Contos  Crônicas  EDMIR SAINT-CLAIR  SAINDO DA DEPRESSÃO 

SAINDO DA DEPRESSÃO

SAINDO DA DEPRESSÃO


De repente, ele se deu conta que as coisas começavam a entrar num sincronismo que há muito não existia. Pequenos detalhes se encaixando no momento certo.

O sabonete, que acabava no meio do banho, agora tem outro novinho à mão. A toalha, que ele não se esquecera de pegar, a mesma que só se lembrava de não tê-la pego quando estava fechando o chuveiro. O banho, que sempre lhe trouxe bem estar, ainda mais no verão carioca. A depressão havia lhe tirado todos os prazeres, até o da higiene.

De repente, o encadeamento dos eventos rotineiros parecia entrar em sintonia, um acontecimento não atrapalha mais o outro, agora, todos parecem se complementar.  Ele começou a perceber um aumento na capacidade de tomar pequenas decisões, como a que o fez comprar o sabonete antes que o outro acabasse, como era comum acontecer. A depressão lhe tirara a capacidade de decidir sobre tudo e qualquer coisa.

Seu cérebro estava se curando, buscando a estabilidade, a homeostase, se consertando.

Ele sabe que se não atrapalhar seu cérebro, tudo vai continuar a entrar, cada vez mais, em sintonia.

Sintonia com o quê ou quem?  Consigo mesmo. Com a sensação de se bastar, de não precisar de nada além da água caindo sobre seu corpo para ter aquela sensação de plenitude que sentia naquele agora.

Percebeu que estava fora do inferno. Um profundo alívio, do qual sobreveio uma leveza indescritível.  Perdeu o sentido de urgência, a ansiedade se dissipou.

Não foi mágica, foi ajuda, pedira socorro. Sozinho, teria morrido. Foi terapia, foi neuropsicologia. Foi a ciência que ajudou seu cérebro a se curar, deixando-o ser maravilhosamente fantástico como o de todos os seres humanos, permitindo que se reprocessasse e arrumasse toda a bagunça. A ciência fora capaz de lhe curar, intercedendo, efetivamente, na desensibilização e reprocessamento de traumas que lhe afetavam muito mais do que supunha sua vã filosofia.

Até aquele momento, ele não acreditava que sairia daquele mundo de horror chamado depressão. Ninguém que esteja passando por ela acredita que possa vencê-la, faz parte da doença.

Naquele momento, a água, o sabonete e a toalha lhe mostraram que ele estava de volta à vida.

Sobrevivera.

– Edmir Saint-Clair

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A VOZ  Contos  EDMIR SAINT-CLAIR 

A VOZ

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De repente, ele começou a ouvir uma voz em seus sonhos.

Não eram vozes, no plural, era apenas uma voz específica. 

A lembrança era clara e diferente de tudo que já havia sonhado antes.

Acordou assustado, ainda não havia amanhecido. Sua respiração estava ofegante e demorou até saber onde estava; deitado em seu quarto, em sua cama.

 Não conseguiu mais dormir, estava muito impressionado com aquela voz que não pôde identificar. Não era conhecida, nem familiar, mas era aconchegante.

Foi até a cozinha ferver água para fazer o café. Quando voltou e abriu a torneira da pia para escovar os dentes, a voz já não lhe soava tão clara, tão pouco se lembrava do que lhe dissera.

Quando estava na varanda tomando seu café forte, puxou inutilmente pela memória, que parecia se distanciar como uma gaivota voando em direção ao horizonte.  O nascer do sol estava lindo e meia hora depois já não se lembrava de mais nada. A não ser que uma voz num sonho lhe causara uma impressão profunda que ele não conseguia tirar de seus pensamentos. Esse foi o primeiro dos muitos eventos que estavam por acontecer.

O desenrolar do dia e dos afazeres terminaram por apagar completamente a lembrança. Após o almoço, aquele evento havia fugido completamente de sua memória.

Duas semanas após, o mesmo evento se repetiu com uma fidelidade improvável. Sua angústia foi muito maior do que no despertar da primeira noite. A única diferença, e mais agoniante, é que nessa segunda vez conseguiu reter ainda menos detalhes do que no evento anterior. Apenas o suficiente para se aproximar da certeza de que fora absoluta e estranhamente igual.

Dessa vez, demorou mais tempo para retornar a sua rotina sem sentir aquele incomodo esquisito e inexplicável.

Não demorou para que o evento se repetisse. Apenas alguns dias e dessa vez o impressionou ainda mais, a ponto de atrapalhar uma série de acontecimentos profissionais de sua rotina. Não conseguia se concentrar em mais nada. Naquela noite, tomou dois gramas a mais de ansiolítico e mais um antialérgico para adormecer mais rápido. E foi dormir tentando lembrar-se de qualquer detalhe a mais sobre aquela voz. Sequer conseguia definir se era masculina ou feminina. Menos ainda sobre o que falava.

Na repetição seguinte, a coisa se complicou ainda mais. Quando acordou, após o mesmo sonho, manteve-se parado na mesma posição porque haviam lhe falado que isso facilitava a retenção da lembrança. Passados alguns minutos, não achou que estivesse fazendo algum efeito no seu caso. Até chegar ao banheiro e, enquanto colocava pasta de dentes na escova, resmungou:

— Se essa voz falasse quando estou acordado seria muito mais fácil entender... ô voz zinha burra!

Talvez, por já não estar levando aqueles sonhos tão a sério, acordara de bom humor naquele dia. Até ouvir nitidamente:

— Então está certo. Você se acha capaz de me ouvir conscientemente?  Espero que sim...

Rodrigo foi encontrado desacordado no banheiro pela diarista, que o acordou tão assustada quanto ele.

 Acontece que, daquela manhã em que desmaiara até o dia em que foi encontrado, havia se passado três dias. 

O evento se tornava mais surreal pelo fato de que a diarista havia ido trabalhar na casa de Rodrigo naqueles mesmos três dias e, segundo seu relato, ele não estava em casa. Ela limpara a casa inteira, incluindo o banheiro onde ele foi encontrado e, definitivamente, ele não se encontrava naquela casa durante aqueles dias.

Ela imaginou que ele estivera viajando pois, durante aqueles três dias nada na casa fora mexido. Como se ninguém, além da própria diarista, houvesse estado ali.

Na agência de propaganda onde trabalhava, ele também faltara aos mesmos três dias úteis.

Sua última lembrança era a imagem da expressão aterrorizada de seu próprio rosto no reflexo do espelho.

Ele nunca conseguiu se lembrar de nada do que aconteceu naqueles dias subsequentes.  A única coisa diferente que havia restado daquela experiência surreal eram as manchas de dois filetes de sangue coagulado, uma em cada ouvido. E Nada mais.

Após se alimentar, deitou e demorou algumas horas até se sentir recuperado o suficiente para levantar com um estranha e urgente determinação de ir buscar seu filho no colégio naquele dia. Ele nunca fazia isso, era divorciado e a guarda do filho era compartilhada. O menino já tinha 14 anos e ia e voltava sozinho de ônibus comum, do colégio para a casa da mãe, onde morava.

Ele sabia disso, e o próprio filho não gostava que o pai fosse buscá-lo na porta da escola. Mas, Rodrigo estava agindo como se houvesse sido programado, como um robô, para desempenhar aquela tarefa. Ele não estava pensando, apenas agindo.

Quando parou o carro no ponto de ônibus em frente à escola, viu o filho e mais dois amigos sentados no ponto de ônibus aguardando o coletivo. Abriu a porta do carona, chamou o filho e ofereceu carona aos amigos dele, que entraram no carro rapidamente. Assim que Rodrigo arrancou com seu carro, um caminhão desgovernado invadiu em alta velocidade e bateu violentamente contra o ponto de ônibus, exatamente no lugar onde os três garotos estavam sentados.


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