ORIENTADOR LITERÁRIO

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ANOITECI

 

    Meus últimos vínculos familiares haviam acabado de se quebrar. Em frente ao laptop, ouvindo o tema de Cinema Paradiso, senti o peso de minhas dores. São muitas, são todas que nunca esperei sentir, que lutei a vida inteira para não sentir, e que me levaram a desistir de sentir qualquer coisa só para não senti-las.

A música tem esse poder sobre mim, abrir minhas comportas colapsadas, fazendo-me cair diante de minhas tristezas e chorá-las. De nada adianta a raiva com que tento ocultá-las de mim. A raiva que sinto da dor e a raiva que sinto de mim por senti-las.

Não sou mais, há muito, o amante de corpo e alma se deliciando com a vida, com os encontros e com as manhãs cheias de sol. Não tenho mais luz para brilhar.

Já não gosto  das manhãs, sei o que pode vir depois delas. Gosto de acordar após o meio do dia, se possível bem depois, longe das manhãs. Sou entardecer, anoitecer, não manhãs. Há muito, nada nasce em mim. Só morre.

A noite me fascina, o breu, o silêncio, o nada.  Não há mais mistérios nas minhas noites, só descanso. Não há mais o que esperar das manhãs.

Anoiteci.

– Edmir Saint-Clair
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