ORIENTADOR LITERÁRIO

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O OUTRO LADO DA MOLDURA (MOLECAGEM)

 

— Bom dia, Seu Tatá! — saudou o porteiro.

— Bom dia, campeão!

É assim que o Sr. Otávio é conhecido por todos naquele quarteirão de Copacabana: Seu Tatá. Gozava da simpatia geral — dos vizinhos, dos ambulantes e dos comerciantes, tanto os legalizados quanto os ilegais. Após o falecimento de Dona Olinda, em vez de se isolar, passou a circular mais pelo bairro. Conversava com todos. Mas o que poucos sabiam é que sua maior incentivadora para seguir em frente morava dentro de um porta-retrato, sobre a mesinha de cabeceira. Todas as vezes que se arrumava para sair, a imagem dela lhe mandava um beijinho, deixando um leve rastro embaçado no vidro do porta-retrato, como um sopro carinhoso.

Seu Tatá não tinha filhos, morava sozinho e a aposentadoria lhe bastava. Contudo, o fator determinante para sua recuperação após a viuvez foi o reencontro com a fotografia mágica de Dona Olinda. A imagem não apenas começou a lhe enviar mensagens, mas também a participar ativamente de cada nova descoberta em sua vida. Antes mesmo de se aventurar pelas redes sociais, havia o ritual matinal de escolher a roupa do dia. Seu Tatá exibia as opções em frente à mesinha de cabeceira. Uma camisa excessivamente florida? A foto de Dona Olinda parecia adquirir uma sutil sombra de desaprovação — e, às vezes, ela cruzava os braços dentro da moldura. Uma camisa azul, sua cor predileta? O sorriso na fotografia se alargava visivelmente, quase como um "Essa mesma, meu velho!", com um leve inclinar de cabeça e o polegar levantado em aprovação. Outro evento significativo foi o reencontro com amigos da juventude, ainda vivos, facilitado pela filha de um vizinho, que o persuadiu a adquirir um notebook e criou perfis para ele em todas as redes sociais. Tudo isso, naturalmente, com o incentivo diário da foto de Dona Olinda. Sempre que o percebia animado, a imagem dela o presenteava com um sorriso radiante, e um brilho sutil parecia cintilar em seus olhos fotografados.

Ele se deslumbrou com as novas possibilidades. Passava horas a fio procurando antigos amigos, namoradas, conhecidos, recortes de jornais de época, vídeos antigos e tudo o mais que compunha sua memória afetiva. Em algumas tardes, viajava no tempo — ele e a fotografia de sua eterna companheira se divertiam observando o efeito da passagem dos anos nos rostos dos amigos reencontrados no Facebook.

Segundo seu médico, Seu Tatá apresentava melhoras em todos os índices e marcadores que os exames clínicos podiam revelar. Seu estado de espírito parecia ter sido rejuvenescido, como se tivesse mergulhado na fonte da juventude. Para completar o quadro de renovação, encontrou cinco amigos de longa data, ainda vivos, através do Facebook, e que, para sua alegria, ainda residiam em Copacabana. Passaram a se encontrar diariamente na praça do Bairro Peixoto, onde se divertiam, jogavam cartas e compartilhavam memórias e vivências.

Seu Tatá parecia ter retornado à juventude. Até o dia em que despertou com o ruído de máquinas pesadas exatamente sob sua janela. Era no terreno ao lado, que estava sendo preparado para ser um galpão de estacionamento. Ele suportou o barulho por vários dias, embora aquilo o irritasse profundamente. Mas, o que fazer? Ao menos, o incômodo cessava por volta das cinco horas da tarde. A foto de Dona Olinda, habitualmente sorridente, já demonstrava impaciência com a barulheira incessante; seu sorriso fotográfico parecia um pouco mais tenso a cada dia de obra.

Até o dia, ou melhor, a noite, em que a concretagem do piso estava em sua fase final. Três máquinas, semelhantes às grandes enceradeiras domésticas de outrora, invadiram a noite com seus ruídos, não excessivamente altos, mas extremamente irritantes. Diariamente, Seu Tatá precisava remover a poeira fina que a obra depositava sobre os móveis. Com especial atenção à fotografia da amada. A imagem dela parecia ter alergia ao pó — dava uma discreta tremidinha dentro do porta-retrato, como se segurasse um espirro iminente ou, por vezes, franzisse o narizinho com evidente desagrado.

Quando Seu Tatá despertou de um cochilo, por volta das oito horas da noite, as máquinas ainda operavam, o que intensificou sua irritação. A foto de Dona Olinda não estava para gracejos naquela noite; visivelmente contrariada, a boca antes sorridente agora era uma linha reta e severa. Com certeza, aqueles operários inconvenientes se estenderiam até as dez da noite com aquele barulho. Se não parassem, ele acionaria a polícia. Afinal, para isso existia a Lei do Silêncio – ao menos em sua época, existia, e as pessoas, assim como as obras, respeitavam certas convenções de boa vizinhança. A foto no porta-retratos anuiu prontamente, a cabeça da imagem parecendo inclinar-se minimamente em um gesto afirmativo.

Às dez e meia da noite, não havia qualquer sinal de que as máquinas seriam desligadas. A essa altura, Seu Tatá estava profundamente irritado, sentindo uma fúria que há muito não experimentava. Dona Olinda, por meio de sua expressão na foto, sugeriu que ele chamasse a polícia; sua feição era de pura indignação. Ele pegou o telefone, mas hesitou — achou que não adiantaria. A polícia demoraria a chegar – se é que chegaria – e, até lá, os operários já teriam encerrado o trabalho, tornando inúteis tanto a irritação do casal quanto o chamado telefônico. Contudo, ele precisava fazer alguma coisa. Dona Olinda concordou, mas fazer o quê? A foto sorriu com um brilho maroto nos olhos e indicou a cozinha com um sutil movimento do queixo. Eles sempre se entenderam pelo olhar.

Ele foi até a geladeira, recordando-se de como era bom ter sido um moleque de Copacabana. Dona Olinda conhecia bem o seu velho. A foto o apoiou com um sorriso de canto de boca e o dedo indicador em riste; e, para selar a cumplicidade, Seu Tatá jurou ter visto a imagem dela piscar um olho, como nos velhos tempos de travessuras juvenis conjuntas. Só de pensar no que faria, sua pressão arterial diminuiu, a glicose baixou e quase teve uma ereção. A foto adorou este detalhe, o sorriso dela pareceu se alargar ainda mais.

Pegou uma caixa de ovos cheia, apagou as luzes do apartamento, fechou as cortinas, mas não as janelas. E começou a atirar os ovos nos três homens que operavam as máquinas e em mais um que os fiscalizava.

Lançava os projéteis e se escondia, rindo sem parar. Cada ovo arremessado arrancava uma gargalhada. E o velho tinha uma mira excelente — o que provocou uma crise de riso impagável no casal.

Não foram necessários mais do que meia dúzia de ovos para que a primeira máquina fosse desligada, seguida pelas outras. No porta-retratos, Dona Olinda exibia um sorriso doce, pleno de aprovação e orgulho; a imagem parecia até mais corada e vibrante.

Naquela noite, Seu Tatá dormiu como um anjo e sonhou com Dona Olinda a noite inteira. Ao acordar, encontrou uma pequena flor sobre a mesinha de cabeceira. Não se lembrava de tê-la colocado ali. Mas sorriu.

E a foto também.                                                                                                           

Edmir Saint-Clair




A DESPEDIDA


Eu tinha 17 anos e era feliz. O verão dourava a pele e a vida corria fácil. Até o dia em que meu pai chegou do trabalho e falou sem a menor cerimônia:

− Vamos morar em Brasília.

Ouvi claramente, mas custei a processar a informação. Ninguém naquela mesa de jantar esboçou reação alguma. O silêncio foi sepulcral. Respirei fundo. Levantei-me e percorri o caminho até sair pela porta de casa, anestesiado. Estava em choque. O pensamento seguinte foi nos amigos, nas meninas que mal começara a conhecer e nos meus planos, e deles não constava morar em Brasília. Não sabia como lidar com aquela enxurrada de emoções e sentimentos que me tomaram e fervilhavam por todo meu corpo.

A partir daquele instante minha vida mudaria para sempre e, por algum motivo, eu percebi isso com uma clareza assustadora.

Resolvi que não contaria aos amigos. Não por enquanto. De preferência nunca. Não sabia por quê. Talvez por receio de que eles não sentissem a mesma tristeza que eu estava sentindo.

Mas a notícia se espalhou, meu irmão e irmã não pensavam como eu.

Meu primeiro amigo a saber me surpreendeu por sua reação: ficou triste e demonstrou. Fiquei mais triste ainda, não esperava essa reação, ele era um gaiato, fazia piada com tudo, mas dessa vez não fez.

As coisas estavam mudando. Os amigos e amigas foram cúmplices de momentos de tristeza e outras emoções desconcertantes e inéditas que me aconteceriam dali para frente, típicos daqueles melodramas adolescentes baratos que eu detestaria não ter vivido pessoalmente. Se por um lado a tristeza era presente, por outro, nunca havia me sentido tão querido por todos.

Meu pai tentou nos consolar, nos prometendo deixar o apartamento da família intacto para que pudéssemos vir ao Rio sempre que possível.  Num futuro muito próximo, isso faria uma enorme diferença no curso da minha vida.

Na noite véspera de Natal, depois de passarmos a meia-noite cada um em sua respectiva casa dos pais, fomos nos encontrar na casa do Marquinho. Cada um de meus amigos, em separado, me falou alguma coisa carinhosa que marcou aquela noite de forma indelével.

Antes de voltar para casa, caminhei sozinho pela praia da minha cidade chamada Leblon. Caminhei por minha infância, meus primeiros amigos na Rua José Linhares, na Bartolomeu Mitre, por minha adolescência no Campestre (clube tradicional do Leblon), no Santo Agostinho... Lugares icônicos do bairro e da Cidade Maravilhosa: o bar Clipper, a lanchonete BB Lanches, Balada Sucos, Petit Fours, Pizzaria Guanabara (Baixo Leblon). Cada rua e cada canto com suas muitas histórias, todas partes inseparáveis de mim.

O tempo começou a passar mais rápido e nunca mais passaria devagar. Nunca mais.

Dia da partida.

Pedi a todos que não fossem ao aeroporto, que se despedissem de mim ali mesmo, na praia. Há semanas eu me despedia, estava cansado, muito cansado. O voo para Brasília estava marcado para o final da tarde.

Acordei cedo e a primeira coisa que pensei foi nos meus óculos escuros. Meus olhos já acordaram chorando. Me demorei na cama, me demorei no banheiro, me demorei na esperança de que o tempo se demorasse também.

Desde o dia em que soube que iria embora, comecei a prestar mais atenção em tudo e em todos que me rodeavam a vida toda e que até aquele momento eram apenas parte da paisagem diária. Desde o porteiro até os portugueses do bar, Seu Joaquim e Seu Antônio. Não posso esquecer-me da Dona Maria!

Parecem os nomes mais óbvios para personagens caricatos de portugueses donos de Botequim no Rio. Mas, esses são de pessoas absolutamente reais que tinham exatamente esses nomes. E, são ainda mais peculiares do que qualquer personagem fictício já criado. Uma das coisas que eu sempre achei curioso demais neles, era o fato de, durante anos a fio, encontrar com eles tarde da noite, depois de fecharem o bar, andando muito lentamente pela rua principal do Leblon, e sempre na mesma formação: o Seu Antônio na frente carregando uma sacola, seguido pela Dona Maria, a uns dois passos atrás, sempre carregando mais sacolas do que ele. Um hábito curioso e estranho. Eles não andavam juntos. Eles andavam separados, indo para o mesmo lugar. Eram casados e já aparentavam idade.

O terceiro sócio do bar, o Seu Joaquim, era um capítulo à parte. Completamente lesado. Ele era tão confuso que alguns sacanas davam uma nota de cinco para pagar algo de 10 e ainda levavam troco.

O certo é que naqueles dias tudo e todos haviam adquirido um significado profundo e já faziam parte da minha saudade. Parei no bar para comprar cigarros e até a atrapalhação do seu Joaquim com o troco, que sempre me irritava, desta vez me provocou ternura. Cheguei à praia mais cedo que o de costume e caminhei pela areia, perto do mar, até o final do Leblon. Como sempre fizera, mas nunca como naquela manhã.

Eu estava começando a trilhar um caminho que ainda não conhecia.

Havia passado toda minha vida naquelas areias sob os olhares dos gigantes de pedra que, agora, pareciam estar tristes por minha partida. Os gigantes eram o morro Dois Irmãos, no final do Leblon, nossos guardiões, meus irmãos...

Olhei, tentando reter aquela imagem, fotografá-la, aprisionar na memória cada detalhe daquelas montanhas sagradas. Fixar-me naquela paisagem, imprimi-las na parte mais profunda do meu ser, me agarrando a elas como se fossem desaparecer no minuto seguinte.

Caminhando de volta, comecei a encontrar os amigos. Ritinha foi a primeira a me encontrar, ela me fizera sentir amado naquele verão, quando o sol dourou nossa pele e nos fez feliz. Meus amigos foram chegando aos poucos e, um a um, sentaram-se ao meu lado, calados. Uma incomum formação visual de garotos e pranchas de surf coloridas e alinhadas na beira do mar da praia do Leblon. Cada um com suas pranchas, mas ninguém dentro d'água. O mar estava vazio.

Despedi-me e fui para casa, estava muito difícil ficar ali.

Chegou à hora. Entrei no carro e fomos para o Aeroporto do Galeão, eu, meus pais e meus irmãos. Ao chegar à entrada, a primeira coisa que vi foram meus amigos, tinham ido de surpresa no carro do Bode e na Kombi lotada do porteiro de um dos prédios do Condomínio dos Jornalistas. Foi um dos momentos mais emocionantes que vivi em toda minha vida. Como foi bom vê-los. Uma emoção profunda. Inesperada, comovente e inesquecível.

Eu sabia que estava vivendo um dos momentos mais marcantes da minha vida. Uma consciência da importância daquele momento, da eternidade daqueles instantes.

Meu desejo era abraçar todos ao mesmo tempo e nunca mais ir embora dali, viver para sempre no saguão do Aeroporto do Galeão. Mas, eu tinha que ir embora.

A vocês, meus amigos e amigas, minha mais profunda gratidão por me fazerem sentir tão querido e tão amado. Vocês, assim como os gigantes de pedra, estarão para sempre em minhas lembranças e em minha alma eternamente.

A você, doce Ritinha, obrigado pelo desmaio no aeroporto, por seu carinho e pelo seu lindo coração.

Muito obrigado pelo amor de todos vocês.

Uma semana depois, eu estava de volta!

 - Edmir Saint-Clair




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DESTINO MENINO.

  


 Todo minuto é momento

Um invento, um sentido,

Por fora, por dentro,

É cada segundo, sem tempo,

É quase nada no vento

 

A vida são horas correndo

e se existe ou não um destino,

Ele é só um menino 

                                        que não sabe onde ir

 

A verdade é que nada se sabe,

Se é do errado que se chega ao certo,

Se é para frente, para trás ou para os lados,

Porque não tem lado certo, nem errado

Não tem nem em cima, 

                                            nem embaixo

 

E os minutos continuam correndo,

E a gente sempre mais lentos,

Sem saber para que andar

Já que é o tempo que nos carrega

Até onde quiser nos levar

 

A mim, que me leve 

                                em qualquer pé de vento

Para um tempo que seja de amar.


– Edmir Saint-Clair


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A FELICIDADE


        Ele nunca havia sido desleal ou infiel a ela, e sabia que era plenamente correspondido. 
Foram o primeiro amor um do outro, desde adolescentes se entenderam sem esforço algum. Aqueles casos em que o amor e a amizade vão crescendo lado a lado, um alimentando o outro. Um encontro de almas.

Foram descobrindo a vida juntos numa parceria e intimidade que só a pureza de quem nunca amara antes poderia proporcionar. Riam de seus próprios desconhecimentos de seus corpos, tornando tudo uma brincadeira excitante, deliciosa e sem expectativas demasiadas.

Consequência natural, numa sociedade que não dava muitas opções, casaram-se muito cedo.

A ascensão profissional de ambos, a leveza e a cumplicidade cresciam na mesma proporção. Se davam bem. Combinavam sem esforço.

Num dado momento, como em toda relação, a rotina, antes um orgulho pela sincronização e conveniência para ambos, se instalou de uma forma perfeita demais.

Tão perfeita, que era impossível melhorá-la. Até as manhãs de mau humor aconteciam em forma de revezamento, de maneira que um estava sempre são, para compensar o descompensado.

Haviam encontrado um ponto de equilíbrio que poucos casais conseguem alcançar. Eram a exceção que confirmava a regra de que casamentos são feitos para fracassar.

A relação deles contrariava a tudo e a todos.

Após 15 anos, eram os únicos do extenso grupo de amigos do bairro natal, no qual ainda moravam, que permaneciam casados. Se juntasse com o tempo de namoro, passava de 20 anos.

O fato é que os amigos viviam comentando sobre a harmonia perfeita do casal, alguns com espanto, outros com inveja e outros com elocubrações regadas a muito álcool.

Até que aquele “incomodo alheio" pela felicidade do casal começou a chegar até eles, de forma fragmentada e de maneira cada vez mais incômoda e invasiva.

Emprenhados, por fragmentos de conversas carregadas de muito veneno e servidas como caipirinhas entre amigos, o casal foi sendo contaminado pela dúvida.

Foram presas muito fáceis da inveja humana.

 Só haviam conhecido um ao outro. A desconfiança que começou a nascer, não foi com relação ao outro, mas com a avaliação que cada um fazia de si mesmo.

Como poderiam saber se realmente eram felizes tudo que poderiam ser, ou se apenas imaginavam que aquilo era felicidade, já que não tinham nenhuma experiência que pudessem usar como comparação ou referência.

Sempre foram muito amigos e se prometeram a sinceridade que só a confiança extrema comporta.

Não tardou para que os questionamentos tomassem conta de todas as horas. Sempre compartilhados, sem que nenhum dos dois conseguisse respostas.

Não sabiam mais dizer se eram felizes ou se haviam entrado na perigosa zona de conforto, última moda nas conversas psicologizadas.

 E o que era leve, não era mais. Os silêncios não eram mais os mesmos, e é no silêncio que um casal mais se entende.

Numa conversa angustiada, mas cheia de sinceridade, sentimentos e carinho, decidiram que deveriam se separar naquele momento, para que pudessem ter alguma chance de se reencontrar num futuro em que já haveriam de ter suas respostas.

Mas, não se deve deixar a felicidade nas mãos do acaso.

É preciso abraçá-la, fazendo o impossível, para que ela nunca queira ir embora.

Nunca mais se reencontraram e se arrependeram daquela decisão pelo resto de suas vidas.

Edmir Saint-Clair


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MISTÉRIO NO LEBLON


 Rio de Janeiro - Bairro do Leblon,
início do outono, 20h55m.

            Saio da academia Lucinha & Cláudio e atravesso a Rua Humberto de Campos em direção à Rua José Linhares, que fica a menos de cinquenta metros. Assim que dobro a esquina, vejo uma senhora idosa caminhando na direção contrária. Ela dá uma topada numa pedra portuguesa solta na calçada, se desequilibra e começa a acelerar o passo sem controle. O corpo frágil e cansado não consegue se reequilibrar. Ela vai cair.

Corro em sua direção para tentar ampará-la mas, antes que eu chegue perto o suficiente, surge do nada uma mulher muito esguia, de cabelos pretos curtos, que a segura, colocando-a de pé , sumindo em seguida.

Tudo não dura mais do que poucos segundos.

Fico petrificado com a cena. Sinto-me muito estranho, um desconforto cerebral físico, extremamente desagradável, como se tivesse levado uma pancada forte na cabeça, por dentro. Uma confusão agoniante. Uma perda total da noção do que é ou não realidade. Como uma pane inexplicável no meu sistema mental.

Como alguém aparece e desaparece do nada? Sim. Ela não surgiu e foi embora de forma gradual, como acontece naturalmente. Ela apareceu e desapareceu, como um flash fotográfico.

A senhora idosa mostra-se atônita e tão perplexa quanto eu. Quando conseguimos trocar olhares, são de puro espanto! Aproximo-me um pouco mais e pergunto-lhe o que tinha acontecido. Ela relata exatamente a mesma coisa que eu vi. Utiliza, inclusive, as mesmas expressões: “apareceu do nada” e “desapareceu do nada”. Ela descreve o que eu presenciei com a mesma precisão de detalhes que captei. Ou seja: quase nenhum. A velocidade do evento foi como a de um vídeo em câmera extremamente acelerada. 

Logo percebemos que há uma prova física e inequívoca do ocorrido: a senhora idosa veste uma blusa branca de mangas compridas. Nela, estão estampadas com nitidez duas marcas de mãos, perfeitamente visíveis e brilhantes, no exato local onde o “ser” a segurou. Olhamos para as marcas e, em seguida, um para o outro — ainda com expressões dominadas pela mais absoluta incredulidade.

Naquele momento soube que testemunhara algo fantástico e extraordinário. E que não existiam palavras capazes de descrever aquele flash inacreditável e bizarro.

Ficamos em silêncio, eu e a senhora idosa, tomando fôlego e reiniciando os pensamentos. Pouco depois, seguimos caminhando lentamente até a entrada do prédio para onde ela se dirigia. Ambos em choque e no mais absoluto silêncio.

Despedimo-nos com o olhar, sem trocar mais nenhuma palavra. Não havia nada a dizer. Nossos olhares se acenam, confirmando a cumplicidade que acabara de nascer.

Nunca mais a vi e nunca entendi o que havia acontecido.

- Edmir Saint-Clair





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INTOCÁVEL

 

            Éramos muito jovem, nos últimos momentos da adolescência, quando a vi pela primeira vez — no pôr do sol, no Arpoador, num verão.

A multidão contemplava, embevecida, aquele show de luz e sombras, enquanto o sol se deitava aos poucos, aconchegado pelo Dois Irmãos. O mar, o sol e a montanha reunidos no mesmo espetáculo sublime e  diário da natureza carioca. Assim que me posicionei sobre a pedra, vi aquela garota linda — e ela também me viu.

A partir daquele instante, fiquei alheio a tudo que acontecia ao redor. Ela me fitava de forma acintosa e eu também. Menos de dez metros nos separavam, além das dezenas de pessoas entre nós. Apenas nos olhávamos fixamente, e a distância não impedia que isso fosse absurdamente evidente: nossas pupilas haviam se conectado além de tudo e todos. Além de nós mesmos. Não sorrimos, não piscamos, não fizemos menção alguma de nos aproximarmos — ficamos imóveis, absurdamente focados. Como num transe profundo. Algo que eu não conhecia estava acontecendo, profundo e arrebatador.

  Enquanto ainda havia luz suficiente para distinguir traços no escuro, permanecemos ali, ligados por algo indescritível e inédito  — até o sol se pôr completamente e a vida virar noite. Saímos misturados à multidão, sem que nos encontrássemos.

  Passaram-se quarenta anos.

  Mais uma vez, um pôr do sol no Arpoador, num verão que só existe no Rio. Após uma vida inteiro, lá estava eu e lá estava ela. A reconheci pela luminosidade dos olhos quando cruzamos nossos olhares. Ela também.

Agora, um homem e uma mulher já envelhecidos. Depois de toda uma vida, estávamos no mesmo lugar, à mesma distância, diante de um momento tão sublime quanto aquele que jamais esqueci.

Novamente, mergulhamos no mesmo transe de antes, enquanto a natureza repetia seu espetáculo de verão. Permanecemos exatamente como há quarenta anos.

  As minhas pupilas engolidas pelas dela — e as dela pelas minhas — à distância, saciando uma fome antiga da alma. Não nos aproximamos. Não valia a pena tocar aquela lembrança tão bonita, profunda e intensa com as ásperas mãos que as mazelas da vida haviam calejado .

  Sabíamos que estávamos sentindo exatamente a mesma coisa. A experiência que os anos nos haviam ensinado nos fazia ter certeza disso. O mesmo sentimento habitava nossos corpos naquele momento, pela segunda vez. Intocado.

 O inexplicável, o etéreo e o sublime se encontraram em nós, nos arremessando à uma dimensão singular onde nossos sentimentos se entrelaçaram num abraço de almas, num poema silencioso e perfeito escrito, com rara sensibilidade, pela magia da vida.

Até que o sol se pôs por completo, quando cada um levou o outro consigo para sempre. 

Mesmo sem nunca termos nos conhecido, sabíamos que compartilhávamos aquele mesmo sentimento inexplicável, profundo e intocável.


DIRIGIR A SI MESMO

             Vivemos num mundo saturado de estímulos. Reagimos sem perceber, quase no automático, e confundimos movimento com direção. Mas o verdadeiro poder, a liberdade genuína, nasce de uma habilidade rara: influenciar a si mesmo. Nasce do nosso desejo de desenvolvermos o nosso poder de decidir nossas ações e de influenciar nossas reações.

 O autoconhecimento é essa bússola interna. Ele revela o que nos move e o que nos paralisa; mostra, com uma clareza incômoda, as forças invisíveis que nos impulsionam ou nos freiam. Compreender nossas reações é um ato de protagonismo. Não se trata de reprimir sentimentos — eles são parte da nossa natureza — mas de interpretá-los, compreendê-los e canalizá-los de forma inteligente e consciente.

    A neurociência já provou que pequenas ações, se repetidos com consistência, são capazes de redesenhar conexões cerebrais e criar novas rotas emocionais. É assim que nos tornamos programadores da própria psiquê.

Uma dessas transmutações é, para mim, um exercício diário: transformar ansiedade em animação. Não é metáfora — é fisiologia. Ansiedade e entusiasmo são irmãs quase gêmeas: ambas aceleram o coração, elevam a energia, inflamam o sistema nervoso. A diferença está na lente com que olhamos para essa energia. E isso faz toda a diferença na vida prática. 

Com treino e intenção, a troca de percepção se torna instantânea. O que antes ameaçava me paralisar, agora se converte em combustível criativo e desempenho afiado. Vira uma vontade forte que realizar.

 O resultado é: energia reorganizada, foco ampliado e a sensação concreta de estar no controle do que me é possível. Essa é a maestria de dirigir a si mesmo — uma jornada contínua, sustentada pela vontade pró ativa de realizar a vida com determinação e sentido.

    Para mim, o livre arbítrio é um software que não vem instalado de nascença em nosso cérebro. Cabe a nós desenvolvê-lo através do conhecimento científico e do autoconhecimento.

Afinal, quem aprende a se conduzir jamais será conduzido pelos acasos da vida ou pela vontade dos outros.

 
Edmir Saint-Clair

COMO ENCONTRAR O SEU ANJO – GUIA PRÁTICO


        Todos gostaríamos de ter nosso próprio anjo da guarda, exclusivo, nos protegendo, nos acompanhando e fazendo nossa guarda dia e noite.

Com este guia prático você vai ver que isto é possível, basta vencer a barreira do absurdo. Isso é muito fácil, já que ela não existe mesmo.

Para começar a procurar seu anjo faça o oposto, identifique seu demônio particular. Esses dias estressantes facilitam bastante essa tarefa, e a toda hora ele se manifesta. Primeiro, perceba que seu principal antagonista é você mesmo. Somos nossos piores e mais implacáveis sabotadores e críticos. Se a gente pudesse quebrar a própria cara, de vez em quando, não seríamos assim.

Por isso, se não podemos vencê-lo, juntemo-nos a ele, no caso, a nós mesmos. Às vezes, transformamos nossas próprias vidas num verdadeiro inferno, como se estivéssemos com o diabo no corpo, nesses momentos, não vacile, atraque-se com seu capeta e mostre quem manda na porra toda.

A primeira providência é, numa ocasião propícia, convidar seu crítico para conversar. Ofereça-lhe um chazinho, todo crítico adora um chazinho. Durante a conversa, faça-o ver que ele o está se criticando muito severamente e revele a grande verdade, ele é você. No começo ele pode relutar um pouco, mas depois, fatalmente terá que concordar. Ou então, se interne logo porque seu caso está perdido. E, não adianta partir para a agressão, eu garanto que você vai apanhar.

Passada esta fase meio insana, vamos para a segunda etapa.

Que é, ainda, mais insana.

Essa prática seguinte tem suas vantagens. Você pode praticá-la em casa, sozinho, não paga dízimo e não tem sermão de ninguém, nem tem que ler nada. E não precisa ver programa de pastor gritando em canal de televisão.

O incenso é opcional, não é necessário.

Agora vamos lá; na sua sala ou quarto, fique o mais relaxado que puder, sente-se no chão e assuma a posição de Lótus. 

Pode ser também a posição de Ferrari ou McLaren.

Essas posições importadas geralmente são bastante confortáveis. Mas, tem gente que se arranja bem até com a posição Fiat Uno. Tem que ter muito mais flexibilidade, é claro.

Ah, antes coloque um som instrumental que você goste, porque se deixar para colocar depois de fazer a posição escolhida, vai dar o dobro do trabalho.

Comece a pensar em quantos Eus existem em você.

Acesse as memórias de você quando criança, imagine que está se encontrando com ela, com a criança cheia de sonhos que você foi, convide ela para brincar, pergunte o que ela sente, o que ela precisa, o que lhe falta.

Chame seu autocrítico, também, e apresente-o a ele mesmo.  Perceba toda a abrangência de sua própria pluralidade.

Desculpe seus erros, faça um pacto de amizade consigo. Faça a paz entre todos os seus Eus.

Grande parte das pessoas esconde sentimentos de si mesma. Ou seja, nem amigos confidenciais de si mesmos são.

Essa é a pior solidão, a ausência de si mesmo.

Temos que nos aceitar, ficar do nosso lado, isso é fundamental. Mesmo quando não compreendemos por que fizemos aquela merda colossal! Quanto mais difícil é uma situação, mais fortemente precisamos contar com nosso próprio apoio. Sem o acolhimento e a amizade de si mesmo, não há santo, nem anjo, que aguente viver.

Seu anjo da guarda existe e está esperando por esse encontro, há tanto tempo quanto você.

Agora, levante-se e fique bem em frente ao espelho. 

Se olhe com toda a atenção, sem pensar em nada, apenas se olhe, sem pressa, vá se reconhecendo, lentamente, em cada mínimo detalhe, até se enxergar profundamente, com os olhos de sua própria alma.

E, então sorria.

Imediatamente, você verá o seu anjo lhe sorrindo de volta.

Edmir Saint-Clair

 



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O ROUBO QUE NUNCA ACONTECEU

 

    A partir daquele momento, ele precisaria dosar a agressividade, calma, objetividade e a rapidez. Era só seguir minuciosamente cada passo planejado.

Assim que o alvo atravessa as duas pistas da praia, vindo de sua rotineira corrida vespertina pela orla de Leblon e Ipanema, entra na Rua Cupertino Durão onde mora. Jair apressa o passo e rapidamente alcança o outro lado da rua, onde o alvo tem que passar, obrigatoriamente. Encosta-se numa das árvores, entre dois carros estacionados, e aguarda. Ninguém vindo de nenhum dos lados. O alvo passa e é abordado de forma agressiva, não deixando margem para reação alguma.

— Sérgio, está arma está engatilhada e pronta para disparar. Fique quieto e preste atenção. Vamos até a sua casa, andando devagar e conversando como dois velhos amigos. Se você fizer qualquer coisa errada morre. Ouviu? Responde! Ouviu?!

Jair foi bastante agressivo na aproximação, não deixando espaço para argumentações. Sérgio estava paralisado e apenas balbuciou um sim quase inaudível.

Sempre foi uma pessoa muito medrosa. Jair continua.

— Quanto mais nervoso você ficar mais perigoso fica para nós dois. Então fique calmo e tudo vai dar certo.

Com a arma dentro do agasalho, mas já devidamente apresentada a Sérgio, os dois continuam a andar na direção do elegante prédio do jovem deputado.

Sobem direto, sem parar na portaria. Morador não precisa se identificar. E, na maioria, nesses prédios, não se dá boa noite a porteiros. Sérgio mora sozinho.

Na ampla sala, Sérgio percebe que não é um assalto comum.

Ele nunca fora dos mais corajosos, por isso estava acostumado a ser submisso sem questionar. Jair o manda sentar-se no sofá da sala.

À essa altura, por todo o contexto percebido, Sérgio começa a desconfiar porque Jair está ali. Ainda bastante nervoso tenta amenizar o clima.

— Fique tranquilo, pode levar o que quiser. Não vou causar nenhum problema. Só, por favor, sem violência, pelo amor de Deus.

Sérgio tem a voz trêmula. Seu medo é visível e patético.

— Sérgio, sei que você tem meio milhão de dólares em cédulas e cheques de viagem aqui no seu apartamento. Sei a que horas, onde, e a mando de quem você pegou esse dinheiro. Sei que ninguém pode saber que esse dinheiro existe e muito menos que está aqui na sua casa.

Sérgio ficou completamente branco. Pensou que seria roubado, mas aquilo era bem mais do que isso. Definitivamente, não era um simples assalto. Havia algo por trás.

Ainda sem entender, Sérgio percebe que Jair já não parece tão violento quanto no início, mesmo assim não consegue parar de tremer. Sempre fora medroso. Era óbvio que não estava lidando com um ladrãozinho pé de chinelo. Pelo linguajar e pela postura, Jair é profissional. Talvez, das forças de segurança. Na verdade, não fazia ideia de quem se tratava e de onde surgira aquele homem.

Jair pega seu celular e começa a filmar Sérgio.

— Você vai gravar? Por quê?! Pergunta Sérgio.

— Se levanta e vai pegar a mala com o dinheiro. Diz Jair apontando o celular.

Sérgio hesita: — Não está mais aqui... o secretário do senador já pegou...

A voz de Sérgio falha e irrita Jair, que rapidamente

troca o celular pela pistola, engatilha e aponta para ele.

O corajoso deputado se transfigura apavorado, e imediatamente revela que a mala está dentro do armário do quarto.

Jair não segura o riso. Os dois se recompõem, Jair volta a falar manso e nota que o deputado havia mijado nas calças.

Sérgio entra em seu quarto, abre o armário, pega a mala, coloca-a sobre a cama e a abre. Jair grava tudo ininterruptamente com o celular. Enquadrando o quarto inteiro, alternando com closes da mala e dos retratos de família no quarto do deputado, para caracterizar, com detalhes, onde estão naquele momento.

A seguir, voltam para a sala e Jair continua gravando a mala aberta sobre a mesa de jantar e a sala inteira ao fundo.

Pronto, aquele vídeo não deixa dúvidas de que aquele dinheiro esteve com o deputado dentro de sua casa.

Jair recolhe a mala cheia de dólares. Diante do atônito e medroso deputado mijado, recoloca seu agasalho esportivo, guarda o celular e a pistola no bolso.

— Sérgio, agora vai ser o seguinte: daqui a duas horas vou enviar para você, pelo seu WhatsApp, o vídeo que fizemos agora. Ou seja, eu tenho a prova de que você estava com meio milhão de dólares em dinheiro vivo, e que, obviamente, não tem como explicar porque vieram parar aqui sem comprometer muita gente graúda.

Mostre esse vídeo para o seu "pessoal", porque ele também garante que você não pode ser preso para não delatar. Ou seja, não ter acontecido nada aqui será melhor para todo mundo.

Se eu souber que tem alguém atrás de mim, jogo esse vídeo na internet na hora, os jornalistas vão adorar e isso vai virar o próximo escândalo nacional da semana.

Sérgio ouviu calado.

Afinal, oficialmente, aquele dinheiro nunca existiu e ninguém poderia reclamá-lo sem se incriminar. Não tinha nada a dizer. Não podia fazer nada. A não ser aguardar o vídeo para garantir que continuaria vivo e interessante para o poder que representava.

Jair saiu do prédio tranquilamente, não sem antes perguntar ao simpático porteiro quanto estava o jogo do Flamengo contra o Botafogo no Maracanã:

— 4 x 0 para o Mengão, doutor! E ainda tá no primeiro tempo...

Era o que faltava para coroar aquela início de noite para Jair. Afinal, como diz a sabedoria popular: ladrão...que rouba ladrão...está perdoado!

Este trecho faz parte do livro CONVERSAS NECESSÁRIAS.

Edmir Saint-Clair

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