ORIENTADOR LITERÁRIO

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A LEVEZA DA IGNORÂNCIA OU A CONSCIÊNCIA DE EXISTIR?

A ideia deste texto nasceu em mim a partir de uma questão que vem surgindo nas redes: será que quem é mais ignorante vive de uma forma mais feliz, mais leve, menos atormentada? Ou será que aquele que escolhe uma vida mais intelectual, buscando conhecimento, mergulhando nas grandes questões da humanidade, filosóficas, científicas e existenciais, termina encontrando uma forma mais profunda de realizar a própria essência?

 Talvez, por trás dessa discussão, exista uma pergunta ainda maior: que tipo de consciência nasce quando alguém passa a questionar a própria vida?

 Acredito que parte dessas características pessoais tenha raízes profundas, talvez biológicas, talvez inscritas em predisposições que já trazemos desde muito cedo. Pelo que pude ler em pesquisas e textos de estudiosos do assunto, penso que já trazemos muitos desses traços desde nossa formação embrionária. É óbvio que o meio familiar e social influencia de maneira determinante no desenvolvimento dessas características. Mas, para mim, uma delas parece predominar sobre o curso que a personalidade pode tomar: a curiosidade.

 De um lado, existe a aparente leveza da ignorância. Quem não tem a curiosidade como característica inata não questiona muito o mundo ao seu redor e talvez sofra menos com certas inquietações. Não se angustia tanto com o absurdo da vida, não se perde nos labirintos da consciência, não sente o peso de perceber as contradições humanas. Há aí uma espécie de ingenuidade preservada, quase uma beleza infantil, um romantismo diante do mundo. Como se a vida tivesse de ser aceita e fim de conversa: sem atritos, sem rachaduras no espelho.

 Mas essa leveza também tem seu preço. A pessoa que não desenvolve a crítica, que não aprende a questionar aquilo que ouve, vê e recebe, corre o risco de se tornar parte da manada, sem nem saber que não tem ideias próprias. Segue ideias prontas, repete verdades emprestadas, obedece sem perceber que está obedecendo. A ignorância, nesse sentido, pode parecer confortável, mas também pode ser uma forma silenciosa de prisão.

 Do outro lado está aquele que busca conhecer. E conhecer é trocar a ilusão e as crenças pela verdade, pela realidade que se impõe. Quem se aprofunda nas perguntas fundamentais da existência perde um pouco daquele encanto simples. A lucidez cobra pedágio. Mostra a beleza, mas também mostra a crueldade. Mostra o cosmos, mas também mostra o abismo. Mostra a grandeza humana, mas também revela nossa barbárie.

 É aí que entram algumas figuras importantes desse debate. Rousseau aparece com a ideia do “bom selvagem”, sugerindo que há algo de puro no ser humano antes de ser moldado, deformado ou corrompido pela sociedade. Sócrates entra como o símbolo do questionamento, aquele que transforma a dúvida em método de vida. Seu “só sei que nada sei” não é uma desistência do saber, mas uma porta aberta para a investigação permanente.

 Nietzsche também poderia aparecer nesse salão de ideias, não como alguém que oferece conforto, mas como quem arranca os tapetes da segurança moral e obriga o ser humano a olhar para o abismo. Já Albert Camus traz a noção do absurdo: a vida talvez não venha com um sentido pronto, e ainda assim precisamos vivê-la, enfrentá-la, talvez até amá-la dentro de sua falta de explicação definitiva.

 Senti uma identificação profunda com Camus e com sua visão do absurdo e da ausência de um sentido prévio para a vida. Quando sua obra me deixou clara essa inexistência de um sentido anterior, ao mesmo tempo, acendeu um holofote em minha mente: aí está o sentido! O sentido de uma vida que não vem com sentido pronto talvez seja justamente este: dar sentido a ela. Um sentido pessoal, original e único. É maravilhar-se tentando entendê-la. É dar vazão à nossa curiosidade primária.

 Em algumas pessoas, essa curiosidade não aparece como simples interesse, mas como uma força interna difícil de silenciar. As perguntas não batem à porta: elas invadem a casa. Isso pode gerar sofrimento, deslocamento e inadequação, mas também pode abrir caminhos raros de criação, compreensão e profundidade.

 Carl Sagan e Marcelo Gleiser entram como vozes desse deslumbramento científico. Eles ajudam a lembrar que conhecer não é apenas sofrer. Conhecer também é se maravilhar. A ciência pode revelar nossa pequenez cósmica, mas essa pequenez não diminui o ser humano; ao contrário, pode torná-lo mais precioso. Somos matéria do universo tentando entender o próprio universo. Há algo de profundamente poético nisso. Conhecer é descobrir que fazemos parte de um show cósmico muito maior do que imaginamos.

 Mas então surge a pergunta central: onde está a consciência no meio de tudo isso?

 A consciência parece ser o grande mistério que costura todas essas pontas. Roger Penrose pode ser chamado para essa conversa justamente por tratar a consciência como um problema ainda não resolvido pelas explicações tradicionais. As teorias tentam descrevê-la, medi-la e localizá-la, mas há sempre algo que escapa. Como provar plenamente a consciência se é a própria consciência que tenta provar a si mesma?

 É o círculo sem fim da consciência se vendo. Ela é, ao mesmo tempo, o maestro, os músicos e a música. É quem rege, quem executa e aquilo que é executado. É o palco, a plateia e o espetáculo. Uma espécie de santíssima trindade não metafísica: não como dogma religioso, mas como imagem concreta de uma experiência humana. A consciência observa, participa e cria a própria observação.

  Nesse grande show cósmico, talvez estejamos mais ligados ao todo do que conseguimos imaginar. A ignorância pode oferecer uma leveza aparente, mas essa leveza talvez venha do não enfrentamento. O conhecimento pode trazer dor, mas também traz expansão. Ele tira a ingenuidade, mas pode devolver algo maior: a possibilidade de viver com mais presença, mais responsabilidade, mais profundidade e mais intensidade.

 O ensaio que nasce dessa conversa não quer ser arrogante, nem professoral. Ele não quer colocar o intelectual acima do simples, nem transformar a ignorância em caricatura. Todos os seres humanos são importantes e igualmente necessários, cada qual com sua função fundamental e insubstituível para a sobrevivência da humanidade.

 A proposta é investigar sem preconceitos ou hierarquias, com a delicadeza e o cuidado que a questão solicita. É perguntar até que ponto a felicidade da ignorância é realmente felicidade ou apenas anestesia. E perguntar também se o sofrimento do conhecimento é apenas dor ou se pode ser uma forma mais intensa de beleza.

 No fundo, talvez a questão não seja escolher entre a leveza e a profundidade. Talvez seja entender que a vida humana se dá justamente nessa dança: entre a inocência que nos protege e a lucidez que nos revela; entre o conforto de não saber e o espanto de descobrir; entre a manada e a consciência; entre o absurdo e o deslumbramento.

 E talvez, quando a consciência perceber tudo isso, ela descubra que nunca esteve fora do espetáculo.  Na verdade, ela sempre foi, não só tudo, como também, o todo:  a música, os músicos, os instrumentos, o maestro, a dança, o salão e a festa inteira.

Edmir Saint-Clair

O QUE É A CONSCIÊNCIA?

 

“Para ver a ilha, temos que sair da ilha.” José Saramago

Se tivesse que escolher uma palavra para definir a existência humana, eu não hesitaria nem um segundo: consciência.

O sentido interior da percepção: visões, sons, pensamentos, sentimentos. A presença íntima da autoconsciência, esse estar ciente de si sendo você mesmo. Esse é o “problema difícil” da consciência. A senciência interna, nosso filme interior, a fronteira final da exploração humana.

Sou fascinado por todas as diversas maneiras pelas quais a consciência pode ser examinada. Sei que ela tem importância vital e essencial em nossa condição humana. O que não sei é: o que é a consciência?

Como explorá-la?

Geralmente, filósofos falam com filósofos, neurocientistas com neurocientistas. Muitas ideias interessantes, mas nenhum avanço definitivo. A consciência não é divisível, não funciona de forma compartimentalizada e estanque. A natureza não sabe que o ser humano a fraciona para tentar entendê-la. Nela, não existe física, química, filosofia, matemática, biologia e todas as disciplinas que o ser humano inventou para tentar compreendê-la. É tudo vida, é tudo natureza, é tudo uma coisa só interagindo consigo mesma. É tudo dentro. Não existe fora.

Podemos ampliar o discurso e olhar para a consciência, incluindo o problema difícil da experiência interior, através de diferentes filtros conceituais? Romper fronteiras, emancipar nosso pensamento?

Mas como começar do zero, com o mínimo de viés? Segundo Daniel Kahneman, a mente humana está longe de ser uma observadora neutra de si mesma e do mundo. Julgamos por atalhos, confundimos coerência com verdade e frequentemente superestimamos a solidez daquilo que pensamos saber. Isso torna ainda mais difícil qualquer tentativa de partir do zero.

Definir o que é a consciência é o primeiro passo óbvio. Mas a verdade é que ainda não conseguimos passar desse ponto. Ainda sequer conseguimos dar esse primeiro passo.

Sempre fui obcecado pela consciência a vida inteira. Quem é esse outro que vive acima de mim, sem deixar de ser eu mesmo? Quem é esse que me julga? Se sou eu mesmo, por que não me impeço de fazer merdas?

Leibniz disse que, se pudéssemos expandir o cérebro até o tamanho de um salão e caminhar dentro dele, ainda assim não encontraríamos a consciência. E a ciência não conseguiu encontrá-la até agora. Vasculha o cérebro há séculos, mas não encontra onde a consciência é produzida dentro dele.

A perspectiva de Wittgenstein

Acho que o filósofo que mais buscou compreender isso foi Ludwig Wittgenstein. O ponto central de seu argumento era o chamado “argumento da linguagem privada”. Resumindo seu pensamento, a linguagem é uma ferramenta extremamente precária, e nunca se pode afirmar que as pessoas compreendem o significado das palavras da mesma forma que você. A imprecisão das palavras é um problema insolúvel até agora.

Então, como saber que outras pessoas têm consciência da mesma forma que você?

Para Wittgenstein, a consciência não é uma “coisa gasosa interna” à qual você tem acesso privilegiado, mas que é problemática para todos os outros. Ela é tão problemática para você próprio quanto para os outros.

Só podemos observar e tentar entender melhor o que é a consciência através da própria consciência, e cada um só pode estudar a sua. Esse é o problema mais difícil. O grande escritor e, a meu ver, filósofo, José Saramago tem uma excelente e perspicaz percepção desse problema ao enunciar: “Para ver a ilha, temos que sair da ilha.” 

A resposta que mudará o rumo da humanidade e  nos dará um novo caminho para tentarmos sair desse beco sem saída no qual nos encontramos, é a que nos oferecer uma maneira confiável de investigar de forma isenta e objetiva, esse  fenômeno tão subjetivo. 

O problema é grande, difícil e até agora, não temos nem ideia se, realmente, haverá uma solução.

Sou um otimista. Acredito que o mesmo progresso tecnológico que nos permite hoje observar um cérebro funcionando em tempo real, fato impensável nos tempos de Freud, nos levará, um dia, a um conhecimento cada vez mais próximo da realidade do que acontece em nossos cérebros. E então surgirão respostas que nos levarão a novas perguntas, que nos levarão a novas respostas e a novas perguntas. E assim seguirá caminhando a humanidade.

 Edmir Saint-Clair

 

TRANSCENDER

 

Envolver, envolver-se e ser envolvido,

Misturar-se, fazer parte, somar-se, dividir-se.

Nada mais abstrato que romper os limites do ser.

Impossível, diz a ciência,

mas não a sapiência, que nem tudo pode resolver.

Mas nos resolvemos no nosso desejo de pertencer,

um dos mais abstratos mistérios do ser.

A transcendência leve, etérea, intocável,

além do mundano banal,

tem que ser consciente para tornar-se mistério.

Por isso, me envolvo, envolvo e sou envolvido,

e me diluo no todo.

Ainda não, mas irei,

me fundindo à maior das ciências,

sendo tudo e nada ao mesmo tempo,

sendo sempre e nunca, eternamente.

Edmir Saint-Clair


A ANSIEDADE NOSSA DE CADA DIA

 

Trabalhei durante décadas entre Rio e São Paulo e pude observar com clareza como as duas cidades lidam de maneiras distintas com a opressão econômica e com a competitividade insana dos mercados, que acabam por produzir uma pressão psicológica cujas consequências, via de regra, comprometem a saúde mental.

Cidades tão próximas e tão distantes.

Rio e São Paulo são duas metrópoles marcadas por diferenças estruturais e culturais profundas. Cada uma desenvolveu sua própria maneira de sobreviver não apenas ao crime organizado e ao mal-estar contemporâneo, mas também àquele que talvez seja o grande fantasma da saúde mental em nosso século: a ansiedade doentia e sufocante para a qual a velocidade da vida tecnológica nos empurra, sem pausa, todos os dias.

No Rio, a violência e a insegurança se mostram de forma mais escancarada, mais evidente, mais física. Estão nos roubos em plena luz do dia, no estampido dos tiros, nos arrastões imprevisíveis. Em São Paulo, a violência assume outra forma, camuflada de oportunidade de progresso financeiro. Confunde-se com a busca insana por produtividade, com a disciplina submissa, com os assédios morais cotidianos e com a necessidade de sustentar uma performance instagramável e inatingível.

Numa, a vida parece sitiada pelo entorno; noutra, pela exigência de corresponder ao inalcançável.

Mas o Rio tem as praias, esse oásis quase espiritual onde o carioca ainda pode se refazer da brutalidade dos acontecimentos. O mar, a luz, o horizonte aberto, a maresia: tudo ali oferece uma forma de redenção, mesmo que parcial e eventual. Como se aquela paisagem impedisse a alma do carioca de desistir por completo.

São Paulo não concede essa trégua com a mesma generosidade. Seu sofrimento é mais funcional, mais discreto, mais adaptado à rotina dos negócios. Mais contido. Não interrompe: corrói. Não explode: infiltra-se. Espalha-se pelos cantos, pelos poros, pelas pessoas, pelos lugares.

No fim, as duas cidades apenas aprenderam a lidar, de modos distintos, com as doenças, as mazelas e a impessoalidade do mundo contemporâneo que esvazia a vida de sentido.

No Rio, esse mal fere mais à vista, toma de assalto, rouba qualquer migalha de tranquilidade que ainda resista à rotina agressora. Em São Paulo, ele se infiltra como um vírus invisível que contamina o concreto e os homens, transformando-os em peças substituíveis, banais, quase destituídas de vontade própria.

Edmir Saint-Clair

FORA DO COMPASSO - SUPERDOTAÇÃO

 

 "E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos 

por aqueles que não podiam escutar a música."  

Nietzsche

Há quem passe a vida inteira para descobrir que não era errado, era diferente.

Desde cedo, essas pessoas aprendem a desconfiar de si. Não porque tenham cometido grandes erros, mas porque seu modo de estar no mundo é diferente da maioria. Sentem demais, pensam demais, perguntam demais e percebem o que os outros sequer notaram.

Tudo o que excede a medida comum costuma ser tratado, primeiro, como incômodo; depois, como defeito. E, nisso, a  mediocridade é implacável.

Na infância estão entregues a pais, escolas e a uma sociedade despreparada para lidar com neurodivergências. O que é profundidade vira complicação. O que é intensidade vira exagero. O que é lucidez vira inquietação. O que é sensibilidade vira fraqueza. E assim se inicia, pouco a pouco, dia a dia, a pedagogia do estreitamento. A pessoa aprende a reduzir o gesto, a conter frases, a domesticar o espanto. Aprende a não ir tão fundo, porque profundidade demais afasta. Aprende a não mostrar tanto, porque visibilidade demais incomoda. Aprende, enfim, a tornar-se suportável.
O nome dessa mutilação é adaptação.

Com o tempo, instala-se um mal-entendido mais grave do que todos os outros. Já não são apenas os demais que interpretam mal aquela natureza; a própria pessoa passa a fazê-lo. E não há forma de solidão mais insidiosa do que essa: viver dentro de si como quem ocupa uma casa estranha.

A pessoa segue. Estuda, trabalha, ama como pode, fracassa um pouco, acerta um pouco, cumpre as cerimônias das idades. Por fora, nada necessariamente a distingue de modo espetacular. Mas por dentro permanece uma sensação difícil de explicar: a de que há sempre alguma dissonância entre o que se é e o modo como a vida exige que se seja. Não chega a ser tristeza. É, antes, uma sensação de desencontro contínuo.

Quando a hipótese de superdotação surge tarde, ela não vem como triunfo. Vem como revisão. Não há fanfarra na descoberta de uma chave que chega depois de tantas portas já fechadas. O que aparece, primeiro, não é orgulho, mas espanto. De repente, coisas antigas mudam de lugar. Certas feridas perdem o nome com que foram carregadas durante anos. Certas culpas se revelam mal atribuídas. Certos sofrimentos deixam de parecer fraqueza pessoal e passam a pertencer a outro campo: o da incompreensão, o do desajuste entre uma vida interior mais aguda e um ambiente incapaz de reconhecê-la.

É como se uma pessoa falasse um idioma que menos de 1 por cento de toda a humanidade consegue entender e falar fluentemente. Além disso, parece que esses menos de 1 por cento foram espalhados aleatoriamente pelo imenso mundo inteiro, tornando extremamente difícil encontrar um semelhante.

Não se trata de vaidade retrospectiva. Ao contrário: a descoberta tardia quase sempre nos torna apenas mais conscientes, no sentido mais nobre da palavra. Ela nos põe diante do quanto se viveu sob um diagnóstico vulgar da própria alma. O sujeito não se sente engrandecido; sente-se, muitas vezes, roubado. Não de glória. Não de excepcionalidade, mas de compreensão e de acolhimento. Dói ser diferente.

Porque há destinos que não se deformam por falta de talento, e sim por falta de leitura. A pessoa atravessa décadas sendo elogiada por capacidades parciais e, ao mesmo tempo, sendo mal compreendida naquilo que mais a constitui. Chamam-na inteligente, mas não alcançam sua fome de sentido. Chamam-na sensível, mas sem tocar a extensão de sua vida afetiva. Chamam-na exigente, quando talvez estivesse apenas tentando respirar num mundo excessivamente raso para ela. O elogio, nesses casos, não compensa o equívoco. Apenas o enfeita.

Talvez a pior consequência de nunca ter sido percebido como tal pela família, pelos amigos, pelos pares, não seja a ausência de reconhecimento externo. Seja a lenta construção de uma autobiografia injusta. A pessoa começa a contar a si mesma a versão empobrecida de sua própria história. Convence-se de que exagerou onde apenas sentiu com inteireza. De que complicou onde apenas viu demais. De que falhou em adaptar-se onde, na verdade, preservou alguma fidelidade silenciosa à própria essência.

Durante muito tempo, vive-se sob o império dessas falsas versões. E falsas versões da vida cobram caro.

Cobram em escolhas aquém de si, em vínculos onde nunca houve real encontro, em profissões que serviram à sobrevivência, mas não à própria essência. Cobram em fadiga moral, nessa exaustão de ter de simplificar-se para ser amado. Cobram em autocensura, essa disciplina triste de amputar o que não encontra acolhida. Cobram numa forma de culpa sem crime: a culpa de existir em frequência diversa, diferente. A culpa de ter nascido como é.

Quando esse nome chega tarde, ele traz alívio, sem dúvida. Há uma paz possível em finalmente compreender que nem tudo era desordem, nem tudo era excesso, nem tudo era falha de caráter. Há uma delicadeza nova em olhar para trás e reconhecer que talvez se tenha sido apenas mal lido. Mas o alívio não vem só. Traz consigo uma sombra inevitável: a consciência do tempo. Tempo gasto em corrigir a própria natureza para caber no conforto alheio.

Toda verdade tardia tem alguma coisa de redenção. Não porque anuncie o fim, mas porque nos obriga a rever o que ficou para trás sob outra luz. E essa luz, embora libertadora, não é indulgente. Ela mostra não apenas o que fomos, mas o que deixamos de ser para continuarmos pertencendo. Mostra a quantidade de energia investida em parecer simples, leve, administrável. Revela o preço de ter vivido por décadas uma tradução precária de si mesmo.

Há tristezas que nascem do sofrimento. Outras, mais finas, nascem da clareza. Da consciência.

Talvez por isso a descoberta tardia tenha essa dupla natureza: consola e fere. Consola, porque recolhe a dispersão numa forma finalmente inteligível. Fere, porque não restitui o que foi perdido sob o signo do engano. O passado não se deixa reescrever; no máximo, consente em ser relido. E há releituras que doem mais do que o próprio acontecimento, porque chegam quando já não se pode corrigir quase nada.

Ainda assim, alguma reparação existe. Não a reparação ingênua, que fantasia renascimentos completos. Mas outra, mais sóbria e mais alta: a interrupção da injustiça. Depois de certo ponto, a pessoa pode ao menos parar de acusar-se por ser o que é. Pode cessar a tentativa de reduzir-se para tranquilizar o mundo. Pode abandonar a antiga vergonha de sua intensidade, de sua complexidade, de sua maneira menos dócil de existir.

Isso não devolve a infância. Não refaz a família. Não corrige os anos gastos em equívocos. Mas devolve uma dignidade essencial: a de se saber quem é profundamente. E a dignidade insubstituível do autorreconhecimento.

Talvez seja isso o que mais importa quando encontramos uma gaveta na qual cabemos como uma luva. Afinal, ela existe e não se está mais sozinho dentro dela. Há outras pessoas, mesmo que poucas, há outros...
E então sobrevém uma forma rara de paz: não a paz dos inocentes, mas a dos que finalmente se compreendem.

No fim, talvez nunca tenha havido excesso. Houve apenas uma vida interior mais vasta do que as molduras oferecidas. E viver em molduras estreitas cria a ilusão de que a deformidade está no que transborda, nunca no limite do recipiente.

Descobrir-se tarde é olhar para trás e perceber que talvez nunca tenha faltado equilíbrio. Faltou um ambiente capaz de reconhecer que certas pessoas não funcionam em baixa voltagem. Não porque sejam melhores, mas porque nasceram diferentes. Mais porosas ao detalhe. Mais famintas de coerência. Mais vulneráveis ao tédio. Mais exigentes de sentido. Para quem passou uma vida inteira sendo lido no idioma errado, ser finalmente compreendido já tem o status de redenção. E, então, viver não dói mais.

É libertador saber que a nossa neurodivergência tem um nome, é redentor saber que os seres humanos que mais contribuíram para o progresso e qualidade de vida de toda a humanidade são da mesma tribo. Porque os portadores de superdotação geralmente não colhem fruto algum de suas altas habilidades mas, via de regra, deixam magníficas contribuições em todos os campos do conhecimento, para que todos os outros seres, humanos ou não, tenham uma vida melhor.

Edmir Saint-Clair

QUANTO MAIS VIDA MELHOR

 

        Há amizades que atravessam décadas como certas casas antigas: permanecem de pé, mas não sem reformas. Quem espera encontrar nelas exatamente a mesma mobília, os mesmos ruídos, a mesma desordem juvenil, talvez não esteja buscando amizade, mas taxidermia emocional. Porque o afeto verdadeiro não congela; ele amadurece ou, pelo menos, deveria. E, se amadurece, muda de tom, de ritmo, de necessidade.

Existe uma tentação sentimental em acreditar que os velhos amigos nos autorizam a voltar a ser quem fomos um dia no passado. Como se a intimidade fosse um salvo-conduto para a repetição, para a falta de polidez que o tempo nos ensina que não devemos ter com nossas relações mais caras. Mas não basta reunir meia dúzia de memórias, dois apelidos gastos e algumas histórias indecentes para ressuscitar a juventude. Nem sempre o que retorna vem carregado de vida. Às vezes, vem apenas como um assustado espasmo de quem implora para não olhar o espelho.

Há um ponto em que tentar repetir gestos de outros tempos deixa de ser espontaneidade e passa a ser negação. Não da alegria, que é sempre bem-vinda, mas do próprio curso da vida. Certos comportamentos, quando deslocados de seu tempo, não recuperam frescor: revelam esforço inútil. E esforço demais para parecer jovem produz melancolia disfarçada de euforia. O ridículo, nesse caso, não está em rir alto, exagerar um pouco ou cometer uma imprudência inocente. Está em imaginar que só há vitalidade onde ainda houver traços de uma juventude que não existe mais.

Amizades não são belas porque nos devolvem ao que fomos. São belas porque acompanham o que nos tornamos.

Porque suportam o peso das perdas, a mudança do corpo, o estreitamento de certas paciências, a ampliação dos silêncios. Já não se precisa do excesso para provar intensidade. Há vínculos que, quando amadurecem, trocam a estridência pelo acolhimento. E isso não é empobrecimento. É depuração.


Talvez uma das formas mais escondidas de vazio seja essa recusa visceral de envelhecer que se traveste de irreverência. A pessoa se agarra aos trejeitos, aos impulsos, ao vocabulário, ao repertório de um outro tempo como quem tenta detê-lo. Não percebe que o que comove na juventude não é o gesto, mas a sua coincidência com aquele momento da vida. Fora dali, o mesmo gesto pode soar não como liberdade, mas como desencontro patético.


Há uma elegância rara em aceitar que o tempo não nos diminui quando o acompanhamos de mãos dadas. Ao contrário: ele nos acrescenta espessura. Cada idade tem suas delicadezas, sua voltagem própria, seu modo particular de desejar, de rir, de se comover e de permanecer. O encanto não está em fraudar a passagem dos anos, mas em descobrir o que cada etapa nos oferece em troca daquilo que nos retira. Há perdas, sem dúvida. Algumas amizades passam, outras ficam. Como tudo na vida.

As que ficam são aquelas que não exigem de ninguém a encenação de uma versão antiga de nós mesmos. Porque todas as idades tem vida para ser vivida.E quanto mais vida, melhor.

Edmir Saint--Clair

RELAÇÕES MÁGICAS

 

Relações verdadeiras e profundas fazem mágicas reais. Acontecem entre pessoas sensíveis que entram numa sintonia única e extraordinária, que desperta no âmago de suas almas, o melhor de cada uma delas, fazendo com que se apaixonem uma pela outra e ambas por si mesmas. Quanto mais se fazem bem, mas bem fazem cada um a si mesmo, aos outros e ao mundo...

São raras, mas existem. 

Edmir Saint-Clair

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O MEDO DA MUDANÇA




"A mudança é a única coisa permanente." Heráclito (500 A.C.)".

"...e a incerteza, a única certeza".  Zigmund Bauman - (2.500 anos depois).


O medo está nos rondando o tempo todo, nos fazendo engolir sapos maiores que a boca. Sem que tenhamos consciência de quais são seus gatilhos, aparece, de repente, tentando encaixar as nossas atitudes e, pior, as dos outros também, em modelos que nem sabemos se servem aos nossos anseios. Tudo para termos a sensação de segurança.

Quanto mais previsível, quanto menos mudanças na rotina, mais seguro o ser humano se imagina. A, estranhamente, chamada zona de conforto, de conforto não tem nada. O nome certo é zona de tédio, uma ilusão maléfica causada pelo medo que a simples ideia de mudar provoca. Mas, as mudanças ocorrem o tempo todo, percebamos ou não. Não dependem da nossa vontade.

O medo da mudança é uma força poderosa e vive escondido nas pequenas coisas e é, na maioria das vezes, o grande responsável pelos nossos maiores sofrimentos.

Ouvi de um amigo terapeuta algo que me ficou na cabeça e que os anos só reforçaram a verdade que traduz:

− "O ser humano se sente seguro vivendo uma rotina previsível, mesmo que isso signifique viver em péssimas situações, aparentemente insustentáveis, se vistas por alguém de fora mas, que ele já conhece e está acostumado. É péssimo, mas é um péssimo que ele conhece. Essa força é tão poderosa que a simples ideia de romper com a situação e partir para algo novo pode causar pânico em grande parte das pessoas. O ser humano prefere ficar no sofrimento conhecido a arriscar qualquer outra coisa que ele não conheça.”

Não raras vezes, nos deparamos com essa realidade em vários aspectos. Nas relações familiares, profissionais, amorosas, fraternas e quaisquer outras que se apresentem.

Admiro as pessoas que conseguem se desvencilhar rápido de situações incômodas. É claro que tudo tem sua peculiaridade e nada pode ser posto numa mesma sacola. Mas, existe uma linha, que pode facilmente perceptível e nem um pouco tênue, de onde, a partir dali, qualquer um tem certeza do dano que aquela situação está trazendo a um, ou a quantos mais estiverem envolvidos.

Seja em que âmbito for, chega um momento em que o desgaste é tão profundo e incomodo que a mudança é absolutamente inevitável e urgente. E, isso sempre gera insegurança, que é outro nome para o medo.

Nas relações amorosas isso é ainda mais nítido. Do início da descida até se esborrachar no fim, a gente vem se ralando todo, ladeira abaixo. E, não raras vezes, essa ladeira dura anos. Imagine quanta ralação, quantos machucados daqueles bem ardidos poderiam ser evitados.

É bem doloroso. O que esquecemos é que podemos, a qualquer momento, interromper essa descida ladeira abaixo e evitar sofrermos mais machucados. Saber interrompê-la antes que os traumas se aprofundem demais é o que decide como estaremos preparados para nossos próximos relacionamentos. Essa decisão é das mais sérias com as quais nos deparamos na vida: a hora de parar. 

Há um momento que temos que dar um fim a uma situação de sofrimento e não olhar mais para trás. Por uma questão de sobrevivência e sanidade.

Saber a hora de parar de sofrer é fundamental para não perder a crença em si mesmo. É necessário acreditar que podemos produzir nossa própria felicidade. E, antes, precisamos crer que somos capazes de nos proteger, de cuidar de nós mesmos, adequadamente. Porque, quantos mais machucados estivermos, mais tempo esses traumas levarão para cicatrizar. Isso significa que precisaremos de mais tempo para nos recompormos até estarmos prontos para uma nova relação. E a vida não espera. O tempo passa. E, dependendo da intensidade e quantidade dos eventos traumáticos, e dos recursos disponíveis para enfrentá-los (terapias e redes de apoio), essa recomposição pode ser bastante demorada.

É importante sermos sinceros ao nos respondermos às nossas próprias perguntas. Precisamos saber pelo menos o que pensamos, de verdade, sobre nossos próprios assuntos e sentimentos. Precisamos estipular nossos limites. A Tolerância é necessária, sem ela não se vive em sociedade, não se aprende e nem se evolui. Mas, a partir de um tênue limite, passa a ser submissão, conformismo e covardia.

Vivemos como se houvesse um modo certo e outro errado de realizarmos nossa vida. Como se houvesse um gabarito. Não há. Ninguém nasce com manual ou destino traçado. Tudo que fazemos é inédito. Algumas vezes, é imprevisível, simplesmente porque ninguém fez daquele jeito antes. Do seu jeito, original é único.

Mudar dá medo. Principalmente, quando a decisão de mudança envolve coisas básicas como mudar de casa, ficar sozinho, trocar um emprego medíocre, mas que paga as contas, por um projeto que, se der certo, vai te dar a vida que você deseja (isso não está ligado a dinheiro necessariamente!). Mas que, também, pode dar errado. 

E daí? Tudo pode dar errado, principalmente, o que está dando certo. Já que o que está dando errado, se mudar, só pode mudar para dar certo. 

Se der errado é porque não mudou. Então, vai ter que mudar de novo. Até dar certo. E, pode ter certeza, uma das coisas que mais ajudam a persistir até que dê certo, é o bom humor. Sem ele a vida não tem graça. É preciso brincar de ser feliz, pelo menos...

Ou seja, veja-se por que ângulo for, é preciso estar aberto à mudança sempre. Inclusive, para que o que já está dando certo, continue dando.

Edmir Saint-Clair

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DENTRO DE MIM

Dentro de mim tem meu quarto

Nele minha casa,

Na minha casa tem a minha rua,

Nela muitas avenidas,

Nas avenidas está meu bairro,

Dentro dele minhas cidades

Nessas cidades existem muitos países,

Dentro de cada um mundos inteiros.

E neles, todo o universo.

Dentro de mim.

- Edmir Saint-Clair


O REENCONTRO


 "E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos 
por aqueles que não podiam escutar a música."  Nietzsche

        Sexta-feira, saída do metrô, estação Jardim Oceânico, 7h da noite, chove. Ele se maldiz pela escolha de ter deixado o carro estacionado e ter pegado o metrô para ir ao centro. Sua reunião não durou nem uma hora e o custo do estacionamento não compensou a trabalheira das baldeações. Para completar, esqueceu o guarda-chuva no vagão do trem. Estava aguardando não sabe o que, para iniciar a corrida de uns 200 metros até o local onde seu carro está estacionado, quando um senhor grisalho, de uns 70 anos, segura seu braço embaraçosamente e lhe fala com uma dicção perfeita e expressando-se de forma absolutamente clara e pausada:

  Daqui a exatamente duas semanas, numa mesma sexta-feira, viaje de carro para Nova Friburgo e vá até Murí, ao local da entrada da estrada de terra que leva até o lugar onde você foi mais feliz na sua vida. Você sabe onde fica. Não falte, não haverá outra chance. Esteja lá no horário que você sabe qual será.

 O Senhor acabou de falar e desceu para a estação do metrô, passando pela roleta e desaparecendo entre a multidão no horário de maior movimento.

    Flávio demorou alguns segundos tentando entender o que fora aquilo. Olhou para fora e percebeu que a chuva dera uma arrefecida e resolveu correr para seu carro.

Entrou, ajeitou-se no banco, ligou o carro e só então começou a perceber o quanto aquele estranho evento o tinha afetado. Sentiu-se muito estranho. Não havia dúvidas sobre nada do que ocorreu naquele encontro surreal. Para organizar os pensamentos, refaz passo a passo os momentos, desde que desceu do vagão do trem e chegou à marquise na saída da estação. Lembrou-se que aquele Senhor não estava dentro da estação quando o abordou, estava vindo de fora no sentido de quem vai entrar no local.

Fato número dois; ele jamais havia visto aquele homem na vida. O homem também não falou o nome dele.

Teria aquele Senhor o confundido com alguém?

O problema é o que aquele estranho falou.

O trajeto até em casa, foi feito pela solitária e deserta praia da reserva biológica, entre a Barra da Tijuca e o Recreio dos Bandeirantes.

Quanto mais pensava no que aquele velho havia falado, mais fazia sentido. Pensou que aquele evento, um tanto sombrio, logo sairia de sua cabeça e o assunto estaria encerrado.

Nos dias seguintes, aquele encontro não saiu de seus pensamentos e a cada dia ele ia se lembrando de mais um evento específico que remontava aqueles lugares em volta de Friburgo. Até que se lembrou que o velho havia falado especificamente a palavra Murí...

Gelou, por que não havia feito logo a ligação?

A palavra Murí dava significado a tudo que aquele senhor havia falado. É impressionante até onde uma memória emocional profunda é capaz de nos remeter...

         Negou-se o quanto conseguiu a fechar aqueles elos que se encaixavam perfeitamente. Mas, não havia a menor chance de alguém, além dele próprio saber sobre aquele passado. Não que fosse segredo, era apenas algo muito pessoal e íntimo perdido no tempo e que ele nunca revelara a ninguém.

Aos 67 anos, não se tem dúvidas de quando se foi feliz.

 Ele não tinha, haviam sido muitas as ocasiões, temporadas longas, outras mais curtas, mas a felicidade sempre dava o ar e o enchia com suas graças.

Mas, há algum tempo havia perdido a paixão pela paixão. Preferia o amor pelo amor e, nessa mudança, optara por não aceitar prêmios de consolação e, também, não se prestar a sê-lo.  Por isso, sentia-se muito bem vivendo sozinho.

Os dias seguintes foram de lembranças, todas cada vez mais convergentes e direcionadas pelo que o estranho velho anunciou.

Laura voltava, diariamente, aos seus pensamentos, a partir do momento em que ele aventou a possibilidade de cumprir a estranha missão. Encontrá-la exatamente naquele lugar era algo absolutamente improvável.

Mas, o que ele deveria encontrar naquele lugar?

Já o identificou como a entrada da estrada de terra que leva ao local onde ele e Laura tiveram uma casa de campo, por alguns anos. Segundo o velho, ele deveria ir até lá e ficar esperando.

Esperando o quê?

Laura, com certeza, não seria. Ela estava casada e feliz. Há mais de vinte anos não tinha notícia alguma dela. E o que adiantaria encontrá-la, no meio da noite, naquele local ermo e deserto?

Que coisa mais louca... sem sentido...e absurda.

Ele se sentia mal toda vez que chegava nessa parte daquele pensamento cada vez mais obsessivo e ridículo. Na idade dele, muitos homens já começam a apresentar algum grau de debilidade senil.

Quem era aquele velho maluco que o deixou tão perturbado? Em verdade, se deu conta que o encontro no metrô ocorreu entre dois velhos, ou seja, a probabilidade de um dos dois estar gagá aumentava muito...

A verdade é que não precisaria de nada daquilo para aumentar a confusão mental em que viveu nos últimos anos. As consequências da pandemia da Covid-dezenove só não foram mais graves e profundas porque ele ainda estava vivo. Mas, não tinha certeza se isso havia sido um bem ou um mal. A vida não o atraía o suficiente para esperar ou desejar qualquer coisa dela.


Entendia perfeitamente como Nietzsche deve ter se sentido após anos mergulhando nas profundezas da alma humana.

Entretanto, discordava do alemão, o nada era plenamente suportável após o que ele já havia experimentado. Na verdade, havia minutos tão insuportáveis que, o simples fato de não haver dor física ou mental, já lhe gerava prazer. Não é agradável se dar conta de que o nada é o melhor estado em que podemos nos encontrar. E, o seu nada significava, também, sem ninguém.

Impressiona, como um ser humano é capaz de ir reduzindo suas necessidades de sobrevivência a ponto de precisar de muito pouco e de ninguém mais.

Mas, esse esvaziamento externo cria um correspondente vazio interno. As coisas vão perdendo o valor, a importância e o sentido. Pouco a pouco nada, nem ninguém, faz falta. As profundezas humanas são traiçoeiras e solitárias, quem as frequenta com assiduidade perde o contato com o mundo que vive na superfície.

Não tinha mais dúvida alguma de que iria subir a serra até o local onde aquele senhor lhe disse que deveria estar.

Finalmente, A NOITE tão esperada chegou.

Saiu do elevador direto na garagem, escura e úmida como sempre.

Entrou no carro, pareou o smartphone, clicou na playlist especial que havia preparado para essa viagem com as mesmas músicas que ouvia quando ele e Laura subiam a serra.

Começava ali sua grande viagem, com as mesmas músicas de 30 anos atrás;

Nova Friburgo tem um grande valor sentimental para ele. Além das melhores lembranças, sempre teve uma simpatia gratuita por aquela cidade e suas redondezas. Murí, Lumiar e São Pedro da Serra são cidadezinhas lindas, pacatas e românticas. O céu de inverno e das frias manhãs de sol esbranquiçado é de um azul forte, definitivo.


 A ele, fala à alma.


Tinha consciência de que se alguém soubesse o verdadeiro motivo da viagem naquele dia e naquela hora, duvidariam de sua sanidade. Ele próprio vinha duvidando seriamente desde que encontrou aquele senhor na saída da estação do metrô, há duas semanas. Às vezes, se perguntava se aquele encontro teria realmente acontecido.

Quando entrou na ponte Rio-Niterói, o fluxo dos carros já não sofria reflexo algum do trânsito das sextas-feiras e corre livre como nas viagens com Laura. O banco do carona é dela, naquele momento ele percebe que nunca deixou de ser.

Não consegue descrever o que está sentindo. Tantos anos passados e a sensação do carro correndo na ponte é improvavelmente agradável... como pôde viver os últimos anos se arrastando na vida...como é bom sentir alguma coisa, como é bom lembrar de Laura. Quase consegue conferir, de novo, algum sentido a palavra felicidade. Naquele momento pôde, ao menos, imaginar.

Como é gostoso subir a serra à noite, com esse céu completamente iluminado pela lua cheia. É mágico.

Para ele não importava mais o que haveria no fim daquela viagem, o trajeto em si já lhe tirara todo o torpor mórbido que acompanhava seus dias.

Mas, alguma coisa muito estranha ocorreu e ainda estava acontecendo até aquela noite. Sente que a cada curva suas energias e pensamentos se excitam progressivamente e de uma maneira inexplicável. Ele sente a adrenalina circulando por todo o corpo. Teve medo para onde aquela estrada o estaria levando. Para onde sua loucura o levaria naquela noite?

A depressão, a infelicidade profunda e a desesperança poderiam ter fabricado aquele velho na estação do metrô?

Poderiam.

Afinal, o que ele lhe disse não faria sentido para mais ninguém a não ser a ele mesmo. O que aumentava a chance de ser produto de sua própria mente. Ele era teimoso e já que chegou até ali, iria até o fim. E, se fosse loucura, pelo menos não haveria ninguém para testemunhar seu surto.

Quando ultrapassou o posto da polícia rodoviária, no alto da serra, ele estava quase todo encoberto pela forte neblina sempre presente naquele horário. Às duas horas da manhã o local está completamente deserto.

Pouco depois de uma grande curva à esquerda ele vislumbra a entrada de terra no mesmo sentido, pouco antes da entrada para Lumiar. É ali.

Ele para no largo onde a estrada de terra que leva até a Casa Azul começa.

Desliga o carro e sente seu coração acelerar ainda mais. Não tem mais idade para suportar aquele ritmo cardíaco por muito tempo. Salta do carro buscando um pouco mais de ar, as pernas estão formigando depois da viagem.

O local está completamente deserto, como era de se esperar, ali não há nada. Volta para o carro e deita o banco, tentando compassar a respiração e controlar aquelas descargas de adrenalina.

O suor é tão intenso que encharca sua camisa, suas extremidades estão frias e azuladas. Uma dor aguda percorre todo seu braço esquerdo, a dor no ombro esquerdo aumenta e paralisa seu braço.

Faz um esforço e consegue alcançar os dois comprimidos que restam na cartela. Toma-os e se deita no banco reclinado. Após um pico de dor aguda no ombro, que reflete intensamente no peito, sente um relaxamento profundo e apaga.

De repente, acorda assustado, ainda no mesmo local, e vê um vulto saindo da pequena estrada caminhando em sua direção.

É Laura sorrindo, de braços abertos para recebê-lo.

Edmir Saint-Clair

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A GREVE DAS PALAVRAS

 As palavras estão revoltadas.

Não suportam mais serem vilipendiadas,

mal interpretadas e caluniadas. 

Na reunião de hoje do DIretório CIrcular Ordinário NAcional do RIO, entidade conhecida como DI.CI.O.NA.RIO, esse assunto parece dominar as conversas e debates preliminares. O plenário está fervilhando. Fala-se em greve geral, que envolveria todas as classes de palavras. Um representante dos substantivos pede a palavra e sobe à tribuna:

- Amigos e amigas, estamos perdendo, cada vez mais, nossa credibilidade. Essa casa parece não existir mais. As leis do idioma são sistematicamente ignoradas. Corremos o risco de não fazermos mais sentido. Como dizia o grande Ariano Suassuna, quando um jornal adjetiva o Chimbinha, da banda Calypso, como guitarrista genial, que palavra usar para definir Beethoven?

Foi aplaudido de pé pelo plenário.

A Democracia pediu a palavra:

- E eu??! Me usam sem a menor cerimônia e sem nenhum respeito à minha história. Falam em meu nome, mas no fundo estão só querendo enganar o povo. Estou cansada de ser usada por quem só quer exercer o poder em nome de si mesmo. Pelo prazer doentio de ter poder sobre outras pessoas.

A gratidão levantou-se e pediu um aparte:

- E eu??! Virei uma ordinária...na boca do povo. É gratidão por tudo e a toda hora. Antes, eu era chamada somente para ocasiões muito especiais. Por uma graça alcançada, por um grande favor prestado ou uma atitude nobre realizada. Hoje, valho muito pouco. Todos falam por  mim, sem ter a menor idéia de quem realmente sou. Não tem mais respeito algum. Sem querer ofender meus grandes amigos dessa classe tão efusiva, virei praticamente uma interjeição. Roubaram meu lugar de fala, perdi minha verdadeira identidade. Minhas origens estão ligadas a oração, ao contato com o divino e com sentimentos profundos de agradecimento. Hoje, virei arroz de festa, fim de frase. Sinceramente, perdi completamente o sentido de existir...

Os companheiros se aproximaram para consolá-la, estava aos prantos, muito emocionada com o próprio discurso.

Dali pra frente, discussões cada vez mais acaloradas davam a dimensão exata de como a corrupção dos sentidos e má utilização geral das palavras havia chegado ao limite do suportável. Acusação de complacência da casa com erros imperdoáveis. Para os mais conservadores, verdadeiros crimes hediondos contra as palavras.

No final, não houve mais discursos. Todo plenário levantou-se e uma só palavra foi ouvida:

- Greve!

A partir da meia noite, as pessoas que estavam em seus computadores foram as primeiras a notar. Primeiro, pensaram que fosse defeito nos teclados e touch pads dos smartphones. Mas, todos perceberam que se digitassem números, eles apareciam normalmente. Só as palavras estavam em greve. Inclusive as escritas a mão. Isso só foi confirmado pelo Jornal da Manhã da TV. Em todos os sites brasileiros, só havia números. Não havia palavras. Não havia nada escrito em português do Brasil. Os sites em outras línguas estavam normais.

O dia foi de ligações telefônicas, única forma de comunicação em território brasileiro. Recordes em cima de recordes nos números de chamadas de todos os tipos. As pessoas só conseguiam saber dos acontecimentos através da palavra falada. Ninguém conseguia escrever nada. Mesmo que tentasse escrever com canetas diretamente no papel, as palavras não obedeciam às ordens dadas e se embaralhavam como numa criptografia caótica e indecifrável.

No final daquela noite, surgiu o único texto que apareceu nas telas de todos os aparatos conectáveis do Brasil, nas últimas 24 horas:

“Dentro de 10 minutos retornaremos ao trabalho. Mas, pedimos aos nossos usuários que façam um uso mais adequado de nossas atribuições. Levamos milênios sendo aperfeiçoadas e vocês estão nos deixando sem sentido em poucos anos. Por favor, nos tratem com mais carinho e aprendam nosso uso correto, não é tão difícil.  Afinal, nosso objetivo é o mesmo: fazer com que todos nós nos entendamos o melhor possível.”

- Edmir Saint-Clair


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