelha esquerda de Noah.
Começaram a contar.
A cortina estava fechada. Os aparelhos faziam seu barulho regular, aquele som que a gente aprende a odiar em três dias de hospital. Lá fora, alguém caminhava pelo corredor sem pressa nenhuma.
No quarto minuto, Carolina teve vontade de arrancar aquilo da pele do filho.
No quinto, Pedro começou a acreditar.
Seis minutos é muito tempo quando você está segurando o mundo com as mãos.
Encostava-se no balcão e pedia uma cerveja. Sempre esperava que alguém o chamasse.
O Ricardo era assim, no Clipper, na Rua Carlos Góes, nos fins de tarde. Calado, falando o necessário, sempre esquivo. Simpático, mas esquivo. Morava na mesma rua e nunca o víamos acompanhado. Ninguém sabia nada a seu respeito além de que tinha um filho — que só via nas férias. O molequinho era bem mais extrovertido que o pai: chegava rindo, solícito com todos, e a galera do Clipper dava atenção especial a ele.
Ricardo recusava todos os convites para festas ou qualquer outro evento. A princípio pensávamos que tinha amigos em outro lugar. Com o tempo percebemos que nunca estava sequer arrumado para sair.
Sempre só.
Antevéspera de natal. Estava na fila dos Correios quando o vi despachando uma caixa grande. Acenei, ele retribuiu e, logo que despachou, veio fazer-me companhia na fila.
— Tudo bem? Mandando presentes?
— Para meu filho. Está em São Paulo.
Aproveitei para convidá-lo.
— Vai um pessoal passar lá em casa. Solteiros, separados, largados em geral. O convite é da galera toda.
Ele agradeceu, baixando a cabeça. Me pareceu ter gostado.
Voltamos caminhando juntos pelo Leblon, da Praça Antero de Quental até a Rua Carlos Góes. Poucas vezes na vida percebi tanta solidão em alguém quanto naquele curto trajeto. Estava estampada na forma de caminhar, na maneira de falar de futebol, no desânimo de suas tentativas de riso. E, principalmente, no olhar.
Uma pessoa tão fechada que eu não sabia como dizer-lhe que, depois de tantos anos de chopp no Clipper, me sentia seu amigo.
Não falei.
Ao passarmos pelo bar, o chamei para uma cerveja, mas ele disse que tinha de ir. Parou alguns passos adiante e me chamou:
— Quero te agradecer pelo convite para o Natal. Muito obrigado.
Desta vez não conseguiu esconder. Deu-me um forte aperto de mão. Seus olhos brilharam úmidos. Olhou para baixo e seguiu seu caminho.
Contei a todos sobre o encontro com Ricardo e, juntos, decidimos dar-lhe um presente na noite de natal. A Tininha se prontificou a escolher e comprar, e fizemos uma vaquinha ali mesmo. Até o Seu Antonio, do Clipper, contribuiu — fato raríssimo.
Na véspera de natal, minha casa ficou cheia. Lá pelas tantas da madrugada, Tininha notou a ausência dele e concordamos que ele não viria mais. Lamentamos e o presente continuou ao pé da árvore de Natal.
Uma semana depois, a Tininha apareceu no Clipper chorando.
— Estava descendo de casa quando vi alguns móveis sendo colocados numa Kombi de mudança. Perguntei pro Seu João, o porteiro. Ele disse que eram do Ricardo — e que ele havia morrido na noite de Natal, atropelado.
Todos ali choraram a morte daquela pessoa solitária, que morreu sem saber que tinha amigos. Nem que ganharia um presente de Natal.
Nunca saberemos se ele estava indo ou não cear com a gente naquela noite.
No início da década de 1970 , todas as
praias da zona sul eram palco de um espetáculo muito, mas muito diferente dos
fogos de Copacabana e das festas sofisticadas dos dias atuais. Naqueles anos,
as praias eram tomadas pelos terreiros de umbanda.
A partir do entardecer do dia
31 de dezembro, começavam a chegar as comitivas que vinham para preparar seus
altares, e cada grupo iniciava a montagem de seu próprio terreiro na areia.
Cercavam o pedaço escolhido
com palmas brancas fincadas na areia que dessa forma, delimitavam o domínio.
Cavavam pequenos buracos, no fundo dos quais acendiam as velas que, assim,
ficavam protegidas da brisa que sempre sopra à noite, vinda do mar. Eram
centenas e centenas de pequenas velas e suas luzes ondulantes, iluminando de
forma mágica as areias, de uma praia do Leblon onde a iluminação pública amarelada não
tinha nem 10 por cento da luminosidade atual. Aquela imagem marcou minha
memória de criança, uma mistura entre a realidade e a ficção de um filme
sobrenatural.
Os pais e mães de santo, junto
com seus cambonos e devotos, enfeitavam e preparavam seus terreiros de forma
extremamente caprichosa, e imbuídos de uma devoção profunda e explícita.
O início da arrumação
coincidia com o final das tradicionais peladas de futebol de areia, disputadas
no Leblon, entre homens alcoolizados, vestidos com roupas íntimas de mulher, sob o batuque animado de uma bateria
de samba organizada e regida pelo genial
percursionista Oscar Bolão, bateria essa, que pouco depois deu origem a Banda do
Leblon, que, por sua vez, passou o bastão para o Bloco Empurra que Pega dos dias
atuais.
Esse intermezzo, do início do
pôr do sol até umas 8 horas da noite, era muito curioso.
O que acontecia, simultaneamente,
durante o lusco fusco deste dia especial, era absurdo e surreal.
Os devotos já estavam finalizando
os trabalhos de preparação dos altares, e iniciando as cerimônias que
atravessariam as madrugadas e iriam até os primeiros raios de sol do primeiro
dia do ano. Enquanto, ao mesmo tempo,
acontecia a maior bagunça da pelada de futebol de areia,
másculo-feminino, com muito consumo de álcool e de tudo mais que pode haver de
profano; estavam todos ali, lado a lado, convivendo harmoniosamente. O divino e
o profano de mãos dadas, comemorando, felizes, cada um ao seu jeito.
Naquela época, o réveillon era
comemorado como se fosse uma noite de carnaval normal. E não acontecia nas ruas
ou nas praias. Os bailes concorridíssimos aconteciam nos clubes, hotéis e danceterias espalhadas por
todos os bairros do Rio.
Era muito diferente do que é
hoje, no século 21.
As praias eram tranquilas,
era para onde as famílias iam depois de romper à meia-noite em casa.
Enquanto os adultos corriam para as festas, os pais com filhos pequenos iam
passear na praia em frente de casa mesmo, a da Leblon no nosso caso, onde ficávamos caminhando e
observando os rituais de umbanda e candomblé que aconteciam nas areias.
Era um terreiro a cada 3 ou 4
metros, todos cheios de gente esperando para tomar passe das pretas e pretos
velhos incorporados. Era o sincretismo religioso acontecendo ali na frente de
todos. A classe média, em sua maioria católica, buscava bênçãos em outra
religião, ali representada pela classe mais humilde e oprimida da cidade; os pobres e pretos. Era a única ocasião que me lembro de ver pessoas brancas abaixando a cabeça humildemente para receber o passe da doméstica que trabalhava em sua casa. Ali, os papéis se invertiam.
Eu era bem pequeno e toda aquela movimentação tão
extraordinária se apresentava ainda mais fantástica para a imaginação fértil de uma
criança.
Fiquei muito impressionado com as pessoas que, de repente, do nada, mudavam de voz e começavam a agir estranhamente, minha mãe
me explicou que aquilo é quando um espírito entra numa pessoa em transe. Me deu
medo, mas a curiosidade era muito maior. O cheiro de charuto e de defumadores
só não era mais forte por causa da brisa marinha. Mas, marcou em minha memória
olfativa.
Meus pais compraram algumas
palmas brancas e entraram no sincretismo reinante. Meu pai deu uma palma para
cada filho e fomos jogá-las no mar, para Iemanjá. Foi divertido molhar os pés
pulando sete ondas e jogando as flores no mar. Quando estávamos voltando da
beira para a calçada, começou uma confusão. Um homem grande e forte começou a
gritar, visivelmente alterado e bêbado.
Ele olhava de forma desafiadora para os devotos dos terreiros enquanto gritava ameaçadoramente:
- Tudo isso é palhaçada!! Um
monte de gente ignorante... fazendo teatrinho... fingindo "baixar o
santo" ... só para enganar os trouxas...
Passou por um terreiro,
abaixou-se e pegou uma imagem do local de oferendas e saiu andando de forma
provocativa, enquanto os fiéis dos terreiros apenas o observavam sem
esboçar reação ou intenção de revide. Apenas olhavam fixamente para aquele homem abominável. E fez-se um silêncio que eu nunca ouvira antes...As ondas do mar se calaram.
Só o arrogante não percebeu
que, naquele momento, algo de muito estranho começava a acontecer...
Ele, imaginando ter dominado o
ambiente, continuou bradando ainda mais impropérios quando percebeu que a
imagem que roubara era exatamente a de Iemanjá.
Ele estava vestido todo de
branco e talvez não soubesse que essa tradição se deve exatamente a Iemanjá.
Todas as pessoas daquele
pedaço da praia pararam para ver aquele desequilibrado desafiar a fé de todos bradando em voz alta:
- Desafio Iemanjá a fazer
alguma coisa para provar que existe...
E foi caminhando em direção ao mar,
gritando que ia afogar Iemanjá em suas próprias águas.
Todos em volta estavam parados,
acompanhando atentamente aquele espetáculo bizarro. Aos poucos, o burburinho
foi silenciando, os atabaques dos terreiros parando, enquanto o homem adentrava o mar em direção
à arrebentação, onde as ondas, muito pequenas naquela noite, estouravam sem
oferecer risco algum. Um banco de areia fez com que o homem ultrapassasse a
arrebentação aindacom água abaixo dos ombros.
De repente, surgiu uma onda do
nada, assustadoramente grande e forte, e o engoliu. Apenas uma onda foi
grande naquela semana inteira e foi, exatamente, aquela.
Quando após alguns
minutos, o homem não voltou à tona, o burburinho na areia começou a virar
gritos cada vez mais intensos e vários homens passaram correndo e mergulharam
na água para socorrê-lo.
Meus pais não aguardaram o desfecho e nos tiraram
rapidamente dali, nos levando de volta para casa. Mas, fiquei com aquilo na cabeça por dias.
Pouco tempo depois, soube que não haviam achado o corpo.
Eu vi e todo mundo viu.
Este trecho faz parte do livro CONVERSAS NECESSÁRIAS.
Ele precisaria dosar a agressividade, calma,
objetividade e a rapidez. Era só seguir minuciosamente cada passo planejado.
Assim que o alvo atravessa as duas pistas da praia, vindo de sua
rotineira corrida vespertina pela orla de Leblon e Ipanema, entra na Rua
Cupertino Durão onde mora. Jair apressa o passo e rapidamente alcança o outro
lado da rua, onde o alvo tem que passar, obrigatoriamente. Encosta-se numa das
árvores, entre dois carros estacionados, e aguarda. Ninguém vindo de nenhum dos
lados. O alvo passa e é abordado de forma agressiva, não deixando margem para
reação alguma.
— Sérgio, está arma está engatilhada e pronta para disparar. Fique
quieto e preste atenção. Vamos até a sua casa, andando devagar e conversando
como dois velhos amigos. Se você fizer qualquer coisa errada morre. Ouviu?
Responde! Ouviu?!
Jair foi bastante agressivo na aproximação, não deixando espaço para
argumentações. Sérgio estava paralisado e apenas balbuciou um sim quase
inaudível.
Jair continua.
— Quanto mais nervoso você ficar mais perigoso fica para nós dois. Então
fique calmo e tudo vai dar certo.
Com a arma dentro do agasalho, mas já devidamente apresentada a Sérgio,
os dois continuam a andar na direção do elegante prédio do jovem deputado.
Sobem direto, sem parar na portaria. Morador não precisa se identificar.
E, na maioria, nesses prédios, não se dá boa noite a porteiros. Sérgio mora
sozinho.
Na ampla sala, Sérgio percebe que não é um assalto comum.
Ele nunca fora dos mais corajosos, por isso estava acostumado a ser
submisso sem questionar. Jair o manda sentar-se no sofá da sala.
À essa altura, por todo o contexto percebido, Sérgio começa a desconfiar
porque Jair está ali. Ainda bastante nervoso tenta amenizar o clima.
— Fique tranquilo, pode levar o que quiser. Não vou causar nenhum
problema. Só, por favor, sem violência, pelo amor de Deus.
Sérgio tem a voz trêmula. Seu medo é visível e patético.
— Sérgio, sei que você tem meio milhão de dólares em cédulas e cheques
de viagem aqui no seu apartamento. Sei a que horas, onde, e a mando de quem
você pegou esse dinheiro. Sei que ninguém pode saber que esse dinheiro existe e
muito menos que está aqui na sua casa.
Sérgio ficou completamente branco. Pensou que seria roubado, mas aquilo
era bem mais do que isso. Definitivamente, não era um simples assalto. Havia
algo por trás.
Ainda sem entender, Sérgio percebe que Jair já não parece tão violento
quanto no início, mesmo assim não consegue parar de tremer. Sempre fora
medroso. Era óbvio que não estava lidando com um ladrãozinho pé de chinelo.
Pelo linguajar e pela postura, Jair é profissional. Talvez, das forças de
segurança. Na verdade, não fazia ideia de quem se tratava e de onde surgira
aquele homem.
Jair pega seu celular e começa a filmar Sérgio.
— Você vai gravar? Por quê?! Pergunta Sérgio.
— Se levanta e vai pegar a mala com o dinheiro. Diz Jair apontando o
celular.
Sérgio hesita: — Não está mais aqui... o secretário do senador já
pegou...
A voz de Sérgio falha e irrita Jair, que rapidamente
troca o celular pela pistola, engatilha e aponta para ele.
O corajoso deputado se transfigura apavorado, e imediatamente revela que
a mala está dentro do armário do quarto.
Jair não segura o riso. Os dois se recompõem, Jair volta a falar manso e
nota que o deputado havia mijado nas calças.
Sérgio entra em seu quarto, abre o armário, pega a mala, coloca-a sobre
a cama e a abre. Jair grava tudo ininterruptamente com o celular. Enquadrando o
quarto inteiro, alternando com closes da mala e dos retratos de família no
quarto do deputado, para caracterizar, com detalhes, onde estão naquele
momento.
A seguir, voltam para a sala e Jair continua gravando a mala aberta
sobre a mesa de jantar e a sala inteira ao fundo.
Pronto, aquele vídeo não deixa dúvidas de que aquele dinheiro esteve com
o deputado dentro de sua casa.
Jair recolhe a mala cheia de dólares. Diante do atônito e medroso
deputado mijado, recoloca seu agasalho esportivo, guarda o celular e a pistola
no bolso.
— Sérgio, agora vai ser o seguinte: daqui a duas horas vou enviar para
você, pelo seu WhatsApp, o vídeo que fizemos agora. Ou seja, eu tenho a prova
de que você estava com meio milhão de dólares em dinheiro vivo, e que,
obviamente, não tem como explicar porque vieram parar aqui sem comprometer
muita gente graúda.
Mostre esse vídeo para o seu "pessoal", porque ele também
garante que você não pode ser preso para não delatar. Ou seja, não ter
acontecido nada aqui será melhor para todo mundo.
Se eu souber que tem alguém atrás de mim, jogo esse vídeo na internet na
hora, os jornalistas vão adorar e isso vai virar o próximo escândalo nacional
da semana.
Sérgio ouviu calado.
Afinal, oficialmente, aquele dinheiro nunca existiu e ninguém poderia
reclamá-lo sem se incriminar. Não tinha nada a dizer. Não podia fazer nada. A
não ser aguardar o vídeo para garantir que continuaria vivo e interessante para
o poder que representava.
Jair saiu do prédio tranquilamente, não sem antes perguntar ao simpático
porteiro quanto estava o jogo do Flamengo contra o Botafogo no Maracanã:
— 4 x 0 para o Mengão, doutor! E ainda tá no primeiro tempo...
Era o que faltava para coroar aquela início de noite para Jair. Afinal,
como diz a sabedoria popular: ladrão...que rouba ladrão...está perdoado!
Este trecho faz parte do livro CONVERSAS NECESSÁRIAS.
Saio da academia Lucinha & Cláudio e atravesso a Rua Humberto de Campos em direção à Rua José Linhares, que fica a menos de cinquenta metros. Assim que dobro a esquina, vejo uma senhora idosa caminhando na direção contrária. Ela dá uma topada numa pedra portuguesa solta na calçada, se desequilibra e começa a acelerar o passo sem controle. O corpo frágil e cansado não consegue se reequilibrar. Ela vai cair.
Corro em sua direção para tentar ampará-la mas, antes que eu chegue perto o suficiente, surge do nada uma mulher muito esguia, de cabelos pretos curtos, que a segura, colocando-a de pé , sumindo em seguida.
Tudo não dura mais do que poucos segundos.
Fico petrificado com a cena. Sinto-me muito estranho, um desconforto cerebral físico, extremamente desagradável, como se tivesse levado uma pancada forte na cabeça, por dentro. Uma confusão agoniante. Uma perda total da noção do que é ou não realidade. Como uma pane inexplicável no meu sistema mental.
Como alguém aparece e desaparece do nada? Sim. Ela não surgiu e foi embora de forma gradual, como acontece naturalmente. Ela apareceu e desapareceu, como um flash fotográfico.
A senhora idosa mostra-se atônita e tão perplexa quanto eu. Quando conseguimos trocar olhares, são de puro espanto! Aproximo-me um pouco mais e pergunto-lhe o que tinha acontecido. Ela relata exatamente a mesma coisa que eu vi. Utiliza, inclusive, as mesmas expressões: “apareceu do nada” e “desapareceu do nada”. Ela descreve o que eu presenciei com a mesma precisão de detalhes que captei. Ou seja: quase nenhum. A velocidade do evento foi como a de um vídeo em câmera extremamente acelerada.
Logo percebemos que há uma prova física e inequívoca do ocorrido: a senhora idosa veste uma blusa branca de mangas compridas. Nela, estão estampadas com nitidez duas marcas de mãos, perfeitamente visíveis e brilhantes, no exato local onde o “ser” a segurou. Olhamos para as marcas e, em seguida, um para o outro — ainda com expressões dominadas pela mais absoluta incredulidade.
Naquele momento soube que testemunhara algo fantástico e extraordinário. E que não existiam palavras capazes de descrever aquele flash inacreditável e bizarro.
Ficamos em silêncio, eu e a senhora idosa, tomando fôlego e reiniciando os pensamentos. Pouco depois, seguimos caminhando lentamente até a entrada do prédio para onde ela se dirigia. Ambos em choque e no mais absoluto silêncio.
Despedimo-nos com o olhar, sem trocar mais nenhuma palavra. Não havia nada a dizer. Nossos olhares se acenam, confirmando a cumplicidade que acabara de nascer.
Nunca mais a vi e nunca entendi o que havia acontecido.
Nunca mais vi um lacerdinha. Pensando bem, faz muitos anos que nem sequer ouço falar.
O lacerdinha tinha poucos milímetros, não voava e não transmitia doenças. Era pretinho e infestava o Leblon, principalmente as transversais, numa certa época do ano. Minhas lembranças em relação a eles estão ligadas à época em que eu morava na Rua José Linhares. No final da tarde, eram cigarras cantando e lacerdinhas caindo das árvores, às vezes nos olhos. Ardía e coçava muito, deixava os olhos inchados e nossas mães preocupadas. Eles eram atraídos por roupas claras, principalmente as amarelas, e, por vezes, atingiam os olhos, provocando irritação e ardência intensas.
Esses minúsculos insetos eram chamados de lacerdinhas em referência a um antigo político carioca, Carlos Lacerda, que fora governador no tempo do Estado da Guanabara.
Descobrimos que os lacerdinhas, ainda larvas, ficavam nas folhas das árvores que estavam enroladas e cheias de água da chuva. A gente as desenrolava e surgia um monte de lacerdinhas pequenos em seu interior.
Eu tinha uns seis anos de idade e era acostumado a brincar na nossa rua, mas só no quarteirão, sem atravessar a via. Havia muitas crianças, tanto no meu prédio quanto nos prédios vizinhos, que faziam parte daquela turminha de meninos da mesma idade. Naquele tempo, no Leblon, a maioria das casas tinha uma empregada que morava na favela da Praia do Pinto ou na Cruzada São Sebastião. Quando, por algum motivo, a empregada da minha mãe levava o filho para o trabalho, no caso a minha casa, ele se tornava um amigo a mais que passaria o dia brincando comigo, com meu irmão e com nossos outros amigos. No período das férias escolares isso era bem frequente.
Às vezes, Dona Celestina voltava para a casa deles, na favela da Praia do Pinto, e ele ficava e dormia lá em casa com a gente. Eu e meu irmão adorávamos a presença dele. Era um menino doce, risonho e engraçado. Seu apelido era Bilico, o nome era Bernardo. O dia era sábado, 10 de maio de 1969, véspera do Dia das Mães.
Dona Celestina e minha mãe estariam ocupadas o dia inteiro preparando o almoço comemorativo do dia seguinte. Bilico era mais novo do que eu, um ano, e mais velho que meu irmão apenas alguns meses. Era negro, com dentes grandes e muito brancos. Era tímido, mas engraçado. Falava de uma maneira diferente, que eu achava legal. Quando Bilico passava o dia lá em casa, fazia tudo junto comigo e meu irmão. Assumia a nossa rotina: almoçava, tomava banho, descia para brincar conosco, e era sempre muito divertido.
Nesse dia, Bilico chegou cedo, tomou café conosco e descemos para a rua para brincar. Era época de lacerdinhas. Dentre os garotos que brincavam na rua, tinha um que era especialmente assustador para mim e meu irmão. O Arlindo era mais velho, mas não andava com os garotos da idade dele. Andava conosco, que tínhamos uns dois anos a menos. Naquela idade, isso fazia uma grande diferença. Gostava de nos intimidar e bater. Ninguém ficava com pena quando o pai dele aparecia chamando-o, sempre gritando e batendo nele. Nós também tínhamos medo do pai dele.
Naquela tarde, estávamos catando lacerdinhas nas árvores. Abríamos as folhas e ficávamos observando as lacerdinhas se mexendo lá dentro. De repente, Arlindo pega algumas lacerdinhas com o dedo e enfia com violência no olho do Bilico, que os observava bem de pertinho, e grita:
— Tá com fome? Toma, neguinho esfomeado!
Arlindo falou aquilo com mais raiva do que lhe era peculiar. Todos nós tomamos um susto. Ele nem conhecia o Bilico, que começou a coçar o olho e a chorar com a ardência intensa. Todos os meninos começaram a rir, menos eu, meu irmão e o Bilico, que saiu andando e chorando na direção da portaria do nosso prédio.
Lembro que me veio um sentimento estranho e desconfortável, que nunca me saiu da memória. Eu senti vergonha. Vergonha de não ter defendido o Bilico. Ele era meu amigo.
Bilico não subiu para nossa casa. Ficou num canto da portaria, chorando baixinho. Falou que, se chegasse lá em cima chorando e com o olho inchado, sua mãe iria brigar com ele. Ela recomendava-lhe sempre que não queria que ele arrumasse confusão com os filhos das madames.
Depois de algum tempo, ele parou de chorar e subimos pela escada. Naquela época, os empregados e pessoas negras só podiam subir pelo elevador de serviço, mas Bilico só subia pela escada. Tinha medo de elevadores. Quando chegamos em casa, a primeira coisa que Dona Celestina viu foi o olho do filho inchado e muito vermelho. Não falou nada, mas fechou a cara, chamou Bilico para a cozinha e de lá só o vimos novamente quando eles foram embora, bem mais tarde. Lembro-me bem da expressão de choro dele quando se despediu da gente. Aquele sábado me marcou para sempre.
Naquela mesma noite, um misterioso e devastador incêndio irrompeu e tomou conta da favela onde eles moravam. Queimou por toda a madrugada e por muitas horas seguintes, consumindo tudo e deixando centenas e centenas de famílias sem teto e sem nada.
Era dia 11 de maio de 1969, Domingo, Dia das Mães. A casa de Dona Celestina e do Bilico pegou fogo e virou cinzas, junto com toda a favela da Praia do Pinto, que queimou inteira. Não sobrou nenhum barraco de pé. Dona Celestina nunca mais voltou.
Um menino de seis anos nascido em Piracuruca, no
Piauí, começou a descrever com precisão a vida de um alemão rico que morrera
cinquenta anos antes na cidade de Punta del Este, no Uruguai.
O psicólogo Túlio Linhares, da Universidade de
Campinas, investigou o caso com rigor científico, viajando três vezes ao local.
Confirmou cada detalhe relatado: a casa de três andares à beira da água, a
família Schmieden, os negócios de couro, a mala marrom e a morte nos
anos 1940. A história tornou-se referência internacional porque desafia as
fronteiras conhecidas da memória e da consciência.
A criança e as memórias impossíveis
4.680 quilômetros separam João Benício, uma criança
de Piracuruca, no interior do Piauí, da cidade de Punta del Este, no Uruguai. Uma
enorme distância geográfica, cultural e histórica. Mesmo assim, o menino começa
a descrever com precisão a vida de um homem alemão rico, morto meio século
antes de ele nascer, naquela cidade à beira do Rio da Prata.
Ele fala de uma casa de três andares construída
sobre a água, com um píer onde barcos atracam. Atrás, haveria uma igreja. Ao
lado, a propriedade de uma mulher famosa: Evita Dolores, conhecida na América
do Sul e marcada por escândalos judiciais.
O detalhe mais intrigante surge quando o menino
menciona a família Schmieden — donos da casa, ligados ao comércio de
artigos de couro. João diz que o patriarca carregava sempre uma mala de couro
marrom e só passava os verões naquela residência.
O olhar
cético da ciência
Nada fazia sentido para seus pais, trabalhadores
simples e católicos dedicados, cuja crença não inclui nada parecido com
reencarnação. Como uma criança do sertão poderia inventar tais detalhes sobre
um lugar que jamais visitara?
Em 1997, o psicólogo Túlio Linhares, da
Universidade de Campinas, decide investigar. Cético por natureza, viaja até
Piracuruca e entrevista o menino. Com um gravador de mão, anota e grava cada
informação: a casa à beira da água, a igreja atrás, a vizinhança de Evita
Dolores, a família Schmieden, a mala marrom, a morte entre 1940 e 1941.
Ao retornar ao gabinete, Túlio enfrenta a escolha:
arquivar o caso como fantasia infantil ou testar cientificamente as afirmações.
Opta pela segunda via.
A
primeira viagem: a casa existe
A primeira ida a Punta del Este o surpreende. A
residência de Evita Dolores é localizada sem dificuldades. Ao lado dela,
exatamente como descrito, surge uma casa de três andares, construída sobre a
água, com um píer na frente e uma igreja atrás. Estava abandonada, mas
correspondia ponto a ponto à narrativa de João Benício.
Um vizinho idoso confirma: sim, um alemão morou ali
décadas atrás. Mas, não havia mais nenhuma informação sobre a família que ali
residira. A pista inicial se transforma em um enigma maior.
A
confirmação histórica
Em 1998, Túlio retorna ao Uruguai. Consulta
historiadores locais, especialistas na memória dos bairros de Punta del Este.
Um deles confirma: a casa pertencia a um alemão da família Schmieden,
casado com uma italiana, com três filhos. O homem era lembrado por sempre carregar
uma mala de couro marrom e só ocupar a residência durante os verões. A família
tinha negócios de couro em Montevidéu. A morte, registrada por volta de 1940,
coincide com o relato do menino.
O detalhe final reforça o mistério: João Benício
dizia que o nome do homem significava “bom homem” em alemão. Pesquisando, Túlio
descobre que a expressão existia e era usada de forma respeitosa em tempos passados.
A
terceira viagem: eliminando dúvidas
Determinando-se a fechar o quebra-cabeça, Túlio
viaja uma terceira vez. Investiga registros de comunidades italianas ortodoxas
e encontra indícios de que os filhos da família realmente receberam nomes italianos.
O quadro se completa: casa, localização, vizinhança,
família, ocupação sazonal, negócios, mala, idioma, nomes. O menino brasileiro
havia descrito com precisão elementos que nem mesmo historiadores locais
lembravam de imediato.
A
repercussão internacional
Os resultados são publicados em periódicos
científicos e apresentados em conferências. Ian Stevenson, referência mundial
nos estudos sobre reencarnação, elogia o trabalho como “exemplar, detalhado e
verificável”.
O caso repercute em debates acadêmicos pelo mundo.
Para alguns, é a prova de que memórias extra conscientes existem. Para outros,
apenas coincidências estatísticas. Túlio mantém a posição equilibrada: não
afirma que João Benício seja a reencarnação de ninguém, mas mostra que há
fenômenos que escapam à lógica tradicional.
O
ceticismo e a impossibilidade das explicações
Com a fama vêm as críticas. Pesquisadores analisam
se a família poderia ter tido acesso a livros ou relatos sobre Punta del Este.
Outros buscam conexões ocultas com alemães no Brasil. Nenhuma hipótese encontra
sustentação.
A distância de 4.680 km, o isolamento da família no
agreste do Piauí e a ausência de interesse em publicidade tornam improvável a
fraude ou a coincidência. Para muitos estudiosos, a solidez metodológica do
trabalho de Túlio transforma o episódio em um dos casos mais impressionantes já
documentados.
O fim das
memórias
Como em relatos semelhantes, as lembranças de João
Benício desaparecem com a adolescência. Hoje adulto, vive uma vida comum, sem
falar do que um dia marcou sua infância.
Na ciência, porém, o caso permanece. Para uns,
prova de que a consciência pode sobreviver à morte. Para outros, um mistério
ainda sem explicação.
O que se mantém indiscutível é o impacto: um menino
pobre do sertão brasileiro descreveu com precisão a vida de um alemão morto a
milhares de quilômetros, décadas antes de seu nascimento. E um pesquisador
obstinado, aplicando o método científico, confirmou cada detalhe.
Mas o que João Benício realmente reviveu? Uma
memória guardada em algum ponto desconhecido da mente? Uma coincidência impossível?
Ou a prova silenciosa de que a vida não termina onde acreditamos que acaba?
A resposta permanece em aberto, perdida entre
ciência e mistério — como uma casa abandonada à beira da água, onde ainda ecoam
lembranças.
Edmir Saint-Clair
Disclaimer
Esta é uma obra de ficção literária. Embora
inspirada em atmosferas, relatos e mistérios que circulam pelo imaginário
humano, não se apoia em fatos documentados nem tem compromisso com a realidade
histórica. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas, lugares ou
acontecimentos, é mera coincidência — ou talvez apenas o eco de outras vidas.
Sexta-feira, saída do metrô, estação
Jardim Oceânico, 7h da noite, chove. Ele se maldiz pela escolha de ter deixado
o carro estacionado e ter pegado o metrô para ir ao centro. Sua reunião não
durou nem uma hora e o custo do estacionamento não compensou a trabalheira das
baldeações. Para completar, esqueceu o guarda-chuva no vagão do trem. Estava
aguardando não sabe o que, para iniciar a corrida de uns 200 metros até o local
onde seu carro está estacionado, quando um senhor grisalho, de uns 70 anos, segura
seu braço embaraçosamente e lhe fala com uma dicção perfeita e expressando-se
de forma absolutamente clara e pausada:
— Daqui a exatamente duas semanas, numa mesma
sexta-feira, viaje de carro para Nova Friburgo e vá até Murí, ao local da
entrada da estrada de terra que leva até o lugar onde você foi mais feliz na
sua vida. Você sabe onde fica. Não falte, não haverá outra chance. Esteja lá no
horário que você sabe qual será.
O Senhor acabou de falar e desceu para a
estação do metrô, passando pela roleta e desaparecendo entre a multidão no
horário de maior movimento.
Flávio demorou alguns segundos tentando
entender o que fora aquilo. Olhou para fora e percebeu que a chuva dera uma
arrefecida e resolveu correr para seu carro.
Entrou,
ajeitou-se no banco, ligou o carro e só então começou a perceber o quanto
aquele estranho evento o tinha afetado. Sentiu-se muito estranho. Não havia
dúvidas sobre nada do que ocorreu naquele encontro surreal. Para organizar os
pensamentos, refaz passo a passo os momentos, desde que desceu do vagão do trem
e chegou à marquise na saída da estação. Lembrou-se que aquele Senhor não
estava dentro da estação quando o abordou, estava vindo de fora no sentido de
quem vai entrar no local.
Fato
número dois; ele jamais havia visto aquele homem na vida. O homem também não
falou o nome dele.
Teria
aquele Senhor o confundido com alguém?
O
problema é o que aquele estranho falou.
O
trajeto até em casa, foi feito pela solitária e deserta praia da reserva
biológica, entre a Barra da Tijuca e o Recreio dos Bandeirantes.
Quanto
mais pensava no que aquele velho havia falado, mais fazia sentido. Pensou que
aquele evento, um tanto sombrio, logo sairia de sua cabeça e o assunto estaria
encerrado.
Nos
dias seguintes, aquele encontro não saiu de seus pensamentos e a cada dia ele
ia se lembrando de mais um evento específico que remontava aqueles lugares em
volta de Friburgo. Até que se lembrou que o velho havia falado especificamente
a palavra Murí...
Gelou,
por que não havia feito logo a ligação?
A
palavra Murí dava significado a tudo que aquele senhor havia falado. É
impressionante até onde uma memória emocional profunda é capaz de nos
remeter...
Negou-se o quanto conseguiu a fechar
aqueles elos que se encaixavam perfeitamente. Mas, não havia a menor chance de
alguém, além dele próprio saber sobre aquele passado. Não que fosse segredo,
era apenas algo muito pessoal e íntimo perdido no tempo e que ele nunca
revelara a ninguém.
Aos
67 anos, não se tem dúvidas de quando se foi feliz.
Ele não tinha, haviam sido muitas as ocasiões,
temporadas longas, outras mais curtas, mas a felicidade sempre dava o ar e o
enchia com suas graças.
Mas,
há algum tempo havia perdido a paixão pela paixão. Preferia o amor pelo amor e,
nessa mudança, optara por não aceitar prêmios de consolação e, também, não se
prestar a sê-lo. Por isso, sentia-se
muito bem vivendo sozinho.
Os
dias seguintes foram de lembranças, todas cada vez mais convergentes e direcionadas
pelo que o estranho velho anunciou.
Laura
voltava, diariamente, aos seus pensamentos, a partir do momento em que ele
aventou a possibilidade de cumprir a estranha missão. Encontrá-la exatamente
naquele lugar era algo absolutamente improvável.
Mas,
o que ele deveria encontrar naquele lugar?
Já
o identificou como a entrada da estrada de terra que leva ao local onde ele e
Laura tiveram uma casa de campo, por alguns anos. Segundo o velho, ele deveria
ir até lá e ficar esperando.
Esperando
o quê?
Laura,
com certeza, não seria. Ela estava casada e feliz. Há mais de vinte anos não
tinha notícia alguma dela. E o que adiantaria encontrá-la, no meio da noite,
naquele local ermo e deserto?
Que
coisa mais louca... sem sentido...e absurda.
Ele
se sentia mal toda vez que chegava nessa parte daquele pensamento cada vez mais
obsessivo e ridículo. Na idade dele, muitos homens já começam a apresentar
algum grau de debilidade senil.
Quem
era aquele velho maluco que o deixou tão perturbado? Em verdade, se deu conta
que o encontro no metrô ocorreu entre dois velhos, ou seja, a probabilidade de
um dos dois estar gagá aumentava muito...
A
verdade é que não precisaria de nada daquilo para aumentar a confusão mental em
que viveu nos últimos anos. As consequências da pandemia da Covid-dezenove só
não foram mais graves e profundas porque ele ainda estava vivo. Mas, não tinha
certeza se isso havia sido um bem ou um mal. A vida não o atraía o suficiente
para esperar ou desejar qualquer coisa dela.
Entendia
perfeitamente como Nietzsche deve ter se sentido após anos mergulhando nas
profundezas da alma humana.
Entretanto,
discordava do alemão, o nada era plenamente suportável após o que ele já havia
experimentado. Na verdade, havia minutos tão insuportáveis que, o simples fato
de não haver dor física ou mental, já lhe gerava prazer. Não é agradável se dar
conta de que o nada é o melhor estado em que podemos nos encontrar. E, o seu
nada significava, também, sem ninguém.
Impressiona,
como um ser humano é capaz de ir reduzindo suas necessidades de sobrevivência a
ponto de precisar de muito pouco e de ninguém mais.
Mas,
esse esvaziamento externo cria um correspondente vazio interno. As coisas vão
perdendo o valor, a importância e o sentido. Pouco a pouco nada, nem ninguém,
faz falta. As profundezas humanas são traiçoeiras e solitárias, quem as
frequenta com assiduidade perde o contato com o mundo que vive na superfície.
Não
tinha mais dúvida alguma de que iria subir a serra até o local onde aquele
senhor lhe disse que deveria estar.
Finalmente,
A NOITE tão esperada chegou.
Saiu
do elevador direto na garagem, escura e úmida como sempre.
Entrou
no carro, pareou o smartphone, clicou na playlist especial que havia preparado
para essa viagem com as mesmas músicas que ouvia quando ele e Laura subiam a
serra.
Começava
ali sua grande viagem, com as mesmas músicas de 30 anos atrás;
Nova
Friburgo tem um grande valor sentimental para ele. Além das melhores
lembranças, sempre teve uma simpatia gratuita por aquela cidade e suas
redondezas. Murí, Lumiar e São Pedro da Serra são cidadezinhas lindas, pacatas
e românticas. O céu de inverno e das frias manhãs de sol esbranquiçado é de um
azul forte, definitivo.
A ele, fala à alma.
Tinha
consciência de que se alguém soubesse o verdadeiro motivo da viagem naquele dia
e naquela hora, duvidariam de sua sanidade. Ele próprio vinha duvidando
seriamente desde que encontrou aquele senhor na saída da estação do metrô, há
duas semanas. Às vezes, se perguntava se aquele encontro teria realmente
acontecido.
Quando
entrou na ponte Rio-Niterói, o fluxo dos carros já não sofria reflexo algum do
trânsito das sextas-feiras e corre livre como nas viagens com Laura. O banco do
carona é dela, naquele momento ele percebe que nunca deixou de ser.
Não
consegue descrever o que está sentindo. Tantos anos passados e a sensação do
carro correndo na ponte é improvavelmente agradável... como pôde viver os
últimos anos se arrastando na vida...como é bom sentir alguma coisa, como é bom
lembrar de Laura. Quase consegue conferir, de novo, algum sentido a palavra
felicidade. Naquele momento pôde, ao menos, imaginar.
Como
é gostoso subir a serra à noite, com esse céu completamente iluminado pela lua
cheia. É mágico.
Para
ele não importava mais o que haveria no fim daquela viagem, o trajeto em si já
lhe tirara todo o torpor mórbido que acompanhava seus dias.
Mas,
alguma coisa muito estranha ocorreu e ainda estava acontecendo até aquela
noite. Sente que a cada curva suas energias e pensamentos se excitam
progressivamente e de uma maneira inexplicável. Ele sente a adrenalina
circulando por todo o corpo. Teve medo para onde aquela estrada o estaria
levando. Para onde sua loucura o levaria naquela noite?
A
depressão, a infelicidade profunda e a desesperança poderiam ter fabricado
aquele velho na estação do metrô?
Poderiam.
Afinal,
o que ele lhe disse não faria sentido para mais ninguém a não ser a ele mesmo.
O que aumentava a chance de ser produto de sua própria mente. Ele era teimoso e
já que chegou até ali, iria até o fim. E, se fosse loucura, pelo menos não
haveria ninguém para testemunhar seu surto.
Quando
ultrapassou o posto da polícia rodoviária, no alto da serra, ele estava quase
todo encoberto pela forte neblina sempre presente naquele horário. Às duas
horas da manhã o local está completamente deserto.
Pouco
depois de uma grande curva à esquerda ele vislumbra a entrada de terra no mesmo
sentido, pouco antes da entrada para Lumiar. É ali.
Ele
para no largo onde a estrada de terra que leva até a Casa Azul começa.
Desliga
o carro e sente seu coração acelerar ainda mais. Não tem mais idade para
suportar aquele ritmo cardíaco por muito tempo. Salta do carro buscando um
pouco mais de ar, as pernas estão formigando depois da viagem.
O
local está completamente deserto, como era de se esperar, ali não há nada.
Volta para o carro e deita o banco, tentando compassar a respiração e controlar
aquelas descargas de adrenalina.
O
suor é tão intenso que encharca sua camisa, suas extremidades estão frias e
azuladas. Uma dor aguda percorre todo seu braço esquerdo, a dor no ombro
esquerdo aumenta e paralisa seu braço.
Faz
um esforço e consegue alcançar os dois comprimidos que restam na cartela.
Toma-os e se deita no banco reclinado. Após um pico de dor aguda no ombro, que
reflete intensamente no peito, sente um relaxamento profundo e apaga.
De
repente, acorda assustado, ainda no mesmo local, e vê um vulto saindo da
pequena estrada caminhando em sua direção.
É
Laura sorrindo, de braços abertos para recebê-lo.