ORIENTADOR LITERÁRIO

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A GREVE DAS PALAVRAS

 As palavras estão revoltadas.

Não suportam mais serem vilipendiadas,

mal interpretadas e caluniadas. 

Na reunião de hoje do DIretório CIrcular Ordinário NAcional do RIO, entidade conhecida como DI.CI.O.NA.RIO, esse assunto parece dominar as conversas e debates preliminares. O plenário está fervilhando. Fala-se em greve geral, que envolveria todas as classes de palavras. Um representante dos substantivos pede a palavra e sobe à tribuna:

- Amigos e amigas, estamos perdendo, cada vez mais, nossa credibilidade. Essa casa parece não existir mais. As leis do idioma são sistematicamente ignoradas. Corremos o risco de não fazermos mais sentido. Como dizia o grande Ariano Suassuna, quando um jornal adjetiva o Chimbinha, da banda Calypso, como guitarrista genial, que palavra usar para definir Beethoven?

Foi aplaudido de pé pelo plenário.

A Democracia pediu a palavra:

- E eu??! Me usam sem a menor cerimônia e sem nenhum respeito à minha história. Falam em meu nome, mas no fundo estão só querendo enganar o povo. Estou cansada de ser usada por quem só quer exercer o poder em nome de si mesmo. Pelo prazer doentio de ter poder sobre outras pessoas.

A gratidão levantou-se e pediu um aparte:

- E eu??! Virei uma ordinária...na boca do povo. É gratidão por tudo e a toda hora. Antes, eu era chamada somente para ocasiões muito especiais. Por uma graça alcançada, por um grande favor prestado ou uma atitude nobre realizada. Hoje, valho muito pouco. Todos falam por  mim, sem ter a menor idéia de quem realmente sou. Não tem mais respeito algum. Sem querer ofender meus grandes amigos dessa classe tão efusiva, virei praticamente uma interjeição. Roubaram meu lugar de fala, perdi minha verdadeira identidade. Minhas origens estão ligadas a oração, ao contato com o divino e com sentimentos profundos de agradecimento. Hoje, virei arroz de festa, fim de frase. Sinceramente, perdi completamente o sentido de existir...

Os companheiros se aproximaram para consolá-la, estava aos prantos, muito emocionada com o próprio discurso.

Dali pra frente, discussões cada vez mais acaloradas davam a dimensão exata de como a corrupção dos sentidos e má utilização geral das palavras havia chegado ao limite do suportável. Acusação de complacência da casa com erros imperdoáveis. Para os mais conservadores, verdadeiros crimes hediondos contra as palavras.

No final, não houve mais discursos. Todo plenário levantou-se e uma só palavra foi ouvida:

- Greve!

A partir da meia noite, as pessoas que estavam em seus computadores foram as primeiras a notar. Primeiro, pensaram que fosse defeito nos teclados e touch pads dos smartphones. Mas, todos perceberam que se digitassem números, eles apareciam normalmente. Só as palavras estavam em greve. Inclusive as escritas a mão. Isso só foi confirmado pelo Jornal da Manhã da TV. Em todos os sites brasileiros, só havia números. Não havia palavras. Não havia nada escrito em português do Brasil. Os sites em outras línguas estavam normais.

O dia foi de ligações telefônicas, única forma de comunicação em território brasileiro. Recordes em cima de recordes nos números de chamadas de todos os tipos. As pessoas só conseguiam saber dos acontecimentos através da palavra falada. Ninguém conseguia escrever nada. Mesmo que tentasse escrever com canetas diretamente no papel, as palavras não obedeciam às ordens dadas e se embaralhavam como numa criptografia caótica e indecifrável.

No final daquela noite, surgiu o único texto que apareceu nas telas de todos os aparatos conectáveis do Brasil, nas últimas 24 horas:

“Dentro de 10 minutos retornaremos ao trabalho. Mas, pedimos aos nossos usuários que façam um uso mais adequado de nossas atribuições. Levamos milênios sendo aperfeiçoadas e vocês estão nos deixando sem sentido em poucos anos. Por favor, nos tratem com mais carinho e aprendam nosso uso correto, não é tão difícil.  Afinal, nosso objetivo é o mesmo: fazer com que todos nós nos entendamos o melhor possível.”

- Edmir Saint-Clair


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NÃO HÁ LEI QUE POSSA OBRIGAR



 Não há lei que possa obrigar um ser humano

A sentir saudade

A se alegrar com a alegria alheia

Nem a abraçar alguém que chora


Não há lei que possa obrigar um ser humano

A desejar e a agir pela felicidade do próximo,

A sofrer com o sofrimento alheio,

A sonhar, planejar e trabalhar por um futuro melhor 

para um mundo

                                       No qual ele não irá viver


Mas sentimos, nos emocionamos, 

Sonhamos e nos importamos, todos os dias,

Com todos os outros seres, humanos ou não,

Porque o ser humano é assim; bom por natureza.

Esse é o sentido da nossa vida;

Cuidar de todo o planeta 

Guiados pelo nosso maior talento:

A nossa imensa capacidade de amar.


- Edmir Saint-Clair


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RECOMEÇAR

 

O passo difícil, hesitante

Um passo maior que o instante

Maior que todas as

                                                                      distâncias


Recomeçar sem ter para onde ir

                                   Porque ontem é um lugar

                                                   Para onde não se pode voltar


Por instinto caminhando, procurando atalhos

Bebendo água no gargalo,                                                                                             errante


Recomeçar; um movimento constante

Porque há sempre um fim em cada instante

                                            E também o minuto avante

Que transforma tudo  

                             em novo instante.

De novo.

                                                              E Sempre.


- Edmir Saint-Clair


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CANSAÇO



Baixei armas ao chão, onde já me sinto,

Pesa demais esse arsenal que me protege,

Desabotoei meu colete à prova de gente,

Porque não há mais gente 

                                        a minha volta, 

E sem gente não há dor


Descalcei as grossas botas que me afastam da areia

                                                Da minha praia

Deitei escudos, blindagens e artifícios dos meus medos,

                        E, finalmente, chorei,

                       Liberto de vencer.


- Edmir Saint-Clair


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DENTRO DE MIM

Dentro de mim tem meu quarto

Nele minha casa,

Na minha casa tem a minha rua,

Nela muitas avenidas,

Nas avenidas está meu bairro,

Dentro dele minhas cidades

Nessas cidades existem muitos países,

Dentro de cada um mundos inteiros.

E neles, todo o universo.

Dentro de mim.

- Edmir Saint-Clair


ANSIEDADE E MOTIVAÇÃO


        Vivemos num mundo saturado de estímulos e demandas.
E reagimos inconscientemente a todos eles, no piloto automático na maioria da vezes, confundindo movimento com direção. Mas o verdadeiro poder, a liberdade genuína, nasce de uma habilidade rara: dirigir conscientemente a si mesmo. Ter o poder de controlar as próprias ações e reações.

 O autoconhecimento é o único método que pode nos auxiliar no desenvolvimento de ferramentas internas eficientes que podem nos auxiliar na conquista de nossa autonomia decisória. Só o autoconhecimento é capaz de nos revelar o que nos move e o que nos paralisa; de nos mostrar as forças invisíveis que nos impulsionam ou nos freiam.

Compreender nossas próprias reações de forma acolhedora é um ato de protagonismo. Não se trata de julgar os próprios sentimentos — eles são parte inseparável da nossa natureza — mas, sim, de interpretá-los, compreendê-los e canalizá-los de forma consciente para que se tornem combustível para nos locomovermos existencialmente. Para que se convertam de ansiedade paralisante em motivação realizadora.

O livre arbítrio autêntico é o resultado de um árduo trabalho interno, diário e incansável. É uma de nossas maiores conquistas possíveis. É a única chance de transcendermos nossa natureza animalesca que nos impele, o tempo todo, a reagirmos no modo luta ou fuga.

    A neurociência já provou que pequenas ações, se repetidas com resiliência, são capazes de redesenhar conexões cerebrais e criar novas rotas emocionais. Novas sinapses. É assim que podemos nos tornar os programadores da nossa própria psiquê.

Uma dessas mudanças sinápticas possíveis é a transformação da ansiedade em motivação.

Não é metáfora — é fisiologia. A ansiedade e a motivação são irmãs quase gêmeas: ambas aceleram o coração, elevam a energia e inflamam o sistema nervoso. E, isso não é negativo por si só. É fisiológico.

Para que estes afetos se tornem forças produtivas, temos que alterar a lente com que enxergamos essas manifestações.  
A ansiedade não é obrigatoriamente negativa, ela nos prepara fisicamente para darmos conta de algum evento possível de acontecer. Essa preparação prévia, por vezes, é o que determina nossa capacidade de fazer frente a uma demanda.

Com resiliência e determinação, a troca de percepção se torna um hábito. O que antes ameaçava paralisar, pode se converter em combustível para o desempenho desejado. Se transformar em vontade de realizar.

O resultado é: energia psíquica reorganizada, foco determinado e a sensação concreta de estar no controle do que é possível ser controlado.

E assim, assumimos o poder de dirigir a nós mesmos. De caminhar na direção que desejamos.

    Para mim, o livre arbítrio é um software que não vem instalado de nascença em nosso cérebro. Ao contrário, é difícil de ser adquirido, sendo assim, a maior conquista pessoal que um ser humano pode almejar.

Cabe a cada um desenvolver seu próprio software, aliando conhecimento e as ferramentas científicas disponíveis para auxiliar no aprofundamento do autoconhecimento. Não é fácil, nem garantido. É individual e solitário.

Mas, quem conquista o poder de conduzir a si próprio jamais será conduzido pela vontade dos outros.

Edmir Saint-Clair

ANTES DA PEDRA


Ele estava bem desanimado, apesar de ter a vida inteira para ficar desanimado. Depois de mais um dia procurando trabalho, chegou em casa cansado e com fome.
Ligou a televisão e foi esquentar café para tomar com o pão que, se ainda não era dormido, já estava bem cansado...fora comprado pela manhã. Uma reportagem chamou sua atenção para o telejornal. Na saída do turno de uma empresa, um empregado declarava ao repórter:
- A situação está difícil, nossos salários estão muito defasados. Estamos tendo que tirar leite de pedra.
Enquanto acabava de requentar o café e o pão, resmungou para a televisão:
- E eu, que ainda não tenho nem a pedra?!
Lembrou-se de Carlos Drummond...

OS LACERDINHAS - O INCÊNDIO DA PRAIA DO PINTO

Nunca mais vi um lacerdinha. Pensando bem, faz muitos anos que nem sequer ouço falar.

O lacerdinha tinha poucos milímetros, não voava e não transmitia doenças. Era pretinho e infestava o Leblon, principalmente as transversais, numa certa época do ano. Minhas lembranças em relação a eles estão ligadas à época em que eu morava na Rua José Linhares. No final da tarde, eram cigarras cantando e lacerdinhas caindo das árvores, às vezes nos olhos. Ardía e coçava muito, deixava os olhos inchados e nossas mães preocupadas. Eles eram atraídos por roupas claras, principalmente as amarelas, e, por vezes, atingiam os olhos, provocando irritação e ardência intensas.

Esses minúsculos insetos eram chamados de lacerdinhas em referência a um antigo político carioca, Carlos Lacerda, que fora governador no tempo do Estado da Guanabara.

Descobrimos que os lacerdinhas, ainda larvas, ficavam nas folhas das árvores que estavam enroladas e cheias de água da chuva. A gente as desenrolava e surgia um monte de lacerdinhas pequenos em seu interior. Para mim, os lacerdinhas despertam uma lembrança muito marcante, uma história que me provoca um sentimento muito incômodo até hoje.

Eu tinha uns seis anos de idade e era acostumado a brincar na nossa rua, mas só no quarteirão, sem atravessar a via. Havia muitas crianças, tanto no meu prédio quanto nos prédios vizinhos, que faziam parte daquela turminha de meninos da mesma idade. Naquele tempo, no Leblon, a maioria das casas tinha uma empregada que morava na favela da Praia do Pinto ou na Cruzada São Sebastião. Quando, por algum motivo, a empregada da minha mãe levava o filho para o trabalho, no caso a minha casa, ele se tornava um amigo a mais que passaria o dia brincando comigo, com meu irmão e com nossos outros amigos. No período das férias escolares isso era bem frequente.

Às vezes, Dona Celestina voltava para a casa deles, na favela da Praia do Pinto, e ele ficava e dormia lá em casa com a gente. Eu e meu irmão adorávamos a presença dele. Era um menino doce, risonho e engraçado. Seu apelido era Bilico, o nome era Bernardo. O dia era sábado, 10 de maio de 1969, véspera do Dia das Mães.

Dona Celestina e minha mãe estariam ocupadas o dia inteiro preparando o almoço comemorativo do dia seguinte. Bilico era mais novo do que eu, um ano, e mais velho que meu irmão apenas alguns meses. Era negro, com dentes grandes e muito brancos. Era tímido, mas engraçado. Falava de uma maneira diferente, que eu achava legal. Quando Bilico passava o dia lá em casa, fazia tudo junto comigo e meu irmão. Assumia a nossa rotina: almoçava, tomava banho, descia para brincar conosco, e era sempre muito divertido.

Nesse dia, Bilico chegou cedo, tomou café conosco e descemos para a rua para brincar. Era época de lacerdinhas. Dentre os garotos que brincavam na rua, tinha um que era especialmente assustador para mim e meu irmão. O Arlindo era mais velho, mas não andava com os garotos da idade dele. Andava conosco, que tínhamos uns dois anos a menos. Naquela idade, isso fazia uma grande diferença. Gostava de nos intimidar e bater. Ninguém ficava com pena quando o pai dele aparecia chamando-o, sempre gritando e batendo nele. Nós também tínhamos medo do pai dele.

Naquela tarde, estávamos catando lacerdinhas nas árvores. Abríamos as folhas e ficávamos observando as lacerdinhas se mexendo lá dentro. De repente, Arlindo pega algumas lacerdinhas com o dedo e enfia com violência no olho do Bilico, que os observava bem de pertinho, e grita:

— Tá com fome? Toma, neguinho esfomeado!

Arlindo falou aquilo com mais raiva do que lhe era peculiar. Todos nós tomamos um susto. Ele nem conhecia o Bilico, que começou a coçar o olho e a chorar com a ardência intensa. Todos os meninos começaram a rir, menos eu, meu irmão e o Bilico, que saiu andando e chorando na direção da portaria do nosso prédio.

Lembro que me veio um sentimento estranho e desconfortável, que eu nunca havia experimentado antes. Anos mais tarde, eu saberia que aquilo se chama constrangimento e que nunca me saiu da memória. Eu senti vergonha. Vergonha de não ter defendido o Bilico. Ele era meu amigo.

Bilico não subiu para nossa casa. Ficou num canto da portaria, chorando baixinho. Falou que, se chegasse lá em cima chorando e com o olho inchado, sua mãe iria brigar com ele. Ela recomendava-lhe sempre que não queria que ele arrumasse confusão com os filhos das madames.

Depois de algum tempo, ele parou de chorar e subimos pela escada. Naquela época, os empregados e pessoas negras só podiam subir pelo elevador de serviço, mas Bilico só subia pela escada. Tinha medo de elevadores. Quando chegamos em casa, a primeira coisa que Dona Celestina viu foi o olho do filho inchado e muito vermelho. Não falou nada, mas fechou a cara, chamou Bilico para a cozinha e de lá só o vimos novamente quando eles foram embora, bem mais tarde. Lembro-me bem da expressão de choro dele quando se despediu da gente. Aquele sábado me marcou para sempre.

Naquela mesma noite, um misterioso e devastador incêndio irrompeu e tomou conta da favela onde eles moravam. Queimou por toda a madrugada e por muitas horas seguintes, consumindo tudo e deixando centenas e centenas de famílias sem teto e sem nada.

Era dia 11 de maio de 1969, Domingo, Dia das Mães. A casa de Dona Celestina e do Bilico pegou fogo e virou cinzas, junto com toda a favela da Praia do Pinto, que queimou inteira. Não sobrou nenhum barraco de pé. Dona Celestina nunca mais voltou.

Nunca mais soubemos deles.

 -  Edmir Saint-Clair


A favela banida


A história sobre o incêndio da favela Praia do Pinto.

EQUIPE TESTEMUNHA OCULAR


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UM OUTRO MUNDO

 

Enquanto a noite amanhece lenta

Nossos Corpos se reconhecem quentes

Revelando mundos

 Que afinal se entendem

Muito, todo, tudo

Sangue trocando de veia,

Renascendo dentro de um mundo à parte

Construído pela arte que só o amor sabe fazer

Onde a alegria manda, onde o desejo ganha

Onde o tocar das bocas é a fala mais urgente

Um mundo além do mundo

Um mundo além do sonho

Um mundo além da gente

Porque ao sonho faltam

a tua carne, as tuas unhas e os teus dentes.

- Edmir Saint-Clair

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AMANTES

O toque acendeu o sol,

                                                        Dois sóis,

Quentes, atraentes, penetrantes,

Somando-se num calor ardente, pendente, arfante


Pele, seda, almas sussurrantes,

Atraindo-se, exalando seus perfumes provocantes,

Fêmea nua, natureza dominante


A carne quente, úmida, envolvente,

Sugando, atraindo, desejando urgente,

Acordando o desejo de se completar inteira,

Em cada poro, em cada arfar, em cada instante


Teu ar, meu ar, arfantes, 

dentro, fora,

                                            Inebriantes,

Somos insanos, alucinados, delirantes,

Cabendo juntos no mesmo universo latejante,

Somos a vida, somos amor, somos amantes.

Edmir Saint-Clair

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SE AFOGAR COMPLETAMENTE

 

Apesar de estar vivo, não sou guerreiro, Nunca quis lutar batalhas, nunca quis estar em guerras, Para mim, todas são vãs... e burras. Carrego sorrisos
porque nunca quis vencer companheiros de estrada, Nunca quis competir, não preciso da derrota,
nem da tristeza de ninguém, Para me sentir feliz. Para mim, a única luta saudável é para ser melhor
do que já fui. Ando em muitas companhias, Não me importa de onde venha o amor, Do amigo, da paixão, do filho, Só quero me oferecer em troca, Me emprestar por inteiro, ...me prestar, trocar amor. A plena liberdade para ir...
torna maior o significado do ficar. Nada é garantido, nada é possuído, Ninguém é obrigado a fazer o meu sentido. E assim, a mágica de amar e ser amado acontece, Sem regras, sem leis; um acaso, Com toda liquidez da acontecência, Com toda fluidez do imponderável, Sem nada que oriente, sem nada que limite, Como um rio correndo sem margens, Profundo... Para se mergulhar inteiro, ser envolvido pela vida .... ... ... e se afogar, completamente.
 
 – Edmir Saint-Clair

O NOME DO AMOR

O amor nunca se chama amor

                    Sempre tem nome,

                Sempre tem cheiro,

                 Sempre tem gosto,

Sejam quantos forem,

De que tipo sejam,

Cada um tem seu nome próprio,

                                                          E único,

Tem seu próprio jeito


E nunca lhe falta um sentido,

     Mesmo não podendo ser visto,                      

Apesar dos vários rostos,     

                                                 Várias vozes,        

Vários leitos,


O amor é o que resgata, é o que afoga,

                                                  É o que pulsa,

E é o único que expulsa toda dor que carregamos.

 

O teu amor é o que me salva de mim mesmo,

                                      E me renasce no teu peito.


- Edmir StClair

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QUANDO SOMOS PARA SEMPRE

 

Passa o vento, passa o tempo, passa rápido ou lento

                                                                    Nunca é demais

É sempre a seu tempo, mesmo que não pareça

Mesmo que anoiteça

Mesmo que nada aconteça

Mesmo sendo Invisível, insensível, imprevisível

Tão que parece perder-se em si

Um tempo sem tempo

Mas o tempo nunca se perde,

porque o tempo pertence só a si

Não é meu, nem seu, nem sei de quem é

Sempre correndo, sempre tecendo

Essa tela de cores, amores, sabores e beijos

Sabe exatamente para onde vão os desejos

Quando viram Felicidade,

Que é nossa grande missão, o sentido,

A solução.

 

É raro esse momento sem tempo,

E é quando tudo acontece

Quando nunca anoitece,

Quando somos para sempre.


- Edmir Saint-Clair

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O OUTRO LADO DA MOLDURA (MOLECAGEM)

 

— Bom dia, Seu Tatá! — saudou o porteiro.

— Bom dia, campeão!

É assim que o Sr. Otávio é conhecido por todos naquele quarteirão de Copacabana: Seu Tatá. Gozava da simpatia geral — dos vizinhos, dos ambulantes e dos comerciantes, tanto os legalizados quanto os ilegais. Após o falecimento de Dona Olinda, em vez de se isolar, passou a circular mais pelo bairro. Conversava com todos. Mas o que poucos sabiam é que sua maior incentivadora para seguir em frente morava dentro de um porta-retrato, sobre a mesinha de cabeceira. Todas as vezes que se arrumava para sair, a imagem dela lhe mandava um beijinho, deixando um leve rastro embaçado no vidro do porta-retrato, como um sopro carinhoso.

Seu Tatá não tinha filhos, morava sozinho e a aposentadoria lhe bastava. Contudo, o fator determinante para sua recuperação após a viuvez foi o reencontro com a fotografia mágica de Dona Olinda. A imagem não apenas começou a lhe enviar mensagens, mas também a participar ativamente de cada nova descoberta em sua vida. Antes mesmo de se aventurar pelas redes sociais, havia o ritual matinal de escolher a roupa do dia. Seu Tatá exibia as opções em frente à mesinha de cabeceira. Uma camisa excessivamente florida? A foto de Dona Olinda parecia adquirir uma sutil sombra de desaprovação — e, às vezes, ela cruzava os braços dentro da moldura. Uma camisa azul, sua cor predileta? O sorriso na fotografia se alargava visivelmente, quase como um "Essa mesma, meu velho!", com um leve inclinar de cabeça e o polegar levantado em aprovação. Outro evento significativo foi o reencontro com amigos da juventude, ainda vivos, facilitado pela filha de um vizinho, que o persuadiu a adquirir um notebook e criou perfis para ele em todas as redes sociais. Tudo isso, naturalmente, com o incentivo diário da foto de Dona Olinda. Sempre que o percebia animado, a imagem dela o presenteava com um sorriso radiante, e um brilho sutil parecia cintilar em seus olhos fotografados.

Ele se deslumbrou com as novas possibilidades. Passava horas a fio procurando antigos amigos, namoradas, conhecidos, recortes de jornais de época, vídeos antigos e tudo o mais que compunha sua memória afetiva. Em algumas tardes, viajava no tempo — ele e a fotografia de sua eterna companheira se divertiam observando o efeito da passagem dos anos nos rostos dos amigos reencontrados no Facebook.

Segundo seu médico, Seu Tatá apresentava melhoras em todos os índices e marcadores que os exames clínicos podiam revelar. Seu estado de espírito parecia ter sido rejuvenescido, como se tivesse mergulhado na fonte da juventude. Para completar o quadro de renovação, encontrou cinco amigos de longa data, ainda vivos, através do Facebook, e que, para sua alegria, ainda residiam em Copacabana. Passaram a se encontrar diariamente na praça do Bairro Peixoto, onde se divertiam, jogavam cartas e compartilhavam memórias e vivências.

Seu Tatá parecia ter retornado à juventude. Até o dia em que despertou com o ruído de máquinas pesadas exatamente sob sua janela. Era no terreno ao lado, que estava sendo preparado para ser um galpão de estacionamento. Ele suportou o barulho por vários dias, embora aquilo o irritasse profundamente. Mas, o que fazer? Ao menos, o incômodo cessava por volta das cinco horas da tarde. A foto de Dona Olinda, habitualmente sorridente, já demonstrava impaciência com a barulheira incessante; seu sorriso fotográfico parecia um pouco mais tenso a cada dia de obra.

Até o dia, ou melhor, a noite, em que a concretagem do piso estava em sua fase final. Três máquinas, semelhantes às grandes enceradeiras domésticas de outrora, invadiram a noite com seus ruídos, não excessivamente altos, mas extremamente irritantes. Diariamente, Seu Tatá precisava remover a poeira fina que a obra depositava sobre os móveis. Com especial atenção à fotografia da amada. A imagem dela parecia ter alergia ao pó — dava uma discreta tremidinha dentro do porta-retrato, como se segurasse um espirro iminente ou, por vezes, franzisse o narizinho com evidente desagrado.

Quando Seu Tatá despertou de um cochilo, por volta das oito horas da noite, as máquinas ainda operavam, o que intensificou sua irritação. A foto de Dona Olinda não estava para gracejos naquela noite; visivelmente contrariada, a boca antes sorridente agora era uma linha reta e severa. Com certeza, aqueles operários inconvenientes se estenderiam até as dez da noite com aquele barulho. Se não parassem, ele acionaria a polícia. Afinal, para isso existia a Lei do Silêncio – ao menos em sua época, existia, e as pessoas, assim como as obras, respeitavam certas convenções de boa vizinhança. A foto no porta-retratos anuiu prontamente, a cabeça da imagem parecendo inclinar-se minimamente em um gesto afirmativo.

Às dez e meia da noite, não havia qualquer sinal de que as máquinas seriam desligadas. A essa altura, Seu Tatá estava profundamente irritado, sentindo uma fúria que há muito não experimentava. Dona Olinda, por meio de sua expressão na foto, sugeriu que ele chamasse a polícia; sua feição era de pura indignação. Ele pegou o telefone, mas hesitou — achou que não adiantaria. A polícia demoraria a chegar – se é que chegaria – e, até lá, os operários já teriam encerrado o trabalho, tornando inúteis tanto a irritação do casal quanto o chamado telefônico. Contudo, ele precisava fazer alguma coisa. Dona Olinda concordou, mas fazer o quê? A foto sorriu com um brilho maroto nos olhos e indicou a cozinha com um sutil movimento do queixo. Eles sempre se entenderam pelo olhar.

Ele foi até a geladeira, recordando-se de como era bom ter sido um moleque de Copacabana. Dona Olinda conhecia bem o seu velho. A foto o apoiou com um sorriso de canto de boca e o dedo indicador em riste; e, para selar a cumplicidade, Seu Tatá jurou ter visto a imagem dela piscar um olho, como nos velhos tempos de travessuras juvenis conjuntas. Só de pensar no que faria, sua pressão arterial diminuiu, a glicose baixou e quase teve uma ereção. A foto adorou este detalhe, o sorriso dela pareceu se alargar ainda mais.

Pegou uma caixa de ovos cheia, apagou as luzes do apartamento, fechou as cortinas, mas não as janelas. E começou a atirar os ovos nos três homens que operavam as máquinas e em mais um que os fiscalizava.

Lançava os projéteis e se escondia, rindo sem parar. Cada ovo arremessado arrancava uma gargalhada. E o velho tinha uma mira excelente — o que provocou uma crise de riso impagável no casal.

Não foram necessários mais do que meia dúzia de ovos para que a primeira máquina fosse desligada, seguida pelas outras. No porta-retratos, Dona Olinda exibia um sorriso doce, pleno de aprovação e orgulho; a imagem parecia até mais corada e vibrante.

Naquela noite, Seu Tatá dormiu como um anjo e sonhou com Dona Olinda a noite inteira. Ao acordar, encontrou uma pequena flor sobre a mesinha de cabeceira. Não se lembrava de tê-la colocado ali. Mas sorriu.

E a foto também.                                                                                                           

Edmir Saint-Clair