RÁDIO 101 SMOOTH JAZZ - N.Y.

A VITÓRIA VERDADEIRA

 


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A RECEITA DA FELICIDADE

 

Todos os dias pipocam dúzias de textos sobre o tema Felicidade. Livros são lançados, artigos escritos, vídeos e todo tipo de arquivos são produzidos e vem se juntar a uma incontável biblioteca sobre o assunto.
Ao refletirmos sobre isso, vemos que existem milhares de rótulos cujo cerne é a felicidade: psicologia, filosofia, autoajuda, meditação, sexoterapias, práticas tântricas, yogas e outras centenas de "cadeiras" da matéria.
"A Felicidade não existe,
o que existe são momentos felizes".
Peninha
Por mais óbvia e simplória que essa frase seja, a princípio, trás uma verdade incômoda e nem um pouco romântica. Em seu enunciado, já determina a finitude inexorável de cada momento.
Mas, que tipo de felicidade transcendental é essa que a humanidade tanto busca? Uma felicidade perene e inalterável, onde cessam as tristezas e contrariedades.
Um "foram felizes para sempre..."
Assim colocado, fica fácil vermos que a felicidade, como um estado permanente, é uma utopia absoluta. Se transformaria em tédio em pouco tempo, isso faz parte da inquieta natureza humana.
Mas, se a pensarmos como apenas momentos de pleno gozo da existência, a filosofia "Peninha" é absolutamente verdadeira. Dependemos dos altos e baixos para sermos felizes. Precisamos do ruim para valorizar o bom. É ser humano. Precisamos estabelecer relações de valor para decidirmos entre umas coisas e outras.
A maioria de nós, que já passou de certa idade, tem razoável certeza de que existem muitos momentos onde nos sentimos plenos, felizes. Pelos mais variados motivos.
Saber perceber esses momentos, enquanto estão acontecendo, é fundamental no processo de aprender a ser feliz. Aprender a nos cercarmos de situações que possam deflagrar aquela sensação tão desejada é como descobrir o mapa que leva a nossa mina pessoal e intransferível de felicidades. Nosso reduto. Pena que só alcancemos isso na maturidade...
Esse processo é desenvolvido intuitivamente durante a vida, e a forma como esse aprendizado se consolida em cada um é o que determina a capacidade ou a incapacidade de alcançar esses momentos. Se desenvolveremos ou não a capacidade ser feliz.
Ser feliz é um aprendizado, um mérito pessoal. Uma conquista. Uma consequência da busca sincera por nossa verdade essencial.
A consciência do agora, do exato momento em que estamos vivendo as emoções e explosões de bons sentimentos, é o que completa a felicidade, tornando-a plena como um gozo total do ser.
É por esses momentos que a humanidade vive. Para sermos palco, em nosso interior, de uma explosão espetacular e plena de sentimentos e sensações que são absolutamente compensadoras e indescritíveis.
Ás vezes, sua exteriorização não passa de um leve sorriso. Outras, é, literalmente, como um gol do seu time num estádio lotado só com torcida a favor. Um espetáculo!
Para que essas sensações, emoções e sentimentos se somem e explodam, é preciso que aconteça uma progressão sincronizada de acontecimentos detonadores daquelas descargas químicas certas e extremamente precisas , únicas em cada ser.
Esse conjunto de fatores, muito pessoais e individualizados, se juntam e fazem nosso sistema orgânico produzir uma série de hormônios, em quantidades e proporções exatas, de tal forma que o resultado é a descarga daquelas sinapses únicas que provocam a sensação que chamamos de Felicidade. A plenitude indescritível.
Esse processo é extremamente individual e único. Sequer no mesmo indivíduo acontece exatamente da mesma forma duas vezes. O simples fato de já ter ou de nunca ter acontecido já determina essa originalidade.
Pensando assim, na felicidade como um conjunto de fatores que nos faz sentir bem por um período de tempo, podemos sim encontrar esses ingredientes que nos causam bem estar, e traduzi-los em decisões e atitudes que nos proporcionem mais prazer do que incômodos.

O aumento da frequência dos momentos prazerosos funciona como reforço, é um tipo de treino para o nosso cérebro, aumentando as possibilidades de que os fatores disparadores daquele estado mental se repitam, potencializando a chance de sentir novamente aquelas sensações maravilhosas. Ou seja, quanto mais vezes nos sentirmos felizes, mais vezes seremos capazes de sermos felizes de novo. Felicidade gera felicidade.
Para que tenhamos o discernimento necessário para saber o que nos agrada, o que não faz diferença e o que nos contraria, é preciso autoconhecimento. É preciso aprender a se feliz.
Prestar atenção nos próprios sentimentos e reações é fundamental. Ter a capacidade de perceber onde estão nossos limites requer autocrítica e conclusões, muitas vezes, incômodas e perturbadoras. Ninguém gosta de reconhecer suas limitações, fraquezas e carências.
Depois dessa etapa, vem uma tão difícil quanto: estipular os nossos limites externos.
Até onde deixar que os outros opinem, influam e nos cobrem por nossas decisões de âmbito pessoal? Até onde deixar, e quem vamos deixar que "se meta em nossa vida".

Até onde dar satisfação de nossos atos, e a partir de onde nossas motivações e propósitos são questões sobre as quais não devemos satisfação a ninguém? A independência emocional é fundamental para realizarmos nossa essência. É preciso estabelecer limites e até onde permitiremos que outras pessoas interfiram em nossos processos. Para isso, é preciso que nos coloquemos como o único responsável capaz de produzir nossa própria felicidade.
É complicado. Mas, ninguém disse que não seria.
Para formular nossa própria receita de felicidade, primeiro é preciso descobrir quais ingredientes nos agradam e em que quantidades devem ser usadas, para que o resultado nos traga a satisfação da vida com sabor.
E, como seria bom, se pudéssemos deixar essa receita como herança para nossos filhos. Como a receita de um bolo da vovó.
Mas, infelizmente, essa receita só vai servir para o próprio.
É pessoal e intransferível.
E, quando a gente pensa que está chegando a uma conclusão, entra mais alguém na história e dana-se tudo de novo.
Se sozinho já é difícil, imagina a dois...

- Edmir Saint-Clair

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UM NATAL INESQUECÍVEL

 

           Há alguns anos não festejava o Natal na minha casa encantada, o apartamento 1004 do Amarelo, no Condomínio dos Jornalistas, no Leblon. Apesar de morar no Rio, sempre passava as festas com a família, em Brasília. Naquele ano não fui.

No dia 24 de dezembro, acordei angustiado, era a primeira vez que não sentia a agitação característica desse dia especial acontecendo na casa dos meus pais. A árvore de natal armada na sala com direito a pisca-pisca ligado dia e noite. Esse ano a luzes não estavam piscando nem tinha árvore e eu senti falta. Eu já me achava adulto, mas, com certeza ainda não era. Aquele dia estava sendo uma experiência totalmente nova para mim. Um dia como eu nunca havia vivido antes.

     Para suprir aquela inquietude, resolvi chamar uma galera para levar um som lá em casa, depois das comemorações natalinas familiares. O combinado foi começar por volta de uma hora da manhã.

Desde cedo, a agitação no meu andar começou, como sempre, com as portas abertas dos apartamentos da Dona Letícia e da Dona Élida, exalando cheiros deliciosos de assados e outros quitutes. Logo que saí no corredor fui intimado a comparecer às duas ceias, que, no meio da noite, se fundiam numa só. Prometi que não faltaria, seria a primeira parada depois da ceia na casa da Dona Lila, mãe do Dedé, que já havia me convidado desde que soubera que eu passaria sozinho.

O transcorrer da véspera de Natal no Condomínio dos Jornalistas era uma festa desde que o dia nascia.

Chegavam pessoas de todos os cantos para os encontros familiares. Pessoas que, normalmente, não frequentavam as áreas comuns o faziam nesse dia, e o clima de festa se instalava.

O bar do Seu Antônio e da Dona Maria ficava lotado. Seu Joaquim não parava um minuto no sobe e desce pelos apartamentos do condomínio, abastecendo-os de cerveja e refrigerantes. Até o forno industrial do bar era cedido, gratuitamente, para alguns moradores e ficava lotado de assados.

 Era possível sentir no ar a harmonia que reinava.

 Minhas lembranças são de uma comunhão geral. Não havia quem passasse e não fosse recebido com um Feliz Natal, ao qual sempre retribuía contagiado pelo mesmo entusiasmo. Era dia de desejar felicidades a qualquer pessoa que entrasse no Jornalistas.  

A sensação era de que os corações floresciam. Em nenhum outro dia do ano havia tantos sorrisos.

Passar na casa dos amigos para as felicitações era uma tradição do Jorna e, naquela noite, a comilança foi interminável. Voltei para a minha casa, completamente empanturrado das melhores comidas de Natal que se pode imaginar. Fiz um tour gastronômico por todos os pratos típicos da culinária brasileira. Acho que foi naquele dia que comecei a ter barriga...

Apesar da saudade, naquele primeiro Natal que passei sem minha família, várias outras mães, pais e irmãos me acolheram. Não me senti sozinho um minuto sequer nem naquele dia, nem naquela noite.

Passadas as comemorações familiares, era hora da festa na minha casa encantada, o 1004. O primeiro a chegar foi o Dedé com um digestivo salvador. Logo vieram Abelha, Bode, Mito, Marquinho e a violada começou cada um no seu instrumento e eu com o lendário violão do Sig.

Não demorou para que os astros da noite também chegassem: Babalu, Kássio, Mário Japão, Cláudio Urubu e o Tuca. E foram chegando mais amigos e amigas e mais amigos de amigos e mais amigas de amigas e gente que eu nunca tinha visto antes. Porque era natal.

Fechamos a noite todos cantando e tocando juntos, acompanhando nosso amigo Cláudio Urubu em sua música mais bonita, em parceria com Raul Seixas, declarando ao mundo que íamos todos “... ficar com certeza Malucos Beleza”.

Acho que ficamos.

Edmir Saint-Clair

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CORTES DIRETO AO PONTO - FAZER O SEU MELHOR, O RISCO DA MEDÍOCRIDADE - Mário Sérgio Cortella


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OS LACERDINHAS

Nunca mais vi um Lacerdinha. Nem ouvi falar. Pensando bem, faz anos, talvez décadas, que não tenho notícia. O Lacerdinha era um inseto menor do que um mosquito. Mas, o Lacerdinha não transmitia doenças.

Não era um mosquito. Era um inseto pretinho que infestava o Leblon, principalmente as transversais, numa certa época do ano. Minhas lembranças deles estão ligadas à época em que morava na Rua José Linhares.

No final da tarde, eram cigarras cantando e Lacerdinhas caindo das árvores. Às vezes, nos olhos. Ardia e coçava muito! Deixava os olhos inchados e mãe preocupada.

Eles eram atraídos por roupa clara, principalmente amarela. Por vezes, atingia os olhos e provocavam irritação e ardência intensa. Esses minúsculos (mediam poucos milímetros) insetos eram chamados de Lacerdinhas, em referência a um antigo político carioca, Carlos Lacerda, governador no tempo do estado da Guanabara.

Descobrimos que eles ficavam nas folhas mais novas ainda enroladas, nas árvores. A gente as desenrolava e surgiam um monte de Lacerdinhas em seu interior.

Para mim, os Lacerdinhas despertam uma lembrança marcante. Uma história que me provoca vergonha até hoje. Eu tinha uns 5/6 anos e era acostumado a brincar na rua. Havia muitas crianças, tanto no meu prédio quanto nos vizinhos. Naquela época a maioria das casas tinha uma empregada que morava na favela Praia do Pinto ou na Cruzada São Sebastião. Quando, por algum motivo, a empregada da minha mãe levava o filho para o trabalho, no caso a minha casa, ele se tornava um amigo a mais, que passaria o dia brincando comigo, meu irmão e nossos outros amigos. Seu apelido era Bilico, o nome era Bernardo, o dia era sábado, 10 de maio de 1969, véspera do Dia das Mães. Dona Celestina e minha mãe estariam ocupadas com o almoço comemorativo do dia seguinte.

Bilico era muito gente boa, mais novo que eu um ano e mais velho que meu irmão apenas alguns meses. Era negro com os dentes grandes e brancos. Era tímido, mas engraçado, falava de uma maneira diferente que eu achava legal. Quando Bilico passava o dia lá em casa fazia tudo junto comigo e meu irmão; almoçava, tomava banho, brincava, lanchava, descia para brincar e era sempre divertido.

Nesse dia, Bilico chegou cedo tomou café conosco e descemos pra rua pra brincar. Sábado não tinha aula e o dia era todo nosso. Era época de Lacerdinhas.

Dentre os garotos que brincavam na rua, tinha um que era especialmente assustador para mim e meu irmão. O Arlindo era mais velho, mas não andava com os garotos da idade dele. Andava conosco, dois a três anos a menos. Nessa idade, isso faz uma grande diferença.  Gostava de nos intimidar e bater. Ninguém ficava com pena quando o pai dele aparecia chamando-o, sempre gritando e batendo nele. Também tínhamos medo do pai dele.

Nessa tarde, estávamos catando Lacerdinhas nas árvores. Abríamos as folhas e ficávamos observando os Lacerdinhas se mexendo lá dentro. De repente, o Arlindo pega uns Lacerdinhas no dedo e empurra no olho do Bilico, que observava bem de pertinho.

  Tá com fome? Toma neguinho!

Arlindo falou aquilo com mais raiva do que lhe era peculiar, todos tomamos um susto. E ele nem conhecia o Bilico...

Bilico começa a coçar o olho e a chorar com a ardência. Todos os meninos começaram a rir. Menos eu, meu irmão e o Bilico, que saiu andando e chorando na direção da portaria do nosso prédio.

Lembro que foi um sentimento estranho e desconfortável que eu nunca havia experimentado antes (anos mais tarde eu saberia que o nome era constrangimento), e que nunca me saiu da memória. Eu senti vergonha de alguma coisa que não sabia o que era.

Bilico não subiu para nossa casa, ficou num canto da portaria chorando baixinho. Falou que se chegasse lá em cima chorando e com o olho inchado sua mãe iria brigar com ele. Não queria que ele arrumasse confusão com os "filhos das madames".

Depois de algum tempo, ele parou de chorar e subimos. Pela escada. Naquela época, os empregados e "pessoas de cor" só podiam subir pelo elevador de serviço. Bilico só subia pela escada.  Quando chegamos em casa, a primeira coisa que Dona Celestina viu foi o olho do filho inchado e muito vermelho. Não falou nada, mas fechou a cara. Chamou o Bilico para a cozinha e de lá só o vimos quando eles foram embora, bem mais tarde. Lembro bem da cara de choro dele se despedindo da gente.

Aquele sábado me marcou para sempre.

No dia seguinte, 11 de maio de 1969, Dia das Mães, a casa da Dona Celestina e do Bilico pegou fogo junto com toda a favela da Praia do Pinto. Não sobrou nenhum barraco de pé.

Dona Celestina nunca mais voltou e o Bilico nunca mais veio passar o dia conosco.

Tenho saudades até hoje.

-  Edmir Saint-Clair


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