Ele estava bem desanimado, apesar de ter a vida inteira para ficar desanimado. Depois de mais um dia procurando trabalho, chegou em casa cansado e com fome.
Ligou a televisão e foi esquentar café para tomar com o pão que, se ainda não era dormido, já estava bem cansado...fora comprado pela manhã. Uma reportagem chamou sua atenção para o telejornal. Na saída do turno de uma empresa, um empregado declarava ao repórter:
- A situação está difícil, nossos salários estão muito defasados. Estamos tendo que tirar leite de pedra.
Enquanto acabava de requentar o café e o pão, resmungou para a televisão:
- E eu, que ainda não tenho nem a pedra?!
Lembrou-se de Carlos Drummond...
ORIENTADOR LITERÁRIO
ANTES DA PEDRA
OS LACERDINHAS - O INCÊNDIO DA PRAIA DO PINTO
Nunca mais vi um lacerdinha. Pensando bem, faz muitos anos que nem sequer ouço falar.
O
lacerdinha tinha poucos milímetros, não voava e não transmitia doenças. Era
pretinho e infestava o Leblon, principalmente as transversais, numa certa época
do ano. Minhas lembranças em relação a eles estão ligadas à época em que eu
morava na Rua José Linhares. No final da tarde, eram cigarras cantando e
lacerdinhas caindo das árvores, às vezes nos olhos. Ardía e coçava muito,
deixava os olhos inchados e nossas mães preocupadas. Eles eram atraídos por
roupas claras, principalmente as amarelas, e, por vezes, atingiam os olhos,
provocando irritação e ardência intensas.
Esses
minúsculos insetos eram chamados de lacerdinhas em referência a um antigo
político carioca, Carlos Lacerda, que fora governador no tempo do Estado da
Guanabara.
Descobrimos
que os lacerdinhas, ainda larvas, ficavam nas folhas das árvores que estavam
enroladas e cheias de água da chuva. A gente as desenrolava e surgia um monte
de lacerdinhas pequenos em seu interior. Para mim, os lacerdinhas despertam uma
lembrança muito marcante, uma história que me provoca um sentimento muito
incômodo até hoje.
Eu
tinha uns seis anos de idade e era acostumado a brincar na nossa rua, mas só no
quarteirão, sem atravessar a via. Havia muitas crianças, tanto no meu prédio
quanto nos prédios vizinhos, que faziam parte daquela turminha de meninos da
mesma idade. Naquele tempo, no Leblon, a maioria das casas tinha uma empregada
que morava na favela da Praia do Pinto ou na Cruzada São Sebastião. Quando, por
algum motivo, a empregada da minha mãe levava o filho para o trabalho, no caso
a minha casa, ele se tornava um amigo a mais que passaria o dia brincando
comigo, com meu irmão e com nossos outros amigos. No período das férias
escolares isso era bem frequente.
Às
vezes, Dona Celestina voltava para a casa deles, na favela da Praia do Pinto, e
ele ficava e dormia lá em casa com a gente. Eu e meu irmão adorávamos a
presença dele. Era um menino doce, risonho e engraçado. Seu apelido era Bilico,
o nome era Bernardo. O dia era sábado, 10 de maio de 1969, véspera do Dia das
Mães.
Dona
Celestina e minha mãe estariam ocupadas o dia inteiro preparando o almoço
comemorativo do dia seguinte. Bilico era mais novo do que eu, um ano, e mais
velho que meu irmão apenas alguns meses. Era negro, com dentes grandes e muito
brancos. Era tímido, mas engraçado. Falava de uma maneira diferente, que eu
achava legal. Quando Bilico passava o dia lá em casa, fazia tudo junto comigo e
meu irmão. Assumia a nossa rotina: almoçava, tomava banho, descia para brincar
conosco, e era sempre muito divertido.
Nesse
dia, Bilico chegou cedo, tomou café conosco e descemos para a rua para brincar.
Era época de lacerdinhas. Dentre os garotos que brincavam na rua, tinha um que
era especialmente assustador para mim e meu irmão. O Arlindo era mais velho,
mas não andava com os garotos da idade dele. Andava conosco, que tínhamos uns
dois anos a menos. Naquela idade, isso fazia uma grande diferença. Gostava de
nos intimidar e bater. Ninguém ficava com pena quando o pai dele aparecia
chamando-o, sempre gritando e batendo nele. Nós também tínhamos medo do pai
dele.
Naquela
tarde, estávamos catando lacerdinhas nas árvores. Abríamos as folhas e
ficávamos observando as lacerdinhas se mexendo lá dentro. De repente, Arlindo
pega algumas lacerdinhas com o dedo e enfia com violência no olho do Bilico,
que os observava bem de pertinho, e grita:
—
Tá com fome? Toma, neguinho esfomeado!
Arlindo
falou aquilo com mais raiva do que lhe era peculiar. Todos nós tomamos um
susto. Ele nem conhecia o Bilico, que começou a coçar o olho e a chorar com a ardência
intensa. Todos os meninos começaram a rir, menos eu, meu irmão e o Bilico, que
saiu andando e chorando na direção da portaria do nosso prédio.
Lembro
que me veio um sentimento estranho e desconfortável, que eu nunca havia
experimentado antes. Anos mais tarde, eu saberia que aquilo se chama
constrangimento e que nunca me saiu da memória. Eu senti vergonha. Vergonha de
não ter defendido o Bilico. Ele era meu amigo.
Bilico
não subiu para nossa casa. Ficou num canto da portaria, chorando baixinho.
Falou que, se chegasse lá em cima chorando e com o olho inchado, sua mãe iria
brigar com ele. Ela recomendava-lhe sempre que não queria que ele arrumasse
confusão com os filhos das madames.
Depois
de algum tempo, ele parou de chorar e subimos pela escada. Naquela época, os
empregados e pessoas negras só podiam subir pelo elevador de serviço, mas
Bilico só subia pela escada. Tinha medo de elevadores. Quando chegamos em casa,
a primeira coisa que Dona Celestina viu foi o olho do filho inchado e muito
vermelho. Não falou nada, mas fechou a cara, chamou Bilico para a cozinha e de
lá só o vimos novamente quando eles foram embora, bem mais tarde. Lembro-me bem
da expressão de choro dele quando se despediu da gente. Aquele sábado me marcou
para sempre.
Naquela
mesma noite, um misterioso e devastador incêndio irrompeu e tomou conta da
favela onde eles moravam. Queimou por toda a madrugada e por muitas horas
seguintes, consumindo tudo e deixando centenas e centenas de famílias sem teto
e sem nada.
Era
dia 11 de maio de 1969, Domingo, Dia das Mães. A casa de Dona Celestina e do Bilico
pegou fogo e virou cinzas, junto com toda a favela da Praia do Pinto, que
queimou inteira. Não sobrou nenhum barraco de pé. Dona Celestina nunca mais
voltou.
Nunca
mais soubemos deles.
A DESPEDIDA
− Vamos morar em Brasília.
Ouvi claramente, mas custei a processar a informação. Ninguém naquela
mesa de jantar esboçou reação alguma. O silêncio foi sepulcral. Respirei fundo.
Levantei-me e percorri o caminho até sair pela porta de casa, anestesiado.
Estava em choque. O pensamento seguinte foi nos amigos, nas meninas que mal
começara a conhecer e nos meus planos, e deles não constava morar em Brasília.
Não sabia como lidar com aquela enxurrada de emoções e sentimentos que me
tomaram e fervilhavam por todo meu corpo.
A partir daquele instante minha vida mudaria para sempre e, por algum
motivo, eu percebi isso com uma clareza assustadora.
Resolvi que não contaria aos amigos. Não por enquanto. De preferência
nunca. Não sabia por quê. Talvez por receio de que eles não sentissem a mesma
tristeza que eu estava sentindo.
Mas a notícia se espalhou, meu irmão e irmã não pensavam como eu.
Meu primeiro amigo a saber me surpreendeu por sua reação: ficou triste e
demonstrou. Fiquei mais triste ainda, não esperava essa reação, ele era um
gaiato, fazia piada com tudo, mas dessa vez não fez.
As coisas estavam mudando. Os amigos e amigas foram cúmplices de
momentos de tristeza e outras emoções desconcertantes e inéditas que me
aconteceriam dali para frente, típicos daqueles melodramas adolescentes baratos
que eu detestaria não ter vivido pessoalmente. Se por um lado a tristeza era
presente, por outro, nunca havia me sentido tão querido por todos.
Meu pai tentou nos consolar, nos prometendo deixar o apartamento da família
intacto para que pudéssemos vir ao Rio sempre que possível. Num futuro muito próximo, isso faria uma enorme diferença no curso da minha vida.
Na noite véspera de Natal, depois de passarmos a meia-noite cada um em
sua respectiva casa dos pais, fomos nos encontrar na casa do Marquinho. Cada um
de meus amigos, em separado, me falou alguma coisa carinhosa que marcou aquela
noite de forma indelével.
Antes de voltar para casa, caminhei sozinho pela praia da minha cidade
chamada Leblon. Caminhei por minha infância, meus primeiros amigos na Rua José
Linhares, na Bartolomeu Mitre, por minha adolescência no Campestre (clube
tradicional do Leblon), no Santo Agostinho... Lugares icônicos do bairro e da
Cidade Maravilhosa: o bar Clipper, a lanchonete BB Lanches, Balada Sucos, Petit
Fours, Pizzaria Guanabara (Baixo Leblon). Cada rua e cada canto com suas muitas
histórias, todas partes inseparáveis de mim.
O tempo começou a passar mais rápido e nunca mais passaria devagar.
Nunca mais.
Dia da partida.
Pedi a todos que não fossem ao aeroporto, que se despedissem de mim ali
mesmo, na praia. Há semanas eu me despedia, estava cansado, muito cansado. O
voo para Brasília estava marcado para o final da tarde.
Acordei cedo e a primeira coisa que pensei foi nos meus óculos escuros.
Meus olhos já acordaram chorando. Me demorei na cama, me demorei no banheiro,
me demorei na esperança de que o tempo se demorasse também.
Desde o dia em que soube que iria embora, comecei a prestar mais atenção
em tudo e em todos que me rodeavam a vida toda e que até aquele momento eram
apenas parte da paisagem diária. Desde o porteiro até os portugueses do bar,
Seu Joaquim e Seu Antônio. Não posso esquecer-me da Dona Maria!
Parecem os nomes mais óbvios para personagens caricatos de portugueses
donos de Botequim no Rio. Mas, esses são de pessoas absolutamente reais que
tinham exatamente esses nomes. E, são ainda mais peculiares do que qualquer
personagem fictício já criado. Uma das coisas que eu sempre achei curioso
demais neles, era o fato de, durante anos a fio, encontrar com eles tarde da
noite, depois de fecharem o bar, andando muito lentamente pela rua principal do
Leblon, e sempre na mesma formação: o Seu Antônio na frente carregando uma
sacola, seguido pela Dona Maria, a uns dois passos atrás, sempre carregando
mais sacolas do que ele. Um hábito curioso e estranho. Eles não andavam juntos.
Eles andavam separados, indo para o mesmo lugar. Eram casados e já aparentavam
idade.
O terceiro sócio do bar, o Seu Joaquim, era um capítulo à parte.
Completamente lesado. Ele era tão confuso que alguns sacanas davam uma nota de
cinco para pagar algo de 10 e ainda levavam troco.
O certo é que naqueles dias tudo e todos haviam adquirido um significado
profundo e já faziam parte da minha saudade. Parei no bar para comprar cigarros
e até a atrapalhação do seu Joaquim com o troco, que sempre me irritava, desta
vez me provocou ternura. Cheguei à praia mais cedo que o de costume e caminhei
pela areia, perto do mar, até o final do Leblon. Como sempre fizera, mas nunca
como naquela manhã.
Eu estava começando a trilhar um caminho que ainda não conhecia.
Havia passado toda minha vida naquelas areias sob os olhares dos
gigantes de pedra que, agora, pareciam estar tristes por minha partida. Os
gigantes eram o morro Dois Irmãos, no final do Leblon, nossos guardiões, meus
irmãos...
Olhei, tentando reter aquela imagem, fotografá-la, aprisionar na memória
cada detalhe daquelas montanhas sagradas. Fixar-me naquela paisagem, imprimi-las
na parte mais profunda do meu ser, me agarrando a elas como se fossem
desaparecer no minuto seguinte.
Caminhando de volta, comecei a encontrar os amigos. Ritinha foi a
primeira a me encontrar, ela me fizera sentir amado naquele verão, quando o sol
dourou nossa pele e nos fez feliz. Meus amigos foram chegando aos poucos e, um
a um, sentaram-se ao meu lado, calados. Uma incomum formação visual de garotos
e pranchas de surf coloridas e alinhadas na beira do mar da praia do Leblon.
Cada um com suas pranchas, mas ninguém dentro d'água. O mar estava vazio.
Despedi-me e fui para casa, estava muito difícil ficar ali.
Chegou à hora. Entrei no carro e fomos para o Aeroporto do Galeão, eu,
meus pais e meus irmãos. Ao chegar à entrada, a primeira coisa que vi foram meus
amigos, tinham ido de surpresa no carro do Bode e na Kombi lotada do porteiro
de um dos prédios do Condomínio dos Jornalistas. Foi um dos momentos mais
emocionantes que vivi em toda minha vida. Como foi bom vê-los. Uma emoção
profunda. Inesperada, comovente e inesquecível.
Eu sabia que estava vivendo um dos momentos mais marcantes da minha
vida. Uma consciência da importância daquele momento, da eternidade daqueles
instantes.
Meu desejo era abraçar todos ao mesmo tempo e nunca mais ir embora dali,
viver para sempre no saguão do Aeroporto do Galeão. Mas, eu tinha que ir
embora.
A vocês, meus amigos e amigas, minha mais profunda gratidão por me
fazerem sentir tão querido e tão amado. Vocês, assim como os gigantes de pedra,
estarão para sempre em minhas lembranças e em minha alma eternamente.
A você, doce Ritinha, obrigado pelo desmaio no aeroporto, por seu
carinho e pelo seu lindo coração.
Muito obrigado pelo amor de todos vocês.
Uma semana depois, eu estava de volta!
A FELICIDADE
Foram
descobrindo a vida juntos numa parceria e intimidade que só a pureza de quem
nunca amara antes poderia proporcionar. Riam de seus próprios desconhecimentos
de seus corpos, tornando tudo uma brincadeira excitante, deliciosa e sem
expectativas demasiadas.
Consequência
natural, numa sociedade que não dava muitas opções, casaram-se muito cedo.
A
ascensão profissional de ambos, a leveza e a cumplicidade cresciam na mesma
proporção. Se davam bem. Combinavam sem esforço.
Num
dado momento, como em toda relação, a rotina, antes um orgulho pela
sincronização e conveniência para ambos, se instalou de uma forma perfeita
demais.
Tão
perfeita, que era impossível melhorá-la. Até as manhãs de mau humor aconteciam
em forma de revezamento, de maneira que um estava sempre são, para compensar o
descompensado.
Haviam
encontrado um ponto de equilíbrio que poucos casais conseguem alcançar. Eram a
exceção que confirmava a regra de que casamentos são feitos para fracassar.
A
relação deles contrariava a tudo e a todos.
Após
15 anos, eram os únicos do extenso grupo de amigos do bairro natal, no qual
ainda moravam, que permaneciam casados. Se juntasse com o tempo de namoro,
passava de 20 anos.
O fato
é que os amigos viviam comentando sobre a harmonia perfeita do casal, alguns
com espanto, outros com inveja e outros com elocubrações regadas a muito
álcool.
Até
que aquele “incomodo alheio" pela felicidade do casal começou a chegar até
eles, de forma fragmentada e de maneira cada vez mais incômoda e invasiva.
Emprenhados,
por fragmentos de conversas carregadas de muito veneno e servidas como
caipirinhas entre amigos, o casal foi sendo contaminado pela dúvida.
Foram
presas muito fáceis da inveja humana.
Só haviam conhecido um ao outro. A
desconfiança que começou a nascer, não foi com relação ao outro, mas com a
avaliação que cada um fazia de si mesmo.
Como poderiam
saber se realmente eram felizes tudo que poderiam ser, ou se apenas imaginavam
que aquilo era felicidade, já que não tinham nenhuma experiência que pudessem
usar como comparação ou referência.
Sempre
foram muito amigos e se prometeram a sinceridade que só a confiança extrema
comporta.
Não
tardou para que os questionamentos tomassem conta de todas as horas. Sempre
compartilhados, sem que nenhum dos dois conseguisse respostas.
Não
sabiam mais dizer se eram felizes ou se haviam entrado na perigosa zona de
conforto, última moda nas conversas psicologizadas.
E o que era leve, não era mais. Os silêncios
não eram mais os mesmos, e é no silêncio que um casal mais se entende.
Numa
conversa angustiada, mas cheia de sinceridade, sentimentos e carinho, decidiram
que deveriam se separar naquele momento, para que pudessem ter alguma chance de
se reencontrar num futuro em que já haveriam de ter suas respostas.
Mas,
não se deve deixar a felicidade nas mãos do acaso.
É
preciso abraçá-la, fazendo o impossível, para que ela nunca queira ir embora.
Nunca
mais se reencontraram e se arrependeram daquela decisão pelo resto de suas
vidas.
Edmir
Saint-Clair
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MISTÉRIO NO LEBLON
INTOCÁVEL
A multidão contemplava, embevecida, aquele show de
luz e sombras, enquanto o sol se deitava aos poucos, aconchegado pelo Dois
Irmãos. O mar, o sol e a montanha reunidos no mesmo espetáculo sublime e diário da
natureza carioca. Assim que me posicionei sobre a pedra, vi aquela garota linda
— e ela também me viu.
A partir daquele instante, fiquei alheio a tudo que acontecia
ao redor. Ela me fitava de forma acintosa e eu também. Menos de dez metros nos
separavam, além das dezenas de pessoas entre nós. Apenas nos olhávamos
fixamente, e a distância não impedia que isso fosse absurdamente evidente: nossas pupilas haviam
se conectado além de tudo e todos. Além de nós mesmos. Não sorrimos, não
piscamos, não fizemos menção alguma de nos aproximarmos — ficamos imóveis,
absurdamente focados. Como num transe profundo. Algo que eu não conhecia estava acontecendo, profundo e arrebatador.
Enquanto ainda havia luz suficiente para distinguir
traços no escuro, permanecemos ali, ligados por algo indescritível e inédito — até o sol se pôr completamente e a vida virar noite. Saímos
misturados à multidão, sem que nos encontrássemos.
Passaram-se quarenta anos.
Mais uma vez, um pôr do sol no Arpoador, num verão que só existe no Rio. Após uma vida inteiro, lá estava eu e lá estava ela. A reconheci pela luminosidade dos olhos quando cruzamos nossos olhares. Ela também.
Agora, um
homem e uma mulher já envelhecidos. Depois de toda uma vida, estávamos no mesmo
lugar, à mesma distância, diante de um momento tão sublime quanto aquele que
jamais esqueci.
Novamente, mergulhamos no mesmo transe de antes,
enquanto a natureza repetia seu espetáculo de verão. Permanecemos exatamente
como há quarenta anos.
As minhas pupilas engolidas pelas dela — e as dela
pelas minhas — à distância, saciando uma fome antiga da alma. Não nos
aproximamos. Não valia a pena tocar aquela lembrança tão bonita, profunda e
intensa com as ásperas mãos que as mazelas da vida haviam calejado .
Sabíamos que estávamos sentindo exatamente a mesma coisa. A experiência que os anos nos haviam ensinado nos fazia ter certeza disso. O mesmo sentimento habitava nossos corpos naquele momento, pela segunda vez. Intocado.
O inexplicável, o etéreo e o sublime se encontraram em nós, nos arremessando à uma dimensão singular onde nossos sentimentos se entrelaçaram num abraço de almas, num poema silencioso e perfeito escrito, com rara sensibilidade, pela magia da vida.
Até que o sol se pôs por completo, quando cada um levou o outro consigo para sempre.
Mesmo sem nunca
termos nos conhecido, sabíamos que compartilhávamos aquele mesmo sentimento inexplicável, profundo e intocável.
Edmir St-Clair
O ROUBO QUE NUNCA ACONTECEU
A partir daquele momento, ele precisaria dosar a agressividade, calma, objetividade e a rapidez. Era só seguir minuciosamente cada passo planejado.
Assim que o alvo atravessa as duas pistas da praia, vindo de sua
rotineira corrida vespertina pela orla de Leblon e Ipanema, entra na Rua
Cupertino Durão onde mora. Jair apressa o passo e rapidamente alcança o outro
lado da rua, onde o alvo tem que passar, obrigatoriamente. Encosta-se numa das
árvores, entre dois carros estacionados, e aguarda. Ninguém vindo de nenhum dos
lados. O alvo passa e é abordado de forma agressiva, não deixando margem para
reação alguma.
— Sérgio, está arma está engatilhada e pronta para disparar. Fique
quieto e preste atenção. Vamos até a sua casa, andando devagar e conversando
como dois velhos amigos. Se você fizer qualquer coisa errada morre. Ouviu?
Responde! Ouviu?!
Jair foi bastante agressivo na aproximação, não deixando espaço para
argumentações. Sérgio estava paralisado e apenas balbuciou um sim quase
inaudível.
Sempre foi uma pessoa muito medrosa. Jair continua.
— Quanto mais nervoso você ficar mais perigoso fica para nós dois. Então
fique calmo e tudo vai dar certo.
Com a arma dentro do agasalho, mas já devidamente apresentada a Sérgio,
os dois continuam a andar na direção do elegante prédio do jovem deputado.
Sobem direto, sem parar na portaria. Morador não precisa se identificar.
E, na maioria, nesses prédios, não se dá boa noite a porteiros. Sérgio mora
sozinho.
Na ampla sala, Sérgio percebe que não é um assalto comum.
Ele nunca fora dos mais corajosos, por isso estava acostumado a ser
submisso sem questionar. Jair o manda sentar-se no sofá da sala.
À essa altura, por todo o contexto percebido, Sérgio começa a desconfiar
porque Jair está ali. Ainda bastante nervoso tenta amenizar o clima.
— Fique tranquilo, pode levar o que quiser. Não vou causar nenhum
problema. Só, por favor, sem violência, pelo amor de Deus.
Sérgio tem a voz trêmula. Seu medo é visível e patético.
— Sérgio, sei que você tem meio milhão de dólares em cédulas e cheques
de viagem aqui no seu apartamento. Sei a que horas, onde, e a mando de quem
você pegou esse dinheiro. Sei que ninguém pode saber que esse dinheiro existe e
muito menos que está aqui na sua casa.
Sérgio ficou completamente branco. Pensou que seria roubado, mas aquilo
era bem mais do que isso. Definitivamente, não era um simples assalto. Havia
algo por trás.
Ainda sem entender, Sérgio percebe que Jair já não parece tão violento
quanto no início, mesmo assim não consegue parar de tremer. Sempre fora
medroso. Era óbvio que não estava lidando com um ladrãozinho pé de chinelo.
Pelo linguajar e pela postura, Jair é profissional. Talvez, das forças de
segurança. Na verdade, não fazia ideia de quem se tratava e de onde surgira
aquele homem.
Jair pega seu celular e começa a filmar Sérgio.
— Você vai gravar? Por quê?! Pergunta Sérgio.
— Se levanta e vai pegar a mala com o dinheiro. Diz Jair apontando o
celular.
Sérgio hesita: — Não está mais aqui... o secretário do senador já
pegou...
A voz de Sérgio falha e irrita Jair, que rapidamente
troca o celular pela pistola, engatilha e aponta para ele.
O corajoso deputado se transfigura apavorado, e imediatamente revela que
a mala está dentro do armário do quarto.
Jair não segura o riso. Os dois se recompõem, Jair volta a falar manso e
nota que o deputado havia mijado nas calças.
Sérgio entra em seu quarto, abre o armário, pega a mala, coloca-a sobre
a cama e a abre. Jair grava tudo ininterruptamente com o celular. Enquadrando o
quarto inteiro, alternando com closes da mala e dos retratos de família no
quarto do deputado, para caracterizar, com detalhes, onde estão naquele
momento.
A seguir, voltam para a sala e Jair continua gravando a mala aberta
sobre a mesa de jantar e a sala inteira ao fundo.
Pronto, aquele vídeo não deixa dúvidas de que aquele dinheiro esteve com
o deputado dentro de sua casa.
Jair recolhe a mala cheia de dólares. Diante do atônito e medroso
deputado mijado, recoloca seu agasalho esportivo, guarda o celular e a pistola
no bolso.
— Sérgio, agora vai ser o seguinte: daqui a duas horas vou enviar para
você, pelo seu WhatsApp, o vídeo que fizemos agora. Ou seja, eu tenho a prova
de que você estava com meio milhão de dólares em dinheiro vivo, e que,
obviamente, não tem como explicar porque vieram parar aqui sem comprometer
muita gente graúda.
Mostre esse vídeo para o seu "pessoal", porque ele também
garante que você não pode ser preso para não delatar. Ou seja, não ter
acontecido nada aqui será melhor para todo mundo.
Se eu souber que tem alguém atrás de mim, jogo esse vídeo na internet na
hora, os jornalistas vão adorar e isso vai virar o próximo escândalo nacional
da semana.
Sérgio ouviu calado.
Afinal, oficialmente, aquele dinheiro nunca existiu e ninguém poderia
reclamá-lo sem se incriminar. Não tinha nada a dizer. Não podia fazer nada. A
não ser aguardar o vídeo para garantir que continuaria vivo e interessante para
o poder que representava.
Jair saiu do prédio tranquilamente, não sem antes perguntar ao simpático
porteiro quanto estava o jogo do Flamengo contra o Botafogo no Maracanã:
— 4 x 0 para o Mengão, doutor! E ainda tá no primeiro tempo...
Era o que faltava para coroar aquela início de noite para Jair. Afinal,
como diz a sabedoria popular: ladrão...que rouba ladrão...está perdoado!
Este trecho faz parte do livro CONVERSAS NECESSÁRIAS.
Edmir Saint-Clair
ANOITECI
Meus últimos vínculos familiares haviam acabado de se quebrar. Em frente ao laptop, ouvindo o tema de Cinema Paradiso, senti o peso de minhas dores. São muitas, são todas que nunca esperei sentir, que lutei a vida inteira para não sentir, e que me levaram a desistir de sentir qualquer coisa só para não senti-las.
A música tem esse poder sobre mim, abrir minhas comportas colapsadas, fazendo-me cair diante de minhas tristezas e chorá-las. De nada adianta a raiva com que tento ocultá-las de mim. A raiva que sinto da dor e a raiva que sinto de mim por senti-las.
Não sou mais, há muito, o amante de corpo e alma se deliciando com a vida, com os encontros e com as manhãs cheias de sol. Não tenho mais luz para brilhar.
Já não gosto das manhãs, sei o que pode vir depois delas. Gosto de acordar após o meio do dia, se possível bem depois, longe das manhãs. Sou entardecer, anoitecer, não manhãs. Há muito, nada nasce em mim. Só morre.
A noite me fascina, o breu, o silêncio, o nada. Não há mais mistérios nas minhas noites, só descanso. Não há mais o que esperar das manhãs.
Anoiteci.
ACONTECEU NA VIRADA DO ANO E TODO MUNDO VIU
1 e meia da manhã, praia do Leblon.
No início da década de 1970 , todas as
praias da zona sul eram palco de um espetáculo muito, mas muito diferente dos
fogos de Copacabana e das festas sofisticadas dos dias atuais. Naqueles anos,
as praias eram tomadas pelos terreiros de umbanda.
A partir do entardecer do dia
31 de dezembro, começavam a chegar as comitivas que vinham para preparar seus
altares, e cada grupo iniciava a montagem de seu próprio terreiro na areia.
Cercavam o pedaço escolhido
com palmas brancas fincadas na areia que dessa forma, delimitavam o domínio.
Cavavam pequenos buracos, no fundo dos quais acendiam as velas que, assim,
ficavam protegidas da brisa que sempre sopra à noite, vinda do mar. Eram
centenas e centenas de pequenas velas e suas luzes ondulantes, iluminando de
forma mágica as areias, de uma praia do Leblon onde a iluminação pública amarelada não
tinha nem 10 por cento da luminosidade atual. Aquela imagem marcou minha
memória de criança, uma mistura entre a realidade e a ficção de um filme
sobrenatural.
Os pais e mães de santo, junto com seus cambonos e devotos, enfeitavam e preparavam seus terreiros de forma extremamente caprichosa, e imbuídos de uma devoção profunda e explícita.
O início da arrumação coincidia com o final das tradicionais peladas de futebol de areia, disputadas no Leblon, entre homens alcoolizados, vestidos com roupas íntimas de mulher, sob o batuque animado de uma bateria de samba organizada e regida pelo genial percursionista Oscar Bolão, bateria essa, que pouco depois deu origem a Banda do Leblon, que, por sua vez, passou o bastão para o Bloco Empurra que Pega dos dias atuais.
Esse intermezzo, do início do
pôr do sol até umas 8 horas da noite, era muito curioso.
O que acontecia, simultaneamente,
durante o lusco fusco deste dia especial, era absurdo e surreal.
Os devotos já estavam finalizando
os trabalhos de preparação dos altares, e iniciando as cerimônias que
atravessariam as madrugadas e iriam até os primeiros raios de sol do primeiro
dia do ano. Enquanto, ao mesmo tempo,
acontecia a maior bagunça da pelada de futebol de areia,
másculo-feminino, com muito consumo de álcool e de tudo mais que pode haver de
profano; estavam todos ali, lado a lado, convivendo harmoniosamente. O divino e
o profano de mãos dadas, comemorando, felizes, cada um ao seu jeito.
Naquela época, o réveillon era comemorado como se fosse uma noite de carnaval normal. E não acontecia nas ruas ou nas praias. Os bailes concorridíssimos aconteciam nos clubes, hotéis e danceterias espalhadas por todos os bairros do Rio.
Era muito diferente do que é
hoje, no século 21.
As praias eram tranquilas, era para onde as famílias iam depois de romper à meia-noite em casa.
Enquanto os adultos corriam para as festas, os pais com filhos pequenos iam passear na praia em frente de casa mesmo, a da Leblon no nosso caso, onde ficávamos caminhando e observando os rituais de umbanda e candomblé que aconteciam nas areias.
Era um terreiro a cada 3 ou 4 metros, todos cheios de gente esperando para tomar passe das pretas e pretos velhos incorporados. Era o sincretismo religioso acontecendo ali na frente de todos. A classe média, em sua maioria católica, buscava bênçãos em outra religião, ali representada pela classe mais humilde e oprimida da cidade; os pobres e pretos. Era a única ocasião que me lembro de ver pessoas brancas abaixando a cabeça humildemente para receber o passe da doméstica que trabalhava em sua casa. Ali, os papéis se invertiam.
Eu era bem pequeno e toda aquela movimentação tão extraordinária se apresentava ainda mais fantástica para a imaginação fértil de uma criança.
Fiquei muito impressionado com as pessoas que, de repente, do nada, mudavam de voz e começavam a agir estranhamente, minha mãe me explicou que aquilo é quando um espírito entra numa pessoa em transe. Me deu medo, mas a curiosidade era muito maior. O cheiro de charuto e de defumadores só não era mais forte por causa da brisa marinha. Mas, marcou em minha memória olfativa.
Meus pais compraram algumas
palmas brancas e entraram no sincretismo reinante. Meu pai deu uma palma para
cada filho e fomos jogá-las no mar, para Iemanjá. Foi divertido molhar os pés
pulando sete ondas e jogando as flores no mar. Quando estávamos voltando da
beira para a calçada, começou uma confusão. Um homem grande e forte começou a
gritar, visivelmente alterado e bêbado.
Ele olhava de forma desafiadora para os devotos dos terreiros enquanto gritava ameaçadoramente:
- Tudo isso é palhaçada!! Um monte de gente ignorante... fazendo teatrinho... fingindo "baixar o santo" ... só para enganar os trouxas...
Passou por um terreiro,
abaixou-se e pegou uma imagem do local de oferendas e saiu andando de forma
provocativa, enquanto os fiéis dos terreiros apenas o observavam sem
esboçar reação ou intenção de revide. Apenas olhavam fixamente para aquele homem abominável. E fez-se um silêncio que eu nunca ouvira antes...As ondas do mar se calaram.
Só o arrogante não percebeu
que, naquele momento, algo de muito estranho começava a acontecer...
Ele, imaginando ter dominado o ambiente, continuou bradando ainda mais impropérios quando percebeu que a imagem que roubara era exatamente a de Iemanjá.
Ele estava vestido todo de branco e talvez não soubesse que essa tradição se deve exatamente a Iemanjá.
Todas as pessoas daquele pedaço da praia pararam para ver aquele desequilibrado, arrogante, histérico e com atitudes tão desprezíveis, desafiar a fé de todos bradando em voz alta:
- Desafio Iemanjá a fazer alguma coisa para provar que existe...
E foi caminhando em direção ao mar, gritando que ia afogar Iemanjá em suas próprias águas.
Todos em volta estavam parados, acompanhando atentamente aquele espetáculo bizarro. Aos poucos, o burburinho foi silenciando, os atabaques dos terreiros parando, enquanto o homem adentrava o mar em direção à arrebentação, onde as ondas, muito pequenas naquela noite, estouravam sem oferecer risco algum. Um banco de areia fez com que o homem ultrapassasse a arrebentação ainda com água abaixo dos ombros.
De repente, surgiu uma onda do nada, assustadoramente grande e forte, e o engoliu. Apenas uma onda foi grande naquela semana inteira e foi, exatamente, aquela.
Quando após alguns minutos, o homem não voltou à tona, o burburinho na areia começou a virar gritos cada vez mais intensos e vários homens passaram correndo e mergulharam na água para socorrê-lo.
Meus pais não aguardaram o desfecho e nos tiraram
rapidamente dali, nos levando de volta para casa. Mas, fiquei com aquilo na cabeça por dias.
Pouco tempo depois, soube que não haviam achado o corpo daquele homem arrogante e
desprezível.
Aquele episódio me marcou
profundamente.
Aconteceu bem na minha
frente e me arrepio toda vez que me lembro.
Eu vi e todo mundo viu.
Este trecho faz parte do livro CONVERSAS NECESSÁRIAS.
Edmir Saint-Clair


















