A VOZ  Contos  EDMIR SAINT-CLAIR 

A VOZ

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De repente, ele começou a ouvir uma voz em seus sonhos.

Não eram vozes, no plural, era apenas uma voz específica. 

A lembrança era clara e diferente de tudo que já havia sonhado antes.

Acordou assustado, ainda não havia amanhecido. Sua respiração estava ofegante e demorou até saber onde estava; deitado em seu quarto, em sua cama.

 Não conseguiu mais dormir, estava muito impressionado com aquela voz que não pôde identificar. Não era conhecida, nem familiar, mas era aconchegante.

Foi até a cozinha ferver água para fazer o café. Quando voltou e abriu a torneira da pia para escovar os dentes, a voz já não lhe soava tão clara, tão pouco se lembrava do que lhe dissera.

Quando estava na varanda tomando seu café forte, puxou inutilmente pela memória, que parecia se distanciar como uma gaivota voando em direção ao horizonte.  O nascer do sol estava lindo e meia hora depois já não se lembrava de mais nada. A não ser que uma voz num sonho lhe causara uma impressão profunda que ele não conseguia tirar de seus pensamentos. Esse foi o primeiro dos muitos eventos que estavam por acontecer.

O desenrolar do dia e dos afazeres terminaram por apagar completamente a lembrança. Após o almoço, aquele evento havia fugido completamente de sua memória.

Duas semanas após, o mesmo evento se repetiu com uma fidelidade improvável. Sua angústia foi muito maior do que no despertar da primeira noite. A única diferença, e mais agoniante, é que nessa segunda vez conseguiu reter ainda menos detalhes do que no evento anterior. Apenas o suficiente para se aproximar da certeza de que fora absoluta e estranhamente igual.

Dessa vez, demorou mais tempo para retornar a sua rotina sem sentir aquele incomodo esquisito e inexplicável.

Não demorou para que o evento se repetisse. Apenas alguns dias e dessa vez o impressionou ainda mais, a ponto de atrapalhar uma série de acontecimentos profissionais de sua rotina. Não conseguia se concentrar em mais nada. Naquela noite, tomou dois gramas a mais de ansiolítico e mais um antialérgico para adormecer mais rápido. E foi dormir tentando lembrar-se de qualquer detalhe a mais sobre aquela voz. Sequer conseguia definir se era masculina ou feminina. Menos ainda sobre o que falava.

Na repetição seguinte, a coisa se complicou ainda mais. Quando acordou, após o mesmo sonho, manteve-se parado na mesma posição porque haviam lhe falado que isso facilitava a retenção da lembrança. Passados alguns minutos, não achou que estivesse fazendo algum efeito no seu caso. Até chegar ao banheiro e, enquanto colocava pasta de dentes na escova, resmungou:

— Se essa voz falasse quando estou acordado seria muito mais fácil entender... ô voz zinha burra!

Talvez, por já não estar levando aqueles sonhos tão a sério, acordara de bom humor naquele dia. Até ouvir nitidamente:

— Então está certo. Você se acha capaz de me ouvir conscientemente?  Espero que sim...

Rodrigo foi encontrado desacordado no banheiro pela diarista, que o acordou tão assustada quanto ele.

 Acontece que, daquela manhã em que desmaiara até o dia em que foi encontrado, havia se passado três dias. 

O evento se tornava mais surreal pelo fato de que a diarista havia ido trabalhar na casa de Rodrigo naqueles mesmos três dias e, segundo seu relato, ele não estava em casa. Ela limpara a casa inteira, incluindo o banheiro onde ele foi encontrado e, definitivamente, ele não se encontrava naquela casa durante aqueles dias.

Ela imaginou que ele estivera viajando pois, durante aqueles três dias nada na casa fora mexido. Como se ninguém, além da própria diarista, houvesse estado ali.

Na agência de propaganda onde trabalhava, ele também faltara aos mesmos três dias úteis.

Sua última lembrança era a imagem da expressão aterrorizada de seu próprio rosto no reflexo do espelho.

Ele nunca conseguiu se lembrar de nada do que aconteceu naqueles dias subsequentes.  A única coisa diferente que havia restado daquela experiência surreal eram as manchas de dois filetes de sangue coagulado, uma em cada ouvido. E Nada mais.

Após se alimentar, deitou e demorou algumas horas até se sentir recuperado o suficiente para levantar com um estranha e urgente determinação de ir buscar seu filho no colégio naquele dia. Ele nunca fazia isso, era divorciado e a guarda do filho era compartilhada. O menino já tinha 14 anos e ia e voltava sozinho de ônibus comum, do colégio para a casa da mãe, onde morava.

Ele sabia disso, e o próprio filho não gostava que o pai fosse buscá-lo na porta da escola. Mas, Rodrigo estava agindo como se houvesse sido programado, como um robô, para desempenhar aquela tarefa. Ele não estava pensando, apenas agindo.

Quando parou o carro no ponto de ônibus em frente à escola, viu o filho e mais dois amigos sentados no ponto de ônibus aguardando o coletivo. Abriu a porta do carona, chamou o filho e ofereceu carona aos amigos dele, que entraram no carro rapidamente. Assim que Rodrigo arrancou com seu carro, um caminhão desgovernado invadiu em alta velocidade e bateu violentamente contra o ponto de ônibus, exatamente no lugar onde os três garotos estavam sentados.


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A NOVA LISTA DE ANO NOVO  Crônicas  EDMIR SAINT-CLAIR 

UMA NOVA LISTA DE ANO NOVO

UMA NOVA LISTA DE ANO NOVO

Dezembro, o mês mais emocional do ano.  

Parece a chegada de uma gigantesca maratona da qual toda a população participou. A sensação coletiva é de exaustão, de enorme cansaço físico e emocional. Para onde olharmos, veremos a mesma coisa. Uma mistura confusa de afetos e sensações contagiantes que nos coloca, a todos, num mesmo e imenso barco onde juntos navegamos por águas sentimentais que provocam uma fragilização emocional coletiva alimentada freneticamente pelas mídias e toda sorte de propagandas, músicas e decorações natalinas onipresentes até onde a vista e os ouvidos podem alcançar. Não tem como fugir.

Faz parte da nossa cultura essa “emocionalização” potencializada pelas festas natalinas e pelo final do ano. Em suas origens, havia um apelo religioso que, por conseguinte, conduzia as pessoas à reflexão típica da cultura judaico-cristã, que sempre leva todos os "pecadores" a um certo grau de sentimentos de tristeza e culpa. A tradição é pensar em nossos erros, frustrações e ausências.

Mesmo que não tenhamos feito lista alguma de resoluções e planos para o ano novo, o que nos vem à lembrança é uma relação de coisas que pretendíamos ter realizado e não o fizemos. A data que, hoje, tem pouco de suas origens religiosas, foi engolida pelo Marketing que aproveitou essa “emocionalidade” exacerbada, potencializando-a ainda mais, através das ações de publicidade, fazendo transbordar essas emoções de frustração e culpa que são habilmente canalizadas para o aumento do consumo de bens.

Quanto mais o envolvimento, a emoção e a culpa forem despertadas, mais cada um de nós vai gastar dinheiro.

Ao refletir sobre esse movimento anual, me parece que valeria a pena experimentar uma forma de, ao chegarmos ao final do ano, em vez de pensarmos nas besteiras e bobagens que fizemos ou deixamos de fazer, como em todos os anos passados, pudéssemos reconhecer nossos acertos e mudanças positivas.

 Pensando numa maneira leve e produtiva de alcançar esse objetivo, podemos brincar de fazer durante o ano seguinte, uma lista que pode mudar completamente essa sensação desconfortável que a “tristeza de fim de ano” provoca na maioria de nós.

E Se, em vez dos afetos negativos, no próximo ano tenhamos uma relação de afetos positivos para recordarmos?

Pensando nisso, proponho AMA NOVA lista de ano novo.

A diferença, é que não será uma lista de planos e metas sobre entrar na academia segunda-feira, começar um regime ou aprender um novo idioma.

Será uma lista de realizações e não uma lista de desejos.

A nova lista será feita não antes, mas durante o desenrolar do novo ano.

Uma brincadeira diária de registrar nossos eventos rotineiros, mas só as ações que foram efetivamente realizadas, que aconteceram de verdade. Porque de boas intenções o inferno já nos enche diariamente.

E o objetivo maior é aumentar o autoconhecimento de forma leve e nos dar reais motivos para acreditarmos em nós mesmos.

A NOVA lista de ano novo:

1 - Anote tudo que acontecer de bom com você, todos os dias. Por mínimas que sejam.

2 - Registre todas as manifestações culturais as quais tiver acesso e as suas impressões sobre o que sentiu. Seja Um artista de rua, um cantor desconhecido no barzinho, filmes, peças de teatro...e claro, as grandes produções que assistir.

3 - Registre todas as vezes em que perceber um traço em si que não lhe agrada. Escrever potencializa a introjeção e induz a reflexão sem culpa. Na primeira oportunidade tente fazer diferente e anote com destaque quando conseguir.

4 - Anote todas as vezes que conseguir se conter e evitar uma briga na qual, normalmente, você se envolveria.

5 - Anote todas as vezes em que conseguir trocar a competitividade pelo companheirismo.

6 - Registre as vezes em que estiver sozinho e sentir uma sensação gostosa de alegria e bem-estar.

7 - Anote, com destaque, todas as vezes em que conseguir AGIR exatamente como você gostaria.

 Dessa forma simples e acessível a qualquer pessoa, no final do ano seguinte, teremos inaugurado um caminho totalmente novo, através do autoconhecimento, para nos orgulharmos de nós mesmos por motivos concretos e determinantes. 

E estaremos alimentando a crença mais importante e positiva que existe: a crença de cada um em si e de que, todos, temos o poder de modificar a nós mesmos.

FELIZ 2025!




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Crônicas  EDMIR SAINT-CLAIR  MEU AMIGO QUE VOAVA 

MEU AMIGO QUE VOAVA

MEU AMIGO QUE VOAVA



Um cara engraçado, que sabia rir de si próprio como só as boas pessoas sabem.  Uma combinação incomum, que misturava coragem com um jeito atrapalhado. Se a sorte não tivesse se juntado nesse tempero, teria ido mais cedo para o outro lado.

Uma pessoa aberta a novos pensamentos. Adorava uma novidade. Um desbravador. Sempre que ouvia falar em algum lugar novo, fora do “circuito descolado”, punha-se a caminho para conhecer. De moto, de Kombi ou de Brucutu, um carro equivalente a um Off Road, adaptado por ele nos anos 90 do século 20. 

Morador do Leblon, depois Ipanema, curiosamente era a montanha e não a praia, que o seduzia. Não era morar na montanha, a onda dele era saltar lá de cima. E Lá em cima ele encontrou sua praia. E decidiu passar o resto da vida voando. E passou.

Quando descobriu que podia ter asas, demitiu-se do cargo de engenheiro civil no funcionalismo público, que lhe remunerava muito bem e lhe oferecia estabilidade, para fazer vôos duplos de parapente, em São Conrado, no Rio de Janeiro que tanto amava.

Foi feliz. Viajou e se aventurou, como gostava, para voar em lugares inusitados. Coisas do Bode. Bode não, Carlinhos. Que Carlinhos? O Bode. 

Teve a vida cheia de altos vôos e soube fazer suas escolhas valerem à pena. Conservou, até o fim, a mesma curiosidade adolescente, a mesma alegria ingênua e espontânea. Era capaz de rir e de fazer piadas nos momentos mais difíceis que enfrentou.

Um aventureiro, corajoso por natureza. Amigo por vocação. Sempre teve muitos porque sabia ser um amigo dos grandes. Daqueles que a gente pode contar e ligar no meio da madrugada, fosse para chorar ou para comemorar. 

No imaginário popular, não devemos contar nossas expectativas antes que se realizem, para não despertar olho gordo. Mas, para mim, ele dava sorte. Todas as vezes que estava esperando o desfecho de alguma situação, uma resposta importante, contava para ele. Sempre me deu sorte.

As muitas décadas que convivemos, me deram a honra conhecer um ser humano autêntico e admirável. Um dos momentos mais significativos de nossa amizade, é a satisfação de ter podido expressar, com todas as letras, pessoalmente, o meu amor e a minha admiração para com esse irmão que cativou minha alma com sua essência cheia de bondade.

A ausência já não machuca tanto depois de tantos anos. Mas, nunca vou deixar de sentir saudades. 

Ao mesmo tempo, tenho muita alegria de ter convivido com esse amigo que me ensinou que era possível voar.


- Edmir Saint-Clair

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