RÁDIO 101 SMOOTH JAZZ - N.Y.

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O MISTÉRIO DO TÊNIS DO BODE

 

 Éramos uma turma grande quando chegamos ao restaurante japonês na Av. Niemeyer, em frente ao colégio Stella Maris. Uma noite quente de sábado estava começando.

Nesse verão, a Casa encantada tinha hóspedes ingleses; Geoff, Dave, Katrina e Helen. Amigos e músicos londrinos muito queridos, ingleses com alma carioca, que vieram conhecer o Brasil. Nenhum lugar é melhor para isso, no Leblon, do que o Condomínio dos Jornalistas.

Dentre os amigos que foram se acomodando no “reservado” (era charme da época esses espaços reservados nos restaurantes japoneses do Rio) estava meu amigo Bode. Bode não, Carlinhos. Que Carlinhos? O Bode.

Para entrar no reservado é necessário tirar os sapatos e deixá-los do lado de fora da porta.  Todos acomodados, saquê já pedido, a conversa foi ficando cada vez mais animada e divertida.

Os ingleses não falavam uma palavra de português e os brasileiros nenhuma de inglês. Claro que alguns de nós falávamos as duas. Mas, no correr da noite e dos saquês isso se mostrou não ser importante.

O Bode era dos que arranhava um inglês sofrível e, a despeito disso, passaria a noite inteira em altos papos com o Geoff, que apesar de não entender português se defendia bem na mímica. O Bode era um cara que se pode chamar de “safo”. Se virava, nem sempre com sucesso, na maioria das situações perigosas. Tinha uma coragem de aventureiro, era um desbravador nato. E, trapalhão... Era o único da galera com coragem para saltar de qualquer altura, às vezes a aterrissagem é que não era o que se pode chamar de sucesso. Mas, do chão nunca passou. Não foi à toa que sua vocação o transformou num voador profissional algum tempo depois.

Todos ali dentro daquele reservado interagiam como amigos de infância. Alguns eram. Impressionante como saquê melhora a fluência em inglês e português. Os ingleses estavam rindo como se entendessem as piadas, e os brasileiros também!

Em mim, a sensação era que a cidade inteira estava sorrindo. Eu estava morando em Londres desde o ano anterior e vim passar o carnaval no Rio de Janeiro trazendo os ingleses.

O Mito, meu parceiro musical e amigo de infância do Leblon, também morava em Londres e veio no mesmo bonde.

Olhei em volta e todos ali naquele reservado me eram muito queridos. Minha irmã estava ali, rindo e transbordando alegria como sempre. Meu compadre Dedé, Mito, Tuca e nosso querido Bode. Amigos importantes uns para os outros. O tempo se encarregaria de me mostrar que aquele se tratava de um momento raríssimo e, por isso, inesquecível.

Fartos de comida e saquê pedimos a conta para partir para outra etapa da noite. Conta paga abrimos a porta do reservado, nos sentamos nuns degraus para calçar os respectivos sapatos. Todos calçados, de pé. Menos o Bode que, com um dos pés do tênis na mão, andava pra lá e pra cá procurando o outro pé. A princípio ninguém se deu conta, mas com o passar do tempo, e da procura, nada foi achado... O Bode foi ficando nervoso e revirava tudo em volta, em busca do tênis Reebok importado de cano alto, última moda no Rio em 1986.

O gerente do restaurante mobilizou outros funcionários e a procura foi caprichada. E, nada foi achado. O gerente não sabia o que fazer ou falar, a gente ria de sentir dor na barriga e o Bode revoltado com o roubo do pé do tênis dele. Quando mais ele e os funcionários se movimentavam pelo restaurante mais engraçada a cena ficava.

O gerente chegou a perguntar para ele:

− O Senhor Tem certeza que chegou com o tênis aqui?

− Não Senhor, eu saí de casa calçando só um pé do tênis, olha como fica bonito!

O gerente e todos tiveram que concordar que não fazia sentido. E rimos mais ainda, e até ele mesmo riu quando respondeu. Era tão surreal a situação que o gerente ficou amigo e riu junto.

Por fim, o gerente deu-lhe um cartão e prometeu que se o tênis não fosse encontrado o restaurante o reembolsaria. O Bode era um cara do bem e da paz, e quando estávamos nos dirigindo aos carros estacionados ele já estava de bom humor e rindo junto com a gente. A imagem dele, naquela noite, caminhando com um pé calçado e o outro descalço é inesquecível. Coisas que só aconteciam com o Bode. Bode não, Carlinhos. Que Carlinhos? O Bode.

- Edmir Saint-Clair

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UM NATAL INESQUECÍVEL

 

           Há alguns anos não festejava o Natal na minha casa encantada, o apartamento 1004 do Amarelo, no Condomínio dos Jornalistas, no Leblon. Apesar de morar no Rio, sempre passava as festas com a família, em Brasília. Naquele ano não fui.

No dia 24 de dezembro, acordei angustiado, era a primeira vez que não sentia a agitação característica desse dia especial acontecendo na casa dos meus pais. A árvore de natal armada na sala com direito a pisca-pisca ligado dia e noite. Esse ano a luzes não estavam piscando nem tinha árvore e eu senti falta. Eu já me achava adulto, mas, com certeza ainda não era. Aquele dia estava sendo uma experiência totalmente nova para mim. Um dia como eu nunca havia vivido antes.

     Para suprir aquela inquietude, resolvi chamar uma galera para levar um som lá em casa, depois das comemorações natalinas familiares. O combinado foi começar por volta de uma hora da manhã.

Desde cedo, a agitação no meu andar começou, como sempre, com as portas abertas dos apartamentos da Dona Letícia e da Dona Élida, exalando cheiros deliciosos de assados e outros quitutes. Logo que saí no corredor fui intimado a comparecer às duas ceias, que, no meio da noite, se fundiam numa só. Prometi que não faltaria, seria a primeira parada depois da ceia na casa da Dona Lila, mãe do Dedé, que já havia me convidado desde que soubera que eu passaria sozinho.

O transcorrer da véspera de Natal no Condomínio dos Jornalistas era uma festa desde que o dia nascia.

Chegavam pessoas de todos os cantos para os encontros familiares. Pessoas que, normalmente, não frequentavam as áreas comuns o faziam nesse dia, e o clima de festa se instalava.

O bar do Seu Antônio e da Dona Maria ficava lotado. Seu Joaquim não parava um minuto no sobe e desce pelos apartamentos do condomínio, abastecendo-os de cerveja e refrigerantes. Até o forno industrial do bar era cedido, gratuitamente, para alguns moradores e ficava lotado de assados.

 Era possível sentir no ar a harmonia que reinava.

 Minhas lembranças são de uma comunhão geral. Não havia quem passasse e não fosse recebido com um Feliz Natal, ao qual sempre retribuía contagiado pelo mesmo entusiasmo. Era dia de desejar felicidades a qualquer pessoa que entrasse no Jornalistas.  

A sensação era de que os corações floresciam. Em nenhum outro dia do ano havia tantos sorrisos.

Passar na casa dos amigos para as felicitações era uma tradição do Jorna e, naquela noite, a comilança foi interminável. Voltei para a minha casa, completamente empanturrado das melhores comidas de Natal que se pode imaginar. Fiz um tour gastronômico por todos os pratos típicos da culinária brasileira. Acho que foi naquele dia que comecei a ter barriga...

Apesar da saudade, naquele primeiro Natal que passei sem minha família, várias outras mães, pais e irmãos me acolheram. Não me senti sozinho um minuto sequer nem naquele dia, nem naquela noite.

Passadas as comemorações familiares, era hora da festa na minha casa encantada, o 1004. O primeiro a chegar foi o Dedé com um digestivo salvador. Logo vieram Abelha, Bode, Mito, Marquinho e a violada começou cada um no seu instrumento e eu com o lendário violão do Sig.

Não demorou para que os astros da noite também chegassem: Babalu, Kássio, Mário Japão, Cláudio Urubu e o Tuca. E foram chegando mais amigos e amigas e mais amigos de amigos e mais amigas de amigas e gente que eu nunca tinha visto antes. Porque era natal.

Fechamos a noite todos cantando e tocando juntos, acompanhando nosso amigo Cláudio Urubu em sua música mais bonita, em parceria com Raul Seixas, declarando ao mundo que íamos todos “... ficar com certeza Malucos Beleza”.

Acho que ficamos.

Edmir Saint-Clair

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MISTER

Sábado era o dia mais animado da nossa semana. Eu e meu irmão acordávamos ainda mais cedo que nos outros dias. Eu tinha dez anos e ele oito.

Chegávamos ao clube logo depois que abria e em menos de 15 minutos todos os amigos também já tinham chegado. Éramos sócios e amigos de todos os funcionários da AABB da Lagoa, que nos conheciam pelo nome. Nosso dia inteiro era para jogar bola, ping-pong, tênis, ir à piscina e, em algum momento, almoçar juntos, mais de 10 moleques cheios de energia e idéias de jerico, fazendo muita bagunça no restaurante do clube. Sem pais nem responsáveis para olhar nossas irresponsabilidades. Resumindo, liberdade pra fazer o que quiséssemos o dia inteiro até as 10 da noite, quando os pais começavam a chegar para nos buscar.

Voltávamos sempre dormindo no banco de trás do carro. Exaustos. Lembro de acordar sendo carregado por meu pai até em casa. Com certeza, nessas noites, o pensamento que me vinha a minha cabeça antes de adormecer era o desejo de que o próximo sábado chegasse rápido.

Domingo sempre acordava mais tarde e mais preguiçoso. Esse acordou diferente. Meu irmão me balançou avisando que nossos pais queriam conversar com a gente. Na mesa do café, meu pai nos avisou que assim que acabassem as aulas do semestre nos mudaríamos para Uruguaiana, no Rio Grande do Sul.

Foi a primeira vez na vida que senti o tempo passar mais rápido. Eu não queria que o dia de ir embora chegasse.

Num dos primeiros dias de julho minha mãe nos acordou bem cedo, nos arrumamos, tomamos café e descemos para a garagem. Meu pai já estava dentro do carro nos esperando. Foi a primeira vez que me lembro de reparar mais atentamente o lugar onde morava. Exatamente quando estava indo embora. O Leblon, cheio de árvores, e a Lagoa ao amanhecer me eram familiares, mas dali pra frente tudo seria novidade. Meu irmão começou a chorar. Lembrei dos sábados, do colégio e da praia, e comecei a chorar também.

− Isso é saudade... Revelou-nos minha mãe.

Não gostei de sentir isso.

A viagem de carro foi de descobertas e encantamentos. Passamos por três estados que não conhecíamos até chegar ao Rio Grande do Sul, sem pressa. Meus pais eram bem jovens e sabiam aproveitar uma viagem. Tudo era novo. Os hotéis onde pernoitávamos, os estados, as cidades, as florestas de pinheiros, os campos enormes e o frio!

Meu pai calculou a viagem de forma que na última perna a distância nos permitisse chegar no meio do dia a Uruguaiana.

 Meu pai calculava muito bem. Minha primeira viagem foi por 2.000 km de novidades e foi quando percebi que o mundo era muito maior e mais bonito do eu imaginava. E olha que eu já era bom imaginador. Sentia-me o tempo todo fazendo parte de uma aventura. Minha mãe era excelente explicadora do mundo e, também, do que eu e meu irmão sentíamos. Ela sempre tinha um nome bonito para o que a gente estava sentindo. Durante a viagem minha mãe nos contou um monte de coisas que sentíamos, mas não sabíamos o nome. Ela também previa o futuro e nos disse que ainda tinham muitas coisas legais pela frente.

 Depois de almoçarmos, já no centro de Uruguaiana, fomos para a Vila Militar, onde ficava nossa nova casa. Nunca havíamos morado em casa, só em apartamento.

Meu pai parou o carro na entrada da garagem. Quando ele saltou para abrir o portão eu e meu irmão pulamos do carro, excitados com tanta novidade. Fiquei olhando, ainda por fora do muro, àquela casa de dois andares, garagem, quintal grande e duas árvores frondosas e cheias de galhos bons para subir. Antes que entrássemos pelo portão, um cão adulto, tipo Collie, só que maior e mais forte, começou a brincar e entrou junto conosco pela primeira vez na casa. Meus pais nem repararam ocupados em retirar as malas do carro, eu e meu irmão fomos para o quintal explorar e brincar com aquele cão dócil, alegre, grande e bonito, mais bonito que a Lassie.

A vila militar ocupava um quarteirão inteiro. As casas rodeavam esse quarteirão e tinham duas entradas, a da frente que dava pra rua e a de trás, que dava direto para a parte interna do quarteirão, onde havia uma enorme área gramada comum a todas as casas. Esse centro era um grande espaço aberto com campo de vôlei, futsal, tênis e o melhor, a maior parte era de grama e árvores. Daquelas que dão pra subir até o alto. Cheias de galhos. Frondosas. Eu, meu irmão e o cão andamos por todos os cantos daquele parque particular. Descobrindo um mundo novo, totalmente diferente do Leblon. Até o jeito de falar das pessoas era outro. Ficamos imaginando um monte de coisas pra fazer no Campinho. Era assim que era chamado aquele parque particular.

Quando começou a anoitecer voltamos para casa, empolgados com aquele espaço enorme que seria nosso quintal dali pra frente. Nunca tínhamos podido ir tão longe sozinhos. E o cão nos seguindo o tempo todo, nos sentíamos os donos dele. Brincamos de mudar de direção enquanto andávamos e o cão mudava também. Quando entramos pelo portão de casa, o cão entrou conosco, como se aquilo fosse absolutamente rotineiro. Entramos pela cozinha e fomos até a sala, onde meu pai colocava lenha na lareira. A casa tinha lareira! E meu pai sabia muito de lareira apesar de nunca ter tido uma. Meu pai sabia muito de tudo. Fiquei hipnotizado pelo fogo. Meu pai me olhou sorrindo, ele sabia o que eu estava sentindo. Os pais sempre sabem. E olhou também para o cão ao meu lado. Fez um aceno com a cabeça na direção do cão e respondi que não sabia de quem era. Ele chamou o cão que obedeceu e se derreteu com os afagos dele. Meu pai também gostava de cães. Combinamos que o cão dormiria fora da casa, dentro do campinho. Ele achava que o cão deveria ser de alguma outra família dali e durante a noite voltaria para os seus donos. Eu e meu irmão fomos juntos com ele deixar o cão no portão.

Naquela noite, quando saí do banho, descobri porque a casa tinha lareira. Tudo parecia um filme. Até o meio da noite, quando todos acordaram morrendo de frio, os quartos ficavam no segundo andar e a lareira era na sala de baixo. Fomos todos dormir na sala, em frente à lareira e abraçados embaixo dos cobertores. Minha mãe fez meu pai prometer que compraria aquecedores elétricos para todos os cômodos na manhã seguinte. Sorte dele que a casa não era grande. Adorei o frio. Ele nos fez dormir abraçados, todos juntos em frente à lareira.

A manhã seguinte nos ensinou que mais frio que uma noite fria de inverno no sul do Rio Grande do Sul é a manhã que vem depois dessa noite. Acordei já tremendo, embaixo de uns três cobertores e abraçado a minha mãe, enquanto meu pai tentava acender novamente a lareira. Ele tinha calculado mal e o fogo apagara precocemente. Quase congelamos. Mas meu pai sabia reacender lareiras e em pouco tempo voltamos a dormir. Quando acordamos de novo, meu pai já havia saído para comprar aquecedores.

Nunca tinha imaginado que era possível fazer tanto frio. Tínhamos acabado de chegar do Rio de Janeiro e isso era completamente novo pra gente.

Antes de tomarmos café eu e meu irmão fomos até o portão que dava para o campinho e lá estava o cão deitado em frente. Saltou para dentro do quintal e começou a fazer muita festa. Nunca havíamos tido um cão, muito menos daquele tamanho, nem caberia no apartamento onde morávamos no Rio. Tomamos café e fomos direto para o campinho, o cão veio junto. Não saía do nosso lado para nada. Estávamos apaixonados por ele e ele por nós. Quando voltamos para o almoço, meu pai já havia posicionado um aquecedor em cada cômodo. Perguntou sobre o cão. Contamos a estória. Ele explicou que o cão deveria pertencer a alguma família da vila ou das redondezas. Novamente quando anoiteceu fomos deixá-lo do lado de fora da casa. Só que dessa vez do lado que dava para a rua e não para o campinho. Fora desse lado que ele aparecera. O cão saiu e sentou-se na porta do lado de fora.

Essa noite dormimos todos bem aquecidos, cada um na sua cama. Como bônus pela noite anterior, eu e meu irmãos fomos dispensados do banho. Antes de dormir ficamos conversando sobre o cão. Estávamos encantados e começamos a imaginar que ele poderia ser nosso. E se ele não tivesse dono?

Quando adormecemos o cão já se chamava Mister.

No dia seguinte, Mister continuava na porta e entrou assim que abrimos. Meu pai estava tomando café e nos contou que um segurança noturno da vila lhe dissera que ele tinha dormido a noite inteira no portão. E aumentou ainda mais nossa esperança de que ele fosse mesmo nosso quando contou que o vigia também dissera que trabalhava ali há anos e nunca havia visto aquele cão. Da vila ele garantiu que não era.

Meu pai nos contou isso enquanto brincava com o Mister. Meu pai adorava cães e tinha uma sensibilidade especial no trato com eles que sempre o adoravam também. Meu pai sabia muito de cães.

− Mister é?... Gostei, disse ele.

E assim o Mister foi oficialmente batizado.

Nos fins de semana seguintes fomos os quatro, eu, meu pai, meu irmão e o Mister, passear pelas ruas próximas. Meu pai nos explicara que se ele fosse de alguma daquelas casas, ou alguém o reconheceria ou ele reconheceria alguém ou alguma das casas.

Ele era um cão bem tratado, grande, forte e adulto. Um belo cão. Um ovelheiro, como eles chamam ali na fronteira gaúcha. Um pastor de ovelhas. Ele tinha os caninos marcados como se tivessem sido serrados na ponta ou algo parecido. Descobrimos que isso acontecia para que não machucassem as ovelhas mais novas, informação dada pelas pessoas com quem meu pai conversara em busca de informação sobre o cão e seus possíveis donos.

Nosso encantamento pelo Mister só aumentava. Ele tinha que ser o nosso cão. Um pastor de ovelhas de verdade. Estava na cara que meu pai também queria.

Ele aceitou depois que eu e meu irmão prometemos que não íamos ficar frustrados se o dono aparecesse de repente. Prometemos sem hesitar um segundo, apesar de nenhum dos dois ter a menor idéia do que significava “frustrados”. Não importava. Depois perguntaríamos para minha mãe.

A partir desse dia foi oficializada a entrada na família daquele grande companheiro que marcaria para sempre nossas vidas.

- Um belo cusco! Segundo todos que o conheceram.

Descobrimos que lá eles chamam cachorro de cusco.  Chamam batida de carros de “peixada”.  Nunca consegui entender o porquê...

Garoto era guri ou piá. Em menos de um mês eu já estava falando Bah! Tchê! E chamando os guris da vila pra brincar. Foi lá que comecei a me aproximar das gurias e a me sentir atraído por elas.

 Em Uruguaiana não tinha televisão nessa época. No Rio, National Kid era uma das melhores coisas da minha semana, passava todas as sextas-feiras quando eu voltava do colégio. Mas, não me lembro de ter sentido falta um dia sequer.

Lá aprendi a gostar de chimarrão. Tinha 10 anos e, geralmente, criança acha o gosto muito amargo. Eu gostava. Tinha minha cuia e gostava de ficar no quintal olhando o Mister e bebendo chimarrão. Nas manhãs frias, ficava na varanda do quarto olhando a paisagem branquinha coberta com a fina camada de gelo da noite geada. Era tudo muito diferente, uma grande aventura, como um filme. Para um menino do Rio, acostumado com o modo de vida de uma cidade cosmopolita, era um mundo totalmente novo. Entre o Leblon e Uruguaiana, eu descobri que o mundo era muito maior do que eu jamais imaginara.

Meu pai servia no 8⁰ Regimento de Cavalaria, o que significava que podíamos montar a cavalo com regularidade. No Rio, meu pai servira no Regimento Andrade Neves, na Vila Militar, que também é de cavalaria e foi onde eu e meu irmão aprendemos a montar.

Minha estréia na equitação gaúcha não foi das melhores. A primeira vez que eu e meu irmão fomos, com o grupo de filhos de oficiais da vila, para montar no quartel, foi inesquecível e hilário.

O sargento que dava treinamento para a gurizada deu, para mim e meu irmão, os dois cavalos mais mansos do quartel, por precaução, já que era nossa primeira vez em terras da fronteira. Nem preciso dizer que os guris de lá pareciam que tinham nascido em cima de um cavalo. Mas, eu e meu irmão, apesar de ainda tímidos, estávamos acompanhando direitinho. Até que meu cavalo, branco, chamado Kibon, começou a corcovear do nada. Estávamos no campo de Pólo do quartel, um espaço enorme e gramado. Consegui me manter em cima do cavalo apesar dos solavancos, e logo ele parou com a intervenção do sargento. Eu não havia caído, mas com o corcovear eu saí da cela e fui parar no pescoço do cavalo. Quando ele parou, calmante abaixou o pescoço e eu desci escorregando de cara no chão. Sorte que era grama. Saí fisicamente ileso e moralmente arrasado. Pelo menos, consegui conquistar a gargalhada e a amizade de todos ali. Passei a ser conhecido como o Carioca que caiu do Kibon, o cavalo mais manso do 8⁰ Regimento de Cavalaria. O Mister estava lá e foi o primeiro a me socorrer no chão com suas lambidas.

O Mister já estava nos esperando na porta de nossa casa desde o momento em que chegamos do Rio e ficaria conosco até o dia em que fomos embora, chorando.

Nunca soubemos de onde ele veio.

- Edmir Saint-Clair

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A DESPEDIDA

  

Eu faria 17 naquele ano e era feliz. O verão dourava a pele e a vida corria fácil. Até o dia em que meu pai chegou do trabalho e falou sem a menor cerimônia:

− Vamos morar em Brasília. 

Ouvi claramente, mas a ficha demorou a cair. Ninguém naquela mesa de jantar esboçou reação alguma. O silêncio foi sepulcral. Respirei fundo, levantei-me e percorri o caminho até sair pela porta de casa anestesiado. Estava em choque. O pensamento seguinte foi nos amigos, nas meninas e nos meus planos. Definitivamente, deles não constava morar em Brasília. Não sabia como lidar com aquela enxurrada de emoções e sentimentos que fervilhavam por todo meu corpo.

A partir daquele instante minha vida mudaria para sempre e,  por algum motivo, eu percebi isso com uma clareza assustadora. 

 Resolvi que não contaria aos amigos. Não por enquanto. De preferência nunca.

Não sabia porquê. Talvez por receio de que eles não sentissem a mesma tristeza que eu estava sentindo.

O primeira a saber me surpreendeu por sua reação. Ficou triste e demonstrou. Fiquei mais triste ainda. Não esperava essa reação, ele era um gaiato, fazia piada com tudo. Mas dessa vez não fez. As coisas estavam mudando. 

Os amigos e amigas foram cúmplices de momentos de tristeza e outras emoções desconcertantes e inéditas que me aconteceriam dali pra frente, típicos daqueles melodramas adolescentes baratos que eu detestaria não ter vivido pessoalmente. Se por um lado a tristeza era presente, por outro, nunca havia me sentido tão querido por todos.

Na noite véspera de Natal, depois de passarmos a meia-noite cada um em sua respectiva casa dos pais, fomos nos encontrar na casa do Marquinho. Cada um de meus amigos, em separado, me falou alguma coisa carinhosa que marcaria aquela noite de forma indelével.

Antes de voltar pra casa, caminhei sozinho pela praia da minha cidade chamada Leblon. Caminhei por minha infância, meus primeiros amigos na Rua José Linhares, na Bartolomeu Mitre, por minha adolescência no Campestre, no Santo Agostinho, no Clipper, no BB lanches, Balada Sumos, Petit Fours... Cada rua com suas muitas histórias. Minhas.

O tempo começou a passar mais rápido. E nunca mais passaria devagar.  

        Dia da partida. Pedi a todos que não fossem ao aeroporto, que se despedissem de mim ali mesmo, na praia. Há semanas eu me despedia, estava cansado, muito cansado. O vôo para Brasília estava marcado para o final da tarde. Acordei cedo e a primeira coisa que pensei foi nos meus óculos escuros. Me demorei na cama, me demorei no banheiro, me demorei.       

Desde o dia em que soube que iria embora, começara a prestar mais atenção em tudo e em todos que me rodeavam a vida toda e que até aquele momento eram apenas parte da paisagem diária. Desde o porteiro até os portugueses do bar, Seu Joaquim e Seu Antônio. Não posso esquecer-me da D. Maria! 

Parecem os nomes mais óbvios para personagens caricatos de portugueses donos de Botequim no Rio. Mas, esses são de pessoas absolutamente reais que tinham exatamente esses nomes. E, são ainda mais peculiares do que qualquer personagem fictício já criado. Uma das coisas que eu sempre achei curioso demais neles, era o fato de, durante anos a fio, encontrar com eles tarde da noite, depois de fecharem o bar, andando muito lentamente pela rua principal do Leblon, e sempre na mesma formação; o Seu Antônio na frente carregando uma sacola, seguido pela D. Maria, a uns dois passos atrás, sempre carregando mais sacolas do que ele. Um hábito curioso e estranho. Eles não andavam juntos. Eles andavam separados, indo para o mesmo lugar. Eram casados e já aparentavam idade.

O terceiro sócio do bar, o Seu Joaquim, era um capítulo à parte. Completamente lesado. Ele era tão confuso que alguns sacanas davam uma nota de cinco para pagar algo de 10 e ainda levavam troco. 

O certo é que naqueles dias tudo e todos haviam adquirido um significado especial e já faziam parte da minha saudade. Parei no bar para comprar cigarros e até a atrapalhação do seu Joaquim com o troco, que sempre me irritava, desta vez me provocou ternura. Cheguei à praia mais cedo que o de costume e caminhei pela areia, perto do mar, até o final do Leblon. Como sempre fizera, mas nunca como naquela manhã. Eu começara a trilhar um caminho que ainda não conhecia.

Passara toda minha vida naquelas areias sob os olhares dos gigantes de pedra que, agora, pareciam estar tristes por minha partida. Os gigantes eram 2 Irmãos. Meus irmãos. 

Olhei, tentando reter aquela imagem, fotografá-la, aprisionar na memória cada detalhe daquelas montanhas sagradas. Fixar-me naquela paisagem, imprimi-las na parte mais profunda do meu ser, me agarrando a elas como se fossem desaparecer no minuto seguinte.

Caminhando de volta, comecei a encontrar os amigos. Ritinha foi a primeira a me encontrar, ela me fizera sentir amado naquele verão, quando o sol dourou nossa pele e nos fez feliz. Meus amigos foram chegando aos poucos e, um a um, sentaram-se ao meu lado, calados. Cada um com suas pranchas, mas ninguém dentro d'água. Uma incomum formação visual de garotos e pranchas alinhados na beira do mar da praia do Leblon. Todos calados ao meu lado.

Despedi-me e fui para casa, estava difícil ficar ali.

Chegou à hora. Entrei no carro e fomos para o Aeroporto do Galeão. Meus pais e irmãos. Ao chegar à entrada, a primeira coisa que vi foram meus amigos, tinham ido de surpresa no carro do Bode (Bode não Carlinhos! Que Carlinhos? O Bode) e na Kombi lotada do porteiro de um dos prédios do Condomínio dos Jornalistas. Foi um dos momentos mais emocionantes que vivi em toda minha vida. Como foi bom vê-los. Uma emoção profunda. Inesperada, comovente, inesquecível. 

Eu sabia que estava vivendo um dos momentos mais marcantes da minha vida. Uma consciência da importância daquele momento, da eternidade daqueles instantes.

 Meu desejo era abraçar todos ao mesmo tempo e nunca mais ir embora dali, viver para sempre no saguão do Aeroporto do Galeão. Mas, eu tinha que ir embora.

A vocês, meus amigos e amigas, minha mais profunda gratidão por me fazerem sentir tão querido e tão amado. Vocês, assim como os gigantes de pedra, estarão para sempre em minhas lembranças e em minha alma eternamente. À você, doce Ritinha, obrigado pelo desmaio no aeroporto, por seu carinho e pelo seu lindo coração. 

Muito Obrigado pelo amor de todos vocês.

Uma semana depois eu estava de volta. 

Mas, minha vida nunca mais foi a mesma.


- Edmir Saint-Clair

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O MOMENTO EM QUE A FELICIDADE ACONTECE

 

Uma relação leve e espontânea parecia estar surgindo e ela não queria acelerar aquela evolução que acontecia tão naturalmente. Era gostoso e divertido toda vez que se encontravam, o que estava se tornando cada vez mais frequente. Ela adora a liberdade que a solteirice proporciona. Já fizera a felicidade dos pais, da família, das amigas e a sua própria, realizando o casamento que todos esperavam, inclusive ela mesma. Agora, sentia-se livre. 

A separação fora sem sobressaltos e menos tristeza do que ela imaginava e gostaria. De lá pra cá, pequenos namoros sazonais a satisfaziam plenamente, acordar ao lado de alguém tornara-se tão raro quanto indesejado, fazendo com que ela confundisse um pouco as coisas depois daquele delicioso café da manhã servido na cama.

         Mas, deu-se conta que só conseguia sorver plenamente aquele momento com a leveza da alma que acorda já descobrindo-se desperta, exatamente pela raridade da ocasião, pela conjunção improvável e aleatória; momentos que redimem a vida e justificam o caos. Quando a mágica maior acontece.

O momento onde o nosso desejo se encontra com a gente e se realiza com a cumplicidade de alguém especial. Uma comunhão de tudo.

É preciso aprender a perceber quando a vida está dando certo e acertando em cheio. 

É preciso saber se sentir feliz no momento em que a felicidade está acontecendo. É indescritível. E raro.

Edmir Saint-Clair

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NO ÚLTIMO MOMENTO

 

Ele acordou com o barulho de vozes na porta de seu quarto. Morava com os pais, apesar da idade e de não precisar economicamente. Mas, ao contrário do que isso poderia parecer, nunca se dera bem com seu pai. Uma situação estranha.

Olhou o celular para ver às horas, 05h00min da manhã. Há anos eles não acordavam a essa hora. Só faziam isso quando iam viajar ou fazer exames. Janeiro, pouco depois do ano novo, tanto uma coisa quanto a outra eram plenamente viáveis. Voltou a dormir.

Acordou às 11 da manhã. Ainda tomando café, foi até o quarto dos pais. Nada indicava que tivessem viajado. Ao contrário, tinha algo estranho. Não demorou a pensar que seria pouco provável que seu pai viajasse deixando portas de armário abertas e cama do casal desfeita. Estranho, mas poderiam estar atrasados e não tiveram opção a não ser deixar tudo desarrumado mesmo.

O dia passou, a noite chegou e alguma coisa parecia estranha. Pouco depois das 10h da noite, recebeu um telefonema da sobrinha avisando que o avô estava no hospital, no CTI. Ficaria lá por alguns dias e não tinha previsão de alta.

O pai tivera um acúmulo volumoso de liquido na cavidade torácica, que provocou uma violenta compressão no coração e pulmões, pressionando-lhes perigosamente.

− O Senhor deve estar se sentindo muito mal, uma sensação de sufocamento. Seu coração está tão pressionado que mal consegue bater. Vamos resolver isso, fique calmo. Disse a médica visivelmente preocupada.

O pai foi submetido aos cuidados emergenciais necessários, lhe drenaram o líquido descomprimindo os órgãos. Ficaria no CTI,  visitas somente alguns dias depois.

Os irmãos já haviam chegado de suas cidades atuais e estavam todos aguardando na ante-sala do centro intensivo, que dava entrada para os leitos na ampla sala, onde ficavam os boxes e seus respectivos pacientes. Um Centro de Terapia Intensiva de grande porte. O médico veio conversar com a família, a mãe ficou lá dentro, ao lado do pai, no leito. Nesses dias em que o pai está no CTI, ela fica no quarto que está reservado para ele quando for transferido. O evento havia sido gravíssimo e poderia tê-lo morto não fosse pela condição excepcional de saúde que sempre tivera. Se seu coração não fosse tão forte, não teria resistido. Sua saúde sempre fora invejável e motivo de orgulho próprio, mesmo aos 79 anos.

Agora, ali naquele CTI, parecia totalmente abatido. Ele nunca vira o pai daquele jeito. Tão fraco e tão frágil. Pelo lado de fora da janela da porta que dá acesso aos leitos, ele pode vê-lo sem que o pai pudesse vê-lo de volta. Sentiu uma compaixão intensa, profunda e surpreendente. Também sentiu pena.

Não trocavam palavra há 10 anos. Mas, não se entendiam desde muito antes, do início da adolescência. Ele nem se lembra mais quando, depois dos 12 anos de idade. Uma relação conflituosa e problemática, que fora piorando conforme o tempo foi passando.

Uma relação pai e filho presumem boas experiências juntos, é uma relação que marca e determina profundamente nossos destinos. Nesse caso, essa relação nunca aconteceu. Um muro foi se erguendo, tijolo a tijolo, e hoje parecia intransponível. Uma sucessão de erros que determinaram o rumo de uma relação que, só começou a parar de piorar, a partir do momento em que ele deixou de dirigir a palavra e de sequer fazer menção de ter ouvido quando o pai se dirigia a ele.

Com o tempo, o pai também não se dirigia mais a ele. Sua mãe era a porta-voz. Aquilo fora necessário para interromper aquela tensão cada vez mais insuportável. Com a aquiescência da mãe, a partir desse silêncio, a princípio unilateral, hoje reinante, a tensão se dissipara.

 O silêncio e a ausência total de interação entre os dois trouxe uma paz que jamais haviam experimentado na convivência. Não havia discórdia, não havia cobranças. Não havia nada além das presenças físicas que transitavam em silêncio pelo longo corredor, eventualmente, na sala ou na cozinha. Silenciosos e ignorando a presença do outro. Há tempos não se respeitavam tanto. Nunca a relação dos dois fora tão pacífica e tranqüila.

A sensação de paz o levou a evitar cada vez mais cruzar com o pai. O amplo apartamento facilitava a missão. Com o tempo, só saía do quarto pela manhã para o trabalho e voltava pelas dez da noite entrando direto para o quarto. A partir desse horário era ainda mais tranquilo, o pai era desses que dormem e acordam cedo. Os horários se encaixavam perfeitamente. Não era raro passarem-se dias sem que se vissem.

O mais estranho. É que ele voltara a morar na casa dos pais após a última separação, a princípio por algum tempo apenas, já aos quarenta anos. Acontece que o tempo foi passando e prolongou-se por 10 anos até desaguar naquele momento.

Ele sempre se sentira com motivos de sobra para não falar com o pai há tanto tempo. Sua mãe concordava com a atitude, por ela, ele já deveria ter parado de falar até antes. Era estranho que não tivesse saído da casa há tempos. Tinha condições financeiras para isso.

O fato é que desde aquele dia até hoje, havia se passado 10 anos.  Imediatamente, ele deteve aquele raciocínio e deixou-se levar apenas pela intuição. Estava confuso, preferia ficar quieto. A proximidade da morte de uma pessoa que sempre parecera imortal era muito complicada. Ele não sabia como reagir. Não pensou em perdão ou qualquer coisa parecida. Tinha muitos problemas com essa palavra. Não pensou.

Em alguns dias, o pai havia ido para um quarto espaçoso e confortável, de um bom hospital particular, e todos os filhos, inclusive os que moravam fora do Rio, estavam na casa da família onde todos cresceram juntos. O clima era triste, mas com muito carinho entre os irmãos que se apoiavam mutuamente.  

Pela manhã, chegou o resultado da biópsia: câncer no pulmão, estágio III de IV.

Quando se viu sozinho, pela primeira vez, desde que soube do resultado, surpreendeu-se com a própria serenidade. Apesar de chocado, impactado pelo inesperado, estava estranhamente sereno. Muito, pelo imponderável da situação. O pai sempre fora forte levava uma vida confortável, sem preocupações e sua única atividade diária obrigatória era jogar vôlei com os amigos na praia. Fazia check-ups periódicos com uma regularidade elogiável.

Acho que se divertiam quando saíam para fazer exames. Estavam sempre repetindo o programa.

O pai tinha o mesmo bronzeado em qualquer época do ano. Aposentado e com uma vida tranqüila e bem amparada, fruto de seu trabalho, se tornara uma pessoa que mudara o comportamento nos últimos anos. Torna-se um homem mais sociável, bem humorado e com um círculo de amizades que lhe proporcionava uma vida social com atividades freqüentes e tão intensa quando ele desejasse, já que dos convites que recebia não aceitava grande parte. Uma pessoa querida pelos amigos, que promovia churrascos e comemorações. O carinho cada vez mais explícito, dos amigos, durante todo tempo em que a doença evoluía foi comovente. As manifestações e presenças dos amigos e vizinhos só não foram mais freqüentes pela absoluta incapacidade do pai em lidar com os próprios sentimentos. Esses fatos, que ele passou a acompanhar e testemunhar mostrava que o pai era uma pessoa que conquistara a amizade, o carinho e o respeito de muita gente ao seu redor.

Então porque o pai não fora assim com ele?

Estava longe de ser um bom pai. Toda a vida lhe veio à cabeça. Decididamente, sentimento de culpa ele não tinha nenhum. Tinha motivos. E sempre. E sérios. Decidiu não tentar mais entender os motivos que o estavam levando a agir daquela forma inesperada e surpreendente para ele mesmo. Algo diferente e desconhecido assumira o controle.

Passou a se interessar, acompanhar, ajudar e incentivar o pai diariamente, dedicando um carinho que ele não acreditava que ainda pudesse existir naquela relação. O pai lhe devolvia na mesma moeda, do seu jeito. Evitando a emoção. Mas, mostrando amor e carinho como nunca mostrara.

E foi assim pelos 10 meses seguintes, até aquela noite no quarto do hospital, no qual ele havia sido internado pela segunda e última vez.

Estavam todos os filhos e a mãe. Como faziam todos os dias desde essa última internação, antes dos filhos irem embora, se reuniam em volta da cama do pai numa ordem que aconteceu espontaneamente e que se repetia por esses meses: a mãe de mãos dadas com a mão direita do pai deitado, um irmão com a mão postada sobre um tornozelo e o outro irmão no outro. A irmã fechava o círculo segurando a mão esquerda, e dessa forma o envolviam para rezar o pai nosso que ele gostava.

Nessa noite, a doença avançava para seu desfecho e o pai já não falava. Ele estava ao lado perto da mão esquerda. O pai segurou-lhe a mão, olhou para ele e a apertou. Ele entendeu que o pai queria rezar e chamou os outros. Nesse momento, chamou também a irmã para que ocupasse seu lugar na mão esquerda. Nesse momento, o pai levantou levemente o braço e segurou-lhe a mão, apertando-a tão forte quanto pode deixando claro que queria que ele ficasse ali, de mãos dadas, naquela que seria a sua última reza.

Rezaram juntos, e durante todo aquele intenso momento o pai não afrouxou aquele aperto na mão nem por um segundo.

Ele entendeu com toda a clareza e profundidade aquele último gesto e sentiu-se em paz quando, oito horas depois, presenciou o pai expirar pela última vez.

Ele finalmente compreendeu porque não se mudara daquela casa e, também, porque seu pai nunca o mandara embora: apesar de não terem nenhuma interação, estarem sob o mesmo teto foi a maneira, intuitiva, que pai e filho encontraram para não se perderem para sempre.

O choro foi triste, mas foi leve.

- Edmir Saint-Clair

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A MEDALHA DE SÃO JORGE

 

A ansiedade era grande. Não via o filho há tempo demais. Saudade apertando, mais ainda quando faltam poucas horas para revê-lo. Diego não quis que Felipe fosse pegá-lo no aeroporto por conta da falta de previsão de tempo nas esperas entre conexões. Estava vindo de Beijing, depois de cinco anos na China.

Felipe resolveu descansar um pouco, a ansiedade desses últimos dias havia sido desgastante. Deitou-se no sofá da sala e adormeceu. Passara a noite acordado, ansioso, pensando na volta do filho. Agora, cedia ao cansaço.

A campainha toca insistentemente. Ele levanta assustado e, ato reflexo, corre para a porta.

O antigo relógio de pendulo da sala, herança do avô, marca 8h e 06m da manhã. Abre a porta.

− Diego... Dá um abraço filhão...

Diego abraça o pai com força e saudade iguais e intensas. Um abraço longo, aconchegante e familiar. Pai e filho que se querem tão bem quanto é possível. Surfistas, rubro-negros e cariocas. Um extenso rol de afinidades. Amor.

Felipe pega uma das malas enquanto o filho às outras. Pelo volume da bagagem, veio de vez. Tomara, pensou.

Vôos internacionais sempre chegam cedo pela manhã. A tempo de aproveitarem e brincar um pouco nas ondas do final do Leblon. Felipe mostra a Diego a prancha que mandou fazer de presente para o filho.

Diego fica emocionado com a recepção e o carinho do pai, e lhe dá mais um daquele demorado e saudoso abraço. Tem orgulho do pai. A felicidade dos dois é transbordante. Aqueles momentos em que o sorriso não sai do rosto e parece que nunca vai sair. Olhar para o outro alimenta ambos os sorrisos. E o silêncio completa.

− Ele é meu filho. Pensou.

− Ele é meu pai. Pensou o filho no mesmo exato milésimo daquele silêncio sagrado. Certas emoções são grandes demais, não cabem em palavras.

A felicidade acontecia explicitamente naquele momento, pai e filho desfrutando a plenitude da presença do outro.

Combinaram que Diego ia dormir um pouco, viajara mais de 30 horas. Estava exausto.

Felipe deu um beijo na testa do filho e saiu do quarto.

Diego não acordaria antes das 14h, ele tinha 6 horas pela frente. Seria bom almoçarem em casa para que Diego pudesse acordar com calma e sem pressa. Lembrou-se da feijoada de sábado do Degrau que sempre comeram desde que o filho era pequeno e ainda não gostava.  Depois da separação, a feijoada tinha se tornado programa obrigatório dos dois. É a pedida perfeita para hoje.

Ele volta até a porta do quarto do filho. Mas não a abre. É só a alegria que não está cabendo.

Uma feijoada e depois uma boa remada no mar de final de tarde de outono. A luz mais bonita do Rio de Janeiro.

Seria perfeito se tivéssemos um baseado para fumar antes do surf. Há anos não fumava. Fumar um baseado com o filho tem um significado especial. Não é um consumo de drogas doentio. É um ritual. O preconceito é uma lente mal construída que torna tudo mais feio. Uma lente de enfeiar o mundo.

Havia algum tempo que Felipe não comprava maconha, e tinha perdido o contato com os eventuais fornecedores do bairro. Geralmente, uma meia dúzia de amigos, moradores do Leblon mesmo, que vendem para amigos.  Ou, a velha opção da vida toda, a doleta da Cruzada. Pequenas quantidades, geralmente um cigarro, vendido a varejo. Nessa altura do fim de semana, se quisesse fumar um baseado antes da praia com o filho, teria que recorrer à Cruzada. Tudo bem, ali é tranqüilo, pensou. Riu sozinho, a última vez que foi na Cruzada comprar um baseado deve ter sido há, pelo menos, uns 25 anos atrás.

Diego voltou três dias antes de completar 30 anos. Um adulto, profissional com formação altamente especializada. Apesar de sempre ter tido um quarto na casa do pai, não importa com quem o pai estivesse casado, só haviam morado juntos nos primeiros dois anos da vida dele. Época da qual, obviamente, não se lembrava. Depois, eram fins de semana, férias e feriados, como todo pai separado. Pouco antes de viajar para a China, passaram onze meses juntos. O maior tempo que passaram até então. Os melhores também.

Felipe mora Rua Padre Achotegui, na Selva de Pedra. A Cruzada fica a um quarteirão. Antes, resolve passar no Degrau e deixar a feijoada reservada para viagem, e garantir que nada saísse errado. A feijoada de sábado do Degrau é concorrida no bairro e costuma acabar cedo. A idéia é, em vez de saírem para comê-la no restaurante, ele a servirá em casa, para que Diego acorde com toda calma e a coma na maior preguiça que conseguir.

Já na praia, depois de passar no Degrau, Felipe percebe que está ansioso e atribui à excitação pela chegada do filho. Ele já chegou, mas ele anseia por conversarem e, realmente, se reencontrarem. O que o intriga é que ele não costuma ficar ansioso nessas ocasiões. Pensava já ter vencido esse fantasma. Considerava-se uma pessoa bastante calma. Uma chopinho no Clipper iria afastar aquela sensação estranha, com certeza. Onze da manhã de sábado, há essa hora é certo que não iria beber sozinho.

•         * * *

Diego não conseguia parar de se mexer na cama, inquieto. Acordou incomodado, achou que fosse o frio do ar condicionado e se cobriu mais. Olhou a hora no celular, 11 horas da manhã. Dormira apenas 3 horas... Isso não costumava acontecer. Geralmente, dormia 6 horas ininterruptas de um sono calmo. Sempre agradecia mentalmente o pai tê-lo introduzido na prática da meditação desde cedo. Atribuía a isso sua calma e equilíbrio. Mas, não naquele momento. Ainda cansado e sem conseguir adormecer novamente, sentia uma sensação estranha, ansiedade. Rolou na cama até o cansaço vencer. Adormeceu.  Mas, o sono não seria repousante.

•         * * *

Felipe terminou o segundo chope, a conversa com amigos da vida toda, sobre a chegada de Diego, é lógico, fizera o tempo passar mais leve. Mas, nem tanto. Enquanto esperava a conta, deu tempo de sentir-se estranho de novo, ansioso, tenso. Ele não era assim, nunca fora e não havia motivo para sê-lo naquele momento. Menos mal, o tempo passara meio-dia em ponto. Hora de passar na Cruzada. Despediu-se e partiu.

•         * * *

Diego acorda sobressaltado de um sono rápido e agitado. Olha o celular, meio-dia. É certo que não conseguiria mais dormir, e ficar na cama seria pior. Atribuiu a angústia à excitação da chegada, ao fuso horário e a tudo junto, pensou. Não estava acostumado a sentir aquela inquietação interna remexendo seu estômago. Não estava acostumado a sentir a sensação de ansiedade, sem motivo, sem sentido. Detestava se sentir confuso. Havia algo diferente e errado.

•         * * *

Felipe atravessou a Ataulfo de Paiva e seguiu descendo a Carlos Góes na direção da Selva de Pedra. Virou à direita na Humberto de Campos e seguiu na direção da Cruzada.  Quando parou no cruzamento com a Av. Afrânio de Melo Franco, notou que a porta da Delegacia estava movimentada. Nunca se preocupara com isso, não seria hoje... Pensou.

O sinal abriu e ele atravessou. Chegando esquina oposta, viu Adilson acenando e saindo da Igreja Santos Anjos, ele acenou de volta. São amigos desde pequenos, jogaram juntos no time de futebol de praia e muitas peladas no Condomínio dos Jornalistas. Distanciaram-se quando chegaram à vida adulta. Hoje, Felipe é arquiteto e Adilson motorista numa empresa estatal. Tem estabilidade no emprego e continua a morar na Cruzada, no apartamento que herdara dos pais. Apesar de ter tido amigos ali, Felipe entrara poucas vezes naquela comunidade. No Leblon, geralmente, algum desses amigos que moravam lá, pegavam os baseados para os outros que não moravam. Faziam “um vôo pros amigos”. Sempre foi assim.

A certa altura de uma conversa formal, Felipe pergunta se Adilson poderia pegar uma Doleta. A reação foi inesperada.

Adilson mostrou-se visivelmente contrariado. Por certo momento, ofendido.

− Felipe, sempre achei você um cara legal. Gosto de você... Temos quase 50 anos, nunca mais me peça isso. Nossas vidas são muito diferentes. Vamos guardar as boas lembranças. O tempo passou. Não tenho nada a ver com drogas, nem quero ter.

O constrangimento mútuo foi bastante incomodo. Os dois se conheciam desde pequenos. Naquele instante, uma distância nunca antes percebida deu-lhes um tapa na cara. A distância que sempre fingimos que não existia, como todos no Leblon, se escancarou ali na esquina da Igreja Santos Anjos.

Deram-se um aperto de mão e Adilson pôs-se a caminhar na direção de sua casa, a Cruzada.

Felipe demorou alguns minutos tentando compreender o que ocorrera. Ficou parado, na esquina, olhando Adilson que já ia vários metros à frente. Sentiu-se envergonhado. Mas, não sabia ao certo por que.

Recuperou-se quando lembrou que Diego o estava esperando. Teria que entrar na Cruzada para comprar. Voltou a caminhar, cuidando para não ir nem rápido, nem devagar demais. Normal. Não estava acostumado. Estava se sentindo agoniado, lamentava ter ofendido o amigo, mesmo que involuntariamente.

Estava passando em frente à portaria dos fundos da AABB quando viu as primeiras pessoas correndo. Em seguida, ouviu dois ou três tiros que ele não soube precisar de que direção vinham. Não sabia que lado deveria proteger. Ouviu sirenes e barulho de carros vindos da direção da delegacia, os tiros aumentaram de intensidade. Percebeu que estava no meio do fogo cruzado. Imediatamente, sentiu algo rasgando e queimando sua barriga, uma dor profunda e o sangue quente jorrando e molhando-lhe os órgãos genitais e as pernas. Caiu com as mãos na barriga e a dor arrancou-lhe um gemido alto. Como se uma flecha de aço em brasa o tivesse penetrado fundo.

Arrastou-se até um pilotis mais próximo. Era tudo que podia fazer naquele momento. Era surreal. Choro de crianças e gritos vindos de todas as direções. Os tiros continuavam, era desesperador sentir o sangue escorrer e nenhuma possibilidade de socorro. Pensou no filho e doeu-lhe a alma. Não podia morrer ali. Não hoje. Os tiros continuavam.

•         * * *

Diego adorava os requintes aos quais o pai se dedicava. Um bom café é um deles. Uma cafeteira de Expresso Italiano sempre com dezenas de opções e variedades de grãos de café que ele moía na hora.

O café estava excelente, mas a ansiedade aumentara. Virou a xícara impaciente, sem degustar. Arrumou-se e resolveu descer até rua. Aquela inquietação desconhecida era agoniante. Por quê? A falta de causalidade aumentava ainda mais a angústia de alguém tão acostumado ao mundo de causa-efeito.

Diego salta do elevador e da portaria já ouve o barulho de algumas sirenes passando. A sensação de quem tem algo errado é cada vez mais intensa.

•         * * *

Felipe tenta manter a respiração sob controle enquanto pressiona o ferimento que continua sangrando, empoçando na laje da rua. Felipe sente que está enfraquecendo, sente medo. Tenta manter a clareza. Pensar. Os tiros parecem que pararam. Adilson é o primeiro a aparecer na sua frente.

− Puta que pariu! Que merda meu véio! , gritou Adilson assustado, enquanto digitava o celular chamando o SAMU. Ali na Cruzada todos tem o número desse telefone. Após a ligação, Adilson agacha-se ao lado de Felipe que já está bastante pálido. O tiro era de grosso calibre e atingira o lado direito do abdômen. A hemorragia era grande.

Felipe falou com a voz enfraquecida:

− Adilson, por favor, avisa meu filho.

− Você ainda mora na Rua Padre Achotegui?

Felipe confirmou com um movimento de cabeça. Percebeu que Adilson estava chorando. Isso não era um bom sinal.

Adilson arrancou um pingente do pescoço e partiu a medalha em dois:

− Fica com isso na mão e pede pela sua vida. Do jeito que você souber rezar. Pra São Jorge de Ogum. Vou dar a outra metade pro Diego.

Apenas percebeu quando os enfermeiros abriram espaço e o colocaram na maca. Tudo parecia nebuloso e distante. Os sons e vozes tinham eco. Os paramédicos fizeram alguns procedimentos ali mesmo. Ainda deu tempo de reforçar o pedido a Adilson.

Felipe apertou a metade da medalha nas mãos e começou rezar do jeito que ainda se lembrava.

Os solavancos da maca sendo encaixada na ambulância fazem com que a dor volte intensa, mas ele solta apenas um leve gemido. Ele percebe que os paramédicos estão sérios e concentrados. Apesar do tubo de oxigênio, sua respiração está acelerada e irregular. Ele tenta ficar acordado, mas as vozes e os ruídos se tornam cada vez mais distantes. Aperta a metade da medalha e faz força para coordenar os pensamentos tentando rezar. Não consegue mais manter a consciência. Sente literalmente a vida se esvaindo até desfalecer.

•         * * *

Em poucos minutos vários moradores já estavam na rua, é sempre assim quando acontece alguma coisa extraordinária nessa parte do Leblon. A Selva de Pedra tem um jeito próprio de ser. Diego continuava cada vez mais ansioso e angustiado. Tentando entender algo daquela agitação, recebe uma explicação do porteiro do seu prédio. Troca de tiros na Cruzada com um baleado grave.

Diego sentiu um calafrio percorrer sua coluna como um bisturi gelado cortando suas costas. Percebeu um homem caminhando a passos rápidos vindo da praça na direção de sua portaria e o reconhece. É Adilson, amigo do pai que jogou futebol de praia com ele e morava na... Cruzada São Sebastião!

Sentiu as pernas se curvarem sem forças. Não podia ser. Mas, quanto mais Adilson chegava perto, mais seu olhar deixava claro quem era o baleado. Mas, Não fazia sentido!

Adilson conhecera Diego desde que este nascera.

Chegou perto e o tirou da presença de outras pessoas.

− Diego, seu pai foi baleado. Está indo pro Hospital Miguel Couto e pediu pra você ir para lá. Eu vou com você. Mas, antes ele pediu pra você pegar os documentos dele que estão na mesinha de cabeceira.

− É grave? Perguntou Diego.

− Estava sangrando muito, mas os paramédicos não falaram nada.

Adilson toca o ombro de Diego antes que ele saísse em direção à portaria para pegar os documentos. Tira a outra metade da medalha de São Jorge de Ogum e a entrega a Diego.

− Fica com isso na mão e pede pela vida do seu pai. Reza do jeito que você souber rezar. Para São Jorge de Ogum. A outra metade está com o Felipe. Agora vai, começa a rezar desde agora.

Diego está em estado de choque e procede como um robô, agindo mecanicamente. Ele não sabe rezar. Nunca aprendeu, nunca o ensinaram. Mas, a necessidade é a mãe de todas as invenções e ele pede a São Jorge de Ogum, com todas as forças e com a fé que nunca soubera ter. O elevador chega. Ele entra, toca o número de seu andar e volta para sua reza improvisada, mas cheia de fé. Fecha os olhos e imagina o pai sorrindo como há algumas horas atrás. Consegue sentir literalmente o abraço que se deram. Sua alma se acalmou, estranhamente, se acalmou. Quando abriu os olhos, ainda estava no segundo de dez andares. Parecia haver passado muito mais tempo. Abriu a mão e a metade da medalha havia marcado sua palma, tamanha a força com a qual a apertara.

O elevador chegou ao andar e ele abriu a porta. Quando saiu da cabine e olhou para a porta do apartamento de seu pai tomou um sustou que quase o derrubou. Suas malas estavam na porta. Ele se olhou e estava com a mesma roupa de quando chegara pela manhã. O que era aquilo?

A única coisa que ainda estava ali era a metade da medalha, em sua mão marcada. Mas, não tinha tempo a perder, depois pensaria naquilo. Seu pai estava morrendo no hospital e precisava dele. Buscou a chave do apartamento no bolso e não a encontrou. As suas malas ali na porta eram desconcertantes. Por impulso, tocou a campainha e ouviu movimentos vindos do outro lado da porta. Tocou de novo. Ouviu o barulho da fechadura sendo aberta e, nesses infinitos milésimos de segundos, desejou o impossível. A porta se abriu e Felipe aparece com a cara mais assustada que ele já havia visto. Os dois se abraçam e choram. Cada um com a sua metade da medalha de São Jorge de Ogum na mão.

O antigo relógio de pendulo da sala, herança do avô, marca 8h e 06m daquela manhã.

Apenas abriram as mãos, ambos, e mostraram para o outro a sua metade da medalha. Não falaram nada. Nunca mais tocaram no assunto. Tinham medo. Nunca mais encontraram ou souberam notícias do Adilson.

- Edmir Saint-Clair

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