RÁDIO 101 SMOOTH JAZZ - N.Y.

ANJOS DO FUTURO – 1 - CLARA

Finalmente ele saiu. Clara não dormira nem um segundo durante a noite, não mexera sequer um músculo para que Gustavo não percebesse. Ficou imóvel, até que ouviu a porta da rua bater, já de manhã. Ele, finalmente, saíra. Sentiu-se aliviada e tudo o que pensava era sair o mais rapidamente possível dali. Foi até o banheiro e, em frente ao espelho, chorou quando viu seu reflexo. Todo o lado esquerdo de seu rosto estava inchado e com um hematoma que quase não a permitia abrir o olho. A primeira coisa em que pensou foi no que falaria para seu filho quando chegasse em casa. O horror diante da própria imagem a deformava ainda mais. Sentou-se no vaso sanitário e chorou, compulsivamente, até cansar. O salgado das lágrimas ardeu-lhe nos olhos e lábios. Tomou um banho, foi até a cozinha, pegou gelo e aplicou no rosto. Sentada no sofá da sala, começou a tentar concatenar seus pensamentos.

Não conseguia parar de pensar no filho, sentia pena dele por ter uma mãe que chegara aquele esse ponto. O choro voltou. Mas, ela precisava pensar enquanto ele ainda está no colégio a esta hora e só vai chegar há uma hora da tarde. Pensou na Lei Maria da Penha e sentiu, a princípio, haver uma saída, entretanto, sobreveio-lhe o pavor das repercussões. Se denunciasse não haveria mais como esconder aquilo de sua mãe.  Não era novidade, e ela havia prometido que da próxima vez denunciaria o filho da puta. Tirou a opção da denúncia da cabeça, naquele momento, não tinha estrutura psicológica para suportar o que sobreviria. Clara ainda tinha três longas horas para pensar no que faria, e ficou mais calma quando pensou que Gustavo só voltaria lá pelas 7 da noite. Com certeza ele não a encontraria mais ali, aquela havia sido a última vez. Pensou de novo no filho. Andou pela casa procurando, mas, fora um biquíni e um despertador, nada mais ali ela queria levar.

             Ligou para a mãe e inventou uma viagem a negócios para São Paulo e que ficaria o resto da semana por lá, e pediu para que a avó pegasse o neto na saída do colégio. Era comum ele passar dias com os avós, eles moravam a 1 quarteirão de sua casa, não haveria problema. Ela só voltaria quando seu rosto estivesse desinchado. Seu filho não a veria naquele estado, esta resolução lhe provocou um grande alívio. Nada era mais importante do que poupar seu filho. A Lei Maria da Penha podia esperar até que ela pensasse um pouco melhor. A alegria de não causar um trauma no filho deu-lhe forças para continuar a fuga. Ela precisava arrumar um jeito de ficar sozinha. Júlia, era sempre a primeira quando precisa de uma amiga. Quase desistiu quando lembrou que, necessariamente, teria de encontrar-se com ela, que a veria machucada. Teve vergonha. Mas afinal, eram amigas. Tomou coragem e ligou para o escritório. A amiga atendeu-a com a mesma alegria de sempre. Clara mal conseguia falar segurando o choro.  Júlia, prontamente, colocou-se, e a sua casa em São Pedro da Serra, à disposição da amiga. Não perguntou nada, não precisava, nada era novidade. Clara ligou para a confecção e deixou instruções para que Carla cuidasse de tudo. Ela tinha sorte pelo menos com sócias e gerentes.

             Pegou a bolsa e mais uma sacola com  poucas coisas e saiu sem olhar para trás. Trancou a porta e jogou a chave por debaixo, disposta a nunca mais voltar.

                                               **************

        São Pedro da Serra fica a 6 Km de Lumiar. A estrada toda é deslumbrante. Principalmente, o trecho de acesso a Lumiar.  Às 5 horas da tarde o clima é ameno, bem diferente do calorão do Rio. Clara sente pena de estar chegando, queria viajar mais, faz muito bem a alma ver a estrada ficando para trás, a sensação de estar indo cada vez mais para longe de tudo. Ver o mundo ficando para trás, pelo espelho retrovisor.

Quando chegou a Lumiar quase parou num bar para comprar mais cigarros e tomar um refrigerante mas, lembrou-se do rosto inchado e teve vergonha. Seguiu direto para São Pedro. Chegou em casa, cozinhou um macarrão, fez o prato e chorou quando, na primeira garfada, o sal do queijo parmesão fez arder o corte no lábio. Chorou mais um pouco e depois dormiu. Sem jantar.

                                               *****************

     Clara acordou cedo, preparou o café e foi tomá-lo na varanda, sem pressa, sentada na rede.  A varanda da casa de Júlia era voltada para a montanha e uma pequena estrada de terra passava bem em frente.

Deixou-se hipnotizar pela calma e tranquilidade daquela clara manhã. Ficou olhando fixamente por algum tempo, hipnotizada pela beleza campestre. A brisa soprava fraca e gostosa, e os sons da manhã soavam perfeitos. Fechou os olhos para ouvi-los mais atentamente. Com os olhos fechados reproduziu a paisagem em sua mente. Os sons dos pássaros e da manhã, ela os sentia mais intensamente com os olhos fechados e, ao mesmo tempo, reproduziu, em sua mente, a paisagem que acabara de ver para, em seguida, de os olhos abertos, checar a semelhança com a imagem real. A primeira coisa que notou, é que na paisagem com os olhos abertos as cores da manhã tinham mais brilho, mais vida. Fechou novamente os olhos, e a paisagem em sua mente continuava a mesma, sem brilho. Enquanto seus olhos estavam fechados, percebeu uma presença física ao seu lado e ouviu com absoluta clareza:

            - O brilho das duas deve ser igual.

Assustou-se quando abriu os olhos e não havia ninguém.

            Clara ainda não sabia que podia ser eterna A essência do todo tocara-lhe a face, mas ela, ainda, não era capaz de percebê-lo. Era o primeiro contato que estava tendo com algo muito maior do que poderia compreender naquele momento. 

            Haveria outros sinais.

(Continua...)

Edmir Saint-Clair

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ANJOS DO FUTURO - 1 - DANIEL

 

O almoço com o amigo o deixara mais animado. Era a primeira vez que saía de casa depois da volta do hospital. Foram caminhando até a porta do prédio onde Daniel iria ter sua primeira sessão de psicanálise após a crise de pânico que o levara a ser internado.

Enquanto esperava ser chamado pelo psicanalista, Daniel ficou olhando aquela antessala escura, com móveis sem personalidade alguma e reproduções de obras surrealistas. A má impressão inicial deu lugar a uma simpatia imediata assim que o Dr. Luciano o recebeu. A sessão correu melhor do que esperava e, ao sair, ele tinha certeza de ter encontrado o profissional certo para tratá-lo.

Quando saiu do prédio onde fica o consultório, a Av. N.S. de Copacabana estava fervilhando. O burburinho de pessoas, carros, ônibus, transeuntes e camelôs era enervante. 

Ele se sentia profundamente triste e tudo o irritava de forma doentia. Caminhou até a praia, onde havia estacionado o carro, e diante do trânsito de 6 horas da tarde na Av. Atlântica, resolveu ver o pôr do sol na praia. Só então, percebeu que não havia sequer pensado em ligar para o escritório, isto o fez sentir-se menos neurótico. Caminhou até o arpoador e sentou-se na ponta da pedra que mais avança sobre o mar. A brisa sopra fraca e gostosa, e o barulho das ondas nas pedras é acolhedor. Estava deprimido como já era de costume, mas, pelo menos dessa vez, estava com vontade de não estar.

 O sol, as cores, as ilhas, a praia, tudo em seu lugar. Fechou os olhos para que o barulho das ondas se acentuasse e com os olhos fechados reproduziu a paisagem em sua mente, começou a repetir a brincadeira. A brisa e o barulho, ele sentia mais intensamente de olhos fechados, e tentava reproduzir exatamente a paisagem que estava vendo. Em seguida, abria os olhos para checar a semelhança com a imagem real. A primeira coisa que reparou é que na paisagem real as cores tinham mais brilho. Tudo tinha mais brilho. Fechou os olhos novamente, e o brilho continuava fraco, por mais que se esforçasse não conseguia reproduzir o brilho real em sua mente. Numa das várias vezes em que fechou os olhos, percebeu uma presença muito próxima, e ouviu claramente uma voz dizer:

            - O brilho das duas deve ser igual.

            Ele abriu os olhos rapidamente e procurou em volta, sem ver ninguém que estivesse a uma distância plausível de poder falar-lhe ao ouvido e se afastar com tanta rapidez.  Muito esquisito. Ele tinha certeza e ainda tinha, com clareza, a lembrança do som da voz que ouvira.

Daniel não sabia, mas a mudança estava apenas começando.

Haveria outros sinais.

 (Continua...)

Edmir Saint-Clair

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MISTER

Sábado era o dia mais animado da nossa semana. Eu e meu irmão acordávamos ainda mais cedo que nos outros dias. Eu tinha dez anos e ele oito.

Chegávamos ao clube logo depois que abria e em menos de 15 minutos todos os amigos também já tinham chegado. Éramos sócios e amigos de todos os funcionários da AABB da Lagoa, que nos conheciam pelo nome. Nosso dia inteiro era para jogar bola, ping-pong, tênis, ir à piscina e, em algum momento, almoçar juntos, mais de 10 moleques cheios de energia e idéias de jerico, fazendo muita bagunça no restaurante do clube. Sem pais nem responsáveis para olhar nossas irresponsabilidades. Resumindo, liberdade pra fazer o que quiséssemos o dia inteiro até as 10 da noite, quando os pais começavam a chegar para nos buscar.

Voltávamos sempre dormindo no banco de trás do carro. Exaustos. Lembro de acordar sendo carregado por meu pai até em casa. Com certeza, nessas noites, o pensamento que me vinha a minha cabeça antes de adormecer era o desejo de que o próximo sábado chegasse rápido.

Domingo sempre acordava mais tarde e mais preguiçoso. Esse acordou diferente. Meu irmão me balançou avisando que nossos pais queriam conversar com a gente. Na mesa do café, meu pai nos avisou que assim que acabassem as aulas do semestre nos mudaríamos para Uruguaiana, no Rio Grande do Sul.

Foi a primeira vez na vida que senti o tempo passar mais rápido. Eu não queria que o dia de ir embora chegasse.

Num dos primeiros dias de julho minha mãe nos acordou bem cedo, nos arrumamos, tomamos café e descemos para a garagem. Meu pai já estava dentro do carro nos esperando. Foi a primeira vez que me lembro de reparar mais atentamente o lugar onde morava. Exatamente quando estava indo embora. O Leblon, cheio de árvores, e a Lagoa ao amanhecer me eram familiares, mas dali pra frente tudo seria novidade. Meu irmão começou a chorar. Lembrei dos sábados, do colégio e da praia, e comecei a chorar também.

− Isso é saudade... Revelou-nos minha mãe.

Não gostei de sentir isso.

A viagem de carro foi de descobertas e encantamentos. Passamos por três estados que não conhecíamos até chegar ao Rio Grande do Sul, sem pressa. Meus pais eram bem jovens e sabiam aproveitar uma viagem. Tudo era novo. Os hotéis onde pernoitávamos, os estados, as cidades, as florestas de pinheiros, os campos enormes e o frio!

Meu pai calculou a viagem de forma que na última perna a distância nos permitisse chegar no meio do dia a Uruguaiana.

 Meu pai calculava muito bem. Minha primeira viagem foi por 2.000 km de novidades e foi quando percebi que o mundo era muito maior e mais bonito do eu imaginava. E olha que eu já era bom imaginador. Sentia-me o tempo todo fazendo parte de uma aventura. Minha mãe era excelente explicadora do mundo e, também, do que eu e meu irmão sentíamos. Ela sempre tinha um nome bonito para o que a gente estava sentindo. Durante a viagem minha mãe nos contou um monte de coisas que sentíamos, mas não sabíamos o nome. Ela também previa o futuro e nos disse que ainda tinham muitas coisas legais pela frente.

 Depois de almoçarmos, já no centro de Uruguaiana, fomos para a Vila Militar, onde ficava nossa nova casa. Nunca havíamos morado em casa, só em apartamento.

Meu pai parou o carro na entrada da garagem. Quando ele saltou para abrir o portão eu e meu irmão pulamos do carro, excitados com tanta novidade. Fiquei olhando, ainda por fora do muro, àquela casa de dois andares, garagem, quintal grande e duas árvores frondosas e cheias de galhos bons para subir. Antes que entrássemos pelo portão, um cão adulto, tipo Collie, só que maior e mais forte, começou a brincar e entrou junto conosco pela primeira vez na casa. Meus pais nem repararam ocupados em retirar as malas do carro, eu e meu irmão fomos para o quintal explorar e brincar com aquele cão dócil, alegre, grande e bonito, mais bonito que a Lassie.

A vila militar ocupava um quarteirão inteiro. As casas rodeavam esse quarteirão e tinham duas entradas, a da frente que dava pra rua e a de trás, que dava direto para a parte interna do quarteirão, onde havia uma enorme área gramada comum a todas as casas. Esse centro era um grande espaço aberto com campo de vôlei, futsal, tênis e o melhor, a maior parte era de grama e árvores. Daquelas que dão pra subir até o alto. Cheias de galhos. Frondosas. Eu, meu irmão e o cão andamos por todos os cantos daquele parque particular. Descobrindo um mundo novo, totalmente diferente do Leblon. Até o jeito de falar das pessoas era outro. Ficamos imaginando um monte de coisas pra fazer no Campinho. Era assim que era chamado aquele parque particular.

Quando começou a anoitecer voltamos para casa, empolgados com aquele espaço enorme que seria nosso quintal dali pra frente. Nunca tínhamos podido ir tão longe sozinhos. E o cão nos seguindo o tempo todo, nos sentíamos os donos dele. Brincamos de mudar de direção enquanto andávamos e o cão mudava também. Quando entramos pelo portão de casa, o cão entrou conosco, como se aquilo fosse absolutamente rotineiro. Entramos pela cozinha e fomos até a sala, onde meu pai colocava lenha na lareira. A casa tinha lareira! E meu pai sabia muito de lareira apesar de nunca ter tido uma. Meu pai sabia muito de tudo. Fiquei hipnotizado pelo fogo. Meu pai me olhou sorrindo, ele sabia o que eu estava sentindo. Os pais sempre sabem. E olhou também para o cão ao meu lado. Fez um aceno com a cabeça na direção do cão e respondi que não sabia de quem era. Ele chamou o cão que obedeceu e se derreteu com os afagos dele. Meu pai também gostava de cães. Combinamos que o cão dormiria fora da casa, dentro do campinho. Ele achava que o cão deveria ser de alguma outra família dali e durante a noite voltaria para os seus donos. Eu e meu irmão fomos juntos com ele deixar o cão no portão.

Naquela noite, quando saí do banho, descobri porque a casa tinha lareira. Tudo parecia um filme. Até o meio da noite, quando todos acordaram morrendo de frio, os quartos ficavam no segundo andar e a lareira era na sala de baixo. Fomos todos dormir na sala, em frente à lareira e abraçados embaixo dos cobertores. Minha mãe fez meu pai prometer que compraria aquecedores elétricos para todos os cômodos na manhã seguinte. Sorte dele que a casa não era grande. Adorei o frio. Ele nos fez dormir abraçados, todos juntos em frente à lareira.

A manhã seguinte nos ensinou que mais frio que uma noite fria de inverno no sul do Rio Grande do Sul é a manhã que vem depois dessa noite. Acordei já tremendo, embaixo de uns três cobertores e abraçado a minha mãe, enquanto meu pai tentava acender novamente a lareira. Ele tinha calculado mal e o fogo apagara precocemente. Quase congelamos. Mas meu pai sabia reacender lareiras e em pouco tempo voltamos a dormir. Quando acordamos de novo, meu pai já havia saído para comprar aquecedores.

Nunca tinha imaginado que era possível fazer tanto frio. Tínhamos acabado de chegar do Rio de Janeiro e isso era completamente novo pra gente.

Antes de tomarmos café eu e meu irmão fomos até o portão que dava para o campinho e lá estava o cão deitado em frente. Saltou para dentro do quintal e começou a fazer muita festa. Nunca havíamos tido um cão, muito menos daquele tamanho, nem caberia no apartamento onde morávamos no Rio. Tomamos café e fomos direto para o campinho, o cão veio junto. Não saía do nosso lado para nada. Estávamos apaixonados por ele e ele por nós. Quando voltamos para o almoço, meu pai já havia posicionado um aquecedor em cada cômodo. Perguntou sobre o cão. Contamos a estória. Ele explicou que o cão deveria pertencer a alguma família da vila ou das redondezas. Novamente quando anoiteceu fomos deixá-lo do lado de fora da casa. Só que dessa vez do lado que dava para a rua e não para o campinho. Fora desse lado que ele aparecera. O cão saiu e sentou-se na porta do lado de fora.

Essa noite dormimos todos bem aquecidos, cada um na sua cama. Como bônus pela noite anterior, eu e meu irmãos fomos dispensados do banho. Antes de dormir ficamos conversando sobre o cão. Estávamos encantados e começamos a imaginar que ele poderia ser nosso. E se ele não tivesse dono?

Quando adormecemos o cão já se chamava Mister.

No dia seguinte, Mister continuava na porta e entrou assim que abrimos. Meu pai estava tomando café e nos contou que um segurança noturno da vila lhe dissera que ele tinha dormido a noite inteira no portão. E aumentou ainda mais nossa esperança de que ele fosse mesmo nosso quando contou que o vigia também dissera que trabalhava ali há anos e nunca havia visto aquele cão. Da vila ele garantiu que não era.

Meu pai nos contou isso enquanto brincava com o Mister. Meu pai adorava cães e tinha uma sensibilidade especial no trato com eles que sempre o adoravam também. Meu pai sabia muito de cães.

− Mister é?... Gostei, disse ele.

E assim o Mister foi oficialmente batizado.

Nos fins de semana seguintes fomos os quatro, eu, meu pai, meu irmão e o Mister, passear pelas ruas próximas. Meu pai nos explicara que se ele fosse de alguma daquelas casas, ou alguém o reconheceria ou ele reconheceria alguém ou alguma das casas.

Ele era um cão bem tratado, grande, forte e adulto. Um belo cão. Um ovelheiro, como eles chamam ali na fronteira gaúcha. Um pastor de ovelhas. Ele tinha os caninos marcados como se tivessem sido serrados na ponta ou algo parecido. Descobrimos que isso acontecia para que não machucassem as ovelhas mais novas, informação dada pelas pessoas com quem meu pai conversara em busca de informação sobre o cão e seus possíveis donos.

Nosso encantamento pelo Mister só aumentava. Ele tinha que ser o nosso cão. Um pastor de ovelhas de verdade. Estava na cara que meu pai também queria.

Ele aceitou depois que eu e meu irmão prometemos que não íamos ficar frustrados se o dono aparecesse de repente. Prometemos sem hesitar um segundo, apesar de nenhum dos dois ter a menor idéia do que significava “frustrados”. Não importava. Depois perguntaríamos para minha mãe.

A partir desse dia foi oficializada a entrada na família daquele grande companheiro que marcaria para sempre nossas vidas.

- Um belo cusco! Segundo todos que o conheceram.

Descobrimos que lá eles chamam cachorro de cusco.  Chamam batida de carros de “peixada”.  Nunca consegui entender o porquê...

Garoto era guri ou piá. Em menos de um mês eu já estava falando Bah! Tchê! E chamando os guris da vila pra brincar. Foi lá que comecei a me aproximar das gurias e a me sentir atraído por elas.

 Em Uruguaiana não tinha televisão nessa época. No Rio, National Kid era uma das melhores coisas da minha semana, passava todas as sextas-feiras quando eu voltava do colégio. Mas, não me lembro de ter sentido falta um dia sequer.

Lá aprendi a gostar de chimarrão. Tinha 10 anos e, geralmente, criança acha o gosto muito amargo. Eu gostava. Tinha minha cuia e gostava de ficar no quintal olhando o Mister e bebendo chimarrão. Nas manhãs frias, ficava na varanda do quarto olhando a paisagem branquinha coberta com a fina camada de gelo da noite geada. Era tudo muito diferente, uma grande aventura, como um filme. Para um menino do Rio, acostumado com o modo de vida de uma cidade cosmopolita, era um mundo totalmente novo. Entre o Leblon e Uruguaiana, eu descobri que o mundo era muito maior do que eu jamais imaginara.

Meu pai servia no 8⁰ Regimento de Cavalaria, o que significava que podíamos montar a cavalo com regularidade. No Rio, meu pai servira no Regimento Andrade Neves, na Vila Militar, que também é de cavalaria e foi onde eu e meu irmão aprendemos a montar.

Minha estréia na equitação gaúcha não foi das melhores. A primeira vez que eu e meu irmão fomos, com o grupo de filhos de oficiais da vila, para montar no quartel, foi inesquecível e hilário.

O sargento que dava treinamento para a gurizada deu, para mim e meu irmão, os dois cavalos mais mansos do quartel, por precaução, já que era nossa primeira vez em terras da fronteira. Nem preciso dizer que os guris de lá pareciam que tinham nascido em cima de um cavalo. Mas, eu e meu irmão, apesar de ainda tímidos, estávamos acompanhando direitinho. Até que meu cavalo, branco, chamado Kibon, começou a corcovear do nada. Estávamos no campo de Pólo do quartel, um espaço enorme e gramado. Consegui me manter em cima do cavalo apesar dos solavancos, e logo ele parou com a intervenção do sargento. Eu não havia caído, mas com o corcovear eu saí da cela e fui parar no pescoço do cavalo. Quando ele parou, calmante abaixou o pescoço e eu desci escorregando de cara no chão. Sorte que era grama. Saí fisicamente ileso e moralmente arrasado. Pelo menos, consegui conquistar a gargalhada e a amizade de todos ali. Passei a ser conhecido como o Carioca que caiu do Kibon, o cavalo mais manso do 8⁰ Regimento de Cavalaria. O Mister estava lá e foi o primeiro a me socorrer no chão com suas lambidas.

O Mister já estava nos esperando na porta de nossa casa desde o momento em que chegamos do Rio e ficaria conosco até o dia em que fomos embora, chorando.

Nunca soubemos de onde ele veio.

- Edmir Saint-Clair

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ONDE MORA O DEUS DE CADA UM

      

            Rezar ou orar, assim como se masturbar, são práticas individuais que exigem compenetração e foco. Em ambos os casos, a intenção é alcançar um estágio de elevação sensorial que  transcenda as sensações ordinárias da nossa rotina diária. Qualquer interferência externa prejudica o processo.

Por isso, todo intermediário que for incluído nesse ritual, tais como missas, cultos, pastores, padres, pais de santo, gurus, monges e todos do gênero são absolutamente não só dispensáveis, como prejudiciais ao alcance autêntico e verdadeiro desses  momentos genuinamente transcendentais. 

Nenhum lugar é melhor, mais confortável e apropriado para essas práticas espirituais, para esses encontros consigo próprio, do que aquele onde não existe mais ninguém, a não ser nossa alma e nossa mente, nuas, em contato com o que temos de mais transcedental; nossas mentes e as fantásticas fantasias que ela produz. 

Nossos mentes são nossos templos, onde mora o Deus de cada um. 

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MUITO ALÉM DO PRÓPRIO UMBIGO

 

        Além da Rússia, a China entrou no cenário bélico atual de maneira insidiosa, o que pode levar o mundo a um ponto ainda mais crítico. Ou evoluímos ou não sei não...vai dar merda.

As tensões internacionais têm aumentado de forma perigosa e, sem ser alarmista, de uma maneira assustadora e rápida, contrapondo, sem precedentes, forças atômicas capazes de aniquilar a vida no planeta. Todas as potências nucleares do mundo estão em rota de colisão, algumas já colidindo.

Me vem à cabeça, um pensamento que me acompanha há décadas. Na verdade, é uma diversão mental solitária; comparar o estágio evolutivo/civilizatório humano com as etapas da vida de uma pessoa comum. É simples, tomo por base o surgimento do homo sapiens, que corresponderia ao nascimento de um indivíduo, e as eras seguintes da evolução da espécie são os diferentes estágios do crescimento humano; bebê, aprende a andar, a falar, a se comunicar, entra na primeira infância, pré e adolescência, juventude, maturidade até o estágio máximo de evolução possível ao tempo de vida de um ser humano. 

Por isso, alcançar a era da sabedoria só será possível à humanidade como um todo. É preciso que todos a alcancem de forma universal, que todos se beneficiem dela de forma pessoal e integral.  Como resultado de uma evolução construída durante milhares de anos, por caminhos abertos por todas as gerações precedentes que foram deixando seus legados para que as gerações seguintes agreguem suas contribuições e garantam a continuidade dos avanços e conquistas. Até que consigamos  resolver a intrincada e, até agora, insolúvel equação de satisfazer a todos e a cada um, ao mesmo tempo. Não só para os humanos, mas para todo planeta. 

Na minha aleatória opinião, a humanidade ainda está no início da adolescência. Medindo forças, tamanhos, pesos, testando limites e desafiando a morte, briguentos, inconsequentes, irresponsáveis, loucos. Governados pelos hormônios. Vivendo como se não houvessem nem amanhã e nem gerações futuras que terão que arcar com as nossas inconsequências.  A lei do humano mais forte é ainda mais cruel e impiedosa que na natureza. Porque, entre os homens, as forças foram covardemente multiplicadas em seu poder destrutivo e bestial.

Mesmo vivendo cada vez mais, poucos conseguem chegar ao estágio da maturidade, por falta de conhecimento sobre si mesmo e sobre a vida. Por que não se importaram com o que é importante. A maioria só envelhece, sem nada ter aprendido ou acrescentado. Sem ter contribuído para a evolução da espécie.

Poucos conseguem entender que a vida é muito mais que o próprio umbigo. 

Edmir Saint-Clair




TEMPO E DINHEIRO

 
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AMANTES

O toque acendeu o sol,

                                                        Dois sóis,

Quentes, atraentes, penetrantes,

Somando-se num calor ardente, pendente, arfante


Pele, seda, almas sussurantes,

Atraindo-se, exalando seus perfumes provocantes,

Fêmea nua, natureza dominante


A carne quente, úmida, envolvente,

Sugando, atraindo, desejando urgente,

Acordando o desejo de se completar inteira,

Em cada poro, em cada arfar, em cada instante


Teu ar, meu ar, arfantes, dentro, fora,

                                            Enebriantes,

Somos insanos, alucinados, delirantes,

Cabendo juntos no mesmo universo latejante,

Somos a vida, somos amor, somos amantes.


Edmir Saint-Clair


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