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UM OUTRO MUNDO – Poesia

 

Enquanto a noite amanhece lenta

Nossos Corpos se reconhecem quentes

Revelando mundos

 Que afinal se entendem

Muito, todo, tudo

Sangue trocando de veia,

Renascendo dentro de um mundo à parte

Construído pela arte que só o amor sabe fazer

Onde a alegria manda, onde o desejo ganha

Onde o tocar das bocas é a fala mais urgente

Um mundo além do mundo

Um mundo além do sonho

Um mundo além da gente

Porque ao sonho faltam

a tua carne, as tuas unhas e os teus dentes.

- Edmir Saint-Clair

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AMAR E SER FELIZ

Fruto do mais legítimo acaso, caiu-me nas mãos um livro particularmente necessário para mim, naquele momento. 

O livro realmente me impressionou, como há muito não acontecia.

Identifiquei-me profundamente com os pensamentos ali expressos. Trata-se da transcrição de uma palestra do filósofo francês contemporâneo André Comte-Sponville. O nome do livro é Felicidade, desesperadamente. Ele faz um passeio pela história da filosofia e, através da ótica de várias escolas  filosóficas, discorre sobre as emoções humanas, particularmente o amor.

O livro me fez compreender o que sempre pensei e nunca havia conseguido enunciar e entender de forma tão clara e objetiva.

A identificação com a condução do raciocínio em torno do tema proposto pelo escritor foi completa. A primeira coisa que me fez ver, é que eu havia, finalmente, compreendido o que é amar de verdade, para mim. Não no sentido de intensidade mas, no sentido de profundidade e amplitude. E, principalmente, no sentido da ação.

O verdadeiro amor é aquele que desperta, espontaneamente, nossas melhores características pessoais. O lado mais humano, amigo, parceiro. É o que provoca a atitude de fazer o outro feliz em cada interação. É o cuidado de utilizar a percepção, que a sintonia com a pessoa amada provoca, para chegar aos mais deliciosos e nobres requintes de amor, carinho e tudo mais torna uma relação apaixonante.  E, por causa dessas atitudes bonitas para com o ser amado, nos vemos mais bonitos, iniciando um ciclo muito saudável. Nossa autoestima aumenta, o que nos faz amar o amor que sentimos pela outra pessoa. E, esse ciclo se estende ao sermos retribuídos e, por isso, amamos ainda mais a pessoa que nos faz sentir todo esse prazer de viver. Isso aumenta e se fortalece a medida em que transformamos esse amor em novas atitudes, nos fazendo capazes de sentir felicidade pela felicidade do outro.

Cada um do seu jeito, com as suas verdades. Unidos apenas pela felicidade de estar junto. Pela alegria e o prazer que o amor proporciona.

É preciso aprender a amar e isso leva tempo. E, na maioria das vezes, dói aprender. 

 A felicidade não existe para o amor dos imaturos, do desejo egoísta que quer o objeto porque não o tem. Do que quer a posse, o controle, o poder de manipular o outro através dos sentimentos. Estes estão condenados a infelicidade.

Acredito no amor que trás consigo a possibilidade real de felicidade. Que nos faz sentir alegria apenas com o pensamento de que a pessoa amada existe e, também, nos ama. A simples idéia da existência do outro já é razão de sentir alegria.

No amor verdadeiro não existe posse. Existe desejo. Não existe obrigação. Existe vontade. Cada encontro acontece porque o desejo impulsionou. Porque trás prazer e alegria.

O prazer de se sentir o objeto de desejo do nosso objeto de desejo é indescritível, é o momento mais mágico da vida.

O amor verdadeiro é saudável, é a sensação de prazer pelo prazer do outro; é multiplicar por dois as possibilidades de felicidades, para ambos.

Um dia chegaremos lá...

- Edmir Saint-Clair

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ERA TUDO MENTIRA - Poesia

 

Voava e tinha capa esvoaçante,

Seu cavalo era negro como a noite,

Morava no castelo onde seu pai era um rei

 

A mãe era a mais bondosa de todas

E o amava mais que tudo, ele era o preferido

 

Seus irmãos viviam todas as suas aventuras,

Eram os personagens principais de todos os contos,

Nascidos para serem heróis, como ele.

Mas, era tudo mentira.


- Edmir Saint-Clair

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IMAGINAÇÃO: UMA FACA DE DOIS GUMES

 

Segundo Platão, existe um plano das idéias.

Toda realidade que percebemos é um reflexo dessas idéias.

O plano das idéias é onde se origina uma das faculdades mentais que nos diferenciam de outras espécies, a imaginação. A capacidade de ver com a mente coisas que não, necessariamente, existem no plano real, naquele momento. É a capacidade de projeção de algo ou situação abstrata.

Criatividade x Fantasia?

As duas nascem no plano da imaginação, e se confundem a princípio. A criatividade é ativa, a fantasia é passiva. Ambas fazem parte do plano das idéias e são derivadas da nossa faculdade de imaginar coisas.

São as duas faces de uma mesma moeda, com uma diferença fundamental: não tem o mesmo valor quando se trata de produzir algo novo.

O lado positivo da imaginação produz a criatividade, que se manifesta na ânsia de viabilização daquilo que foi imaginado, resultando em sua realização efetiva.

A criatividade pressupõe um projeto de amanhã. Evolui, torna- se um trabalho e realiza-se.

A fantasia, apesar de muitas vezes festejada, tem um aspecto bastante negativo; nem sempre evolui para ser um projeto de construção de um amanhã. Muitas vezes pode substituir, perigosamente, o processo trabalhoso dessa construção e ir direto para o estado de prazer imediato que a fantasia pode proporcionar. Para quem não acredita no próprio potencial de realização, a fantasia é tudo que resta. A fantasia busca o prazer imediato, busca apenas um alívio, um caminho mais fácil.

 Ela não pensa em construir sua própria realização, apenas sonha inconsequente. A fantasia, quando é levada apenas como brincadeira, um recreio da mente, é muito saudável. É normal fantasiarmos ser um pop-star ou um ídolo famoso. Quem nunca se apresentou para um maracanãzinho lotado, aplaudindo de pé, enquanto cantava embaixo do chuveiro? Enquanto ficar só embaixo do chuveiro, essa fantasia não passará de uma brincadeira deliciosa e inconsequente. Enquanto ficar no plano da diversão e do prazer, ela servirá plena e saudavelmente à sua natureza, que é realizar-se em si mesma.

Mas, sozinha ela não atende às nossas necessidades básicas de sobrevivência.

Nossa mente é palco constante de ambigüidades traiçoeiras. A partir do poder de imaginar, tanto podemos evoluir na direção da imaginação criativa quanto para a fantasia paralisante. Via de regra, desenvolvemos as duas vertentes, de modo que, no início do processo imaginativo, fica muito difícil prever para que direção aquele pensamento irá pender. No nascedouro das idéias, elas não tem diferença alguma, são a mesma coisa: nossa mente abstraindo e paramaterializando uma projeção. Somos capazes de imaginar eventos bastante complexos.

O destino que damos a nossa imaginação é o que faz toda a diferença.

Podemos arregaçar as mangas e tentar produzir o que imaginamos ou podemos nos sentar e ficar fantasiando como seria bom se aquilo se realizasse como ficaria feliz, famoso, bonito, rico e tudo que poderia usufruir como conseqüência. A fantasia, nesses casos, pode alcançar estágios perigosos e delirantes, principalmente, em indivíduos com uma realidade já fragilizada.

O interessante dessa história, é que, quando bem dosada, a fantasia pode ser um elemento propulsor da imaginação. Assim como imaginar criativamente, fantasiar os resultados também faz parte do mecanismo de motivação pessoal. Se for encarada como uma das possíveis conseqüências de um processo, será saudável. Mas, caso se torne o único evento derivado da imaginação, será infrutífero e inócuo. Muitas vezes, chegando a se tornar extremamente danoso e doentio.

- Edmir Saint-Clair

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O PRIMEIRO DIA DE FÉRIAS

Primeiro dia de férias

Depois de doze prestações mensais de trabalho quitadas, finalmente, adquiri minhas férias próprias. Primeira manhã, férias novinhas, zero quilômetro, toda equipada com réveillon, verão e um monte de surpresas que, espero, aconteçam.

Chego à conclusão de que, sem dúvida, o verdadeiro fruto do trabalho são as férias. Uma vadiagem remunerada, sem culpa, admirada e almejada por todos.  Sinto que o cérebro está em festa, animado. Vem-me à memória uma frase que não sei de quem é, mas é boa: “Com o coração em festa e a alma a gargalhar”. Sou o retrato dela no momento, a caminho do mar.

O sinal demora a abrir. Tudo bem, estou de férias, tenho tempo. 

Não é à toa que, quando os médicos não sabem mais o que fazer por um paciente estressado, receitam férias. Até hoje, a ciência farmacológica não descobriu nenhum remédio melhor. Nem homeopatia, nem shiatsu, nem rivotril, nem cloroquina; Férias. Deveriam testar uma psicanálise praiana, feita debaixo da barraca e tomando água de coco... quem sabe?

O melhor dia das férias é o primeiro. Tudo ainda está por acontecer, cabe tudo. Ainda não existe tempo passado para haver frustração, só futuro, só expectativas boas. Fico surpreso, depois de um período de afastamento, provocado por essa coisa chamada trabalho, seria natural um certo período de readaptação praieira. Mas, surpreendentemente, já no primeiro minuto sinto-me totalmente à vontade. A praia do Leblon é, literalmente, a minha praia. A textura da areia, nem muito fina nem muito grossa, perfeita. A textura da areia das praias dessa orla, do final do Leblon até o Leme, tem uma consistência única. A areia de cada praia do mundo é como uma impressão digital, é exclusiva daquela praia. A areia encontrada em uma determinada praia é criada pelo seu entorno. Ou seja, não existe areia igual ao da praia do Leblon/Ipanema, que na realidade são uma só, dividida apenas pelo canal do Jardim de Alah.

    Numa rápida passagem de olhos, analiso as condições de vento, mar e a melhor posição para minha cadeira. Isso tudo exige certa ciência, não é para qualquer um, tem que ser da terra, minhôco. A praia do Leblon, às terças-feiras de um dia qualquer, é meu paraíso particular. Tem cheiro de férias desde que me entendo por gente. O mesmo cheiro, essa mesma praia, que sempre me fazem ter a sensação de colo de mãe, misturado com o som desse mar que me embala. Um carinho da vida. Um beijo da brisa que sopra. Meu lugar especial no mundo.

Agora, com licença, estou de férias e já escrevi muito. Tenho mais o que não fazer.  

 - Edmir Saint-Clair

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GENTE

 

Gente, quente, pulsante ser

Tanto quanto o tudo pode conter,

Sexo, nexo, complexo viver.

 

Gente é preto, é branco, é pranto,

Que escorre e salga o susto de viver

Sem saber, é tudo, é nada,

É pouco, é muito, é meio, é canto

Pode tudo o que quer ser.

 

Gente é dia, é noite, é jeito de viver,

É parte da brisa, do movimento do ar,

Do mar, do sol, do riso, do olho de prazer,

Sempre buscando, desejando, querendo,

 Tanto quanto mais gente puder ser.

 

Gente é vida, é morte, é sorte sem saber

É tudo, é tato, é vôo da ilusão,

É simples, é nada, e nem precisa ser.

- Edmir Saint-Clair

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O MEDO DA MUDANÇA

O medo está nos rondando o tempo todo, nos fazendo engolir sapos maiores que a boca. Sem que tenhamos consciência de quais são seus detonadores, de repente, aparece tentando encaixar as nossas atitudes e, pior, a dos outros também, em modelos que nem sabemos se servem aos nossos anseios. Tudo para termos a sensação de segurança. 

Quanto mais previsível, quanto menos mudanças na rotina, mais seguro o ser humano se imagina. A, estranhamente, chamada zona de conforto, de conforto não tem nada. O nome certo é zona de tédio, uma ilusão maléfica causada pelo medo que a simples idéia de mudança provoca. Mas, as mudanças ocorrem o tempo todo, percebamos ou não. Não dependem da nossa vontade.

O medo da mudança é uma força poderosa e vive escondido nas pequenas coisas e, é, na maioria das vezes, o grande responsável pelos maiores sofrimentos.

Ouvi de um amigo psicanalista, algo que me ficou na cabeça e que os anos só reforçaram a verdade que traduz:

− "O ser humano se sente seguro vivendo uma rotina previsível, mesmo que isso signifique viver em péssimas situações, aparentemente insustentáveis, se vistas por alguém de fora mas, que ele já conhece e está acostumado. É péssimo, mas é um péssimo que ele conhece. Essa força é tão poderosa que a simples idéia de romper com a situação e partir para algo novo pode causar pânico a algumas pessoas. O ser humano prefere ficar no sofrimento conhecido a arriscar qualquer outra coisa que ele não conheça. ”

Não raras vezes, nos deparamos com essa realidade em vários aspectos. Nas relações familiares, profissionais, amorosas, fraternas e quantos mais pensarmos.

Admiro as pessoas que conseguem se desvencilhar rápido de situações incômodas. É claro que tudo tem sua peculiaridade e nada pode ser posto numa mesma sacola. Mas, existe uma linha, que pode não ser nem um pouco tênue, de onde, a partir dali, qualquer um tem certeza do dano que aquela situação está trazendo a um, ou a quantos mais estiverem envolvidos.

Seja em que âmbito for, chega um momento em que o desgaste é tão profundo e incomodo que a mudança é absolutamente inevitável e urgente. E; isso sempre gera insegurança, que é outro nome para o medo.

Nas relações amorosas isso é ainda mais nítido. Do início da descida até se esborrachar no fim, a gente vem se ralando todo, ladeira abaixo. E, não raras vezes, essa ladeira dura anos. Imagine quanta ralação, quantos machucados daqueles bem ardidos poderiam ser evitados.

É bem doloroso. O que esquecemos é que podemos, a qualquer momento, interromper essa descida e evitar mais machucados. Saber interrompê-la antes que os traumas se aprofundem demais é o que decide como estaremos preparados para próximos relacionamentos. Essa decisão é das mais sérias com as quais nos deparamos na vida: a hora de parar. Há um momento que temos que dar um fim a uma situação de sofrimento e não olhar mais para trás. Por uma questão de sobrevivência e sanidade.

Saber a hora de parar de sofrer é fundamental para não perder a crença em si mesmo. É necessário acreditar que podemos produzir nossa própria felicidade. E, antes, precisamos crer que somos capazes de nos proteger, de cuidar de nós mesmos, adequadamente. Porque, quantos mais machucados estivermos, mais tempo esses traumas levarão para cicatrizar. Isso significa que precisaremos de mais tempo para nos recompor até estarmos prontos para uma nova relação. E a vida não espera. O tempo passa. E, dependendo da intensidade e quantidade dos eventos traumáticos, e dos recursos disponíveis para enfrentá-los (terapias e redes de apoio), essa recomposição pode ser bastante demorada.

É importante sermos sinceros ao respondermos às nossas próprias perguntas. Precisamos saber pelo menos o que pensamos, de verdade, sobre nossos próprios assuntos e sentimentos. Precisamos estipular nossos limites. A Tolerância é necessária, sem ela não se vive em sociedade, não se aprende e nem se evolui. Mas, a partir de um tênue limite, passa a ser submissão, conformismo e covardia.

Vivemos como se houvesse um modo certo e outro errado de realizarmos nossa vida. Como se houvesse um gabarito. Não há. Ninguém nasce com manual ou destino traçado. Tudo que fazemos é inédito. Algumas vezes, é imprevisível, simplesmente porque ninguém fez daquele jeito antes. Do seu jeito, original é único.

Mudar dá medo. Principalmente, quando a decisão de mudança envolve coisas básicas como mudar de casa, ficar sozinho, trocar um emprego medíocre, mas que paga as contas, por um projeto que, se der certo, vai te dar a vida que você deseja (isso não está ligado a dinheiro necessariamente!). Mas, que, também, pode dar errado. 

E daí? Tudo pode dar errado, principalmente, o que está dando certo. Já que o que está dando errado, se mudar, só pode mudar para dar certo. 

Se der errado é porque não mudou. Então, vai ter que mudar de novo. Até dar certo. E, pode ter certeza, uma das coisas que mais ajudam a persistir até que dê certo, é o bom humor. Sem ele a vida não tem graça. É preciso brincar de ser feliz, pelo menos...

Ou seja, veja-se por que ângulo for, é preciso estar aberto à mudança sempre. Inclusive, para que o que já está dando certo, continue dando.

 Edmir Saint-Clair


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ÁGUAS DE MARÇO EM LONDRES

 

A última coisa que se espera, quando estamos em outro país, no caso a Inglaterra, é que um inglês saiba uma letra de Tom Jobim melhor do que a gente, que é brasileiro e carioca.

Estava vivendo um tempo em Londres, maravilhado com aquela mágica atmosfera londrina da segunda metade dos anos 80. Uma das coisas me levou até lá foi a música.

Uma das características mais fascinantes da cidade é a quantidade de lugares onde se pode ouvir música ao vivo. Nos parques, estações de metrô e restaurantes, na hora do almoço. A partir do entardecer a oferta aumenta e não existe lugar no mundo com mais estabelecimentos com música ao vivo.

Os pubs londrinos são famosos, não se precisa acrescentar nada ao que já foi dito quanto a isso.

Tive vontade de tocar num pub londrino. Uma apresentação solo. Voz e violão, como nunca havia feito ou sequer cogitado até aquele momento. Um pocket show de bossa-nova. Nunca fui bom em decorar nem as minhas próprias letras, mas como eram todas em português, mesmo que eu errasse ninguém perceberia. A vida inteira participei de bandas, nunca havia feito uma apresentação solo.

Meus amigos ingleses se encarregaram de conseguir o lugar para que eu realizasse minha fantasia musical.

Era um restaurante bastante agradável e espaçoso. Claro e arejado, nem parecia ser londrino. O pequeno palco era baixo e a altura do som era regulada como música ambiente. Não incomodaria quem estivesse conversando. Perfeito para mim.

Uma experiência similar a dos músicos de churrascaria, mas em Londres. Pelo menos, não tinha ninguém conhecido se o fiasco acontecesse. Isso me trazia calma.

Depois de desfilar um monte de Djavan, Toquinho, Gil, Tom e Vinícius, resolvi finalizar o set cantando Águas de Março.

Durante toda a apresentação, uma mesa próxima demonstrara estar gostando. Das sete ou oitos pessoas, um homem em particular estava bastante entusiasmado. Inclusive, me pareceu cantar algumas em português. Pelo tipo físico, era inglês com certeza.

Quando iniciei o primeiro “é pau, é pedra...”, do que seria a última musica, ele se levantou, subiu o pequeno degrau do palco e fiz-lhe um gesto encorajando-o a se aproximar. Parei de tocar, ele se apresentou gentilmente e disse que sabia a letra da música, em português...

Quase lhe respondi:

- Que bom, porque eu mesmo não sei...

Mas, achei melhor não.

O inglês pegou o microfone auxiliar e começamos o dueto mais surreal da minha vida. Como eu sabia que aquele restaurante era freqüentado quase que exclusivamente por ingleses, e eles não tem o costume de decorar a letra de Águas de março, não me preocupara com minha amnésia musical até aquele momento.

Mas, o desgraçado sabia a letra todinha... E, a partir da segunda estrofe , eu comecei a misturar pau com pedra, com toco, com fim do caminho, com chuva e o inglês tentando ir atrás do que eu falava...

Claro, afinal o brasileiro ali era eu. Se tinha alguém errando a letra em português só poderia ser ele!

Logo após soar o último acorde daquele desastroso dueto internacional, o pobre inglês aproximou-se, nitidamente constrangido, e ficou se desculpando por um bom tempo por ter se atrapalhado com letra. Afinal, disse ele, o português é uma língua muito difícil... No que eu concordei prontamente.

 Ele ficou tão inconformado que quase confessei que quem errara a letra inteira fora eu. Ele acertara tudo. 

Mas, achei melhor deixar quieto.

– Edmir Saint-Clair

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MISTÉRIO NO LEBLON

 

 Leblon, início do outono, 20h55m.

Eu acabara de sair da academia Lucinha&Cláudio, atravessara a Rua Humberto de Campos, na direção da Rua José Linhares que fica a menos de 50 metros, estava dobrando a esquina quando vi uma senhora idosa vindo na direção contrária. Ela dá uma topada na calçada, se desequilibra e começa a acelerar descontroladamente o passo. Não há como não cair.

Tento correr em sua direção para tentar ampará-la, mas, antes que chegasse perto o suficiente, surge do nada uma mulher esguia de cabelos pretos e a segura, colocando-a de pé e sumindo novamente.
Tudo não durou mais que 3 segundos.
Fiquei petrificado com a cena. Senti-me muito estranho, um desconforto cerebral extremamente desagradável. Como alguém aparece e desaparece do nada? Sim. Ela não surgiu ou foi embora correndo e foi desaparecendo. Ela apareceu e depois desapareceu, como um flash fotográfico.

A Senhora estava tão perplexa quanto eu. Quando conseguimos trocar olhares, foram de pura estupefação. Aproximei-me um pouco mais, perguntei-lhe o que tinha acontecido. Ela me relatou exatamente a mesma coisa que eu havia visto. Utilizando, inclusive, as mesmas expressões “apareceu do nada" e “Desapareceu do nada”. Ela relatou o que eu tinha presenciado com a mesma precisão de detalhes que eu percebera. Ou seja, quase nenhum. Mas, logo percebemos uma prova inequívoca do ocorrido: ela estava usando uma blusa branca de mangas compridas e haviam duas marcas de mãos onde o “ser” a segurara. Perfeitamente visíveis. Nós dois olhamos para as marcas e, em seguida, fitamo-nos com expressão de incredulidade.

Percebi que tínha visto algo extraordinário e que não havia palavras para descrever aquilo. Ficamos em silêncio por algum tempo e depois caminhamos lentamente até a entrada do prédio para onde a Sra. estava indo, na Rua José Linhares.

Despedimo-nos sem tocar mais no assunto, mas ainda visivelmente desconcertados, intrigados...

Nunca contei isso a ninguém. Nunca entendi o que havia acontecido.


- Edmir Saint-Clair


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NOITE DE NATAL

 

Seu pai o despertou lhe dizendo que era o dia de retirar os pontos. Dia 24 de dezembro, mas ele não tinha a menor ideia. Acordou e permaneceu deitado, tudo estava muito estranho. Ele se sentia muito estranho. Não tinha noção de que dia era aquele, nem de quanto tempo havia dormido, o que, até aquele momento, pensava ter sido um sono normal.

Passou a mão no rosto e sentiu o curativo grande no supercílio direito. Lembrou-se do acidente.

Levantou-se com dificuldade, a cabeça pesava muito.  Quando deu por si estava deitado no banco de trás do carro do pai. As super quadras de Brasília tem quebra molas enormes e sua cabeça sente cada solavanco. Deve estar resfriado, ainda bem que trouxe um rolo de papel higiênico para dar conta dessa coriza horrorosa. Quando assua o nariz sente uma pontada aguda na cabeça e ouve um barulho vindo de dentro do crânio.

Quando o pai para na entrada do Hospital das Forças Armadas, mal consegue saltar do carro, no que foi ajudado por não sabe quem.

Apoiando-se naquele bom samaritano, foi conduzido até a entrada do prédio, enquanto seu pai fora estacionar o carro. Ouvia sua cabeça fazer uns barulhos esquisitos, nunca havia sentido aquilo. Seu nariz escorria numa coriza que nunca tivera antes. De pente, ouve uma voz elevar-se com autoridade:

- Tragam uma maca imediatamente para esse rapaz!

Era um médico e o rapaz era ele.

Deitaram-no numa maca que chegou junto com seu pai que vinha do estacionamento.

Ele não tinha a menor ideia do estava acontecendo, estava confuso e assustado. Sentiu-se frágil e indefeso.

O médico lhe fez algumas perguntas que seu pai o ajudou a responder. Só então se deu conta de que “dormira” mais de uma semana e não se lembrava de nada do que acontecera. A não ser de ter acordado num dia, nesse ínterim, com um dor lancinante na cabeça onde levara cinco pontos depois do impacto no chão. Lembrou que gritou e pediu ajuda, para o levarem a um médico. Mas, não o fizeram, e ele dormiu mais alguns dias. 

Não se lembrava de ter acordado nenhuma vez. Não se lembrava de como comera, bebera água, como fora ao banheiro ou como fizera qualquer outra coisa. Um ser humano não sobreviveria por uma semana sem cumprir essas necessidades fisiológicas. Era como se aqueles dias não tivessem existido. Mas, se ele estava ali naquele no hospital, com certeza aqueles dias existiram, pensou.

Deitado na maca, foi se lembrando do acidente e dos momentos logo após, quando foi levado ao hospital para ser atendido e onde o costuraram cinco pontos no supercílio. 

Lembrou-se que, naquele momento, já sentia que havia alguma coisa estranha com o seu cérebro e pediu que tirassem um raio-X do local da batida (ano 1975 - século XX). Em vez disso, resolveram que ele estava muito “nervoso” e, em vez do exame, lhe aplicaram um calmante endovenoso que o fez dormir e acordar somente uma semana depois (pelo menos na memória dele) naquela maca, esperando para fazer o mesmo exame que ele tanto pedira. 

Porque não acreditaram quando ele se queixou da estranha sensação que sentia no cérebro assim que chegou ao hospital, no dia do acidente? 

Porque razão sua mãe não acreditara nas queixas que ele fez durante aquele trajeto, logo após o choque de seu crânio com o chão?

Quando viu seu pai e o médico que o socorrera na entrada se aproximando pelo imenso corredor, foi percebendo que a expressão de ambos era de tensão.

O pai se antecipou ao médico e falou:

- Você vai ter que ser internado.

- O que eu tenho? Perguntou assustado.

O médico tomou a palavra:

- Está com suspeita de fratura de crânio e ruptura da dura-máter. O líquido que estava saindo do seu nariz é o líquido que envolve e estabiliza o cérebro. A dor que você está sentindo é a pressão do ar que entrou quando o líquido saiu. Da mesma forma que o ar entra numa garrafa quando derramamos o líquido.

Antes que ele perguntasse ou esboçasse qualquer reação, um enfermeiro começou empurrar a maca em direção à sala de raios-X.

Ele estava muito assustado, com medo de morrer. Aos 19 anos, nunca havia passado por nada grave com relação à saúde ou a acidentes graves.

Os exames foram feitos e confirmou-se o diagnóstico inicial.

Foi levado para o andar da neurologia no HFA e instalado em um quarto branco, estéril e modernoso.

O médico regulou sua cama hospitalar para que a inclinação da cabeça ficasse no ângulo devido. Ele não poderia se levantar para nada, absolutamente nada. Tampouco poderia se virar para os lados, na cama. Deitado de barriga para cima, sem poder ver televisão, ler ou qualquer outra atividade que pudesse exigir, mesmo que minimamente, esforço para o seu cérebro inchado. Não poderia sair daquela posição nem quando estivesse dormindo.

Veio à noite. Ele não acreditava no que estava acontecendo. A chuva intensa que começou a cair e a escorrer pelo vidro da janela parecia tornar aquela noite ainda mais surreal. Uma tristeza que ele não conhecia começou a tomar conta de tudo.

A tempestade fez com que as linhas telefônicas parassem de funcionar, o que não era raro naquele tempo, isolando-o ainda mais da vida.

Naquela noite de Natal suas únicas companhias foram o medo da morte, a solidão, o abandono e a ausência doída de todos que amava. E as lágrimas que caíram até que o sono o vencesse.

Nunca entendeu porque sua mãe, seu pai e seus irmãos o  abandonaram, daquela forma, durante um momento tão grave e crítico, quando acabara de saber que corria perigo de morte. Naquele Natal, quando ele mais precisava, todos estavam ausentes, ocupados comemorando em família.

Nunca mais gostou do Natal.

 - Edmir Saint-Clair

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RECOMEÇAR - Poesia

 

O passo difícil, hesitante

Um passo maior que o instante


Maior que todas as


 distâncias


Recomeçar sem ter para onde ir

                                   Porque ontem é um lugar

                                                   Para onde não se pode voltar


Por instinto caminhando, procurando atalhos

Bebendo água no gargalo,                                                                                             errante


Recomeçar; um movimento constante

Porque há sempre um fim em cada instante

                                            Mas também o minuto avante

Que transforma tudo  

                             em novo instante.

                                                               Sempre.

- Edmir Saint-Clair




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SE SOUBÉSSEMOS SER ETERNOS

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UMA LÁGRIMA SÓ NÃO BASTA - Poesia

 

Por todos os amores perdidos

Por todos os sonhos abandonados

Por todas as manhãs desperdiçadas

Por todas as noites mal dormidas

Por todos os risos que não demos

Por toda essa saudade que me mata

Por todo esse deserto que me resta

Por toda essa gente que faz falta

Porque nunca mais é muito tempo.

- Edmir Saint-Clair

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CURSO DE ESCRITA CRIATIVA --- ----------- ---------------- EDMIR SAINT-CLAIR

Seja qual for o gênero ou estilo de sua escrita, a criatividade é fundamental para que ela seja atraente e capaz de cativar seus leitores.
Aulas individuais online, focadas no interesse específico do aluno.

Agende sua entrevista gratuita e vamos conversar:
Ligue 21- 99191-0815 - Edmir Saint-Clair
Segunda a Sexta 10;00 às 20:00h
Possibilidade de aulas noturnas