EDMIR SAINT-CLAIR  O GRANDE AMOR  Poesia  prosa 

O GRANDE AMOR

O GRANDE AMOR

Te conheço, antes de te conhecer. 

Seu olhar me hipnotiza, misturando carinho, tesão e querer bem em doses precisas, traduzindo perfeitamente o amor. Tua respiração é mágica e me transforma em desejo. És sempre feita de tudo, um pouco de carne, um pouco de veludo, transformando cada momento no momento mais desejado. 

É forte, me protege das angústias de viver. Em meus braços és sábia, sabendo fazer-me teu refúgio, deixando-me protegê-la. Tua força faz-me sentir forte e tuas fraquezas me dão a oportunidade de compreender as minhas.

Me faz acreditar em mim. Te admiro e tua admiração por mim é fonte inesgotável de prazer. Teus sorrisos me deixam como se eu gostasse mais de mim, do sol, das manhãs. Você entra nos meus sonhos, como um balde de tintas, de todas as cores, para me colorir, para saber meus segredos, como o sol que desvenda as minhas manhãs.

Te procuro sempre e, por vezes, te encontro. E te amo profundamente, e sou feliz. Muito feliz.

Mas, de repente, vais embora sem me avisar, para depois reaparecer, de novo perfeita e cada vez diferente. E, tenho que te descobrir de novo e de novo e de novo... 

Teu outro nome, teu outro corpo, teus outros cabelos. E, durante algum tempo, permaneces ao meu lado e somos felizes, até desapareceres de novo.

Amei todos os teus nomes, todos os teus sorrisos e todas as tuas vozes.

Só desejo que, da próxima vez que nos encontrarmos, venhas com teu nome, voz e sonhos reais. 

Não suporto mais te perder.   

 - Edmir Saint-Clair

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AMOR É LADO ALADO  EDMIR SAINT-CLAIR  Pensamentos  Reflexões 

AMOR É LADO ALADO

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Crônicas  EDMIR SAINT-CLAIR  SAIR DOS TRILHOS 

SAIR DOS TRILHOS

SAIR DOS TRILHOS

 

Luciano sempre fora um pensador e, desde jovem, sentiu a necessidade de se aprofundar em próprias suas emoções. Fazia parte de um grupo de amigos de infância que crescera junto. Eram amigos há décadas e tinham um forte vínculo fraternal e um carinho desenvolvidos a partir de uma infância feliz e divertida.

Até que, naquele dia, percebeu e não conseguiu mais esconder de si mesmo o que lutara muito, e há tempos, para não constatar; ele era muito diferente dos queridos amigos.

Enquanto somos crianças e adolescentes tudo que se deseja é ser igual a nossa turma. Ser diferente, em qualquer sentido, é apavorante para um adolescente. Ninguém quer ser nem o mais alto, nem o mais baixo, nem o mais isso, nem o mais aquilo. Queremos ser absolutamente iguais. Queremos nos ver nos outros e ver os outros em nós mesmos.

Nessa fase, pode-se e deve-se ser completamente diferente dos adultos envolta, mas, total e completamente igual aos membros do mesmo grupo. Tudo tem que ser igual: as roupas, os horários, os colégios, os jeitos e trejeitos, a linguagem, o jeito de falar, de andar, as músicas que ouve, o estilo de dançar, de espirrar, de namorar e, principalmente, de pensar. Qualquer respiro que saia do modelo é reprovado veementemente pelo próprio indivíduo. Não é permitido sair daquele roteiro nem sozinho em casa e trancado no banheiro.

Até ali, Luciano fora capaz de se comportar absolutamente dentro de todos os padrões, com pequenas diferenças que conseguia esconder com uma aptidão já diferenciada. Começou a tocar violão e compor músicas muito cedo com a única intenção de impressionar as meninas, se inscreveu e ganhou festivais de colégios pelos mesmos motivos. Se sobressaía, involuntária e distraidamente, nas manifestações artísticas das quais se aproximava. Ele sempre se sentia atraído pelas coisas criativas e diferentes.

Mas, o que mais prezava era seu grupo de amigos que, por sua vez, não tinham nenhum outro interesse a não ser jogar bola.

Na passagem para a próxima fase da vida, a turma de infância se afastou pelas circunstâncias naturais da vida adulta e as obrigações e tarefas que ela impõe a todos. A travessia da adolescência para a adultice significa deixar para trás, e para sempre, muita coisa. Para a grande maioria significa um “entrar nos trilhos” literalmente. Com toda a rigorosidade e ausência de espaço para manobras e movimentos não previstos, que uma linha férrea impõe. É a hora em que os questionamentos não são mais tolerados e a grande maioria assume, como seu, o papel que a sociedade lhe aponta e impõe. Exatamente “como nossos pais”.

E desistem de suas individualidades, de suas peculiaridades e de suas diferenças, como se não houvesse outra saída. Vão ser outras entidades, vão viver outras vidas, a maioria muito longe de si mesmo. Vão casar, trabalhar, reclamar, se aposentar, vão se arrepender e vão morrer. Já está tudo previsto. Nada será novidade. Surpresas? Provavelmente sim, mas nada surpreendente.

No final, sequer se lembrarão do que sonharam, pensaram e desejaram...Há muito não se pertencem mais.

Mas, alguns não seguem pela estrada de ferro e vão abrir outras trilhas e seus próprios caminhos, sem trilhos prontos. Tem que ter coragem para sair dos trilhos, mas é necessário para não se descarrilhar de si próprio.

Luciano é um desses.

E, com tristeza, teve que se despedir dos amigos de infância naquele ponto da estrada, teve que saltar do trem daquela história, que não era mais a dele.

Edmir Saint-Clair

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A SOLIDÃO DO HOMEM ATUAL  A SOLIDÃO DO HOMEM CONTEMPORÂNEO  Crônicas  EDMIR SAINT-CLAIR 

A SOLIDÃO DO HOMEM CONTEMPORÂNEO

A SOLIDÃO DO HOMEM CONTEMPORÂNEO

 

A mulher caminha a passos largos para assumir seu devido lugar na sociedade. Justo, muito justo, justíssimo. 

Fora as óbvias diferenças, sempre vi as mulheres como iguais, só que mulheres. Tenho uma filha e uma irmã, ambas bastante empoderadas e independentes, pessoas que sabem se impor tanto no aspecto pessoal quanto no profissional, e que me ajudam bastante a compreender toda essas mudanças necessárias pelas quais estamos passando. 

Mas, nesse texto meu foco somos nós, os homens. Não todos. Apenas aqueles que reconhecem a legitimidade dessa luta por igualdade de direitos,de equidade salarial e de oportunidades, e todas as consequencias de todo esse empoderamento. É a evolução. É um fato. É a nossa realidade. E, é muito bom para toda a humanidade. Está na hora utilizarmos toda a capacidade humana para evoluir e prosperar, sem destruir ao mesmo tempo. Não podemos prescindir de nenhum talento, independente de qualquer peculiaridade individual, em qualquer esfera da existência.

Será melhor ainda se as mulheres não cometerem, conosco, as mesmas barbaridades qu e cometemos contra elas, desde o início dos  tempos. Nem de longe teríamos a mesma resiliênciahistórica que elas tiveram. Seríamos extintos, com certeza...

Hoje, temos muito receio de todas vocês, do poder que, em pouco tempo, já conquistaram. Vocês estão com a faca e o queijo nas mãos. Sinceramente, torço para que vocês façam tudo muito melhor do que nós fizemos.

Podiam começar prestando um pouquinho mais de atenção na gente. Estamos, todos, inseguros. Temos muito menos jogo de cintura do que vocês para nos adaptarmos às mudanças tão necessárias e tardias que estão acontecendo. Estamos muito confusos. Estamos desconcertados, estamos desconstruídos.

E somos muito mais solitários do que vocês imaginam.

Quando o assunto é solidão masculina, o lugar de fala é nosso. Por favor, precisamos desesperadamente, que vocês nos ouçam também. Não queremos perder vocês, não queremos perder o respeito de vocês, a admiração de vocês, não queremos perder o tesão e o amor de vocês.

Vocês não tem ideia do tamanho do sofrimento que experimentamos e a falta profunda que sentimos quando nos separamos de vocês ao final de uma relação. Dói pra caramba. Um dor profunda e profundamente solitária.

Porque homem que é homem não chora. 

Chorar não pode, mas ser idiota pode. E nós sempre abusamos desse direito. E isso torna todo o processo de separação ainda mais difícil e solitáro.

Vocês não sabem o quanto é dolorido deixar o filho na casa da mãe, nos domingos à noite, e voltar para casa sozinho sentindo uma saudade e uma solidão monstras, e com as quais temos que nos acostumar porque não tem outro jeito?

O homem é muito mais solitário do que a mulher. E por vários motivos que não precisavam existir. Temos muito a aprender observando e copiando vocês.

Mulher chora mesmo, com toda vontade e sem vergonha nenhuma. Porque mulher é foda! 

As mulheres se apóiam, sempre se apoiaram. Essa história de que mulher não é amiga de mulher, com certeza foi inventada por um homem que queria causar intriga entre elas. Mas atualmente, elas também derrubaram esse mito e se deram as mãos.

Homem não. Homem é sozinho. E quanto mais triste, mais sozinho fica. A maioria dos homens tem vergonha de, simplesmente, deixar transparecer que está triste? Temos vergonha até de nós mesmos. Até de nos olhar no espelho quando estamos chorando. Somos uns idiotas. 

Esse condicionamento com relação ao choro é tão arraigado que, para fazer com que um homem em crise pare de chorar, basta colocá-lo em frente a um espelho. A maioria vai parar na mesma hora. Se for uma mulher, vai chorar mais ainda. Porque ela aprendeu a se acolher, a acolher a própria dor e a não ter medo dos próprios sentimentos. 

A maioria dos homens só chora quando está sozinho, quando conseguem romper suas próprias barreiras.

É impressionante com uma crise de choro, daquelas com soluços e tudo, tem a capacidade de desestressar a mente e de lavar profundamente a alma de toda a pressão e tristeza.

As mulheres são muito mais plurais do que os homens. Conseguem fazer um monte de coisas ao mesmo tempo, são naturalmente multi-tarefas. 

Por isso, além do trabalho, vocês tem sempre dezenas de coisas para fazer todos os dias e ainda conseguem dar atenção aos filhos. Nunca estão sozinhas. Mulher só fica sozinha quando quer.

Vocês não sabem como faz falta o dia-a-dia com os filhos, que preenchem a vida com momentos simples, profundos e inesquecíveis...

O ser humano só preenche seu vazio interior com a presença de outros seres humanos, com gente. Com amor, carinho, compreensão e acolhimento. 

Mulheres, por favor, nos ensinem a não ter vergonha de assumir nossas dores, nossas dúvidas, nossas inseguranças. Do mesmo jeito que vocês assumem e, por isso, são tão melhor resolvidas.

Homem tem vergonha de ser dispensado do trabalho, de ser rejeitado ou preterido sob qualquer aspecto, tem pavor mortal de ser traído e  de se sentir triste e vulnerável. O Homem é empurrado por uma cultura da idade do mundo a esconder seus sentimentos e emoções. Como se isso fosse humanamente possível.

Um homem pode ter amigos de infância, de uma vida toda,  sem que esses amigos saibam algo mais profundo sobre sua intimidade, problemas e sentimentos. A maioria é assim, muito solitária.

Mas maioria vai negar, porque admitir isso é, realmente, muito triste. É admitir a superficialidade, a formalidade e a futilidade em nossas relações de amizade. Difícil admitir, mas é verdade.

Mulheres nos ajudem a compreender qual é o nosso papel, hoje. Perdemos todos os papéis que os antigos, injustos e ultrapassados conceitos impunham, tanto a vocês quanto a nós.

Já começamos a entender o quanto somos dispesáveis. Mas, só começando...tenham paciência.

Caímos na real, somos totalmente dispensáveis em todas as coisas que nos falavam que éramos fundamentais. Às vezes, nos sentimos reduzidos a acompanhantes de estimação. Que trocam pneus, carregam coisas pesadas, dirigem carros, fazem companhia, levam ao cinema, as enchem de elogios e fazem sexo.

Como se apenas nosso desempenho físico fosse importante. Como vocês, também precisamos urgentemente de compreensão e boa vonade. O mundo todo está precisando muito de tudo isso.

Vocês podem não precisar da gente para quase nada, mas a gente precisa de vocês para quase tudo.

- Edmir Saint-Clair

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A MAGIA DA MÚSICA  A PRIMEIRA DE FLÓRIS  Crônicas  EDMIR SAINT-CLAIR 

A MÚSICA

A MÚSICA

 

" A música é o que acontece no espaço entre as notas." Claude Debussy

          A música é a arte que nos permite expressar emoções, contar histórias e nos conectar uns com os outros sem palavras, de uma forma única e mágica. A música não existe no mundo físico. Não se pode capturar uma música com as mãos, não se pode possuí-la, aprisioná-la.

 Para aqueles que compõem, a importância é, literalmente, vital. É uma mistura de paixão, desabafo, desejo, inspiração, oxigênio, alegrias e tristezas, que resulta em algo totalmente etéreo, que se expressa na linguagem da alma, que só as emoções entendem. É um passeio pelos caminhos mais mágicos da existência humana.

Foi assim que aquele momento especial aconteceu aqueles três velhos amigos que compunham e tocavam juntos durante todas as suas longas vidas.

 Dois deles começaram a tocar e, sem palavras, sem olhares, sem nada, começaram a executar uma música inédita que nascia naquele momento, a cada nota tocada e a cada silêncio dividido. Uma música com alma própria, que parecia ter esperado toda a eternidade para acontecer naquele momento, para vir à luz e nascer naquele instante.

As notas foram acontecendo sincronizadas, executadas, simultaneamente,  com a precisão de um metrônomo, e os silêncios respiravam juntos o mesmo ar, a mesma harmonia.

O terceiro músico, que afinava seu instrumento, teve uma sensibilidade igualmente única e sublime. Ele soube que tinha que ficar em silêncio, soube que precisava apenas observar e sentir. Seu silêncio era o melhor que podia doar para que aquele momento continuasse se realizando. A prova viva de que o silêncio é arte e parte essencial da música. E assim, juntos, eles criaram algo inesquecível.

Essa foi a última música que os três compuseram juntos, sem saberem que seria assim. Uma música que nasceu do nada e  de tudo que já tinham tocado e vivido juntos, de uma mistura de emoções e inspiração que fluíram livremente pela última vez. Um momento perfeito, coroado com a criação de uma composição que pareceu ter vindo direto de um mundo sublime para marcar aquele momento, igualmente transcendental, para sempre. 

Eles não a compuseram, com certeza ela já estava pronta, apenas esperando o momento certo, que era aquele.

E então, finalmente ela se deu para eles naquele instante único.

 "A música é uma passagem para um mundo que está além deste mundo." -Tchaikovsky


Edmir Saint-Clair

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A BONDADE E O FUTURO  A INTERNET  Crônicas  EDMIR SAINT-CLAIR  O FUTURO DA HUMANIDADE SERÁ BRILHANTE  Pensamentos  Reflexões 

O FUTURO DA HUMANIDADE SERÁ BRILHANTE

O FUTURO DA HUMANIDADE SERÁ BRILHANTE

 

       Em qualquer de suas formas, a bondade sempre me emociona profundamente quando me deparo com suas diversas manifestações e graus. E são muitas suas formas.

 A bondade não precisa de ocasião especial para acontecer. Ela frequenta todos os lugares e ambientes. Não é exclusividade de ninguém, de lugar algum ou de qualquer cultura em especial. É sentida e praticada universalmente.

     O efeito terapêutico para quem pratica a bondade é sentida instantaneamente. E contagia a todos os envolvidos, mesmo que só espectadores. Tem um poder extraordinário de agregar, emocionar e inspirar pessoas. Provoca admiração autêntica, inspira autoconfiança e, também, um tipo de satisfação pessoal inigualável e inesquecível.

 Ninguém esquece uma bondade recebida, chama-se gratidão.

 Mas, também, e talvez até mais, ninguém esquece uma bondade praticada por si mesmo. A lembrança do sentimento experimentado é inesquecível, é um encontro com a nossa mais profunda e bela essência. Ela é responsável por um tipo de felicidade que só a própria pessoa pode proporcionar a si mesmo. É aquela que vem do orgulho pessoal, do reconhecimento de nós por nós mesmos como pessoas dignas da própria admiração. 

 É através da empatia, da generosidade e da ação efetiva, consequentemente gerada por essas emoções que se materializa o ato que chamamos de bondade.

Presenciar uma cena em que a bondade esteja sendo praticada explicitamente, é capaz de amolecer e adoçar o coração de qualquer ser humano.

 Para os estudiosos, a cooperação foi a maior responsável pela evolução humana.  Necessária e insubstituível. Há pouco, uma antropóloga fez uma descoberta que confirmou, tacitamente, qual foi o marco que documentou o início da formação das tribos, ou seja, dos primórdios da civilização humana.

Segundo ela, o primeiro sinal de que seres humanoides se agruparam e passaram a cuidar uns dos outros, foi a descoberta de um fêmur fraturado e regenerado por cicatrização natural. Em algum daqueles indivíduos pré-históricos, a bondade e a empatia brotaram naturalmente. Não foi ditado por regras ou incentivado por nenhum tipo de crença abstrata. O fato histórico é que o dono daquele fêmur foi cuidado, alimentado e protegido por seus companheiros por um tempo considerado longo para aquele período pré-histórico. Tempo suficiente para que ele ficasse curado e pudesse ser capaz de seguir em frente.

Com certeza, viver em grupo foi por milhares de anos, não só uma escolha, mas, uma necessidade.

Até hoje, esse instinto persiste, nem sempre de forma saudável. Partilho do pensamento de que já não somos, essencialmente, tão iguais aqueles primeiros hominídeos, apesar de ainda conservarmos determinados instintos herdados daquele período.

A evolução humana sempre trilhou caminhos tortuosos, recheados de doenças, fome, guerras e medo. As histórias dos povos e nações foram construídas com muitas lutas, mortes, dominação e submissão dos derrotados.

Os vencidos eram escravizados e passavam a trabalhar para os vencedores, esse era o único objetivo das guerras: pilhar economicamente, e submeter os derrotados para satisfazer aos caprichos e desejos de consumo dos vencedores.

    De lá pra cá, as guerras foram sendo substituídas por outros eventos para medição de forças e trocas de ameaças, desde que a consequência de uma guerra bélica passou a representar o risco de extinção de toda humanidade.

Com o advento da propaganda, da publicidade e das estratégias de comunicação de massa, a submissão do indivíduo passou a ser disfarçada e o objetivo principal passou a ser direcionamento dos hábitos de consumo e o incentivo ao seu crescimento econômico, para que ele possa consumir cada vez mais. Ou seja, o objetivo é alimentar o próprio processo, e não o homem que o realiza.  Isso vem tornando a vida em sociedade uma eterna e insana competição de todos contra todos.

O vencedor é "quem chega lá". Mesmo que ninguém tenha menor ideia de onde é - "lá" - ou o que isso significa.

A necessidade desse sucesso profissional e econômico abstrato e amorfo, passou a impor, cada vez mais, a todos os indivíduos, um egocentrismo exacerbado que começou a ser visto como normal e admirado. Se olharmos em volta, ninguém mais tem vergonha de admitir que não pensa em mais em ninguém a não ser em si mesmo. Perdemos a vergonha. Qualquer um, já ouviu um sem-número de vezes, a frase imoral:

 - Primeiro eu, segundo eu, terceiro eu... e se tiver um quarto...serei eu também.

O conceito vigente é esse, não resta dúvida. Estamos andando sobre o fino fio que separa a insensibilidade social da crueldade pessoal, ao nos depararmos com o sofrimento alheio e não nos sensibilizarmos. Estamos nos Desumanizando, e com isso, caminhando contra nossa própria natureza.

O pior é que esse comportamento tem passeado impune pelas diversas esferas da convivência profissional, pelas “amizades”, pelos relacionamentos amorosos e até nas relações e configurações familiares.

O mal e suas diversas manifestações e disfarces, parecem estar sendo banalizados, como nos bem disse a filósofa Hanna Arendt. Ser insensível virou normal. Lembrando que, para ser insensível é preciso anestesiar nossa sensibilidade nata, parte integrante da nossa essência. É uma imposição cultural insana, que serve não se sabe para quê, nem a quem.

O antídoto para essa insensibilidade, que é a maior inimiga da felicidade, é essa linda característica humana chamada bondade.

A bondade é mágica e natural no ser humano. Ao mesmo tempo em que é gerada por um ato de amor de quem está ativo na ação, gera amor em quem a recebe, e volta para quem acabou de doá-la, sob a forma de gratidão.

    A bondade é o amor que se multiplica, que se autoalimenta. Um recurso auto renovável.

Desde a invenção da roda, a maior revolução da história é a tecnologia da internet.

A inteligência artificial e a comunicação sem limites, estão multiplicando possibilidades e unindo a humanidade de uma forma nunca imaginada e possível antes.

Temos visto coisas que jamais veríamos se não fosse essas ferramentas fantásticas.  Reencontros entre amigos de infância que jamais se reencontrariam de outra forma, pais reencontrando filhos e pessoas se reencontrando com suas histórias. É a possibilidade inédita de passar nossas vidas a limpo.

É como se cada um pudesse ver aquela parte final do filme que conta a história do que aconteceu com cada personagem depois do fim do filme.

 Aquelas cenas adicionais, quando já estão passando os créditos finais, quando a trilha sonora sobe e textos rolam na tela, contando a continuação das histórias de cada um dos personagens, depois que o filme acabou:

- Fulano se tornou um músico de grande sucesso, Sicrano é um médico no interior do país, Beltrana se casou, mudou e nunca mais foi vista, até ontem, quando todos se reencontraram na mídia social da moda...

Mais do que nunca, quem procura, acha o que quiser. No mundo virtual podemos viajar para onde nossas memórias estiverem.

Mas, essa revolução vai muito além dos círculos pessoais, revelando a possibilidade de estarmos presenciando o salto mais gigantesco da evolução humana. Tão grande quanto nunca houve.

Hoje, as possibilidades de mobilização coletiva e de cooperação social são todas as que conseguirmos imaginar.

De todos os continentes, vindos das mais diversas culturas, pessoas comuns estão compartilhando ideias, medos, gentilezas e sentimentos. Compartilhando suas humanidades. Mobilizando-se por causas nobres, valorizando a vida e a dignidade de todos os seres e do próprio planeta.

Se são, ou não, os primeiros sinais de que um ser humano melhor, que sonhamos um dia ser, já começou a se manifestar, isso só o tempo dirá.

É claro que existem os haters, que disseminam o ódio e seus subprodutos maléficos, usufruindo das mesmas ferramentas.

Mas Sempre foi assim, na vida real também é, não é novidade. Essa é uma luta eterna.

Torço para que a bondade "entre na moda" e que o ódio cause vergonha.

Se a bondade continuar a contagiar exponencialmente, como está parecendo, e continuar a se alastrar através da internet e de suas inimagináveis evoluções e desdobramentos, o futuro da humanidade será brilhante.

Estamos presenciando um momento crucial na evolução humana.

Acredito profundamente que, se nada interromper essa tendência, no futuro, cada ser humano se tornará guardião de todo planeta, cuidando e protegendo todos os outros seres.

 Semelhantes ou não.


- Edmir Saint-Clair
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