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A MEDALHA DE SÃO JORGE

 

A ansiedade era grande. Não via o filho há tempo demais. Saudade apertando, mais ainda quando faltam poucas horas para revê-lo. Diego não quis que Felipe fosse pegá-lo no aeroporto por conta da falta de previsão de tempo nas esperas entre conexões. Estava vindo de Beijing, depois de cinco anos na China.

Felipe resolveu descansar um pouco, a ansiedade desses últimos dias havia sido desgastante. Deitou-se no sofá da sala e adormeceu. Passara a noite acordado, ansioso, pensando na volta do filho. Agora, cedia ao cansaço.

A campainha toca insistentemente. Ele levanta assustado e, ato reflexo, corre para a porta.

O antigo relógio de pendulo da sala, herança do avô, marca 8h e 06m da manhã. Abre a porta.

− Diego... Dá um abraço filhão...

Diego abraça o pai com força e saudade iguais e intensas. Um abraço longo, aconchegante e familiar. Pai e filho que se querem tão bem quanto é possível. Surfistas, rubro-negros e cariocas. Um extenso rol de afinidades. Amor.

Felipe pega uma das malas enquanto o filho às outras. Pelo volume da bagagem, veio de vez. Tomara, pensou.

Vôos internacionais sempre chegam cedo pela manhã. A tempo de aproveitarem e brincar um pouco nas ondas do final do Leblon. Felipe mostra a Diego a prancha que mandou fazer de presente para o filho.

Diego fica emocionado com a recepção e o carinho do pai, e lhe dá mais um daquele demorado e saudoso abraço. Tem orgulho do pai. A felicidade dos dois é transbordante. Aqueles momentos em que o sorriso não sai do rosto e parece que nunca vai sair. Olhar para o outro alimenta ambos os sorrisos. E o silêncio completa.

− Ele é meu filho. Pensou.

− Ele é meu pai. Pensou o filho no mesmo exato milésimo daquele silêncio sagrado. Certas emoções são grandes demais, não cabem em palavras.

A felicidade acontecia explicitamente naquele momento, pai e filho desfrutando a plenitude da presença do outro.

Combinaram que Diego ia dormir um pouco, viajara mais de 30 horas. Estava exausto.

Felipe deu um beijo na testa do filho e saiu do quarto.

Diego não acordaria antes das 14h, ele tinha 6 horas pela frente. Seria bom almoçarem em casa para que Diego pudesse acordar com calma e sem pressa. Lembrou-se da feijoada de sábado do Degrau que sempre comeram desde que o filho era pequeno e ainda não gostava.  Depois da separação, a feijoada tinha se tornado programa obrigatório dos dois. É a pedida perfeita para hoje.

Ele volta até a porta do quarto do filho. Mas não a abre. É só a alegria que não está cabendo.

Uma feijoada e depois uma boa remada no mar de final de tarde de outono. A luz mais bonita do Rio de Janeiro.

Seria perfeito se tivéssemos um baseado para fumar antes do surf. Há anos não fumava. Fumar um baseado com o filho tem um significado especial. Não é um consumo de drogas doentio. É um ritual. O preconceito é uma lente mal construída que torna tudo mais feio. Uma lente de enfeiar o mundo.

Havia algum tempo que Felipe não comprava maconha, e tinha perdido o contato com os eventuais fornecedores do bairro. Geralmente, uma meia dúzia de amigos, moradores do Leblon mesmo, que vendem para amigos.  Ou, a velha opção da vida toda, a doleta da Cruzada. Pequenas quantidades, geralmente um cigarro, vendido a varejo. Nessa altura do fim de semana, se quisesse fumar um baseado antes da praia com o filho, teria que recorrer à Cruzada. Tudo bem, ali é tranqüilo, pensou. Riu sozinho, a última vez que foi na Cruzada comprar um baseado deve ter sido há, pelo menos, uns 25 anos atrás.

Diego voltou três dias antes de completar 30 anos. Um adulto, profissional com formação altamente especializada. Apesar de sempre ter tido um quarto na casa do pai, não importa com quem o pai estivesse casado, só haviam morado juntos nos primeiros dois anos da vida dele. Época da qual, obviamente, não se lembrava. Depois, eram fins de semana, férias e feriados, como todo pai separado. Pouco antes de viajar para a China, passaram onze meses juntos. O maior tempo que passaram até então. Os melhores também.

Felipe mora Rua Padre Achotegui, na Selva de Pedra. A Cruzada fica a um quarteirão. Antes, resolve passar no Degrau e deixar a feijoada reservada para viagem, e garantir que nada saísse errado. A feijoada de sábado do Degrau é concorrida no bairro e costuma acabar cedo. A idéia é, em vez de saírem para comê-la no restaurante, ele a servirá em casa, para que Diego acorde com toda calma e a coma na maior preguiça que conseguir.

Já na praia, depois de passar no Degrau, Felipe percebe que está ansioso e atribui à excitação pela chegada do filho. Ele já chegou, mas ele anseia por conversarem e, realmente, se reencontrarem. O que o intriga é que ele não costuma ficar ansioso nessas ocasiões. Pensava já ter vencido esse fantasma. Considerava-se uma pessoa bastante calma. Uma chopinho no Clipper iria afastar aquela sensação estranha, com certeza. Onze da manhã de sábado, há essa hora é certo que não iria beber sozinho.

•         * * *

Diego não conseguia parar de se mexer na cama, inquieto. Acordou incomodado, achou que fosse o frio do ar condicionado e se cobriu mais. Olhou a hora no celular, 11 horas da manhã. Dormira apenas 3 horas... Isso não costumava acontecer. Geralmente, dormia 6 horas ininterruptas de um sono calmo. Sempre agradecia mentalmente o pai tê-lo introduzido na prática da meditação desde cedo. Atribuía a isso sua calma e equilíbrio. Mas, não naquele momento. Ainda cansado e sem conseguir adormecer novamente, sentia uma sensação estranha, ansiedade. Rolou na cama até o cansaço vencer. Adormeceu.  Mas, o sono não seria repousante.

•         * * *

Felipe terminou o segundo chope, a conversa com amigos da vida toda, sobre a chegada de Diego, é lógico, fizera o tempo passar mais leve. Mas, nem tanto. Enquanto esperava a conta, deu tempo de sentir-se estranho de novo, ansioso, tenso. Ele não era assim, nunca fora e não havia motivo para sê-lo naquele momento. Menos mal, o tempo passara meio-dia em ponto. Hora de passar na Cruzada. Despediu-se e partiu.

•         * * *

Diego acorda sobressaltado de um sono rápido e agitado. Olha o celular, meio-dia. É certo que não conseguiria mais dormir, e ficar na cama seria pior. Atribuiu a angústia à excitação da chegada, ao fuso horário e a tudo junto, pensou. Não estava acostumado a sentir aquela inquietação interna remexendo seu estômago. Não estava acostumado a sentir a sensação de ansiedade, sem motivo, sem sentido. Detestava se sentir confuso. Havia algo diferente e errado.

•         * * *

Felipe atravessou a Ataulfo de Paiva e seguiu descendo a Carlos Góes na direção da Selva de Pedra. Virou à direita na Humberto de Campos e seguiu na direção da Cruzada.  Quando parou no cruzamento com a Av. Afrânio de Melo Franco, notou que a porta da Delegacia estava movimentada. Nunca se preocupara com isso, não seria hoje... Pensou.

O sinal abriu e ele atravessou. Chegando esquina oposta, viu Adilson acenando e saindo da Igreja Santos Anjos, ele acenou de volta. São amigos desde pequenos, jogaram juntos no time de futebol de praia e muitas peladas no Condomínio dos Jornalistas. Distanciaram-se quando chegaram à vida adulta. Hoje, Felipe é arquiteto e Adilson motorista numa empresa estatal. Tem estabilidade no emprego e continua a morar na Cruzada, no apartamento que herdara dos pais. Apesar de ter tido amigos ali, Felipe entrara poucas vezes naquela comunidade. No Leblon, geralmente, algum desses amigos que moravam lá, pegavam os baseados para os outros que não moravam. Faziam “um vôo pros amigos”. Sempre foi assim.

A certa altura de uma conversa formal, Felipe pergunta se Adilson poderia pegar uma Doleta. A reação foi inesperada.

Adilson mostrou-se visivelmente contrariado. Por certo momento, ofendido.

− Felipe, sempre achei você um cara legal. Gosto de você... Temos quase 50 anos, nunca mais me peça isso. Nossas vidas são muito diferentes. Vamos guardar as boas lembranças. O tempo passou. Não tenho nada a ver com drogas, nem quero ter.

O constrangimento mútuo foi bastante incomodo. Os dois se conheciam desde pequenos. Naquele instante, uma distância nunca antes percebida deu-lhes um tapa na cara. A distância que sempre fingimos que não existia, como todos no Leblon, se escancarou ali na esquina da Igreja Santos Anjos.

Deram-se um aperto de mão e Adilson pôs-se a caminhar na direção de sua casa, a Cruzada.

Felipe demorou alguns minutos tentando compreender o que ocorrera. Ficou parado, na esquina, olhando Adilson que já ia vários metros à frente. Sentiu-se envergonhado. Mas, não sabia ao certo por que.

Recuperou-se quando lembrou que Diego o estava esperando. Teria que entrar na Cruzada para comprar. Voltou a caminhar, cuidando para não ir nem rápido, nem devagar demais. Normal. Não estava acostumado. Estava se sentindo agoniado, lamentava ter ofendido o amigo, mesmo que involuntariamente.

Estava passando em frente à portaria dos fundos da AABB quando viu as primeiras pessoas correndo. Em seguida, ouviu dois ou três tiros que ele não soube precisar de que direção vinham. Não sabia que lado deveria proteger. Ouviu sirenes e barulho de carros vindos da direção da delegacia, os tiros aumentaram de intensidade. Percebeu que estava no meio do fogo cruzado. Imediatamente, sentiu algo rasgando e queimando sua barriga, uma dor profunda e o sangue quente jorrando e molhando-lhe os órgãos genitais e as pernas. Caiu com as mãos na barriga e a dor arrancou-lhe um gemido alto. Como se uma flecha de aço em brasa o tivesse penetrado fundo.

Arrastou-se até um pilotis mais próximo. Era tudo que podia fazer naquele momento. Era surreal. Choro de crianças e gritos vindos de todas as direções. Os tiros continuavam, era desesperador sentir o sangue escorrer e nenhuma possibilidade de socorro. Pensou no filho e doeu-lhe a alma. Não podia morrer ali. Não hoje. Os tiros continuavam.

•         * * *

Diego adorava os requintes aos quais o pai se dedicava. Um bom café é um deles. Uma cafeteira de Expresso Italiano sempre com dezenas de opções e variedades de grãos de café que ele moía na hora.

O café estava excelente, mas a ansiedade aumentara. Virou a xícara impaciente, sem degustar. Arrumou-se e resolveu descer até rua. Aquela inquietação desconhecida era agoniante. Por quê? A falta de causalidade aumentava ainda mais a angústia de alguém tão acostumado ao mundo de causa-efeito.

Diego salta do elevador e da portaria já ouve o barulho de algumas sirenes passando. A sensação de quem tem algo errado é cada vez mais intensa.

•         * * *

Felipe tenta manter a respiração sob controle enquanto pressiona o ferimento que continua sangrando, empoçando na laje da rua. Felipe sente que está enfraquecendo, sente medo. Tenta manter a clareza. Pensar. Os tiros parecem que pararam. Adilson é o primeiro a aparecer na sua frente.

− Puta que pariu! Que merda meu véio! , gritou Adilson assustado, enquanto digitava o celular chamando o SAMU. Ali na Cruzada todos tem o número desse telefone. Após a ligação, Adilson agacha-se ao lado de Felipe que já está bastante pálido. O tiro era de grosso calibre e atingira o lado direito do abdômen. A hemorragia era grande.

Felipe falou com a voz enfraquecida:

− Adilson, por favor, avisa meu filho.

− Você ainda mora na Rua Padre Achotegui?

Felipe confirmou com um movimento de cabeça. Percebeu que Adilson estava chorando. Isso não era um bom sinal.

Adilson arrancou um pingente do pescoço e partiu a medalha em dois:

− Fica com isso na mão e pede pela sua vida. Do jeito que você souber rezar. Pra São Jorge de Ogum. Vou dar a outra metade pro Diego.

Apenas percebeu quando os enfermeiros abriram espaço e o colocaram na maca. Tudo parecia nebuloso e distante. Os sons e vozes tinham eco. Os paramédicos fizeram alguns procedimentos ali mesmo. Ainda deu tempo de reforçar o pedido a Adilson.

Felipe apertou a metade da medalha nas mãos e começou rezar do jeito que ainda se lembrava.

Os solavancos da maca sendo encaixa na ambulância fazem com que a dor volte intensa, mas ele solta apenas um leve gemido. Ele percebe que os paramédicos estão sérios e concentrados. Apesar do tubo de oxigênio, sua respiração está acelerada e irregular. Ele tenta ficar acordado, mas as vozes e os ruídos se tornam cada vez mais distantes. Aperta a metade da medalha e faz força para coordenar os pensamentos tentando rezar. Não consegue mais manter a consciência. Sente literalmente a vida se esvaindo até desfalecer.

•         * * *

Em poucos minutos vários moradores já estavam na rua, é sempre assim quando acontece alguma coisa extraordinária nessa parte do Leblon. A Selva de Pedra tem um jeito próprio de ser. Diego continuava cada vez mais ansioso e angustiado. Tentando entender algo daquela agitação, recebe uma explicação do porteiro do seu prédio. Troca de tiros na Cruzada com um baleado grave.

Diego sentiu um calafrio percorrer sua coluna como um bisturi gelado cortando suas costas. Percebeu um homem caminhando a passos rápidos vindo da praça na direção de sua portaria e o reconhece. É Adilson, amigo do pai que jogou futebol de praia com ele e morava na... Cruzada!

Sentiu as pernas se curvarem sem forças. Não podia ser. Mas, quanto mais Adilson chegava perto, mais seu olhar deixava claro quem era o baleado. Mas, Não fazia sentido!

Adilson conhecera Diego desde que este nascera.

Chegou perto e o tirou da presença de outras pessoas.

− Diego, seu pai foi baleado. Está indo pro Hospital Miguel Couto e pediu pra você ir para lá. Eu vou com você. Mas, antes ele pediu pra você pegar os documentos dele que estão na mesinha de cabeceira.

− É grave? Perguntou Diego.

− Estava sangrando muito, mas os paramédicos não falaram nada.

Adilson toca o ombro de Diego antes que ele saísse em direção à portaria para pegar os documentos. Tira a outra metade da medalha de São Jorge de Ogum e a entrega a Diego.

− Fica com isso na mão e pede pela vida do seu pai. Reza do jeito que você souber rezar. Para São Jorge de Ogum. A outra metade está com o Felipe. Agora vai, começa a rezar desde agora.

Diego está em estado de choque e procede como um robô, agindo mecanicamente. Ele não sabe rezar. Nunca aprendeu, nunca o ensinaram. Mas, a necessidade é a mãe de todas as invenções e ele pede a São Jorge de Ogum, com todas as forças e com a fé que nunca soubera ter. O elevador chega. Ele entra, toca o número de seu andar e volta para sua reza improvisada, mas cheia de fé. Fecha os olhos e imagina o pai sorrindo como há algumas horas atrás. Consegue sentir literalmente o abraço que se deram. Sua alma se acalmou, estranhamente, se acalmou. Quando abriu os olhos, ainda estava no segundo de dez andares. Parecia haver passado muito mais tempo. Abriu a mão e a metade da medalha havia marcado sua palma, tamanha a força com a qual a apertara.

O elevador chegou ao andar e ele abriu a porta. Quando saiu da cabine e olhou para a porta do apartamento de seu pai tomou um sustou que quase o derrubou. Suas malas estavam na porta. Ele se olhou e estava com a mesma roupa de quando chegara pela manhã. O que era aquilo?

A única coisa que ainda estava ali era a metade da medalha, em sua mão marcada. Mas, não tinha tempo a perder, depois pensaria naquilo. Seu pai estava morrendo no hospital e precisava dele. Buscou a chave do apartamento no bolso e não a encontrou. As suas malas ali na porta eram desconcertantes. Por impulso, tocou a campainha e ouviu movimentos vindos do outro lado da porta. Tocou de novo. Ouviu o barulho da fechadura sendo aberta e, nesses infinitos milésimos de segundos, desejou o impossível. A porta se abriu e Felipe aparece com a cara mais assustada que ele já havia visto. Os dois se abraçam e choram. Cada um com a sua metade da medalha de São Jorge de Ogum na mão.

O antigo relógio de pendulo da sala, herança do avô, marca 8h e 06m daquela manhã.

Apenas abriram as mãos, ambos, e mostraram para o outro a sua metade da medalha. Não falaram nada. Nunca mais tocaram no assunto. Tinham medo. Nunca mais encontraram ou souberam notícias do Adilson.

- Edmir Saint-Clair

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OS LACERDINHAS

Nunca mais vi um Lacerdinha. Nem ouvi falar. Pensando bem, faz anos, talvez décadas, que não tenho notícia. O Lacerdinha era um inseto menor do que um mosquito. Mas, o Lacerdinha não transmitia doenças.

Não era um mosquito. Era um inseto pretinho que infestava o Leblon, principalmente as transversais, numa certa época do ano. Minhas lembranças deles estão ligadas à época em que morava na Rua José Linhares.

No final da tarde, eram cigarras cantando e Lacerdinhas caindo das árvores. Às vezes, nos olhos. Ardia e coçava muito! Deixava os olhos inchados e mãe preocupada.

Eles eram atraídos por roupa clara, principalmente amarela. Por vezes, atingia os olhos e provocavam irritação e ardência intensa. Esses minúsculos (mediam poucos milímetros) insetos eram chamados de Lacerdinhas, em referência a um antigo político carioca, Carlos Lacerda, governador no tempo do estado da Guanabara.

Descobrimos que eles ficavam nas folhas mais novas ainda enroladas, nas árvores. A gente as desenrolava e surgiam um monte de Lacerdinhas em seu interior.

Para mim, os Lacerdinhas despertam uma lembrança marcante. Uma história que me provoca vergonha até hoje. Eu tinha uns 5/6 anos e era acostumado a brincar na rua. Havia muitas crianças, tanto no meu prédio quanto nos vizinhos. Naquela época a maioria das casas tinha uma empregada que morava na favela Praia do Pinto ou na Cruzada São Sebastião. Quando, por algum motivo, a empregada da minha mãe levava o filho para o trabalho, no caso a minha casa, ele se tornava um amigo a mais, que passaria o dia brincando comigo, meu irmão e nossos outros amigos. Seu apelido era Bilico, o nome era Bernardo, o dia era sábado, 10 de maio de 1969, véspera do Dia das Mães. Dona Celestina e minha mãe estariam ocupadas com o almoço comemorativo do dia seguinte.

Bilico era muito gente boa, mais novo que eu um ano e mais velho que meu irmão apenas alguns meses. Era negro com os dentes grandes e brancos. Era tímido, mas engraçado, falava de uma maneira diferente que eu achava legal. Quando Bilico passava o dia lá em casa fazia tudo junto comigo e meu irmão; almoçava, tomava banho, brincava, lanchava, descia para brincar e era sempre divertido.

Nesse dia, Bilico chegou cedo tomou café conosco e descemos pra rua pra brincar. Sábado não tinha aula e o dia era todo nosso. Era época de Lacerdinhas.

Dentre os garotos que brincavam na rua, tinha um que era especialmente assustador para mim e meu irmão. O Arlindo era mais velho, mas não andava com os garotos da idade dele. Andava conosco, dois a três anos a menos. Nessa idade, isso faz uma grande diferença.  Gostava de nos intimidar e bater. Ninguém ficava com pena quando o pai dele aparecia chamando-o, sempre gritando e batendo nele. Também tínhamos medo do pai dele.

Nessa tarde, estávamos catando Lacerdinhas nas árvores. Abríamos as folhas e ficávamos observando os Lacerdinhas se mexendo lá dentro. De repente, o Arlindo pega uns Lacerdinhas no dedo e empurra no olho do Bilico, que observava bem de pertinho.

  Tá com fome? Toma neguinho!

Arlindo falou aquilo com mais raiva do que lhe era peculiar, todos tomamos um susto. E ele nem conhecia o Bilico...

Bilico começa a coçar o olho e a chorar com a ardência. Todos os meninos começaram a rir. Menos eu, meu irmão e o Bilico, que saiu andando e chorando na direção da portaria do nosso prédio.

Lembro que foi um sentimento estranho e desconfortável que eu nunca havia experimentado antes (anos mais tarde eu saberia que o nome era constrangimento), e que nunca me saiu da memória. Eu senti vergonha de alguma coisa que não sabia o que era.

Bilico não subiu para nossa casa, ficou num canto da portaria chorando baixinho. Falou que se chegasse lá em cima chorando e com o olho inchado sua mãe iria brigar com ele. Não queria que ele arrumasse confusão com os "filhos das madames".

Depois de algum tempo, ele parou de chorar e subimos. Pela escada. Naquela época, os empregados e "pessoas de cor" só podiam subir pelo elevador de serviço. Bilico só subia pela escada.  Quando chegamos em casa, a primeira coisa que Dona Celestina viu foi o olho do filho inchado e muito vermelho. Não falou nada, mas fechou a cara. Chamou o Bilico para a cozinha e de lá só o vimos quando eles foram embora, bem mais tarde. Lembro bem da cara de choro dele se despedindo da gente.

Aquele sábado me marcou para sempre.

No dia seguinte, 11 de maio de 1969, Dia das Mães, a casa da Dona Celestina e do Bilico pegou fogo junto com toda a favela da Praia do Pinto. Não sobrou nenhum barraco de pé.

Dona Celestina nunca mais voltou e o Bilico nunca mais veio passar o dia conosco.

Tenho saudades até hoje.

-  Edmir Saint-Clair


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A VOZ – Edmir Saint-Clair

 

De repente, ele começou a ouvir uma voz em seus em sonhos. 

A lembrança era clara porque fora completamente diferente de tudo que já havia sonhado antes.

Ficou apavorado. Acordou assustado, ainda não havia amanhecido. Sua respiração estava ofegante e demorou até saber onde estava; deitado em seu quarto, em sua cama.

Não conseguiu mais dormir, estava muito impressionado com aquela voz que não pode identificar. Não era conhecida, nem familiar, mas era aconchegante. 

Foi até a cozinha colocar água para fazer o café. Quando voltou e abriu a torneira da pia para escovar os dentes, a voz já não lhe soava tão clara, tampouco se lembrava do que ela dissera.

Quando estava na varanda tomando seu café forte, puxou pela memória que parecia se distanciar como uma gaivota no horizonte.  O nascer do sol estava lindo e meia hora depois já não se lembrava de mais de nada. A não ser que uma voz num sonho lhe causara uma impressão profunda que ele não conseguia tirar dos seus pensamentos. Esse foi o primeiro dos muitos eventos que estavam por acontecer.

O desenrolar do dia e dos afazeres terminaram por apagar completamente a lembrança. Após o almoço, não existia mais.

Duas semanas após, o mesmo evento se repetiu com uma fidelidade improvável. Sua angustia foi muito maior do que no despertar da primeira noite. A única diferença, e mais agoniante, é que nessa segunda vez conseguiu reter ainda menos detalhes do na anterior. Apenas o suficiente para se aproximar da certeza de que fora absoluta e estranhamente igual.

Dessa vez, demorou mais tempo para retornar a sua rotina sem sentir aquele incomodo esquisito e inexplicável.

Não demorou para que o evento se repetisse. Apenas alguns dias e dessa vez o impressionou ainda mais, a ponto de atrapalhar uma série de acontecimentos profissionais de sua rotina. Não conseguia se concentrar em mais nada. Naquela noite, tomou dois gr. a mais de diazepam e mais um histamínico para adormecer mais rápido. E foi dormir tentando lembrar-se de qualquer detalhe a mais sobre aquela voz. Sequer conseguia definir se era masculina ou feminina. Menos ainda sobre o que falava.

Na repetição seguinte a coisa se complicou ainda mais. Quando acordou, após o mesmo sonho, manteve-se parado na mesma posição, haviam lhe falado que isso facilitava a retenção da lembrança. Passados alguns minutos, não achou que estivesse fazendo algum efeito no seu caso. Até chegar ao banheiro e, enquanto colocava pasta de dentes na escova, resmungar:

— Se essa voz falasse quando estou acordado seria muito mais fácil entender... o vozinha burra!

Talvez por já não estar levando aqueles sonhos tão a sério, acordara de bom humor naquele dia. Até ouvir nitidamente:

— Então está certo. Você se acha capaz de me ouvir conscientemente?  Espero que sim...

Rodrigo foi encontrado desacordado no banheiro pela diarista, que o acordou tão assustada quanto ele. Acontece que, daquela manhã em que desmaiara até o dia em que foi encontrado, havia se passado três dias.  O evento se tornava mais surreal pelo fato de que a diarista havia ido trabalhar na casa de Rodrigo naqueles mesmos três dias, e ele não estava em casa. Ela limpara a casa inteira, incluindo o banheiro onde ele foi encontrado, e, definitivamente ele não se encontrava naquela casa durante aqueles dias. Na agência, ele também faltara aos mesmos três últimos dias de trabalho.

Sua última lembrança era a imagem da expressão aterrorizada de seu próprio rosto no reflexo do espelho. Ele nunca conseguiu se lembrar de nada do que aconteceu naqueles dias subsequentes.  

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ENCONTROS


"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos
 por aqueles que não podiam escutar a música."  
F. Nietzsche

Sexta-feira, saída do metrô, estação Jardim Oceânico, 7h da noite, chovendo. Ele se maldizia pela escolha de ter deixado o carro estacionado e ter pegado o metrô para ir ao centro. Sua reunião não durara nem uma hora e o custo do estacionamento teria compensado a trabalheira das baldeações. Para completar esquecera o guarda-chuva no vagão do trem. Estava aguardando não sabe o quê, para iniciar a corrida de uns 200 metros até o local onde seu carro está estacionado quando um senhor grisalho, de uns 70 anos, segura seu braço embaraçosamente e lhe fala com uma dicção perfeita e expressando-se de forma absolutamente clara e pausada:

— Daqui a exatamente duas semanas, numa mesma sexta-feira, viaje de carro para Nova Friburgo e vá até Muri, ao local da entrada da estrada de terra que leva até o lugar onde você foi mais feliz na sua vida. Você sabe onde fica. Não falte, não haverá outra chance. Esteja lá no horário que você sabe qual será.

O Senhor acabou de falar e desceu para a estação do metrô, passando pela roleta e desaparecendo entre os transeuntes.

Flávio demorou alguns segundos tentando entender o que fora aquilo. Olhou para fora e percebeu que a chuva dera uma arrefecida e resolveu correr para seu carro. Entrou, ajeitou-se e só então começou a perceber o quanto aquele estranho evento o tinha afetado. Sentiu-se muito estranho. Não havia dúvidas sobre nada do que ocorrera. Para organizar os pensamentos, resolveu refazer passo a passo os momentos desde que descera do trem e chegara à marquise na saída da estação. Lembrou-se que aquele Senhor não estava dentro da estação quando o abordou, estava vindo de fora na direção de quem vai entrar no local.

Fato número dois; ele jamais vira aquele homem na vida. O homem também não falou o nome dele. Teria aquele Senhor o confundido com alguém?

O problema é o quê aquele estranho falou.

O trajeto até em casa, no Recreio dos Bandeirantes, foi feito pela praia da barra, reserva até chegar em casa.

Quando mais pensava no que aquele velho tinha falado mais fazia sentido. Pensou que logo aquele evento surreal sairia de sua cabeça e assunto encerrado.

Nos dias seguintes aquele encontro não sai de seus pensamentos e a cada dia ele ia se lembrando de um evento específico que remontava aqueles lugares em volta de Friburgo. Até que se lembrou que o velho havia falado especificamente de Muri...

Gelou, porque não fizera logo a ligação, a palavra Muri dava significado a tudo que aquele senhor falara.

         Negou-se o quanto conseguiu a fechar aqueles elos que se encaixavam perfeitamente. Mas, não havia a menor chance de alguém além dele próprio saber sobre aquilo. Não que fosse segredo, era apenas algo muito pessoal que ele nunca revelara a ninguém.

Aos 60 anos, não se tem dúvidas de quando se foi feliz. Ele não tinha, haviam sido muitas as ocasiões, temporadas longas, outras mais curtas, mas a felicidade sempre dava o ar e o enchia com suas graças. Mas, há algum tempo perdera a paixão pela paixão. Preferia o amor pelo amor e, nessa mudança, optara por não aceitar prêmios de consolação e, também, não se prestar a sê-lo.  Por isso, sentia-se muito bem vivendo solteiro.

Os dias seguintes foram de lembranças, todas cada vez mais convergentes e direcionadas pelo que o estranho velho anunciara.  

Jane já não voltava mais diariamente aos seus pensamentos porque não mais saíra a partir do momento em que ele aventou a possibilidade de cumprir a estranha missão. Mas, o que ele deveria encontrar naquele lugar? Já o identificara como a entrada da estrada de terra que leva ao local onde ele e Jane tiveram uma casa de campo por uns quatro anos. Segundo o velho, ele deveria ir até lá e ficar esperando o quê? Jane, com certeza, não seria. Ela estava casada e feliz. Há 10 anos ele não tinha notícia alguma dela. E o que adiantaria encontrá-la à meia noite naquele local ermo e deserto? Que coisa mais louca... sem sentido...

Ele se sentia mal toda vez que chegava nessa parte daquele pensamento cada vez mais obsessivo. Quem era aquele velho maluco que o deixara tão perturbado?

A verdade é que não precisaria de nada daquilo para aumentar a confusão mental em que vivera nos últimos anos. As consequências da pandemia da Covid-19 só não foram mais graves e profundas porque ele ainda estava vivo. Mas, não tinha certeza se isso havia sido um bem ou um mal a mais. A vida não o atraía o suficiente para esperar ou desejar qualquer coisa dela.  Entendia perfeitamente como Nietzsche deve ter se sentido após anos mergulhando nas profundezas da alma humana. Entretanto, discordava do alemão, o nada era plenamente suportável após o que experimentara. Na verdade, havia minutos tão suportáveis onde o simples fato de não haver dor física ou mental já lhe gerava prazer. Não é agradável se dar conta de que o nada é o melhor estado em que poderemos nos encontrar. E, o seu nada significava, também, sem ninguém.

Impressiona como um ser humano é capaz de ir reduzindo suas necessidades de sobrevivência a ponto de precisar de muito pouco e de ninguém mais. Mas, esse esvaziamento externo cria um correspondente vazio interno. As coisas vão perdendo o valor, a importância e o sentido. Pouco a pouco não fazem mais falta. As profundezas humanas são traiçoeiras e solitárias, quem as frequenta com assiduidade perde o contato com o mundo que vive na superfície.

Não tinha mais dúvida alguma de que iria subir a serra até o local onde aquele senhor lhe disse que deveria estar.

A NOITE

Saiu do elevador direto na garagem, escura e úmida como sempre. Cheiro de garagem, não é ruim, mas também não é bom. É cheiro de garagem. Pareado o smartphone, play na playlist especial para essa viagem que ele não faz há muito tempo.

Nova Friburgo tem um grande valor sentimental para ele. Além das melhores lembranças, sempre teve uma simpatia gratuita por aquela cidade e suas redondezas, Muri, Lumiar e São Pedro da Serra. O céu de inverno e das frias manhãs de sol esbranquiçado é de um azul forte, definitivo. A ele, fala à alma.

Tinha consciência de que se alguém soubesse o verdadeiro motivo da viagem naquele dia e naquela hora, duvidariam de sua sanidade. Ele próprio vinha duvidando seriamente desde que encontrara aquele senhor na saída da estação do metrô há duas semanas. Às vezes, se perguntava se aquele encontro teria realmente acontecido.

Quando entra na ponte Rio-Niterói o trânsito já não sofre reflexo algum do rush das sextas-feiras e corre livre como nas viagens com Jane. O banco do carona é dela, naquele momento ele percebe que nunca deixara de ser.

Não consegue descrever o que está sentindo. Tantos anos passados e a sensação do carro correndo na ponte é improvavelmente agradável... como pode viver os últimos anos se arrastando na vida...como é bom sentir alguma coisa, como é bom lembrar da Jane. Quase consegue conferir de novo algum sentido a palavra felicidade. Naquele momento pode, ao menos, imaginá-la.

Como é gostoso subir a serra à noite com esse céu completamente iluminado pela lua cheia. É mágico.

Para ele não importava mais o que haveria no fim daquela viagem, o trajeto em si já lhe tirara todo o torpor mórbido que  acompanhava seus dias. 

Mas, alguma coisa muito estranha ocorrera e ainda estava acontecendo naquela noite. Sente que a cada curva suas energias e pensamentos se excitam progressivamente e de uma maneira inexplicável para quem estivera tão próximo do suicídio. Teve medo para onde aquela estrada o estaria levando. Para onde sua loucura o levaria naquela noite?

A depressão, a infelicidade profunda e a desesperança poderiam ter fabricado aquele velho na estação do metrô? Poderiam. Afinal, o que ele lhe falara não faria sentido para mais ninguém a não ser ele mesmo. O que aumentava a chance de ser produto de sua própria mente. Ele era teimoso e já que chegara até ali, iria até o fim. E, se fosse loucura, pelo menos não haveria ninguém para testemunhar seu surto.

Quando passa, o posto da polícia rodoviária está quase encoberto pela neblina sempre presente naquele horário. Às 2h da manhã o local está completamente deserto.

Pouco depois de uma grande curva à esquerda ele vislumbra a entrada de terra no mesmo lado, pouco antes da entrada para Lumiar. É ali.

Ele para no largo onde a estrada de terra que leva até a Casa Azul começa. Quando desliga o carro sente seu coração acelerar ainda mais. Não tem mais idade para suportar aquele ritmo cardíaco por muito tempo. Salta do carro buscando um pouco mais de ar e para esticar as pernas depois da viagem.

O local está completamente deserto, com era de se esperar, ali não há nada. Volta para o carro e deita o banco, tentando compassar a respiração e controlar aquelas descargas de adrenalina. O suor é tão intenso que encharca sua camisa, suas extremidades estão frias e azuladas. Uma dor aguda percorre todo seu braço esquerdo, a dor no ombro esquerdo aumenta e paraliza seu braço. Faz um esforço e consegue alcançar os dois comprimidos de diazepam que restam na cartela. Toma-os e deita no banco reclinado. Após um pico de dor aguda no ombro, que reflete intensamente no peito, sente um relaxamento profundo e apaga.

De repente, acorda assustado, ainda no mesmo local, e vê um vulto saindo da pequena estrada caminhando em sua direção. É Jane sorrindo. 

Nada mais importa.

 Edmir Saint-Clair

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O MISTÉRIO DO TÊNIS DO BODE

 

 Éramos uma turma grande quando chegamos ao restaurante japonês na Av. Niemeyer, em frente ao colégio Stella Maris. Uma noite quente de sábado estava começando.

Nesse verão, a Casa encantada tinha hóspedes ingleses; Geoff, Dave, Katrina e Helen. Amigos e músicos londrinos muito queridos, ingleses com alma carioca, que vieram conhecer o Brasil. Nenhum lugar é melhor para isso, no Leblon, do que o Condomínio dos Jornalistas.

Dentre os amigos que foram se acomodando no “reservado” (era charme da época esses espaços reservados nos restaurantes japoneses do Rio) estava meu amigo Bode. Bode não, Carlinhos. Que Carlinhos? O Bode.

Para entrar no reservado é necessário tirar os sapatos e deixá-los do lado de fora da porta.  Todos acomodados, saquê já pedido, a conversa foi ficando cada vez mais animada e divertida.

Os ingleses não falavam uma palavra de português e os brasileiros nenhuma de inglês. Claro que alguns de nós falávamos as duas. Mas, no correr da noite e dos saquês isso se mostrou não ser importante.

O Bode era dos que arranhava um inglês sofrível e, a despeito disso, passaria a noite inteira em altos papos com o Geoff, que apesar de não entender português se defendia bem na mímica. O Bode era um cara que se pode chamar de “safo”. Se virava, nem sempre com sucesso, na maioria das situações perigosas. Tinha uma coragem de aventureiro, era um desbravador nato. E, trapalhão... Era o único da galera com coragem para saltar de qualquer altura, às vezes a aterrissagem é que não era o que se pode chamar de sucesso. Mas, do chão nunca passou. Não foi à toa que sua vocação o transformou num voador profissional algum tempo depois.

Todos ali dentro daquele reservado interagiam como amigos de infância. Alguns eram. Impressionante como saquê melhora a fluência em inglês e português. Os ingleses estavam rindo como se entendessem as piadas, e os brasileiros também!

Em mim, a sensação era que a cidade inteira estava sorrindo. Eu estava morando em Londres desde o ano anterior e vim passar o carnaval no Rio de Janeiro trazendo os ingleses.

O Mito, meu parceiro musical e amigo de infância do Leblon, também morava em Londres e veio no mesmo bonde.

Olhei em volta e todos ali naquele reservado me eram muito queridos. Minha irmã estava ali, rindo e transbordando alegria como sempre. Meu compadre Dedé, Mito, Tuca e nosso querido Bode. Amigos importantes uns para os outros. O tempo se encarregaria de me mostrar que aquele se tratava de um momento raríssimo e, por isso, inesquecível.

Fartos de comida e saquê pedimos a conta para partir para outra etapa da noite. Conta paga abrimos a porta do reservado, nos sentamos nuns degraus para calçar os respectivos sapatos. Todos calçados, de pé. Menos o Bode que, com um dos pés do tênis na mão, andava pra lá e pra cá procurando o outro pé. A princípio ninguém se deu conta, mas com o passar do tempo, e da procura, nada foi achado... O Bode foi ficando nervoso e revirava tudo em volta, em busca do tênis Reebok importado de cano alto, última moda no Rio em 1986.

O gerente do restaurante mobilizou outros funcionários e a procura foi caprichada. E, nada foi achado. O gerente não sabia o que fazer ou falar, a gente ria de sentir dor na barriga e o Bode revoltado com o roubo do pé do tênis dele. Quando mais ele e os funcionários se movimentavam pelo restaurante mais engraçada a cena ficava.

O gerente chegou a perguntar para ele:

− O Senhor Tem certeza que chegou com o tênis aqui?

− Não Senhor, eu saí de casa calçando só um pé do tênis, olha como fica bonito!

O gerente e todos tiveram que concordar que não fazia sentido. E rimos mais ainda, e até ele mesmo riu quando respondeu. Era tão surreal a situação que o gerente ficou amigo e riu junto.

Por fim, o gerente deu-lhe um cartão e prometeu que se o tênis não fosse encontrado o restaurante o reembolsaria. O Bode era um cara do bem e da paz, e quando estávamos nos dirigindo aos carros estacionados ele já estava de bom humor e rindo junto com a gente. A imagem dele, naquela noite, caminhando com um pé calçado e o outro descalço é inesquecível. Coisas que só aconteciam com o Bode. Bode não, Carlinhos. Que Carlinhos? O Bode.

- Edmir Saint-Clair

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NOITE DE NATAL

 

Seu pai o despertou lhe dizendo que era o dia de retirar os pontos. Dia 24 de dezembro, mas ele não tinha a menor ideia. Acordou e permaneceu deitado, tudo estava muito estranho. Ele se sentia muito estranho. Não tinha noção de que dia era aquele, nem de quanto tempo havia dormido, o que, até aquele momento, pensava ter sido um sono normal. Nunca se sentira daquela forma. O corpo fraco, tremolo, a cabeça não encontrava um ponto de equilíbrio sobre seu pescoço e parecia pender para os lados. Uma intensa coriza começou a escolher-lhe pelo nariz.

Passou a mão no rosto e sentiu o curativo grande no supercílio direito. Lembrou-se do acidente. Um pensamento racional no meio daquele caos mental o fez dar-se conta que havia passado muito mais tempo do que imaginava.

Levantou-se com dificuldade.  Quando deu por si já estava deitado no banco de trás do carro do pai. As superquadras de Brasília possuem  quebra molas enormes e sua cabeça sente cada solavanco. Deve estar resfriado, ainda bem que trouxe um rolo de papel higiênico para dar conta dessa coriza horrorosa. Quando assua o nariz sente uma pontada aguda na cabeça e ouve um barulho vindo de dentro do crânio.

Quando o pai para na entrada do Hospital das Forças Armadas, mal consegue saltar do carro, no que foi ajudado por não sabe quem.

Apoiando-se no bom samaritano, foi conduzido até a entrada do prédio, enquanto seu pai fora estacionar o carro. Ouvia sua cabeça fazer uns barulhos esquisitos, nunca havia sentido aquilo. Seu nariz escorria numa coriza que nunca tivera antes. De repente, ouve uma voz elevar-se com autoridade:

- Tragam uma maca imediatamente para esse rapaz!

Era um médico e o rapaz era ele.

Deitaram-no numa maca que chegou junto com seu pai que vinha do estacionamento.

Ele não tinha a menor ideia do estava acontecendo, estava confuso e assustado. Sentiu-se frágil e indefeso. Não parecia um pesadelo, parecia real.

O médico lhe fez algumas perguntas que seu pai o ajudou a responder. Só então se deu conta de que dormira mais de uma semana e não se lembrava de nada do que acontecera nesse ínterim. A não ser de ter acordado num dia, com um dor lancinante na cabeça onde levara 10 pontos depois do impacto no chão que  lhe rasgou o lado direito da testa. Lembrou que gritou e que pediu para seus pais o levassem para um hospital. Porque  não o fizeram?  E ele dormiu mais alguns dias.

Não se lembrava de ter acordado nenhuma vez. Não se lembrava de como comera, bebera água, como fora ao banheiro ou como fizera qualquer outra coisa. Um ser humano não sobreviveria por uma semana sem cumprir essas necessidades fisiológicas. Era como se aqueles dias não tivessem existido. Mas, se ele estava ali naquele no hospital, com certeza aqueles dias existiram, pensou.

Deitado na maca, foi se lembrando do acidente e dos momentos consequentes, quando foi levado ao hospital para ser atendido e onde o costuraram o rosto.

Lembrou-se que, naquele momento, já sentia que havia acontecido alguma coisa mais grave com o seu cérebro e pediu que tirassem um raio-X do local da batida (ano 1975 - século XX). Em vez disso, sua mãe convenceu os médicos de que ele estava apenas muito “nervoso” e exagerando o ocorrido, e em vez do exame, lhe aplicaram um calmante endovenoso que o fez dormir e acordar somente uma semana depois (pelo menos era assim na memória dele) naquela maca, esperando para fazer o mesmo exame que ele tanto pedira.

Porque não acreditaram quando ele se queixou da estranha sensação que sentira no cérebro assim que chegou ao hospital, no dia do acidente?

Porque razão sua mãe não acreditara nos graves sintomas dos quais se queixara durante aquele trajeto pra o hospital, logo após o violento choque de seu crânio com o chão? 

Quando viu seu pai e o médico que o socorrera na entrada se aproximando pelo imenso corredor, foi percebendo que a expressão de ambos era de tensão.

O pai se antecipou ao médico e falou:

- Você vai ter que ser internado.

- O que eu tenho? Perguntou assustado.

O médico tomou a palavra:

- Está com suspeita de fratura de crânio e ruptura da dura-máter. O líquido que estava saindo do seu nariz é o líquido que envolve e estabiliza o cérebro. A dor que você está sentindo é a pressão do ar que entrou quando o líquido saiu. Da mesma forma que o ar entra numa garrafa quando derramamos o líquido.

Antes que ele perguntasse ou esboçasse qualquer reação, um enfermeiro começou empurrar a maca em direção à sala de raios-X.

Ele estava muito assustado, com medo de morrer. Aos 19 anos, nunca havia passado por nada tão sério com relação à saúde ou a acidentes graves. Tudo aquilo que o médico acabara de lhe falar soava muito perturbador.

Os exames foram feitos e confirmou-se o diagnóstico inicial.

Foi levado para o andar da neurologia no HFA e instalado em um quarto branco, estéril e modernoso.

O médico regulou sua cama hospitalar para que a inclinação da cabeça ficasse num ângulo exato e devido. Ele não poderia se levantar para nada, absolutamente nada. Tampouco poderia se virar para os lados, na cama. Deitado de barriga para cima, sem poder ver televisão, ler ou qualquer outra atividade que pudesse exigir, mesmo que minimamente, esforço para o seu cérebro inchado. Não poderia sair daquela posição nem quando estivesse dormindo.

Veio à noite. Ele não acreditava no que estava vivendo. A chuva intensa que começou a cair e a escorrer pelo vidro da janela parecia tornar aquela noite ainda mais surreal. Uma tristeza que ele não conhecia começou a tomar conta de tudo.

A tempestade fez com que as linhas telefônicas parassem de funcionar, o que não era raro naquele tempo, isolando-o ainda mais da vida.

Naquela noite de Natal suas únicas companhias foram o medo da morte, a solidão, o abandono e a ausência doída de todos que amava. E as lágrimas lhe caíram até que o sono o vencesse.

Nunca entendeu porque sua mãe, seu pai e seus irmãos o  abandonaram, daquela forma, durante um momento tão grave e crítico, quando acabara de saber que corria perigo de morte.

Naquele Natal, quando ele mais precisava, todos estavam ausentes, ocupados comemorando em família.

Nunca mais gostou do Natal.

 - Edmir Saint-Clair

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