RUMINAR LEMBRANÇAS
Gosto
de ler sobre o que a ciência anda descobrindo por aí — hábito antigo, quase
vício — e na paz de quem mora só e bem acompanhado, costumo deixar o pensamento
se soltar inspirado nessas leituras, só para ver aonde me leva.
O
cérebro embarca para outro tempo, um tempo esquisito, um tempo dele — que,
mesmo eu sendo ele, é difícil de entender.
Basta
um segundo de silêncio — distraído com o café e a chuva na janela — para o
cérebro puxar do fundo do armário uma frase idiota que você disse a um estranho
há sete anos. E vem um caminhão cheio de sensações físicas: o coração acelera
um pouco, o peito aperta, e o cérebro, sem pedir licença, decide que aquele é o
momento perfeito para reprisar a cena em alta definição.
Fico
imaginando por que ele insiste nisso. Por que gastar energia com um episódio
que não pode ser mudado?
Todo
bicho deste planeta evoluiu para o presente, para o perigo imediato. O leão não
remoi a presa que escapou semana passada — descansa, e parte para a próxima
caçada. Nós somos os únicos que passam metade da vida acordada vivendo num
tempo verbal que já não existe mais.
Há
uns anos li algo que não me sai da cabeça: você, nessas horas, não está só
lembrando — está rodando uma simulação neural cara, bancada pelo próprio corpo.
Foi
um neurologista chamado Marcus Raichle quem topou com isso meio sem querer, no
início dos anos 2000. Ele e a equipe esperavam que o cérebro, ao parar de focar
numa tarefa, entrasse em repouso e baixasse o consumo de energia. Os exames
mostraram o oposto: quando você para de mirar o mundo lá fora, uma rede inteira
de regiões cerebrais se acende, como uma cidade inteira iluminada à noite.
Deram a isso o nome de rede de modo padrão — e ela consome sozinha cerca de 20%
de toda a energia do corpo, mesmo quando você acha que não está fazendo nada.
Fico
brincando com esse número. Duzentos mil anos de Homo sapiens, e gastar um
quinto das calorias do dia remoendo cenas do passado deveria ser, para qualquer
engenheiro distraído da evolução, um defeito de fábrica. Um ancestral nosso,
remoendo o desentendimento com o líder do bando a três luas de distância, vira
almoço fácil de qualquer predador. E no entanto a coisa não só sobreviveu —
virou a espinha dorsal de como pensamos.
Gosto
de imaginar o motivo lá atrás, uns três milhões de anos, quando os antepassados
começaram a viver em grupos cada vez mais complexos. Para um bicho puramente
físico, a dor de um corte avisa do dano no corpo. Mas para um bicho social — e
o ser humano pré-histórico era, acima de tudo, isso —, a dor da rejeição devia
ser sentença de morte de verdade. Ser expulso da tribo, há cem mil anos, era
enfrentar sozinho o inverno e as feras. O cérebro deve ter aprendido, então,
que errar socialmente era tão perigoso quanto veneno ou garra — e criado uma
ferramenta bruta: simulação mental e dor retrospectiva.
É
como se a mente carregasse a caixa-preta de um avião que caiu. Depois do
acidente, a única forma de não repetir o erro é ouvir a gravação inteira,
dezenas de vezes, até achar onde o piloto errou. Só que o cérebro parece não
distinguir muito bem uma ameaça de vida ou morte de uma conversa constrangedora
numa reunião de trabalho. Para o sistema nervoso, os dois eventos parecem
disparar os mesmos circuitos de medo e vergonha.
Tem
um estudo de 2003, do psicólogo Matthew Lieberman com Naomi Eisenberger, na
UCLA, que é esclarecedor nesse sentido: a dor social e a dor física ativariam a
mesma região do cérebro. Se for isso mesmo, lembrar de algo constrangedor de
cinco anos atrás não é figura de linguagem — é biologia acontecendo agora,
cortisol na corrente sanguínea, ritmo cardíaco alterado, músculo contraindo. Você
sentiria, de verdade, o impacto físico do passado no corpo presente.
Pareceria
uma máquina perfeita de sobrevivência primitiva — até a gente notar o possível
erro de código no mundo de hoje. Fomos calibrados, ao que tudo indica, para
viver em grupos de trinta a cento e cinquenta pessoas, o tal número de Dunbar.
Nesse
mundo pequeno, as interações diárias eram poucas e previsíveis. Errava-se, e
havia uma vida inteira, entre os mesmos rostos conhecidos, para reconstruir a
reputação.
Hoje
processamos, imagino, numa única semana, mais interações, mensagens e
julgamentos do que um ser humano da Idade da Pedra levaria décadas inteiras. E
fico pensando se não é isso: o cérebro antigo rodando o mesmo software de
análise de risco, só que agora num mundo hiperconectado para o qual nunca foi
desenhado.
E
aí o pensamento quer ir mais longe, sem pedir licença à ciência: e se não for
só isso? Se, mesmo sem ainda ter sido percebido, nosso cérebro já estiver
sofrendo pequenas mutações, talvez no software, pela epigenética, que estão nos
impulsionando a uma nova configuração de humanos? Será que estamos no correr
desse processo e daí decorra essa pandemia de neurodivergências, transtornos de
personalidade e outros problemas mentais e cognitivos pelos quais a humanidade
parece estar passando?
Mas
voltando ao que já foi visto: o cérebro parece acreditar, de verdade, que
reprisar o episódio pela milésima vez está protegendo o seu futuro.
Só
que, ao contrário de uma perícia técnica, a ruminação não parece entregar
solução nenhuma. Entrega um ciclo fechado de autocrítica que se alimenta da
própria ansiedade — e há quem tenha dedicado a carreira inteira para provar
isso, como a psicóloga Susan Nolen-Hoeksema: ruminar sobre o passado não
resolveria problema algum, e ainda comprometeria a capacidade de decidir bem no
presente.
Há
uma ironia nisso que não canso de mastigar. Construímos cidades, dominamos a
eletricidade, inventamos a medicina, erguemos redes para nos proteger das
incertezas da natureza. Eliminamos quase todo predador do planeta e garantimos
teto e comida para bilhões. E, ao blindar o corpo dos perigos da floresta,
talvez tenhamos deixado o cérebro trancado na sala de simulação, sozinho com
seus próprios fantasmas — agora digitais.
Não
deve ser mal só do nosso século. Sócrates já alertava, antes de Cristo, sobre
os riscos da vida não examinada — só não deve ter previsto o peso de uma mente
que examina demais o próprio passado.
Penso
que essa máquina do tempo biológica que chamamos de memória foi feita para nos
manter vivos. Reviver o que já passou não seria sinal de fraqueza nem de cabeça
quebrada — seria só o cérebro executando, com uma fidelidade impressionante, um
protocolo antigo de proteção social, o mesmo que atravessou eras de escuridão e
fome.
O
problema é que o alarme continua tocando, mesmo com a tempestade lá fora já
tendo passado — como se o corpo não tivesse recebido o aviso de que a guerra
acabou.
Talvez
a pergunta não seja como desligar essa máquina — porque, enquanto formos
humanos, o mecanismo deve continuar ligado. A pergunta, essa sim gosto de
deixar no ar, é por quanto tempo mais vamos permitir que o corpo pague a conta
de guerras que já terminaram há anos.
Porque, no fim, o passado só existe na energia que gastamos para mantê-lo vivo agora. E lá fora — hoje, com chuva e frio — a vida continua acontecendo. No único segundo que realmente nos resta.
Edmir Saint-Clair
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