ORIENTADOR LITERÁRIO

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DIRIGIR A SI MESMO

             Vivemos num mundo saturado de estímulos. Reagimos sem perceber, quase no automático, e confundimos movimento com direção. Mas o verdadeiro poder, a liberdade genuína, nasce de uma habilidade rara: influenciar a si mesmo. Nasce do nosso desejo de desenvolvermos o nosso poder de decidir nossas ações e de influenciar nossas reações.

 O autoconhecimento é essa bússola interna. Ele revela o que nos move e o que nos paralisa; mostra, com uma clareza incômoda, as forças invisíveis que nos impulsionam ou nos freiam. Compreender nossas reações é um ato de protagonismo. Não se trata de reprimir sentimentos — eles são parte da nossa natureza — mas de interpretá-los, compreendê-los e canalizá-los de forma inteligente e consciente.

    A neurociência já provou que pequenas ações, se repetidos com consistência, são capazes de redesenhar conexões cerebrais e criar novas rotas emocionais. É assim que nos tornamos programadores da própria psiquê.

Uma dessas transmutações é, para mim, um exercício diário: transformar ansiedade em animação. Não é metáfora — é fisiologia. Ansiedade e entusiasmo são irmãs quase gêmeas: ambas aceleram o coração, elevam a energia, inflamam o sistema nervoso. A diferença está na lente com que olhamos para essa energia. E isso faz toda a diferença na vida prática. 

Com treino e intenção, a troca de percepção se torna instantânea. O que antes ameaçava me paralisar, agora se converte em combustível criativo e desempenho afiado. Vira uma vontade forte que realizar.

 O resultado é: energia reorganizada, foco ampliado e a sensação concreta de estar no controle do que me é possível. Essa é a maestria de dirigir a si mesmo — uma jornada contínua, sustentada pela vontade pró ativa de realizar a vida com determinação e sentido.

    Para mim, o livre arbítrio é um software que não vem instalado de nascença em nosso cérebro. Cabe a nós desenvolvê-lo através do conhecimento científico e do autoconhecimento.

Afinal, quem aprende a se conduzir jamais será conduzido pelos acasos da vida ou pela vontade dos outros.

 
Edmir Saint-Clair

CONVERSAS NECESSÁRIAS

"Tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Mas faltam-me as conversas que não tive."
(Adaptação livre inspirada em “Tabacaria” Álvaro de Campos)

Todos nós temos pendências emocionais e existenciais. Assuntos que nos incomodam muito e que, por isso mesmo, evitamos pensar e abordar.
Algumas dessas questões envolvem pessoas importantes e queridas em nossas vidas. Importantes demais para que as deixemos se perder de nós, e nós delas, sem que aconteça uma tentativa de esclarecimento que deixe, ao menos, a alma mais leve. Alguma atitude que nos permita dizer:
— Eu tentei de verdade.

Quantas vezes nos pegamos divagando numa conversa imaginária com aquela ex-companheira ou ex-companheiro com quem vivemos um grande amor, mas tivemos um final confuso e cheio de mal-entendidos. Ou a conversa com o parente muito próximo com quem tivemos conflitos nunca esclarecidos. Às vezes, nos afastamos de pessoas queridas por nunca termos tido a iniciativa de ter uma conversa que pudesse trazer luz àquele assunto pendente. Apenas para esclarecer, para clarear a questão e buscar um entendimento. Sem vencidos, nem vencedores.

A vida nunca foi uma competição.
A maioria de nós tem a tendência a ir acumulando pendências emocionais. Questões mal resolvidas, que foram varridas para debaixo do tapete. Situações espinhosas que nos causam um mal-estar interior, das quais não nos damos conta na maior parte do tempo, mas que brotam nos momentos mais improváveis e desagradáveis, sempre atrapalhando alguma coisa boa.

Isso quando não vêm à tona tarde demais — quando já não há mais nada a ser feito.
Muitas vezes, não é má vontade ou descaso. É medo. Medo de não sermos compreendidos, medo de nos sentirmos fracos ao nos expor. Há também o orgulho ferido, a vergonha de voltar atrás, ou a crença equivocada de que já é tarde demais. Cada um carrega suas barreiras internas, e é justamente por isso que a conversa necessária exige coragem. Coragem para se despir das defesas e estender a mão.

Situações que poderiam ter sido esclarecidas e não foram provocam mais que frustração — provocam distanciamento. E, por isso, se retroalimentam, criando distâncias que se tornam intransponíveis. Que permanecerão para sempre — como nódoas que mancham todo dia branco. Aquela pontinha de espinho que nunca deixa de incomodar.

Uma coisa é certa: não adianta tentar tocar em frente uma relação que sofre com pendências. Não adianta tentar varrer para debaixo do tapete. Porque, na vida, não tem tapete — e o chão é sempre bem duro. E não tem embaixo, nem em cima. É tudo a mesma vida, uma coisa só. E uma só vez. Não tem reprise, não tem segunda chance.

Não podemos deixar tudo a cargo do tempo. Essas conversas necessárias precisam acontecer, antes que se transformem naquelas dores nas costas que nos paralisam sob o peso invisível do que não foi dito. Temos que correr atrás, agir para esclarecer nossos mal-entendidos com as pessoas queridas. Não podemos deixar algo tão importante por conta do acaso. É muito arriscado. A vida é uma só. O tempo passa sem parar, nem por um segundo, e, se deixarmos por conta dele, as distâncias podem se alongar até que a possibilidade de volta não exista mais. Não existe relação, em nenhum nível, que não possa ser estragada pela falta de esclarecimentos mútuos sobre assuntos mal resolvidos.

A mágoa deixa marcas, nódoas, cria barreiras e distâncias que o tempo não resolve — ao contrário, só alimenta. Esclarecer pendências com as pessoas queridas é necessário. O orgulho tolo — ou a infantilidade de querer ter razão — é uma escolha pouco inteligente e profundamente prejudicial. Uma conversa sincera, onde a única intenção seja o entendimento mútuo, é o único caminho para que a distância definitiva não se estabeleça.

Poder ver, através do olhar de quem amamos, a nossa versão mais bonita é um dos momentos mais sublimes e felizes que podemos experimentar na vida. Sentir que somos amados por quem amamos é ser feliz.

Reduzir essa possibilidade, ao se afastar de pessoas queridas, é abrir mão de uma parte imensa da felicidade que ainda nos será possível viver. Definitivamente, varrer pendências sentimentais com pessoas que nos são caras para debaixo de um tapete que não existe é um erro que pode nos custar muito caro.
Pode nos custar quem amamos.

PARALISIA EXISTENCIAL


  “Só existe um jeito de ser feliz. É ser feliz do seu jeito. ” Edmir St-Clair

 Há períodos em que nos vemos tomados por uma espécie de paralisia existencial. Agoniante e insuportável. Um estado em que a vastidão de possibilidades da vida, em vez de inspirar, parece esmagar, e a liberdade de escolha se converte no peso da responsabilidade por cada caminho não seguido.

É como naquela brincadeira de criança em que, de repente, alguém grita “estátua” — e todos congelam na posição exata em que estão. Ninguém se mexe. A gente pensa, mexe os olhos, respira — mas não pode se mover, senão perde o jogo.

São muitas ideias, muitos projetos — e uma falta total de ação. Um turbilhão interno de vontades e planos que não encontra a ponte para a concretização no mundo.

Uma impossibilidade física de produzir, mesmo com toda a matéria-prima pronta, organizada na cabeça e energia saindo pelo ladrão. É como ter o mapa do tesouro, a bússola e a pá, mas sentir os pés cravados no chão, incapazes de dar o primeiro passo. A roda do carro roda, mas não consegue sair do atoleiro. Falta aquele clique que põe tudo em movimento. Mas não clicamos. Adiamos. Procrastinamos, não por preguiça, mas talvez por um temor profundo do que o movimento pode desencadear: o medo do erro, do julgamento, ou mesmo da transformação que a ação inevitavelmente traz. Não dá trabalho algum, mas não clicamos.

Não agimos. Não fazemos o que precisamos — nem o que queremos fazer. E cada não-ação alimenta um ciclo de frustração e autoquestionamento. A ansiedade aumenta, o bolo no peito sufoca, porque falta-nos a ação. A energia represada, que deveria fluir para produzir e realizar, volta-se contra nós, gerando um mal-estar crescente. Como se o nosso corpo não obedecesse ao comando. Uma desconexão entre o querer da mente e o poder do corpo, uma cisão que nos deixa reféns de nós mesmos.

É como se estivéssemos conscientes dentro de um corpo em greve. A mente anseia por agir, criar, mudar — mas os músculos, os gestos e as decisões permanecem inertes, como se algo dentro de nós tivesse puxado o freio de mão da existência. Uma agonia perturbadora, que pode chegar a extremos. A sensação de estar vivo, mas não estar vivendo plenamente, pode ser uma das dores mais sutis e, ao mesmo tempo, mais lancinantes da experiência humana.

Mais do que a cobrança do mercado de trabalho, temos a nossa própria cobrança interna — frequentemente ainda mais cruel. Um tribunal íntimo que julga cada hesitação, cada adiamento, com uma severidade que raramente aplicaríamos aos outros.

Esse compromisso compulsório com algo que nem sabemos direito o que é, mas que está presente o tempo inteiro, diariamente, em todos os campos de atuação, nos fazendo adoecer e causando, muitas vezes, distúrbios incapacitantes. A ansiedade paralisante é apenas uma delas. É a internalização de um ritmo frenético que não respeita nossos ciclos internos, nossas necessidades de pausa e reflexão.

O burnout, uma síndrome que já ultrapassou os limites das corporações e se espalha por todas as esferas da vida moderna, é o colapso emocional anunciado de uma mente exaurida. Um sinal de que os recursos internos se esgotaram diante de uma demanda incessante por performance.

O número de casos cresce de forma assustadora, alcançando adolescentes e profissionais das áreas mais diversas. Isso nos alerta para a urgência de repensar os valores que sustentam nosso modo de vida social.

O burnout, esse esgotamento generalizado, é um grito abafado de um indivíduo acuado diante de um sistema que exige produtividade ininterrupta, mas nega tempo, acolhimento e sentido. Um sistema que valoriza mais o ter e o fazer do que o ser e o sentir. Gera uma inquietação constante e silenciosa, que acumula sentimentos negativos sobre si mesmo — e subtrai porções significativas de nossa qualidade de vida e saúde. É um desgaste que corrói a autoestima e a alegria de viver. Não existe um motivo evidente que, por si só, justifique o estado permanente de tensão. Mas ele está lá, atrapalhando, incomodando e, às vezes, paralisando. Muitas vezes, essa tensão é o eco de expectativas não realistas, de comparações infindáveis ou de uma busca por uma perfeição inatingível.

Alguns dizem que é medo do sucesso; outros, que é medo do fracasso. Ambos os medos, no fundo, podem ser faces da mesma moeda: o receio de se expor, de ser vulnerável, de não corresponder ao que se espera ou ao que se autoimpõe.

E, por aí, se desenvolvem milhares de teorias que vendem como água no deserto, sob a forma de literatura de autoajuda. Soluções rápidas para dores complexas — que raramente tocam a raiz do problema: a forma como nos relacionamos conosco e com o mundo. O compromisso com o desempenho — imposto por todos os lados, reais e virtuais — é uma engrenagem cruel, que pode nos empurrar para uma vida pesada, ansiosa e exaustiva. Uma corrida sem fim por metas externas que nos distanciam de nossos propósitos mais íntimos.

Precisamos deixar de lado essa cobrança desumana que a “sociedade” — essa entidade fantasmagórica que age nas sombras dos nossos próprios pensamentos e que, muitas vezes, somos nós mesmos a alimentar — nos impõe.

Quanto menor nosso autoconhecimento, maior será essa influência negativa, manifestando-se nas várias formas desse transtorno paralisante. Sem uma bússola interna bem calibrada, ficamos mais vulneráveis às tempestades externas. E, com isso, a ansiedade pode chegar a níveis literalmente insuportáveis. Às vezes, até respirar fica difícil — como se o corpo, em sua sabedoria, manifestasse o sufocamento da alma.

Quanto maiores nosso autoconhecimento, nossa autoestima, as ferramentas psicológicas aprendidas e nossa rede de apoio humano — construída sobre laços de confiança e afeto genuíno —, menor será a influência desse condicionamento social cruel e determinante. É o cultivo de um jardim interno que nos fortalece e nos permite florescer, apesar das intempéries.

Cada indivíduo tem sua originalidade única, capilarizada por todo o seu ser físico e psíquico, gerando reações igualmente originais e únicas. Essa singularidade é nossa maior riqueza e merece ser compreendida e respeitada, não moldada a padrões externos.

Cada um tem seu jeito de compreender e de agir diante dos trilhões de eventos que se sucedem em nossas vidas. E cada jeito é uma expressão válida da experiência humana, com seus próprios tempos e ritmos.

Isso deixa claro que não só é impossível prever, como é mais difícil ainda padronizar, regrar e arbitrar sobre qualquer aspecto que envolva a natureza humana. Tentar encaixar a complexidade da vida em fórmulas rígidas é uma violência contra a própria essência do ser.

O indivíduo padrão simplesmente não existe. Não é humano, não é possível.

É uma criação cruel e fantasmagórica da mente humana. 

Um ideal inatingível que gera sofrimento e nos afasta de nossa essência verdadeira. Insistir em nos moldar a esse ideal é negar nossa essência, nossa originalidade. É viver como um rascunho de si mesmo, sempre em dívida com um modelo de um ser idealizado, que não existe.

A saída não é encontrar um caminho certo, porque não existe caminho certo — mas voltar a ouvir a própria voz. Aquela que, mesmo abafada, ainda sussurra dentro de você:

— Ei! ainda estou aqui.

 Edmir Saint-Clair


A ETERNIDADE DE CADA UM

 

“No fim, somos quem acreditamos ser.”

— Edmir Saint-Clair

Todos os dias, ao adormecer, cruzamos uma fronteira invisível entre o real e o imaginário — onde o tempo obedece a outras regras. Geralmente, a transpomos em milionésimos de segundos — um átimo entre estar desperto e adormecido. Uma região no limiar entre a vigília e o sono, outra dimensão, onde nossa consciência se altera; onde não há tempo, há apenas a eternidade. Uma distorção diária da lógica temporal.

Essa experiência cotidiana nos oferece um vislumbre do que proponho como hipótese central deste ensaio: e se, nos momentos finais da vida, nossa mente for capaz de criar sua própria eternidade? Uma realidade subjetiva onde o tempo, liberto das amarras físicas, se dilata até o infinito, permitindo que cada consciência vivencie uma eternidade moldada por suas crenças mais profundas. Esta é a jornada reflexiva que convido você a percorrer — uma investigação sobre como a mente humana, em seu último ato de criação, pode transcender os limites convencionais do tempo e da realidade.

Aquela sensação de estar caindo e despertar no susto é resultado de permanecer tempo demais nesse estado intermediário. É a presença densa de algo que nos puxa de volta e nos faz acordar como se tivéssemos nos perdido pelo caminho.

O sonho com quem já partiu é mais do que sonho: é um reencontro sem tempo, capaz de provocar uma emoção sentida no corpo físico.

A mente humana cria realidades com tal precisão que não podemos afirmar se o mundo como cada um de nós o percebe é real ou apenas uma construção moldada por crenças, memórias e por fatores individuais e imponderáveis.  Isso se torna evidente em fenômenos como alucinações em que pacientes com síndrome de Charles Bonnet podem ver padrões e figuras complexas que não existem; ou em experimentos de privação sensorial, onde após poucas horas em tanques de isolamento, voluntários começam a criar experiências sensoriais completas sem estímulos externos. Talvez o mundo seja apenas uma versão pessoal — moldada pelo conjunto de crenças de cada um. E é bem possível que seja exatamente assim.

É justamente esta extraordinária capacidade da mente de construir realidades alternativas que fundamenta minha teoria sobre os momentos finais da consciência, que propõe enfrentar o tema com a mente aberta. Essa hipótese parte do pressuposto de que a mente cria sua própria realidade — portanto, ela pode criar seu próprio infinito, sua própria eternidade, já que é capaz de criar um tempo próprio.

Nos sonhos, o tempo se comporta de maneira radicalmente distinta da realidade desperta. Sagas inteiras podem ser vividas em poucos minutos. Distâncias geográficas são transpostas sem qualquer lógica física — tudo isso com a nitidez de quem realmente está vivendo aquele universo surreal naquele momento. Essa vivência do tempo subjetivo indica que a mente, em estados alterados, escapa às leis convencionais da temporalidade.

Durante o sono REM, o cérebro cria narrativas não lineares, condensando experiências inteiras em períodos muito breves de tempo real. Esse fenômeno encontra eco na teoria da relatividade de Einstein, que afirma: o tempo não é absoluto, mas relativo ao observador. Dois relógios idênticos, expostos a campos gravitacionais ou velocidades diferentes, marcarão tempos distintos.

Um exemplo notável dessa dilatação temporal aparece no filme Interestelar (2014), em que astronautas visitam um planeta próximo a um buraco negro supermassivo: uma hora ali equivale a sete anos na Terra. A ciência por trás do roteiro, supervisionada pelo físico Kip Thorne, demonstra como o tempo pode ser drasticamente alterado por diferentes contextos físicos. Esta representação cinematográfica não é apenas um exercício de ficção científica, mas uma metáfora poderosa para compreendermos o que pode ocorrer em nossa própria mente nos momentos finais: assim como a gravidade extrema distorce o tempo físico próximo ao buraco negro, as condições neurológicas únicas do cérebro em seus últimos instantes de atividade podem criar uma dilatação subjetiva do tempo, transformando segundos objetivos em uma experiência de eternidade para a consciência que a vivencia.

Sob estresse extremo — como em acidentes graves ou experiências de quase-morte — o cérebro entra em estado de hiperprocessamento, e o tempo, sob a ótica do paciente, desacelera drasticamente. Segundos ganham densidade e podem ser percebidos como longos minutos.

Tudo isso sugere que o tempo, quando entregue exclusivamente ao nosso cérebro e sem referenciais externos, pode ser remodelado — e, nos instantes finais, talvez seja dilatado até se assemelhar a algo como uma eternidade subjetiva. Que só exista dentro da gente.

Há quem afirme que estados alterados de consciência possam acontecer com pessoas que conseguem permanecer nesse espaço entre estados de realidade, onde os contornos do tempo e do eu já não são claros. Nessa outra dimensão onde não existe tempo como o conhecemos. Onde a mente é o último resquício da vida. Onde as conexões neurais criam realidades alternativas.

Se a mente é capaz de gerar uma ilusão tão real a ponto de transgredir a noção de tempo, não seria improvável que pudesse criar sua própria eternidade. Estudos científicos recentes indicam que o cérebro humano pode continuar ativo por um tempo significativo após a morte clínica. Em um caso documentado pela Universidade de Western Ontário, no Canadá, foi detectada atividade cerebral persistente por cerca de dez minutos após a declaração oficial de morte. Nesse intervalo, foram registradas ondas delta — as mesmas que ocorrem durante o sono profundo.

É possível que, sem o apoio dos cinco sentidos e liberta de estímulos externos, a mente proceda uma distorção daqueles últimos dez minutos, transformando-os em uma experiência de “tempo sem fim” — onde suas projeções mais profundas possam, ao menos subjetivamente, parecer absolutamente reais. Trata-se de uma hipótese coerente com o que já sabemos sobre a percepção temporal em estados alterados de consciência.

Estudos sobre experiências de quase-morte (EQMs) revelam que pacientes frequentemente relatam uma “revisão da história de vida” — na qual assistem às próprias cenas, revivem acontecimentos e até os experimentam sob a perspectiva de outras pessoas envolvidas. Essa revisão, que parece abranger uma vida inteira, ocorre em frações mínimas de tempo real. Em pesquisa da Universidade de São Paulo com 350 brasileiros, 51% dos que estiveram em risco de morte relataram EQMs, muitas vezes com intensa distorção da percepção temporal.

Alguns estudos sugerem que, pouco antes da morte, o cérebro entra em um estado de hiperconectividade, onde redes neurais relacionadas à memória e à consciência ficam extremamente ativas. Nesse momento, circuitos neurais que normalmente funcionam de forma isolada começam a interagir de maneiras incomuns, gerando experiências mentais únicas — muitas delas ainda pouco entendidas pela ciência — nas quais a percepção do tempo pode mudar bastante.

 Quando estamos privados de estímulos externos e focados apenas nas nossas experiências internas, é possível que o cérebro vivencie seus últimos minutos como um tempo subjetivamente expandido. Talvez, nesse momento, a pessoa experimente uma espécie de eternidade pessoal, algo único e totalmente particular.

Se, em sua mente, você for fiel ao que acredita — de acordo com suas crenças mais profundas — ela moldará sua eternidade com base nessa visão íntima de si mesmo. Esse será o seu julgamento final — e o juiz será você.

O que mais me encanta nesta hipótese é sua capacidade de acolher a todos. Não importa se a mente for moldada por fé religiosa, por tradições culturais, por dúvidas agnósticas ou pelo ceticismo ateu — todas as crenças encontram nela um lugar legítimo. É uma hipótese inclusiva por essência: cada um viverá a eternidade que foi capaz de imaginar.

Com base nos fenômenos neurológicos pesquisados, proponho a hipótese filosófica de que, se acreditar verdadeiramente que reencontrará um ente querido após a morte, sua mente poderá criar essa experiência subjetiva nos momentos finais de atividade cerebral. E você os reencontrará.

Por isso, é sensato cuidarmos de nossas mentes — das percepções que cultivamos e da autoestima que nos sustenta. É ela quem irá moldar nosso inferno ou nosso paraíso, onde viveremos essa última etapa: a experiência final. O que a mente acredita, as crenças mais enraizadas sobre si mesmo, a forma como avaliamos nossas próprias atitudes ao longo da vida e a coerência com que nos conduzimos pelos diversos aspectos da existência — tudo isso será a matéria-prima da eternidade que cada um experimentará.

Preparar a mente para que, no instante decisivo, ela seja capaz de criar uma realidade subjetiva — íntima, pessoal e intransferível — que nos revele a visão do nosso paraíso ideal talvez seja o mais profundo dos desafios humanos. Esse ‘trabalho’ diário e incansável para nos tornarmos seres humanos melhores, por fim, poderá ser recompensado. Por nós mesmos.

No último momento de vida, será nossa mente que construirá a eternidade que cada um criou para si. Esta hipótese, além de oferecer uma perspectiva sobre os momentos finais da consciência, carrega profundas implicações para como vivemos hoje. Se existir uma experiência post mortem subjetiva, ela será moldada por nossas crenças mais enraizadas e pela forma como avaliamos nossas próprias ações, então cada escolha cotidiana ganha uma dimensão transcendente.

Viver com autenticidade e integridade não seria apenas uma questão de ética social ou realização pessoal, mas um investimento na qualidade da nossa própria eternidade subjetiva. A empatia que demonstramos, as conexões verdadeiras e profundas que estabelecemos, e a honestidade com que enfrentamos nossas falhas – tudo isso está tecendo, fio a fio, o tecido da realidade que iremos viver em nossos momentos finais.

Esta perspectiva representa uma profunda revolução existencial: o julgamento que historicamente sempre veio "de fora" – de deuses, instituições ou da sociedade – passa a ser realizado pelo próprio indivíduo que, para si mesmo, é onipresente e onisciente. Somos, simultaneamente, réus e juízes de nossa própria existência, com acesso privilegiado não apenas aos nossos atos, mas às intenções e circunstâncias que os motivaram.

Esta forma de conceber nossos momentos finais nos convida a viver nosso dia a dia de maneira mais responsável, consciente e plena, e a cultivar tanto a paz interior quanto exterior, assim como a autoaceitação. E se transforma não somente num caminho para uma vida mais significativa, mas numa preparação para a eternidade subjetiva de cada um.

 Se o juiz final de nossas ações seremos nós mesmos, talvez, o verdadeiro desafio não será temer um julgamento externo, mas viver de maneira verdadeiramente digna aos nossos próprios olhos, para que possamos, no final, rever nossa história e encontrar nela nossa essência e motivos para termos orgulho da vida que construímos.

A eternidade de cada um começa muito antes do momento final - ela se constrói em cada instante de consciência, em cada escolha, em cada ato de amor e empatia. E talvez esta seja a sabedoria mais profunda que podemos tirar de tal hipótese: a eternidade não será somente um destino duvidoso, será a hora de cada um colher o que plantou dentro de si mesmo. 

 Edmir Saint-Clair

Este texto é parte do livro Conversas Necessárias, 2025, Edmir Saint-Clair. 

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BIBLIOGRAFIA

 Estas são as referências (pesquisas, estudos e obras) nas quais minha teoria está ancorada. Abrangem estudos sobre experiências de quase-morte, percepção temporal distorcida, atividade cerebral nos momentos finais, estados de sonho REM e conceitos de física relacionados à relatividade do tempo.

1. Greyson, B. (2007). Experiências de quase-morte: implicações clínicas. Archives of Clinical Psychiatry (São Paulo), 34(supl 1), 116-125.

2. Carunchio, B. F. (2024). Experiências de quase morte (EQM) traumáticas: consequências psicológicas e ruptura de certezas existenciais. Revista Rever, PUC-SP.

3. van Lommel, P., van Wees, R., Meyers, V., & Elfferich, I. (2001). Near-death experience in survivors of cardiac arrest: a prospective study in the Netherlands. The Lancet, 358(9298), 2039-2045.

4. Parnia, S., Waller, D. G., Yeates, R., & Fenwick, P. (2001). A qualitative and quantitative study of the incidence, features and aetiology of near death experiences in cardiac arrest survivors. Resuscitation, 48(2), 149-156.

5. Thorne, K. S. (2014). The Science of Interstellar. W. W. Norton & Company.

6. Eagleman, D. (2008). Human time perception and its illusions. Current Opinion in Neurobiology, 18(2), 131-136.

7. Arstila, V. (2012). Time slows down during accidents. Frontiers in Psychology, 3, 196.

8. Borjigin, J., Lee, U., Liu, T., Pal, D., Huff, S., Klarr, D., ... & Mashour, G. A. (2013). Surge of neurophysiological coherence and connectivity in the dying brain. Proceedings of the National Academy of Sciences, 110(35), 14432-14437.

9. Norton, L., Gibson, R. M., Gofton, T., Benson, C., Dhanani, S., Shemie, S. D., ... & Young, G. B. (2017). Electroencephalographic recordings during withdrawal of life-sustaining therapy until 30 minutes after declaration of death. Canadian Journal of Neurological Sciences, 44(2), 139-145.

10. Hobson, J. A., & Pace-Schott, E. F. (2002). The cognitive neuroscience of sleep: neuronal systems, consciousness and learning. Nature Reviews Neuroscience, 3(9), 679-693.

 

PLIMPTOM 322 - O ENIGMA DE MILÊNIOS

    Na penumbra controlada de uma sala de museu, repousa uma pequena placa de argila. À primeira vista, nada mais que um fragmento gasto pelo tempo, coberto de símbolos cuneiformes gravados como cicatrizes antigas. Mas basta um olhar atento para perceber: aqueles sinais não são meros vestígios do acaso — são números. E números, quando se alinham com precisão, contam histórias que o tempo não conseguiu apagar.

Chamam-na Plimpton 322. Veio da Babilônia, há quase quatro milênios. Um artefato discreto, que passou despercebido em estantes universitárias até que olhos modernos ousaram decifrá-la. O que parecia uma lista de exercícios revelou-se uma sequência perfeita de relações pitagóricas — mil anos antes de Pitágoras.

É como se uma mente invisível, oculta sob o pó da Mesopotâmia, tivesse deixado um código. Um eco remoto de um conhecimento que não evolui em linha reta, mas em pulsos: desaparece, ressurge, se transforma. O protagonista que se debruça sobre aquelas colunas não encara apenas uma peça de argila — encara uma fenda no tempo, uma rachadura por onde escapa a suspeita perturbadora:
E se a nossa civilização fosse apenas o eco adormecido de um conhecimento antigo, soterrado sob as incontáveis camadas das passagens das eras?


A PLACA QUE NÃO DEVERIA EXISTIR

À primeira vista, nada nela chama atenção: apenas um fragmento de argila, quebrado nos cantos, coberto por fileiras de símbolos que parecem riscos sem sentido. Por décadas, permaneceu esquecida numa prateleira da biblioteca da Universidade Columbia, em Nova York — parte da coleção do bibliófilo George Arthur Plimpton, que lhe daria o nome sem imaginar a dimensão do que havia guardado.

Até que alguém notou o impossível. Aquelas marcas não eram rabiscos — eram números, dispostos com rigor. Seguiam uma ordem precisa, geométrica, impossível de ser acidental. Cada sequência revelava triângulos retângulos perfeitos, relações exatas entre lados e hipotenusas — mil anos antes de Pitágoras formular o que chamamos de Teorema.

Mas o que mais espanta não é a semelhança, e sim a diferença.
Os babilônios não usavam a base decimal, como nós, e sim o sistema sexagesimal (base 60) — o mesmo que sobrevive hoje na medição de ângulos e do tempo. Em vez de frações, utilizavam combinações de números inteiros. Isso significa que, na Plimpton 322, todas as relações pitagóricas aparecem sem restos, sem aproximações: proporções puras, exatas, elegantes.

Enquanto a trigonometria grega se apoiava em ângulos, a babilônica trabalhava com razões numéricas diretas — uma matemática funcional, voltada ao uso prático.
Não há indício de experimentação ou ensaio; o que vemos ali é o produto de um conhecimento já maduro, construído sobre tradições anteriores.

O autor daquela tábua não estava apenas calculando.
Estava registrando. E, talvez sem perceber, deixou no barro a prova de um domínio técnico que parecia impossível para o seu tempo — uma matemática nascida do pó, mas que ainda hoje se sustenta com a precisão de uma máquina.


A MATEMÁTICA DA PEDRA E DO BARRO

A Plimpton 322 não é apenas um objeto curioso. É uma ferramenta. Suas colunas registram proporções que serviam para dividir terras, projetar templos, escavar canais e erguer estruturas com precisão que ainda hoje surpreende engenheiros. Aqueles números não foram escritos para contemplação teórica — eram instrumentos de trabalho, aplicados a problemas concretos do cotidiano de uma civilização que compreendia, com exatidão intuitiva, a linguagem da forma e da medida.

O que mais intriga é a ausência de rascunho.
Não há hesitação, não há traço de tentativa ou erro. A placa não marca o nascimento de uma ciência, mas o auge de uma tradição matemática já amadurecida — o registro final de um conhecimento que vinha sendo aperfeiçoado por gerações.

É como abrir um manual de instruções sem prefácio, onde só resta o miolo do saber. Um vestígio de um sistema completo, cujas origens se perderam sob o pó das civilizações desaparecidas.

Essa constatação leva a uma pergunta inevitável: de onde veio esse domínio?
Terá sido uma criação isolada da Babilônia, ou o eco distante de algo ainda mais antigo, transmitido por vias que o tempo apagou?

Cada linha gravada na argila é uma senha para decifrar a lógica de um mundo desaparecido. Canais de irrigação alinhados como traços sobre a terra, muros que não se desviam um único grau, templos erguidos segundo proporções que continuam harmoniosas milênios depois. Tudo indica o domínio de uma geometria silenciosa, rigorosa, que não deveria existir naquela época — a matemática dos construtores do impossível.

E se esta tábua for apenas a ponta de um corpo de conhecimento que o planeta engoliu?
Se este fragmento sobreviveu por acaso, quantos outros se desfizeram antes mesmo de termos nomes para descrevê-los?


O SILÊNCIO DAS RUÍNAS

Se aquela pequena tábua chegou até nós, foi por puro acaso. Quantas outras, talvez mais completas, não se dissolveram em cinzas, soterradas por enchentes, incêndios ou pelos tremores que fizeram gigantescos pedaços de terra se abrirem, engolindo cidades inteiras e tudo o que nelas se pensou ou sonhou? O esquecimento não foi apenas humano — foi planetário.

Durante milhões de anos, asteroides colidiram com o planeta, alterando sua composição e atmosfera; movimentos tectônicos rasgaram a crosta da Terra, continentes se separaram, e o clima oscilou entre infernos vulcânicos e eras glaciais. O planeta inteiro reescreveu sua própria geografia, apagando as marcas do que veio antes. O que restou das antigas civilizações talvez esteja hoje submerso sob camadas de rocha, gelo e silêncio.

As enchentes do Eufrates, a erosão das margens, a fragilidade da argila diante da água e do fogo — tudo isso foi apenas a superfície visível de um esquecimento muito maior. Um esquecimento que não se mede em séculos, mas em eras.

E se tanto já se perdeu apenas por obra da natureza, imagine o que se extinguiu com o incêndio da Biblioteca de Alexandria, quando séculos de saber acumulado foram consumidos em poucos dias. O maior eclipse da memória humana.

O silêncio que se seguiu não é conspiratório. É geológico, cósmico, inevitável.
O que chamamos de História é apenas o que sobreviveu às catástrofes, o que o acaso poupou. São fragmentos dispersos, restos de um diálogo interrompido entre o homem e o conhecimento.

Durante séculos, arqueólogos e assiriólogos analisaram a tábua sem chegar a conclusões definitivas. Os cálculos eram complexos demais, e o padrão permanecia obscuro.
A situação começou a mudar apenas com o avanço das Inteligências Artificiais.
Com sua capacidade de processar milhões de combinações em segundos, os algoritmos compararam colunas, refizeram proporções e identificaram simetrias invisíveis ao raciocínio humano.

Foi assim que se comprovou o que antes era apenas hipótese: a Plimpton 322 não é uma lista de exercícios, mas um sistema matemático organizado, capaz de gerar triângulos retângulos perfeitos por meio de razões inteiras — algo que a matemática grega só alcançaria muito tempo depois.


O PESO DO ESQUECIMENTO

A redescoberta do conteúdo da Plimpton 322 não resolve o mistério. Apenas o amplia.
Saber que há mais de quatro mil anos já existia um sistema matemático avançado levanta mais perguntas do que respostas. De onde veio esse conhecimento? Como pôde surgir em uma época em que o mundo conhecido ainda tateava entre o mito e a observação empírica?

A explicação mais plausível continua sendo a mais simples: o desaparecimento é a regra, não a exceção.
Civilizações inteiras já foram apagadas por fatores que escapam ao controle humano — erupções, secas, terremotos, variações climáticas, guerras, quedas de asteroides com consequências cataclísmicas. Cada catástrofe reconfigura a história e redefine o que chamamos de “origem”. E isso sem contarmos a possibilidade da autodestruição — a mais sofisticada de todas as forças de aniquilação.

A Plimpton 322, nesse contexto, é menos um objeto arqueológico e mais um lembrete.
Ela mostra que o conhecimento humano é intermitente. Surge, floresce e desaparece, como se o próprio planeta se encarregasse de apagar seus rastros periodicamente. O que hoje chamamos de progresso talvez não seja uma linha ascendente, mas uma sucessão de retomadas — lampejos ocasionais de algo que a Terra insiste em soterrar. Como se, após cada quase extinção, os sobreviventes tivessem que começar tudo de novo.

Mesmo com toda a capacidade de cálculo da era digital, a verdade é que sabemos pouco sobre o que veio antes. O avanço tecnológico não dissolveu o enigma — apenas mudou o ponto de observação.
Agora somos nós que olhamos para o passado como quem observa ruínas através de uma lente de precisão, sem perceber que também seremos ruína.

O que a Plimpton 322 revela não é apenas a sofisticação dos antigos, mas a vulnerabilidade do próprio saber humano.
Tudo o que produzimos — nossos arquivos, bancos de dados, linguagens e máquinas — também depende da estabilidade da matéria, e esta, cedo ou tarde, cede.

No fim, talvez o verdadeiro ensinamento daquela tábua de argila seja este:
não há conhecimento definitivo.
Há apenas tentativas de registrar o que o tempo, invariavelmente, tratará de apagar.


ECOS DE CIVILIZAÇÕES ESQUECIDAS

A Plimpton 322 é apenas um fragmento — uma pista, não uma conclusão. Mas o que ela sugere é difícil de ignorar: a possibilidade de que o conhecimento humano tenha atravessado ciclos, desaparecido e renascido diversas vezes sob novas formas de sociedade.

Cada escavação arqueológica revela vestígios que parecem não se encaixar na linha cronológica oficial: instrumentos, estruturas, mapas ou registros cuja complexidade excede o que se esperava de seu período histórico. Essas anomalias não provam a existência de civilizações avançadas, mas tampouco permitem descartá-la.

A ciência trabalha com evidências, e o que falta são justamente elas — as provas materiais que o tempo se encarregou de destruir.
Se considerarmos os milhões de anos de atividade geológica e o número incontável de catástrofes que remodelaram a crosta terrestre, é racional admitir que boa parte do que existiu simplesmente não deixou rastros acessíveis.
Tudo o que conhecemos é o que restou em uma fina camada arqueológica — uma fração do passado que sobreviveu por acaso.

Em um planeta ativo e instável, a ideia de uma civilização anterior à nossa não é fantasia, mas estatística.
Basta observar a rapidez com que a própria humanidade moderna produz, expande-se e ameaça colapsar.
Se um evento global apagasse a atual infraestrutura — energia, dados, cidades —, em poucas dezenas de milhares de anos quase nada restaria. O que, sob a perspectiva de bilhões de anos, poderia ter acontecido milhares de vezes — sempre a partir do zero.

É plausível, portanto, imaginar que o mesmo possa ter ocorrido antes.
Talvez civilizações anteriores tenham alcançado patamares de conhecimento que não chegaram até nós.
Talvez o que chamamos de “avanço tecnológico” seja apenas o mais recente capítulo de um livro muito mais antigo, escrito e reescrito sob diferentes formas de existência.

A Plimpton 322, nesse cenário, deixa de ser uma curiosidade e passa a ser um vestígio — um eco remoto de uma mente humana que já compreendia, com impressionante clareza, princípios que acreditávamos modernos.

No fim, é possível que estejamos apenas redescobrindo o que já foi descoberto antes.
E que a verdadeira história da civilização não seja uma linha, mas uma espiral que gira sobre o mesmo ponto, a cada era, tentando se lembrar de quem foi.


O ENIGMA DE ARGILA

A Plimpton 322 é, em essência, um lembrete material de algo que o tempo tenta nos ensinar desde o início: o conhecimento não é cumulativo, é cíclico.
Cada geração acredita avançar, mas apenas recupera fragmentos de algo que o planeta já arquivou e apagou inúmeras vezes.

A tábua babilônica prova que a inteligência humana já foi capaz de formular conceitos matemáticos complexos em épocas em que isso parecia impossível.
Ela demonstra que o pensamento racional antecede o registro formal da história e que a mente humana, em qualquer era, tende a buscar padrões, ordem e previsibilidade — os mesmos impulsos que hoje orientam nossas tecnologias.

As Inteligências Artificiais e as novas tecnologias, com certeza, nos trarão muitas novidades em todas as áreas.
A Plimpton 322 é apenas uma pequena peça de um quebra-cabeças que, quem sabe, poderá nos apresentar novas descobertas sobre nossa verdadeira origem.

Edmir Saint-Clair



LIVRE-ARBÍTRIO — SIM, NÃO… OU TALVEZ?

        Os neurocientistas dizem que nossas decisões são tomadas milissegundos antes de acharmos que decidimos. Ou seja: o cérebro escolhe primeiro, e depois a gente inventa uma justificativa bonitinha para parecer autor da história. Livre-arbítrio ou marketing pessoal do córtex pré-frontal?

Os filósofos, por sua vez, se dividem entre os que acreditam que somos senhores do nosso destino e os que acham que estamos apenas cumprindo o roteiro de um universo irônico e com péssimo senso de humor.

Com certeza, o livre-arbítrio não é um botão "liga/desliga". Depende do pensamento, do trabalho do cérebro. Envolve genética pessoal, ambiente cultural e mais todas as crenças que formam um indivíduo.

Compartilho da desconfiança de que seja uma espécie de músculo da consciência, que a gente vai desenvolvendo — ou atrofiando — ao longo da vida. Um viés evolutivo que nos torna cada vez mais humanos.

Talvez, em vez de perguntar "existe ou não?", a pergunta mais importante deva ser:
Quanto você já conquistou de autonomia sobre si mesmo?

Porque todo mundo quer liberdade. Mas poucos topam pagar o preço: autoconhecimento, responsabilidade e aquele silêncio incômodo de quando você para de culpar o mundo e se depara com a responsabilidade sobre as próprias decisões.

Penso que, talvez, o livre-arbítrio não seja simplesmente um dom humano e, sim, uma possibilidade. Uma conquista árdua e gigante.

A resposta a essa pergunta tem consequências muito profundas — e bem mais determinantes do que podemos supor à primeira vista.

Edmir Saint-Clair