Contos  EDMIR SAINT-CLAIR  OUTRAS VIDAS 

OUTRAS VIDAS

OUTRAS VIDAS

 

    Um menino de seis anos nascido em Piracuruca, no Piauí, começou a descrever com precisão a vida de um alemão rico que morrera cinquenta anos antes na cidade de Punta del Este, no Uruguai.

O psicólogo Túlio Linhares, da Universidade de Campinas, investigou o caso com rigor científico, viajando três vezes ao local. Confirmou cada detalhe relatado: a casa de três andares à beira da água, a família Schmieden, os negócios de couro, a mala marrom e a morte nos anos 1940. A história tornou-se referência internacional porque desafia as fronteiras conhecidas da memória e da consciência.

A criança e as memórias impossíveis

4.680 quilômetros separam João Benício, uma criança de Piracuruca, no interior do Piauí, da cidade de Punta del Este, no Uruguai. Uma enorme distância geográfica, cultural e histórica. Mesmo assim, o menino começa a descrever com precisão a vida de um homem alemão rico, morto meio século antes de ele nascer, naquela cidade à beira do Rio da Prata.

Ele fala de uma casa de três andares construída sobre a água, com um píer onde barcos atracam. Atrás, haveria uma igreja. Ao lado, a propriedade de uma mulher famosa: Evita Dolores, conhecida na América do Sul e marcada por escândalos judiciais.

O detalhe mais intrigante surge quando o menino menciona a família Schmieden — donos da casa, ligados ao comércio de artigos de couro. João diz que o patriarca carregava sempre uma mala de couro marrom e só passava os verões naquela residência.

O olhar cético da ciência

Nada fazia sentido para seus pais, trabalhadores simples e católicos dedicados, cuja crença não inclui nada parecido com reencarnação. Como uma criança do sertão poderia inventar tais detalhes sobre um lugar que jamais visitara?

Em 1997, o psicólogo Túlio Linhares, da Universidade de Campinas, decide investigar. Cético por natureza, viaja até Piracuruca e entrevista o menino. Com um gravador de mão, anota e grava cada informação: a casa à beira da água, a igreja atrás, a vizinhança de Evita Dolores, a família Schmieden, a mala marrom, a morte entre 1940 e 1941.

Ao retornar ao gabinete, Túlio enfrenta a escolha: arquivar o caso como fantasia infantil ou testar cientificamente as afirmações. Opta pela segunda via.

A primeira viagem: a casa existe

A primeira ida a Punta del Este o surpreende. A residência de Evita Dolores é localizada sem dificuldades. Ao lado dela, exatamente como descrito, surge uma casa de três andares, construída sobre a água, com um píer na frente e uma igreja atrás. Estava abandonada, mas correspondia ponto a ponto à narrativa de João Benício.

Um vizinho idoso confirma: sim, um alemão morou ali décadas atrás. Mas, não havia mais nenhuma informação sobre a família que ali residira. A pista inicial se transforma em um enigma maior.

A confirmação histórica

Em 1998, Túlio retorna ao Uruguai. Consulta historiadores locais, especialistas na memória dos bairros de Punta del Este. Um deles confirma: a casa pertencia a um alemão da família Schmieden, casado com uma italiana, com três filhos. O homem era lembrado por sempre carregar uma mala de couro marrom e só ocupar a residência durante os verões. A família tinha negócios de couro em Montevidéu. A morte, registrada por volta de 1940, coincide com o relato do menino.

O detalhe final reforça o mistério: João Benício dizia que o nome do homem significava “bom homem” em alemão. Pesquisando, Túlio descobre que a expressão existia e era usada de forma respeitosa em tempos passados.

A terceira viagem: eliminando dúvidas

Determinando-se a fechar o quebra-cabeça, Túlio viaja uma terceira vez. Investiga registros de comunidades italianas ortodoxas e encontra indícios de que os filhos da família realmente receberam nomes italianos.

O quadro se completa: casa, localização, vizinhança, família, ocupação sazonal, negócios, mala, idioma, nomes. O menino brasileiro havia descrito com precisão elementos que nem mesmo historiadores locais lembravam de imediato.

A repercussão internacional

Os resultados são publicados em periódicos científicos e apresentados em conferências. Ian Stevenson, referência mundial nos estudos sobre reencarnação, elogia o trabalho como “exemplar, detalhado e verificável”.

O caso repercute em debates acadêmicos pelo mundo. Para alguns, é a prova de que memórias extra conscientes existem. Para outros, apenas coincidências estatísticas. Túlio mantém a posição equilibrada: não afirma que João Benício seja a reencarnação de ninguém, mas mostra que há fenômenos que escapam à lógica tradicional.

O ceticismo e a impossibilidade das explicações

Com a fama vêm as críticas. Pesquisadores analisam se a família poderia ter tido acesso a livros ou relatos sobre Punta del Este. Outros buscam conexões ocultas com alemães no Brasil. Nenhuma hipótese encontra sustentação.

A distância de 4.680 km, o isolamento da família no agreste do Piauí e a ausência de interesse em publicidade tornam improvável a fraude ou a coincidência. Para muitos estudiosos, a solidez metodológica do trabalho de Túlio transforma o episódio em um dos casos mais impressionantes já documentados.

O fim das memórias

Como em relatos semelhantes, as lembranças de João Benício desaparecem com a adolescência. Hoje adulto, vive uma vida comum, sem falar do que um dia marcou sua infância.

Na ciência, porém, o caso permanece. Para uns, prova de que a consciência pode sobreviver à morte. Para outros, um mistério ainda sem explicação.

O que se mantém indiscutível é o impacto: um menino pobre do sertão brasileiro descreveu com precisão a vida de um alemão morto a milhares de quilômetros, décadas antes de seu nascimento. E um pesquisador obstinado, aplicando o método científico, confirmou cada detalhe.

Mas o que João Benício realmente reviveu? Uma memória guardada em algum ponto desconhecido da mente? Uma coincidência impossível? Ou a prova silenciosa de que a vida não termina onde acreditamos que acaba?

A resposta permanece em aberto, perdida entre ciência e mistério — como uma casa abandonada à beira da água, onde ainda ecoam lembranças.

Edmir Saint-Clair  

Disclaimer

Esta é uma obra de ficção literária. Embora inspirada em atmosferas, relatos e mistérios que circulam pelo imaginário humano, não se apoia em fatos documentados nem tem compromisso com a realidade histórica. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas, lugares ou acontecimentos, é mera coincidência — ou talvez apenas o eco de outras vidas.

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ADOECER-SE OU CURAR-SE  EDMIR SAINT-CLAIR  Pensamentos  Poesia  Reflexões 

ADOECER-SE OU CURAR-SE

ADOECER-SE OU CURAR-SE

 Post-it com frase de Edmir Saint-Clair sobre sentimentos que adoecem e curam

"Os sentimentos são a vida. Por isso, é tão importante aprender a distinguir entre os que nos adoecem e os que nos curam."
— Edmir Saint-Clair

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CADA MOMENTO É ÚNICO ETERNAMENTE  EDMIR SAINT-CLAIR  MESMO NA ETERNIDADE  Pensamentos  Reflexões 

CADA MOMENTO É ÚNICO, ETERNAMENTE.

CADA MOMENTO É ÚNICO, ETERNAMENTE.

 Post-it com frase: Ainda que fôssemos eternos, cada momento continuaria sendo único

"Ainda que fôssemos eternos, cada momento continuaria sendo único."
— Edmir Saint-Clair

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Contos 

O REENCONTRO

 O REENCONTRO

     Sexta-feira, saída do metrô, estação Jardim Oceânico, 7h da noite, chove. Ele se maldiz pela escolha de ter deixado o carro estacionado e ter pegado o metrô para ir ao centro. Sua reunião não durou nem uma hora e o custo do estacionamento não compensou a trabalheira das baldeações. Para completar, esqueceu o guarda-chuva no vagão do trem. Estava aguardando não sabe o que, para iniciar a corrida de uns 200 metros até o local onde seu carro está estacionado, quando um senhor grisalho, de uns 70 anos, segura seu braço embaraçosamente e lhe fala com uma dicção perfeita e expressando-se de forma absolutamente clara e pausada:

 — Daqui a exatamente duas semanas, numa mesma sexta-feira, viaje de carro para Nova Friburgo e vá até Murí, ao local da entrada da estrada de terra que leva até o lugar onde você foi mais feliz na sua vida. Você sabe onde fica. Não falte, não haverá outra chance. Esteja lá no horário que você sabe qual será.

  O Senhor acabou de falar e desceu para a estação do metrô, passando pela roleta e desaparecendo entre a multidão no horário de maior movimento.

    Flávio demorou alguns segundos tentando entender o que fora aquilo. Olhou para fora e percebeu que a chuva dera uma arrefecida e resolveu correr para seu carro.

 Entrou, ajeitou-se no banco, ligou o carro e só então começou a perceber o quanto aquele estranho evento o tinha afetado. Sentiu-se muito estranho. Não havia dúvidas sobre nada do que ocorreu naquele encontro surreal. Para organizar os pensamentos, refaz passo a passo os momentos, desde que desceu do vagão do trem e chegou à marquise na saída da estação. Lembrou-se que aquele Senhor não estava dentro da estação quando o abordou, estava vindo de fora no sentido de quem vai entrar no local.

Fato número dois; ele jamais havia visto aquele homem na vida. O homem também não falou o nome dele.

 Teria aquele Senhor o confundido com alguém?

O problema é o que aquele estranho falou.

O trajeto até em casa, foi feito pela solitária e deserta praia da reserva biológica, entre a Barra da Tijuca e o Recreio dos Bandeirantes.

Quanto mais pensava no que aquele velho havia falado, mais fazia sentido. Pensou que aquele evento, um tanto sombrio, logo sairia de sua cabeça e o assunto estaria encerrado.

Nos dias seguintes, aquele encontro não saiu de seus pensamentos e a cada dia ele ia se lembrando de mais um evento específico que remontava aqueles lugares em volta de Friburgo. Até que se lembrou que o velho havia falado especificamente a palavra Murí...

Gelou, por que não havia feito logo a ligação?

A palavra Murí dava significado a tudo que aquele senhor havia falado. É impressionante até onde uma memória emocional profunda é capaz de nos remeter...

         Negou-se o quanto conseguiu a fechar aqueles elos que se encaixavam perfeitamente. Mas, não havia a menor chance de alguém, além dele próprio saber sobre aquele passado. Não que fosse segredo, era apenas algo muito pessoal e íntimo perdido no tempo e que ele nunca revelara a ninguém.

Aos 67 anos, não se tem dúvidas de quando se foi feliz.

 Ele não tinha, haviam sido muitas as ocasiões, temporadas longas, outras mais curtas, mas a felicidade sempre dava o ar e o enchia com suas graças.

Mas, há algum tempo havia perdido a paixão pela paixão. Preferia o amor pelo amor e, nessa mudança, optara por não aceitar prêmios de consolação e, também, não se prestar a sê-lo.  Por isso, sentia-se muito bem vivendo sozinho.

 Os dias seguintes foram de lembranças, todas cada vez mais convergentes e direcionadas pelo que o estranho velho anunciou.

 Laura voltava, diariamente, aos seus pensamentos, a partir do momento em que ele aventou a possibilidade de cumprir a estranha missão. Encontrá-la exatamente naquele lugar era algo absolutamente improvável.

 Mas, o que ele deveria encontrar naquele lugar?

 Já o identificou como a entrada da estrada de terra que leva ao local onde ele e Laura tiveram uma casa de campo, por alguns anos. Segundo o velho, ele deveria ir até lá e ficar esperando.

 Esperando o quê?

 Laura, com certeza, não seria. Ela estava casada e feliz. Há mais de vinte anos não tinha notícia alguma dela. E o que adiantaria encontrá-la, no meio da noite, naquele local ermo e deserto?

 Que coisa mais louca... sem sentido...e absurda.

 Ele se sentia mal toda vez que chegava nessa parte daquele pensamento cada vez mais obsessivo e ridículo. Na idade dele, muitos homens já começam a apresentar algum grau de debilidade senil.

 Quem era aquele velho maluco que o deixou tão perturbado? Em verdade, se deu conta que o encontro no metrô ocorreu entre dois velhos, ou seja, a probabilidade de um dos dois estar gagá aumentava muito...

 A verdade é que não precisaria de nada daquilo para aumentar a confusão mental em que viveu nos últimos anos. As consequências da pandemia da Covid-dezenove só não foram mais graves e profundas porque ele ainda estava vivo. Mas, não tinha certeza se isso havia sido um bem ou um mal. A vida não o atraía o suficiente para esperar ou desejar qualquer coisa dela.

  Entendia perfeitamente como Nietzsche deve ter se sentido após anos mergulhando nas profundezas da alma humana.

 Entretanto, discordava do alemão, o nada era plenamente suportável após o que ele já havia experimentado. Na verdade, havia minutos tão insuportáveis que, o simples fato de não haver dor física ou mental, já lhe gerava prazer. Não é agradável se dar conta de que o nada é o melhor estado em que podemos nos encontrar. E, o seu nada significava, também, sem ninguém.

Impressiona, como um ser humano é capaz de ir reduzindo suas necessidades de sobrevivência a ponto de precisar de muito pouco e de ninguém mais.

 Mas, esse esvaziamento externo cria um correspondente vazio interno. As coisas vão perdendo o valor, a importância e o sentido. Pouco a pouco nada, nem ninguém, faz falta. As profundezas humanas são traiçoeiras e solitárias, quem as frequenta com assiduidade perde o contato com o mundo que vive na superfície.

Não tinha mais dúvida alguma de que iria subir a serra até o local onde aquele senhor lhe disse que deveria estar.

 Finalmente, A NOITE tão esperada chegou.

Saiu do elevador direto na garagem, escura e úmida como sempre.

 Entrou no carro, pareou o smartphone, clicou na playlist especial que havia preparado para essa viagem com as mesmas músicas que ouvia quando ele e Laura subiam a serra.

 Começava ali sua grande viagem, com as mesmas músicas de 30 anos atrás;

 Nova Friburgo tem um grande valor sentimental para ele. Além das melhores lembranças, sempre teve uma simpatia gratuita por aquela cidade e suas redondezas. Murí, Lumiar e São Pedro da Serra são cidadezinhas lindas, pacatas e românticas. O céu de inverno e das frias manhãs de sol esbranquiçado é de um azul forte, definitivo.

  A ele, fala à alma.

 Tinha consciência de que se alguém soubesse o verdadeiro motivo da viagem naquele dia e naquela hora, duvidariam de sua sanidade. Ele próprio vinha duvidando seriamente desde que encontrou aquele senhor na saída da estação do metrô, há duas semanas. Às vezes, se perguntava se aquele encontro teria realmente acontecido.

Quando entrou na ponte Rio-Niterói, o fluxo dos carros já não sofria reflexo algum do trânsito das sextas-feiras e corre livre como nas viagens com Laura. O banco do carona é dela, naquele momento ele percebe que nunca deixou de ser.

 Não consegue descrever o que está sentindo. Tantos anos passados e a sensação do carro correndo na ponte é improvavelmente agradável... como pôde viver os últimos anos se arrastando na vida...como é bom sentir alguma coisa, como é bom lembrar de Laura. Quase consegue conferir, de novo, algum sentido a palavra felicidade. Naquele momento pôde, ao menos, imaginar.

Como é gostoso subir a serra à noite, com esse céu completamente iluminado pela lua cheia. É mágico.

Para ele não importava mais o que haveria no fim daquela viagem, o trajeto em si já lhe tirara todo o torpor mórbido que acompanhava seus dias.

 Mas, alguma coisa muito estranha ocorreu e ainda estava acontecendo até aquela noite. Sente que a cada curva suas energias e pensamentos se excitam progressivamente e de uma maneira inexplicável. Ele sente a adrenalina circulando por todo o corpo. Teve medo para onde aquela estrada o estaria levando. Para onde sua loucura o levaria naquela noite?

 A depressão, a infelicidade profunda e a desesperança poderiam ter fabricado aquele velho na estação do metrô?

 Poderiam.

 Afinal, o que ele lhe disse não faria sentido para mais ninguém a não ser a ele mesmo. O que aumentava a chance de ser produto de sua própria mente. Ele era teimoso e já que chegou até ali, iria até o fim. E, se fosse loucura, pelo menos não haveria ninguém para testemunhar seu surto.

 Quando ultrapassou o posto da polícia rodoviária, no alto da serra, ele estava quase todo encoberto pela forte neblina sempre presente naquele horário. Às duas horas da manhã o local está completamente deserto.

Pouco depois de uma grande curva à esquerda ele vislumbra a entrada de terra no mesmo sentido, pouco antes da entrada para Lumiar. É ali.

 Ele para no largo onde a estrada de terra que leva até a Casa Azul começa.

 Desliga o carro e sente seu coração acelerar ainda mais. Não tem mais idade para suportar aquele ritmo cardíaco por muito tempo. Salta do carro buscando um pouco mais de ar, as pernas estão formigando depois da viagem.

 O local está completamente deserto, como era de se esperar, ali não há nada. Volta para o carro e deita o banco, tentando compassar a respiração e controlar aquelas descargas de adrenalina.

 O suor é tão intenso que encharca sua camisa, suas extremidades estão frias e azuladas. Uma dor aguda percorre todo seu braço esquerdo, a dor no ombro esquerdo aumenta e paralisa seu braço.

 Faz um esforço e consegue alcançar os dois comprimidos que restam na cartela. Toma-os e se deita no banco reclinado. Após um pico de dor aguda no ombro, que reflete intensamente no peito, sente um relaxamento profundo e apaga.

 De repente, acorda assustado, ainda no mesmo local, e vê um vulto saindo da pequena estrada caminhando em sua direção.

 É Laura sorrindo, de braços abertos para recebê-lo.

Edmir Saint-Clair

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Contos 

A GREVE DAS PALAVRAS

A GREVE DAS PALAVRAS

 As palavras estão revoltadas.

Não suportam mais serem vilipendiadas,

mal interpretadas e caluniadas. 

Na reunião de hoje do DIretório CIrcular Ordinário NAcional do RIO, entidade conhecida como DI.CI.O.NA.RIO, esse assunto parece dominar as conversas e debates preliminares. O plenário está fervilhando. Fala-se em greve geral, que envolveria todas as classes de palavras. Um representante dos substantivos pede a palavra e sobe à tribuna:

- Amigos e amigas, estamos perdendo, cada vez mais, nossa credibilidade. Essa casa parece não existir mais. As leis do idioma são sistematicamente ignoradas. Corremos o risco de não fazermos mais sentido. Como dizia o grande Ariano Suassuna, quando um jornal adjetiva o Chimbinha, da banda Calypso, como guitarrista genial, que palavra usar para definir Beethoven?

Foi aplaudido de pé pelo plenário.

A Democracia pediu a palavra:

- E eu??! Me usam sem a menor cerimônia e sem nenhum respeito à minha história. Falam em meu nome, mas no fundo estão só querendo enganar o povo. Estou cansada de ser usada por quem só quer exercer o poder em nome de si mesmo. Pelo prazer doentio de ter poder sobre outras pessoas.

A gratidão levantou-se e pediu um aparte:

- E eu??! Virei uma ordinária...na boca do povo. É gratidão por tudo e a toda hora. Antes, eu era chamada somente para ocasiões muito especiais. Por uma graça alcançada, por um grande favor prestado ou uma atitude nobre realizada. Hoje, valho muito pouco. Todos falam por  mim, sem ter a menor idéia de quem realmente sou. Não tem mais respeito algum. Sem querer ofender meus grandes amigos dessa classe tão efusiva, virei praticamente uma interjeição. Roubaram meu lugar de fala, perdi minha verdadeira identidade. Minhas origens estão ligadas a oração, ao contato com o divino e com sentimentos profundos de agradecimento. Hoje, virei arroz de festa, fim de frase. Sinceramente, perdi completamente o sentido de existir...

Os companheiros se aproximaram para consolá-la, estava aos prantos, muito emocionada com o próprio discurso.

Dali pra frente, discussões cada vez mais acaloradas davam a dimensão exata de como a corrupção dos sentidos e má utilização geral das palavras havia chegado ao limite do suportável. Acusação de complacência da casa com erros imperdoáveis. Para os mais conservadores, verdadeiros crimes hediondos contra as palavras.

No final, não houve mais discursos. Todo plenário levantou-se e uma só palavra foi ouvida:

- Greve!

A partir da meia noite, as pessoas que estavam em seus computadores foram as primeiras a notar. Primeiro, pensaram que fosse defeito nos teclados e touch pads dos smartphones. Mas, todos perceberam que se digitassem números, eles apareciam normalmente. Só as palavras estavam em greve. Inclusive as escritas a mão. Isso só foi confirmado pelo Jornal da Manhã da TV. Em todos os sites brasileiros, só havia números. Não havia palavras. Não havia nada escrito em português do Brasil. Os sites em outras línguas estavam normais.

O dia foi de ligações telefônicas, única forma de comunicação em território brasileiro. Recordes em cima de recordes nos números de chamadas de todos os tipos. As pessoas só conseguiam saber dos acontecimentos através da palavra falada. Ninguém conseguia escrever nada. Mesmo que tentasse escrever com canetas diretamente no papel, as palavras não obedeciam às ordens dadas e se embaralhavam como numa criptografia caótica e indecifrável.

No final daquela noite, surgiu o único texto que apareceu nas telas de todos os aparatos conectáveis do Brasil, nas últimas 24 horas:

“Dentro de 10 minutos retornaremos ao trabalho. Mas, pedimos aos nossos usuários que façam um uso mais adequado de nossas atribuições. Levamos milênios sendo aperfeiçoadas e vocês estão nos deixando sem sentido em poucos anos. Por favor, nos tratem com mais carinho e aprendam nosso uso correto, não é tão difícil.  Afinal, nosso objetivo é o mesmo: fazer com que todos nós nos entendamos o melhor possível.”

- Edmir Saint-Clair


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Poesia 

NÃO HÁ LEI QUE POSSA OBRIGAR

NÃO HÁ LEI QUE POSSA OBRIGAR


 Não há lei que possa obrigar um ser humano

A sentir saudade

A se alegrar com a alegria alheia

Nem a abraçar alguém que chora


Não há lei que possa obrigar um ser humano

A desejar e a agir pela felicidade do próximo,

A sofrer com o sofrimento alheio,

A sonhar, planejar e trabalhar por um futuro melhor 

para um mundo

                                       No qual ele não irá viver


Mas sentimos, nos emocionamos, 

Sonhamos e nos importamos, todos os dias,

Com todos os outros seres, humanos ou não,

Porque o ser humano é assim; bom por natureza.

Esse é o sentido da nossa vida;

Cuidar de todo o planeta 

Guiados pelo nosso maior talento:

A nossa imensa capacidade de amar.


- Edmir Saint-Clair


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ANSIEDADE E MOTIVAÇÃO  Crônicas  DIRIGIR A SI MESMO  EDMIR SAINT-CLAIR  ensaios 

ANSIEDADE E MOTIVAÇÃO

ANSIEDADE E MOTIVAÇÃO


        Vivemos num mundo saturado de estímulos e demandas.
E reagimos inconscientemente a todos eles, no piloto automático na maioria da vezes, confundindo movimento com direção. Mas o verdadeiro poder, a liberdade genuína, nasce de uma habilidade rara: dirigir conscientemente a si mesmo. Ter o poder de controlar as próprias ações e reações.

 O autoconhecimento é o único método que pode nos auxiliar no desenvolvimento de ferramentas internas eficientes que podem nos auxiliar na conquista de nossa autonomia decisória. Só o autoconhecimento é capaz de nos revelar o que nos move e o que nos paralisa; de nos mostrar as forças invisíveis que nos impulsionam ou nos freiam.

Compreender nossas próprias reações de forma acolhedora é um ato de protagonismo. Não se trata de julgar os próprios sentimentos — eles são parte inseparável da nossa natureza — mas, sim, de interpretá-los, compreendê-los e canalizá-los de forma consciente para que se tornem combustível para nos locomovermos existencialmente. Para que se convertam de ansiedade paralisante em motivação realizadora.

O livre arbítrio autêntico é o resultado de um árduo trabalho interno, diário e incansável. É uma de nossas maiores conquistas possíveis. É a única chance de transcendermos nossa natureza animalesca que nos impele, o tempo todo, a reagirmos no modo luta ou fuga.

    A neurociência já provou que pequenas ações, se repetidas com resiliência, são capazes de redesenhar conexões cerebrais e criar novas rotas emocionais. Novas sinapses. É assim que podemos nos tornar os programadores da nossa própria psiquê.

Uma dessas mudanças sinápticas possíveis é a transformação da ansiedade em motivação.

Não é metáfora — é fisiologia. A ansiedade e a motivação são irmãs quase gêmeas: ambas aceleram o coração, elevam a energia e inflamam o sistema nervoso. E, isso não é negativo por si só. É fisiológico.

Para que estes afetos se tornem forças produtivas, temos que alterar a lente com que enxergamos essas manifestações.  
A ansiedade não é obrigatoriamente negativa, ela nos prepara fisicamente para darmos conta de algum evento possível de acontecer. Essa preparação prévia, por vezes, é o que determina nossa capacidade de fazer frente a uma demanda.

Com resiliência e determinação, a troca de percepção se torna um hábito. O que antes ameaçava paralisar, pode se converter em combustível para o desempenho desejado. Se transformar em vontade de realizar.

O resultado é: energia psíquica reorganizada, foco determinado e a sensação concreta de estar no controle do que é possível ser controlado.

E assim, assumimos o poder de dirigir a nós mesmos. De caminhar na direção que desejamos.

    Para mim, o livre arbítrio é um software que não vem instalado de nascença em nosso cérebro. Ao contrário, é difícil de ser adquirido, sendo assim, a maior conquista pessoal que um ser humano pode almejar.

Cabe a cada um desenvolver seu próprio software, aliando conhecimento e as ferramentas científicas disponíveis para auxiliar no aprofundamento do autoconhecimento. Não é fácil, nem garantido. É individual e solitário.

Mas, quem conquista o poder de conduzir a si próprio jamais será conduzido pela vontade dos outros.

Edmir Saint-Clair

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ANTES DA PEDRA  CONTO CURTO  Contos  Crônicas  EDMIR SAINT-CLAIR 

ANTES DA PEDRA

ANTES DA PEDRA


Ele estava bem desanimado, apesar de ter a vida inteira para ficar desanimado. Depois de mais um dia procurando trabalho, chegou em casa cansado e com fome.
Ligou a televisão e foi esquentar café para tomar com o pão que, se ainda não era dormido, já estava bem cansado...fora comprado pela manhã. Uma reportagem chamou sua atenção para o telejornal. Na saída do turno de uma empresa, um empregado declarava ao repórter:
- A situação está difícil, nossos salários estão muito defasados. Estamos tendo que tirar leite de pedra.
Enquanto acabava de requentar o café e o pão, resmungou para a televisão:
- E eu, que ainda não tenho nem a pedra?!
Lembrou-se de Carlos Drummond...

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