PESOS E MEDIDAS
Quanto é demais? Quanto é de menos? Quanto é o certo?
A gente quer saber isso sobre
tudo. Quanto de comida satisfaz e quando começa a encher demais — você conhece
aquele ponto. Quanto de bebida alegra e o quanto entristece. Quantas horas de
trabalho realizam e quando começam a esvaziar a gente por dentro. Quanto de
sono repousa e quando vira preguiça disfarçada. Quanto de tempo com a pessoa
que amamos é presença e quando vira sufoco.
A gente procura a fórmula. Oito
horas de sono. Dois litros de água. Trinta minutos de exercício. Uma hora de
meditação. Dois filhos. Três viagens por ano. Uma conversa por semana com o
melhor amigo.
Números. Proporções. Um manual
do equilibrista.
Mas aqui é o incômodo: no fundo,
a gente já sabe que não existe fórmula.
A fenomenologia — aquela coisa
de filosofia que estuda como a consciência encontra o mundo — diz uma coisa
simples: não há medida universal porque não existe experiência universal. O meu
corpo, minha história, minha situação agora transformam tudo em singular. O que
é demais para você é de menos para mim. O que me realiza no trabalho pode te
esvaziar. A solidão que cura alguém mata outro.
Cada um descobre sua medida vivendo,
não calculando. A vida acontece no
durante.
E aí está a tensão: a gente
segue querendo a fórmula — porque fórmula é segurança, é poder dizer "fiz
certinho" — mas segue vivendo sabendo que ela não existe. Procuramos o
manual para não ter que confiar no que sentimos. E ao mesmo tempo, desconfiamos
do manual porque nada nele bate com o que a gente de fato vive.
Não é problema. É tensão. E
tensão é onde a gente existe.
A leveza, talvez, esteja em
parar de procurar o ponto de equilíbrio perfeito e aceitar que equilibrista que
caminha é aquele que se desequilibra a cada passo e volta — a cada respiração,
a cada escolha. É como andar de bicicleta, só funciona se a gente estiver em
movimento.
Edmir Saint-Clair
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