ORIENTADOR LITERÁRIO
SE AFOGAR COMPLETAMENTE
O NOME DO AMOR
O amor nunca se chama amor
Sempre tem nome,
Sempre
tem cheiro,
Sempre tem gosto,
Sejam quantos forem,
De que tipo sejam,
Cada um tem seu nome próprio,
E
único,
Tem seu próprio jeito
E nunca lhe falta um sentido,
Mesmo não podendo ser visto,
Apesar dos vários rostos,
Várias vozes,
Vários leitos,
O amor é o que resgata, é o
que afoga,
É
o que pulsa,
E é o único que expulsa toda dor que carregamos.
O teu amor é o que me salva
de mim mesmo,
E me renasce no teu peito.
- Edmir StClair
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QUANDO SOMOS PARA SEMPRE
Passa
o vento, passa o tempo, passa rápido ou lento
Nunca
é demais
É
sempre a seu tempo, mesmo que não pareça
Mesmo
que anoiteça
Mesmo
que nada aconteça
Mesmo
sendo Invisível, insensível, imprevisível
Tão
que parece perder-se em si
Um
tempo sem tempo
Mas
o tempo nunca se perde,
porque
o tempo pertence só a si
Não
é meu, nem seu, nem sei de quem é
Sempre
correndo, sempre tecendo
Essa
tela de cores, amores, sabores e beijos
Sabe
exatamente para onde vão os desejos
Quando
viram Felicidade,
Que é nossa
grande missão, o sentido,
A
solução.
É
raro esse momento sem tempo,
E
é quando tudo acontece
Quando
nunca anoitece,
Quando
somos para sempre.
O OUTRO LADO DA MOLDURA (MOLECAGEM)
—
Bom dia, Seu Tatá! — saudou o porteiro.
—
Bom dia, campeão!
É
assim que o Sr. Otávio é conhecido por todos naquele quarteirão de Copacabana:
Seu Tatá. Gozava da simpatia geral — dos vizinhos, dos ambulantes e dos
comerciantes, tanto os legalizados quanto os ilegais. Após o falecimento de
Dona Olinda, em vez de se isolar, passou a circular mais pelo bairro.
Conversava com todos. Mas o que poucos sabiam é que sua maior incentivadora
para seguir em frente morava dentro de um porta-retrato, sobre a mesinha de
cabeceira. Todas as vezes que se arrumava para sair, a imagem dela lhe mandava
um beijinho, deixando um leve rastro embaçado no vidro do porta-retrato, como
um sopro carinhoso.
Seu
Tatá não tinha filhos, morava sozinho e a aposentadoria lhe bastava. Contudo, o
fator determinante para sua recuperação após a viuvez foi o reencontro com a
fotografia mágica de Dona Olinda. A imagem não apenas começou a lhe enviar
mensagens, mas também a participar ativamente de cada nova descoberta em sua
vida. Antes mesmo de se aventurar pelas redes sociais, havia o ritual matinal
de escolher a roupa do dia. Seu Tatá exibia as opções em frente à mesinha de
cabeceira. Uma camisa excessivamente florida? A foto de Dona Olinda parecia
adquirir uma sutil sombra de desaprovação — e, às vezes, ela cruzava os braços
dentro da moldura. Uma camisa azul, sua cor predileta? O sorriso na fotografia
se alargava visivelmente, quase como um "Essa mesma, meu velho!", com
um leve inclinar de cabeça e o polegar levantado em aprovação. Outro evento
significativo foi o reencontro com amigos da juventude, ainda vivos, facilitado
pela filha de um vizinho, que o persuadiu a adquirir um notebook e criou perfis
para ele em todas as redes sociais. Tudo isso, naturalmente, com o incentivo
diário da foto de Dona Olinda. Sempre que o percebia animado, a imagem dela o
presenteava com um sorriso radiante, e um brilho sutil parecia cintilar em seus
olhos fotografados.
Ele
se deslumbrou com as novas possibilidades. Passava horas a fio procurando
antigos amigos, namoradas, conhecidos, recortes de jornais de época, vídeos
antigos e tudo o mais que compunha sua memória afetiva. Em algumas tardes,
viajava no tempo — ele e a fotografia de sua eterna companheira se divertiam
observando o efeito da passagem dos anos nos rostos dos amigos reencontrados no
Facebook.
Segundo
seu médico, Seu Tatá apresentava melhoras em todos os índices e marcadores que
os exames clínicos podiam revelar. Seu estado de espírito parecia ter sido
rejuvenescido, como se tivesse mergulhado na fonte da juventude. Para completar
o quadro de renovação, encontrou cinco amigos de longa data, ainda vivos,
através do Facebook, e que, para sua alegria, ainda residiam em Copacabana.
Passaram a se encontrar diariamente na praça do Bairro Peixoto, onde se
divertiam, jogavam cartas e compartilhavam memórias e vivências.
Seu
Tatá parecia ter retornado à juventude. Até o dia em que despertou com o ruído
de máquinas pesadas exatamente sob sua janela. Era no terreno ao lado, que
estava sendo preparado para ser um galpão de estacionamento. Ele suportou o
barulho por vários dias, embora aquilo o irritasse profundamente. Mas, o que
fazer? Ao menos, o incômodo cessava por volta das cinco horas da tarde. A foto
de Dona Olinda, habitualmente sorridente, já demonstrava impaciência com a
barulheira incessante; seu sorriso fotográfico parecia um pouco mais tenso a
cada dia de obra.
Até
o dia, ou melhor, a noite, em que a concretagem do piso estava em sua fase
final. Três máquinas, semelhantes às grandes enceradeiras domésticas de
outrora, invadiram a noite com seus ruídos, não excessivamente altos, mas
extremamente irritantes. Diariamente, Seu Tatá precisava remover a poeira fina
que a obra depositava sobre os móveis. Com especial atenção à fotografia da
amada. A imagem dela parecia ter alergia ao pó — dava uma discreta tremidinha
dentro do porta-retrato, como se segurasse um espirro iminente ou, por vezes,
franzisse o narizinho com evidente desagrado.
Quando
Seu Tatá despertou de um cochilo, por volta das oito horas da noite, as
máquinas ainda operavam, o que intensificou sua irritação. A foto de Dona
Olinda não estava para gracejos naquela noite; visivelmente contrariada, a boca
antes sorridente agora era uma linha reta e severa. Com certeza, aqueles
operários inconvenientes se estenderiam até as dez da noite com aquele barulho.
Se não parassem, ele acionaria a polícia. Afinal, para isso existia a Lei do
Silêncio – ao menos em sua época, existia, e as pessoas, assim como as obras,
respeitavam certas convenções de boa vizinhança. A foto no porta-retratos anuiu
prontamente, a cabeça da imagem parecendo inclinar-se minimamente em um gesto
afirmativo.
Às
dez e meia da noite, não havia qualquer sinal de que as máquinas seriam
desligadas. A essa altura, Seu Tatá estava profundamente irritado, sentindo uma
fúria que há muito não experimentava. Dona Olinda, por meio de sua expressão na
foto, sugeriu que ele chamasse a polícia; sua feição era de pura indignação.
Ele pegou o telefone, mas hesitou — achou que não adiantaria. A polícia
demoraria a chegar – se é que chegaria – e, até lá, os operários já teriam
encerrado o trabalho, tornando inúteis tanto a irritação do casal quanto o
chamado telefônico. Contudo, ele precisava fazer alguma coisa. Dona Olinda
concordou, mas fazer o quê? A foto sorriu com um brilho maroto nos olhos e
indicou a cozinha com um sutil movimento do queixo. Eles sempre se entenderam
pelo olhar.
Ele
foi até a geladeira, recordando-se de como era bom ter sido um moleque de
Copacabana. Dona Olinda conhecia bem o seu velho. A foto o apoiou com um
sorriso de canto de boca e o dedo indicador em riste; e, para selar a
cumplicidade, Seu Tatá jurou ter visto a imagem dela piscar um olho, como nos
velhos tempos de travessuras juvenis conjuntas. Só de pensar no que faria, sua
pressão arterial diminuiu, a glicose baixou e quase teve uma ereção. A foto
adorou este detalhe, o sorriso dela pareceu se alargar ainda mais.
Pegou
uma caixa de ovos cheia, apagou as luzes do apartamento, fechou as cortinas,
mas não as janelas. E começou a atirar os ovos nos três homens que operavam as
máquinas e em mais um que os fiscalizava.
Lançava
os projéteis e se escondia, rindo sem parar. Cada ovo arremessado arrancava uma
gargalhada. E o velho tinha uma mira excelente — o que provocou uma crise de
riso impagável no casal.
Não
foram necessários mais do que meia dúzia de ovos para que a primeira máquina
fosse desligada, seguida pelas outras. No porta-retratos, Dona Olinda exibia um
sorriso doce, pleno de aprovação e orgulho; a imagem parecia até mais corada e
vibrante.
Naquela
noite, Seu Tatá dormiu como um anjo e sonhou com Dona Olinda a noite inteira. Ao
acordar, encontrou uma pequena flor sobre a mesinha de cabeceira. Não se lembrava
de tê-la colocado ali. Mas sorriu.
E a foto também.
Edmir Saint-Clair
A DESPEDIDA
− Vamos morar em Brasília.
Ouvi claramente, mas custei a processar a informação. Ninguém naquela
mesa de jantar esboçou reação alguma. O silêncio foi sepulcral. Respirei fundo.
Levantei-me e percorri o caminho até sair pela porta de casa, anestesiado.
Estava em choque. O pensamento seguinte foi nos amigos, nas meninas que mal
começara a conhecer e nos meus planos, e deles não constava morar em Brasília.
Não sabia como lidar com aquela enxurrada de emoções e sentimentos que me
tomaram e fervilhavam por todo meu corpo.
A partir daquele instante minha vida mudaria para sempre e, por algum
motivo, eu percebi isso com uma clareza assustadora.
Resolvi que não contaria aos amigos. Não por enquanto. De preferência
nunca. Não sabia por quê. Talvez por receio de que eles não sentissem a mesma
tristeza que eu estava sentindo.
Mas a notícia se espalhou, meu irmão e irmã não pensavam como eu.
Meu primeiro amigo a saber me surpreendeu por sua reação: ficou triste e
demonstrou. Fiquei mais triste ainda, não esperava essa reação, ele era um
gaiato, fazia piada com tudo, mas dessa vez não fez.
As coisas estavam mudando. Os amigos e amigas foram cúmplices de
momentos de tristeza e outras emoções desconcertantes e inéditas que me
aconteceriam dali para frente, típicos daqueles melodramas adolescentes baratos
que eu detestaria não ter vivido pessoalmente. Se por um lado a tristeza era
presente, por outro, nunca havia me sentido tão querido por todos.
Meu pai tentou nos consolar, nos prometendo deixar o apartamento da família
intacto para que pudéssemos vir ao Rio sempre que possível. Num futuro muito próximo, isso faria uma enorme diferença no curso da minha vida.
Na noite véspera de Natal, depois de passarmos a meia-noite cada um em
sua respectiva casa dos pais, fomos nos encontrar na casa do Marquinho. Cada um
de meus amigos, em separado, me falou alguma coisa carinhosa que marcou aquela
noite de forma indelével.
Antes de voltar para casa, caminhei sozinho pela praia da minha cidade
chamada Leblon. Caminhei por minha infância, meus primeiros amigos na Rua José
Linhares, na Bartolomeu Mitre, por minha adolescência no Campestre (clube
tradicional do Leblon), no Santo Agostinho... Lugares icônicos do bairro e da
Cidade Maravilhosa: o bar Clipper, a lanchonete BB Lanches, Balada Sucos, Petit
Fours, Pizzaria Guanabara (Baixo Leblon). Cada rua e cada canto com suas muitas
histórias, todas partes inseparáveis de mim.
O tempo começou a passar mais rápido e nunca mais passaria devagar.
Nunca mais.
Dia da partida.
Pedi a todos que não fossem ao aeroporto, que se despedissem de mim ali
mesmo, na praia. Há semanas eu me despedia, estava cansado, muito cansado. O
voo para Brasília estava marcado para o final da tarde.
Acordei cedo e a primeira coisa que pensei foi nos meus óculos escuros.
Meus olhos já acordaram chorando. Me demorei na cama, me demorei no banheiro,
me demorei na esperança de que o tempo se demorasse também.
Desde o dia em que soube que iria embora, comecei a prestar mais atenção
em tudo e em todos que me rodeavam a vida toda e que até aquele momento eram
apenas parte da paisagem diária. Desde o porteiro até os portugueses do bar,
Seu Joaquim e Seu Antônio. Não posso esquecer-me da Dona Maria!
Parecem os nomes mais óbvios para personagens caricatos de portugueses
donos de Botequim no Rio. Mas, esses são de pessoas absolutamente reais que
tinham exatamente esses nomes. E, são ainda mais peculiares do que qualquer
personagem fictício já criado. Uma das coisas que eu sempre achei curioso
demais neles, era o fato de, durante anos a fio, encontrar com eles tarde da
noite, depois de fecharem o bar, andando muito lentamente pela rua principal do
Leblon, e sempre na mesma formação: o Seu Antônio na frente carregando uma
sacola, seguido pela Dona Maria, a uns dois passos atrás, sempre carregando
mais sacolas do que ele. Um hábito curioso e estranho. Eles não andavam juntos.
Eles andavam separados, indo para o mesmo lugar. Eram casados e já aparentavam
idade.
O terceiro sócio do bar, o Seu Joaquim, era um capítulo à parte.
Completamente lesado. Ele era tão confuso que alguns sacanas davam uma nota de
cinco para pagar algo de 10 e ainda levavam troco.
O certo é que naqueles dias tudo e todos haviam adquirido um significado
profundo e já faziam parte da minha saudade. Parei no bar para comprar cigarros
e até a atrapalhação do seu Joaquim com o troco, que sempre me irritava, desta
vez me provocou ternura. Cheguei à praia mais cedo que o de costume e caminhei
pela areia, perto do mar, até o final do Leblon. Como sempre fizera, mas nunca
como naquela manhã.
Eu estava começando a trilhar um caminho que ainda não conhecia.
Havia passado toda minha vida naquelas areias sob os olhares dos
gigantes de pedra que, agora, pareciam estar tristes por minha partida. Os
gigantes eram o morro Dois Irmãos, no final do Leblon, nossos guardiões, meus
irmãos...
Olhei, tentando reter aquela imagem, fotografá-la, aprisionar na memória
cada detalhe daquelas montanhas sagradas. Fixar-me naquela paisagem, imprimi-las
na parte mais profunda do meu ser, me agarrando a elas como se fossem
desaparecer no minuto seguinte.
Caminhando de volta, comecei a encontrar os amigos. Ritinha foi a
primeira a me encontrar, ela me fizera sentir amado naquele verão, quando o sol
dourou nossa pele e nos fez feliz. Meus amigos foram chegando aos poucos e, um
a um, sentaram-se ao meu lado, calados. Uma incomum formação visual de garotos
e pranchas de surf coloridas e alinhadas na beira do mar da praia do Leblon.
Cada um com suas pranchas, mas ninguém dentro d'água. O mar estava vazio.
Despedi-me e fui para casa, estava muito difícil ficar ali.
Chegou à hora. Entrei no carro e fomos para o Aeroporto do Galeão, eu,
meus pais e meus irmãos. Ao chegar à entrada, a primeira coisa que vi foram meus
amigos, tinham ido de surpresa no carro do Bode e na Kombi lotada do porteiro
de um dos prédios do Condomínio dos Jornalistas. Foi um dos momentos mais
emocionantes que vivi em toda minha vida. Como foi bom vê-los. Uma emoção
profunda. Inesperada, comovente e inesquecível.
Eu sabia que estava vivendo um dos momentos mais marcantes da minha
vida. Uma consciência da importância daquele momento, da eternidade daqueles
instantes.
Meu desejo era abraçar todos ao mesmo tempo e nunca mais ir embora dali,
viver para sempre no saguão do Aeroporto do Galeão. Mas, eu tinha que ir
embora.
A vocês, meus amigos e amigas, minha mais profunda gratidão por me
fazerem sentir tão querido e tão amado. Vocês, assim como os gigantes de pedra,
estarão para sempre em minhas lembranças e em minha alma eternamente.
A você, doce Ritinha, obrigado pelo desmaio no aeroporto, por seu
carinho e pelo seu lindo coração.
Muito obrigado pelo amor de todos vocês.
Uma semana depois, eu estava de volta!
DESTINO MENINO.
Todo minuto é momento
Um invento, um sentido,
Por fora, por dentro,
É cada segundo, sem tempo,
É quase nada no vento
A vida são horas correndo
e se existe ou não um destino,
Ele é só um menino
que não sabe onde ir
A verdade é que nada se sabe,
Se é do errado que se chega ao certo,
Se é para frente, para trás ou para os lados,
Porque não tem lado certo, nem errado
Não tem nem em cima,
nem embaixo
E os minutos continuam correndo,
E a gente sempre mais lentos,
Sem saber para que andar
Já que é o tempo que nos carrega
Até onde quiser nos levar
A mim, que me leve
em qualquer pé de vento
Para um tempo que seja de amar.
– Edmir Saint-Clair
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A FELICIDADE
Foram
descobrindo a vida juntos numa parceria e intimidade que só a pureza de quem
nunca amara antes poderia proporcionar. Riam de seus próprios desconhecimentos
de seus corpos, tornando tudo uma brincadeira excitante, deliciosa e sem
expectativas demasiadas.
Consequência
natural, numa sociedade que não dava muitas opções, casaram-se muito cedo.
A
ascensão profissional de ambos, a leveza e a cumplicidade cresciam na mesma
proporção. Se davam bem. Combinavam sem esforço.
Num
dado momento, como em toda relação, a rotina, antes um orgulho pela
sincronização e conveniência para ambos, se instalou de uma forma perfeita
demais.
Tão
perfeita, que era impossível melhorá-la. Até as manhãs de mau humor aconteciam
em forma de revezamento, de maneira que um estava sempre são, para compensar o
descompensado.
Haviam
encontrado um ponto de equilíbrio que poucos casais conseguem alcançar. Eram a
exceção que confirmava a regra de que casamentos são feitos para fracassar.
A
relação deles contrariava a tudo e a todos.
Após
15 anos, eram os únicos do extenso grupo de amigos do bairro natal, no qual
ainda moravam, que permaneciam casados. Se juntasse com o tempo de namoro,
passava de 20 anos.
O fato
é que os amigos viviam comentando sobre a harmonia perfeita do casal, alguns
com espanto, outros com inveja e outros com elocubrações regadas a muito
álcool.
Até
que aquele “incomodo alheio" pela felicidade do casal começou a chegar até
eles, de forma fragmentada e de maneira cada vez mais incômoda e invasiva.
Emprenhados,
por fragmentos de conversas carregadas de muito veneno e servidas como
caipirinhas entre amigos, o casal foi sendo contaminado pela dúvida.
Foram
presas muito fáceis da inveja humana.
Só haviam conhecido um ao outro. A
desconfiança que começou a nascer, não foi com relação ao outro, mas com a
avaliação que cada um fazia de si mesmo.
Como poderiam
saber se realmente eram felizes tudo que poderiam ser, ou se apenas imaginavam
que aquilo era felicidade, já que não tinham nenhuma experiência que pudessem
usar como comparação ou referência.
Sempre
foram muito amigos e se prometeram a sinceridade que só a confiança extrema
comporta.
Não
tardou para que os questionamentos tomassem conta de todas as horas. Sempre
compartilhados, sem que nenhum dos dois conseguisse respostas.
Não
sabiam mais dizer se eram felizes ou se haviam entrado na perigosa zona de
conforto, última moda nas conversas psicologizadas.
E o que era leve, não era mais. Os silêncios
não eram mais os mesmos, e é no silêncio que um casal mais se entende.
Numa
conversa angustiada, mas cheia de sinceridade, sentimentos e carinho, decidiram
que deveriam se separar naquele momento, para que pudessem ter alguma chance de
se reencontrar num futuro em que já haveriam de ter suas respostas.
Mas,
não se deve deixar a felicidade nas mãos do acaso.
É
preciso abraçá-la, fazendo o impossível, para que ela nunca queira ir embora.
Nunca
mais se reencontraram e se arrependeram daquela decisão pelo resto de suas
vidas.
Edmir
Saint-Clair
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MISTÉRIO NO LEBLON
INTOCÁVEL
A multidão contemplava, embevecida, aquele show de
luz e sombras, enquanto o sol se deitava aos poucos, aconchegado pelo Dois
Irmãos. O mar, o sol e a montanha reunidos no mesmo espetáculo sublime e diário da
natureza carioca. Assim que me posicionei sobre a pedra, vi aquela garota linda
— e ela também me viu.
A partir daquele instante, fiquei alheio a tudo que acontecia
ao redor. Ela me fitava de forma acintosa e eu também. Menos de dez metros nos
separavam, além das dezenas de pessoas entre nós. Apenas nos olhávamos
fixamente, e a distância não impedia que isso fosse absurdamente evidente: nossas pupilas haviam
se conectado além de tudo e todos. Além de nós mesmos. Não sorrimos, não
piscamos, não fizemos menção alguma de nos aproximarmos — ficamos imóveis,
absurdamente focados. Como num transe profundo. Algo que eu não conhecia estava acontecendo, profundo e arrebatador.
Enquanto ainda havia luz suficiente para distinguir
traços no escuro, permanecemos ali, ligados por algo indescritível e inédito — até o sol se pôr completamente e a vida virar noite. Saímos
misturados à multidão, sem que nos encontrássemos.
Passaram-se quarenta anos.
Mais uma vez, um pôr do sol no Arpoador, num verão que só existe no Rio. Após uma vida inteiro, lá estava eu e lá estava ela. A reconheci pela luminosidade dos olhos quando cruzamos nossos olhares. Ela também.
Agora, um
homem e uma mulher já envelhecidos. Depois de toda uma vida, estávamos no mesmo
lugar, à mesma distância, diante de um momento tão sublime quanto aquele que
jamais esqueci.
Novamente, mergulhamos no mesmo transe de antes,
enquanto a natureza repetia seu espetáculo de verão. Permanecemos exatamente
como há quarenta anos.
As minhas pupilas engolidas pelas dela — e as dela
pelas minhas — à distância, saciando uma fome antiga da alma. Não nos
aproximamos. Não valia a pena tocar aquela lembrança tão bonita, profunda e
intensa com as ásperas mãos que as mazelas da vida haviam calejado .
Sabíamos que estávamos sentindo exatamente a mesma coisa. A experiência que os anos nos haviam ensinado nos fazia ter certeza disso. O mesmo sentimento habitava nossos corpos naquele momento, pela segunda vez. Intocado.
O inexplicável, o etéreo e o sublime se encontraram em nós, nos arremessando à uma dimensão singular onde nossos sentimentos se entrelaçaram num abraço de almas, num poema silencioso e perfeito escrito, com rara sensibilidade, pela magia da vida.
Até que o sol se pôs por completo, quando cada um levou o outro consigo para sempre.
Mesmo sem nunca
termos nos conhecido, sabíamos que compartilhávamos aquele mesmo sentimento inexplicável, profundo e intocável.
Edmir St-Clair
DIRIGIR A SI MESMO
O autoconhecimento é essa bússola interna. Ele revela o que nos move e o que nos paralisa; mostra, com uma clareza incômoda, as forças invisíveis que nos impulsionam ou nos freiam. Compreender nossas reações é um ato de protagonismo. Não se trata de reprimir sentimentos — eles são parte da nossa natureza — mas de interpretá-los, compreendê-los e canalizá-los de forma inteligente e consciente.
Com treino e intenção, a troca de percepção se torna instantânea. O que antes ameaçava me paralisar, agora se converte em combustível criativo e desempenho afiado. Vira uma vontade forte que realizar.
O resultado é: energia reorganizada, foco ampliado e a sensação concreta de estar no controle do que me é possível. Essa é a maestria de dirigir a si mesmo — uma jornada contínua, sustentada pela vontade pró ativa de realizar a vida com determinação e sentido.
Para mim, o livre arbítrio é um software que não vem instalado de nascença em nosso cérebro. Cabe a nós desenvolvê-lo através do conhecimento científico e do autoconhecimento.
Afinal, quem aprende a se conduzir jamais será conduzido pelos acasos da vida ou pela vontade dos outros.
Edmir Saint-Clair
COMO ENCONTRAR O SEU ANJO – GUIA PRÁTICO
Com
este guia prático você vai ver que isto é possível, basta vencer a barreira do
absurdo. Isso é muito fácil, já que ela não existe mesmo.
Para
começar a procurar seu anjo faça o oposto, identifique seu demônio particular. Esses dias estressantes facilitam bastante essa tarefa, e a toda hora ele se manifesta. Primeiro, perceba
que seu principal antagonista é você mesmo. Somos nossos piores e mais
implacáveis sabotadores e críticos. Se a gente pudesse quebrar a própria cara,
de vez em quando, não seríamos assim.
Por
isso, se não podemos vencê-lo, juntemo-nos a ele, no caso, a nós mesmos. Às vezes, transformamos nossas próprias vidas num verdadeiro inferno, como se estivéssemos com o diabo no corpo, nesses momentos, não vacile, atraque-se com seu capeta e mostre quem manda na porra toda.
A
primeira providência é, numa ocasião propícia, convidar seu crítico para
conversar. Ofereça-lhe um chazinho, todo crítico adora um chazinho. Durante a
conversa, faça-o ver que ele o está se criticando muito severamente e revele a
grande verdade, ele é você. No começo ele pode relutar um pouco, mas depois,
fatalmente terá que concordar. Ou então, se interne logo porque seu caso está
perdido. E, não adianta partir para a agressão, eu garanto que você vai
apanhar.
Passada
esta fase meio insana, vamos para a segunda etapa.
Que é,
ainda, mais insana.
Essa
prática seguinte tem suas vantagens. Você pode praticá-la em casa, sozinho, não
paga dízimo e não tem sermão de ninguém, nem tem que ler nada. E não precisa
ver programa de pastor gritando em canal de televisão.
O
incenso é opcional, não é necessário.
Agora
vamos lá; na sua sala ou quarto, fique o mais relaxado que puder, sente-se no
chão e assuma a posição de Lótus.
Pode
ser também a posição de Ferrari ou McLaren.
Essas
posições importadas geralmente são bastante confortáveis. Mas, tem gente que se
arranja bem até com a posição Fiat Uno. Tem que ter muito mais flexibilidade, é
claro.
Ah,
antes coloque um som instrumental que você goste, porque se deixar para colocar
depois de fazer a posição escolhida, vai dar o dobro do trabalho.
Comece
a pensar em quantos Eus existem em você.
Acesse
as memórias de você quando criança, imagine que está se encontrando com ela,
com a criança cheia de sonhos que você foi, convide ela para brincar, pergunte
o que ela sente, o que ela precisa, o que lhe falta.
Chame seu autocrítico, também, e apresente-o a ele mesmo. Perceba toda a abrangência de sua própria pluralidade.
Desculpe
seus erros, faça um pacto de amizade consigo. Faça a paz entre todos os seus
Eus.
Grande
parte das pessoas esconde sentimentos de si mesma. Ou seja, nem amigos
confidenciais de si mesmos são.
Essa é
a pior solidão, a ausência de si mesmo.
Temos que nos aceitar, ficar do nosso lado, isso é fundamental. Mesmo quando não compreendemos por que fizemos aquela merda colossal! Quanto mais difícil é uma situação, mais fortemente precisamos contar com nosso próprio apoio. Sem o acolhimento e a amizade de si mesmo, não há santo, nem anjo, que aguente viver.
Seu
anjo da guarda existe e está esperando por esse encontro, há tanto tempo quanto
você.
Agora, levante-se e fique bem em frente ao espelho.
Se olhe com toda a atenção, sem
pensar em nada, apenas se olhe, sem pressa, vá se reconhecendo, lentamente, em
cada mínimo detalhe, até se enxergar profundamente, com os olhos de sua própria
alma.
E,
então sorria.
Imediatamente,
você verá o seu anjo lhe sorrindo de volta.
Edmir Saint-Clair

















