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ensaios

OLHAR DE DENTRO, OLHAR DE FORA

Há uma diferença entre se olhar de dentro 

e se olhar de fora.

 

Talvez grande parte da confusão da vida esteja aí: no tempo absurdo que passamos tentando entender quem somos a partir do olhar dos outros. Como se a nossa existência precisasse ser aprovada por uma plateia invisível, essa comissão julgadora sem rosto, sem nome, mas sempre com uma opinião barulhenta sobre tudo. 

A gente nasce sem saber que está sendo observado. Depois cresce achando que só existe porque está sendo visto. 

É um desastre anunciado. 

Se olhar de fora é viver como se houvesse uma câmera ligada o tempo inteiro, filmando nossas escolhas, nossas roupas, nossas derrotas, nossos amores, nossas desistências, nossos recomeços, nossos silêncios. Uma câmera cruel, dessas que nunca pega o melhor ângulo. E o pior é que, muitas vezes, essa câmera nem existe. É só a nossa cabeça tentando adivinhar o julgamento alheio.

E a nossa cabeça, convenhamos, quando resolve inventar sofrimento, é uma roteirista de talento.

O olhar de fora tem suas utilidades. Ninguém vive sozinho no mundo. Precisamos ter alguma noção do impacto que causamos, dos limites que atravessamos, das consequências dos nossos gestos. O outro também serve de espelho. Às vezes, inclusive, enxerga em nós aquilo que passamos anos tentando negar.

Nem todo olhar externo é prisão. Alguns nos acordam.

O problema começa quando passamos a acreditar mais no reflexo do que no corpo.

A pessoa olha para si e já não pergunta: “Eu estou bem?”

Pergunta: “Será que pareço bem?”

Não pergunta: “Eu quero isso?”

Pergunta: “O que vão achar se eu quiser?”

Não pergunta: “Isso me faz feliz?”

Pergunta: “Isso combina com a ideia que os outros fazem de mim?”

E assim, aos poucos, sem alarde, a vida deixa de ser vivida por dentro e passa a ser administrada por fora. Menos desejo, mais postura. Menos verdade, mais legenda. Menos vida, mais apresentação.

É exaustivo.

Se olhar de dentro é mais difícil. Muito mais. Porque, do lado de dentro, não dá para fingir por muito tempo. Do lado de fora ainda se ajeita a camisa, se sorri na hora certa, se inventa uma segurança qualquer. Do lado de dentro, não. Lá dentro a bagunça aparece: os medos antigos, os desejos que não confessamos, as covardias que justificamos com frases bonitas, as escolhas adiadas, os amores que mantemos por hábito, as tristezas que empurramos para debaixo do tapete até o tapete já não dar conta.

Olhar-se de dentro exige coragem porque não há testemunhas. E, sem testemunhas, não há personagem.

Só sobra a pessoa.

E isso assusta.

Mudar exige silêncio. Performar exige plateia. A maioria escolhe a plateia.

Porque, para quem olha de fora, uma vida organizada pode parecer uma vida feliz. Casa arrumada, emprego estável, casamento em pé, amigos nas fotos, viagens ocasionais, frases de otimismo publicadas no momento exato. Tudo nos conformes. Tudo apresentável.

Mas do lado de dentro pode haver alguém sentado no escuro, segurando um copo vazio, tentando lembrar em que momento deixou de desejar a própria vida.

E ninguém vê.

O olhar de fora costuma ser apressado. Vê o resultado, não vê o processo. Vê a separação, não vê os anos de solidão a dois. Vê a demissão, não vê o corpo recusando levantar da cama para ir a um lugar que virou adoecimento. Vê a mudança brusca, não vê o longo apodrecimento anterior.

Vê a explosão, não vê o pavio.

E ainda assim opinam.

Sempre opinam.

Talvez porque opinar sobre a vida dos outros seja uma forma eficiente de não investigar a própria. Enquanto se aponta o dedo para fora, evita-se colocar a mão para dentro. E mexer dentro de si dá trabalho. Tem poeira, tem coisa quebrada, tem lembrança que corta. Não é passeio. É escavação.

Mas é lá que alguma coisa ainda respira.

Não a vida bonita, necessariamente. Essa é outra ilusão. Há quem ache que olhar para dentro é encontrar uma essência luminosa, pura, coerente, uma versão definitiva e perfumada de si mesmo. Não é. Às vezes, olhar para dentro é encontrar inveja, ressentimento, vaidade, medo, preguiça, vontade de desistir, vontade de voltar, vontade de sumir.

E tudo bem.

O lado de dentro não precisa ser bonito. Precisa ser verdadeiro.

Porque só se transforma aquilo que se reconhece.

O olhar de fora quer aparência. O olhar de dentro quer verdade. E a verdade, quando aparece, raramente entra pedindo licença. Ela chega empurrando móveis, levantando poeira, fazendo barulho. Mas depois, se a gente aguenta o primeiro susto, ela também abre alguma janela.

Há pessoas que passam a vida inteira tentando ser bem vistas. E conseguem. São admiradas, elogiadas, respeitadas, citadas como exemplo em almoços de família. Mas, quando ficam sozinhas, não se suportam. Há outras que parecem desalinhadas aos olhos do mundo: erram, mudam de rota, decepcionam expectativas, somem por um tempo, voltam diferentes. E, apesar disso, ou exatamente por isso, conseguem dormir em paz.

Não sei se há vitória maior do que conseguir dormir em paz.

Porque, no fim, a plateia vai embora. Sempre vai. As pessoas voltam para suas próprias urgências, suas contas, seus medos, suas pequenas tragédias domésticas. Ninguém fica nos observando tanto quanto imaginamos. Essa talvez seja uma das libertações mais difíceis: perceber que estamos muito menos no centro do mundo do que supõe a nossa vaidade e muito mais sozinhos diante das nossas escolhas do que permite a nossa covardia.

O que vão pensar de nós importa menos do que pensamos.

O que pensamos de nós importa mais do que suportamos admitir.

E talvez seja por isso que certas concessões custem tão caro: terminam do lado de fora, mas continuam morando dentro da gente.

Ninguém se livra totalmente do olhar alheio. Somos feitos também de linguagem, convivência, afeto, reconhecimento. Queremos ser amados, aceitos, compreendidos. Isso é humano. O perigo é transformar esse desejo em prisão. É entregar ao outro a chave da nossa casa interna.

Porque aí qualquer um entra.

Entra o julgamento do amigo, a expectativa dos pais, a comparação com desconhecidos, o aplauso de quem nos prefere falsificados. E quando percebemos, estamos vivendo uma vida decorada por outras pessoas.

Se olhar de dentro é retomar a posse.

É fechar a porta por alguns minutos e perguntar, com honestidade quase brutal:

“O que é meu aqui dentro e o que eu aceitei carregar só para não desagradar?”

Essa pergunta, sozinha, já desmonta muita mobília.

Nem sempre dá para responder na hora. Às vezes, a resposta leva anos. Às vezes, vem disfarçada de cansaço, de insônia, de irritação sem motivo, de tristeza recorrente, de uma vontade inexplicável de ir embora. O corpo costuma saber antes da cabeça. Ele é menos diplomático. Quando a alma engasga, ele tosse.

E a gente deveria escutar mais.

Se olhar de fora pode ajudar a corrigir a postura. Mas só se olhar de dentro nos devolve alguma direção.

Há uma hora em que precisamos parar de nos assistir vivendo e começar, de fato, a viver. Com menos pose. Menos legenda. Menos preocupação com a fotografia moral que os outros farão de nós.

A vida não é uma vitrine. E, quando vira, a gente acaba ficando do lado errado do vidro: exposto, iluminado, imóvel.

Talvez maturidade seja isso: sair da vitrine e voltar para casa.

Não para uma casa perfeita, arrumada, pronta para receber visitas. Mas para a casa real. Com infiltrações, lembranças, objetos fora do lugar e uma janela possível. A casa de dentro. Aquela onde já não precisamos representar.

Edmir Saint-Clair

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