ensaios

VERDADE SEJA DITA

 

     Basta cair no grupo da família um vídeo com uma luz estranha no céu: metade ri, metade jura que é disco voador, e quase ninguém pergunta o que aquilo é, afinal. Li outro dia uma reflexão do filósofo português Filipe Calhau, e foi dela que saiu este texto. Nela encontrei um nome para uma coisa que eu conhecia de vista havia muito tempo: o “desconforto intelectual”. É o incômodo que certos assuntos provocam quando ameaçam aquilo em que a gente acredita — e a vontade, quase física, de desconversar antes de ter que rever alguma coisa, ou de ser mal julgado só por ter tocado no tema.

Para pensar como seria a reação mais produtiva a esse incômodo, ele imagina uma figura que chama de “sujeito intelectual ideal”, nome que deu também a um de seus livros. Esse ser ideal seria alguém com coragem para enfrentar o medo do ridículo e da rejeição; com humildade para admitir a própria ignorância e, por conseguinte, assumir a priori a possibilidade de estar equivocado; com flexibilidade para rever o que pensava quando aparece uma explicação melhor; e com autoestima suficiente para não viver em função do que os outros vão pensar. Ninguém chega a ser esse sujeito, claro: é apenas um modelo de referência, não um retrato. Mas serve de régua para medir a distância que separa a gente, meros mortais, desse sujeito intelectual ideal.

Em 29 de maio de 1919, em Sobral, no interior do Ceará, o céu abriu pouco antes do eclipse total do Sol, e dois astrônomos britânicos conseguiram fotografar as estrelas ao redor do Sol encoberto — sorte que a outra equipe, mandada à ilha do Príncipe, na costa da África, não teve na mesma medida. Em novembro, numa sala lotada em Londres, sem Einstein e debaixo de um retrato de Newton, foi anunciado o que aquelas fotos, sobretudo as de Sobral, mostravam: a luz das estrelas se curvava ao passar perto do Sol, exatamente como Einstein tinha previsto. Em poucos dias, a notícia estava nos jornais do mundo inteiro.

Três anos depois, Einstein ganhou o Nobel de Física — pelo efeito fotoelétrico. Na carta que comunicava o prêmio, a Academia Real de Ciências da Suécia teve o cuidado de avisar que as teorias da relatividade e da gravitação não tinham sido levadas em conta, à espera de confirmação futura.

Não era gente ignorante. Eram algumas das cabeças mais preparadas do seu tempo. Mas preparo intelectual não é a mesma coisa que coragem intelectual. Dá para saber muito e ainda assim ter medo de admitir o que não sabe.

Não por acaso, o exemplo que Calhau escolhe é o mesmo do grupo da família: os avistamentos de OVNIs e os relatos de contato com extraterrestres. Achei a escolha perfeita. Poucos temas provocam um desconforto intelectual tão imediato, e ele cresce na medida da notabilidade de quem é chamado a opinar. Um anônimo especula à vontade na mesa do bar; um cientista respeitado sabe que basta tratar o assunto com seriedade, em público, para virar piada entre os colegas. Em 1919, o desconforto não saía do meio científico. Hoje, a chacota não fica entre os colegas: em poucas horas, está nos celulares do mundo inteiro.

    O ego é um sistema de sobrevivência, formatado geneticamente para gastar o mínimo de energia possível. Buscar a verdade custa tempo, custa atenção — e pode derrubar certezas que a gente levou anos para construir. O ego não gosta de ser contrariado, não gosta de ver a própria vaidade abalada, não gosta de admitir a própria precariedade. Prefere continuar funcionando como já funciona a enfrentar o trabalho de reorganizar tudo o que uma descoberta nova pode bagunçar dentro da gente.

Há três jeitos de reagir a esse desconforto. Tem gente que foge. Muda de assunto, troca de sala, finge que não ouviu. Tem gente que fica e discute, mas discute para vencer, não para entender — torce o argumento do outro até ele virar caricatura. E tem aquela pessoa raríssima que fica e escuta de verdade, mesmo sabendo que pode sair dali precisando reconstruir seus conceitos e saberes. Só ela chega perto do sujeito intelectual ideal.

Até nos meios mais intelectualizados, o segundo tipo é o mais comum. E ele tem uma versão pior, que eu desprezo profundamente: a desonestidade intelectual. A pessoa sabe que está errada e, mesmo assim, sustenta a discussão com qualquer artifício, para sair vencedora de uma briga que já perdeu para si mesma.

Porque admitir errar sobre uma ideia pequena custa pouco. Admitir errar sobre uma ideia que sustentava outras cinquenta, que organizava a carreira, o discurso, o lugar que a pessoa ocupa entre seus pares — isso tem um peso interno enorme. Isso mexe com quem a pessoa pensa que é e com a maneira como organiza seus princípios estruturais.

Eu reparo isso fora dos meios intelectuais também, no dia a dia comum. Gente inteligente, bem-lida, capaz de discutir qualquer assunto com desenvoltura, que trava justamente nos temas que mais importariam. Trava porque tem medo do que vão pensar dela. Trava porque discordar em voz alta parece, para algumas pessoas, mais perigoso do que estar errado em silêncio.

A autoestima entra aqui como uma espécie de escudo ao contrário: não serve para proteger do erro, serve para permitir que ele apareça. Quem não depende da aprovação alheia para se sentir inteiro pode errar em público sem desmoronar. Pode mudar de ideia sem que isso vire humilhação. É quase sempre o medo, e não a falta de inteligência, que mantém as pessoas presas a posições que elas mesmas já desconfiam estar erradas.

A verdade não pergunta se a gente está confortável antes de aparecer. E há uma divisão mais fina, sobre o que cada um quer quando ela chega. Dá para querer que ela seja falsa, porque assim tudo fica como estava. Dá para querer que seja verdadeira a qualquer custo, porque confirma o que a gente já pensava. Ou dá para querer saber, simplesmente, seja qual for a resposta.

Mas quase ninguém escolhe a terceira opção. E ela é a única que deixa a gente, aos poucos, mais perto da verdade.

Edmir Saint-Clair

Gostou do que leu? Continue por aqui:

Comprar livros Orientador Literário Seguir no Instagram Canal no YouTube