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VERDADE SEJA DITA

VERDADE SEJA DITA

 

     Basta cair no grupo da família um vídeo com uma luz estranha no céu: metade ri, metade jura que é disco voador, e quase ninguém pergunta o que aquilo é, afinal. Li outro dia uma reflexão do filósofo português Filipe Calhau, e foi dela que saiu este texto. Nela encontrei um nome para uma coisa que eu conhecia de vista havia muito tempo: o “desconforto intelectual”. É o incômodo que certos assuntos provocam quando ameaçam aquilo em que a gente acredita — e a vontade, quase física, de desconversar antes de ter que rever alguma coisa, ou de ser mal julgado só por ter tocado no tema.

Para pensar como seria a reação mais produtiva a esse incômodo, ele imagina uma figura que chama de “sujeito intelectual ideal”, nome que deu também a um de seus livros. Esse ser ideal seria alguém com coragem para enfrentar o medo do ridículo e da rejeição; com humildade para admitir a própria ignorância e, por conseguinte, assumir a priori a possibilidade de estar equivocado; com flexibilidade para rever o que pensava quando aparece uma explicação melhor; e com autoestima suficiente para não viver em função do que os outros vão pensar. Ninguém chega a ser esse sujeito, claro: é apenas um modelo de referência, não um retrato. Mas serve de régua para medir a distância que separa a gente, meros mortais, desse sujeito intelectual ideal.

Em 29 de maio de 1919, em Sobral, no interior do Ceará, o céu abriu pouco antes do eclipse total do Sol, e dois astrônomos britânicos conseguiram fotografar as estrelas ao redor do Sol encoberto — sorte que a outra equipe, mandada à ilha do Príncipe, na costa da África, não teve na mesma medida. Em novembro, numa sala lotada em Londres, sem Einstein e debaixo de um retrato de Newton, foi anunciado o que aquelas fotos, sobretudo as de Sobral, mostravam: a luz das estrelas se curvava ao passar perto do Sol, exatamente como Einstein tinha previsto. Em poucos dias, a notícia estava nos jornais do mundo inteiro.

Três anos depois, Einstein ganhou o Nobel de Física — pelo efeito fotoelétrico. Na carta que comunicava o prêmio, a Academia Real de Ciências da Suécia teve o cuidado de avisar que as teorias da relatividade e da gravitação não tinham sido levadas em conta, à espera de confirmação futura.

Não era gente ignorante. Eram algumas das cabeças mais preparadas do seu tempo. Mas preparo intelectual não é a mesma coisa que coragem intelectual. Dá para saber muito e ainda assim ter medo de admitir o que não sabe.

Não por acaso, o exemplo que Calhau escolhe é o mesmo do grupo da família: os avistamentos de OVNIs e os relatos de contato com extraterrestres. Achei a escolha perfeita. Poucos temas provocam um desconforto intelectual tão imediato, e ele cresce na medida da notabilidade de quem é chamado a opinar. Um anônimo especula à vontade na mesa do bar; um cientista respeitado sabe que basta tratar o assunto com seriedade, em público, para virar piada entre os colegas. Em 1919, o desconforto não saía do meio científico. Hoje, a chacota não fica entre os colegas: em poucas horas, está nos celulares do mundo inteiro.

    O ego é um sistema de sobrevivência, formatado geneticamente para gastar o mínimo de energia possível. Buscar a verdade custa tempo, custa atenção — e pode derrubar certezas que a gente levou anos para construir. O ego não gosta de ser contrariado, não gosta de ver a própria vaidade abalada, não gosta de admitir a própria precariedade. Prefere continuar funcionando como já funciona a enfrentar o trabalho de reorganizar tudo o que uma descoberta nova pode bagunçar dentro da gente.

Há três jeitos de reagir a esse desconforto. Tem gente que foge. Muda de assunto, troca de sala, finge que não ouviu. Tem gente que fica e discute, mas discute para vencer, não para entender — torce o argumento do outro até ele virar caricatura. E tem aquela pessoa raríssima que fica e escuta de verdade, mesmo sabendo que pode sair dali precisando reconstruir seus conceitos e saberes. Só ela chega perto do sujeito intelectual ideal.

Até nos meios mais intelectualizados, o segundo tipo é o mais comum. E ele tem uma versão pior, que eu desprezo profundamente: a desonestidade intelectual. A pessoa sabe que está errada e, mesmo assim, sustenta a discussão com qualquer artifício, para sair vencedora de uma briga que já perdeu para si mesma.

Porque admitir errar sobre uma ideia pequena custa pouco. Admitir errar sobre uma ideia que sustentava outras cinquenta, que organizava a carreira, o discurso, o lugar que a pessoa ocupa entre seus pares — isso tem um peso interno enorme. Isso mexe com quem a pessoa pensa que é e com a maneira como organiza seus princípios estruturais.

Eu reparo isso fora dos meios intelectuais também, no dia a dia comum. Gente inteligente, bem-lida, capaz de discutir qualquer assunto com desenvoltura, que trava justamente nos temas que mais importariam. Trava porque tem medo do que vão pensar dela. Trava porque discordar em voz alta parece, para algumas pessoas, mais perigoso do que estar errado em silêncio.

A autoestima entra aqui como uma espécie de escudo ao contrário: não serve para proteger do erro, serve para permitir que ele apareça. Quem não depende da aprovação alheia para se sentir inteiro pode errar em público sem desmoronar. Pode mudar de ideia sem que isso vire humilhação. É quase sempre o medo, e não a falta de inteligência, que mantém as pessoas presas a posições que elas mesmas já desconfiam estar erradas.

A verdade não pergunta se a gente está confortável antes de aparecer. E há uma divisão mais fina, sobre o que cada um quer quando ela chega. Dá para querer que ela seja falsa, porque assim tudo fica como estava. Dá para querer que seja verdadeira a qualquer custo, porque confirma o que a gente já pensava. Ou dá para querer saber, simplesmente, seja qual for a resposta.

Mas quase ninguém escolhe a terceira opção. E ela é a única que deixa a gente, aos poucos, mais perto da verdade.

Edmir Saint-Clair

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QUANDO A VIDA CANSA

QUANDO A VIDA CANSA

 

Por que estou tão cansado?

Vivemos numa época obcecada em medir o esgotamento. Há escalas, questionários, aplicativos que perguntam de um a dez como você dormiu. E, ainda assim, quanto mais medimos o cansaço, menos perguntamos de onde ele vem.

Tratamos esse cansaço como um recurso que se esgota: energia, bateria, saldo emocional. Recarrega-se com sono, férias ou um retiro de fim de semana numa fazenda sem sinal de internet. Na segunda-feira seguinte, porém, ele reaparece, quase intacto, como se nada tivesse acontecido.

Isso deveria nos dizer alguma coisa. Se o descanso não cura, talvez o problema nunca tenha sido a falta de descanso.

Existe uma diferença entre estar cansado e estar exausto que a linguagem cotidiana acabou apagando. O cansaço tem causa conhecida e fim previsível. Correu demais, dormiu pouco, trabalhou intensamente durante uma semana. Descansa, recupera-se e segue.

A exaustão persistente pertence a outra categoria. Ela não é apenas uma reação ao esforço. É, muitas vezes, o sintoma de um desalinhamento contínuo entre quem somos e a vida que estamos vivendo.

Mas talvez seja preciso cuidado com a expressão "vida errada". Ela pode sugerir que existe uma fórmula secreta para a vida correta, como se bastasse descobrir a escolha perfeita e segui-la. Não é disso que se trata.

Muitas vezes, a vida que nos cansa foi construída com boas intenções. Fizemos escolhas razoáveis, atendemos expectativas legítimas, buscamos segurança, amor, reconhecimento e estabilidade. O problema talvez não esteja nas escolhas que fizemos, mas no momento em que deixamos de perguntar se elas ainda fazem sentido para a pessoa que nos tornamos.

Viktor Frankl, psiquiatra austríaco que sobreviveu aos campos de concentração nazistas, escreveu que o ser humano suporta quase qualquer sofrimento desde que encontre sentido nele. A observação envelheceu bem. Talvez melhor do que gostaríamos.

Porque é exatamente isso que a exaustão contemporânea parece revelar: pessoas com trabalho estável, casa organizada, rotina previsível e um cansaço que nenhuma dessas conquistas consegue explicar.

O que nos destrói nem sempre é o peso que carregamos. Às vezes, é carregar um peso que já não reconhecemos como nosso. O esforço sustentado por um propósito transforma-se em dedicação. O mesmo esforço, quando perdeu o sentido, transforma-se em desgaste.

Um pai pode passar noites sem dormir cuidando de um filho doente e, mesmo exausto, encontrar uma razão para continuar. Um artista pode atravessar madrugadas trabalhando e sentir cansaço, mas existe uma ligação entre aquilo que faz e aquilo que é. A exaustão mais profunda surge quando gastamos energia tentando sustentar algo que, em algum lugar silencioso, já deixou de conversar conosco.

Talvez seja aquele homem que todos os domingos à noite sente uma pequena angústia sem nome porque a segunda-feira se aproxima. Ele não odeia necessariamente o trabalho. Não tem grandes motivos para reclamar. Sua vida parece correta aos olhos dos outros. Mas existe uma sensação difícil de explicar: a de estar repetindo uma existência que, aos poucos, deixou de fazer sentido.

A cultura terapêutica costuma responder a esse desconforto sempre da mesma maneira. Durma mais. Respire fundo. Pratique gratidão. Aprenda a dizer não. Delegue tarefas. Estabeleça limites.

Nada disso está necessariamente errado.

O problema é que muitas dessas respostas partem da mesma premissa: a de que a vida está correta e apenas a administração dela falhou.

Mas e se estivermos tentando otimizar uma vida que precisa ser repensada?

Se o problema fosse apenas falta de técnica, já o teríamos resolvido. Nunca houve tanta informação disponível sobre produtividade, saúde mental, qualidade do sono, alimentação, mindfulness e equilíbrio emocional. Apesar disso, nunca tanta gente pareceu atravessar os dias carregando um peso que nenhuma técnica consegue aliviar.

Talvez o cansaço que permanece depois de todas as estratégias não seja um defeito de gestão.

Talvez seja um recado.

Existe uma ideia cara ao existencialismo: a angústia não é uma doença. É o preço inevitável da liberdade. Só sente esse tipo de desconforto quem é capaz de perceber que a própria vida poderia ser diferente.

Vista por esse ângulo, a exaustão crônica ganha outro significado. Ela deixa de ser a fraqueza de quem não suportou a rotina e passa a ser a lucidez de quem, em algum lugar que o corpo percebe antes da consciência, compreendeu que está gastando os dias numa vida que já não lhe pertence.

E talvez esse sentimento se torne ainda mais forte com o passar dos anos.

Há um momento da vida em que o cansaço deixa de ser apenas físico. Depois de décadas cumprindo papéis, atendendo expectativas e tentando corresponder ao que o mundo espera de nós, surge uma pergunta que não é fácil de responder: quanto de mim ficou pelo caminho?

A ideia de que a única coisa permanente na existência é a mudança constante, é uma das raras unanimidades na história da filosofia. Por que, então, esperamos ser a exceção — a única coisa que deveria permanecer imutável a vida inteira?

O tempo tem uma característica curiosa. Ele não apenas acrescenta anos à nossa história. Ele também revela quais partes dela realmente eram nossas.

O tempo tem uma característica curiosa. Ele não apenas acrescenta anos à nossa história. Ele também revela quais partes dela realmente eram nossas.

Reconhecer que alguma coisa saiu do lugar, porém, não significa descobrir imediatamente onde está o lugar certo. Não existe mapa pronto. Nem a autoajuda, que muitas vezes vende certezas onde existe apenas busca, nem a filosofia, que sempre teve mais paciência para as perguntas do que para as respostas apressadas.

O que nos resta, então, não é uma solução pronta.

É honestidade.

Parar de tratar o próprio cansaço como um defeito a ser corrigido e começar a escutá-lo como uma linguagem. O corpo, às vezes, percebe antes da consciência aquilo que passamos anos tentando justificar com argumentos. A exaustão pode ser apenas o seu modo de dizer que alguma coisa importante saiu do lugar.

Talvez a pergunta não seja como descansar mais.

Talvez seja:

Por que a minha vida exige tanto esforço para continuar sendo vivida?

Porque há um tipo de fadiga que o sono resolve.

Há outro que só diminui quando temos coragem de abandonar uma existência que deixou de nos caber.

Nem sempre isso significa mudar de profissão, de cidade ou de relacionamento. Muitas vezes, a mudança começa muito antes, quando deixamos de entregar nossos dias a expectativas que nunca foram realmente nossas.

Talvez a exaustão não seja o fim da resistência.

Talvez seja o começo da autossinceridade que precisamos.

Edmir Saint-Clair

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PILOTO AUTOMÁTICO

PILOTO AUTOMÁTICO

“Adoramos achar que controlamos. Não interessa o quê — desde que sejamos nós no controle.” — Edmir Saint-Clair

 Você não tem culpa de nada. Absolutamente nada. Nem daquele palavrão solto no trânsito, nem daquele amor que naufragou do jeito mais desastrado possível.

A primeira reação a uma frase dessas é um misto de alívio e desconfiança. A gente não costuma perceber quando age no automático e quando age de caso pensado — e a diferença entre as duas coisas é bem menor do que gostamos de admitir.

Fomos criados sobre trilhos que alguém colocou muito antes de nascermos. Assumir a responsabilidade moral por cada mínimo gesto é o que se espera de todo mundo. Ninguém fala isso em voz alta, mas todo mundo entende: é sinal de maturidade, de caráter, de gente que presta. Como se algum ser humano tivesse mesmo a capacidade de fazer as coisas acontecerem seguindo uma receita de bolo, como se toda decisão fosse fruto de uma resolução consciente. A gente sabe que não é assim. Todos temos pilotos automáticos que assumem o comando sem pedir licença. No meio da rua, sem querer, de repente, nos pegamos fuzilando com o olhar alguém que só esbarrou na gente sem querer.

Gostamos de achar que estamos sempre no comando de nós mesmos. Adoramos achar que controlamos. Não interessa o quê — desde que sejamos nós no controle.

Por isso a gente bate no peito, em tom dramático, e diz: a culpa foi minha.

Tem uma vaidade inconfessável nessa frase. Um prazer quase sádico em se colocar no centro do universo. A culpa, no fim das contas, é talvez o maior celeiro de grandeza que a espécie humana já inventou para si mesma.

Pensa bem na prepotência dessa culpa.

Para você ser o grande vilão da própria história, o arquiteto do próprio fracasso, você precisaria ter o poder de parar o tempo, isolar a física, a química e a biologia do seu corpo, sair de dentro da sua própria história e dizer: eu, com minha mente soberana, escolho agora tomar a pior decisão possível.

Sério isso? Você acha mesmo que o cosmos estava prendendo a respiração à espera do seu movimento? Claro que não. É tão óbvio que chega a ser embaraçoso ter que dizer.

Ainda assim, tem uma indústria inteira vivendo de vender exatamente essa grandiosidade que o cosmos nunca ofereceu — e quanto maior a insignificância real, mais caro se paga pela ilusão do contrário.

Existe um gênero de livro — e você já leu um, ou fingiu que não precisava — que promete exatamente isso: o mapa da mina, o segredo, o método. A ideia vendida é sempre a mesma, só troca de embalagem: você é o arquiteto da sua realidade, você atrai o que pensa, você tem dentro de si o poder de reprogramar seus resultados. É uma proposta linda de se ouvir e, ao mesmo tempo, uma fraude com ares de ciência. Porque para vender esse controle, é preciso primeiro vender a culpa — e a culpa, nesse comércio, é só a entrada. Se você pode manifestar a riqueza, também pode ter manifestado a falência. Se pode atrair o amor, também atraiu o abandono. O produto e o problema vêm no mesmo pacote, e você paga pelos dois.

O curioso é que essa indústria constrói castelo sobre pressupostos sem qualquer embasamento empírico e, muito menos, qualquer tipo de seriedade de propósito.

Porque antes de perguntar se você controla seus atos, teria que se perguntar quem é, afinal, esse que pergunta. Esse você que observa e julga você mesmo. A consciência — essa sensação de estar aqui, de ser alguém por dentro, produzida por um punhado de neurônios disparando no escuro — é o maior mistério que existe. Não porque escape à matéria: ela é matéria, de ponta a ponta, tanto quanto uma pedra ou um rim. 

O mistério é que ainda não sabemos explicar como, exatamente, esse amontoado de células produz a sensação de ser alguém, nem por que produz sensação nenhuma em vez de escuridão pura. É sobre esse chão nebuloso, essa lacuna do conhecimento — não da natureza —, que o livre-arbítrio precisaria se apoiar para ser real. E é justamente aí que a autoajuda finge ter erguido um mapa. Vende certeza sobre o único território em que nem a ciência ousa afirmar qualquer coisa. Chamam isso de A Pergunta Difícil: o que é a consciência, aquele que me observa sendo eu mesmo, ao mesmo tempo?

O ser humano sempre gostou de se imaginar dotado de livre-arbítrio, o escritor do roteiro de sua própria vida. Talvez a gente seja pouco mais do que um figurante nervoso jogado num set sem roteiro — mas certamente bem menos do que o diretor que nossa vaidade insiste em bancar.

A ciência já sabe muita coisa sobre o que empurra a nossa vontade sem que a gente perceba — a biologia, a genética, a neurociência —, mas o que a vontade é, lá no fundo, continua um território tão nebuloso quanto no tempo em que se explicava tudo por espírito. Temos uma programação genética e uma configuração neural que empurra a mão para um lado ou para o outro antes que qualquer "eu" tenha tempo de opinar. Quando achamos que escolhemos, muitas vezes já é tarde: o corpo decidiu primeiro, e a mente só assina embaixo, como quem carimba um documento que já estava pronto.

Cada miséria, cada glória, é o resultado de uma alquimia maluca — substâncias estranhas, temperadas com pitadas da sua própria história, numa dosagem que você não escolhe e cujos ingredientes você nem desconfia que existem. Aquela mensagem meio desaforada que você mandou para a sua ex talvez não tenha sido uma decisão fria e soberana. Era só uma flutuação de glicose, uma queda de serotonina porque o chefe te olhou torto, acionando o mesmo mecanismo de defesa que seus tataravós desenvolveram na savana para fugir de um dente-de-sabre — tudo isso fervendo numa sopa genética que seus pais passaram para você numa noite de sábado qualquer, entre uma troca de fluidos e outra.

Mas onde é que fica o eu, no meio dessa história?

Onde está a pessoinha sentada numa poltrona atrás dos seus olhos, atordoada diante de um painel cheio de botões, puxando loucamente as alavancas da decisão?

Aqui é onde o conhecimento humano para, sem que isso signifique nada além do próprio limite. Somos máquina biológica — máquina angustiada que paga imposto e faz terapia —, isso eu não questiono. A dúvida não é se existe uma causa: existe sempre, física, concreta, ainda que a gente nunca chegue a mapear todos os seus fios. A dúvida é se essa causa, no caso específico da consciência, é algo que algum dia vamos conseguir descrever por inteiro — e por enquanto ninguém descreveu. Não tenho essa resposta. Ninguém tem. E talvez seja exatamente por não ter que a culpa consiga se instalar tão à vontade: ela precisa da certeza que ninguém possui para se sustentar. Onde deveria haver prova de que você podia mesmo ter agido diferente, há só a mesma névoa espessa de sempre — névoa de quem ainda não enxergou, nunca de algo que escapa à física.

Se o chão do livre-arbítrio é essa névoa, então a culpa que construímos em cima dele fica em pé sobre o nada. Torturar-se por escolhas passadas não é virtude — é um tique nervoso, um gesto compulsivo e adoecido, apostando com convicção total num território onde ninguém, honestamente, pode apostar nada.

A gente se agarra à culpa porque a alternativa é desesperadora. Aceitar que talvez a vida seja um cassino onde nem sabemos se os dados estão viciados fere o nosso orgulho mais fundo. Preferimos mil vezes ser o monstro culpado da própria tragédia a admitir que somos passageiros — talvez sem escolha, talvez com um resto de escolha que nunca vamos conseguir provar — dentro de um ônibus cujo motorista ninguém nunca viu o rosto.

Quando você entende que talvez seja só uma engrenagem fazendo o que uma engrenagem faz — e que o babaca que te destratou na fila da padaria também pode ser só isso, reagindo à própria sopa química temperada por toda sorte de tragédia —, a raiva evapora. Você fica mais leve. É quase impossível odiar alguém com a mesma intensidade depois que se admite que talvez o coitado nunca tenha tido escolha de verdade. É o convite mais radical e mais perturbador que existe: aceitar juntos essa mesma incerteza. Deixar de ser um juiz julgando todo mundo com uma certeza que ninguém possui, e virar só mais um paciente correndo pelo gramado desse hospício chamado vida.

Mas, por que fazemos isso? Por que gastamos décadas em divãs caríssimos, tomando um sem-fim de remédio para ansiedade e depressão? Porque passamos boa parte da vida remoendo alguma coisa como se, naquele momento, com aquela química, aquela história, aquele instante exato, pudéssemos mesmo ter feito diferente. Ah, mas se eu tivesse feito assim. Não era para eu ter feito aquilo. Meu Deus, que erro grotesco eu cometi. Como se alguém, algum dia, tivesse conseguido provar que sim, que você podia ter escolhido racionalmente ter feito diferente. Uma atitude é o resultado de incalculáveis acontecimentos de todas as ordens que constituíram a fisiologia dos neurônios até aquele momento.

No fim, talvez o que importe mesmo sejam os amores e os medos que nos arrastam através de um universo completamente indiferente — indiferente, mas não misterioso por escolha própria: só maior do que o instrumento que usamos para tentar medi-lo e tentar conhecê-lo.

Da próxima vez que você estiver trancado no banheiro, sentindo o peso do mundo, remoendo aquele vexame de 2018, faz um favor para nós dois: olha bem para o espelho e dá uma sonora gargalhada.

Porque talvez sejamos isso: uma piada muito bem contada, cujo autor ninguém encontrou ainda. E a graça está exatamente no patético de sofrer com essa síndrome de protagonista, quando nem sequer sabemos se existe roteiro.

A verdade inconveniente é que ninguém vai te vender a certeza de que você comanda a si mesmo — nem quem promete, nem quem nega. Seus erros talvez sejam ecos. Biologia sendo biologia, envolta numa camada de afeto, de história mal contada, e de um mistério que nenhum livro de autoajuda, nenhum laboratório, resolveu até hoje. Sei que descobrir isso dói. Mas desce logo desse palco.

Tira essa fantasia de mártir, que já está cheirando a mofo. E não se preocupe: se alguma atitude sua precisa mudar, ela vai mudar de qualquer jeito — por causas físicas que existem, tenham ou não sido ainda mapeadas por alguém. Pode descansar. Pode parar de fazer esse esforço todo de bancar quem decide sozinho o que ninguém, até hoje, conseguiu explicar por inteiro.

Nosso caminho é aberto durante a caminhada, só nosso, original e único. A vida já é nebulosa e absurda demais para que você ainda queira se sentar na cadeira de diretor de um filme cujo roteirista não existe.

Edmir Saint-Clair

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OS TRÊS FILHOS DE CLELIA VERDIER

OS TRÊS FILHOS DE CLELIA VERDIER

 

        A primeira coisa que Clélia Verdier quis saber, ao acordar, foi onde estavam os filhos.

Em julho de 2025,  ela tinha dezenove anos e estava num hospital em Lyon, na França. Tinha chegado muito perto da morte, e os médicos a mantiveram em coma induzido por três semanas. Vinte e um dias, segundo o relógio da enfermaria.

Sete anos, segundo ela.

Nesses sete anos, Clélia engravidou e teve trigêmeos: Mila, Miles e Maïlée. Maïlée morreu logo depois do parto, e a mãe carregou esse luto por todo o tempo que veio depois. Amamentou os outros dois. Viu os filhos crescerem. Deu comida, levou para passear, contou história antes de dormir, anos de noites, uma atrás da outra, dentro de três semanas de silêncio.

Quando abriu os olhos, avisou aos pais que eles eram avós.

Os médicos explicaram que as crianças nunca tinham existido. Alucinação causada pelos sedativos. A explicação está certa, mas não dá conta do que aconteceu naquele quarto.

O que Clélia mostra é que a mente, privada dos cinco sentidos e sem nenhuma referência externa, não desliga. Ela constrói. E não constrói pedaços, não constrói imagem solta de sonho: constrói uma vida, com continuidade, com nomes próprios, com o peso da mama cheia às três da manhã, com a morte de uma filha e o luto que vem depois dela. Vinte e um dias de nada viraram sete anos de tudo. Está documentado, e ela é acompanhada por especialistas desde que acordou.

Tudo o que se pensa sobre os últimos instantes da vida esbarra no mesmo muro: ninguém volta para contar.

Clélia é o mais perto disso que a gente já teve.

Ela esteve num lugar onde a mente perdeu os sentidos, perdeu o mundo lá de fora, perdeu o relógio, e ficou com uma única referência: o que já existia dentro dela. Com esse material, e só com ele, criou uma vida alternativa inteira, fora do espaço e do tempo que a gente conhece. Depois voltou. E contou.

Num ensaio publicado em 2025, no livro Conversas Necessárias, levantei essa suspeita: a de que a mente, entregue exclusivamente a si mesma nos momentos finais, pode esticar o tempo até ele virar uma eternidade particular, moldada pelo que cada um carrega por dentro. O ensaio se chama A Eternidade de Cada Um. Era uma hipótese, feita juntando o que a neurociência já sabe com o que a filosofia ainda pergunta.

O relato de Clélia não prova essa hipótese. Mas descreve, quase passo a passo, a paisagem que o ensaio tentava imaginar. É o testemunho de quem foi até perto da borda e voltou com notícias.

E as notícias fazem a pergunta sozinhas: se três semanas deram sete anos, quanto tempo cabe nos últimos minutos, quando não existe mais um lado de fora para onde voltar?

Mais de um ano depois, Clélia diz que ainda sente falta das crianças. Diz que ficou mais difícil se aproximar das pessoas. Diz que é mãe deles e que sempre vai ser, sabendo perfeitamente que eles nasceram dentro da cabeça dela. Ela não está confusa. Faz terapia justamente porque não está.

A saudade é real. Acontece num corpo real, todos os dias, por crianças que nunca respiraram. O que a mente constrói sozinha deixa no corpo a mesma marca que a realidade deixa.

Clélia voltou.

As filhas ficaram lá, no único lugar onde o tempo não passa.

Edmir Saint-Clair


A Eternidade de Cada Um está no livro Conversas Necessárias (2025).

Leia A Eternidade de Cada Um aqui

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RUMINAR LEMBRANÇAS

RUMINAR LEMBRANÇAS

        Gosto de ler sobre o que a ciência anda descobrindo por aí — hábito antigo, quase vício — e na paz de quem mora só e bem acompanhado, costumo deixar o pensamento se soltar inspirado nessas leituras, só para ver aonde me leva.

O cérebro embarca para outro tempo, um tempo esquisito, um tempo dele — que, mesmo eu sendo ele, é difícil de entender.

Basta um segundo de silêncio — distraído com o café e a chuva na janela — para o cérebro puxar do fundo do armário uma frase idiota que você disse a um estranho há sete anos. E vem um caminhão cheio de sensações físicas: o coração acelera um pouco, o peito aperta, e o cérebro, sem pedir licença, decide que aquele é o momento perfeito para reprisar a cena em alta definição.

Fico imaginando por que ele insiste nisso. Por que gastar energia com um episódio que não pode ser mudado?

Todo bicho deste planeta evoluiu para o presente, para o perigo imediato. O leão não remoi a presa que escapou semana passada — descansa, e parte para a próxima caçada. Nós somos os únicos que passam metade da vida acordada vivendo num tempo verbal que já não existe mais.

Há uns anos li algo que não me sai da cabeça: você, nessas horas, não está só lembrando — está rodando uma simulação neural cara, bancada pelo próprio corpo.

Foi um neurologista chamado Marcus Raichle quem topou com isso meio sem querer, no início dos anos 2000. Ele e a equipe esperavam que o cérebro, ao parar de focar numa tarefa, entrasse em repouso e baixasse o consumo de energia. Os exames mostraram o oposto: quando você para de mirar o mundo lá fora, uma rede inteira de regiões cerebrais se acende, como uma cidade inteira iluminada à noite. Deram a isso o nome de rede de modo padrão — e ela consome sozinha cerca de 20% de toda a energia do corpo, mesmo quando você acha que não está fazendo nada.

Fico brincando com esse número. Duzentos mil anos de Homo sapiens, e gastar um quinto das calorias do dia remoendo cenas do passado deveria ser, para qualquer engenheiro distraído da evolução, um defeito de fábrica. Um ancestral nosso, remoendo o desentendimento com o líder do bando a três luas de distância, vira almoço fácil de qualquer predador. E no entanto a coisa não só sobreviveu — virou a espinha dorsal de como pensamos.

Gosto de imaginar o motivo lá atrás, uns três milhões de anos, quando os antepassados começaram a viver em grupos cada vez mais complexos. Para um bicho puramente físico, a dor de um corte avisa do dano no corpo. Mas para um bicho social — e o ser humano pré-histórico era, acima de tudo, isso —, a dor da rejeição devia ser sentença de morte de verdade. Ser expulso da tribo, há cem mil anos, era enfrentar sozinho o inverno e as feras. O cérebro deve ter aprendido, então, que errar socialmente era tão perigoso quanto veneno ou garra — e criado uma ferramenta bruta: simulação mental e dor retrospectiva.

É como se a mente carregasse a caixa-preta de um avião que caiu. Depois do acidente, a única forma de não repetir o erro é ouvir a gravação inteira, dezenas de vezes, até achar onde o piloto errou. Só que o cérebro parece não distinguir muito bem uma ameaça de vida ou morte de uma conversa constrangedora numa reunião de trabalho. Para o sistema nervoso, os dois eventos parecem disparar os mesmos circuitos de medo e vergonha.

Tem um estudo de 2003, do psicólogo Matthew Lieberman com Naomi Eisenberger, na UCLA, que é esclarecedor nesse sentido: a dor social e a dor física ativariam a mesma região do cérebro. Se for isso mesmo, lembrar de algo constrangedor de cinco anos atrás não é figura de linguagem — é biologia acontecendo agora, cortisol na corrente sanguínea, ritmo cardíaco alterado, músculo contraindo. Você sentiria, de verdade, o impacto físico do passado no corpo presente.

Pareceria uma máquina perfeita de sobrevivência primitiva — até a gente notar o possível erro de código no mundo de hoje. Fomos calibrados, ao que tudo indica, para viver em grupos de trinta a cento e cinquenta pessoas, o tal número de Dunbar.

Nesse mundo pequeno, as interações diárias eram poucas e previsíveis. Errava-se, e havia uma vida inteira, entre os mesmos rostos conhecidos, para reconstruir a reputação.

Hoje processamos, imagino, numa única semana, mais interações, mensagens e julgamentos do que um ser humano da Idade da Pedra levaria décadas inteiras. E fico pensando se não é isso: o cérebro antigo rodando o mesmo software de análise de risco, só que agora num mundo hiperconectado para o qual nunca foi desenhado.

E aí o pensamento quer ir mais longe, sem pedir licença à ciência: e se não for só isso? Se, mesmo sem ainda ter sido percebido, nosso cérebro já tiver sofrido pequenas mutações, via epigenética, que estão nos levando a uma nova configuração de humanos? Será que estamos no correr desse processo? A possibilidade é grande, já que tudo está em constante evolução.

Mas voltando ao que já foi visto: o cérebro parece acreditar, de verdade, que reprisar o episódio pela milésima vez está protegendo o seu futuro.

Só que, ao contrário de uma perícia técnica, a ruminação não parece entregar solução nenhuma. Entrega um ciclo fechado de autocrítica que se alimenta da própria ansiedade — e há quem tenha dedicado a carreira inteira para provar isso, como a psicóloga Susan Nolen-Hoeksema: ruminar sobre o passado não resolveria problema algum, e ainda comprometeria a capacidade de decidir bem no presente.

Há uma ironia nisso que não canso de mastigar. Construímos cidades, dominamos a eletricidade, inventamos a medicina, erguemos redes para nos proteger das incertezas da natureza. Eliminamos quase todo predador do planeta e garantimos teto e comida para bilhões. E, ao blindar o corpo dos perigos da floresta, talvez tenhamos deixado o cérebro trancado na sala de simulação, sozinho com seus próprios fantasmas — agora digitais.

Não deve ser mal só do nosso século. Sócrates já alertava, antes de Cristo, sobre os riscos da vida não examinada — só não deve ter previsto o peso de uma mente que examina demais o próprio passado.

Penso que essa máquina do tempo biológica que chamamos de memória foi feita para nos manter vivos. Reviver o que já passou não seria sinal de fraqueza nem de cabeça quebrada — seria só o cérebro executando, com uma fidelidade impressionante, um protocolo antigo de proteção social, o mesmo que atravessou eras de escuridão e fome.

O problema é que o alarme continua tocando, mesmo com a tempestade lá fora já tendo passado — como se o corpo não tivesse recebido o aviso de que a guerra acabou.

Talvez a pergunta não seja como desligar essa máquina — porque, enquanto formos humanos, o mecanismo deve continuar ligado. A pergunta, essa sim gosto de deixar no ar, é por quanto tempo mais vamos permitir que o corpo pague a conta de guerras que já terminaram há anos.

Porque, no fim, o passado só existe na energia que gastamos para mantê-lo vivo agora. E lá fora — hoje, com chuva e frio — a vida continua acontecendo. No único segundo que realmente nos resta.

Edmir Saint-Clair

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COERÊNCIA: O RESPEITO A SI MESMO

COERÊNCIA: O RESPEITO A SI MESMO


 "Seja amigo íntimo de si mesmo 

e nunca mais se sentirá sozinho." - Edmir Saint-Clair

- Estou sendo quem eu digo que sou a mim mesmo?

Essa é uma pergunta que ninguém faz em voz alta. Mas todo mundo carrega.

É uma pergunta simples. E, muitas vezes, devastadora.

Vivemos na era da performance. Nunca foi tão fácil construir uma versão de si mesmo — e nunca foi tão tentador confundi-la com a versão real. O Instagram tem filtro para tudo: para a pele, para a luz, para a vida. O que não tem filtro é a nossa própria consciência quando deitamos no travesseiro.

A busca ansiosa por likes virou o termômetro afetivo de uma geração inteira. A foto só foi boa se engajou. A opinião só vale se viralizou. A conquista só existe se foi postada. Aos poucos, sem que a gente perceba, o centro de gravidade se desloca — saímos de nós mesmos e passamos a orbitar a aprovação dos outros. De outros que, na maioria das vezes, estão fazendo exatamente a mesma coisa.

É um espelho em frente ao outro. Infinito. E vazio.

Os filósofos já tinham um nome para isso. Muito antes do Instagram existir. Só que agora ganhou uma tela, alcance mundial e um algoritmo.

O filósofo dinamarquês Kierkegaard chamava isso de estágio estético — a vida vivida para a superfície, sem compromisso real com nada. Jean Paul Sartre tinha um nome mais duro: má-fé — a arte de fingir que não há escolha, quando na verdade nossas escolhas estão sendo feitas a cada momento da vida e, no fundo, temos plena consciência disso. Atualmente, isso tem uma outra expressão que talvez a defina melhor: desonestidade intelectual.

Postar uma versão editada de si mesmo não é crime. Mas acreditar nela é o grande problema, que pode ter um preço bem alto.

Quando a distância entre quem você é e quem você finge ser cresce demais, surge um mal-estar que a psicologia batizou de síndrome do impostor — aquela sensação persistente de que você não merece o lugar que ocupa, de que é uma fraude prestes a ser descoberta, de que qualquer dia alguém vai perceber que não existe nada embaixo da máscara que usamos.

Nas redes sociais, esse sentimento encontrou o ambiente perfeito para prosperar. Você constrói um personagem admirável — e passa a ter medo de não estar à altura dele. A conquista foi real, mas a versão postada foi maior. O argumento foi válido, mas veio acompanhado de uma pose que não era sua. O sorriso era verdadeiro — mas o contexto, não.

O personagem cresce. E você encolhe.

Porque a incoerência não gera culpa imediata. Ela trabalha devagar, por baixo, como uma infiltração invisível que vai corroendo as estruturas da personalidade. Um dia você percebe que não sabe mais o que pensa de verdade — ou se o que posta que pensa é fruto apenas do que funciona bem nas redes. Não sabe do que gosta de verdade — ou se o que posta que gosta é fruto do personagem que criou para combinar com a estética do perfil no Instagram. Não sabe quem é realmente você — e quem é o personagem criado para ter mais seguidores. Chega a um ponto em que você pode se tornar um estranho para si mesmo.

A identidade vai cedendo lugar ao personagem. E o personagem não descansa nunca — porque depende de audiência para existir.

O atrito entre quem você é e quem você aparenta ser corrói por dentro. A autoestima afunda. As decisões ficam mais difíceis — porque quem não confia em si mesmo transforma cada escolha numa armadilha. E uma identidade enfraquecida é terreno fértil para ansiedade, depressão e todos os outros distúrbios mentais que a sociedade atual padece.

A lucidez intelectual e o autoconhecimento são o único caminho para fugir dessa tendência humana de buscar um culpado que não seja nós mesmos. Fica fácil culpar o Instagram, o Facebook e outras redes. Mas elas não criam personagens — elas apenas oferecem o palco. Quem decide subir nele, o que vestir e o que representar somos cada um de nós. Somos, sempre, os únicos responsáveis por quem conseguimos ser, apesar dos pesares da vida.

A coerência é o antídoto.

É uma virtude autêntica e verdadeira que não precisa de plateia nem de métrica de engajamento. É aquela coisa pequena feita da forma certa quando ninguém está olhando — uma decisão tomada de madrugada, sem testemunha, sem like, sem story.

Quem vive com coerência não precisa lembrar o que disse ontem. Não precisa administrar versões. Não acorda com medo de ser descoberto — porque não há nada a esconder. O impostor some quando o personagem e a pessoa finalmente coincidem. É quando você assume o comando de decidir para si mesmo quem você é.

Quando deitamos no travesseiro, é a nós mesmos que temos de prestar contas. Não existe júri, não existe recurso, não existe advogado de defesa. E não tem apelação.  Só você e o seu próprio julgamento sobre o que você fez — com o que tinha, onde estava e sendo quem é em sua essência maior. Você é o seu próprio juiz e a coerência é sua lei maior.

Nossa maior contribuição para o mundo — e para nosso orgulho próprio — é agirmos da forma original e única que a nossa natureza nos dotou.

A coerência é a forma mais corajosa — e fiel — de se amar.

É respeitar profundamente a si mesmo.

Edmir Saint-Clair

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A ETERNIDADE DE CADA UM

A ETERNIDADE DE CADA UM
“No fim, somos quem acreditamos ser.”

— Edmir Saint-Clair

Todos os dias, ao adormecer, cruzamos uma fronteira invisível entre o real e o imaginário — onde o tempo obedece a outras regras. Geralmente, a transpomos em milionésimos de segundos — um átimo entre estar desperto e adormecido. Uma região no limiar entre a vigília e o sono, outra dimensão, onde nossa consciência se altera; onde não há tempo, há apenas a eternidade. Uma distorção diária da lógica temporal.

Essa experiência cotidiana nos oferece um vislumbre do que proponho como hipótese central deste ensaio: e se, nos momentos finais da vida, nossa mente for capaz de criar sua própria eternidade? Uma realidade subjetiva onde o tempo, liberto das amarras físicas, se dilata até o infinito, permitindo que cada consciência vivencie uma eternidade moldada por suas crenças mais profundas.

 Esta é a jornada reflexiva que convido você a percorrer — uma investigação sobre como a mente humana, em seu último ato de criação, pode transcender os limites convencionais do tempo e da realidade.

 Aquela sensação de estar caindo e despertar no susto é resultado de permanecer tempo demais nesse estado intermediário. É a presença densa de algo que nos puxa de volta e nos faz acordar como se tivéssemos nos perdido pelo caminho.

 O sonho com quem já partiu é mais do que sonho: é um reencontro sem tempo, capaz de provocar uma emoção sentida no corpo físico.

 A mente humana cria realidades com tal precisão que não podemos afirmar se o mundo como cada um de nós o percebe é real ou apenas uma construção moldada por crenças, memórias e por fatores individuais e imponderáveis. Isso se torna evidente em fenômenos como alucinações em que pacientes com síndrome de Charles Bonnet podem ver padrões e figuras complexas que não existem; ou em experimentos de privação sensorial, onde após poucas horas em tanques de isolamento, voluntários começam a criar experiências sensoriais completas sem estímulos externos. Talvez o mundo seja apenas uma versão pessoal — moldada pelo conjunto de crenças de cada um. E é bem possível que seja exatamente assim.

 É justamente esta extraordinária capacidade da mente de construir realidades alternativas que fundamenta esta hipótese sobre os momentos finais da consciência, que propõe enfrentar o tema com a mente aberta. Essa hipótese parte do pressuposto de que a mente cria sua própria realidade — portanto, ela pode criar seu próprio infinito, sua própria eternidade, já que é capaz de criar um tempo próprio.

 Nos sonhos, o tempo se comporta de maneira radicalmente distinta da realidade desperta. Sagas inteiras podem ser vividas em poucos minutos. Distâncias geográficas são transpostas sem qualquer lógica física — tudo isso com a nitidez de quem realmente está vivendo aquele universo surreal naquele momento. Essa vivência do tempo subjetivo indica que a mente, em estados alterados, escapa às leis convencionais da temporalidade.

 Durante o sono REM, o cérebro cria narrativas não lineares, condensando experiências inteiras em períodos muito breves de tempo real. Esse fenômeno encontra eco na teoria da relatividade de Einstein, que afirma: o tempo não é absoluto, mas relativo ao observador. Dois relógios idênticos, expostos a campos gravitacionais ou velocidades diferentes, marcarão tempos distintos.

 Sob estresse extremo — como em acidentes graves ou experiências de quase-morte — o cérebro entra em estado de hiperprocessamento, e o tempo, sob a ótica do paciente, desacelera drasticamente. Segundos ganham densidade e podem ser percebidos como longos minutos.

 Tudo isso sugere que o tempo, quando entregue exclusivamente ao nosso cérebro e sem referenciais externos, pode ser remodelado — e, nos instantes finais, talvez seja dilatado até se assemelhar a algo como uma eternidade subjetiva. Que só exista dentro da gente.

 Há quem afirme que estados alterados de consciência possam acontecer com pessoas que conseguem permanecer nesse espaço entre estados de realidade, onde os contornos do tempo e do eu já não são claros. Nessa outra dimensão onde não existe tempo como o conhecemos. Onde a mente é o último resquício da vida. Onde as conexões neurais criam realidades alternativas.

 Se a mente é capaz de gerar uma ilusão tão real a ponto de transgredir a noção de tempo, ela pode criar sua própria eternidade. Estudos científicos recentes indicam que o cérebro humano pode continuar ativo por um tempo significativo após a morte clínica. Em um caso documentado pela Universidade de Western Ontário, no Canadá, foi detectada atividade cerebral persistente por cerca de dez minutos após a declaração oficial de morte. Nesse intervalo, foram registradas ondas delta — as mesmas que ocorrem durante o sono profundo.

 É possível que, sem o apoio dos cinco sentidos e liberta de estímulos externos, a mente proceda uma distorção daqueles últimos dez minutos, transformando-os em uma experiência de "tempo sem fim" — onde suas projeções mais profundas possam, ao menos subjetivamente, parecer absolutamente reais. Trata-se de uma hipótese coerente com o que já sabemos sobre a percepção temporal em estados alterados de consciência.

 Estudos sobre experiências de quase-morte (EQMs) revelam que pacientes frequentemente relatam uma "revisão da história de vida" — na qual assistem às próprias cenas, revivem acontecimentos e até os experimentam sob a perspectiva de outras pessoas envolvidas. Essa revisão, que parece abranger uma vida inteira, ocorre em frações mínimas de tempo real. Em pesquisa da Universidade de São Paulo com 350 brasileiros, 51% dos que estiveram em risco de morte relataram EQMs, muitas vezes com intensa distorção da percepção temporal.

 Alguns estudos sugerem que, pouco antes da morte, o cérebro entra em um estado de hiperconectividade, onde redes neurais relacionadas à memória e à consciência ficam extremamente ativas. Nesse momento, circuitos neurais que normalmente funcionam de forma isolada começam a interagir de maneiras incomuns, gerando experiências mentais únicas — muitas delas ainda pouco entendidas pela ciência — nas quais a percepção do tempo pode mudar bastante.

 Quando estamos privados de estímulos externos e focados apenas nas nossas experiências internas, é possível que o cérebro vivencie seus últimos minutos como um tempo subjetivamente expandido. Talvez, nesse momento, a pessoa experimente uma espécie de eternidade pessoal, algo único e totalmente particular.

Se, em sua mente, você for fiel ao que acredita — de acordo com suas crenças mais profundas — ela moldará sua eternidade com base nessa visão íntima de si mesmo. Esse será o seu julgamento final — e o juiz será você.

O que mais me encanta nesta hipótese é sua capacidade de acolher a todos. Não importa se a mente for moldada por fé religiosa, por tradições culturais, por dúvidas agnósticas ou pelo ceticismo ateu — todas as crenças encontram nela um lugar legítimo. É uma hipótese inclusiva por essência: cada um viverá a eternidade que foi capaz de imaginar.

 Com base nos fenômenos neurológicos pesquisados, proponho a hipótese filosófica de que, se acreditar verdadeiramente que reencontrará um ente querido após a morte, sua mente poderá criar essa experiência subjetiva nos momentos finais de atividade cerebral. E você os reencontrará.

 Por isso, é sensato cuidarmos de nossas mentes — das percepções que cultivamos e da autoestima que nos sustenta. É ela quem irá moldar nosso inferno ou nosso paraíso, onde viveremos essa última etapa: a experiência final. O que a mente acredita, as crenças mais enraizadas sobre si mesmo, a forma como avaliamos nossas próprias atitudes ao longo da vida e a coerência com que nos conduzimos pelos diversos aspectos da existência — tudo isso será a matéria-prima da eternidade que cada um experimentará.

 Preparar a mente para que, no instante decisivo, ela seja capaz de criar uma realidade subjetiva — íntima, pessoal e intransferível — que nos revele a visão do nosso paraíso ideal talvez seja o mais profundo dos desafios humanos. Esse 'trabalho' diário e incansável para nos tornarmos seres humanos melhores, por fim, poderá ser recompensado. Por nós mesmos.

 No último momento de vida, será nossa mente que construirá a eternidade que cada um criou para si. Esta hipótese, além de oferecer uma perspectiva sobre os momentos finais da consciência, carrega profundas implicações para como vivemos hoje. Se existir uma experiência post mortem subjetiva, ela será moldada por nossas crenças mais enraizadas e pela forma como avaliamos nossas próprias ações, então cada escolha cotidiana ganha uma dimensão transcendente.

 Viver com autenticidade e integridade não seria apenas uma questão de ética social ou realização pessoal, mas um investimento na qualidade da nossa própria eternidade subjetiva. A empatia que demonstramos, as conexões verdadeiras e profundas que estabelecemos, e a honestidade com que enfrentamos nossas falhas — tudo isso está tecendo, fio a fio, o tecido da realidade que iremos viver em nossos momentos finais.

 Se o juiz final de nossas ações seremos nós mesmos, talvez o verdadeiro desafio não seja temer um julgamento externo, mas viver de maneira verdadeiramente digna aos nossos próprios olhos, para que possamos, no final, rever nossa história e encontrar nela nossa essência e motivos para termos orgulho da vida que construímos.

 *Edmir Saint-Clair*

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## BIBLIOGRAFIA

 Estas são as referências (pesquisas, estudos e obras) nas quais esta hipótese está ancorada. Abrangem estudos sobre experiências de quase-morte, percepção temporal distorcida, atividade cerebral nos momentos finais, estados de sonho REM e conceitos de física relacionados à relatividade do tempo.

 1. Greyson, B. (2007). Experiências de quase-morte: implicações clínicas. *Archives of Clinical Psychiatry (São Paulo)*, 34(supl 1), 116-125.

 2. Carunchio, B. F. (2024). Experiências de quase morte (EQM) traumáticas: consequências psicológicas e ruptura de certezas existenciais. *Revista Rever*, PUC-SP.

 3. van Lommel, P., van Wees, R., Meyers, V., & Elfferich, I. (2001). Near-death experience in survivors of cardiac arrest: a prospective study in the Netherlands. *The Lancet*, 358(9298), 2039-2045.

 4. Parnia, S., Waller, D. G., Yeates, R., & Fenwick, P. (2001). A qualitative and quantitative study of the incidence, features and aetiology of near death experiences in cardiac arrest survivors. *Resuscitation*, 48(2), 149-156.

 5. Eagleman, D. (2008). Human time perception and its illusions. *Current Opinion in Neurobiology*, 18(2), 131-136.

6. Arstila, V. (2012). Time slows down during accidents. *Frontiers in Psychology*, 3, 196.

 7. Borjigin, J., Lee, U., Liu, T., Pal, D., Huff, S., Klarr, D., ... & Mashour, G. A. (2013). Surge of neurophysiological coherence and connectivity in the dying brain. *Proceedings of the National Academy of Sciences*, 110(35), 14432-14437.

 8. Norton, L., Gibson, R. M., Gofton, T., Benson, C., Dhanani, S., Shemie, S. D., ... & Young, G. B. (2017). Electroencephalographic recordings during withdrawal of life-sustaining therapy until 30 minutes after declaration of death. *Canadian Journal of Neurological Sciences*, 44(2), 139-145.

 9. Hobson, J. A., & Pace-Schott, E. F. (2002). The cognitive neuroscience of sleep: neuronal systems, consciousness and learning. *Nature Reviews Neuroscience*, 3(9), 679-693.

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A RECEITA DA FELICIDADE

A RECEITA DA FELICIDADE

Todos os dias, pipocam nas redes de comunicação milhares de textos sobre o tema “Felicidade”.

Livros são lançados, artigos escritos, vídeos e todo tipo de arquivos são produzidos e vem se juntar a uma já incontável biblioteca sobre o assunto.

É fácil perceber que existem milhares de rótulos cujo objetivo final é esse tal da felicidade: dentre tantos temos a psicologia, a filosofia, autoajuda, a meditação, sexo terapias, as práticas tântricas, as diversas vertentes da ioga e outras centenas de "cadeiras e disciplinas" buscando a mesma coisa por caminhos diferentes. Todos válidos, já que a busca é absolutamente individual

"A Felicidade não existe, o que existe são momentos felizes".*

Por mais óbvia e simplória que essa frase possa parecer a princípio, traz uma verdade perturbadora e nem um pouco romântica. Já que em seu enunciado, determina a finitude inevitável de cada momento.

Mas, que tipo de felicidade transcendental é essa que a humanidade tanto procura? 
Uma felicidade perene e inalterável, onde cessam as tristezas e contrariedades.

O conhecido "foram felizes para sempre" como nos contos de fadas que parecem resistir a evolução e ao tempo no imaginário humano.

Assim colocado, fica fácil vermos que a felicidade, como um estado permanente, é uma utopia absoluta. Se transformaria em num desagradável tédio em pouco tempo, isso faz parte da inquieta natureza humana.

Mas, se a pensarmos como apenas momentos de pleno gozo da existência, ela se torna extremamente atraente e absolutamente possível. Dependemos dos altos e baixos para sermos felizes. Precisamos do ruim para valorizar o bom. O ser humano é assim. Precisamos estabelecer relações de valor para decidirmos entre umas coisas e outras.

A maioria de nós, que já passou de certa idade, tem razoável certeza de que existem muitos momentos em que nos sentimos plenos e felizes. Pelos mais diversos e variados motivos.

Saber perceber esses momentos, enquanto estão acontecendo, é fundamental no processo de aprender a ser feliz. Aprender a nos cercarmos de situações que possam
deflagrar aquela sensação tão desejada é como descobrir o mapa que leva ao nosso tesouro pessoal e intransferível de felicidades. Nosso paraíso interior.
Pena que só alcancemos isso na maturidade...

Esse processo é desenvolvido intuitivamente durante a vida, e a forma como esse aprendizado se consolida em cada um é o que determina a capacidade ou a incapacidade de alcançar esses momentos. Se desenvolveremos ou não a capacidade de ser feliz.

Ser feliz é um aprendizado, um mérito pessoal. Uma conquista. Uma consequência da busca sincera e corajosa por nossa verdade essencial.

A consciência do agora, do exato momento em que estamos vivendo as emoções e explosões de bons sentimentos é o que completa a felicidade tornando-a plena, como um gozo total do ser. 

É por esses momentos que a humanidade vive. Para sermos palco, em nosso interior, de uma explosão espetacular e plena de sentimentos e sensações que são absolutamente compensadoras e indescritíveis.

Às vezes, sua exteriorização não passa de um leve sorriso. Outras, é literalmente como um grito de gol do nosso time num estádio lotado no dia da grande final do campeonato! É quando a alegria é tão grande que não cabe dentro de nós e transborda.

Para que essas sensações, emoções e sentimentos se somem e explodam, é preciso que aconteça uma progressão sincronizada de acontecimentos detonadores daquelas descargas químicas certas e extremamente precisas, únicas em cada ser.

Esse conjunto de fatores, muito pessoais e individualizados, se juntam e fazem nosso sistema orgânico produzir uma série de substâncias, em quantidades e proporções exatas, de tal forma que o resultado é a descarga daquelas sinapses únicas que provocam a sensação que chamamos de Felicidade. A plenitude indescritível.

Esse processo é extremamente individual e único. Sequer no mesmo indivíduo acontece exatamente da mesma forma duas vezes. O simples fato de já ter ou de nunca ter acontecido já determina essa originalidade.

Pensando assim, na felicidade como um conjunto de fatores que nos faz sentir bem por um período de tempo, podemos sim encontrar esses ingredientes que nos causam bem-estar, e traduzi-los em decisões e atitudes que nos proporcionem mais prazer do que incômodos.

O aumento da frequência dos momentos prazerosos funciona como reforço, é um tipo de treino para o nosso cérebro, aumentando as possibilidades de que os fatores disparadores daquele estado mental se repitam, potencializando a chance de sentir novamente aquelas sensações maravilhosas. Ou seja, quanto mais vezes nos sentirmos felizes, mais vezes seremos capazes de sermos felizes de novo. Felicidade gera felicidade. E o oposto também é verdade. Por isso a felicidade é uma escolha pessoal.

Infelicidades todos temos e teremos, cabe a cada um escolher onde empenhar nosso maior foco de pensamentos e esforços: se será em ser infeliz, ou em aprender a ser feliz.

Para que tenhamos o discernimento necessário para saber o que nos agrada, o que não faz diferença e o que nos contraria, é preciso autoconhecimento. É preciso aprender a semear felicidade em si mesmo. Aprender a semear, a cultivar e a colher felicidade.

É preciso prestar muita atenção e cuidar dos próprios sentimentos e reações. É preciso aprender quais devemos cultivar e quais devemos exterminar para não nos contaminarmos com pragas daninhas. Ter a capacidade de perceber onde estão nossos limites requer autocrítica e conclusões, muitas vezes, desagradáveis e perturbadoras. Ninguém gosta de reconhecer suas limitações, fraquezas e carências.

Outro fator fundamental é saber estabelecer os nossos limites externos.

Até onde deixar que os outros opinem, influam e nos cobrem por nossas decisões de âmbito pessoal?  Até onde e quem vamos deixar que "se meta em nossa vida".

Até onde dar satisfação de nossos atos, e a partir de onde nossas motivações e propósitos são questões sobre as quais não devemos satisfação a ninguém? 

A independência emocional é fundamental para realizarmos nossa essência. É preciso estabelecer limites e até onde permitiremos que outras pessoas interfiram em nossos processos. Para isso, é preciso que nos coloquemos como o único responsável capaz de produzir nossa própria felicidade.

É complicado. Mas, ninguém disse que não seria.

Para formular nossa própria receita de felicidade, primeiro é preciso descobrir quais ingredientes nos agradam e em que quantidades devem ser usadas, para que o resultado nos traga a satisfação da vida com sabor.

E, como seria bom, se pudéssemos deixar essa receita como herança para nossos filhos. Como a receita de um bolo da vovó.

Mas, infelizmente, essa receita só vai servir para o próprio. É pessoal e intransferível.

E, quando a gente pensa que está chegando a uma conclusão, entra mais alguém na história e dana-se tudo de novo.

Se sozinho já é essa dificuldade toda, imaginem quando a busca inclui mais outra pessoa nessa já complicada equação!
Edmir St-Clair
"A Felicidade não existe, o que existe são momentos felizes".*Letra de uma música famosa nos anos 1980 do autor Peninha.


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