ORIENTADOR LITERÁRIO

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INTOCÁVEL

 

            Éramos muito jovem, nos últimos momentos da adolescência, quando a vi pela primeira vez — no pôr do sol, no Arpoador, num verão.

A multidão contemplava, embevecida, aquele show de luz e sombras, enquanto o sol se deitava aos poucos, aconchegado pelo Dois Irmãos. O mar, o sol e a montanha reunidos no mesmo espetáculo sublime e  diário da natureza carioca. Assim que me posicionei sobre a pedra, vi aquela garota linda — e ela também me viu.

A partir daquele instante, fiquei alheio a tudo que acontecia ao redor. Ela me fitava de forma acintosa e eu também. Menos de dez metros nos separavam, além das dezenas de pessoas entre nós. Apenas nos olhávamos fixamente, e a distância não impedia que isso fosse absurdamente evidente: nossas pupilas haviam se conectado além de tudo e todos. Além de nós mesmos. Não sorrimos, não piscamos, não fizemos menção alguma de nos aproximarmos — ficamos imóveis, absurdamente focados. Como num transe profundo. Algo que eu não conhecia estava acontecendo, profundo e arrebatador.

  Enquanto ainda havia luz suficiente para distinguir traços no escuro, permanecemos ali, ligados por algo indescritível e inédito  — até o sol se pôr completamente e a vida virar noite. Saímos misturados à multidão, sem que nos encontrássemos.

  Passaram-se quarenta anos.

  Mais uma vez, um pôr do sol no Arpoador, num verão que só existe no Rio. Após uma vida inteiro, lá estava eu e lá estava ela. A reconheci pela luminosidade dos olhos quando cruzamos nossos olhares. Ela também.

Agora, um homem e uma mulher já envelhecidos. Depois de toda uma vida, estávamos no mesmo lugar, à mesma distância, diante de um momento tão sublime quanto aquele que jamais esqueci.

Novamente, mergulhamos no mesmo transe de antes, enquanto a natureza repetia seu espetáculo de verão. Permanecemos exatamente como há quarenta anos.

  As minhas pupilas engolidas pelas dela — e as dela pelas minhas — à distância, saciando uma fome antiga da alma. Não nos aproximamos. Não valia a pena tocar aquela lembrança tão bonita, profunda e intensa com as ásperas mãos que as mazelas da vida haviam calejado .

  Sabíamos que estávamos sentindo exatamente a mesma coisa. A experiência que os anos nos haviam ensinado nos fazia ter certeza disso. O mesmo sentimento habitava nossos corpos naquele momento, pela segunda vez. Intocado.

 O inexplicável, o etéreo e o sublime se encontraram em nós, nos arremessando à uma dimensão singular onde nossos sentimentos se entrelaçaram num abraço de almas, num poema silencioso e perfeito escrito, com rara sensibilidade, pela magia da vida.

Até que o sol se pôs por completo, quando cada um levou o outro consigo para sempre. 

Mesmo sem nunca termos nos conhecido, sabíamos que compartilhávamos aquele mesmo sentimento inexplicável, profundo e intocável.


DIRIGIR A SI MESMO

             Vivemos num mundo saturado de estímulos. Reagimos sem perceber, quase no automático, e confundimos movimento com direção. Mas o verdadeiro poder, a liberdade genuína, nasce de uma habilidade rara: influenciar a si mesmo. Nasce do nosso desejo de desenvolvermos o nosso poder de decidir nossas ações e de influenciar nossas reações.

 O autoconhecimento é essa bússola interna. Ele revela o que nos move e o que nos paralisa; mostra, com uma clareza incômoda, as forças invisíveis que nos impulsionam ou nos freiam. Compreender nossas reações é um ato de protagonismo. Não se trata de reprimir sentimentos — eles são parte da nossa natureza — mas de interpretá-los, compreendê-los e canalizá-los de forma inteligente e consciente.

    A neurociência já provou que pequenas ações, se repetidos com consistência, são capazes de redesenhar conexões cerebrais e criar novas rotas emocionais. É assim que nos tornamos programadores da própria psiquê.

Uma dessas transmutações é, para mim, um exercício diário: transformar ansiedade em animação. Não é metáfora — é fisiologia. Ansiedade e entusiasmo são irmãs quase gêmeas: ambas aceleram o coração, elevam a energia, inflamam o sistema nervoso. A diferença está na lente com que olhamos para essa energia. E isso faz toda a diferença na vida prática. 

Com treino e intenção, a troca de percepção se torna instantânea. O que antes ameaçava me paralisar, agora se converte em combustível criativo e desempenho afiado. Vira uma vontade forte que realizar.

 O resultado é: energia reorganizada, foco ampliado e a sensação concreta de estar no controle do que me é possível. Essa é a maestria de dirigir a si mesmo — uma jornada contínua, sustentada pela vontade pró ativa de realizar a vida com determinação e sentido.

    Para mim, o livre arbítrio é um software que não vem instalado de nascença em nosso cérebro. Cabe a nós desenvolvê-lo através do conhecimento científico e do autoconhecimento.

Afinal, quem aprende a se conduzir jamais será conduzido pelos acasos da vida ou pela vontade dos outros.

 
Edmir Saint-Clair

COMO ENCONTRAR O SEU ANJO – GUIA PRÁTICO


        Todos gostaríamos de ter nosso próprio anjo da guarda, exclusivo, nos protegendo, nos acompanhando e fazendo nossa guarda dia e noite.

Com este guia prático você vai ver que isto é possível, basta vencer a barreira do absurdo. Isso é muito fácil, já que ela não existe mesmo.

Para começar a procurar seu anjo faça o oposto, identifique seu demônio particular. Esses dias estressantes facilitam bastante essa tarefa, e a toda hora ele se manifesta. Primeiro, perceba que seu principal antagonista é você mesmo. Somos nossos piores e mais implacáveis sabotadores e críticos. Se a gente pudesse quebrar a própria cara, de vez em quando, não seríamos assim.

Por isso, se não podemos vencê-lo, juntemo-nos a ele, no caso, a nós mesmos. Às vezes, transformamos nossas próprias vidas num verdadeiro inferno, como se estivéssemos com o diabo no corpo, nesses momentos, não vacile, atraque-se com seu capeta e mostre quem manda na porra toda.

A primeira providência é, numa ocasião propícia, convidar seu crítico para conversar. Ofereça-lhe um chazinho, todo crítico adora um chazinho. Durante a conversa, faça-o ver que ele o está se criticando muito severamente e revele a grande verdade, ele é você. No começo ele pode relutar um pouco, mas depois, fatalmente terá que concordar. Ou então, se interne logo porque seu caso está perdido. E, não adianta partir para a agressão, eu garanto que você vai apanhar.

Passada esta fase meio insana, vamos para a segunda etapa.

Que é, ainda, mais insana.

Essa prática seguinte tem suas vantagens. Você pode praticá-la em casa, sozinho, não paga dízimo e não tem sermão de ninguém, nem tem que ler nada. E não precisa ver programa de pastor gritando em canal de televisão.

O incenso é opcional, não é necessário.

Agora vamos lá; na sua sala ou quarto, fique o mais relaxado que puder, sente-se no chão e assuma a posição de Lótus. 

Pode ser também a posição de Ferrari ou McLaren.

Essas posições importadas geralmente são bastante confortáveis. Mas, tem gente que se arranja bem até com a posição Fiat Uno. Tem que ter muito mais flexibilidade, é claro.

Ah, antes coloque um som instrumental que você goste, porque se deixar para colocar depois de fazer a posição escolhida, vai dar o dobro do trabalho.

Comece a pensar em quantos Eus existem em você.

Acesse as memórias de você quando criança, imagine que está se encontrando com ela, com a criança cheia de sonhos que você foi, convide ela para brincar, pergunte o que ela sente, o que ela precisa, o que lhe falta.

Chame seu autocrítico, também, e apresente-o a ele mesmo.  Perceba toda a abrangência de sua própria pluralidade.

Desculpe seus erros, faça um pacto de amizade consigo. Faça a paz entre todos os seus Eus.

Grande parte das pessoas esconde sentimentos de si mesma. Ou seja, nem amigos confidenciais de si mesmos são.

Essa é a pior solidão, a ausência de si mesmo.

Temos que nos aceitar, ficar do nosso lado, isso é fundamental. Mesmo quando não compreendemos por que fizemos aquela merda colossal! Quanto mais difícil é uma situação, mais fortemente precisamos contar com nosso próprio apoio. Sem o acolhimento e a amizade de si mesmo, não há santo, nem anjo, que aguente viver.

Seu anjo da guarda existe e está esperando por esse encontro, há tanto tempo quanto você.

Agora, levante-se e fique bem em frente ao espelho. 

Se olhe com toda a atenção, sem pensar em nada, apenas se olhe, sem pressa, vá se reconhecendo, lentamente, em cada mínimo detalhe, até se enxergar profundamente, com os olhos de sua própria alma.

E, então sorria.

Imediatamente, você verá o seu anjo lhe sorrindo de volta.

Edmir Saint-Clair

 



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O ROUBO QUE NUNCA ACONTECEU

 

    A partir daquele momento, ele precisaria dosar a agressividade, calma, objetividade e a rapidez. Era só seguir minuciosamente cada passo planejado.

Assim que o alvo atravessa as duas pistas da praia, vindo de sua rotineira corrida vespertina pela orla de Leblon e Ipanema, entra na Rua Cupertino Durão onde mora. Jair apressa o passo e rapidamente alcança o outro lado da rua, onde o alvo tem que passar, obrigatoriamente. Encosta-se numa das árvores, entre dois carros estacionados, e aguarda. Ninguém vindo de nenhum dos lados. O alvo passa e é abordado de forma agressiva, não deixando margem para reação alguma.

— Sérgio, está arma está engatilhada e pronta para disparar. Fique quieto e preste atenção. Vamos até a sua casa, andando devagar e conversando como dois velhos amigos. Se você fizer qualquer coisa errada morre. Ouviu? Responde! Ouviu?!

Jair foi bastante agressivo na aproximação, não deixando espaço para argumentações. Sérgio estava paralisado e apenas balbuciou um sim quase inaudível.

Sempre foi uma pessoa muito medrosa. Jair continua.

— Quanto mais nervoso você ficar mais perigoso fica para nós dois. Então fique calmo e tudo vai dar certo.

Com a arma dentro do agasalho, mas já devidamente apresentada a Sérgio, os dois continuam a andar na direção do elegante prédio do jovem deputado.

Sobem direto, sem parar na portaria. Morador não precisa se identificar. E, na maioria, nesses prédios, não se dá boa noite a porteiros. Sérgio mora sozinho.

Na ampla sala, Sérgio percebe que não é um assalto comum.

Ele nunca fora dos mais corajosos, por isso estava acostumado a ser submisso sem questionar. Jair o manda sentar-se no sofá da sala.

À essa altura, por todo o contexto percebido, Sérgio começa a desconfiar porque Jair está ali. Ainda bastante nervoso tenta amenizar o clima.

— Fique tranquilo, pode levar o que quiser. Não vou causar nenhum problema. Só, por favor, sem violência, pelo amor de Deus.

Sérgio tem a voz trêmula. Seu medo é visível e patético.

— Sérgio, sei que você tem meio milhão de dólares em cédulas e cheques de viagem aqui no seu apartamento. Sei a que horas, onde, e a mando de quem você pegou esse dinheiro. Sei que ninguém pode saber que esse dinheiro existe e muito menos que está aqui na sua casa.

Sérgio ficou completamente branco. Pensou que seria roubado, mas aquilo era bem mais do que isso. Definitivamente, não era um simples assalto. Havia algo por trás.

Ainda sem entender, Sérgio percebe que Jair já não parece tão violento quanto no início, mesmo assim não consegue parar de tremer. Sempre fora medroso. Era óbvio que não estava lidando com um ladrãozinho pé de chinelo. Pelo linguajar e pela postura, Jair é profissional. Talvez, das forças de segurança. Na verdade, não fazia ideia de quem se tratava e de onde surgira aquele homem.

Jair pega seu celular e começa a filmar Sérgio.

— Você vai gravar? Por quê?! Pergunta Sérgio.

— Se levanta e vai pegar a mala com o dinheiro. Diz Jair apontando o celular.

Sérgio hesita: — Não está mais aqui... o secretário do senador já pegou...

A voz de Sérgio falha e irrita Jair, que rapidamente

troca o celular pela pistola, engatilha e aponta para ele.

O corajoso deputado se transfigura apavorado, e imediatamente revela que a mala está dentro do armário do quarto.

Jair não segura o riso. Os dois se recompõem, Jair volta a falar manso e nota que o deputado havia mijado nas calças.

Sérgio entra em seu quarto, abre o armário, pega a mala, coloca-a sobre a cama e a abre. Jair grava tudo ininterruptamente com o celular. Enquadrando o quarto inteiro, alternando com closes da mala e dos retratos de família no quarto do deputado, para caracterizar, com detalhes, onde estão naquele momento.

A seguir, voltam para a sala e Jair continua gravando a mala aberta sobre a mesa de jantar e a sala inteira ao fundo.

Pronto, aquele vídeo não deixa dúvidas de que aquele dinheiro esteve com o deputado dentro de sua casa.

Jair recolhe a mala cheia de dólares. Diante do atônito e medroso deputado mijado, recoloca seu agasalho esportivo, guarda o celular e a pistola no bolso.

— Sérgio, agora vai ser o seguinte: daqui a duas horas vou enviar para você, pelo seu WhatsApp, o vídeo que fizemos agora. Ou seja, eu tenho a prova de que você estava com meio milhão de dólares em dinheiro vivo, e que, obviamente, não tem como explicar porque vieram parar aqui sem comprometer muita gente graúda.

Mostre esse vídeo para o seu "pessoal", porque ele também garante que você não pode ser preso para não delatar. Ou seja, não ter acontecido nada aqui será melhor para todo mundo.

Se eu souber que tem alguém atrás de mim, jogo esse vídeo na internet na hora, os jornalistas vão adorar e isso vai virar o próximo escândalo nacional da semana.

Sérgio ouviu calado.

Afinal, oficialmente, aquele dinheiro nunca existiu e ninguém poderia reclamá-lo sem se incriminar. Não tinha nada a dizer. Não podia fazer nada. A não ser aguardar o vídeo para garantir que continuaria vivo e interessante para o poder que representava.

Jair saiu do prédio tranquilamente, não sem antes perguntar ao simpático porteiro quanto estava o jogo do Flamengo contra o Botafogo no Maracanã:

— 4 x 0 para o Mengão, doutor! E ainda tá no primeiro tempo...

Era o que faltava para coroar aquela início de noite para Jair. Afinal, como diz a sabedoria popular: ladrão...que rouba ladrão...está perdoado!

Este trecho faz parte do livro CONVERSAS NECESSÁRIAS.

Edmir Saint-Clair

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ACONTECEU NA VIRADA DO ANO E TODO MUNDO VIU


Noite da Passagem de Ano,

1 e meia da manhã, praia do Leblon.

           No início da década de 1970 , todas as praias da zona sul eram palco de um espetáculo muito, mas muito diferente dos fogos de Copacabana e das festas sofisticadas dos dias atuais. Naqueles anos, as praias eram tomadas pelos terreiros de umbanda.

A partir do entardecer do dia 31 de dezembro, começavam a chegar as comitivas que vinham para preparar seus altares, e cada grupo iniciava a montagem de seu próprio terreiro na areia.

Cercavam o pedaço escolhido com palmas brancas fincadas na areia que dessa forma, delimitavam o domínio. Cavavam pequenos buracos, no fundo dos quais acendiam as velas que, assim, ficavam protegidas da brisa que sempre sopra à noite, vinda do mar. Eram centenas e centenas de pequenas velas e suas luzes ondulantes, iluminando de forma mágica as areias, de uma praia do Leblon onde a iluminação pública amarelada não tinha nem 10 por cento da luminosidade atual. Aquela imagem marcou minha memória de criança, uma mistura entre a realidade e a ficção de um filme sobrenatural.

Os pais e mães de santo, junto com seus cambonos e devotos, enfeitavam e preparavam seus terreiros de forma extremamente caprichosa, e imbuídos de uma devoção profunda e explícita.

O início da arrumação coincidia com o final das tradicionais peladas de futebol de areia, disputadas no Leblon, entre homens alcoolizados, vestidos com roupas íntimas de mulher, sob o batuque animado de uma bateria de samba organizada e regida pelo genial percursionista Oscar Bolão, bateria essa, que pouco depois deu origem a Banda do Leblon, que, por sua vez, passou o bastão para o Bloco Empurra que Pega dos dias atuais.

Esse intermezzo, do início do pôr do sol até umas 8 horas da noite, era muito curioso.

O que acontecia, simultaneamente, durante o lusco fusco deste dia especial, era absurdo e surreal.

Os devotos já estavam finalizando os trabalhos de preparação dos altares, e iniciando as cerimônias que atravessariam as madrugadas e iriam até os primeiros raios de sol do primeiro dia do ano.  Enquanto, ao mesmo tempo, acontecia a maior bagunça da pelada de futebol de areia, másculo-feminino, com muito consumo de álcool e de tudo mais que pode haver de profano; estavam todos ali, lado a lado, convivendo harmoniosamente. O divino e o profano de mãos dadas, comemorando, felizes, cada um ao seu jeito.

Naquela época, o réveillon era comemorado como se fosse uma noite de carnaval normal. E não acontecia nas ruas ou nas praias. Os bailes concorridíssimos aconteciam nos clubes, hotéis e danceterias espalhadas por todos os bairros do Rio.

Era muito diferente do que é hoje, no século 21.

As praias eram tranquilas, era para onde as famílias iam depois de romper à meia-noite em casa. 

Enquanto os adultos corriam para as festas, os pais com filhos pequenos iam passear na praia em frente de casa mesmo, a da Leblon no nosso caso, onde ficávamos caminhando e observando os rituais de umbanda e candomblé que aconteciam nas areias.

Era um terreiro a cada 3 ou 4 metros, todos cheios de gente esperando para tomar passe das pretas e pretos velhos incorporados. Era o sincretismo religioso acontecendo ali na frente de todos. A classe média, em sua maioria católica, buscava bênçãos em outra religião, ali representada pela classe mais humilde e oprimida da cidade; os pobres e pretos. Era a única ocasião que me lembro de ver pessoas brancas abaixando a cabeça humildemente para receber o passe da doméstica que trabalhava em sua casa. Ali, os papéis se invertiam.

Eu era bem pequeno e toda aquela movimentação tão extraordinária se apresentava ainda mais fantástica para a imaginação fértil de uma criança.

Fiquei muito impressionado com as pessoas que, de repente, do nada, mudavam de voz e começavam a agir estranhamente, minha mãe me explicou que aquilo é quando um espírito entra numa pessoa em transe. Me deu medo, mas a curiosidade era muito maior. O cheiro de charuto e de defumadores só não era mais forte por causa da brisa marinha. Mas, marcou em minha memória olfativa.

Meus pais compraram algumas palmas brancas e entraram no sincretismo reinante. Meu pai deu uma palma para cada filho e fomos jogá-las no mar, para Iemanjá.  Foi divertido  molhar os pés pulando sete ondas e jogando as flores no mar. Quando estávamos voltando da beira para a calçada, começou uma confusão. Um homem grande e forte começou a gritar, visivelmente alterado e bêbado.

Ele olhava de forma desafiadora para os devotos dos terreiros enquanto gritava ameaçadoramente:

- Tudo isso é palhaçada!! Um monte de gente ignorante... fazendo teatrinho... fingindo "baixar o santo" ... só para enganar os trouxas...

Passou por um terreiro, abaixou-se e pegou uma imagem do local de oferendas e saiu andando de forma provocativa, enquanto os fiéis dos terreiros apenas o observavam sem esboçar reação ou intenção de revide. Apenas olhavam fixamente para aquele homem abominável. E fez-se um silêncio que eu nunca ouvira antes...As ondas do mar se calaram.

Só o arrogante não percebeu que, naquele momento, algo de muito estranho começava a acontecer...

Ele, imaginando ter dominado o ambiente, continuou bradando ainda mais impropérios quando percebeu que a imagem que roubara era exatamente a de Iemanjá.

Ele estava vestido todo de branco e talvez não soubesse que essa tradição se deve exatamente a Iemanjá.

Todas as pessoas daquele pedaço da praia pararam para ver aquele desequilibrado, arrogante, histérico e com atitudes tão desprezíveis, desafiar a fé de todos bradando em voz alta:    

- Desafio Iemanjá a fazer alguma coisa para provar que existe... 

E foi caminhando em direção ao mar, gritando que ia afogar Iemanjá em suas próprias águas.

Todos em volta estavam parados, acompanhando atentamente aquele espetáculo bizarro. Aos poucos, o burburinho foi silenciando, os atabaques dos terreiros parando, enquanto o homem adentrava o mar em direção à arrebentação, onde as ondas, muito pequenas naquela noite, estouravam sem oferecer risco algum. Um banco de areia fez com que o homem ultrapassasse a arrebentação ainda com água abaixo dos ombros.

De repente, surgiu uma onda do nada, assustadoramente grande e forte, e o engoliu. Apenas uma onda foi grande naquela semana inteira e foi, exatamente, aquela.

Quando após alguns minutos, o homem não voltou à tona, o burburinho na areia começou a virar gritos cada vez mais intensos e vários homens passaram correndo e mergulharam na água para socorrê-lo.

Meus pais não aguardaram o desfecho e nos tiraram rapidamente dali, nos levando de volta para casa. Mas, fiquei com aquilo na cabeça por dias.

Pouco tempo depois, soube que não haviam achado o corpo daquele homem arrogante e desprezível.

Aquele episódio me marcou profundamente.

Aconteceu bem na minha frente e me arrepio toda vez que me lembro.

Eu vi e todo mundo viu.

Este trecho faz parte do livro CONVERSAS NECESSÁRIAS.

Edmir Saint-Clair 




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UMA FÁBULA DE ANO NOVO



        Era uma vez um planeta triste no qual morava um homem muito alegre  que adorava inventar coisas. Numa certa manhã, sem motivo algum, ele resolveu inventar que dali a 7 dias, a partir daquele dia, tudo ia mudar à meia-noite.

- Por quê? perguntaram todos.
 - Porque mudar é sempre bom, respondeu ele

E conseguia convencer mais gente a cada esquina, pessoas que não só passavam a acreditar, como começavam a falar para todos que encontravam,  que uma grande festa tinha que acontecer para que todos no planeta resgatassem a alegria perdida.

Porque não? Pensavam todos. Verdade ou não, mal não faria.

E a ideia foi se disseminando de uma forma viral, crescendo em progressão exponencial, como nunca se vira antes naquele mundo triste.
As comunicações digitais sem fronteiras daquela civilização altamente desenvolvida, logo incluíram todo planeta triste na divulgação daquela ideiaque, àquela altura, já havia se transformado num movimento planetário.
A coisa toda era muito simples: a partir do final do por do sol, e durante toda a noite até o nascer de sol seguinte, todas as pessoas do planeta deveriam sair de casa com suas melhores roupas, deveriam cumprimentar todos que cruzassem seus caminhos. Mesmo que nunca tivesse visto aquela pessoa antes. E assim foi feito.
E, durante toda a noite, cada ser daquele planeta triste ofereceu e recebeu sorrisos e cumprimentos de quem nunca havia visto antes.
 As consequências imediatas foram as gentilezas mútuas que se seguiram. Com o passar das horas ninguém se contentava mais em dar apenas um sorriso ou fazer apenas uma gentileza. E toda a população daquele planeta triste se embriagou de sorrisos, gentilezas, elogios, agradecimentos e de tudo que provocasse o sorriso e a felicidade alheia. 

Se embriagaram de bondades, cada um mais sorridente e gentil que o outro. E extrapolaram no melhor sentido possível, incluindo espontaneamente parentes, amigos, conhecidos e todos que lhes cruzassem o caminho.
Foi a maior festa que já havia acontecido na história daquela civilização.
A noite acabou e o dia seguinte nasceu diferente de todos os anteriores na história daqueles seres.
Aquela invenção havia gerado uma explosão de alegria e de empatia que  jamais acontecera e fez cada indivíduo dar um

sorriso que não daria e ser mais gentil do que, normalmente, seria.  E as consequências foram todas.

 A partir daquela noite, e em todos os dias que se seguiram, a vida naquele planeta nunca mais foi triste.

Feliz Ano Novo!

Esteja em que planeta você estiver.

- Edmir Saint-Clair




OUTRAS VIDAS

 

    Um menino de seis anos nascido em Piracuruca, no Piauí, começou a descrever com precisão a vida de um alemão rico que morrera cinquenta anos antes na cidade de Punta del Este, no Uruguai.

O psicólogo Túlio Linhares, da Universidade de Campinas, investigou o caso com rigor científico, viajando três vezes ao local. Confirmou cada detalhe relatado: a casa de três andares à beira da água, a família Schmieden, os negócios de couro, a mala marrom e a morte nos anos 1940. A história tornou-se referência internacional porque desafia as fronteiras conhecidas da memória e da consciência.

A criança e as memórias impossíveis

4.680 quilômetros separam João Benício, uma criança de Piracuruca, no interior do Piauí, da cidade de Punta del Este, no Uruguai. Uma enorme distância geográfica, cultural e histórica. Mesmo assim, o menino começa a descrever com precisão a vida de um homem alemão rico, morto meio século antes de ele nascer, naquela cidade à beira do Rio da Prata.

Ele fala de uma casa de três andares construída sobre a água, com um píer onde barcos atracam. Atrás, haveria uma igreja. Ao lado, a propriedade de uma mulher famosa: Evita Dolores, conhecida na América do Sul e marcada por escândalos judiciais.

O detalhe mais intrigante surge quando o menino menciona a família Schmieden — donos da casa, ligados ao comércio de artigos de couro. João diz que o patriarca carregava sempre uma mala de couro marrom e só passava os verões naquela residência.

O olhar cético da ciência

Nada fazia sentido para seus pais, trabalhadores simples e católicos dedicados, cuja crença não inclui nada parecido com reencarnação. Como uma criança do sertão poderia inventar tais detalhes sobre um lugar que jamais visitara?

Em 1997, o psicólogo Túlio Linhares, da Universidade de Campinas, decide investigar. Cético por natureza, viaja até Piracuruca e entrevista o menino. Com um gravador de mão, anota e grava cada informação: a casa à beira da água, a igreja atrás, a vizinhança de Evita Dolores, a família Schmieden, a mala marrom, a morte entre 1940 e 1941.

Ao retornar ao gabinete, Túlio enfrenta a escolha: arquivar o caso como fantasia infantil ou testar cientificamente as afirmações. Opta pela segunda via.

A primeira viagem: a casa existe

A primeira ida a Punta del Este o surpreende. A residência de Evita Dolores é localizada sem dificuldades. Ao lado dela, exatamente como descrito, surge uma casa de três andares, construída sobre a água, com um píer na frente e uma igreja atrás. Estava abandonada, mas correspondia ponto a ponto à narrativa de João Benício.

Um vizinho idoso confirma: sim, um alemão morou ali décadas atrás. Mas, não havia mais nenhuma informação sobre a família que ali residira. A pista inicial se transforma em um enigma maior.

A confirmação histórica

Em 1998, Túlio retorna ao Uruguai. Consulta historiadores locais, especialistas na memória dos bairros de Punta del Este. Um deles confirma: a casa pertencia a um alemão da família Schmieden, casado com uma italiana, com três filhos. O homem era lembrado por sempre carregar uma mala de couro marrom e só ocupar a residência durante os verões. A família tinha negócios de couro em Montevidéu. A morte, registrada por volta de 1940, coincide com o relato do menino.

O detalhe final reforça o mistério: João Benício dizia que o nome do homem significava “bom homem” em alemão. Pesquisando, Túlio descobre que a expressão existia e era usada de forma respeitosa em tempos passados.

A terceira viagem: eliminando dúvidas

Determinando-se a fechar o quebra-cabeça, Túlio viaja uma terceira vez. Investiga registros de comunidades italianas ortodoxas e encontra indícios de que os filhos da família realmente receberam nomes italianos.

O quadro se completa: casa, localização, vizinhança, família, ocupação sazonal, negócios, mala, idioma, nomes. O menino brasileiro havia descrito com precisão elementos que nem mesmo historiadores locais lembravam de imediato.

A repercussão internacional

Os resultados são publicados em periódicos científicos e apresentados em conferências. Ian Stevenson, referência mundial nos estudos sobre reencarnação, elogia o trabalho como “exemplar, detalhado e verificável”.

O caso repercute em debates acadêmicos pelo mundo. Para alguns, é a prova de que memórias extra conscientes existem. Para outros, apenas coincidências estatísticas. Túlio mantém a posição equilibrada: não afirma que João Benício seja a reencarnação de ninguém, mas mostra que há fenômenos que escapam à lógica tradicional.

O ceticismo e a impossibilidade das explicações

Com a fama vêm as críticas. Pesquisadores analisam se a família poderia ter tido acesso a livros ou relatos sobre Punta del Este. Outros buscam conexões ocultas com alemães no Brasil. Nenhuma hipótese encontra sustentação.

A distância de 4.680 km, o isolamento da família no agreste do Piauí e a ausência de interesse em publicidade tornam improvável a fraude ou a coincidência. Para muitos estudiosos, a solidez metodológica do trabalho de Túlio transforma o episódio em um dos casos mais impressionantes já documentados.

O fim das memórias

Como em relatos semelhantes, as lembranças de João Benício desaparecem com a adolescência. Hoje adulto, vive uma vida comum, sem falar do que um dia marcou sua infância.

Na ciência, porém, o caso permanece. Para uns, prova de que a consciência pode sobreviver à morte. Para outros, um mistério ainda sem explicação.

O que se mantém indiscutível é o impacto: um menino pobre do sertão brasileiro descreveu com precisão a vida de um alemão morto a milhares de quilômetros, décadas antes de seu nascimento. E um pesquisador obstinado, aplicando o método científico, confirmou cada detalhe.

Mas o que João Benício realmente reviveu? Uma memória guardada em algum ponto desconhecido da mente? Uma coincidência impossível? Ou a prova silenciosa de que a vida não termina onde acreditamos que acaba?

A resposta permanece em aberto, perdida entre ciência e mistério — como uma casa abandonada à beira da água, onde ainda ecoam lembranças.

Edmir Saint-Clair  

Disclaimer

Esta é uma obra de ficção literária. Embora inspirada em atmosferas, relatos e mistérios que circulam pelo imaginário humano, não se apoia em fatos documentados nem tem compromisso com a realidade histórica. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas, lugares ou acontecimentos, é mera coincidência — ou talvez apenas o eco de outras vidas.

O MEDO DA MUDANÇA




"A mudança é a única coisa permanente." Heráclito (500 A.C.)".

"...e a incerteza, a única certeza".  Zigmund Bauman - (2.500 anos depois).

O medo está nos rondando o tempo todo, nos fazendo engolir sapos maiores que a boca. Sem que tenhamos consciência de quais são seus gatilhos, aparece, de repente, tentando encaixar as nossas atitudes e, pior, as dos outros também, em modelos que nem sabemos se servem aos nossos anseios. Tudo para termos a sensação de segurança.

Quanto mais previsível, quanto menos mudanças na rotina, mais seguro o ser humano se imagina. A, estranhamente, chamada zona de conforto, de conforto não tem nada. O nome certo é zona de tédio, uma ilusão maléfica causada pelo medo que a simples ideia de mudar provoca. Mas, as mudanças ocorrem o tempo todo, percebamos ou não. Não dependem da nossa vontade.

O medo da mudança é uma força poderosa e vive escondido nas pequenas coisas e é, na maioria das vezes, o grande responsável pelos nossos maiores sofrimentos.

Ouvi de um amigo terapeuta algo que me ficou na cabeça e que os anos só reforçaram a verdade que traduz:

− "O ser humano se sente seguro vivendo uma rotina previsível, mesmo que isso signifique viver em péssimas situações, aparentemente insustentáveis, se vistas por alguém de fora mas, que ele já conhece e está acostumado. É péssimo, mas é um péssimo que ele conhece. Essa força é tão poderosa que a simples ideia de romper com a situação e partir para algo novo pode causar pânico em grande parte das pessoas. O ser humano prefere ficar no sofrimento conhecido a arriscar qualquer outra coisa que ele não conheça.”

Não raras vezes, nos deparamos com essa realidade em vários aspectos. Nas relações familiares, profissionais, amorosas, fraternas e quaisquer outras que se apresentem.

Admiro as pessoas que conseguem se desvencilhar rápido de situações incômodas. É claro que tudo tem sua peculiaridade e nada pode ser posto numa mesma sacola. Mas, existe uma linha, que pode facilmente perceptível e nem um pouco tênue, de onde, a partir dali, qualquer um tem certeza do dano que aquela situação está trazendo a um, ou a quantos mais estiverem envolvidos.

Seja em que âmbito for, chega um momento em que o desgaste é tão profundo e incomodo que a mudança é absolutamente inevitável e urgente. E, isso sempre gera insegurança, que é outro nome para o medo.

Nas relações amorosas isso é ainda mais nítido. Do início da descida até se esborrachar no fim, a gente vem se ralando todo, ladeira abaixo. E, não raras vezes, essa ladeira dura anos. Imagine quanta ralação, quantos machucados daqueles bem ardidos poderiam ser evitados.

É bem doloroso. O que esquecemos é que podemos, a qualquer momento, interromper essa descida ladeira abaixo e evitar sofrermos mais machucados. Saber interrompê-la antes que os traumas se aprofundem demais é o que decide como estaremos preparados para nossos próximos relacionamentos. Essa decisão é das mais sérias com as quais nos deparamos na vida: a hora de parar. 

Há um momento que temos que dar um fim a uma situação de sofrimento e não olhar mais para trás. Por uma questão de sobrevivência e sanidade.

Saber a hora de parar de sofrer é fundamental para não perder a crença em si mesmo. É necessário acreditar que podemos produzir nossa própria felicidade. E, antes, precisamos crer que somos capazes de nos proteger, de cuidar de nós mesmos, adequadamente. Porque, quantos mais machucados estivermos, mais tempo esses traumas levarão para cicatrizar. Isso significa que precisaremos de mais tempo para nos recompormos até estarmos prontos para uma nova relação. E a vida não espera. O tempo passa. E, dependendo da intensidade e quantidade dos eventos traumáticos, e dos recursos disponíveis para enfrentá-los (terapias e redes de apoio), essa recomposição pode ser bastante demorada.

É importante sermos sinceros ao nos respondermos às nossas próprias perguntas. Precisamos saber pelo menos o que pensamos, de verdade, sobre nossos próprios assuntos e sentimentos. Precisamos estipular nossos limites. A Tolerância é necessária, sem ela não se vive em sociedade, não se aprende e nem se evolui. Mas, a partir de um tênue limite, passa a ser submissão, conformismo e covardia.

Vivemos como se houvesse um modo certo e outro errado de realizarmos nossa vida. Como se houvesse um gabarito. Não há. Ninguém nasce com manual ou destino traçado. Tudo que fazemos é inédito. Algumas vezes, é imprevisível, simplesmente porque ninguém fez daquele jeito antes. Do seu jeito, original é único.

Mudar dá medo. Principalmente, quando a decisão de mudança envolve coisas básicas como mudar de casa, ficar sozinho, trocar um emprego medíocre, mas que paga as contas, por um projeto que, se der certo, vai te dar a vida que você deseja (isso não está ligado a dinheiro necessariamente!). Mas que, também, pode dar errado. 

E daí? Tudo pode dar errado, principalmente, o que está dando certo. Já que o que está dando errado, se mudar, só pode mudar para dar certo. 

Se der errado é porque não mudou. Então, vai ter que mudar de novo. Até dar certo. E, pode ter certeza, uma das coisas que mais ajudam a persistir até que dê certo, é o bom humor. Sem ele a vida não tem graça. É preciso brincar de ser feliz, pelo menos...

Ou seja, veja-se por que ângulo for, é preciso estar aberto à mudança sempre. Inclusive, para que o que já está dando certo, continue dando.

Edmir Saint-Clair

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