Crônicas 

QUASE POETA

QUASE POETA

 

O sonho dela era ser poeta. Ouvia músicas tristes, livros tristes e filmes tristes. Se apaixonava o mais que podia, buscava o sofrimento a todo custo, mas, infelizmente, era sempre correspondida, e nada é pior para uma postulante a poeta do que não ter motivo pra sofrer. Tentou durante anos, até que desistiu e aceitou sua sina de que nascera para ser feliz.
— Edmir Saint-Clair


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Poesia 

RECOMEÇAR

RECOMEÇAR

O passo difícil, hesitante

Um passo maior que o instante

Maior que todas as

                                                                      distâncias


Recomeçar sem ter para onde ir

                                   Porque ontem é um lugar

                                                   Para onde não se pode voltar


Por instinto caminhando, errante,

Procurando atalhos,

Bebendo água no gargalo, errante


Recomeçar; um movimento constante

Porque há sempre um fim em cada instante

                                            E também o minuto avante

Que transforma tudo  

                             em novo instante.

De novo.

                                                              E Sempre.


- Edmir Saint-Clair

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Memórias 

A DESPEDIDA

A DESPEDIDA

Eu tinha 17 anos e era feliz. O verão dourava a pele e a vida corria fácil. Até o dia em que meu pai chegou do trabalho e falou sem a menor cerimônia:

− Vamos morar em Brasília.

Ouvi claramente, mas custei a processar a informação. Ninguém naquela mesa de jantar esboçou reação alguma. O silêncio foi sepulcral. Respirei fundo. Levantei-me e percorri o caminho até sair pela porta de casa, anestesiado. Estava em choque. O pensamento seguinte foi nos amigos, nas meninas que mal começara a conhecer e nos meus planos, e deles não constava morar em Brasília. Não sabia como lidar com aquela enxurrada de emoções e sentimentos que me tomaram e fervilhavam por todo meu corpo.

A partir daquele instante minha vida mudaria para sempre e, por algum motivo, eu percebi isso com uma clareza assustadora.

Resolvi que não contaria aos amigos. Não por enquanto. De preferência nunca. Não sabia por quê. Talvez por receio de que eles não sentissem a mesma tristeza que eu estava sentindo.

Mas a notícia se espalhou, meu irmão e irmã não pensavam como eu.

Meu primeiro amigo a saber me surpreendeu por sua reação: ficou triste e demonstrou. Fiquei mais triste ainda, não esperava essa reação, ele era um gaiato, fazia piada com tudo, mas dessa vez não fez.

As coisas estavam mudando. Os amigos e amigas foram cúmplices de momentos de tristeza e outras emoções desconcertantes e inéditas que me aconteceriam dali para frente, típicos daqueles melodramas adolescentes baratos que eu detestaria não ter vivido pessoalmente. Se por um lado a tristeza era presente, por outro, nunca havia me sentido tão querido por todos.

Meu pai tentou nos consolar, nos prometendo deixar o apartamento da família intacto para que pudéssemos vir ao Rio sempre que possível.  Num futuro muito próximo, isso faria uma enorme diferença no curso da minha vida.

Na noite véspera de Natal, depois de passarmos a meia-noite cada um em sua respectiva casa dos pais, fomos nos encontrar na casa do Marquinho. Cada um de meus amigos, em separado, me falou alguma coisa carinhosa que marcou aquela noite de forma indelével.

Antes de voltar para casa, caminhei sozinho pela praia da minha cidade chamada Leblon. Caminhei por minha infância, meus primeiros amigos na Rua José Linhares, na Bartolomeu Mitre, por minha adolescência no Campestre (clube tradicional do Leblon), no Santo Agostinho... Lugares icônicos do bairro e da Cidade Maravilhosa: o bar Clipper, a lanchonete BB Lanches, Balada Sucos, Petit Fours, Pizzaria Guanabara (Baixo Leblon). Cada rua e cada canto com suas muitas histórias, todas partes inseparáveis de mim.

O tempo começou a passar mais rápido e nunca mais passaria devagar. Nunca mais.

Dia da partida.

Pedi a todos que não fossem ao aeroporto, que se despedissem de mim ali mesmo, na praia. Há semanas eu me despedia, estava cansado, muito cansado. O voo para Brasília estava marcado para o final da tarde.

Acordei cedo e a primeira coisa que pensei foi nos meus óculos escuros. Meus olhos já acordaram chorando. Me demorei na cama, me demorei no banheiro, me demorei na esperança de que o tempo se demorasse também.

Desde o dia em que soube que iria embora, comecei a prestar mais atenção em tudo e em todos que me rodeavam a vida toda e que até aquele momento eram apenas parte da paisagem diária. Desde o porteiro até os portugueses do bar, Seu Joaquim e Seu Antônio. Não posso esquecer-me da Dona Maria!

Parecem os nomes mais óbvios para personagens caricatos de portugueses donos de Botequim no Rio. Mas, esses são de pessoas absolutamente reais que tinham exatamente esses nomes. E, são ainda mais peculiares do que qualquer personagem fictício já criado. Uma das coisas que eu sempre achei curioso demais neles, era o fato de, durante anos a fio, encontrar com eles tarde da noite, depois de fecharem o bar, andando muito lentamente pela rua principal do Leblon, e sempre na mesma formação: o Seu Antônio na frente carregando uma sacola, seguido pela Dona Maria, a uns dois passos atrás, sempre carregando mais sacolas do que ele. Um hábito curioso e estranho. Eles não andavam juntos. Eles andavam separados, indo para o mesmo lugar. Eram casados e já aparentavam idade.

O terceiro sócio do bar, o Seu Joaquim, era um capítulo à parte. Completamente lesado. Ele era tão confuso que alguns sacanas davam uma nota de cinco para pagar algo de 10 e ainda levavam troco.

O certo é que naqueles dias tudo e todos haviam adquirido um significado profundo e já faziam parte da minha saudade. Parei no bar para comprar cigarros e até a atrapalhação do seu Joaquim com o troco, que sempre me irritava, desta vez me provocou ternura. Cheguei à praia mais cedo que o de costume e caminhei pela areia, perto do mar, até o final do Leblon. Como sempre fizera, mas nunca como naquela manhã.

Eu estava começando a trilhar um caminho que ainda não conhecia.

Havia passado toda minha vida naquelas areias sob os olhares dos gigantes de pedra que, agora, pareciam estar tristes por minha partida. Os gigantes eram o morro Dois Irmãos, no final do Leblon, nossos guardiões, meus irmãos...

Olhei, tentando reter aquela imagem, fotografá-la, aprisionar na memória cada detalhe daquelas montanhas sagradas. Fixar-me naquela paisagem, imprimi-las na parte mais profunda do meu ser, me agarrando a elas como se fossem desaparecer no minuto seguinte.

Caminhando de volta, comecei a encontrar os amigos. Ritinha foi a primeira a me encontrar, ela me fizera sentir amado naquele verão, quando o sol dourou nossa pele e nos fez feliz. Meus amigos foram chegando aos poucos e, um a um, sentaram-se ao meu lado, calados. Uma incomum formação visual de garotos e pranchas de surf coloridas e alinhadas na beira do mar da praia do Leblon. Cada um com suas pranchas, mas ninguém dentro d'água. O mar estava vazio.

Despedi-me e fui para casa, estava muito difícil ficar ali.

Chegou à hora. Entrei no carro e fomos para o Aeroporto do Galeão, eu, meus pais e meus irmãos. Ao chegar à entrada, a primeira coisa que vi foram meus amigos, tinham ido de surpresa no carro do Bode e na Kombi lotada do porteiro de um dos prédios do Condomínio dos Jornalistas. Foi um dos momentos mais emocionantes que vivi em toda minha vida. Como foi bom vê-los. Uma emoção profunda. Inesperada, comovente e inesquecível.

Eu sabia que estava vivendo um dos momentos mais marcantes da minha vida. Uma consciência da importância daquele momento, da eternidade daqueles instantes.

Meu desejo era abraçar todos ao mesmo tempo e nunca mais ir embora dali, viver para sempre no saguão do Aeroporto do Galeão. Mas, eu tinha que ir embora.

A vocês, meus amigos e amigas, minha mais profunda gratidão por me fazerem sentir tão querido e tão amado. Vocês, assim como os gigantes de pedra, estarão para sempre em minhas lembranças e em minha alma eternamente.

A você, doce Ritinha, obrigado pelo desmaio no aeroporto, por seu carinho e pelo seu lindo coração.

Muito obrigado pelo amor de todos vocês.

Uma semana depois, eu estava de volta!

 - Edmir Saint-Clair




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Crônicas 

A PRIMEIRA FORMATURA DA FAMÍLIA

A  PRIMEIRA FORMATURA DA FAMÍLIA

 

Ele nunca vira sua mãe tão feliz. A formatura do irmão mais novo rompia uma histórica limitação familiar que nunca tivera um membro formado na faculdade. A cerimônia prometia ser emocionante e ninguém da família deixara de ser convidado.

Na chegada ao local, estavam todos compenetrados e um tanto constrangidos com o requinte ao qual não estavam acostumados. O padrinho alugara um terno mais caro do que o de seu casamento com a madrinha. Tia Lúcia, a costureira da família, estava orgulhosa do fruto de seu árduo trabalho nos últimos 6 meses. Valera a pena, todas as mulheres da família estavam chiquérrimas.

Ele se sentiu leve e pleno quando viu a família ocupar uma fila inteira no enorme auditório da faculdade. Fora o excesso de perfumes, estavam todos com a alma e o corpo em vestes de gala, para testemunharem aquele evento que realizava a todos.

Quando o irmão mais novo caminhou em sua direção, vestido com a beca dos formandos, teve vontade de soltar o maior grito e abraço que já dera em alguém na vida.

O abraço silencioso e só não foi mais longo porque a organização requisitava a presença dos participantes no palco para dar início a cerimônia de formatura.

Ele se sentou na poltrona ao lado da mãe e, quando as luzes da sala se apagaram, se deram as mãos frias, trêmulas e fundidas na mesma emoção.

E viveram, a família inteira junta, um dos momentos mais felizes que viveram.

Edmir St-Clair

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Crônicas 

O BRASIL ENTROU NA COPA AOS 40 DO PRIMEIRO TEMPO

O BRASIL ENTROU NA COPA AOS 40 DO PRIMEIRO TEMPO

 

Existe um fenômeno curioso que acontece a cada Copa do Mundo.

Durante quatro anos, o brasileiro reclama da seleção. Diz que não assiste mais, que perdeu o encanto, critica o técnico, a convocação, a CBF, o calendário, o gramado, a bola, o VAR e, se necessário, até a posição de Mercúrio retrógrado. Entre uma reclamação e outra, conclui com a solenidade de quem acabou de assinar um parecer técnico:

"Esse ano não vai dar."

Na estreia contra o Marrocos, o clima era exatamente esse. Tirando a turma adolescente, para quem qualquer terça-feira já é motivo suficiente para reunir os amigos, comprar bebidas e outras cositas más e fazer festa, o restante do país parecia estranhamente indiferente. Os tradicionais 220 milhões de técnicos de futebol estavam de folga. Pela primeira vez em muito tempo, a Copa parecia acontecer em outro planeta.

Veio o primeiro gol marroquino, e ninguém pareceu muito surpreso. Pelo contrário. Havia até um certo conforto. O gol apenas confirmava aquilo que já vinha sendo cuidadosamente cultivado nas últimas semanas: o pessimismo nacional.

"Eu sabia."

Essa talvez seja a frase mais brasileira depois de "aceita pix?".

 Até que Vini Jr. empatou.

E aconteceu uma das possessões coletivas mais rápidas da história. Não foi apenas um gol. Foi como se o espírito da Copa tivesse baixado simultaneamente sobre 220 milhões de médiuns futebolísticos.

 De um segundo para o outro, o brasileiro que jurava não ligar mais começou a fazer conta de saldo de gols. Quem cinco minutos antes dizia que a seleção não tinha futuro passou a explicar, com autoridade absoluta, por que o empate era importante para a classificação. A televisão ficou mais alta, o grupo da família voltou a funcionar, o vizinho reapareceu na janela e até quem estava lavando a louça começou a organizar mentalmente os cruzamentos das oitavas de final.

 O brasileiro não entra na Copa quando ela começa. Entra quando acredita que ainda existe uma história para viver.

Talvez seja justamente por isso que nenhuma estatística consiga explicar completamente o futebol por aqui. Nossa relação com a seleção nunca foi racional. Ela fica adormecida, esperando apenas uma bola na rede para despertar.

Basta um gol e o país inteiro esquece, por noventa minutos, que passou semanas jurando que nem ia assistir.

No fundo, o brasileiro não abandona a seleção.

Ele apenas faz charme.

Até o primeiro gol.

Edmir Saint-Clair


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ensaios 

PARALISIA EXISTENCIAL

PARALISIA EXISTENCIAL


  “Só existe um jeito de ser feliz. É ser feliz do seu jeito.” Edmir St-Clair

 Há períodos em que nos vemos tomados por uma espécie de paralisia existencial. Agoniante e insuportável. Um estado em que a vastidão de possibilidades da vida, em vez de inspirar, parece esmagar, e a liberdade de escolha se converte no peso da responsabilidade por cada caminho não seguido.

É como naquela brincadeira de criança em que, de repente, alguém grita “estátua” — e todos congelam na posição exata em que estão. Ninguém se mexe. A gente pensa, mexe os olhos, respira — mas não pode se mover, senão perde o jogo.

São muitas ideias, muitos projetos — e uma falta total de ação. Um turbilhão interno de vontades e planos que não encontra a ponte para a concretização no mundo.

Uma impossibilidade física de produzir, mesmo com toda a matéria-prima pronta, organizada na cabeça e energia saindo pelo ladrão. É como ter o mapa do tesouro, a bússola e a pá, mas sentir os pés cravados no chão, incapazes de dar o primeiro passo. A roda do carro roda, mas não consegue sair do atoleiro. Falta aquele clique que põe tudo em movimento. Mas não clicamos. Adiamos. Procrastinamos, não por preguiça, mas talvez por um temor profundo do que o movimento pode desencadear: o medo do erro, do julgamento, ou mesmo da transformação que a ação inevitavelmente traz. Não dá trabalho algum, mas não clicamos.

Não agimos. Não fazemos o que precisamos — nem o que queremos fazer. E cada não-ação alimenta um ciclo de frustração e autoquestionamento. A ansiedade aumenta, o bolo no peito sufoca, porque falta-nos a ação. A energia represada, que deveria fluir para produzir e realizar, volta-se contra nós, gerando um mal-estar crescente. Como se o nosso corpo não obedecesse ao comando. Uma desconexão entre o querer da mente e o poder do corpo, uma cisão que nos deixa reféns de nós mesmos.

É como se estivéssemos conscientes dentro de um corpo em greve. A mente anseia por agir, criar, mudar — mas os músculos, os gestos e as decisões permanecem inertes, como se algo dentro de nós tivesse puxado o freio de mão da existência. Uma agonia perturbadora, que pode chegar a extremos. A sensação de estar vivo, mas não estar vivendo plenamente, pode ser uma das dores mais sutis e, ao mesmo tempo, mais lancinantes da experiência humana.

Mais do que a cobrança do mercado de trabalho, temos a nossa própria cobrança interna — frequentemente ainda mais cruel. Um tribunal íntimo que julga cada hesitação, cada adiamento, com uma severidade que raramente aplicaríamos aos outros.

Esse compromisso compulsório com algo que nem sabemos direito o que é, mas que está presente o tempo inteiro, diariamente, em todos os campos de atuação, nos fazendo adoecer e causando, muitas vezes, distúrbios incapacitantes. A ansiedade paralisante é apenas uma delas. É a internalização de um ritmo frenético que não respeita nossos ciclos internos, nossas necessidades de pausa e reflexão.

O burnout, uma síndrome que já ultrapassou os limites das corporações e se espalha por todas as esferas da vida moderna, é o colapso emocional anunciado de uma mente exaurida. Um sinal de que os recursos internos se esgotaram diante de uma demanda incessante por performance.

O número de casos cresce de forma assustadora, alcançando adolescentes e profissionais das áreas mais diversas. Isso nos alerta para a urgência de repensar os valores que sustentam nosso modo de vida social.

O burnout, esse esgotamento generalizado, é um grito abafado de um indivíduo acuado diante de um sistema que exige produtividade ininterrupta, mas nega tempo, acolhimento e sentido. Um sistema que valoriza mais o ter e o fazer do que o ser e o sentir. Gera uma inquietação constante e silenciosa, que acumula sentimentos negativos sobre si mesmo — e subtrai porções significativas de nossa qualidade de vida e saúde. É um desgaste que corrói a autoestima e a alegria de viver. Não existe um motivo evidente que, por si só, justifique o estado permanente de tensão. Mas ele está lá, atrapalhando, incomodando e, às vezes, paralisando. Muitas vezes, essa tensão é o eco de expectativas não realistas, de comparações infindáveis ou de uma busca por uma perfeição inatingível.

Alguns dizem que é medo do sucesso; outros, que é medo do fracasso. Ambos os medos, no fundo, podem ser faces da mesma moeda: o receio de se expor, de ser vulnerável, de não corresponder ao que se espera ou ao que se autoimpõe.

E, por aí, se desenvolvem milhares de teorias que vendem como água no deserto, sob a forma de literatura de autoajuda. Soluções rápidas para dores complexas — que raramente tocam a raiz do problema: a forma como nos relacionamos conosco e com o mundo. O compromisso com o desempenho — imposto por todos os lados, reais e virtuais — é uma engrenagem cruel, que pode nos empurrar para uma vida pesada, ansiosa e exaustiva. Uma corrida sem fim por metas externas que nos distanciam de nossos propósitos mais íntimos.

Precisamos deixar de lado essa cobrança desumana que a “sociedade” — essa entidade fantasmagórica que age nas sombras dos nossos próprios pensamentos e que, muitas vezes, somos nós mesmos a alimentar — nos impõe.

Quanto menor nosso autoconhecimento, maior será essa influência negativa, manifestando-se nas várias formas desse transtorno paralisante. Sem uma bússola interna bem calibrada, ficamos mais vulneráveis às tempestades externas. E, com isso, a ansiedade pode chegar a níveis literalmente insuportáveis. Às vezes, até respirar fica difícil — como se o corpo, em sua sabedoria, manifestasse o sufocamento da alma.

Quanto maiores nosso autoconhecimento, nossa autoestima, as ferramentas psicológicas aprendidas e nossa rede de apoio humano — construída sobre laços de confiança e afeto genuíno —, menor será a influência desse condicionamento social cruel e determinante. É o cultivo de um jardim interno que nos fortalece e nos permite florescer, apesar das intempéries.

Cada indivíduo tem sua originalidade única, capilarizada por todo o seu ser físico e psíquico, gerando reações igualmente originais e únicas. Essa singularidade é nossa maior riqueza e merece ser compreendida e respeitada, não moldada a padrões externos.

Cada um tem seu jeito de compreender e de agir diante dos trilhões de eventos que se sucedem em nossas vidas. E cada jeito é uma expressão válida da experiência humana, com seus próprios tempos e ritmos.

Isso deixa claro que não só é impossível prever, como é mais difícil ainda padronizar, regrar e arbitrar sobre qualquer aspecto que envolva a natureza humana. Tentar encaixar a complexidade da vida em fórmulas rígidas é uma violência contra a própria essência do ser.

O indivíduo padrão simplesmente não existe. Não é humano, não é possível.

É uma criação cruel e fantasmagórica da mente humana. 

Um ideal inatingível que gera sofrimento e nos afasta de nossa essência verdadeira. Insistir em nos moldar a esse ideal é negar nossa essência, nossa originalidade. É viver como um rascunho de si mesmo, sempre em dívida com um modelo de um ser idealizado, que não existe.

A saída não é encontrar um caminho certo, porque não existe caminho certo — mas voltar a ouvir a própria voz. Aquela que, mesmo abafada, ainda sussurra dentro de você:

— Ei! ainda estou aqui.

 Edmir Saint-Clair


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Contos  contos fantásticos 

O CASO DO CEMITÉRIO SÃO JOÃO BATISTA

O CASO DO CEMITÉRIO SÃO JOÃO BATISTA
Reginaldo começou a trabalhar na agência de uma forma bastante peculiar. Exatamente na mesma manhã em que o último estagiário de redação havia sido sepultado no cemitério São João Batista, após morrer no dia anterior num trágico acidente de moto. 
 
Quando o pessoal voltou do enterro, Reginaldo já estava sentado esperando para ser entrevistado para o cargo de estagiário de redação. A tragédia e o volume de trabalho tramaram a seu favor e a partir daquela manhã Reginaldo começou a estagiar na agência.
 
Na primeira semana já começou a se destacar apresentando trabalhos e soluções criativas muito acima da média para alguém que nunca tinha estagiado em criação publicitária antes. Para os diretores e o pessoal da criação aquela era a sorte grande. Não é sempre que aparece um talento daquele quilate no mercado, ainda mais na figura de um estagiário não remunerado. 
 
O jovem não aparentava mais de 22 anos e rapidamente começou a ser visto como um gênio muito promissor. Mas, sua personalidade era uma incógnita para todos. Era simpático e acessível a todos os colegas de trabalho sem, entretanto, jamais participar das socializações do pessoal nos botecos e restaurantes após o expediente. Mesmo no almoço, quando sempre almoçava com os colegas do departamento de criação, não se demorava e nunca ficava para o cafezinho com o papo furado tradicional. 
 
Assim que acabava de comer dava a desculpa de ir ao banco e só reaparecia de novo na agência, já para cumprir o expediente da tarde. 
 
O pessoal começou a ficar impressionado com a quantidade de vezes na semana que Reginaldo ia ao banco depois do almoço. Em tempos de internet banking, aquilo não fazia o menor sentido para alguém que trabalhava o dia inteiro na frente de um computador conectado permanentemente à internet. E não demorou para começar a surgirem suposições; aonde iria Reginaldo todos os dias após o almoço?
 
O certo é que, sempre que a equipe precisava criar alguma campanha mais robusta, Reginaldo chegava do “banco” com algumas grandes ideias, geralmente aplaudidas por toda a equipe e premiadas nas competições de publicidade. 
 
O ritual era sempre o mesmo; Reginaldo chegava calado, sentava-se na sua estação de trabalho e dali há pouco tempo lá vinha ele com todo o conceito da nova campanha pronto para ser trabalhado pela equipe. 
 
Apenas alguns meses após sua chegada, a agência havia crescido e toda a equipe de criação recebera os louros das brilhantes campanhas imaginadas por Reginaldo. A relação entre o pessoal da equipe se aprofundou naturalmente pela convivência e pelo sucesso, e a camaradagem era cada vez maior. Inclusive com Reginaldo, apesar dele nunca acompanhar o pessoal no chope tradicional no boteco da esquina. 
 
O burburinho começou pela ideia do Victor, diretor de arte que duplava com Reginaldo e, por isso, era mais próximo a ele. Bolaram um plano. Já que a rotina era sempre a mesma, eles esperariam Reginaldo terminar de almoçar com eles e sair para “ir ao banco”. Victor esperaria um pouco e seguiria Reginaldo. 
 
Todos pediram o cafezinho, menos Reginaldo que comunicou sua tradicional ida ao banco. Victor esperou um pouco e saiu atrás dele, se esgueirando pelas árvores e carros da rua Dona Mariana. 
 
    Atravessaram a rua Mena Barreto e continuaram até Reginaldo entrar por um portão lateral de serviço no Cemitério São João Batista. Aquilo estava se tornando cada vez mais esquisito. Victor continuou a segui-lo furtivamente por entre as sepulturas, cada vez mais curioso. Era dali que Reginaldo tirava suas inspirações? Teria ele algum pacto com o outro lado? Aquilo estava ficando bizarro. 
 
Victor continuou se esgueirando por entre os mausoléus cheios de esculturas de anjos, santos e figuras divinas, todas com plaquinhas com fotos e dados dos sepultados. Ele seguiu Reginaldo até a parte mais central do cemitério, para onde ele se dirigia de forma firme e determinada, ele sabia aonde estava indo. Até que entrou por um dos becos ladeados por sepulturas, cujo final terminava num enorme mausoléu ornado com estátuas de arte sacra muito bem cuidadas. Victor chegou a tempo de ver Reginaldo entrando no mausoléu e fechando o portão de ferro atrás de si. Se antes já estava bizarro, agora Victor nem sabia mais nomear o que estava sentindo. Uma mistura de curiosidade atroz com um medo de gelar a espinha. Mas, já que chegara até ali...
 
Foi se aproximando furtivamente até chegar a entrada do imponente mausoléu. Olhou ao redor, o silêncio era total. Olhou para o alto da estrutura que parecia ser de mármore procurando algum nome de família ou qualquer referência de identificação. Viu apenas uma enorme pirâmide com um olho aberto, esculpida em alto relevo no mármore. Ele a reconheceu por ser a mesma marca que as notas de dólar americano trazem impressa. O olho que tudo vê.
Victor se aproximou do portão de ferro que estava levemente entreaberto, colocou apenas a cabeça para dentro e ouviu a voz de Reginaldo:
- Bem-vindo, Victor.
 
Desde aquele dia, após o almoço, o pessoal da agência, a família e os amigos de Victor esperam pela volta da dupla. Reginaldo jamais foi procurado por alguém. Na agência, ninguém sabia sequer o sobrenome dele, já que ele era um estagiário sem contrato de trabalho, nem remuneração. Não havia registro algum da existência de Reginaldo.
 
Nunca mais nenhum dos dois foi visto.
 
Edmir Saint-Clair

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