Edmir Saint-Clair

Escritor · Rio de Janeiro

Edmir Saint-Clair

Crônicas, contos, ensaios filosóficos e poesia que interrogam o tempo presente. Mais de duas décadas de escrita sobre o que nos move, nos paralisa e nos revela.

LIVROS 

A ROTINA DO ABSURDO - À venda - Baixe aqui seu e-book grátis

Capa de A Rotina do Absurdo

Onde encontrar

A Rotina do Absurdo

Onde Formato Preço Prazo
UICLAP MENOR PREÇO Impresso R$ 39,53 (loja própria)
R$ 49,93 (marketplace)
~14 dias úteis
Clube de Autores Impresso R$ 52,93 ~14 dias úteis
E-book R$ 24,57 Leitura imediata
Amazon MAIS RÁPIDO Impresso R$ 52,93 4 a 5 dias (estimativa de envio)
Kindle (em breve) US$ 4,99 (≈ R$ 26) Download imediato

Isso aqui não é indicação. É informação — para você escolher pelo que importa: preço, prazo, ou o gosto de ter vindo de onde veio.

O exemplar impresso vendido na Amazon é a mesma edição do Clube de Autores, distribuída também por lá. O Kindle em dólar é uma edição própria, com preço fixado nos EUA, ainda em análise pela Amazon.

Um faxineiro limpa uma mancha do lado errado do vidro no último dia de trabalho. Uma mãe reza porque não há para quem ligar. Um estagiário sai para o banco todo dia depois do almoço e nunca chega a banco nenhum. Uma cidade de sete milhões de pessoas fica vinte horas sem energia, e nem os geradores pegam.

Os catorze contos de A Rotina do Absurdo se passam no Rio de Janeiro e começam sempre no lugar mais comum que existe: a hora de sempre, o trajeto de sempre, o café passado no coador de pano de sempre. Então alguma coisa entra. E a rotina não para para olhar.

Oferta para leitores

Quer receber seu e-book grátis?

Deixe seu e-mail abaixo e receba agora "A Rotina do Absurdo" em formato digital, sem custo.

ensaios  Reflexões 

COERÊNCIA: O RESPEITO A SI MESMO

COERÊNCIA: O RESPEITO A SI MESMO


 "Seja amigo íntimo de si mesmo 

e nunca mais se sentirá sozinho." - Edmir Saint-Clair

- Estou sendo quem eu digo que sou a mim mesmo?

Essa é uma pergunta que ninguém faz em voz alta. Mas todo mundo carrega.

É uma pergunta simples. E, muitas vezes, devastadora.

Vivemos na era da performance. Nunca foi tão fácil construir uma versão de si mesmo — e nunca foi tão tentador confundi-la com a versão real. O Instagram tem filtro para tudo: para a pele, para a luz, para a vida. O que não tem filtro é a nossa própria consciência quando deitamos no travesseiro.

A busca ansiosa por likes virou o termômetro afetivo de uma geração inteira. A foto só foi boa se engajou. A opinião só vale se viralizou. A conquista só existe se foi postada. Aos poucos, sem que a gente perceba, o centro de gravidade se desloca — saímos de nós mesmos e passamos a orbitar a aprovação dos outros. De outros que, na maioria das vezes, estão fazendo exatamente a mesma coisa.

É um espelho em frente ao outro. Infinito. E vazio.

Os filósofos já tinham um nome para isso. Muito antes do Instagram existir. Só que agora ganhou uma tela, alcance mundial e um algoritmo.

O filósofo dinamarquês Kierkegaard chamava isso de estágio estético — a vida vivida para a superfície, sem compromisso real com nada. Jean Paul Sartre tinha um nome mais duro: má-fé — a arte de fingir que não há escolha, quando na verdade nossas escolhas estão sendo feitas a cada momento da vida e, no fundo, temos plena consciência disso. Atualmente, isso tem uma outra expressão que talvez a defina melhor: desonestidade intelectual.

Postar uma versão editada de si mesmo não é crime. Mas acreditar nela é o grande problema, que pode ter um preço bem alto.

Quando a distância entre quem você é e quem você finge ser cresce demais, surge um mal-estar que a psicologia batizou de síndrome do impostor — aquela sensação persistente de que você não merece o lugar que ocupa, de que é uma fraude prestes a ser descoberta, de que qualquer dia alguém vai perceber que não existe nada embaixo da máscara que usamos.

Nas redes sociais, esse sentimento encontrou o ambiente perfeito para prosperar. Você constrói um personagem admirável — e passa a ter medo de não estar à altura dele. A conquista foi real, mas a versão postada foi maior. O argumento foi válido, mas veio acompanhado de uma pose que não era sua. O sorriso era verdadeiro — mas o contexto, não.

O personagem cresce. E você encolhe.

Porque a incoerência não gera culpa imediata. Ela trabalha devagar, por baixo, como uma infiltração invisível que vai corroendo as estruturas da personalidade. Um dia você percebe que não sabe mais o que pensa de verdade — ou se o que posta que pensa é fruto apenas do que funciona bem nas redes. Não sabe do que gosta de verdade — ou se o que posta que gosta é fruto do personagem que criou para combinar com a estética do perfil no Instagram. Não sabe quem é realmente você — e quem é o personagem criado para ter mais seguidores. Chega a um ponto em que você pode se tornar um estranho para si mesmo.

A identidade vai cedendo lugar ao personagem. E o personagem não descansa nunca — porque depende de audiência para existir.

O atrito entre quem você é e quem você aparenta ser corrói por dentro. A autoestima afunda. As decisões ficam mais difíceis — porque quem não confia em si mesmo transforma cada escolha numa armadilha. E uma identidade enfraquecida é terreno fértil para ansiedade, depressão e todos os outros distúrbios mentais que a sociedade atual padece.

A lucidez intelectual e o autoconhecimento são o único caminho para fugir dessa tendência humana de buscar um culpado que não seja nós mesmos. Fica fácil culpar o Instagram, o Facebook e outras redes. Mas elas não criam personagens — elas apenas oferecem o palco. Quem decide subir nele, o que vestir e o que representar somos cada um de nós. Somos, sempre, os únicos responsáveis por quem conseguimos ser, apesar dos pesares da vida.

A coerência é o antídoto.

É uma virtude autêntica e verdadeira que não precisa de plateia nem de métrica de engajamento. É aquela coisa pequena feita da forma certa quando ninguém está olhando — uma decisão tomada de madrugada, sem testemunha, sem like, sem story.

Quem vive com coerência não precisa lembrar o que disse ontem. Não precisa administrar versões. Não acorda com medo de ser descoberto — porque não há nada a esconder. O impostor some quando o personagem e a pessoa finalmente coincidem. É quando você assume o comando de decidir para si mesmo quem você é.

Quando deitamos no travesseiro, é a nós mesmos que temos de prestar contas. Não existe júri, não existe recurso, não existe advogado de defesa. E não tem apelação.  Só você e o seu próprio julgamento sobre o que você fez — com o que tinha, onde estava e sendo quem é em sua essência maior. Você é o seu próprio juiz e a coerência é sua lei maior.

Nossa maior contribuição para o mundo — e para nosso orgulho próprio — é agirmos da forma original e única que a nossa natureza nos dotou.

A coerência é a forma mais corajosa — e fiel — de se amar.

É respeitar profundamente a si mesmo.

Edmir Saint-Clair

Continuar lendo
Pensamentos  Reflexões 

A INFELICIDADE É TRAIÇOEIRA

A INFELICIDADE É TRAIÇOEIRA

Post-it com frase de Edmir Saint-Clair sobre a infelicidade disfarçada em zona de conforto

"A infelicidade é traiçoeira, pode se disfarçar facilmente em zona de conforto."
— Edmir Saint-Clair


---------------------------------------------------------------------------------------------------------

Continuar lendo
ensaios 

A ETERNIDADE DE CADA UM

A ETERNIDADE DE CADA UM
“No fim, somos quem acreditamos ser.”

— Edmir Saint-Clair

Todos os dias, ao adormecer, cruzamos uma fronteira invisível entre o real e o imaginário — onde o tempo obedece a outras regras. Geralmente, a transpomos em milionésimos de segundos — um átimo entre estar desperto e adormecido. Uma região no limiar entre a vigília e o sono, outra dimensão, onde nossa consciência se altera; onde não há tempo, há apenas a eternidade. Uma distorção diária da lógica temporal.

Essa experiência cotidiana nos oferece um vislumbre do que proponho como hipótese central deste ensaio: e se, nos momentos finais da vida, nossa mente for capaz de criar sua própria eternidade? Uma realidade subjetiva onde o tempo, liberto das amarras físicas, se dilata até o infinito, permitindo que cada consciência vivencie uma eternidade moldada por suas crenças mais profundas.

 Esta é a jornada reflexiva que convido você a percorrer — uma investigação sobre como a mente humana, em seu último ato de criação, pode transcender os limites convencionais do tempo e da realidade.

 Aquela sensação de estar caindo e despertar no susto é resultado de permanecer tempo demais nesse estado intermediário. É a presença densa de algo que nos puxa de volta e nos faz acordar como se tivéssemos nos perdido pelo caminho.

 O sonho com quem já partiu é mais do que sonho: é um reencontro sem tempo, capaz de provocar uma emoção sentida no corpo físico.

 A mente humana cria realidades com tal precisão que não podemos afirmar se o mundo como cada um de nós o percebe é real ou apenas uma construção moldada por crenças, memórias e por fatores individuais e imponderáveis. Isso se torna evidente em fenômenos como alucinações em que pacientes com síndrome de Charles Bonnet podem ver padrões e figuras complexas que não existem; ou em experimentos de privação sensorial, onde após poucas horas em tanques de isolamento, voluntários começam a criar experiências sensoriais completas sem estímulos externos. Talvez o mundo seja apenas uma versão pessoal — moldada pelo conjunto de crenças de cada um. E é bem possível que seja exatamente assim.

 É justamente esta extraordinária capacidade da mente de construir realidades alternativas que fundamenta esta hipótese sobre os momentos finais da consciência, que propõe enfrentar o tema com a mente aberta. Essa hipótese parte do pressuposto de que a mente cria sua própria realidade — portanto, ela pode criar seu próprio infinito, sua própria eternidade, já que é capaz de criar um tempo próprio.

 Nos sonhos, o tempo se comporta de maneira radicalmente distinta da realidade desperta. Sagas inteiras podem ser vividas em poucos minutos. Distâncias geográficas são transpostas sem qualquer lógica física — tudo isso com a nitidez de quem realmente está vivendo aquele universo surreal naquele momento. Essa vivência do tempo subjetivo indica que a mente, em estados alterados, escapa às leis convencionais da temporalidade.

 Durante o sono REM, o cérebro cria narrativas não lineares, condensando experiências inteiras em períodos muito breves de tempo real. Esse fenômeno encontra eco na teoria da relatividade de Einstein, que afirma: o tempo não é absoluto, mas relativo ao observador. Dois relógios idênticos, expostos a campos gravitacionais ou velocidades diferentes, marcarão tempos distintos.

 Sob estresse extremo — como em acidentes graves ou experiências de quase-morte — o cérebro entra em estado de hiperprocessamento, e o tempo, sob a ótica do paciente, desacelera drasticamente. Segundos ganham densidade e podem ser percebidos como longos minutos.

 Tudo isso sugere que o tempo, quando entregue exclusivamente ao nosso cérebro e sem referenciais externos, pode ser remodelado — e, nos instantes finais, talvez seja dilatado até se assemelhar a algo como uma eternidade subjetiva. Que só exista dentro da gente.

 Há quem afirme que estados alterados de consciência possam acontecer com pessoas que conseguem permanecer nesse espaço entre estados de realidade, onde os contornos do tempo e do eu já não são claros. Nessa outra dimensão onde não existe tempo como o conhecemos. Onde a mente é o último resquício da vida. Onde as conexões neurais criam realidades alternativas.

 Se a mente é capaz de gerar uma ilusão tão real a ponto de transgredir a noção de tempo, ela pode criar sua própria eternidade. Estudos científicos recentes indicam que o cérebro humano pode continuar ativo por um tempo significativo após a morte clínica. Em um caso documentado pela Universidade de Western Ontário, no Canadá, foi detectada atividade cerebral persistente por cerca de dez minutos após a declaração oficial de morte. Nesse intervalo, foram registradas ondas delta — as mesmas que ocorrem durante o sono profundo.

 É possível que, sem o apoio dos cinco sentidos e liberta de estímulos externos, a mente proceda uma distorção daqueles últimos dez minutos, transformando-os em uma experiência de "tempo sem fim" — onde suas projeções mais profundas possam, ao menos subjetivamente, parecer absolutamente reais. Trata-se de uma hipótese coerente com o que já sabemos sobre a percepção temporal em estados alterados de consciência.

 Estudos sobre experiências de quase-morte (EQMs) revelam que pacientes frequentemente relatam uma "revisão da história de vida" — na qual assistem às próprias cenas, revivem acontecimentos e até os experimentam sob a perspectiva de outras pessoas envolvidas. Essa revisão, que parece abranger uma vida inteira, ocorre em frações mínimas de tempo real. Em pesquisa da Universidade de São Paulo com 350 brasileiros, 51% dos que estiveram em risco de morte relataram EQMs, muitas vezes com intensa distorção da percepção temporal.

 Alguns estudos sugerem que, pouco antes da morte, o cérebro entra em um estado de hiperconectividade, onde redes neurais relacionadas à memória e à consciência ficam extremamente ativas. Nesse momento, circuitos neurais que normalmente funcionam de forma isolada começam a interagir de maneiras incomuns, gerando experiências mentais únicas — muitas delas ainda pouco entendidas pela ciência — nas quais a percepção do tempo pode mudar bastante.

 Quando estamos privados de estímulos externos e focados apenas nas nossas experiências internas, é possível que o cérebro vivencie seus últimos minutos como um tempo subjetivamente expandido. Talvez, nesse momento, a pessoa experimente uma espécie de eternidade pessoal, algo único e totalmente particular.

Se, em sua mente, você for fiel ao que acredita — de acordo com suas crenças mais profundas — ela moldará sua eternidade com base nessa visão íntima de si mesmo. Esse será o seu julgamento final — e o juiz será você.

O que mais me encanta nesta hipótese é sua capacidade de acolher a todos. Não importa se a mente for moldada por fé religiosa, por tradições culturais, por dúvidas agnósticas ou pelo ceticismo ateu — todas as crenças encontram nela um lugar legítimo. É uma hipótese inclusiva por essência: cada um viverá a eternidade que foi capaz de imaginar.

 Com base nos fenômenos neurológicos pesquisados, proponho a hipótese filosófica de que, se acreditar verdadeiramente que reencontrará um ente querido após a morte, sua mente poderá criar essa experiência subjetiva nos momentos finais de atividade cerebral. E você os reencontrará.

 Por isso, é sensato cuidarmos de nossas mentes — das percepções que cultivamos e da autoestima que nos sustenta. É ela quem irá moldar nosso inferno ou nosso paraíso, onde viveremos essa última etapa: a experiência final. O que a mente acredita, as crenças mais enraizadas sobre si mesmo, a forma como avaliamos nossas próprias atitudes ao longo da vida e a coerência com que nos conduzimos pelos diversos aspectos da existência — tudo isso será a matéria-prima da eternidade que cada um experimentará.

 Preparar a mente para que, no instante decisivo, ela seja capaz de criar uma realidade subjetiva — íntima, pessoal e intransferível — que nos revele a visão do nosso paraíso ideal talvez seja o mais profundo dos desafios humanos. Esse 'trabalho' diário e incansável para nos tornarmos seres humanos melhores, por fim, poderá ser recompensado. Por nós mesmos.

 No último momento de vida, será nossa mente que construirá a eternidade que cada um criou para si. Esta hipótese, além de oferecer uma perspectiva sobre os momentos finais da consciência, carrega profundas implicações para como vivemos hoje. Se existir uma experiência post mortem subjetiva, ela será moldada por nossas crenças mais enraizadas e pela forma como avaliamos nossas próprias ações, então cada escolha cotidiana ganha uma dimensão transcendente.

 Viver com autenticidade e integridade não seria apenas uma questão de ética social ou realização pessoal, mas um investimento na qualidade da nossa própria eternidade subjetiva. A empatia que demonstramos, as conexões verdadeiras e profundas que estabelecemos, e a honestidade com que enfrentamos nossas falhas — tudo isso está tecendo, fio a fio, o tecido da realidade que iremos viver em nossos momentos finais.

 Se o juiz final de nossas ações seremos nós mesmos, talvez o verdadeiro desafio não seja temer um julgamento externo, mas viver de maneira verdadeiramente digna aos nossos próprios olhos, para que possamos, no final, rever nossa história e encontrar nela nossa essência e motivos para termos orgulho da vida que construímos.

 *Edmir Saint-Clair*

---

## BIBLIOGRAFIA

 Estas são as referências (pesquisas, estudos e obras) nas quais esta hipótese está ancorada. Abrangem estudos sobre experiências de quase-morte, percepção temporal distorcida, atividade cerebral nos momentos finais, estados de sonho REM e conceitos de física relacionados à relatividade do tempo.

 1. Greyson, B. (2007). Experiências de quase-morte: implicações clínicas. *Archives of Clinical Psychiatry (São Paulo)*, 34(supl 1), 116-125.

 2. Carunchio, B. F. (2024). Experiências de quase morte (EQM) traumáticas: consequências psicológicas e ruptura de certezas existenciais. *Revista Rever*, PUC-SP.

 3. van Lommel, P., van Wees, R., Meyers, V., & Elfferich, I. (2001). Near-death experience in survivors of cardiac arrest: a prospective study in the Netherlands. *The Lancet*, 358(9298), 2039-2045.

 4. Parnia, S., Waller, D. G., Yeates, R., & Fenwick, P. (2001). A qualitative and quantitative study of the incidence, features and aetiology of near death experiences in cardiac arrest survivors. *Resuscitation*, 48(2), 149-156.

 5. Eagleman, D. (2008). Human time perception and its illusions. *Current Opinion in Neurobiology*, 18(2), 131-136.

6. Arstila, V. (2012). Time slows down during accidents. *Frontiers in Psychology*, 3, 196.

 7. Borjigin, J., Lee, U., Liu, T., Pal, D., Huff, S., Klarr, D., ... & Mashour, G. A. (2013). Surge of neurophysiological coherence and connectivity in the dying brain. *Proceedings of the National Academy of Sciences*, 110(35), 14432-14437.

 8. Norton, L., Gibson, R. M., Gofton, T., Benson, C., Dhanani, S., Shemie, S. D., ... & Young, G. B. (2017). Electroencephalographic recordings during withdrawal of life-sustaining therapy until 30 minutes after declaration of death. *Canadian Journal of Neurological Sciences*, 44(2), 139-145.

 9. Hobson, J. A., & Pace-Schott, E. F. (2002). The cognitive neuroscience of sleep: neuronal systems, consciousness and learning. *Nature Reviews Neuroscience*, 3(9), 679-693.

 

Continuar lendo
ensaios 

A RECEITA DA FELICIDADE

A RECEITA DA FELICIDADE

Todos os dias, pipocam nas redes de comunicação milhares de textos sobre o tema “Felicidade”.

Livros são lançados, artigos escritos, vídeos e todo tipo de arquivos são produzidos e vem se juntar a uma já incontável biblioteca sobre o assunto.

É fácil perceber que existem milhares de rótulos cujo objetivo final é esse tal da felicidade: dentre tantos temos a psicologia, a filosofia, autoajuda, a meditação, sexo terapias, as práticas tântricas, as diversas vertentes da ioga e outras centenas de "cadeiras e disciplinas" buscando a mesma coisa por caminhos diferentes. Todos válidos, já que a busca é absolutamente individual

"A Felicidade não existe, o que existe são momentos felizes".*

Por mais óbvia e simplória que essa frase possa parecer a princípio, traz uma verdade perturbadora e nem um pouco romântica. Já que em seu enunciado, determina a finitude inevitável de cada momento.

Mas, que tipo de felicidade transcendental é essa que a humanidade tanto procura? 
Uma felicidade perene e inalterável, onde cessam as tristezas e contrariedades.

O conhecido "foram felizes para sempre" como nos contos de fadas que parecem resistir a evolução e ao tempo no imaginário humano.

Assim colocado, fica fácil vermos que a felicidade, como um estado permanente, é uma utopia absoluta. Se transformaria em num desagradável tédio em pouco tempo, isso faz parte da inquieta natureza humana.

Mas, se a pensarmos como apenas momentos de pleno gozo da existência, ela se torna extremamente atraente e absolutamente possível. Dependemos dos altos e baixos para sermos felizes. Precisamos do ruim para valorizar o bom. O ser humano é assim. Precisamos estabelecer relações de valor para decidirmos entre umas coisas e outras.

A maioria de nós, que já passou de certa idade, tem razoável certeza de que existem muitos momentos em que nos sentimos plenos e felizes. Pelos mais diversos e variados motivos.

Saber perceber esses momentos, enquanto estão acontecendo, é fundamental no processo de aprender a ser feliz. Aprender a nos cercarmos de situações que possam
deflagrar aquela sensação tão desejada é como descobrir o mapa que leva ao nosso tesouro pessoal e intransferível de felicidades. Nosso paraíso interior.
Pena que só alcancemos isso na maturidade...

Esse processo é desenvolvido intuitivamente durante a vida, e a forma como esse aprendizado se consolida em cada um é o que determina a capacidade ou a incapacidade de alcançar esses momentos. Se desenvolveremos ou não a capacidade de ser feliz.

Ser feliz é um aprendizado, um mérito pessoal. Uma conquista. Uma consequência da busca sincera e corajosa por nossa verdade essencial.

A consciência do agora, do exato momento em que estamos vivendo as emoções e explosões de bons sentimentos é o que completa a felicidade tornando-a plena, como um gozo total do ser. 

É por esses momentos que a humanidade vive. Para sermos palco, em nosso interior, de uma explosão espetacular e plena de sentimentos e sensações que são absolutamente compensadoras e indescritíveis.

Às vezes, sua exteriorização não passa de um leve sorriso. Outras, é literalmente como um grito de gol do nosso time num estádio lotado no dia da grande final do campeonato! É quando a alegria é tão grande que não cabe dentro de nós e transborda.

Para que essas sensações, emoções e sentimentos se somem e explodam, é preciso que aconteça uma progressão sincronizada de acontecimentos detonadores daquelas descargas químicas certas e extremamente precisas, únicas em cada ser.

Esse conjunto de fatores, muito pessoais e individualizados, se juntam e fazem nosso sistema orgânico produzir uma série de substâncias, em quantidades e proporções exatas, de tal forma que o resultado é a descarga daquelas sinapses únicas que provocam a sensação que chamamos de Felicidade. A plenitude indescritível.

Esse processo é extremamente individual e único. Sequer no mesmo indivíduo acontece exatamente da mesma forma duas vezes. O simples fato de já ter ou de nunca ter acontecido já determina essa originalidade.

Pensando assim, na felicidade como um conjunto de fatores que nos faz sentir bem por um período de tempo, podemos sim encontrar esses ingredientes que nos causam bem-estar, e traduzi-los em decisões e atitudes que nos proporcionem mais prazer do que incômodos.

O aumento da frequência dos momentos prazerosos funciona como reforço, é um tipo de treino para o nosso cérebro, aumentando as possibilidades de que os fatores disparadores daquele estado mental se repitam, potencializando a chance de sentir novamente aquelas sensações maravilhosas. Ou seja, quanto mais vezes nos sentirmos felizes, mais vezes seremos capazes de sermos felizes de novo. Felicidade gera felicidade. E o oposto também é verdade. Por isso a felicidade é uma escolha pessoal.

Infelicidades todos temos e teremos, cabe a cada um escolher onde empenhar nosso maior foco de pensamentos e esforços: se será em ser infeliz, ou em aprender a ser feliz.

Para que tenhamos o discernimento necessário para saber o que nos agrada, o que não faz diferença e o que nos contraria, é preciso autoconhecimento. É preciso aprender a semear felicidade em si mesmo. Aprender a semear, a cultivar e a colher felicidade.

É preciso prestar muita atenção e cuidar dos próprios sentimentos e reações. É preciso aprender quais devemos cultivar e quais devemos exterminar para não nos contaminarmos com pragas daninhas. Ter a capacidade de perceber onde estão nossos limites requer autocrítica e conclusões, muitas vezes, desagradáveis e perturbadoras. Ninguém gosta de reconhecer suas limitações, fraquezas e carências.

Outro fator fundamental é saber estabelecer os nossos limites externos.

Até onde deixar que os outros opinem, influam e nos cobrem por nossas decisões de âmbito pessoal?  Até onde e quem vamos deixar que "se meta em nossa vida".

Até onde dar satisfação de nossos atos, e a partir de onde nossas motivações e propósitos são questões sobre as quais não devemos satisfação a ninguém? 

A independência emocional é fundamental para realizarmos nossa essência. É preciso estabelecer limites e até onde permitiremos que outras pessoas interfiram em nossos processos. Para isso, é preciso que nos coloquemos como o único responsável capaz de produzir nossa própria felicidade.

É complicado. Mas, ninguém disse que não seria.

Para formular nossa própria receita de felicidade, primeiro é preciso descobrir quais ingredientes nos agradam e em que quantidades devem ser usadas, para que o resultado nos traga a satisfação da vida com sabor.

E, como seria bom, se pudéssemos deixar essa receita como herança para nossos filhos. Como a receita de um bolo da vovó.

Mas, infelizmente, essa receita só vai servir para o próprio. É pessoal e intransferível.

E, quando a gente pensa que está chegando a uma conclusão, entra mais alguém na história e dana-se tudo de novo.

Se sozinho já é essa dificuldade toda, imaginem quando a busca inclui mais outra pessoa nessa já complicada equação!
Edmir St-Clair
"A Felicidade não existe, o que existe são momentos felizes".*Letra de uma música famosa nos anos 1980 do autor Peninha.


Gostou?   Compartilhe com seus amigos

Continuar lendo
Contos 

A FELICIDADE INCOMODA

A FELICIDADE INCOMODA
        Ele nunca havia sido desleal ou infiel a ela, e sabia que era plenamente correspondido. 
Foram o primeiro amor um do outro, desde adolescentes se entenderam sem esforço algum. Aqueles casos em que o amor e a amizade vão crescendo lado a lado, um alimentando o outro. Um encontro de almas.

Foram descobrindo a vida juntos numa parceria e intimidade que só a pureza de quem nunca amara antes poderia proporcionar. Riam de seus próprios desconhecimentos de seus corpos, tornando tudo uma brincadeira excitante, deliciosa e sem expectativas demasiadas. Consequência natural, numa sociedade que não dava muitas opções, casaram-se muito cedo.

A ascensão profissional de ambos, a leveza e a cumplicidade cresciam na mesma proporção. Se davam bem. Combinavam sem esforço. Num dado momento, como em toda relação, a rotina, antes um orgulho pela sincronização e conveniência para ambos, se instalou de uma forma perfeita demais.

Tão perfeita, que era impossível melhorá-la. Até as manhãs de mau humor aconteciam em forma de revezamento, de maneira que um estava sempre são, para compensar o descompensado. Haviam encontrado um ponto de equilíbrio que poucos casais conseguem alcançar. Eram a exceção que confirmava a regra de que casamentos são feitos para fracassar.

A relação deles contrariava a tudo e a todos.

Após 15 anos, eram os únicos do extenso grupo de amigos do bairro natal, no qual ainda moravam, que permaneciam casados. Se juntasse com o tempo de namoro, passava de 20 anos.

O fato é que os amigos viviam comentando sobre a harmonia perfeita do casal, alguns com espanto, outros com inveja e outros com elocubrações aleatórias regadas a muito álcool. Até que aquele “incomodo alheio" pela felicidade do casal começou a chegar até eles, de forma fragmentada e de maneira cada vez mais incômoda e invasiva.

Emprenhados, por fragmentos de conversas carregadas de muito veneno e servidas como caipirinhas entre amigos, o casal foi sendo contaminado pela dúvida.

Foram presas muito fáceis da inveja humana. Só haviam conhecido um ao outro. A desconfiança que começou a nascer, não foi com relação ao outro, mas com a avaliação que cada um fazia de si mesmo.

Como poderiam saber se realmente eram felizes tudo que poderiam ser, ou se apenas imaginavam que aquilo era felicidade, já que não tinham nenhuma experiência que pudessem usar como comparação ou referência.

Sempre foram muito amigos e se prometeram a sinceridade que só a confiança extrema comporta. Não tardou para que os questionamentos tomassem conta de todas as horas. Sempre compartilhados, sem que nenhum dos dois conseguisse respostas. Não sabiam mais dizer se eram felizes ou se haviam entrado na perigosa zona de conforto, última moda nas conversas psicologizadas.

 E o que era leve, não era mais. Os silêncios não eram mais os mesmos, e é no silêncio que um casal mais se entende.

Numa conversa angustiada, mas cheia de sinceridade, sentimentos e carinho, decidiram que deveriam se separar naquele momento, para que pudessem ter alguma chance de se reencontrar num futuro em que já haveriam de ter suas respostas.

Mas, não se deve deixar a felicidade nas mãos do acaso. É preciso abraçá-la, fazendo o impossível, para que ela nunca queira ir embora.

Nunca mais se reencontraram e se arrependeram daquela decisão pelo resto de suas vidas.

Edmir Saint-Clair

-------------------------------------------------------------------------------

Continuar lendo
Poesia 

DENTRO DE MIM

Dentro de mim tem meu quarto

Nele minha casa,

Na minha casa tem a minha rua,

Nela muitas avenidas,

Nas avenidas está meu bairro,

Dentro dele minhas cidades

Nessas cidades existem muitos países,

Dentro de cada um mundos inteiros.

E neles, todo o universo.

Dentro de mim.

- Edmir Saint-Clair

Gostou?  👇  Compartilhe com seus amigos

Continuar lendo