CÂMERA LENTA
Relações verdadeiras e profundas fazem mágicas reais. Acontecem entre pessoas sensíveis que entram numa sintonia única e extraordinária, que desperta no âmago de suas almas, o melhor de cada uma delas, fazendo com que se apaixonem uma pela outra e ambas por si mesmas. Quanto mais se fazem bem, mas bem fazem cada um a si mesmo, aos outros e ao mundo...
São
raras, mas existem.
Edmir Saint-Clair
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Um menino de seis anos nascido em Piracuruca, no Piauí, começou a descrever com precisão a vida de um alemão rico que morrera cinquenta anos antes na cidade de Punta del Este, no Uruguai.
O psicólogo Túlio Linhares, da Universidade de Campinas, investigou o caso com rigor científico, viajando três vezes ao local. Confirmou cada detalhe relatado: a casa de três andares à beira da água, a família Schmieden, os negócios de couro, a mala marrom e a morte nos anos 1940. A história tornou-se referência internacional porque desafia as fronteiras conhecidas da memória e da consciência.
A criança e as memórias impossíveis
4.680 quilômetros separam João Benício, uma criança de Piracuruca, no interior do Piauí, da cidade de Punta del Este, no Uruguai. Uma enorme distância geográfica, cultural e histórica. Mesmo assim, o menino começa a descrever com precisão a vida de um homem alemão rico, morto meio século antes de ele nascer, naquela cidade à beira do Rio da Prata.
Ele fala de uma casa de três andares construída sobre a água, com um píer onde barcos atracam. Atrás, haveria uma igreja. Ao lado, a propriedade de uma mulher famosa: Evita Dolores, conhecida na América do Sul e marcada por escândalos judiciais.
O detalhe mais intrigante surge quando o menino menciona a família Schmieden — donos da casa, ligados ao comércio de artigos de couro. João diz que o patriarca carregava sempre uma mala de couro marrom e só passava os verões naquela residência.
O olhar cético da ciência
Nada fazia sentido para seus pais, trabalhadores simples e católicos dedicados, cuja crença não inclui nada parecido com reencarnação. Como uma criança do sertão poderia inventar tais detalhes sobre um lugar que jamais visitara?
Em 1997, o psicólogo Túlio Linhares, da Universidade de Campinas, decide investigar. Cético por natureza, viaja até Piracuruca e entrevista o menino. Com um gravador de mão, anota e grava cada informação: a casa à beira da água, a igreja atrás, a vizinhança de Evita Dolores, a família Schmieden, a mala marrom, a morte entre 1940 e 1941.
Ao retornar ao gabinete, Túlio enfrenta a escolha: arquivar o caso como fantasia infantil ou testar cientificamente as afirmações. Opta pela segunda via.
A primeira viagem: a casa existe
A primeira ida a Punta del Este o surpreende. A residência de Evita Dolores é localizada sem dificuldades. Ao lado dela, exatamente como descrito, surge uma casa de três andares, construída sobre a água, com um píer na frente e uma igreja atrás. Estava abandonada, mas correspondia ponto a ponto à narrativa de João Benício.
Um vizinho idoso confirma: sim, um alemão morou ali décadas atrás. Mas, não havia mais nenhuma informação sobre a família que ali residira. A pista inicial se transforma em um enigma maior.
A confirmação histórica
Em 1998, Túlio retorna ao Uruguai. Consulta historiadores locais, especialistas na memória dos bairros de Punta del Este. Um deles confirma: a casa pertencia a um alemão da família Schmieden, casado com uma italiana, com três filhos. O homem era lembrado por sempre carregar uma mala de couro marrom e só ocupar a residência durante os verões. A família tinha negócios de couro em Montevidéu. A morte, registrada por volta de 1940, coincide com o relato do menino.
O detalhe final reforça o mistério: João Benício dizia que o nome do homem significava “bom homem” em alemão. Pesquisando, Túlio descobre que a expressão existia e era usada de forma respeitosa em tempos passados.
A terceira viagem: eliminando dúvidas
Determinando-se a fechar o quebra-cabeça, Túlio viaja uma terceira vez. Investiga registros de comunidades italianas ortodoxas e encontra indícios de que os filhos da família realmente receberam nomes italianos.
O quadro se completa: casa, localização, vizinhança, família, ocupação sazonal, negócios, mala, idioma, nomes. O menino brasileiro havia descrito com precisão elementos que nem mesmo historiadores locais lembravam de imediato.
A repercussão internacional
Os resultados são publicados em periódicos científicos e apresentados em conferências. Ian Stevenson, referência mundial nos estudos sobre reencarnação, elogia o trabalho como “exemplar, detalhado e verificável”.
O caso repercute em debates acadêmicos pelo mundo. Para alguns, é a prova de que memórias extra conscientes existem. Para outros, apenas coincidências estatísticas. Túlio mantém a posição equilibrada: não afirma que João Benício seja a reencarnação de ninguém, mas mostra que há fenômenos que escapam à lógica tradicional.
O ceticismo e a impossibilidade das explicações
Com a fama vêm as críticas. Pesquisadores analisam se a família poderia ter tido acesso a livros ou relatos sobre Punta del Este. Outros buscam conexões ocultas com alemães no Brasil. Nenhuma hipótese encontra sustentação.
A distância de 4.680 km, o isolamento da família no agreste do Piauí e a ausência de interesse em publicidade tornam improvável a fraude ou a coincidência. Para muitos estudiosos, a solidez metodológica do trabalho de Túlio transforma o episódio em um dos casos mais impressionantes já documentados.
O fim das memórias
Como em relatos semelhantes, as lembranças de João Benício desaparecem com a adolescência. Hoje adulto, vive uma vida comum, sem falar do que um dia marcou sua infância.
Na ciência, porém, o caso permanece. Para uns, prova de que a consciência pode sobreviver à morte. Para outros, um mistério ainda sem explicação.
O que se mantém indiscutível é o impacto: um menino pobre do sertão brasileiro descreveu com precisão a vida de um alemão morto a milhares de quilômetros, décadas antes de seu nascimento. E um pesquisador obstinado, aplicando o método científico, confirmou cada detalhe.
Mas o que João Benício realmente reviveu? Uma memória guardada em algum ponto desconhecido da mente? Uma coincidência impossível? Ou a prova silenciosa de que a vida não termina onde acreditamos que acaba?
A resposta permanece em aberto, perdida entre ciência e mistério — como uma casa abandonada à beira da água, onde ainda ecoam lembranças.
Edmir Saint-Clair
Disclaimer
Esta é uma obra de ficção literária. Embora inspirada em atmosferas, relatos e mistérios que circulam pelo imaginário humano, não se apoia em fatos documentados nem tem compromisso com a realidade histórica. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas, lugares ou acontecimentos, é mera coincidência — ou talvez apenas o eco de outras vidas.
"Os sentimentos são a vida. Por isso, é tão importante aprender a distinguir entre os que nos adoecem e os que nos curam."
— Edmir Saint-Clair
"Ainda que fôssemos eternos, cada momento continuaria sendo único."
— Edmir Saint-Clair
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O autoconhecimento é o único método que pode nos auxiliar no desenvolvimento de ferramentas internas eficientes que podem nos auxiliar na conquista de nossa autonomia decisória. Só o autoconhecimento é capaz de nos revelar o que nos move e o que nos paralisa; de nos mostrar as forças invisíveis que nos impulsionam ou nos freiam.
Compreender nossas próprias reações de forma acolhedora é um ato de protagonismo. Não se trata de julgar os próprios sentimentos — eles são parte inseparável da nossa natureza — mas, sim, de interpretá-los, compreendê-los e canalizá-los de forma consciente para que se tornem combustível para nos locomovermos existencialmente. Para que se convertam de ansiedade paralisante em motivação realizadora.
O livre arbítrio autêntico é o resultado de um árduo trabalho interno, diário e incansável. É uma de nossas maiores conquistas possíveis. É a única chance de transcendermos nossa natureza animalesca que nos impele, o tempo todo, a reagirmos no modo luta ou fuga.
Com resiliência e determinação, a troca de percepção se torna um hábito. O que antes ameaçava paralisar, pode se converter em combustível para o desempenho desejado. Se transformar em vontade de realizar.
O resultado é: energia psíquica reorganizada, foco determinado e a sensação concreta de estar no controle do que é possível ser controlado.
E assim, assumimos o poder de dirigir a nós mesmos. De caminhar na direção que desejamos.
Para mim, o livre arbítrio é um software que não vem instalado de nascença em nosso cérebro. Ao contrário, é difícil de ser adquirido, sendo assim, a maior conquista pessoal que um ser humano pode almejar.
Cabe a cada um desenvolver seu próprio software, aliando conhecimento e as ferramentas científicas disponíveis para auxiliar no aprofundamento do autoconhecimento. Não é fácil, nem garantido. É individual e solitário.
Mas, quem conquista o poder de conduzir a si próprio jamais será conduzido pela vontade dos outros.
Edmir Saint-Clair
Ele estava bem desanimado, apesar de ter a vida inteira para ficar desanimado. Depois de mais um dia procurando trabalho, chegou em casa cansado e com fome.
Ligou a televisão e foi esquentar café para tomar com o pão que, se ainda não era dormido, já estava bem cansado...fora comprado pela manhã. Uma reportagem chamou sua atenção para o telejornal. Na saída do turno de uma empresa, um empregado declarava ao repórter:
- A situação está difícil, nossos salários estão muito defasados. Estamos tendo que tirar leite de pedra.
Enquanto acabava de requentar o café e o pão, resmungou para a televisão:
- E eu, que ainda não tenho nem a pedra?!
Lembrou-se de Carlos Drummond...
Meus últimos vínculos familiares haviam acabado de se quebrar. Em frente ao laptop, ouvindo o tema de Cinema Paradiso, senti o peso de minhas dores. São muitas, são todas que nunca esperei sentir, que lutei a vida inteira para não sentir, e que me levaram a desistir de sentir qualquer coisa só para não senti-las.
A música tem esse poder sobre mim, abrir minhas comportas colapsadas, fazendo-me cair diante de minhas tristezas e chorá-las. De nada adianta a raiva com que tento ocultá-las de mim. A raiva que sinto da dor e a raiva que sinto de mim por senti-las.
Não sou mais, há muito, o amante de corpo e alma se deliciando com a vida, com os encontros e com as manhãs cheias de sol. Não tenho mais luz para brilhar.
Já não gosto das manhãs, sei o que pode vir depois delas. Gosto de acordar após o meio do dia, se possível bem depois, longe das manhãs. Sou entardecer, anoitecer, não manhãs. Há muito, nada nasce em mim. Só morre.
A noite me fascina, o breu, o silêncio, o nada. Não há mais mistérios nas minhas noites, só descanso. Não há mais o que esperar das manhãs.
Anoiteci.
E conseguia convencer mais gente a cada esquina, pessoas que não só passavam a acreditar, como começavam a falar para todos que encontravam, que uma grande festa tinha que acontecer para que todos no planeta resgatassem a alegria perdida.
Porque não? Pensavam todos. Verdade ou não, mal não faria.
sorriso que não daria e ser mais gentil do que, normalmente, seria. E as consequências foram todas.
A partir daquela noite, e em todos os dias que se seguiram, a vida naquele planeta nunca mais foi triste.
Feliz Ano Novo!
Esteja em que planeta você estiver.
Ninguém o convidava mais para nenhum evento social do condomínio de alto luxo em que morava há pouco mais de quatro meses, na Barra da Tijuca. Era arquiteto e andava ganhando concorrências públicas aos montes, graças aos conhecimentos do pai e do sogro que, juntos, lhe garantiam trabalhos. Ele era talentoso e sempre se dedicara aos estudos, nem precisaria das mamatas. Mas, nunca saberia disso, uma pena para sua autoestima. Esses trabalhos, ainda lhe garantiam boa mídia, que lhe garantia novos trabalhos, que lhe pagavam cada vez mais. Ou seja, ele estava mais do que garantido, numa espiral ascendente. Um perfeito produto das capitanias hereditárias cariocas.
Mas,
de nada adiantava seu sucesso naquele reduto de iguais. Parecia que ninguém
gostava de sua presença. Até que sua esposa lhe jogou na cara com todas as letras:
- A
mulher do Dantas me falou que ninguém te aguenta porque você ganha todas.
-
Como assim?
-
Ela disse que em todas as dúvidas nas conversas você está sempre certo...ninguém aguenta mais.
Então,
o problema era esse! Por isso, em tão poucos meses, ninguém comentava mais nada
na frente dele...
Aquele condomínio era composto por moradores absolutamente iguais e qualquer um que apresente uma diferença perceptível é rejeitado. Se for escamoteado, tudo bem, todo mundo finge que não sabe. Tipo; todo mundo é, mas todo mundo finge que não é, e todo mundo finge que acredita. Sinceridade, nem pensar, é feio.
O grande pecado de Felinto era raciocinar e ter uma certa cultura e, por isso, nunca tinha dúvidas e estava sempre certo sobre a maioria os temas nas conversas. Não que fosse um gênio, os outros é que deixavam muito a desejar...e não se importavam com isso.
No
meio daqueles $abichõe$, e em tempos de Google, uma dúvida não leva mais que 15
segundos para ser sanada. E fosse qual fosse o assunto não tinha erro, o
Felinto estava sempre certo. Um belo sábado, em que ele chegou no bar dos tenistas,
onde o pessoal se reunia, apesar de ninguém jogar tênis, uma
discussão acalorada sobre em que ano foi lançado o Chevette acontecia. Felinto não teve dúvida e falou:
-Dia
24 de abril de 1973.
Todos ficaram em silêncio. Sabiam que Felinto estava certo, ele sempre estava. E, na milésima vez, ninguém mais ousou contestar-lhe. Nem naquele dia, nem em qualquer outro. Havia sido a gota d'água. A partir dali, sempre que Felinto chegava num ambiente onde uma conversa acontecia, o silêncio baixava. Ninguém queria correr o risco de falar algo errado e passar a vergonha de ser corrigido em público pelo Felinto. Ficou conhecido como o "desmancha bolinho" do condomínio, onde ele chegava o grupo se dispersava rapidamente.
Até que aquele dia, sua esposa teve a ideia que salvaria suas vidas
comunitárias. Combinaram a estratégia e a esposa ficou de conseguir uma
oportunidade para que pudessem colocá-la em prática.
Com
pena do casal, as esposas do condomínio (esposa em condomínio da Barra não tem
nome, é só esposa) resolveram ajudar a pobre da Marilda, esposa do Felinto.
Elas
organizariam uma festa e não avisariam aos maridos que o casal Felinto e
Marilda seria convidado. Quando todos já tivessem chegado, o casal rejeitado
apareceria de surpresa, não dando opção de fuga aos convidados.
Na
ocasião, uma das esposas louras do condomínio combinou com Marilda que faria perguntas
ao Felinto, e este teria que responder errado. Ela faria uma segunda, e de novo
ele deveria errar. E assim por diante, até que sua fama estivesse
completamente arruinada. Não seria difícil, os $abichõe$ de condomínios da
Barra não são muito espertos para coisas que exijam raciocínio.
Chegada
a grande noite, o casal esperou ansioso o horário combinado. Eles deveriam
chegar apenas após os últimos convidados. Seguiram a risca as instruções. Como
sempre, assim que entraram no deck da piscina onde se realizava o evento, o
silêncio foi tomando conta do local. Quando eles já começavam a se sentir por
demais incomodados, a anfitrião brada:
-
Felinto, duvido que você saiba em que ano foi lançado o forno de micro-ondas?
Silêncio
total. Além do inusitado daquela pergunta completamente aleatória e sem sentido, a anfitriã ousara mais do que qualquer um jamais se atreveria.
Felinto
quase responde na bucha, mas sua mulher consegue dar-lhe um beliscão a tempo.
Convicto como sempre, Felinto responde:
-
1957!
Seguem-se
os 15 segundos mais torturantes da vida de Marilda. Felinto parece tranquilo
enquanto todos os presentes consultam seus iPhones. De repente, ouve-se um
grito como se fosse um gol do Flamengo no maracanã:
-
Errooouuuuuu!!!!
Os
presentes vibram e festejam. Marilda é a mais empolgada. Mas, antes que a
vibração adormecesse, a anfitriã o desafia novamente:
- Felinto,
em que ano inventaram o secador de cabelos?
Fez
um silêncio ainda maior do que o primeiro.
Felinto
hesita, contempla a face alegre da esposa e responde:
-
1932!
Não
demorou muito até que todos os presentes explodissem num só grito:
-
Errooooouuuuu!!!
Outros se animaram e todos quiseram desafiar o Felinto, que vibrava cada vez que perdia. Marilda, finalmente, teve sua noite se sentindo uma legítima moradora de um condomínio da Barra da Tijuca.
A partir daquela
noite viveram felizes até um trair o outro. Ela com a vizinha do lado e
ele com o vizinho do outro. Mas, nenhum dos dois se mudou do condomínio e continuam amigos e felizes até hoje.
Edmir Saint-Clair
O tempo
vai arrancando pedaços,
Imperceptíveis,
ou que fazem mancar para sempre,
Quando não tira de si, tira de outro,
E leva
junto nacos de almas,
Perdidas, descoloridas, insípidas,
Pedaços abandonados no caminho,
Do mundo grande, que diminui, consumido,
que se
definha,
Deserto de tudo que acolhe,
Pedaços em memórias duvidosas,
Do que
um dia foi todo o universo.
De
silêncio, de paixão, de prazer. O minuto anterior ao gozo, o gozo, um minuto de
êxtase, de felicidade, sem saber onde termina meu corpo e começa o seu. O olhar
que muda a vida em um minuto. O minuto feito de sessenta eternidades, mas a
eternidade terá sempre o último minuto. Cabe-nos viver intensamente todas as
nossas eternidades. Tudo que torna a vida maravilhosa não dura mais que um
minuto. Mas a dor é longa, e consome quase todos os nossos minutos. O presente
é sempre o minuto seguinte, mas só o percebemos depois que passa, porque não sabemos ser eternos.
Mas haverá sempre o minuto seguinte.
O
minuto de paz nos teus olhos, no silêncio da noite, no sorriso que brotou
espontâneo. O minuto feito de sessenta eternidades. A eternidade antes do
primeiro beijo, antes de desvendar teu corpo, antes de poder dizer que te amo,
antes de sentir teu amor.
A
eternidade depois do último beijo, depois de me acostumar com teu corpo, depois
de descobrir que ainda te amo, depois de sentir tua ausência. A eternidade de
chorar sozinho e o vazio profundo após a última lágrima.
O
último minuto com você, e o desejo desesperado de retornar ao primeiro.
Passamos a vida inteira atrás desses minutos, dessas sessenta eternidades, que
farão o resto todo valer a pena. Mas, só percebemos o valor do primeiro quando
chegamos ao último e, então, já haverão se passado muitas eternidades.
O
último minuto em que nos amamos foi feito de sessenta despedidas, todas sem que
soubéssemos. E a dor, com o poder que só a dor tem, multiplicou sessenta por
sessenta por sessenta eternidades, e ainda estou a espera do último.
Em
que minuto te perdi?
- Edmir Saint-Clair
“Não sei como será a terceira guerra mundial, mas sei como será a quarta: com pedras e paus.” Albert Einstein
Além da Rússia, dos Estados Unidos e de
todas as potências europeias, a China também está no cenário bélico atual de
maneira cada vez mais insidiosa — o que pode levar o mundo a um ponto ainda
mais crítico na tensão em torno de uma guerra atômica. Ou evoluímos, ou, não
sei não... pode dar merd4.
As tensões internacionais têm aumentado
de forma perigosa e, sem ser alarmista, de uma maneira assustadora e rápida,
contrapondo, como nunca antes, forças atômicas capazes de aniquilar a vida no
planeta. Todas as potências nucleares do mundo estão em rota de colisão — e
algumas já colidindo.
Vem-me à cabeça um pensamento que me
acompanha há décadas. Na verdade, é um raciocínio em que comparo o estágio
evolutivo-civilizatório humano com as etapas da vida de um indivíduo comum.
É simples: tomo por base o surgimento do
Homo
sapiens, que corresponderia ao nascimento de um indivíduo, e as
eras seguintes da evolução da espécie seriam os diferentes estágios do
crescimento humano. Ou seja: primeiro aprende a se levantar e ficar ereto,
depois a andar, a falar, a se comunicar; depois entra na primeira infância,
adolescência, juventude, maturidade — até chegar ao estágio máximo de progresso
intelectual possível ao tempo de vida de um ser humano.
Por isso, para alcançar a era da
sabedoria — que corresponderia à fase madura da evolução de um indivíduo — só será
possível se a humanidade a alcançar como um todo.
É preciso que todos a alcancem de forma
universal, o que só é possível através das contribuições individuais — e que
delas se beneficiem de forma integral, pessoal e social.
Como resultado de um progresso
construído pela humanidade como um todo, ao longo de milhares de anos, por
caminhos abertos por todas as gerações precedentes, que foram deixando seus
legados para que as gerações seguintes agregassem suas contribuições
individuais e, assim, garantissem a continuidade dos avanços e conquistas.
Para que isso aconteça, temos que
resolver a intrincada — e, até agora, insolúvel — equação de satisfazer a todos
e a cada um, ao mesmo tempo. Não só para os humanos, mas incluindo todo o
planeta.
Na minha aleatória opinião, a humanidade
ainda está no início da adolescência: medindo forças, tamanhos, pesos, testando
limites e desafiando a morte — briguentos, inconsequentes, irresponsáveis e
loucos. Governados pelos hormônios. Vivendo como se não houvesse nem amanhã nem
gerações futuras que terão que arcar com as nossas inconsequências.
A lei do humano mais forte é ainda mais
cruel e impiedosa que a da natureza. Porque, entre os homens, as armas modernas
— ditas convencionais — multiplicaram covardemente seu poder de matar
indiscriminadamente populações inteiras e de destruir países e seus povos. Isso
sem falar no pesadelo das armas atômicas!
Mesmo vivendo cada vez mais, poucos
conseguem chegar ao estágio da maturidade, por falta de conhecimento sobre si
mesmos e sobre a vida.
Porque não se importaram com o que é
mais importante.
A maioria só envelhece — sem nada ter
aprendido ou acrescentado.
Sem ter contribuído para a evolução da
espécie.
Submergem na mediocridade, sem
questionamento algum, apenas seguindo o rebanho — sem nada de pessoal a
acrescentar.
Todos nós fazemos parte dessa jornada
rumo à era da sabedoria, e todos temos como tarefa dar nossa contribuição
pessoal para que tudo continue caminhando... e a contribuição de
cada um — só esse “um”, individualmente — poderá dar.
Cada um de nós é original e único, e
carrega em si uma pequena, mas insubstituível, peça do complexo quebra-cabeça
da existência.
Mas poucos conseguem entender que o
sentido da vida vai muito além... do próprio umbigo.
Edmir Saint-Clair
Fruto do mais legítimo acaso, caiu-me nas mãos um livro particularmente necessário para mim, naquele momento.
Identifiquei-me
profundamente com os pensamentos ali expressos. Trata-se da transcrição de uma
palestra do filósofo francês contemporâneo André Comté- Sponville.
O nome do livro é Felicidade,
desesperdamente.
Ele faz um passeio pela história da filosofia, e através da ótica de várias escolas filosóficas, discorre sobre as emoções humanas e, mais particularmente, sobre como o sentimento que chamamos de amor afeta diretamente nossos pensamentos e ações.
O livro me fez compreender o que sempre pensei e nunca havia conseguido enunciar e entender de forma tão clara e objetiva.
A identificação com a condução do raciocínio em torno do tema proposto pelo escritor foi completa. A primeira coisa que me fez ver, é que eu havia, finalmente, compreendido o que é amar de verdade, para mim. Não no sentido de intensidade, mas, no sentido de profundidade e amplitude. E, principalmente, no sentido da ação.
O amor saudável é aquele que desperta, espontaneamente, nossas melhores características pessoais. O lado mais humano, amigo, parceiro. É o que provoca a atitude de fazer o outro feliz em cada interação. É o cuidado de utilizar a percepção, que a sintonia com a pessoa amada provoca, para chegar aos mais deliciosos, profundos e nobres requintes do amor.
E, por
causa dessas atitudes bonitas para com o ser amado, nos vemos mais bonitos,
iniciando um ciclo muito saudável. Nossa autoestima aumenta, o que nos faz amar
o amor que sentimos pela outra pessoa. E, esse ciclo se estende ao sermos
retribuídos e, por isso, amamos ainda mais a pessoa que nos faz sentir todo
esse prazer de viver. Isso aumenta e se fortalece a medida em que transformamos
esse amor em novas atitudes, nos fazendo capazes de sentir felicidade pela
felicidade do outro. Isso vai
aprofundando cada vez mais um aspecto extremamente acolhedor e compensador numa
relação: cultuar as afinidades.
Cada um do seu jeito, com as suas verdades. Unidos apenas pela felicidade de estar juntos. Pela alegria e o prazer que o amor pode proporcionar.
É preciso aprender a amar saudavelmente e isso leva tempo. E, na maioria das vezes, dói aprender.
A felicidade não existe para o amor dos
imaturos, do desejo egoísta que quer o objeto porque não o tem. Do que quer a
posse, o controle, o poder de manipular o outro através dos sentimentos.
Estes estão condenados a infelicidade.
Acredito no amor saudável que traz consigo a possibilidade real de felicidade. Que nos faz sentir alegria apenas com o pensamento de que a pessoa amada existe, e também nos ama. A simples ideia da existência do outro já é razão de se sentir alegria.
No
amor saudável não existe posse. Existe desejo.
Não existe obrigação. Existe vontade.
Cada
encontro acontece porque o desejo impulsionou. Porque traz prazer e alegria. Resultado de elementos químicos secretados se combinando e produzindo sinapses que inundam o cérebro com sensações arrebatadoras e quase incontroláveis. É o impulso do desejo no seu estado mais primitivo.
Quando este estado é potencializado pela sensação de se sentir o objeto de desejo do nosso objeto de desejo o prazer é indescritível, é o momento mais mágico da vida.
O amor saudável é capaz de produzir a sensação de felicidade além da própria felicidade; é o sentir felicidade pelo felicidade do outro tornando-a parte integral da nossa própria e assim, duplicar as possibilidades e a intensidade das felicidades compartilhadas.
Dito
dessa forma parece simples. Mas, definitivamente não é.
Exige
muito aprendizado e vontade de ser e fazer a nossa vida e a de quem amamos, ser
uma caminhada que valha a pena ser compartilhada.
- Edmir Saint-Clair