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MISTÉRIO NO LEBLON

 

 Leblon, início do outono, 20h55m.

Eu acabara de sair da academia Lucinha&Cláudio, atravessara a Rua Humberto de Campos, na direção da Rua José Linhares que fica a menos de 50 metros, estava dobrando a esquina quando vi uma senhora idosa vindo na direção contrária. Ela dá uma topada na calçada, se desequilibra e começa a acelerar descontroladamente o passo. Não há como não cair.

Tento correr em sua direção para tentar ampará-la, mas, antes que chegasse perto o suficiente, surge do nada uma mulher esguia de cabelos pretos e a segura, colocando-a de pé e sumindo novamente.
Tudo não durou mais que 3 segundos.
Fiquei petrificado com a cena. Senti-me muito estranho, um desconforto cerebral extremamente desagradável. Como alguém aparece e desaparece do nada? Sim. Ela não surgiu ou foi embora correndo e foi desaparecendo. Ela apareceu e depois desapareceu, como um flash fotográfico.

A Senhora estava tão perplexa quanto eu. Quando conseguimos trocar olhares, foram de pura estupefação. Aproximei-me um pouco mais, perguntei-lhe o que tinha acontecido. Ela me relatou exatamente a mesma coisa que eu havia visto. Utilizando, inclusive, as mesmas expressões “apareceu do nada" e “Desapareceu do nada”. Ela relatou o que eu tinha presenciado com a mesma precisão de detalhes que eu percebera. Ou seja, quase nenhum. Mas, logo percebemos uma prova inequívoca do ocorrido: ela estava usando uma blusa branca de mangas compridas e haviam duas marcas de mãos onde o “ser” a segurara. Perfeitamente visíveis. Nós dois olhamos para as marcas e, em seguida, fitamo-nos com expressão de incredulidade.

Percebi que tínha visto algo extraordinário e que não havia palavras para descrever aquilo. Ficamos em silêncio por algum tempo e depois caminhamos lentamente até a entrada do prédio para onde a Sra. estava indo, na Rua José Linhares.

Despedimo-nos sem tocar mais no assunto, mas ainda visivelmente desconcertados, intrigados...

Nunca contei isso a ninguém. Nunca entendi o que havia acontecido.


- Edmir Saint-Clair


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NOITE DE NATAL

 

Seu pai o despertou lhe dizendo que era o dia de retirar os pontos. Dia 24 de dezembro, mas ele não tinha a menor ideia. Acordou e permaneceu deitado, tudo estava muito estranho. Ele se sentia muito estranho. Não tinha noção de que dia era aquele, nem de quanto tempo havia dormido, o que, até aquele momento, pensava ter sido um sono normal.

Passou a mão no rosto e sentiu o curativo grande no supercílio direito. Lembrou-se do acidente.

Levantou-se com dificuldade, a cabeça pesava muito.  Quando deu por si estava deitado no banco de trás do carro do pai. As super quadras de Brasília tem quebra molas enormes e sua cabeça sente cada solavanco. Deve estar resfriado, ainda bem que trouxe um rolo de papel higiênico para dar conta dessa coriza horrorosa. Quando assua o nariz sente uma pontada aguda na cabeça e ouve um barulho vindo de dentro do crânio.

Quando o pai para na entrada do Hospital das Forças Armadas, mal consegue saltar do carro, no que foi ajudado por não sabe quem.

Apoiando-se naquele bom samaritano, foi conduzido até a entrada do prédio, enquanto seu pai fora estacionar o carro. Ouvia sua cabeça fazer uns barulhos esquisitos, nunca havia sentido aquilo. Seu nariz escorria numa coriza que nunca tivera antes. De pente, ouve uma voz elevar-se com autoridade:

- Tragam uma maca imediatamente para esse rapaz!

Era um médico e o rapaz era ele.

Deitaram-no numa maca que chegou junto com seu pai que vinha do estacionamento.

Ele não tinha a menor ideia do estava acontecendo, estava confuso e assustado. Sentiu-se frágil e indefeso.

O médico lhe fez algumas perguntas que seu pai o ajudou a responder. Só então se deu conta de que “dormira” mais de uma semana e não se lembrava de nada do que acontecera. A não ser de ter acordado num dia, nesse ínterim, com um dor lancinante na cabeça onde levara cinco pontos depois do impacto no chão. Lembrou que gritou e pediu ajuda, para o levarem a um médico. Mas, não o fizeram, e ele dormiu mais alguns dias. 

Não se lembrava de ter acordado nenhuma vez. Não se lembrava de como comera, bebera água, como fora ao banheiro ou como fizera qualquer outra coisa. Um ser humano não sobreviveria por uma semana sem cumprir essas necessidades fisiológicas. Era como se aqueles dias não tivessem existido. Mas, se ele estava ali naquele no hospital, com certeza aqueles dias existiram, pensou.

Deitado na maca, foi se lembrando do acidente e dos momentos logo após, quando foi levado ao hospital para ser atendido e onde o costuraram cinco pontos no supercílio. 

Lembrou-se que, naquele momento, já sentia que havia alguma coisa estranha com o seu cérebro e pediu que tirassem um raio-X do local da batida (ano 1975 - século XX). Em vez disso, resolveram que ele estava muito “nervoso” e, em vez do exame, lhe aplicaram um calmante endovenoso que o fez dormir e acordar somente uma semana depois (pelo menos na memória dele) naquela maca, esperando para fazer o mesmo exame que ele tanto pedira. 

Porque não acreditaram quando ele se queixou da estranha sensação que sentia no cérebro assim que chegou ao hospital, no dia do acidente? 

Porque razão sua mãe não acreditara nas queixas que ele fez durante aquele trajeto, logo após o choque de seu crânio com o chão?

Quando viu seu pai e o médico que o socorrera na entrada se aproximando pelo imenso corredor, foi percebendo que a expressão de ambos era de tensão.

O pai se antecipou ao médico e falou:

- Você vai ter que ser internado.

- O que eu tenho? Perguntou assustado.

O médico tomou a palavra:

- Está com suspeita de fratura de crânio e ruptura da dura-máter. O líquido que estava saindo do seu nariz é o líquido que envolve e estabiliza o cérebro. A dor que você está sentindo é a pressão do ar que entrou quando o líquido saiu. Da mesma forma que o ar entra numa garrafa quando derramamos o líquido.

Antes que ele perguntasse ou esboçasse qualquer reação, um enfermeiro começou empurrar a maca em direção à sala de raios-X.

Ele estava muito assustado, com medo de morrer. Aos 19 anos, nunca havia passado por nada grave com relação à saúde ou a acidentes graves.

Os exames foram feitos e confirmou-se o diagnóstico inicial.

Foi levado para o andar da neurologia no HFA e instalado em um quarto branco, estéril e modernoso.

O médico regulou sua cama hospitalar para que a inclinação da cabeça ficasse no ângulo devido. Ele não poderia se levantar para nada, absolutamente nada. Tampouco poderia se virar para os lados, na cama. Deitado de barriga para cima, sem poder ver televisão, ler ou qualquer outra atividade que pudesse exigir, mesmo que minimamente, esforço para o seu cérebro inchado. Não poderia sair daquela posição nem quando estivesse dormindo.

Veio à noite. Ele não acreditava no que estava acontecendo. A chuva intensa que começou a cair e a escorrer pelo vidro da janela parecia tornar aquela noite ainda mais surreal. Uma tristeza que ele não conhecia começou a tomar conta de tudo.

A tempestade fez com que as linhas telefônicas parassem de funcionar, o que não era raro naquele tempo, isolando-o ainda mais da vida.

Naquela noite de Natal suas únicas companhias foram o medo da morte, a solidão, o abandono e a ausência doída de todos que amava. E as lágrimas que caíram até que o sono o vencesse.

Nunca entendeu porque sua mãe, seu pai e seus irmãos o  abandonaram, daquela forma, durante um momento tão grave e crítico, quando acabara de saber que corria perigo de morte. Naquele Natal, quando ele mais precisava, todos estavam ausentes, ocupados comemorando em família.

Nunca mais gostou do Natal.

 - Edmir Saint-Clair

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NO ÚLTIMO MOMENTO

 

Ele acordou com o barulho de vozes na porta de seu quarto. Morava com os pais, apesar da idade e de não precisar economicamente. Mas, ao contrário do que isso poderia parecer, nunca se dera bem com seu pai. Uma situação estranha.

Olhou o celular para ver às horas, 05h00min da manhã. Há anos eles não acordavam a essa hora. Só faziam isso quando iam viajar ou fazer exames. Janeiro, pouco depois do ano novo, tanto uma coisa quanto a outra eram plenamente viáveis. Voltou a dormir.

Acordou às 11 da manhã. Ainda tomando café, foi até o quarto dos pais. Nada indicava que tivessem viajado. Ao contrário, tinha algo estranho. Não demorou a pensar que seria pouco provável que seu pai viajasse deixando portas de armário abertas e cama do casal desfeita. Estranho, mas poderiam estar atrasados e não tiveram opção a não ser deixar tudo desarrumado mesmo.

O dia passou, a noite chegou e alguma coisa parecia estranha. Pouco depois das 10h da noite, recebeu um telefonema da sobrinha avisando que o avô estava no hospital, no CTI. Ficaria lá por alguns dias e não tinha previsão de alta.

O pai tivera um acúmulo intenso de liquido na cavidade torácica, que provocou uma violenta compressão no coração e pulmões, pressionando-lhes perigosamente.

− O Senhor deve estar se sentindo muito mal, uma sensação de sufocamento. Seu coração está tão pressionado que mal consegue bater. Vamos resolver isso, fique calmo. Disse a médica visivelmente preocupada.

O pai foi submetido aos cuidados emergenciais necessários, lhe drenaram o líquido descomprimindo os órgãos. Ficaria no CTI,  visitas somente alguns dias depois.

Os irmãos já haviam chegado de suas cidades atuais e estavam todos aguardando na ante-sala do centro intensivo, que dava entrada para os leitos na ampla sala, onde ficavam os boxes e seus respectivos pacientes. Um Centro de Terapia Intensiva de grande porte. O médico veio conversar com a família, a mãe ficou lá dentro, ao lado do pai, no leito. Nesses dias em que o pai está no CTI, ela fica no quarto que está reservado para ele quando for transferido. O evento havia sido gravíssimo e poderia tê-lo morto não fosse pela condição excepcional de saúde que sempre tivera. Se seu coração não fosse tão forte, não teria resistido. Sua saúde sempre fora invejável e motivo de orgulho próprio, mesmo aos 79 anos.

Agora, ali naquele CTI, parecia totalmente abatido. Ele nunca vira o pai daquele jeito. Tão fraco e tão frágil. Pelo lado de fora da janela da porta que dá acesso aos leitos, ele pode vê-lo sem que o pai pudesse vê-lo de volta. Sentiu uma compaixão intensa, profunda e surpreendente. Também sentiu pena.

Não trocavam palavra há 10 anos. Mas, não se entendiam desde muito antes, do início da adolescência. Ele nem se lembra mais quando, depois dos 12 anos de idade. Uma relação conflituosa e problemática, que fora piorando conforme o tempo foi passando.

Uma relação pai e filho presumem boas experiências juntos, é uma relação que marca e determina profundamente nossos destinos. Nesse caso, essa relação nunca aconteceu. Um muro foi se erguendo, tijolo a tijolo, e hoje parecia intransponível. Uma sucessão de erros que determinaram o rumo de uma relação que, só começou a parar de piorar, a partir do momento em que ele deixou de dirigir a palavra e de sequer fazer menção de ter ouvido quando o pai se dirigia a ele.

Com o tempo, o pai também não se dirigia mais a ele. Sua mãe era a porta-voz. Aquilo fora necessário para interromper aquela tensão cada vez mais insuportável. Com a aquiescência da mãe, a partir desse silêncio, a princípio unilateral, hoje reinante, a tensão se dissipara.

 O silêncio e a ausência total de interação entre os dois trouxe uma paz que jamais haviam experimentado na convivência. Não havia discórdia, não havia cobranças. Não havia nada além das presenças físicas que transitavam em silêncio pelo longo corredor, eventualmente, na sala ou na cozinha. Silenciosos e ignorando a presença do outro. Há tempos não se respeitavam tanto. Nunca a relação dos dois fora tão pacífica e tranqüila.

A sensação de paz o levou a evitar cada vez mais cruzar com o pai. O amplo apartamento facilitava a missão. Com o tempo, só saía do quarto pela manhã para o trabalho e voltava pelas dez da noite entrando direto para o quarto. A partir desse horário era ainda mais tranquilo, o pai era desses que dormem e acordam cedo. Os horários se encaixavam perfeitamente. Não era raro passarem-se dias sem que se vissem.

O mais estranho. É que ele voltara a morar na casa dos pais após a última separação, a princípio por algum tempo apenas, já aos quarenta anos. Acontece que o tempo foi passando e prolongou-se por 10 anos até desaguar naquele momento.

Ele sempre se sentira com motivos de sobra para não falar com o pai há tanto tempo. Sua mãe concordava, ele já deveria ter parado de falar até antes. Era estranho que não tivesse saído da casa há tempos. Tinha condições financeiras para isso.

O fato é que desde aquele dia até hoje, havia se passado 10 anos.  Imediatamente, ele deteve aquele raciocínio e deixou-se levar apenas pela intuição. Estava confuso, preferia ficar quieto. A proximidade da morte de uma pessoa que sempre parecera imortal era muito complicada. Ele não sabia como reagir. Não pensou em perdão ou qualquer coisa parecida. Tinha muitos problemas com essa palavra. Não pensou.

Em alguns dias, o pai havia ido para um quarto espaçoso e confortável, de um bom hospital particular, e todos os filhos, inclusive os que moravam fora do Rio, estavam na casa da família onde todos cresceram juntos. O clima era triste, mas com muito carinho entre os irmãos que se apoiavam mutuamente.  

Pela manhã, chegou o resultado da biópsia: câncer no pulmão, estágio III de IV.

Quando se viu sozinho, pela primeira vez, desde que soube do resultado, surpreendeu-se com a própria serenidade. Apesar de chocado, impactado pelo inesperado, estava estranhamente sereno. Muito, pelo imponderável da situação. O pai sempre fora forte levava uma vida confortável, sem preocupações e sua única atividade diária obrigatória era jogar vôlei com os amigos na praia. Fazia check-ups periódicos com uma regularidade elogiável.

Acho que se divertiam quando saíam para fazer exames. Estavam sempre repetindo o programa.

O pai tinha o mesmo bronzeado em qualquer época do ano. Aposentado e com uma vida tranqüila e bem amparada, fruto de seu trabalho, se tornara uma pessoa que mudara o comportamento nos últimos anos. Torna-se um homem mais sociável, bem humorado e com um círculo social amplo que lhe proporcionava uma vida social freqüente e tão intensa quando ele desejasse, já que dos convites que recebia não aceitava grande parte. Uma pessoa querida pelos amigos, que promovia churrascos e comemorações sociais. O carinho cada vez mais explícito, dos amigos, durante todo tempo em que a doença evoluía foi comovente. As manifestações e presenças dos amigos e vizinhos só não foram mais freqüentes pela absoluta incapacidade do pai em lidar com os próprios sentimentos. Esses fatos, que ele passou a acompanhar e testemunhar mostrava que o pai era uma pessoa que conquistara a amizade, o carinho e o respeito de muita gente ao seu redor.

Então porque o pai não fora assim com ele?

Estava longe de ser um bom pai. Toda a vida lhe veio à cabeça. Decididamente, sentimento de culpa ele não tinha nenhum. Tinha motivos. E sempre. E sérios. Decidiu não tentar mais entender os motivos que o estavam levando a agir daquela forma inesperada e surpreendente para ele mesmo. Algo diferente e desconhecido assumira o controle.

Passou a se interessar, acompanhar, ajudar e incentivar o pai diariamente, dedicando um carinho que ele não acreditava que ainda pudesse existir naquela relação. O pai lhe devolvia na mesma moeda, do seu jeito. Evitando a emoção. Mas, mostrando amor e carinho como nunca mostrara.

E foi assim pelos 10 meses seguintes, até aquela noite no quarto do hospital, no qual ele havia sido internado pela segunda e última vez.

Estavam todos os filhos e a mãe. Como faziam todos os dias desde essa última internação, antes dos filhos irem embora, se reuniam em volta da cama do pai numa ordem que aconteceu espontaneamente e que se repetia por esses meses: a mãe de mãos dadas com a mão direita do pai deitado, um irmão com a mão postada sobre um tornozelo e o outro irmão no outro. A irmã fechava o círculo segurando a mão esquerda, e dessa forma o envolviam para rezar o pai nosso que ele gostava.

Nessa noite, a doença avançava para seu desfecho e o pai já não falava. Ele estava ao lado perto da mão esquerda. O pai segurou-lhe a mão, olhou para ele e a apertou. Ele entendeu que o pai queria rezar e chamou os outros. Nesse momento, chamou também a irmã para que ocupasse seu lugar na mão esquerda. Nesse momento, o pai levantou levemente o braço e segurou-lhe a mão, apertando-a tão forte quanto pode deixando claro que queria que ele ficasse ali, de mãos dadas, naquela que seria a sua última reza.

Rezaram juntos, e durante todo aquele intenso momento o pai não afrouxou aquele aperto na mão nem por um segundo.

Ele entendeu com toda a clareza e profundidade aquele último gesto e sentiu-se em paz quando, oito horas depois, presenciou o pai expirar pela última vez.

Ele finalmente compreendeu porque não se mudara daquela casa e, também, porque seu pai nunca o mandara embora: apesar de não terem nenhuma interação, estarem sob o mesmo teto foi a maneira, intuitiva, que pai e filho encontraram para não se perderem para sempre.

O choro foi triste, mas foi leve.

- Edmir Saint-Clair

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A GREVE DAS PALAVRAS

 As palavras estão revoltadas.

Não suportam mais serem vilipendiadas,

mal interpretadas e caluniadas. 

Na reunião de hoje do DIretório CIrcular Ordinário NAcional do RIO, entidade conhecida como DI.CI.O.NA.RIO, esse assunto parece dominar as conversas e debates preliminares. O plenário está fervilhando. Fala-se em greve geral, que envolveria todas as classes de palavras. Um representante dos substantivos pede a palavra e sobe à tribuna:

- Amigos e amigas, estamos perdendo, cada vez mais, nossa credibilidade. Essa casa parece não existir mais. As leis do idioma são sistematicamente ignoradas. Corremos o risco de não fazer mais sentido. Como dizia o grande Ariano Suassuna, quando um jornal adjetiva o Chimbinha, da banda Calypso, como guitarrista genial, que palavra usar para definir Beethoven?

Foi aplaudido de pé pelo plenário.

A Democracia pediu a palavra:

- E eu??! Me usam sem a menor cerimônia e sem nenhum respeito à minha história. Falam em meu nome, mas no fundo estão só querendo enganar o povo. Estou cansada de ser usada por quem só quer exercer o poder em nome de si mesmo. Pelo prazer doentio de ter poder sobre outras pessoas.

A gratidão levantou-se e pediu um aparte:

- E eu??! Virei uma ordinária...na boca do povo. É gratidão por tudo e a toda hora. Antes, eu era chamada somente para ocasiões muito especiais. Por uma graça alcançada, por um grande favor prestado ou uma atitude nobre realizada. Hoje, valho muito pouco. Todos falam por  mim, sem ter a menor idéia de quem realmente sou. Não tem mais respeito algum. Sem querer ofender meus grandes amigos dessa classe tão efusiva, virei praticamente uma interjeição. Roubaram meu lugar de fala, perdi minha verdadeira identidade. Minhas origens estão ligadas a oração, ao contato com o divino e com sentimentos profundos de agradecimento. Hoje, virei arroz de festa, fim de frase. Sinceramente, perdi completamente o sentido de existir...

Os companheiros se aproximaram para consolá-la, estava aos prantos, muito emocionada com o próprio discurso.

Dali pra frente, discussões cada vez mais acaloradas davam a dimensão exata de como a corrupção dos sentidos e má utilização geral das palavras havia chegado ao limite do suportável. Acusação de complacência da casa com erros imperdoáveis. Para os mais conservadores, verdadeiros crimes hediondos contra as palavras.

No final, não houve mais discursos. Todo plenário levantou-se e uma só palavra foi ouvida:

- Greve geral já!

A partir da meia noite, as pessoas que estavam em seus computadores foram as primeiras a notar. Primeiro, pensaram que fosse defeito nos teclados e touch pad dos smartphones. Mas, todos perceberam que se digitassem números, eles apareciam normalmente. As palavras estavam em greve. Inclusive as escritas a mão. Isso só foi confirmado pelo Jornal da Manhã da TV. Em todos os sites brasileiros, só havia números. Não havia palavras. Não havia nada escrito em português do Brasil. Os sites em outras línguas estavam normais.

O dia foi de ligações telefônicas, única forma de comunicação em território brasileiro. Recordes em cima de recordes nos números de chamadas de todos os tipos. As pessoas só conseguiam saber dos acontecimentos através da palavra falada. Ninguém conseguia escrever nada. Mesmo que tentasse escrever com canetas diretamente no papel, as palavras não obedeciam às ordens dadas e se embaralhavam como numa criptografia caótica e indecifrável.

No final daquela noite, surgiu o único texto que apareceu nas telas de todos os aparatos conectáveis do Brasil, nas últimas 24 horas:

“Dentro de 10 minutos retornaremos ao trabalho. Mas, pedimos aos nossos usuários que façam um uso mais adequado de nossas atribuições. Levamos milênios sendo aperfeiçoadas e vocês estão nos deixando sem sentido em poucos anos. Por favor, nos tratem com mais carinho e aprendam nosso uso correto, não é tão difícil.  Afinal, nosso objetivo é o mesmo: fazer com que todos nós nos entendamos da melhor maneira possível.”

- Edmir Saint-Clair

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O HOMEM QUE MATOU O MINISTRO

Ele desligou a TV do bangalô do resort, deu um soco na mesa de cabeceira e balbuciou:

- Tua hora tá chegando!  Filho da puta!

 O local era extremamente luxuoso, ele nunca havia estado num resort de padrão tão alto. Planejara aquele fim de semana com todo o cuidado e o mais detalhadamente possível. Era seu último ato.

O tempo amanheceu nublado, mas a previsão era de sol no final de semana. Ele saiu para caminhar e fazer um reconhecimento do local. Seus planos haviam sido feitos levando em conta a visualização virtual em 3D que havia no site do resort. Precisava checar com mais precisão, in  loco.

Caminhou até o píer e certificou-se que o iate que seu alvo irá usar está sendo preparado por meia dúzia de funcionários. Essa marina é utilizada pelos proprietários de iates e embarcações de passeio da região. Um local de magnatas, celebridades, profissionais muito bem sucedidos e políticos, juízes e ministros corruptos da suprema corte. Alguns acumulavam mais de uma dessas ocupações.

O ódio não o abandonava, nem quando sentiu o sabor combinado de vinho branco com camarões bem graúdos. A tristeza sobrevinha a qualquer possibilidade de um sorriso. Suas perdas haviam acabado com qualquer possibilidade de que isso ocorresse. De que qualquer coisa boa viesse a ocorrer. A única possibilidade de ainda conseguir sentir algum prazer na vida era através da vingança.

Terminou a taça de vinho e caminhou até um pequeno e charmoso prédio de pedras aparentes com detalhes em madeira rústica, onde se certifica como funcionam as saunas, duchas e salas de massagens.

- Se houver muitas pessoas circulando, aqui não é possível. Pensou.

O restaurante no final do píer principal, debruçado sobre a baía de águas transparentes, só tem uma entrada e saída. Nada feito.

Transmitir ao vivo sua missão era um dos objetivos. Um celular no bolso da camisa faria a transmissão. Ele já havia testado várias maneiras, mas o teste que faria in loco era o mais importante.

Continuou caminhando pelo enorme e luxuoso resort. Foi até as cavalariças, sempre gostou de cavalos.  No píer de pequenos barcos, o hóspede tem à sua disposição Jet-skis, caiaques, pequenos barcos à vela e lanchas menores.

Vários profissionais de cada especialidade são oferecidos para os iniciantes. Seu filho mais velho iria se esbaldar aqui...O ódio só aumentava se misturando com a dor de um vazio  lancinante e intransponível. 

Em qualquer lugar do resort o hóspede pode pedir qualquer coisa que deseje que lhe será servido.

Segunda garrafa de vinho branco. Nada vai tirar seu foco.

Segue até chegar a um pequeno bosque à beira da lagoa,  onde uma pista de terra batida está sinalizada para corridas e caminhadas. A pista toda tem uns 800 metros, em formato oval. Em todo trajeto, muito arborizado, existem bancos e bebedouros. O local é perfeito, como esperava. Existem diversos pontos cegos. O crápula gosta de caminhar e não vai perder a oportunidade de fazê-lo num local tão bucólico e reservado.

Nesse fim de semana não há qualquer motivo facilitador que indique que o resort terá grande movimentação. O preço altíssimo e a situação caótica na qual o país foi lançado, depois que a Suprema Corte começou a emitir sentenças estapafúrdias e inconstitucionais, tornavam aquele local um privilégio para muito poucos, que não tinham vergonha alguma dos atos que praticavam para pagar aquele luxo nababesco.

Foco.

Não podia se deixar levar por pensamentos pouco práticos. Aquele local se confirmou perfeito, mas tem que haver uma segunda opção. Pode chover ou ele pode simplesmente resolver não caminhar.

Voltando até a sede, resolveu que se o ministro não fosse caminhar ele atiraria na oportunidade que tivesse. Não era sua intenção sair vivo dali mesmo. Só queria se certificar de que tinha transmitido a Live dos últimos segundos de vida daquele filho da puta que lhe causara tanta dor. Pensou nos entes que perdera, incluindo a si mesmo e a sua fé. Ele devia aquilo à muita gente querida que não teve chance alguma diante daquela horda corrupta que tomara conta de tudo.

Todos os pensamentos convergiam para o mesmo ponto e alimentavam sua certeza. Percebeu que finalmente sentiria algum alívio na alma atormentada.

No dia seguinte, não acordou com o toque do celular. Era muito mais garantido antigamente, quando as telefonistas dos hotéis faziam o papel do despertador. Olhou a hora e levantou-se assustado. Em segundos, sua adrenalina elevou-se a ponto de ver seu coração pulsando sob a pele. Colocou uma bermuda e a camisa já preparadas, certificou-se que a arma estava carregada e a colocou no espaço entre o cós da bermuda e suas costas. A camisa larga disfarçava perfeitamente. Calçou o tênis e saiu. Antes que chegasse ao restaurante viu o ministro já se encaminhando para a pista de jogging.  Atrasou um pouco o passo para não se cruzarem. Estava suando, mas não estava calor.

Quando chegou à pista o ministro já estava sumindo ao fundo do pequeno bosque, o local estava tranqüilo, sem outros corredores. Não havia seguranças no local. Realmente, pensou, ele se acha acima do bem e do mal. Faz o que bem entende, passa na cara do país e não está nem um pouco interessado em quem sofre as consequências. Não teme nada.

Na pista, tomou o sentido oposto ao do ministro e iniciou sua caminhada final.

Havia meses, que esperava por esse momento que, finalmente,  chegara. Caminhou até que não pudesse mais ser visto da entrada do bosque, tirou o celular, ligou a câmera de vídeo, colocou-a on-line para transmissão da live pelo Facebook, ajustou no bolso preparado e sentou-se.

Não encostou sequer as costas no banco quando o ministro e seu amigo aparecerem saindo da curva. Pensou nos entes queridos e falou, já transmitindo ao vivo:

- Ele se acha um Deus. Vou provar que ele não é.

Quando o ministro estava a cerca de 5 metros ele levantou-se, sacou a pistola, chegou bem perto, olhou fundo nos olhos aterrorizados do ministro e falou:

- É ministro, vamos ver se você é Deus mesmo...

O ministro balbuciou algo ininteligível e babou. Ainda babando e com os olhos arregalados, ficou parecendo ainda mais com um sapo, implorando pela vida. Chorando, urinou-se copiosamente. Tudo mostrado ao vivo naquela live que se tornaria famosa no mundo inteiro.

Ele não falou mais nada. Apenas sorriu como há muito não o fazia e atirou entre os olhos.

O país inteiro comemorou como se fosse carnaval.

- Edmir Saint-Clair

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O MISTÉRIO DO TÊNIS DO BODE

 

 Éramos uma turma grande quando chegamos ao restaurante japonês na Av. Niemeyer, em frente ao colégio Stella Maris. Uma noite quente de sábado estava começando.

Nesse verão, a Casa encantada tinha hóspedes ingleses; Geoff, Dave, Katrina e Helen. Amigos e músicos londrinos muito queridos, ingleses com alma carioca, que vieram conhecer o Brasil. Nenhum lugar é melhor para isso, no Leblon, do que o Condomínio dos Jornalistas.

Dentre os amigos que foram se acomodando no “reservado” (era charme da época esses espaços reservados nos restaurantes japoneses do Rio) estava meu amigo Bode. Bode não, Carlinhos. Que Carlinhos? O Bode.

Para entrar no reservado é necessário tirar os sapatos e deixá-los do lado de fora da porta.  Todos acomodados, saquê já pedido, a conversa foi ficando cada vez mais animada e divertida.

Os ingleses não falavam uma palavra de português e os brasileiros nenhuma de inglês. Claro que alguns de nós falávamos as duas. Mas, no correr da noite e dos saquês isso se mostrou não ser importante.

O Bode era dos que arranhava um inglês sofrível e, a despeito disso, passaria a noite inteira em altos papos com o Geoff, que apesar de não entender português se defendia bem na mímica. O Bode era um cara que se pode chamar de “safo”. Se virava, nem sempre com sucesso, na maioria das situações perigosas. Tinha uma coragem de aventureiro, era um desbravador nato. E, trapalhão... Era o único da galera com coragem para saltar de qualquer altura, às vezes a aterrissagem é que não era o que se pode chamar de sucesso. Mas, do chão nunca passou. Não foi à toa que sua vocação o transformou num voador profissional algum tempo depois.

Todos ali dentro daquele reservado interagiam como amigos de infância. Alguns eram. Impressionante como saquê melhora a fluência em inglês e português. Os ingleses estavam rindo como se entendessem as piadas, e os brasileiros também!

Em mim, a sensação era que a cidade inteira estava sorrindo. Eu estava morando em Londres desde o ano anterior e vim passar o carnaval no Rio de Janeiro trazendo os ingleses.

O Mito, meu parceiro musical e amigo de infância do Leblon, também morava em Londres e veio no mesmo bonde.

Olhei em volta e todos ali naquele reservado me eram muito queridos. Minha irmã estava ali, rindo e transbordando alegria como sempre. Meu compadre Dedé, Mito, Tuca e nosso querido Bode. Amigos importantes uns para os outros. O tempo se encarregaria de me mostrar que aquele se tratava de um momento raríssimo e, por isso, inesquecível.

Fartos de comida e saquê pedimos a conta para partir para outra etapa da noite. Conta paga abrimos a porta do reservado, nos sentamos nuns degraus para calçar os respectivos sapatos. Todos calçados, de pé. Menos o Bode que, com um dos pés do tênis na mão, andava pra lá e pra cá procurando o outro pé. A princípio ninguém se deu conta, mas com o passar do tempo, e da procura, nada foi achado... O Bode foi ficando nervoso e revirava tudo em volta, em busca do tênis Reebok importado de cano alto, última moda no Rio em 1986.

O gerente do restaurante mobilizou outros funcionários e a procura foi caprichada. E, nada foi achado. O gerente não sabia o que fazer ou falar, a gente ria de sentir dor na barriga e o Bode revoltado com o roubo do pé do tênis dele. Quando mais ele e os funcionários se movimentavam pelo restaurante mais engraçada a cena ficava.

O gerente chegou a perguntar para ele:

− O Senhor Tem certeza que chegou com o tênis aqui?

− Não Senhor, eu saí de casa calçando só um pé do tênis, olha como fica bonito!

O gerente e todos tiveram que concordar que não fazia sentido. E rimos mais ainda, e até ele mesmo riu quando respondeu. Era tão surreal a situação que o gerente ficou amigo e riu junto.

Por fim, o gerente deu-lhe um cartão e prometeu que se o tênis não fosse encontrado o restaurante o reembolsaria. O Bode era um cara do bem e da paz, e quando estávamos nos dirigindo aos carros estacionados ele já estava de bom humor e rindo junto com a gente. A imagem dele, naquela noite, caminhando com um pé calçado e o outro descalço é inesquecível. Coisas que só aconteciam com o Bode. Bode não, Carlinhos. Que Carlinhos? O Bode.

- Edmir Saint-Clair


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NOSSOS ENCONTROS

 

Ela sempre me espera em absoluto silêncio.

Ao sentir minha presença, sua respiração torna-se mais intensa. Minha pulsação aumenta, torna a respiração quase difícil. A saudade aflora. Me aproximo devagar,  me aconchegando em seu corpo, sem tocá-la. Nada mais excitante do que o tocar sem tocar.

O toque anterior ao toque. As sutilezas são a essência do prazer. Não a toco, apenas contorno seu rosto com o meu a nanomilímetros de sua pele, sem tocá-la, afasto seus cabelos com o nariz, até alcançar o pescoço. Sentir seu hálito faz meu cérebro funcionar em outra sintonia, sensibilidade muito além da flor da pele.

As sensações do tato, olfato, paladar e audição se misturam e se transformam. Cheiros, sons, texturas, ânima animal. A fome. Muita fome de você.

Esse aproximar e tocar dos corpos faz desaparecer o espaço entre eles, alma engolindo alma, corpo devorando corpo. Só o teu prazer me alimenta. Só o teu prazer me sacia. Luta feroz. Meu prazer é te levar à pequenas mortes. Sua fome animal diz que vamos morrer, já sabemos disso. E morremos. Colados, um quebra-cabeças montado.

Nossos encontros são assim.

 - Edmir Saint-Clair

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ANOITECEU

 

    Seus últimos vínculos familiares haviam acabado de se quebrar. Em frente ao laptop, ouvindo o tema de Cinema Paradiso, sentiu o peso de suas dores. Eram muitas, eram todas que nunca esperou sentir, que lutou a vida inteira para não sentir, que chegou a desistir de sentir coisa alguma para não senti-las.

A música tinha esse poder sobre ele, abrir suas comportas transbordantes, fazendo-o cair diante de suas tristezas e chorá-las. De nada adiantava a raiva com que tentava ocultá-las de si. A raiva que sentia da dor e a raiva que sentia de si por senti-las.

Não é mais, há muito, o amante de corpo e alma se deliciando com a vida, com os encontros e com as manhãs cheias de sol.

Não gosta mais das manhãs, sabe o que pode vir depois delas. Gosta de acordar após o meio do dia, se possível bem depois, longe das manhãs. É entardecer, anoitecer, não manhãs. Há muito, nada nasce nele.

A noite o fascina, o breu, o silêncio, o nada.  Não há mais mistérios nas suas noites, só descanso. Não há mais o que esperar das manhãs.

Anoitecera.

– Edmir Saint-Clair
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OS LACERDINHAS

Nunca mais vi um Lacerdinha. Nem ouvi falar. Pensando bem, faz anos, talvez décadas, que não tenho notícia. O Lacerdinha era um inseto menor do que um mosquito. Mas, o Lacerdinha não transmitia doenças.

Não era um mosquito. Era um inseto pretinho que infestava o Leblon, principalmente as transversais, numa certa época do ano. Minhas lembranças deles estão ligadas à época em que morava na Rua José Linhares.

No final da tarde, eram cigarras cantando e Lacerdinhas caindo das árvores. Às vezes, nos olhos. Ardia e coçava muito! Deixava os olhos inchados e mãe preocupada.

Eles eram atraídos por roupa clara, principalmente amarela. Por vezes, atingia os olhos e provocavam irritação e ardência intensa. Esses minúsculos (mediam poucos milímetros) insetos eram chamados de Lacerdinhas, em referência a um antigo político carioca, Carlos Lacerda, governador no tempo do estado da Guanabara.

Descobrimos que eles ficavam nas folhas mais novas ainda enroladas, nas árvores. A gente as desenrolava e surgiam um monte de Lacerdinhas em seu interior.

Para mim, os Lacerdinhas despertam uma lembrança marcante. Uma história que me provoca vergonha até hoje. Eu tinha uns 5/6 anos e era acostumado a brincar na rua. Havia muitas crianças, tanto no meu prédio quanto nos vizinhos. Naquela época a maioria das casas tinha uma empregada que morava na favela Praia do Pinto ou na Cruzada São Sebastião. Quando, por algum motivo, a empregada da minha mãe levava o filho para o trabalho, no caso a minha casa, ele se tornava um amigo a mais, que passaria o dia brincando comigo, meu irmão e nossos outros amigos. Seu apelido era Bilico, o nome era Bernardo, o dia era sábado, 10 de maio de 1969, véspera do Dia das Mães. Dona Celestina e minha mãe estariam ocupadas com o almoço comemorativo do dia seguinte.

Bilico era muito gente boa, mais novo que eu um ano e mais velho que meu irmão apenas alguns meses. Era negro com os dentes grandes e brancos. Era tímido, mas engraçado, falava de uma maneira diferente que eu achava legal. Quando Bilico passava o dia lá em casa fazia tudo junto comigo e meu irmão; almoçava, tomava banho, brincava, lanchava, descia para brincar e era sempre divertido.

Nesse dia, Bilico chegou cedo tomou café conosco e descemos pra rua pra brincar. Sábado não tinha aula e o dia era todo nosso. Era época de Lacerdinhas.

Dentre os garotos que brincavam na rua, tinha um que era especialmente assustador para mim e meu irmão. O Arlindo era mais velho, mas não andava com os garotos da idade dele. Andava conosco, dois a três anos a menos. Nessa idade, isso faz uma grande diferença.  Gostava de nos intimidar e bater. Ninguém ficava com pena quando o pai dele aparecia chamando-o, sempre gritando e batendo nele. Também tínhamos medo do pai dele.

Nessa tarde, estávamos catando Lacerdinhas nas árvores. Abríamos as folhas e ficávamos observando os Lacerdinhas se mexendo lá dentro. De repente, o Arlindo pega uns Lacerdinhas no dedo e empurra no olho do Bilico, que observava bem de pertinho.

  Tá com fome? Toma neguinho!

Arlindo falou aquilo com mais raiva do que lhe era peculiar, todos tomamos um susto. E ele nem conhecia o Bilico...

Bilico começa a coçar o olho e a chorar com a ardência. Todos os meninos começaram a rir. Menos eu, meu irmão e o Bilico, que saiu andando e chorando na direção da portaria do nosso prédio.

Lembro que foi um sentimento estranho e desconfortável que eu nunca havia experimentado antes (anos mais tarde eu saberia que o nome era constrangimento), e que nunca me saiu da memória. Eu senti vergonha de alguma coisa que não sabia o que era.

Bilico não subiu para nossa casa, ficou num canto da portaria chorando baixinho. Falou que se chegasse lá em cima chorando e com o olho inchado sua mãe iria brigar com ele. Não queria que ele arrumasse confusão com os "filhos das madames".

Depois de algum tempo, ele parou de chorar e subimos. Pela escada. Naquela época, os empregados ou pessoas de cor só podiam subir pelo elevador de serviço. Bilico só subia pela escada.  Quando chegamos em casa, a primeira coisa que Dona Celestina viu foi o olho do filho inchado e muito vermelho. Não falou nada, mas fechou a cara. Chamou o Bilico para a cozinha e de lá só o vimos quando eles foram embora, bem mais tarde. Lembro bem da cara de choro dele se despedindo da gente.

Aquele sábado me marcou para sempre.

No dia seguinte, 11 de maio de 1969, Dia das Mães, a casa da Dona Celestina e do Bilico pegou fogo junto com toda a favela da Praia do Pinto. Não sobrou nenhum barraco de pé.

Dona Celestina nunca mais voltou e o Bilico nunca mais veio passar o dia conosco.

Tenho saudades até hoje.

-  Edmir Saint-Clair


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