RÁDIO 101 SMOOTH JAZZ - N.Y.

QUEM TEM SAUDADE DO MERTHIOLATE ARDIDO?

 

Acho fantásticas as oportunidades únicas que as mídias sociais nos proporcionam para observar o comportamento humano. Não existe lugar onde as pessoas se exponham mais. Conheço pouquíssimas que conseguiram se manter à parte até agora.

Hoje, é a principal fonte de dados sobre hábitos, comportamentos e opiniões. Não fossem as limitações impostas pelos famosos algoritmos Facebook que limitam o alcance de cada perfil, os institutos de pesquisas nunca mais teriam que sair às ruas.  Quem se prepara para entender sobre pesquisa e estatística (pode-se estudar a matéria até a excelência sem gastar um centavo, pela internet) e sabe como interpretar esses dados, pode-se saber até a cor da roupa de baixo que a pessoa usa, quantas vezes vai ao banheiro ou transa por dia.

Tenho algum conhecimento técnico de como tabular e interpretar pesquisas, por ser publicitário. Como escritor, isso tem uma valia inestimável para subsidiar meus textos. 

Dentre algumas postagens recorrentes, uma tem me chamado a atenção em especial: a exaltação das surras de cinto, de sandálias havaianas e outras lembranças da truculência e agressividade de certas práticas "educacionais" de há não muitos anos. Causa-me estranheza a que ponto chega o saudosismo e a melancolia de alguns. Além, é claro, da falta de conhecimento sobre os incríveis avanços da ciência em todos as áreas do desenvolvimento humano. Nunca pensei que veria meus contemporâneos se tornarem tão reacionários e avessos a passagem do tempo, aos avanços dos conceitos, costumes e entendimentos sobre os processos que nos constituem, a ponto de fazerem declarações louvando surras de cinto e outras barbaridades praticadas e que, graças a evolução dos conhecimentos, foram banidas da esfera do aceitável. As mesmas pessoas que proclamavam a paz e o amor no final do século 20, hoje, se dizem saudosas da sandália ou de um tapa estalando na pele. Cadê a paz e o amor? Principalmente, com os filhos? Era só modinha? Parece que no Brasil, sim.

Quando vejo as sandálias havaianas, cintos e varas de marmelo sendo consideradas e saudadas como “ferramentas educacionais” que fazem falta "hoje em dia", sinto muito mais pena do que raiva. Quem tem saudade de um tempo em que apanhava com aqueles apetrechos é porque deve estar, atualmente, apanhando muito mais dolorosamente da vida. Deve estar se sentindo tão excluído do mundo que o ruim de ontem lhe parece melhor do que o que a vida lhes oferece hoje. A raiva deve ser tanta que o desejo é sair dando porrada em tudo que lhes desagrada, pela solidão que a evolução lhes impõe, por não conseguir compreendê-la.

 Mas, essa obsolescência tem cura; o conhecimento e a autodeterminação.  Há sempre coisas novas a serem descobertas, coisas interessantes, sejam quais forem os interesses. Novidades estão sendo criadas, descobertas e pensadas todos os dias. E, não existe melhor forma de manter a importância da vida do que se importar com ela, do que cultivar a curiosidade.  Do que continuar tendo a sede de saber os porquês.

A certeza é a pior inimiga da evolução. Quem acumula muitas certezas e não deixa espaço para novas dúvidas e mudanças, se torna obsoleto. O obsoleto não tem mais importância, não tem serventia e já não conta mais, é carta fora do baralho.

Deve ser muito triste se sentir obsoleto, que é a mais dolorosa característica de quem perde o trem da história; a inutilidade existencial. 

Para esses, a passagem do tempo dói muito mais que o merthiolate ardido.

 - Edmir Saint-Clair

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SE ESCONDER DO ESPELHO



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O GRANDE AMOR

 

Te conheço, antes de te conhecer, em meus sonhos. Seu olhar me hipnotiza, misturando carinho, tesão e querer bem em doses precisas, traduzindo perfeitamente o amor. Tua respiração é mágica e me transforma em desejo. És sempre feita de tudo, um pouco de carne, um pouco de veludo, um raio de sol, um raio de lua, transformando cada momento no momento mais desejado. É forte, me protege das angústias de viver. Em meus braços és sábia, sabendo fazer-me teu refúgio, deixando-me protegê-la. Tua força faz-me sentir forte e tuas fraquezas me dão a oportunidade de compreender as minhas.

Me faz acreditar em mim. Te admiro e tua admiração por mim é fonte inesgotável de prazer. Teus sorrisos me deixam como se eu gostasse mais de mim, do sol, das manhãs. Você entra nos meus sonhos, como um balde de tintas, de todas as cores, para me colorir, para saber meus segredos, como o sol que desvenda as minhas manhãs.

Te procuro sempre e, por vezes, te encontro. E te amo profundamente, sou feliz.

Mas, de repente, vais embora sem me avisar, para depois reaparecer, de novo perfeita e cada vez diferente. E, tenho que te descobrir de novo e de novo e de novo. Teu outro nome, teu outro corpo, teus outros cabelos. E, durante algum tempo, permaneces ao meu lado e somos felizes, até desapareceres de novo.

Amei todos os teus nomes, todos os teus sorrisos e todas as tuas vozes.

Só desejo que, da próxima vez que nos encontrarmos, venhas com teu nome, voz e sonhos reais. Não suporto mais te perder.   

 - Edmir Saint-Clair

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