Crônicas 

O DIA EM QUE CONHECI UMA LENDA

O DIA EM QUE CONHECI UMA LENDA
 Janeiro, férias escolares. 

Eu tinha uns 12 anos e acabara de ganhar meu primeiro violão no último natal. Passava a maior parte do tempo entre a praia, as peladas à tarde e o violão no resto do tempo. Dias cheios, quentes e inesquecíveis. 

O condomínio dos Jornalistas, no Leblon, fervia de crianças e adolescentes. Dos seis aos vinte havia gente de todas as idades. Bem no centro do condomínio havia um rinque de patinação que servia, principalmente, para o pessoal ficar sentado nas bordas. No centro, tinha de tudo, menos gente patinando. À noite, a festa continuava com brincadeiras de polícia e ladrão com 50 crianças em cada time correndo por uma área que corresponde a um quarteirão inteiro do Leblon cheio de árvores e com espaço à vontade. Era uma festa diária e interminável.

Os quase adolescentes como eu, ficavam conversando e tocando violão, tentando chamar a atenção das meninas. Eu ficava olhando e tentando repetir a posição dos dedos no meu violão. Eu levava jeito e em pouco tempo estava tocando algumas coisas mais simples,  Carpenters, James Taylor, Carole King e outros adocicados do gênero. Dos brasileiros eram poucos que faziam sucesso na nossa roda; Novos Baianos surgindo, Milton Nascimento e o clube da esquina, Mutantes e o Terço eram as exceções.

Mas, quem fazia sucesso naquelas férias era James Taylor. Naquele dia, depois da décima repetição de “You've got a friend” senti que era hora de subir para casa, naquela época ainda tinhamos hora determinada pelos pais para voltar.

Quando cheguei à minha portaria, já estava esperando o elevador um cara alto, jovem, muito magro e com os cabelos penteados de um jeito engraçado. Puxou conversa quando viu meu violão. Falou que era da Bahia e estava na casa dos primos, Horácio e Heloísa, que eu conhecia desde sempre, apesar de serem mais velhos do que eu. Disse que era cantor e que iria se apresentar no Festival Internacional da Canção da Rede Globo. Fiquei entusiasmado com aquilo, o cara era muito simpático e gente boa, o que não era comum, já que os “caras mais velhos” não davam a menor importância para pirralhos como eu. Quando chegou meu andar, abri a porta, me voltei para ele e perguntei:

- Como é seu nome? Vou assistir você na TV.

Ele respondeu sorrindo:

- Raul Seixas.

- Edmir Saint-Clair




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Contos  Crônicas 

O MISTÉRIO DO TÊNIS DO BODE

O MISTÉRIO DO TÊNIS DO BODE

   Formávamos um grupo grande quando chegamos ao restaurante japonês na Av. Niemeyer, em frente ao colégio Stella Maris. Uma noite quente de sábado estava começando.

Nesse verão, a Casa encantada tinha hóspedes ingleses; Geoff, Dave, Katrina Hellen. Amigos e músicos londrinos muito queridos, ingleses com alma carioca, que vieram conhecer o Brasil. Nenhum lugar é melhor para isso, no Leblon, do que o Condomínio dos Jornalistas.

Dentre os amigos que foram se acomodando no “reservado” – que era um charme da época esses espaços reservados nos restaurantes japoneses do Rio), estava meu amigo Bode. Bode não, Carlinhos. Que Carlinhos? O Bode.

Para entrar no reservado, é necessário tirar os sapatos e deixá-los do lado de fora da porta.  Todos acomodados, bebidas e muito saquê foram pedidos, a conversa foi ficando cada vez mais animada e divertida.

Os ingleses não falavam uma palavra de português e os brasileiros nenhuma de inglês. Claro que alguns de nós falávamos as duas. Mas, no correr da noite e dos saquês, isso se mostrou não ser importante.

O Bode era dos que arranhava um inglês sofrível, a despeito disso, passaria a noite inteira em altos papos com o Geoff, que apesar de não entender português se defendia bem na mímica. O Bode era um cara que se pode chamar de “safo”. Se virava, nem sempre com sucesso, na maioria das situações perigosas. Tinha uma coragem de aventureiro, era um desbravador nato. E, trapalhão...

Era o único da galera com coragem para saltar de qualquer altura, às vezes a aterrissagem é que não era o que se pode chamar de sucesso. Mas, do chão nunca passou. Não foi à toa que sua vocação o transformou num voador profissional de Parapente, algum tempo depois.

Todos ali dentro daquele reservado interagiam como amigos de infância. Alguns eram. Impressionante como saquê melhora a fluência em inglês e português. Os ingleses estavam rindo como se entendessem as piadas, e os brasileiros também!

Em mim, a sensação era que a cidade inteira estava sorrindo. Eu estava morando em Londres desde o ano anterior e vim passar o carnaval no Rio de Janeiro, trazendo os ingleses.

O Mito, meu parceiro musical e amigo de infância do Leblon, também morava em Londres e veio no mesmo bonde.

Olhei em volta e todos ali naquele reservado me eram muito queridos. Minha irmã estava ali, rindo e transbordando alegria como sempre. Meu compadre Dedé, além do Mito, Tuca e do nosso querido Bode. Amigos muito importantes uns para os outros. O tempo se encarregaria de me mostrar que aquele se tratava de um momento raríssimo e, por isso, inesquecível.

Fartos de comida e muito saquê, pedimos a conta para partir para outra etapa da noite. Conta paga, abrimos a porta do reservado, nos sentamos nos degraus para calçar os respectivos sapatos.

Todos calçados, de pé, prontos para irmos embora. Menos o Bode que, com um dos pés do tênis na mão, andava pra lá e pra cá procurando o outro pé.

A princípio, ninguém se deu conta, mas com o passar do tempo e da procura, nada foi achado...

O Bode foi ficando nervoso e revirava tudo em volta, em busca do tênis Reebok importado, de cano alto e novinho, última moda no Rio em 1986.

O gerente do restaurante mobilizou outros funcionários e a procura foi minuciosa. E nada foi achado. O gerente não sabia o que fazer ou falar; o resto do pessoal estava em pleno acesso de riso, ríamos a ponto de perder o fôlego, e o Bode revoltado com o roubo do pé do tênis dele, esbravejava e gesticulava inquieto e agitado. Quanto mais ele e os funcionários se movimentavam pelo restaurante mais engraçada a cena ficava.

O gerente chegou a perguntar para ele:

− O Senhor Tem certeza que chegou com o tênis aqui?

O Bode parou diante da pergunta completamente estapafúrdia, e respondeu ironicamente:

− Não Senhor, eu saí de casa calçando só um pé do tênis, olha como fica bonito!

E mostrou um pé calçado e o outro sem calçado.

O gerente pediu desculpas pela pergunta leviana e concordou que não fazia o menor sentido.

Era tão surreal a situação, que o Bode e o gerente não aguentaram e começaram a rir também...

Afinal, porque alguém roubaria apenas 1 pé do tênis?

Por fim, o gerente deu-lhe um cartão assinado e prometeu que, se o tênis não fosse encontrado,  o restaurante o reembolsaria.

O Bode era um cara do bem e da paz, e quando estávamos nos dirigindo aos carros estacionados, ele já estava de bom humor e rindo junto com a gente.

A imagem dele, naquela noite, caminhando com um pé calçado e o outro descalço é hilária e inesquecível. 

Coisas que só aconteciam com o Bode. Bode não, Carlinhos. 

Que Carlinhos?

O Bode.

- Edmir Saint-Clair

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Crônicas 

COPA DO MUNDO

COPA DO MUNDO

 

Ele desceu do avião no Galeão com a cabeça ainda em Pequim.

Vinte e quatro horas de voo e conexões fazem isso com a gente.

Foram precisos uns trinta segundos dentro do terminal para perceber que havia chegado a um lugar diferente do Brasil que conhecia. O funcionário da alfândega estava sorrindo, o que por si só já é evento raro o suficiente para aparecer nos noticiários.

Foram quase três horas de carro até o Leblon — o Rio de Copa do Mundo num domingo ao meio-dia não é lugar para quem tem pressa. Em Botafogo, uma rua inteira fechada por um churrasco que não era de ninguém em especial e era de todo mundo ao mesmo tempo. No túnel, alguém havia pintado “HEXA: AGORA VEM!!!!!!” Num boteco na Jardim Botânico, o pagode rolava solto e a frequência era grande e bastante animada.

O recepcionista do hotel estava com a camisa da seleção por baixo do blazer — uma solução diplomática negociada com a gerência, que era também brasileira e portanto incapaz de dizer não. Da janela do décimo quinto, a Delfim Moreira era um mar de verde e amarelo.

O homem ficou na janela por talvez três minutos.

Depois deitou na cama ainda com a roupa do avião ainda no corpo, pensando que ia descansar um pouco antes de ver o jogo.

Dormiu por mais de dez horas seguidas. Era o que vinte e quatro horas de Pequim ao Rio fizeram com o corpo dele.

Na manhã, acordou zonzo, ainda perdido no tempo e desceu para o café da manhã com a fome de quem não comia coisa decente desde o dia anterior.

O restaurante estava silencioso. As mesas estavam ocupadas, as pessoas comiam — mas havia uma ausência no ar que ele não conseguia nomear. Nenhuma bandeira. Nenhuma camisa amarela. O recepcionista com a camisa social de sempre, como se a animação da véspera nunca tivesse existido. As pessoas olhavam para o prato com aquela concentração de quem prefere não olhar para nada.

Ficou confuso por um bom tempo. Reviu mentalmente o trajeto do dia anterior — o churrasco, o velho do pagode, a Delfim tomada de gente. Tinha acontecido mesmo aquele frenesi coletivo?

Demorou mais uns vinte minutos para entender. O jornal no saguão do hotel deixou tudo bem claro. O Brasil havia perdido por dois a um para a Noruega. Às cinco da tarde do dia anterior, enquanto a cidade vibrava diante de cada televisor — ele estava dormindo no décimo quinto andar com a roupa do avião.

Havia chegado num universo e acordado em outro. E o mais curioso é que não havia nenhum vestígio do primeiro no segundo. Como se a cidade tivesse feito uma faxina emocional durante a madrugada e devolvido tudo ao lugar de sempre — que é o de não ter nada a comemorar.

Edmir Saint-Clair

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Crônicas 

QUASE POETA

QUASE POETA

 

O sonho dela era ser poeta. Ouvia músicas tristes, livros tristes e filmes tristes. Se apaixonava o mais que podia, buscava o sofrimento a todo custo, mas, infelizmente, era sempre correspondida, e nada é pior para uma postulante a poeta do que não ter motivo pra sofrer. Tentou durante anos, até que desistiu e aceitou sua sina de que nascera para ser feliz.
— Edmir Saint-Clair


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Crônicas 

A PRIMEIRA FORMATURA DA FAMÍLIA

A  PRIMEIRA FORMATURA DA FAMÍLIA

 

Ele nunca vira sua mãe tão feliz. A formatura do irmão mais novo rompia uma histórica limitação familiar que nunca tivera um membro formado na faculdade. A cerimônia prometia ser emocionante e ninguém da família deixara de ser convidado.

Na chegada ao local, estavam todos compenetrados e um tanto constrangidos com o requinte ao qual não estavam acostumados. O padrinho alugara um terno mais caro do que o de seu casamento com a madrinha. Tia Lúcia, a costureira da família, estava orgulhosa do fruto de seu árduo trabalho nos últimos 6 meses. Valera a pena, todas as mulheres da família estavam chiquérrimas.

Ele se sentiu leve e pleno quando viu a família ocupar uma fila inteira no enorme auditório da faculdade. Fora o excesso de perfumes, estavam todos com a alma e o corpo em vestes de gala, para testemunharem aquele evento que realizava a todos.

Quando o irmão mais novo caminhou em sua direção, vestido com a beca dos formandos, teve vontade de soltar o maior grito e abraço que já dera em alguém na vida.

O abraço silencioso e só não foi mais longo porque a organização requisitava a presença dos participantes no palco para dar início a cerimônia de formatura.

Ele se sentou na poltrona ao lado da mãe e, quando as luzes da sala se apagaram, se deram as mãos frias, trêmulas e fundidas na mesma emoção.

E viveram, a família inteira junta, um dos momentos mais felizes que viveram.

Edmir St-Clair

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Crônicas 

O BRASIL ENTROU NA COPA AOS 40 DO PRIMEIRO TEMPO

O BRASIL ENTROU NA COPA AOS 40 DO PRIMEIRO TEMPO

 

Existe um fenômeno curioso que acontece a cada Copa do Mundo.

Durante quatro anos, o brasileiro reclama da seleção. Diz que não assiste mais, que perdeu o encanto, critica o técnico, a convocação, a CBF, o calendário, o gramado, a bola, o VAR e, se necessário, até a posição de Mercúrio retrógrado. Entre uma reclamação e outra, conclui com a solenidade de quem acabou de assinar um parecer técnico:

"Esse ano não vai dar."

Na estreia contra o Marrocos, o clima era exatamente esse. Tirando a turma adolescente, para quem qualquer terça-feira já é motivo suficiente para reunir os amigos, comprar bebidas e outras cositas más e fazer festa, o restante do país parecia estranhamente indiferente. Os tradicionais 220 milhões de técnicos de futebol estavam de folga. Pela primeira vez em muito tempo, a Copa parecia acontecer em outro planeta.

Veio o primeiro gol marroquino, e ninguém pareceu muito surpreso. Pelo contrário. Havia até um certo conforto. O gol apenas confirmava aquilo que já vinha sendo cuidadosamente cultivado nas últimas semanas: o pessimismo nacional.

"Eu sabia."

Essa talvez seja a frase mais brasileira depois de "aceita pix?".

 Até que Vini Jr. empatou.

E aconteceu uma das possessões coletivas mais rápidas da história. Não foi apenas um gol. Foi como se o espírito da Copa tivesse baixado simultaneamente sobre 220 milhões de médiuns futebolísticos.

 De um segundo para o outro, o brasileiro que jurava não ligar mais começou a fazer conta de saldo de gols. Quem cinco minutos antes dizia que a seleção não tinha futuro passou a explicar, com autoridade absoluta, por que o empate era importante para a classificação. A televisão ficou mais alta, o grupo da família voltou a funcionar, o vizinho reapareceu na janela e até quem estava lavando a louça começou a organizar mentalmente os cruzamentos das oitavas de final.

 O brasileiro não entra na Copa quando ela começa. Entra quando acredita que ainda existe uma história para viver.

Talvez seja justamente por isso que nenhuma estatística consiga explicar completamente o futebol por aqui. Nossa relação com a seleção nunca foi racional. Ela fica adormecida, esperando apenas uma bola na rede para despertar.

Basta um gol e o país inteiro esquece, por noventa minutos, que passou semanas jurando que nem ia assistir.

No fundo, o brasileiro não abandona a seleção.

Ele apenas faz charme.

Até o primeiro gol.

Edmir Saint-Clair


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Crônicas  Memórias 

O PRIMEIRO ROCK'N RIO - 1985 -

O PRIMEIRO ROCK'N RIO - 1985 -
Janeiro de 1985. Verão quente, ano novinho em folha e o maior festival de Rock de todos os tempos há pouco mais de uma hora de distância de pular do meu mais improvável sonho para o maior palco que eu já havia visto na minha frente.

Uma linha especial de ônibus foi criada, exclusivamente, para levar o público do festival, coletando-o a partir de vários pontos determinados do Rio de Janeiro.

Eu e uma galera gigante do Leblon, terminamos de lotar um dos ônibus logo no primeiro ponto. A tensão, a expectativa e a proximidade de algo tão especial gerava o tipo de ansiedade mais saudável que existe, aquela que nos faz entender totalmente a expressão "rindo à toa".  No ônibus cheio, os sorrisos à mostra eram tão evidentes, que a impressão é que alguém contou uma hilária e interminável piada. Qualquer movimento virava motivo para uma gargalhada.

Chegamos ao local do festival ainda dia claro, poucos minutos antes dos portões serem abertos. Todos os dias o ritual era o mesmo. Os portões se abriam, passávamos pelas roletas e pela revista da segurança, que só estava interessada em coibir armas e objetos metálicos.

Cigarros podiam, de todos os tipos.

O pôr do sol foi deslumbrante, com ultraleves voando por sobre um público jovem e absolutamente extasiado diante da grandiosidade de tudo em volta. A paisagem, o sol se pondo nas montanhas da cidade maravilhosa e os primeiros acordes da música tema do festival tocando numa altura e qualidade de som que o Brasil nunca havia ouvido.

"Todos numa direção, numa só voz, numa canção

Todos num só coração, num céu de estrelas...

Se a vida começasse agora, se o mundo fosse nosso de vez,

Se a gente não parasse mais de sonhar...de cantar....de viver."

E todos cantavam com a propriedade contagiante e autêntica dos jovens dos anos 1970 e 80, que viviam numa cidade que desejava Paz e Amor e acreditava nisso, por mais ingênuo que, hoje, isso possa parecer.

E, foi nesse clima que assisti a um show mágico e maravilhoso do cantor James Taylor, num sábado ainda sem chuva, num céu completa e absurdamente estrelado, sentado ao lado de dezenas de amigos que ouviram aquelas mesmas músicas, comigo, nas festinhas de adolescentes. Foi um dos shows mais emocionantes que já presenciei.

Aquela noite, houve uma catarse gigante entre o público e um James Taylor extasiado diante de 250 mil pessoas que cantavam junto suas músicas. Ele estava vindo de um período de declínio acentuado na carreira, e naquela noite, aconteceu sua redenção.

 O sucesso daquela apresentação teve uma repercussão tão grande e impressionante que impulsionou novamente sua carreira, e ele sentiu isso ainda no palco, durante a apresentação.

E externou essa emoção através da sua arte, presenteando o público com uma apresentação emocionada, emocionante e perfeita, e muito mais longa do que o que estava previsto.

Tocou e cantou com o entusiasmo de um iniciante, todos os seus grandes sucessos, não faltou nenhum.

 O que se passou foi sublime, uma poesia em forma de vida.

Público e artista vivendo, durante mais de duas horas e meia, a mesma intensidade de emoções que ficaria, para sempre, na história de ambos.

O primeiro Rock in Rio me presenteou, ainda, com um show inesquecível da banda inglesa QUEEN, onde foi feita a histórica filmagem do coro de mais de trezentas mil pessoas cantando a música “Love of My Life”, perpetuando aquele como um dos grandes momentos da carreira da Banda e do lendário Fred Mercury.

Presenciei ele, e todos os músicos da banda QUEEN, ficarem em absoluto estado de graça e completamente extasiados com o que estavam assistindo. A emoção deles era visível. 

Eu vi, estava lá e cantei junto.

E, no último dia, assisti, pela primeira vez, a banda que mais toca a minha alma: a lendária banda inglesa YES. A emoção mágica que senti vendo aquela apresentação incrível e deslumbrante, permanece até hoje.

Foi perfeito para fechar o último dia do maior festival de Rock de Todos os Tempos.

Essa é a minha parte da história de um Festival que ficou para a história de muitas e muitas gerações e virou uma lenda no mundo inteiro.

Edmir Saint-Clair

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            Recebi várias manifestações com relação a crônica

"O Primeiro Rock in Rio - 1985",

todas tão cheias de lembranças intensas quanto as minhas.

Aqui, uma edição com imagens da época e a música tema.

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Crônicas 

A DOIS

A DOIS

Não é preciso muito para que o mundo se acomode. Um mergulhado nas páginas de um livro, o outro viajando pela internet, sem pressa. Não há cobrança. Apenas um silêncio que não pesa.

Um domingo à tarde, quando o tempo se estica preguiçoso, pode ser mais pleno que uma festa. Porque há cumplicidade no simples ato de estar juntos sob o mesmo teto.

E quando a noite chega e as palavras resolvem brincar de madrugada, não há quem queira dormir cedo. A conversa vai e volta, se demora em lembranças, inventa futuros. O coração ganha aquela leveza rara — a de saber que, entre risadas e confidências, ou mesmo no silêncio, a vida encontra sentido.

Não é o que se diz, é o que se sente. Não é a festa, é a casa. Não é o barulho, é o eco de duas almas que se aconchegam para descansar uma na outra.

Edmir Saint-Clair

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Crônicas 

O QUE É DORMIR BEM?

O QUE É DORMIR BEM?

 

Afinal, o que é dormir bem? Será que sabemos a resposta?

O que a ciência nunca deixou de dizer — e que a gente teima em ignorar — é que o sono é parte fundamental da nossa qualidade de vida.

Durante o sono profundo, o cérebro ativa um sistema de limpeza — o sistema glinfático — que remove os resíduos acumulados ao longo do dia. Uma única noite mal dormida eleva em 30% a concentração de proteínas danosas ao nosso cérebro — entre elas, as associadas a doenças neurodegenerativas como o Alzheimer.

É durante o sono que a memória encontra forma definitiva. Que as emoções do dia são processadas e organizadas. O sistema imune se reconstitui, a pressão cai, e o corpo repara o que o dia não permitiu.

O corpo cobra.

Privação crônica de sono é fator de risco independente para infarto, diabetes tipo 2, obesidade, depressão e certos tipos de câncer. É o que os estudos mostram, sistematicamente, há décadas.

Mas um estudo de 2025 nos Proceedings of the Royal Society B derruba a narrativa mais comum: ao contrário do que se diz, as pessoas nas sociedades industrializadas dormem mais horas do que os caçadores-coletores — os Hadza da Tanzânia, por exemplo, dormem em média 6,2 horas, os Himba da Namíbia, apenas 5,5.

Nenhum deles tem Netflix.

O problema não é a quantidade. É o ritmo.

O que as sociedades modernas perderam — e as tribos conservaram — é a função circadiana: a sincronia entre o relógio biológico interno e o ciclo natural de luz e escuridão. Dormimos mais horas, mas fora de hora. Com luz artificial suprimindo a melatonina. Com telas dizendo ao nosso hipotálamo que ainda é dia às onze da noite.

O relógio funciona. Mas está errado.

O prof. Sergio Tufik, do Instituto do Sono da UNIFESP, foi direto: "A privação de sono é uma condição gravíssima, que afeta todas as funções do organismo." Seu estudo revelou que os paulistanos dormem, em média, seis horas e meia por noite — abaixo do mínimo recomendado de sete horas.

A gente acha que está bem, que já se acostumou. Kahneman, o psicólogo dos vieses cognitivos, diria que esse é exatamente o tipo de viés que nos faz subestimar danos graduais — aqueles que não doem de uma vez, mas se acumulam silenciosamente até virarem doença.

Pra mim, dormir bem é simples: uma noite tranquila, sem sobressaltos, e acordar me sentindo bem disposto e descansado. Ah, e sem despertador tocando.

Dormir bem é, antes de tudo, respeitar a nossa própria natureza.

E pra você, o que é uma noite bem dormida?

Edmir Saint-Clair


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Contos  Crônicas 

OS LACERDINHAS - O INCÊNDIO DA PRAIA DO PINTO

OS LACERDINHAS - O INCÊNDIO DA PRAIA DO PINTO

Nunca mais vi um lacerdinha. Pensando bem, faz muitos anos que nem sequer ouço falar.

O lacerdinha tinha poucos milímetros, não voava e não transmitia doenças. Era pretinho e infestava o Leblon, principalmente as transversais, numa certa época do ano. Minhas lembranças em relação a eles estão ligadas à época em que eu morava na Rua José Linhares. No final da tarde, eram cigarras cantando e lacerdinhas caindo das árvores, às vezes nos olhos. Ardía e coçava muito, deixava os olhos inchados e nossas mães preocupadas. Eles eram atraídos por roupas claras, principalmente as amarelas, e, por vezes, atingiam os olhos, provocando irritação e ardência intensas.

Esses minúsculos insetos eram chamados de lacerdinhas em referência a um antigo político carioca, Carlos Lacerda, que fora governador no tempo do Estado da Guanabara.

Descobrimos que os lacerdinhas, ainda larvas, ficavam nas folhas das árvores que estavam enroladas e cheias de água da chuva. A gente as desenrolava e surgia um monte de lacerdinhas pequenos em seu interior.

Eu tinha uns seis anos de idade e era acostumado a brincar na nossa rua, mas só no quarteirão, sem atravessar a via. Havia muitas crianças, tanto no meu prédio quanto nos prédios vizinhos, que faziam parte daquela turminha de meninos da mesma idade. Naquele tempo, no Leblon, a maioria das casas tinha uma empregada que morava na favela da Praia do Pinto ou na Cruzada São Sebastião. Quando, por algum motivo, a empregada da minha mãe levava o filho para o trabalho, no caso a minha casa, ele se tornava um amigo a mais que passaria o dia brincando comigo, com meu irmão e com nossos outros amigos. No período das férias escolares isso era bem frequente.

Às vezes, Dona Celestina voltava para a casa deles, na favela da Praia do Pinto, e ele ficava e dormia lá em casa com a gente. Eu e meu irmão adorávamos a presença dele. Era um menino doce, risonho e engraçado. Seu apelido era Bilico, o nome era Bernardo. O dia era sábado, 10 de maio de 1969, véspera do Dia das Mães.

Dona Celestina e minha mãe estariam ocupadas o dia inteiro preparando o almoço comemorativo do dia seguinte. Bilico era mais novo do que eu, um ano, e mais velho que meu irmão apenas alguns meses. Era negro, com dentes grandes e muito brancos. Era tímido, mas engraçado. Falava de uma maneira diferente, que eu achava legal. Quando Bilico passava o dia lá em casa, fazia tudo junto comigo e meu irmão. Assumia a nossa rotina: almoçava, tomava banho, descia para brincar conosco, e era sempre muito divertido.

Nesse dia, Bilico chegou cedo, tomou café conosco e descemos para a rua para brincar. Era época de lacerdinhas. Dentre os garotos que brincavam na rua, tinha um que era especialmente assustador para mim e meu irmão. O Arlindo era mais velho, mas não andava com os garotos da idade dele. Andava conosco, que tínhamos uns dois anos a menos. Naquela idade, isso fazia uma grande diferença. Gostava de nos intimidar e bater. Ninguém ficava com pena quando o pai dele aparecia chamando-o, sempre gritando e batendo nele. Nós também tínhamos medo do pai dele.

Naquela tarde, estávamos catando lacerdinhas nas árvores. Abríamos as folhas e ficávamos observando as lacerdinhas se mexendo lá dentro. De repente, Arlindo pega algumas lacerdinhas com o dedo e enfia com violência no olho do Bilico, que os observava bem de pertinho, e grita:

— Tá com fome? Toma, neguinho esfomeado!

Arlindo falou aquilo com mais raiva do que lhe era peculiar. Todos nós tomamos um susto. Ele nem conhecia o Bilico, que começou a coçar o olho e a chorar com a ardência intensa. Todos os meninos começaram a rir, menos eu, meu irmão e o Bilico, que saiu andando e chorando na direção da portaria do nosso prédio.

Lembro que me veio um sentimento estranho e desconfortável, que nunca me saiu da memória. Eu senti vergonha. Vergonha de não ter defendido o Bilico. Ele era meu amigo.

Bilico não subiu para nossa casa. Ficou num canto da portaria, chorando baixinho. Falou que, se chegasse lá em cima chorando e com o olho inchado, sua mãe iria brigar com ele. Ela recomendava-lhe sempre que não queria que ele arrumasse confusão com os filhos das madames.

Depois de algum tempo, ele parou de chorar e subimos pela escada. Naquela época, os empregados e pessoas negras só podiam subir pelo elevador de serviço, mas Bilico só subia pela escada. Tinha medo de elevadores. Quando chegamos em casa, a primeira coisa que Dona Celestina viu foi o olho do filho inchado e muito vermelho. Não falou nada, mas fechou a cara, chamou Bilico para a cozinha e de lá só o vimos novamente quando eles foram embora, bem mais tarde. Lembro-me bem da expressão de choro dele quando se despediu da gente. Aquele sábado me marcou para sempre.

Naquela mesma noite, um misterioso e devastador incêndio irrompeu e tomou conta da favela onde eles moravam. Queimou por toda a madrugada e por muitas horas seguintes, consumindo tudo e deixando centenas e centenas de famílias sem teto e sem nada.

Era dia 11 de maio de 1969, Domingo, Dia das Mães. A casa de Dona Celestina e do Bilico pegou fogo e virou cinzas, junto com toda a favela da Praia do Pinto, que queimou inteira. Não sobrou nenhum barraco de pé. Dona Celestina nunca mais voltou.

Nunca mais soubemos deles.

— Edmir Saint-Clair


A história sobre o incêndio da favela Praia do Pinto:
A favela banida — Testemunha Ocular / IMS

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Crônicas 

TÔ ACHANDO QUE É HOJE

TÔ ACHANDO QUE É HOJE

 

Sexta-feira não começa na sexta. Começa na quarta, quando alguém manda no grupo: “Sexta vai rolar ou vai flopar?”

 E ali já brota, feito espinha em adolescente, a ansiedade do amor em potencial. Ninguém admite, claro. Todos fingem maturidade, desapego e autocontrole, mas já estão escolhendo roupa mentalmente.

 Na quinta, o mundo entra em preparação. Homens ajeitam a barba como quem afia esperanças. Mulheres fazem a unha como quem desenha destino. Alguns ficam mais tempo na academia, tentando convencer o espelho. Cabelos, perfumes e camisas entram em negociação direta com o acaso. E, por garantia, com Iemanjá.

Há quem compre camisa nova. Há quem repita a velha, porque já deu sorte uma vez. Há quem diga que “vai só para encontrar os amigos”, frase que a gente usa quando não quer admitir que está disponível.

Porque ninguém vai apenas sair. Vai se candidatar ao beijo improvável, ao olhar demorado, à conversa que começa sobre qualquer bobagem e, de repente, muda o peso da noite. Tudo pode acontecer. Inclusive nada. E é justamente isso que mantém a gente arrumando a roupa toda semana.

Chega a noite. Os copos tilintam, os corpos se aproximam, os perfumes se misturam no ar. Os celulares somem nos bolsos por alguns minutos, e o coração vira bússola: será aqui? Será hoje? Será aquela pessoa que sorriu de lado e voltou para a conversa dela como se nada tivesse acontecido?

A sexta-feira promete mais do que pode entregar. Vem com luz baixa, música alta, gente bem vestida e uma autorização coletiva para acreditar no acaso. Como se o universo, depois de uma semana inteira de boleto, reunião, trânsito, senha e cansaço, abrisse uma pequena janela e dissesse: “Vai lá. Tenta.”

E a gente tenta. Tenta com a roupa, com o perfume, com a frase espirituosa guardada no bolso. Tenta com o olhar, com o silêncio, até com a indiferença de quem está quase pedindo para ser descoberto.

Às vezes dá certo. Duas pessoas que estavam no mesmo bar há uma hora sem se notar começam a falar. Um assunto qualquer vira ponte. Um riso derruba a distância. Um beijo acontece onde, minutos antes, havia só duas pessoas educadamente sozinhas.

Outras vezes, não. A pessoa interessante vai embora cedo. A conversa promissora morre na terceira frase. O olhar não responde. O acaso, esse gerente incompetente das grandes viradas, esquece o endereço.

De volta para casa, já de madrugada, tem um momento que ninguém posta: o espelho do banheiro às duas da manhã. Versão levemente amassada, um pouco cansada, ainda ligada.

 A noite não entregou o épico. Entregou o espelho, o cansaço e uma esperança que ainda insistia em ficar acordada.

Não foi hoje. Tudo bem.

Amanhã é sábado. E sábado, no fundo, é só a sexta com olheiras mais honestas e mais fé ainda no acaso.

Edmir St-Clair
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ANSIEDADE E MOTIVAÇÃO  Crônicas  DIRIGIR A SI MESMO  EDMIR SAINT-CLAIR  ensaios 

ANSIEDADE E MOTIVAÇÃO

ANSIEDADE E MOTIVAÇÃO


        Vivemos num mundo saturado de estímulos e demandas.
E reagimos inconscientemente a todos eles, no piloto automático na maioria da vezes, confundindo movimento com direção. Mas o verdadeiro poder, a liberdade genuína, nasce de uma habilidade rara: dirigir conscientemente a si mesmo. Ter o poder de controlar as próprias ações e reações.

 O autoconhecimento é o único método que pode nos auxiliar no desenvolvimento de ferramentas internas eficientes que podem nos auxiliar na conquista de nossa autonomia decisória. Só o autoconhecimento é capaz de nos revelar o que nos move e o que nos paralisa; de nos mostrar as forças invisíveis que nos impulsionam ou nos freiam.

Compreender nossas próprias reações de forma acolhedora é um ato de protagonismo. Não se trata de julgar os próprios sentimentos — eles são parte inseparável da nossa natureza — mas, sim, de interpretá-los, compreendê-los e canalizá-los de forma consciente para que se tornem combustível para nos locomovermos existencialmente. Para que se convertam de ansiedade paralisante em motivação realizadora.

O livre arbítrio autêntico é o resultado de um árduo trabalho interno, diário e incansável. É uma de nossas maiores conquistas possíveis. É a única chance de transcendermos nossa natureza animalesca que nos impele, o tempo todo, a reagirmos no modo luta ou fuga.

    A neurociência já provou que pequenas ações, se repetidas com resiliência, são capazes de redesenhar conexões cerebrais e criar novas rotas emocionais. Novas sinapses. É assim que podemos nos tornar os programadores da nossa própria psiquê.

Uma dessas mudanças sinápticas possíveis é a transformação da ansiedade em motivação.

Não é metáfora — é fisiologia. A ansiedade e a motivação são irmãs quase gêmeas: ambas aceleram o coração, elevam a energia e inflamam o sistema nervoso. E, isso não é negativo por si só. É fisiológico.

Para que estes afetos se tornem forças produtivas, temos que alterar a lente com que enxergamos essas manifestações.  
A ansiedade não é obrigatoriamente negativa, ela nos prepara fisicamente para darmos conta de algum evento possível de acontecer. Essa preparação prévia, por vezes, é o que determina nossa capacidade de fazer frente a uma demanda.

Com resiliência e determinação, a troca de percepção se torna um hábito. O que antes ameaçava paralisar, pode se converter em combustível para o desempenho desejado. Se transformar em vontade de realizar.

O resultado é: energia psíquica reorganizada, foco determinado e a sensação concreta de estar no controle do que é possível ser controlado.

E assim, assumimos o poder de dirigir a nós mesmos. De caminhar na direção que desejamos.

    Para mim, o livre arbítrio é um software que não vem instalado de nascença em nosso cérebro. Ao contrário, é difícil de ser adquirido, sendo assim, a maior conquista pessoal que um ser humano pode almejar.

Cabe a cada um desenvolver seu próprio software, aliando conhecimento e as ferramentas científicas disponíveis para auxiliar no aprofundamento do autoconhecimento. Não é fácil, nem garantido. É individual e solitário.

Mas, quem conquista o poder de conduzir a si próprio jamais será conduzido pela vontade dos outros.

Edmir Saint-Clair

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ANTES DA PEDRA  CONTO CURTO  Contos  Crônicas  EDMIR SAINT-CLAIR 

ANTES DA PEDRA

ANTES DA PEDRA


Ele estava bem desanimado, apesar de ter a vida inteira para ficar desanimado. Depois de mais um dia procurando trabalho, chegou em casa cansado e com fome.
Ligou a televisão e foi esquentar café para tomar com o pão que, se ainda não era dormido, já estava bem cansado...fora comprado pela manhã. Uma reportagem chamou sua atenção para o telejornal. Na saída do turno de uma empresa, um empregado declarava ao repórter:
- A situação está difícil, nossos salários estão muito defasados. Estamos tendo que tirar leite de pedra.
Enquanto acabava de requentar o café e o pão, resmungou para a televisão:
- E eu, que ainda não tenho nem a pedra?!
Lembrou-se de Carlos Drummond...

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Contos  Crônicas 

O OUTRO LADO DA MOLDURA (MOLECAGEM)

 O OUTRO LADO DA MOLDURA (MOLECAGEM)
 

— Bom dia, Seu Tatá! — saudou o porteiro.

— Bom dia, campeão!

É assim que o Sr. Otávio é conhecido por todos naquele quarteirão de Copacabana: Seu Tatá. Gozava da simpatia geral — dos vizinhos, dos ambulantes e dos comerciantes, tanto os legalizados quanto os ilegais. Após o falecimento de Dona Olinda, em vez de se isolar, passou a circular mais pelo bairro. Conversava com todos. Mas o que poucos sabiam é que sua maior incentivadora para seguir em frente morava dentro de um porta-retrato, sobre a mesinha de cabeceira. Todas as vezes que se arrumava para sair, a imagem dela lhe mandava um beijinho, deixando um leve rastro embaçado no vidro do porta-retrato, como um sopro carinhoso.

Seu Tatá não tinha filhos, morava sozinho e a aposentadoria lhe bastava. Contudo, o fator determinante para sua recuperação após a viuvez foi o reencontro com a fotografia mágica de Dona Olinda. A imagem não apenas começou a lhe enviar mensagens, mas também a participar ativamente de cada nova descoberta em sua vida. Antes mesmo de se aventurar pelas redes sociais, havia o ritual matinal de escolher a roupa do dia. Seu Tatá exibia as opções em frente à mesinha de cabeceira. Uma camisa excessivamente florida? A foto de Dona Olinda parecia adquirir uma sutil sombra de desaprovação — e, às vezes, ela cruzava os braços dentro da moldura. Uma camisa azul, sua cor predileta? O sorriso na fotografia se alargava visivelmente, quase como um "Essa mesma, meu velho!", com um leve inclinar de cabeça e o polegar levantado em aprovação. Outro evento significativo foi o reencontro com amigos da juventude, ainda vivos, facilitado pela filha de um vizinho, que o persuadiu a adquirir um notebook e criou perfis para ele em todas as redes sociais. Tudo isso, naturalmente, com o incentivo diário da foto de Dona Olinda. Sempre que o percebia animado, a imagem dela o presenteava com um sorriso radiante, e um brilho sutil parecia cintilar em seus olhos fotografados.

Ele se deslumbrou com as novas possibilidades. Passava horas a fio procurando antigos amigos, namoradas, conhecidos, recortes de jornais de época, vídeos antigos e tudo o mais que compunha sua memória afetiva. Em algumas tardes, viajava no tempo — ele e a fotografia de sua eterna companheira se divertiam observando o efeito da passagem dos anos nos rostos dos amigos reencontrados no Facebook.

Segundo seu médico, Seu Tatá apresentava melhoras em todos os índices e marcadores que os exames clínicos podiam revelar. Seu estado de espírito parecia ter sido rejuvenescido, como se tivesse mergulhado na fonte da juventude. Para completar o quadro de renovação, encontrou cinco amigos de longa data, ainda vivos, através do Facebook, e que, para sua alegria, ainda residiam em Copacabana. Passaram a se encontrar diariamente na praça do Bairro Peixoto, onde se divertiam, jogavam cartas e compartilhavam memórias e vivências.

Seu Tatá parecia ter retornado à juventude. Até o dia em que despertou com o ruído de máquinas pesadas exatamente sob sua janela. Era no terreno ao lado, que estava sendo preparado para ser um galpão de estacionamento. Ele suportou o barulho por vários dias, embora aquilo o irritasse profundamente. Mas, o que fazer? Ao menos, o incômodo cessava por volta das cinco horas da tarde. A foto de Dona Olinda, habitualmente sorridente, já demonstrava impaciência com a barulheira incessante; seu sorriso fotográfico parecia um pouco mais tenso a cada dia de obra.

Até o dia, ou melhor, a noite, em que a concretagem do piso estava em sua fase final. Três máquinas, semelhantes às grandes enceradeiras domésticas de outrora, invadiram a noite com seus ruídos, não excessivamente altos, mas extremamente irritantes. Diariamente, Seu Tatá precisava remover a poeira fina que a obra depositava sobre os móveis. Com especial atenção à fotografia da amada. A imagem dela parecia ter alergia ao pó — dava uma discreta tremidinha dentro do porta-retrato, como se segurasse um espirro iminente ou, por vezes, franzisse o narizinho com evidente desagrado.

Quando Seu Tatá despertou de um cochilo, por volta das oito horas da noite, as máquinas ainda operavam, o que intensificou sua irritação. A foto de Dona Olinda não estava para gracejos naquela noite; visivelmente contrariada, a boca antes sorridente agora era uma linha reta e severa. Com certeza, aqueles operários inconvenientes se estenderiam até as dez da noite com aquele barulho. Se não parassem, ele acionaria a polícia. Afinal, para isso existia a Lei do Silêncio – ao menos em sua época, existia, e as pessoas, assim como as obras, respeitavam certas convenções de boa vizinhança. A foto no porta-retratos anuiu prontamente, a cabeça da imagem parecendo inclinar-se minimamente em um gesto afirmativo.

Às dez e meia da noite, não havia qualquer sinal de que as máquinas seriam desligadas. A essa altura, Seu Tatá estava profundamente irritado, sentindo uma fúria que há muito não experimentava. Dona Olinda, por meio de sua expressão na foto, sugeriu que ele chamasse a polícia; sua feição era de pura indignação. Ele pegou o telefone, mas hesitou — achou que não adiantaria. A polícia demoraria a chegar – se é que chegaria – e, até lá, os operários já teriam encerrado o trabalho, tornando inúteis tanto a irritação do casal quanto o chamado telefônico. Contudo, ele precisava fazer alguma coisa. Dona Olinda concordou, mas fazer o quê? A foto sorriu com um brilho maroto nos olhos e indicou a cozinha com um sutil movimento do queixo. Eles sempre se entenderam pelo olhar.

Ele foi até a geladeira, recordando-se de como era bom ter sido um moleque de Copacabana. Dona Olinda conhecia bem o seu velho. A foto o apoiou com um sorriso de canto de boca e o dedo indicador em riste; e, para selar a cumplicidade, Seu Tatá jurou ter visto a imagem dela piscar um olho, como nos velhos tempos de travessuras juvenis conjuntas. Só de pensar no que faria, sua pressão arterial diminuiu, a glicose baixou e quase teve uma ereção. A foto adorou este detalhe, o sorriso dela pareceu se alargar ainda mais.

Pegou uma caixa de ovos cheia, apagou as luzes do apartamento, fechou as cortinas, mas não as janelas. E começou a atirar os ovos nos três homens que operavam as máquinas e em mais um que os fiscalizava.

Lançava os projéteis e se escondia, rindo sem parar. Cada ovo arremessado arrancava uma gargalhada. E o velho tinha uma mira excelente — o que provocou uma crise de riso impagável no casal.

Não foram necessários mais do que meia dúzia de ovos para que a primeira máquina fosse desligada, seguida pelas outras. No porta-retratos, Dona Olinda exibia um sorriso doce, pleno de aprovação e orgulho; a imagem parecia até mais corada e vibrante.

Naquela noite, Seu Tatá dormiu como um anjo e sonhou com Dona Olinda a noite inteira. Ao acordar, encontrou uma pequena flor sobre a mesinha de cabeceira. Não se lembrava de tê-la colocado ali. Mas sorriu.

E a foto também.                                                                                                           

Edmir Saint-Clair




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Crônicas 

COMO ENCONTRAR O SEU ANJO – GUIA PRÁTICO

COMO ENCONTRAR O SEU ANJO – GUIA PRÁTICO

        Todos gostaríamos de ter nosso próprio anjo da guarda, exclusivo, nos protegendo, nos acompanhando e fazendo nossa guarda dia e noite.

Com este guia prático você vai ver que isto é possível, basta vencer a barreira do absurdo. Isso é muito fácil, já que ela não existe mesmo.

Para começar a procurar seu anjo faça o oposto, identifique seu demônio particular. Esses dias estressantes facilitam bastante essa tarefa, e a toda hora ele se manifesta. Primeiro, perceba que seu principal antagonista é você mesmo. Somos nossos piores e mais implacáveis sabotadores e críticos. Se a gente pudesse quebrar a própria cara, de vez em quando, não seríamos assim.

Por isso, se não podemos vencê-lo, juntemo-nos a ele, no caso, a nós mesmos. Às vezes, transformamos nossas próprias vidas num verdadeiro inferno, como se estivéssemos com o diabo no corpo, nesses momentos, não vacile, atraque-se com seu capeta e mostre quem manda na porra toda.

A primeira providência é, numa ocasião propícia, convidar seu crítico para conversar. Ofereça-lhe um chazinho, todo crítico adora um chazinho. Durante a conversa, faça-o ver que ele o está se criticando muito severamente e revele a grande verdade, ele é você. No começo ele pode relutar um pouco, mas depois, fatalmente terá que concordar. Ou então, se interne logo porque seu caso está perdido. E, não adianta partir para a agressão, eu garanto que você vai apanhar.

Passada esta fase meio insana, vamos para a segunda etapa.

Que é, ainda, mais insana.

Essa prática seguinte tem suas vantagens. Você pode praticá-la em casa, sozinho, não paga dízimo e não tem sermão de ninguém, nem tem que ler nada. E não precisa ver programa de pastor gritando em canal de televisão.

O incenso é opcional, não é necessário.

Agora vamos lá; na sua sala ou quarto, fique o mais relaxado que puder, sente-se no chão e assuma a posição de Lótus. 

Pode ser também a posição de Ferrari ou McLaren.

Essas posições importadas geralmente são bastante confortáveis. Mas, tem gente que se arranja bem até com a posição Fiat Uno. Tem que ter muito mais flexibilidade, é claro.

Ah, antes coloque um som instrumental que você goste, porque se deixar para colocar depois de fazer a posição escolhida, vai dar o dobro do trabalho.

Comece a pensar em quantos Eus existem em você.

Acesse as memórias de você quando criança, imagine que está se encontrando com ela, com a criança cheia de sonhos que você foi, convide ela para brincar, pergunte o que ela sente, o que ela precisa, o que lhe falta.

Chame seu autocrítico, também, e apresente-o a ele mesmo.  Perceba toda a abrangência de sua própria pluralidade.

Desculpe seus erros, faça um pacto de amizade consigo. Faça a paz entre todos os seus Eus.

Grande parte das pessoas esconde sentimentos de si mesma. Ou seja, nem amigos confidenciais de si mesmos são.

Essa é a pior solidão, a ausência de si mesmo.

Temos que nos aceitar, ficar do nosso lado, isso é fundamental. Mesmo quando não compreendemos por que fizemos aquela merda colossal! Quanto mais difícil é uma situação, mais fortemente precisamos contar com nosso próprio apoio. Sem o acolhimento e a amizade de si mesmo, não há santo, nem anjo, que aguente viver.

Seu anjo da guarda existe e está esperando por esse encontro, há tanto tempo quanto você.

Agora, levante-se e fique bem em frente ao espelho. 

Se olhe com toda a atenção, sem pensar em nada, apenas se olhe, sem pressa, vá se reconhecendo, lentamente, em cada mínimo detalhe, até se enxergar profundamente, com os olhos de sua própria alma.

E, então sorria.

Imediatamente, você verá o seu anjo lhe sorrindo de volta.

Edmir Saint-Clair

 



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