ORIENTADOR LITERÁRIO

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FORA DO COMPASSO - SUPERDOTAÇÃO

 

 "E aqueles que foram vistos dançando
 foram julgados insanos por aqueles 
que não podiam escutar a música."  
Nietzsche


Há quem passe a vida inteira para descobrir que não era errado, era diferente.

Desde cedo, essas pessoas aprendem a desconfiar de si. Não porque tenham cometido grandes erros, mas porque seu modo de estar no mundo é diferente da maioria. Sentem demais, pensam demais, perguntam demais e percebem o que os outros sequer notaram.

Tudo o que excede a medida comum costuma ser tratado, primeiro, como incômodo; depois, como defeito. E, nisso, a  mediocridade é implacável.

Na infância estão entregues a pais, escolas e a uma sociedade despreparada para lidar com neurodivergências. O que é profundidade vira complicação. O que é intensidade vira exagero. O que é lucidez vira inquietação. O que é sensibilidade vira fraqueza. E assim se inicia, pouco a pouco, dia a dia, a pedagogia do estreitamento. A pessoa aprende a reduzir o gesto, a conter frases, a domesticar o espanto. Aprende a não ir tão fundo, porque profundidade demais afasta. Aprende a não mostrar tanto, porque visibilidade demais incomoda. Aprende, enfim, a tornar-se suportável.
O nome dessa mutilação é adaptação.

Com o tempo, instala-se um mal-entendido mais grave do que todos os outros. Já não são apenas os demais que interpretam mal aquela natureza; a própria pessoa passa a fazê-lo. E não há forma de solidão mais insidiosa do que essa: viver dentro de si como quem ocupa uma casa estranha.

A pessoa segue. Estuda, trabalha, ama como pode, fracassa um pouco, acerta um pouco, cumpre as cerimônias das idades. Por fora, nada necessariamente a distingue de modo espetacular. Mas por dentro permanece uma sensação difícil de explicar: a de que há sempre alguma dissonância entre o que se é e o modo como a vida exige que se seja. Não chega a ser tristeza. É, antes, uma sensação de desencontro contínuo.

Quando a hipótese de superdotação surge tarde, ela não vem como triunfo. Vem como revisão. Não há fanfarra na descoberta de uma chave que chega depois de tantas portas já fechadas. O que aparece, primeiro, não é orgulho, mas espanto. De repente, coisas antigas mudam de lugar. Certas feridas perdem o nome com que foram carregadas durante anos. Certas culpas se revelam mal atribuídas. Certos sofrimentos deixam de parecer fraqueza pessoal e passam a pertencer a outro campo: o da incompreensão, o do desajuste entre uma vida interior mais aguda e um ambiente incapaz de reconhecê-la.

É como se uma pessoa falasse um idioma que menos de 1 por cento de toda a humanidade consegue entender e falar fluentemente. Além disso, parece que esses menos de 1 por cento foram espalhados aleatoriamente pelo imenso mundo inteiro, tornando extremamente difícil encontrar um semelhante.

Não se trata de vaidade retrospectiva. Ao contrário: a descoberta tardia quase sempre nos torna apenas mais conscientes, no sentido mais nobre da palavra. Ela nos põe diante do quanto se viveu sob um diagnóstico vulgar da própria alma. O sujeito não se sente engrandecido; sente-se, muitas vezes, roubado. Não de glória. Não de excepcionalidade, mas de compreensão e de acolhimento. Dói ser diferente.

Porque há destinos que não se deformam por falta de talento, e sim por falta de leitura. A pessoa atravessa décadas sendo elogiada por capacidades parciais e, ao mesmo tempo, sendo mal compreendida naquilo que mais a constitui. Chamam-na inteligente, mas não alcançam sua fome de sentido. Chamam-na sensível, mas sem tocar a extensão de sua vida afetiva. Chamam-na exigente, quando talvez estivesse apenas tentando respirar num mundo excessivamente raso para ela. O elogio, nesses casos, não compensa o equívoco. Apenas o enfeita.

Talvez a pior consequência de nunca ter sido percebido como tal pela família, pelos amigos, pelos pares, não seja a ausência de reconhecimento externo. Seja a lenta construção de uma autobiografia injusta. A pessoa começa a contar a si mesma a versão empobrecida de sua própria história. Convence-se de que exagerou onde apenas sentiu com inteireza. De que complicou onde apenas viu demais. De que falhou em adaptar-se onde, na verdade, preservou alguma fidelidade silenciosa à própria essência.

Durante muito tempo, vive-se sob o império dessas falsas versões. E falsas versões da vida cobram caro.

Cobram em escolhas aquém de si, em vínculos onde nunca houve real encontro, em profissões que serviram à sobrevivência, mas não à própria essência. Cobram em fadiga moral, nessa exaustão de ter de simplificar-se para ser amado. Cobram em autocensura, essa disciplina triste de amputar o que não encontra acolhida. Cobram numa forma de culpa sem crime: a culpa de existir em frequência diversa, diferente. A culpa de ter nascido como é.

Quando esse nome chega tarde, ele traz alívio, sem dúvida. Há uma paz possível em finalmente compreender que nem tudo era desordem, nem tudo era excesso, nem tudo era falha de caráter. Há uma delicadeza nova em olhar para trás e reconhecer que talvez se tenha sido apenas mal lido. Mas o alívio não vem só. Traz consigo uma sombra inevitável: a consciência do tempo. Tempo gasto em corrigir a própria natureza para caber no conforto alheio.

Toda verdade tardia tem alguma coisa de redenção. Não porque anuncie o fim, mas porque nos obriga a rever o que ficou para trás sob outra luz. E essa luz, embora libertadora, não é indulgente. Ela mostra não apenas o que fomos, mas o que deixamos de ser para continuarmos pertencendo. Mostra a quantidade de energia investida em parecer simples, leve, administrável. Revela o preço de ter vivido por décadas uma tradução precária de si mesmo.

Há tristezas que nascem do sofrimento. Outras, mais finas, nascem da clareza. Da consciência.

Talvez por isso a descoberta tardia tenha essa dupla natureza: consola e fere. Consola, porque recolhe a dispersão numa forma finalmente inteligível. Fere, porque não restitui o que foi perdido sob o signo do engano. O passado não se deixa reescrever; no máximo, consente em ser relido. E há releituras que doem mais do que o próprio acontecimento, porque chegam quando já não se pode corrigir quase nada.

Ainda assim, alguma reparação existe. Não a reparação ingênua, que fantasia renascimentos completos. Mas outra, mais sóbria e mais alta: a interrupção da injustiça. Depois de certo ponto, a pessoa pode ao menos parar de acusar-se por ser o que é. Pode cessar a tentativa de reduzir-se para tranquilizar o mundo. Pode abandonar a antiga vergonha de sua intensidade, de sua complexidade, de sua maneira menos dócil de existir.

Isso não devolve a infância. Não refaz a família. Não corrige os anos gastos em equívocos. Mas devolve uma dignidade essencial: a de se saber quem é profundamente. E a dignidade insubstituível do autorreconhecimento.

Talvez seja isso o que mais importa quando encontramos uma gaveta na qual cabemos como uma luva. Afinal, ela existe e não se está mais sozinho dentro dela. Há outras pessoas, mesmo que poucas, há outros...
E então sobrevém uma forma rara de paz: não a paz dos inocentes, mas a dos que finalmente se compreendem.

No fim, talvez nunca tenha havido excesso. Houve apenas uma vida interior mais vasta do que as molduras oferecidas. E viver em molduras estreitas cria a ilusão de que a deformidade está no que transborda, nunca no limite do recipiente.

Descobrir-se tarde é olhar para trás e perceber que talvez nunca tenha faltado equilíbrio. Faltou um ambiente capaz de reconhecer que certas pessoas não funcionam em baixa voltagem. Não porque sejam melhores, mas porque nasceram diferentes. Mais porosas ao detalhe. Mais famintas de coerência. Mais vulneráveis ao tédio. Mais exigentes de sentido. Para quem passou uma vida inteira sendo lido no idioma errado, ser finalmente compreendido já tem o status de redenção. E, então, viver não dói mais.

É libertador saber que a nossa neurodivergência tem um nome, é redentor saber que os seres humanos que mais contribuíram para o progresso e qualidade de vida de toda a humanidade são da mesma tribo. Porque os portadores de superdotação geralmente não colhem fruto algum de suas altas habilidades mas, via de regra, deixam magníficas contribuições em todos os campos do conhecimento, para que todos os outros seres, humanos ou não, tenham uma vida melhor.

Edmir Saint-Clair

QUANTO MAIS VIDA MELHOR

 

        Há amizades que atravessam décadas como certas casas antigas: permanecem de pé, mas não sem reformas. Quem espera encontrar nelas exatamente a mesma mobília, os mesmos ruídos, a mesma desordem juvenil, talvez não esteja buscando amizade, mas taxidermia emocional. Porque o afeto verdadeiro não congela; ele amadurece ou, pelo menos, deveria. E, se amadurece, muda de tom, de ritmo, de necessidade.

Existe uma tentação sentimental em acreditar que os velhos amigos nos autorizam a voltar a ser quem fomos um dia no passado. Como se a intimidade fosse um salvo-conduto para a repetição, para a falta de polidez que o tempo nos ensina que não devemos ter com nossas relações mais caras. Mas não basta reunir meia dúzia de memórias, dois apelidos gastos e algumas histórias indecentes para ressuscitar a juventude. Nem sempre o que retorna vem carregado de vida. Às vezes, vem apenas como um assustado espasmo de quem implora para não olhar o espelho.

Há um ponto em que tentar repetir gestos de outros tempos deixa de ser espontaneidade e passa a ser negação. Não da alegria, que é sempre bem-vinda, mas do próprio curso da vida. Certos comportamentos, quando deslocados de seu tempo, não recuperam frescor: revelam esforço inútil. E esforço demais para parecer jovem produz melancolia disfarçada de euforia. O ridículo, nesse caso, não está em rir alto, exagerar um pouco ou cometer uma imprudência inocente. Está em imaginar que só há vitalidade onde ainda houver traços de uma juventude que não existe mais.

Amizades não são belas porque nos devolvem ao que fomos. São belas porque acompanham o que nos tornamos.

Porque suportam o peso das perdas, a mudança do corpo, o estreitamento de certas paciências, a ampliação dos silêncios. Já não se precisa do excesso para provar intensidade. Há vínculos que, quando amadurecem, trocam a estridência pelo acolhimento. E isso não é empobrecimento. É depuração.


Talvez uma das formas mais escondidas de vazio seja essa recusa visceral de envelhecer que se traveste de irreverência. A pessoa se agarra aos trejeitos, aos impulsos, ao vocabulário, ao repertório de um outro tempo como quem tenta detê-lo. Não percebe que o que comove na juventude não é o gesto, mas a sua coincidência com aquele momento da vida. Fora dali, o mesmo gesto pode soar não como liberdade, mas como desencontro patético.


Há uma elegância rara em aceitar que o tempo não nos diminui quando o acompanhamos de mãos dadas. Ao contrário: ele nos acrescenta espessura. Cada idade tem suas delicadezas, sua voltagem própria, seu modo particular de desejar, de rir, de se comover e de permanecer. O encanto não está em fraudar a passagem dos anos, mas em descobrir o que cada etapa nos oferece em troca daquilo que nos retira. Há perdas, sem dúvida. Algumas amizades passam, outras ficam. Como tudo na vida.

As que ficam são aquelas que não exigem de ninguém a encenação de uma versão antiga de nós mesmos. Porque todas as idades tem vida para ser vivida.E quanto mais vida, melhor.

Edmir Saint--Clair

ANSIEDADE E MOTIVAÇÃO


        Vivemos num mundo saturado de estímulos e demandas.
E reagimos inconscientemente a todos eles, no piloto automático na maioria da vezes, confundindo movimento com direção. Mas o verdadeiro poder, a liberdade genuína, nasce de uma habilidade rara: dirigir conscientemente a si mesmo. Ter o poder de controlar as próprias ações e reações.

 O autoconhecimento é o único método que pode nos auxiliar no desenvolvimento de ferramentas internas eficientes que podem nos auxiliar na conquista de nossa autonomia decisória. Só o autoconhecimento é capaz de nos revelar o que nos move e o que nos paralisa; de nos mostrar as forças invisíveis que nos impulsionam ou nos freiam.

Compreender nossas próprias reações de forma acolhedora é um ato de protagonismo. Não se trata de julgar os próprios sentimentos — eles são parte inseparável da nossa natureza — mas, sim, de interpretá-los, compreendê-los e canalizá-los de forma consciente para que se tornem combustível para nos locomovermos existencialmente. Para que se convertam de ansiedade paralisante em motivação realizadora.

O livre arbítrio autêntico é o resultado de um árduo trabalho interno, diário e incansável. É uma de nossas maiores conquistas possíveis. É a única chance de transcendermos nossa natureza animalesca que nos impele, o tempo todo, a reagirmos no modo luta ou fuga.

    A neurociência já provou que pequenas ações, se repetidas com resiliência, são capazes de redesenhar conexões cerebrais e criar novas rotas emocionais. Novas sinapses. É assim que podemos nos tornar os programadores da nossa própria psiquê.

Uma dessas mudanças sinápticas possíveis é a transformação da ansiedade em motivação.

Não é metáfora — é fisiologia. A ansiedade e a motivação são irmãs quase gêmeas: ambas aceleram o coração, elevam a energia e inflamam o sistema nervoso. E, isso não é negativo por si só. É fisiológico.

Para que estes afetos se tornem forças produtivas, temos que alterar a lente com que enxergamos essas manifestações.  
A ansiedade não é obrigatoriamente negativa, ela nos prepara fisicamente para darmos conta de algum evento possível de acontecer. Essa preparação prévia, por vezes, é o que determina nossa capacidade de fazer frente a uma demanda.

Com resiliência e determinação, a troca de percepção se torna um hábito. O que antes ameaçava paralisar, pode se converter em combustível para o desempenho desejado. Se transformar em vontade de realizar.

O resultado é: energia psíquica reorganizada, foco determinado e a sensação concreta de estar no controle do que é possível ser controlado.

E assim, assumimos o poder de dirigir a nós mesmos. De caminhar na direção que desejamos.

    Para mim, o livre arbítrio é um software que não vem instalado de nascença em nosso cérebro. Ao contrário, é difícil de ser adquirido, sendo assim, a maior conquista pessoal que um ser humano pode almejar.

Cabe a cada um desenvolver seu próprio software, aliando conhecimento e as ferramentas científicas disponíveis para auxiliar no aprofundamento do autoconhecimento. Não é fácil, nem garantido. É individual e solitário.

Mas, quem conquista o poder de conduzir a si próprio jamais será conduzido pela vontade dos outros.

Edmir Saint-Clair

ANTES DA PEDRA


Ele estava bem desanimado, apesar de ter a vida inteira para ficar desanimado. Depois de mais um dia procurando trabalho, chegou em casa cansado e com fome.
Ligou a televisão e foi esquentar café para tomar com o pão que, se ainda não era dormido, já estava bem cansado...fora comprado pela manhã. Uma reportagem chamou sua atenção para o telejornal. Na saída do turno de uma empresa, um empregado declarava ao repórter:
- A situação está difícil, nossos salários estão muito defasados. Estamos tendo que tirar leite de pedra.
Enquanto acabava de requentar o café e o pão, resmungou para a televisão:
- E eu, que ainda não tenho nem a pedra?!
Lembrou-se de Carlos Drummond...

OS LACERDINHAS - O INCÊNDIO DA PRAIA DO PINTO

Nunca mais vi um lacerdinha. Pensando bem, faz muitos anos que nem sequer ouço falar.

O lacerdinha tinha poucos milímetros, não voava e não transmitia doenças. Era pretinho e infestava o Leblon, principalmente as transversais, numa certa época do ano. Minhas lembranças em relação a eles estão ligadas à época em que eu morava na Rua José Linhares. No final da tarde, eram cigarras cantando e lacerdinhas caindo das árvores, às vezes nos olhos. Ardía e coçava muito, deixava os olhos inchados e nossas mães preocupadas. Eles eram atraídos por roupas claras, principalmente as amarelas, e, por vezes, atingiam os olhos, provocando irritação e ardência intensas.

Esses minúsculos insetos eram chamados de lacerdinhas em referência a um antigo político carioca, Carlos Lacerda, que fora governador no tempo do Estado da Guanabara.

Descobrimos que os lacerdinhas, ainda larvas, ficavam nas folhas das árvores que estavam enroladas e cheias de água da chuva. A gente as desenrolava e surgia um monte de lacerdinhas pequenos em seu interior. Para mim, os lacerdinhas despertam uma lembrança muito marcante, uma história que me provoca um sentimento muito incômodo até hoje.

Eu tinha uns seis anos de idade e era acostumado a brincar na nossa rua, mas só no quarteirão, sem atravessar a via. Havia muitas crianças, tanto no meu prédio quanto nos prédios vizinhos, que faziam parte daquela turminha de meninos da mesma idade. Naquele tempo, no Leblon, a maioria das casas tinha uma empregada que morava na favela da Praia do Pinto ou na Cruzada São Sebastião. Quando, por algum motivo, a empregada da minha mãe levava o filho para o trabalho, no caso a minha casa, ele se tornava um amigo a mais que passaria o dia brincando comigo, com meu irmão e com nossos outros amigos. No período das férias escolares isso era bem frequente.

Às vezes, Dona Celestina voltava para a casa deles, na favela da Praia do Pinto, e ele ficava e dormia lá em casa com a gente. Eu e meu irmão adorávamos a presença dele. Era um menino doce, risonho e engraçado. Seu apelido era Bilico, o nome era Bernardo. O dia era sábado, 10 de maio de 1969, véspera do Dia das Mães.

Dona Celestina e minha mãe estariam ocupadas o dia inteiro preparando o almoço comemorativo do dia seguinte. Bilico era mais novo do que eu, um ano, e mais velho que meu irmão apenas alguns meses. Era negro, com dentes grandes e muito brancos. Era tímido, mas engraçado. Falava de uma maneira diferente, que eu achava legal. Quando Bilico passava o dia lá em casa, fazia tudo junto comigo e meu irmão. Assumia a nossa rotina: almoçava, tomava banho, descia para brincar conosco, e era sempre muito divertido.

Nesse dia, Bilico chegou cedo, tomou café conosco e descemos para a rua para brincar. Era época de lacerdinhas. Dentre os garotos que brincavam na rua, tinha um que era especialmente assustador para mim e meu irmão. O Arlindo era mais velho, mas não andava com os garotos da idade dele. Andava conosco, que tínhamos uns dois anos a menos. Naquela idade, isso fazia uma grande diferença. Gostava de nos intimidar e bater. Ninguém ficava com pena quando o pai dele aparecia chamando-o, sempre gritando e batendo nele. Nós também tínhamos medo do pai dele.

Naquela tarde, estávamos catando lacerdinhas nas árvores. Abríamos as folhas e ficávamos observando as lacerdinhas se mexendo lá dentro. De repente, Arlindo pega algumas lacerdinhas com o dedo e enfia com violência no olho do Bilico, que os observava bem de pertinho, e grita:

— Tá com fome? Toma, neguinho esfomeado!

Arlindo falou aquilo com mais raiva do que lhe era peculiar. Todos nós tomamos um susto. Ele nem conhecia o Bilico, que começou a coçar o olho e a chorar com a ardência intensa. Todos os meninos começaram a rir, menos eu, meu irmão e o Bilico, que saiu andando e chorando na direção da portaria do nosso prédio.

Lembro que me veio um sentimento estranho e desconfortável, que eu nunca havia experimentado antes. Anos mais tarde, eu saberia que aquilo se chama constrangimento e que nunca me saiu da memória. Eu senti vergonha. Vergonha de não ter defendido o Bilico. Ele era meu amigo.

Bilico não subiu para nossa casa. Ficou num canto da portaria, chorando baixinho. Falou que, se chegasse lá em cima chorando e com o olho inchado, sua mãe iria brigar com ele. Ela recomendava-lhe sempre que não queria que ele arrumasse confusão com os filhos das madames.

Depois de algum tempo, ele parou de chorar e subimos pela escada. Naquela época, os empregados e pessoas negras só podiam subir pelo elevador de serviço, mas Bilico só subia pela escada. Tinha medo de elevadores. Quando chegamos em casa, a primeira coisa que Dona Celestina viu foi o olho do filho inchado e muito vermelho. Não falou nada, mas fechou a cara, chamou Bilico para a cozinha e de lá só o vimos novamente quando eles foram embora, bem mais tarde. Lembro-me bem da expressão de choro dele quando se despediu da gente. Aquele sábado me marcou para sempre.

Naquela mesma noite, um misterioso e devastador incêndio irrompeu e tomou conta da favela onde eles moravam. Queimou por toda a madrugada e por muitas horas seguintes, consumindo tudo e deixando centenas e centenas de famílias sem teto e sem nada.

Era dia 11 de maio de 1969, Domingo, Dia das Mães. A casa de Dona Celestina e do Bilico pegou fogo e virou cinzas, junto com toda a favela da Praia do Pinto, que queimou inteira. Não sobrou nenhum barraco de pé. Dona Celestina nunca mais voltou.

Nunca mais soubemos deles.

 -  Edmir Saint-Clair


A favela banida


A história sobre o incêndio da favela Praia do Pinto.

EQUIPE TESTEMUNHA OCULAR


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O OUTRO LADO DA MOLDURA (MOLECAGEM)

 

— Bom dia, Seu Tatá! — saudou o porteiro.

— Bom dia, campeão!

É assim que o Sr. Otávio é conhecido por todos naquele quarteirão de Copacabana: Seu Tatá. Gozava da simpatia geral — dos vizinhos, dos ambulantes e dos comerciantes, tanto os legalizados quanto os ilegais. Após o falecimento de Dona Olinda, em vez de se isolar, passou a circular mais pelo bairro. Conversava com todos. Mas o que poucos sabiam é que sua maior incentivadora para seguir em frente morava dentro de um porta-retrato, sobre a mesinha de cabeceira. Todas as vezes que se arrumava para sair, a imagem dela lhe mandava um beijinho, deixando um leve rastro embaçado no vidro do porta-retrato, como um sopro carinhoso.

Seu Tatá não tinha filhos, morava sozinho e a aposentadoria lhe bastava. Contudo, o fator determinante para sua recuperação após a viuvez foi o reencontro com a fotografia mágica de Dona Olinda. A imagem não apenas começou a lhe enviar mensagens, mas também a participar ativamente de cada nova descoberta em sua vida. Antes mesmo de se aventurar pelas redes sociais, havia o ritual matinal de escolher a roupa do dia. Seu Tatá exibia as opções em frente à mesinha de cabeceira. Uma camisa excessivamente florida? A foto de Dona Olinda parecia adquirir uma sutil sombra de desaprovação — e, às vezes, ela cruzava os braços dentro da moldura. Uma camisa azul, sua cor predileta? O sorriso na fotografia se alargava visivelmente, quase como um "Essa mesma, meu velho!", com um leve inclinar de cabeça e o polegar levantado em aprovação. Outro evento significativo foi o reencontro com amigos da juventude, ainda vivos, facilitado pela filha de um vizinho, que o persuadiu a adquirir um notebook e criou perfis para ele em todas as redes sociais. Tudo isso, naturalmente, com o incentivo diário da foto de Dona Olinda. Sempre que o percebia animado, a imagem dela o presenteava com um sorriso radiante, e um brilho sutil parecia cintilar em seus olhos fotografados.

Ele se deslumbrou com as novas possibilidades. Passava horas a fio procurando antigos amigos, namoradas, conhecidos, recortes de jornais de época, vídeos antigos e tudo o mais que compunha sua memória afetiva. Em algumas tardes, viajava no tempo — ele e a fotografia de sua eterna companheira se divertiam observando o efeito da passagem dos anos nos rostos dos amigos reencontrados no Facebook.

Segundo seu médico, Seu Tatá apresentava melhoras em todos os índices e marcadores que os exames clínicos podiam revelar. Seu estado de espírito parecia ter sido rejuvenescido, como se tivesse mergulhado na fonte da juventude. Para completar o quadro de renovação, encontrou cinco amigos de longa data, ainda vivos, através do Facebook, e que, para sua alegria, ainda residiam em Copacabana. Passaram a se encontrar diariamente na praça do Bairro Peixoto, onde se divertiam, jogavam cartas e compartilhavam memórias e vivências.

Seu Tatá parecia ter retornado à juventude. Até o dia em que despertou com o ruído de máquinas pesadas exatamente sob sua janela. Era no terreno ao lado, que estava sendo preparado para ser um galpão de estacionamento. Ele suportou o barulho por vários dias, embora aquilo o irritasse profundamente. Mas, o que fazer? Ao menos, o incômodo cessava por volta das cinco horas da tarde. A foto de Dona Olinda, habitualmente sorridente, já demonstrava impaciência com a barulheira incessante; seu sorriso fotográfico parecia um pouco mais tenso a cada dia de obra.

Até o dia, ou melhor, a noite, em que a concretagem do piso estava em sua fase final. Três máquinas, semelhantes às grandes enceradeiras domésticas de outrora, invadiram a noite com seus ruídos, não excessivamente altos, mas extremamente irritantes. Diariamente, Seu Tatá precisava remover a poeira fina que a obra depositava sobre os móveis. Com especial atenção à fotografia da amada. A imagem dela parecia ter alergia ao pó — dava uma discreta tremidinha dentro do porta-retrato, como se segurasse um espirro iminente ou, por vezes, franzisse o narizinho com evidente desagrado.

Quando Seu Tatá despertou de um cochilo, por volta das oito horas da noite, as máquinas ainda operavam, o que intensificou sua irritação. A foto de Dona Olinda não estava para gracejos naquela noite; visivelmente contrariada, a boca antes sorridente agora era uma linha reta e severa. Com certeza, aqueles operários inconvenientes se estenderiam até as dez da noite com aquele barulho. Se não parassem, ele acionaria a polícia. Afinal, para isso existia a Lei do Silêncio – ao menos em sua época, existia, e as pessoas, assim como as obras, respeitavam certas convenções de boa vizinhança. A foto no porta-retratos anuiu prontamente, a cabeça da imagem parecendo inclinar-se minimamente em um gesto afirmativo.

Às dez e meia da noite, não havia qualquer sinal de que as máquinas seriam desligadas. A essa altura, Seu Tatá estava profundamente irritado, sentindo uma fúria que há muito não experimentava. Dona Olinda, por meio de sua expressão na foto, sugeriu que ele chamasse a polícia; sua feição era de pura indignação. Ele pegou o telefone, mas hesitou — achou que não adiantaria. A polícia demoraria a chegar – se é que chegaria – e, até lá, os operários já teriam encerrado o trabalho, tornando inúteis tanto a irritação do casal quanto o chamado telefônico. Contudo, ele precisava fazer alguma coisa. Dona Olinda concordou, mas fazer o quê? A foto sorriu com um brilho maroto nos olhos e indicou a cozinha com um sutil movimento do queixo. Eles sempre se entenderam pelo olhar.

Ele foi até a geladeira, recordando-se de como era bom ter sido um moleque de Copacabana. Dona Olinda conhecia bem o seu velho. A foto o apoiou com um sorriso de canto de boca e o dedo indicador em riste; e, para selar a cumplicidade, Seu Tatá jurou ter visto a imagem dela piscar um olho, como nos velhos tempos de travessuras juvenis conjuntas. Só de pensar no que faria, sua pressão arterial diminuiu, a glicose baixou e quase teve uma ereção. A foto adorou este detalhe, o sorriso dela pareceu se alargar ainda mais.

Pegou uma caixa de ovos cheia, apagou as luzes do apartamento, fechou as cortinas, mas não as janelas. E começou a atirar os ovos nos três homens que operavam as máquinas e em mais um que os fiscalizava.

Lançava os projéteis e se escondia, rindo sem parar. Cada ovo arremessado arrancava uma gargalhada. E o velho tinha uma mira excelente — o que provocou uma crise de riso impagável no casal.

Não foram necessários mais do que meia dúzia de ovos para que a primeira máquina fosse desligada, seguida pelas outras. No porta-retratos, Dona Olinda exibia um sorriso doce, pleno de aprovação e orgulho; a imagem parecia até mais corada e vibrante.

Naquela noite, Seu Tatá dormiu como um anjo e sonhou com Dona Olinda a noite inteira. Ao acordar, encontrou uma pequena flor sobre a mesinha de cabeceira. Não se lembrava de tê-la colocado ali. Mas sorriu.

E a foto também.                                                                                                           

Edmir Saint-Clair




A DESPEDIDA


Eu tinha 17 anos e era feliz. O verão dourava a pele e a vida corria fácil. Até o dia em que meu pai chegou do trabalho e falou sem a menor cerimônia:

− Vamos morar em Brasília.

Ouvi claramente, mas custei a processar a informação. Ninguém naquela mesa de jantar esboçou reação alguma. O silêncio foi sepulcral. Respirei fundo. Levantei-me e percorri o caminho até sair pela porta de casa, anestesiado. Estava em choque. O pensamento seguinte foi nos amigos, nas meninas que mal começara a conhecer e nos meus planos, e deles não constava morar em Brasília. Não sabia como lidar com aquela enxurrada de emoções e sentimentos que me tomaram e fervilhavam por todo meu corpo.

A partir daquele instante minha vida mudaria para sempre e, por algum motivo, eu percebi isso com uma clareza assustadora.

Resolvi que não contaria aos amigos. Não por enquanto. De preferência nunca. Não sabia por quê. Talvez por receio de que eles não sentissem a mesma tristeza que eu estava sentindo.

Mas a notícia se espalhou, meu irmão e irmã não pensavam como eu.

Meu primeiro amigo a saber me surpreendeu por sua reação: ficou triste e demonstrou. Fiquei mais triste ainda, não esperava essa reação, ele era um gaiato, fazia piada com tudo, mas dessa vez não fez.

As coisas estavam mudando. Os amigos e amigas foram cúmplices de momentos de tristeza e outras emoções desconcertantes e inéditas que me aconteceriam dali para frente, típicos daqueles melodramas adolescentes baratos que eu detestaria não ter vivido pessoalmente. Se por um lado a tristeza era presente, por outro, nunca havia me sentido tão querido por todos.

Meu pai tentou nos consolar, nos prometendo deixar o apartamento da família intacto para que pudéssemos vir ao Rio sempre que possível.  Num futuro muito próximo, isso faria uma enorme diferença no curso da minha vida.

Na noite véspera de Natal, depois de passarmos a meia-noite cada um em sua respectiva casa dos pais, fomos nos encontrar na casa do Marquinho. Cada um de meus amigos, em separado, me falou alguma coisa carinhosa que marcou aquela noite de forma indelével.

Antes de voltar para casa, caminhei sozinho pela praia da minha cidade chamada Leblon. Caminhei por minha infância, meus primeiros amigos na Rua José Linhares, na Bartolomeu Mitre, por minha adolescência no Campestre (clube tradicional do Leblon), no Santo Agostinho... Lugares icônicos do bairro e da Cidade Maravilhosa: o bar Clipper, a lanchonete BB Lanches, Balada Sucos, Petit Fours, Pizzaria Guanabara (Baixo Leblon). Cada rua e cada canto com suas muitas histórias, todas partes inseparáveis de mim.

O tempo começou a passar mais rápido e nunca mais passaria devagar. Nunca mais.

Dia da partida.

Pedi a todos que não fossem ao aeroporto, que se despedissem de mim ali mesmo, na praia. Há semanas eu me despedia, estava cansado, muito cansado. O voo para Brasília estava marcado para o final da tarde.

Acordei cedo e a primeira coisa que pensei foi nos meus óculos escuros. Meus olhos já acordaram chorando. Me demorei na cama, me demorei no banheiro, me demorei na esperança de que o tempo se demorasse também.

Desde o dia em que soube que iria embora, comecei a prestar mais atenção em tudo e em todos que me rodeavam a vida toda e que até aquele momento eram apenas parte da paisagem diária. Desde o porteiro até os portugueses do bar, Seu Joaquim e Seu Antônio. Não posso esquecer-me da Dona Maria!

Parecem os nomes mais óbvios para personagens caricatos de portugueses donos de Botequim no Rio. Mas, esses são de pessoas absolutamente reais que tinham exatamente esses nomes. E, são ainda mais peculiares do que qualquer personagem fictício já criado. Uma das coisas que eu sempre achei curioso demais neles, era o fato de, durante anos a fio, encontrar com eles tarde da noite, depois de fecharem o bar, andando muito lentamente pela rua principal do Leblon, e sempre na mesma formação: o Seu Antônio na frente carregando uma sacola, seguido pela Dona Maria, a uns dois passos atrás, sempre carregando mais sacolas do que ele. Um hábito curioso e estranho. Eles não andavam juntos. Eles andavam separados, indo para o mesmo lugar. Eram casados e já aparentavam idade.

O terceiro sócio do bar, o Seu Joaquim, era um capítulo à parte. Completamente lesado. Ele era tão confuso que alguns sacanas davam uma nota de cinco para pagar algo de 10 e ainda levavam troco.

O certo é que naqueles dias tudo e todos haviam adquirido um significado profundo e já faziam parte da minha saudade. Parei no bar para comprar cigarros e até a atrapalhação do seu Joaquim com o troco, que sempre me irritava, desta vez me provocou ternura. Cheguei à praia mais cedo que o de costume e caminhei pela areia, perto do mar, até o final do Leblon. Como sempre fizera, mas nunca como naquela manhã.

Eu estava começando a trilhar um caminho que ainda não conhecia.

Havia passado toda minha vida naquelas areias sob os olhares dos gigantes de pedra que, agora, pareciam estar tristes por minha partida. Os gigantes eram o morro Dois Irmãos, no final do Leblon, nossos guardiões, meus irmãos...

Olhei, tentando reter aquela imagem, fotografá-la, aprisionar na memória cada detalhe daquelas montanhas sagradas. Fixar-me naquela paisagem, imprimi-las na parte mais profunda do meu ser, me agarrando a elas como se fossem desaparecer no minuto seguinte.

Caminhando de volta, comecei a encontrar os amigos. Ritinha foi a primeira a me encontrar, ela me fizera sentir amado naquele verão, quando o sol dourou nossa pele e nos fez feliz. Meus amigos foram chegando aos poucos e, um a um, sentaram-se ao meu lado, calados. Uma incomum formação visual de garotos e pranchas de surf coloridas e alinhadas na beira do mar da praia do Leblon. Cada um com suas pranchas, mas ninguém dentro d'água. O mar estava vazio.

Despedi-me e fui para casa, estava muito difícil ficar ali.

Chegou à hora. Entrei no carro e fomos para o Aeroporto do Galeão, eu, meus pais e meus irmãos. Ao chegar à entrada, a primeira coisa que vi foram meus amigos, tinham ido de surpresa no carro do Bode e na Kombi lotada do porteiro de um dos prédios do Condomínio dos Jornalistas. Foi um dos momentos mais emocionantes que vivi em toda minha vida. Como foi bom vê-los. Uma emoção profunda. Inesperada, comovente e inesquecível.

Eu sabia que estava vivendo um dos momentos mais marcantes da minha vida. Uma consciência da importância daquele momento, da eternidade daqueles instantes.

Meu desejo era abraçar todos ao mesmo tempo e nunca mais ir embora dali, viver para sempre no saguão do Aeroporto do Galeão. Mas, eu tinha que ir embora.

A vocês, meus amigos e amigas, minha mais profunda gratidão por me fazerem sentir tão querido e tão amado. Vocês, assim como os gigantes de pedra, estarão para sempre em minhas lembranças e em minha alma eternamente.

A você, doce Ritinha, obrigado pelo desmaio no aeroporto, por seu carinho e pelo seu lindo coração.

Muito obrigado pelo amor de todos vocês.

Uma semana depois, eu estava de volta!

 - Edmir Saint-Clair




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COMO ENCONTRAR O SEU ANJO – GUIA PRÁTICO


        Todos gostaríamos de ter nosso próprio anjo da guarda, exclusivo, nos protegendo, nos acompanhando e fazendo nossa guarda dia e noite.

Com este guia prático você vai ver que isto é possível, basta vencer a barreira do absurdo. Isso é muito fácil, já que ela não existe mesmo.

Para começar a procurar seu anjo faça o oposto, identifique seu demônio particular. Esses dias estressantes facilitam bastante essa tarefa, e a toda hora ele se manifesta. Primeiro, perceba que seu principal antagonista é você mesmo. Somos nossos piores e mais implacáveis sabotadores e críticos. Se a gente pudesse quebrar a própria cara, de vez em quando, não seríamos assim.

Por isso, se não podemos vencê-lo, juntemo-nos a ele, no caso, a nós mesmos. Às vezes, transformamos nossas próprias vidas num verdadeiro inferno, como se estivéssemos com o diabo no corpo, nesses momentos, não vacile, atraque-se com seu capeta e mostre quem manda na porra toda.

A primeira providência é, numa ocasião propícia, convidar seu crítico para conversar. Ofereça-lhe um chazinho, todo crítico adora um chazinho. Durante a conversa, faça-o ver que ele o está se criticando muito severamente e revele a grande verdade, ele é você. No começo ele pode relutar um pouco, mas depois, fatalmente terá que concordar. Ou então, se interne logo porque seu caso está perdido. E, não adianta partir para a agressão, eu garanto que você vai apanhar.

Passada esta fase meio insana, vamos para a segunda etapa.

Que é, ainda, mais insana.

Essa prática seguinte tem suas vantagens. Você pode praticá-la em casa, sozinho, não paga dízimo e não tem sermão de ninguém, nem tem que ler nada. E não precisa ver programa de pastor gritando em canal de televisão.

O incenso é opcional, não é necessário.

Agora vamos lá; na sua sala ou quarto, fique o mais relaxado que puder, sente-se no chão e assuma a posição de Lótus. 

Pode ser também a posição de Ferrari ou McLaren.

Essas posições importadas geralmente são bastante confortáveis. Mas, tem gente que se arranja bem até com a posição Fiat Uno. Tem que ter muito mais flexibilidade, é claro.

Ah, antes coloque um som instrumental que você goste, porque se deixar para colocar depois de fazer a posição escolhida, vai dar o dobro do trabalho.

Comece a pensar em quantos Eus existem em você.

Acesse as memórias de você quando criança, imagine que está se encontrando com ela, com a criança cheia de sonhos que você foi, convide ela para brincar, pergunte o que ela sente, o que ela precisa, o que lhe falta.

Chame seu autocrítico, também, e apresente-o a ele mesmo.  Perceba toda a abrangência de sua própria pluralidade.

Desculpe seus erros, faça um pacto de amizade consigo. Faça a paz entre todos os seus Eus.

Grande parte das pessoas esconde sentimentos de si mesma. Ou seja, nem amigos confidenciais de si mesmos são.

Essa é a pior solidão, a ausência de si mesmo.

Temos que nos aceitar, ficar do nosso lado, isso é fundamental. Mesmo quando não compreendemos por que fizemos aquela merda colossal! Quanto mais difícil é uma situação, mais fortemente precisamos contar com nosso próprio apoio. Sem o acolhimento e a amizade de si mesmo, não há santo, nem anjo, que aguente viver.

Seu anjo da guarda existe e está esperando por esse encontro, há tanto tempo quanto você.

Agora, levante-se e fique bem em frente ao espelho. 

Se olhe com toda a atenção, sem pensar em nada, apenas se olhe, sem pressa, vá se reconhecendo, lentamente, em cada mínimo detalhe, até se enxergar profundamente, com os olhos de sua própria alma.

E, então sorria.

Imediatamente, você verá o seu anjo lhe sorrindo de volta.

Edmir Saint-Clair

 



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UMA FÁBULA DE ANO NOVO



        Era uma vez um planeta triste no qual morava um homem muito alegre  que adorava inventar coisas. Numa certa manhã, sem motivo algum, ele resolveu inventar que dali a 7 dias, a partir daquele dia, tudo ia mudar à meia-noite.

- Por quê? perguntaram todos.
 - Porque mudar é sempre bom, respondeu ele

E conseguia convencer mais gente a cada esquina, pessoas que não só passavam a acreditar, como começavam a falar para todos que encontravam,  que uma grande festa tinha que acontecer para que todos no planeta resgatassem a alegria perdida.

Porque não? Pensavam todos. Verdade ou não, mal não faria.

E a ideia foi se disseminando de uma forma viral, crescendo em progressão exponencial, como nunca se vira antes naquele mundo triste.
As comunicações digitais sem fronteiras daquela civilização altamente desenvolvida, logo incluíram todo planeta triste na divulgação daquela ideiaque, àquela altura, já havia se transformado num movimento planetário.
A coisa toda era muito simples: a partir do final do por do sol, e durante toda a noite até o nascer de sol seguinte, todas as pessoas do planeta deveriam sair de casa com suas melhores roupas, deveriam cumprimentar todos que cruzassem seus caminhos. Mesmo que nunca tivesse visto aquela pessoa antes. E assim foi feito.
E, durante toda a noite, cada ser daquele planeta triste ofereceu e recebeu sorrisos e cumprimentos de quem nunca havia visto antes.
 As consequências imediatas foram as gentilezas mútuas que se seguiram. Com o passar das horas ninguém se contentava mais em dar apenas um sorriso ou fazer apenas uma gentileza. E toda a população daquele planeta triste se embriagou de sorrisos, gentilezas, elogios, agradecimentos e de tudo que provocasse o sorriso e a felicidade alheia. 

Se embriagaram de bondades, cada um mais sorridente e gentil que o outro. E extrapolaram no melhor sentido possível, incluindo espontaneamente parentes, amigos, conhecidos e todos que lhes cruzassem o caminho.
Foi a maior festa que já havia acontecido na história daquela civilização.
A noite acabou e o dia seguinte nasceu diferente de todos os anteriores na história daqueles seres.
Aquela invenção havia gerado uma explosão de alegria e de empatia que  jamais acontecera e fez cada indivíduo dar um

sorriso que não daria e ser mais gentil do que, normalmente, seria.  E as consequências foram todas.

 A partir daquela noite, e em todos os dias que se seguiram, a vida naquele planeta nunca mais foi triste.

Feliz Ano Novo!

Esteja em que planeta você estiver.

- Edmir Saint-Clair




CONVERSAS NECESSÁRIAS

"Tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Mas faltam-me as conversas que não tive."
(Adaptação livre inspirada em “Tabacaria” Álvaro de Campos)

Todos nós temos pendências emocionais e existenciais. Assuntos que nos incomodam muito e que, por isso mesmo, evitamos pensar e abordar.
Algumas dessas questões envolvem pessoas importantes e queridas em nossas vidas. Importantes demais para que as deixemos se perder de nós, e nós delas, sem que aconteça uma tentativa de esclarecimento que deixe, ao menos, a alma mais leve. Alguma atitude que nos permita dizer:
— Eu tentei de verdade.

Quantas vezes nos pegamos divagando numa conversa imaginária com aquela ex-companheira ou ex-companheiro com quem vivemos um grande amor, mas tivemos um final confuso e cheio de mal-entendidos. Ou a conversa com o parente muito próximo com quem tivemos conflitos nunca esclarecidos. Às vezes, nos afastamos de pessoas queridas por nunca termos tido a iniciativa de ter uma conversa que pudesse trazer luz àquele assunto pendente. Apenas para esclarecer, para clarear a questão e buscar um entendimento. Sem vencidos, nem vencedores.

A vida nunca foi uma competição.
A maioria de nós tem a tendência a ir acumulando pendências emocionais. Questões mal resolvidas, que foram varridas para debaixo do tapete. Situações espinhosas que nos causam um mal-estar interior, das quais não nos damos conta na maior parte do tempo, mas que brotam nos momentos mais improváveis e desagradáveis, sempre atrapalhando alguma coisa boa.

Isso quando não vêm à tona tarde demais — quando já não há mais nada a ser feito.
Muitas vezes, não é má vontade ou descaso. É medo. Medo de não sermos compreendidos, medo de nos sentirmos fracos ao nos expor. Há também o orgulho ferido, a vergonha de voltar atrás, ou a crença equivocada de que já é tarde demais. Cada um carrega suas barreiras internas, e é justamente por isso que a conversa necessária exige coragem. Coragem para se despir das defesas e estender a mão.

Situações que poderiam ter sido esclarecidas e não foram provocam mais que frustração — provocam distanciamento. E, por isso, se retroalimentam, criando distâncias que se tornam intransponíveis. Que permanecerão para sempre — como nódoas que mancham todo dia branco. Aquela pontinha de espinho que nunca deixa de incomodar.

Uma coisa é certa: não adianta tentar tocar em frente uma relação que sofre com pendências. Não adianta tentar varrer para debaixo do tapete. Porque, na vida, não tem tapete — e o chão é sempre bem duro. E não tem embaixo, nem em cima. É tudo a mesma vida, uma coisa só. E uma só vez. Não tem reprise, não tem segunda chance.

Não podemos deixar tudo a cargo do tempo. Essas conversas necessárias precisam acontecer, antes que se transformem naquelas dores nas costas que nos paralisam sob o peso invisível do que não foi dito. Temos que correr atrás, agir para esclarecer nossos mal-entendidos com as pessoas queridas. Não podemos deixar algo tão importante por conta do acaso. É muito arriscado. A vida é uma só. O tempo passa sem parar, nem por um segundo, e, se deixarmos por conta dele, as distâncias podem se alongar até que a possibilidade de volta não exista mais. Não existe relação, em nenhum nível, que não possa ser estragada pela falta de esclarecimentos mútuos sobre assuntos mal resolvidos.

A mágoa deixa marcas, nódoas, cria barreiras e distâncias que o tempo não resolve — ao contrário, só alimenta. Esclarecer pendências com as pessoas queridas é necessário. O orgulho tolo — ou a infantilidade de querer ter razão — é uma escolha pouco inteligente e profundamente prejudicial. Uma conversa sincera, onde a única intenção seja o entendimento mútuo, é o único caminho para que a distância definitiva não se estabeleça.

Poder ver, através do olhar de quem amamos, a nossa versão mais bonita é um dos momentos mais sublimes e felizes que podemos experimentar na vida. Sentir que somos amados por quem amamos é ser feliz.

Reduzir essa possibilidade, ao se afastar de pessoas queridas, é abrir mão de uma parte imensa da felicidade que ainda nos será possível viver. Definitivamente, varrer pendências sentimentais com pessoas que nos são caras para debaixo de um tapete que não existe é um erro que pode nos custar muito caro.
Pode nos custar quem amamos.