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Crônicas

O BRASIL ENTROU NA COPA AOS 40 DO PRIMEIRO TEMPO

 

Existe um fenômeno curioso que acontece a cada Copa do Mundo.

Durante quatro anos, o brasileiro reclama da seleção. Diz que não assiste mais, que perdeu o encanto, critica o técnico, a convocação, a CBF, o calendário, o gramado, a bola, o VAR e, se necessário, até a posição de Mercúrio retrógrado. Entre uma reclamação e outra, conclui com a solenidade de quem acabou de assinar um parecer técnico:

"Esse ano não vai dar."

Na estreia contra o Marrocos, o clima era exatamente esse. Tirando a turma adolescente, para quem qualquer terça-feira já é motivo suficiente para reunir os amigos, comprar bebidas e outras cositas más e fazer festa, o restante do país parecia estranhamente indiferente. Os tradicionais 220 milhões de técnicos de futebol estavam de folga. Pela primeira vez em muito tempo, a Copa parecia acontecer em outro planeta.

Veio o primeiro gol marroquino, e ninguém pareceu muito surpreso. Pelo contrário. Havia até um certo conforto. O gol apenas confirmava aquilo que já vinha sendo cuidadosamente cultivado nas últimas semanas: o pessimismo nacional.

"Eu sabia."

Essa talvez seja a frase mais brasileira depois de "aceita pix?".

 Até que Vini Jr. empatou.

E aconteceu uma das possessões coletivas mais rápidas da história. Não foi apenas um gol. Foi como se o espírito da Copa tivesse baixado simultaneamente sobre 220 milhões de médiuns futebolísticos.

 De um segundo para o outro, o brasileiro que jurava não ligar mais começou a fazer conta de saldo de gols. Quem cinco minutos antes dizia que a seleção não tinha futuro passou a explicar, com autoridade absoluta, por que o empate era importante para a classificação. A televisão ficou mais alta, o grupo da família voltou a funcionar, o vizinho reapareceu na janela e até quem estava lavando a louça começou a organizar mentalmente os cruzamentos das oitavas de final.

 O brasileiro não entra na Copa quando ela começa. Entra quando acredita que ainda existe uma história para viver.

Talvez seja justamente por isso que nenhuma estatística consiga explicar completamente o futebol por aqui. Nossa relação com a seleção nunca foi racional. Ela fica adormecida, esperando apenas uma bola na rede para despertar.

Basta um gol e o país inteiro esquece, por noventa minutos, que passou semanas jurando que nem ia assistir.

No fundo, o brasileiro não abandona a seleção.

Ele apenas faz charme.

Até o primeiro gol.

Edmir Saint-Clair


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