Contos  Crônicas 

OS LACERDINHAS - O INCÊNDIO DA PRAIA DO PINTO

OS LACERDINHAS - O INCÊNDIO DA PRAIA DO PINTO

Nunca mais vi um lacerdinha. Pensando bem, faz muitos anos que nem sequer ouço falar.

O lacerdinha tinha poucos milímetros, não voava e não transmitia doenças. Era pretinho e infestava o Leblon, principalmente as transversais, numa certa época do ano. Minhas lembranças em relação a eles estão ligadas à época em que eu morava na Rua José Linhares. No final da tarde, eram cigarras cantando e lacerdinhas caindo das árvores, às vezes nos olhos. Ardía e coçava muito, deixava os olhos inchados e nossas mães preocupadas. Eles eram atraídos por roupas claras, principalmente as amarelas, e, por vezes, atingiam os olhos, provocando irritação e ardência intensas.

Esses minúsculos insetos eram chamados de lacerdinhas em referência a um antigo político carioca, Carlos Lacerda, que fora governador no tempo do Estado da Guanabara.

Descobrimos que os lacerdinhas, ainda larvas, ficavam nas folhas das árvores que estavam enroladas e cheias de água da chuva. A gente as desenrolava e surgia um monte de lacerdinhas pequenos em seu interior.

Eu tinha uns seis anos de idade e era acostumado a brincar na nossa rua, mas só no quarteirão, sem atravessar a via. Havia muitas crianças, tanto no meu prédio quanto nos prédios vizinhos, que faziam parte daquela turminha de meninos da mesma idade. Naquele tempo, no Leblon, a maioria das casas tinha uma empregada que morava na favela da Praia do Pinto ou na Cruzada São Sebastião. Quando, por algum motivo, a empregada da minha mãe levava o filho para o trabalho, no caso a minha casa, ele se tornava um amigo a mais que passaria o dia brincando comigo, com meu irmão e com nossos outros amigos. No período das férias escolares isso era bem frequente.

Às vezes, Dona Celestina voltava para a casa deles, na favela da Praia do Pinto, e ele ficava e dormia lá em casa com a gente. Eu e meu irmão adorávamos a presença dele. Era um menino doce, risonho e engraçado. Seu apelido era Bilico, o nome era Bernardo. O dia era sábado, 10 de maio de 1969, véspera do Dia das Mães.

Dona Celestina e minha mãe estariam ocupadas o dia inteiro preparando o almoço comemorativo do dia seguinte. Bilico era mais novo do que eu, um ano, e mais velho que meu irmão apenas alguns meses. Era negro, com dentes grandes e muito brancos. Era tímido, mas engraçado. Falava de uma maneira diferente, que eu achava legal. Quando Bilico passava o dia lá em casa, fazia tudo junto comigo e meu irmão. Assumia a nossa rotina: almoçava, tomava banho, descia para brincar conosco, e era sempre muito divertido.

Nesse dia, Bilico chegou cedo, tomou café conosco e descemos para a rua para brincar. Era época de lacerdinhas. Dentre os garotos que brincavam na rua, tinha um que era especialmente assustador para mim e meu irmão. O Arlindo era mais velho, mas não andava com os garotos da idade dele. Andava conosco, que tínhamos uns dois anos a menos. Naquela idade, isso fazia uma grande diferença. Gostava de nos intimidar e bater. Ninguém ficava com pena quando o pai dele aparecia chamando-o, sempre gritando e batendo nele. Nós também tínhamos medo do pai dele.

Naquela tarde, estávamos catando lacerdinhas nas árvores. Abríamos as folhas e ficávamos observando as lacerdinhas se mexendo lá dentro. De repente, Arlindo pega algumas lacerdinhas com o dedo e enfia com violência no olho do Bilico, que os observava bem de pertinho, e grita:

— Tá com fome? Toma, neguinho esfomeado!

Arlindo falou aquilo com mais raiva do que lhe era peculiar. Todos nós tomamos um susto. Ele nem conhecia o Bilico, que começou a coçar o olho e a chorar com a ardência intensa. Todos os meninos começaram a rir, menos eu, meu irmão e o Bilico, que saiu andando e chorando na direção da portaria do nosso prédio.

Lembro que me veio um sentimento estranho e desconfortável, que nunca me saiu da memória. Eu senti vergonha. Vergonha de não ter defendido o Bilico. Ele era meu amigo.

Bilico não subiu para nossa casa. Ficou num canto da portaria, chorando baixinho. Falou que, se chegasse lá em cima chorando e com o olho inchado, sua mãe iria brigar com ele. Ela recomendava-lhe sempre que não queria que ele arrumasse confusão com os filhos das madames.

Depois de algum tempo, ele parou de chorar e subimos pela escada. Naquela época, os empregados e pessoas negras só podiam subir pelo elevador de serviço, mas Bilico só subia pela escada. Tinha medo de elevadores. Quando chegamos em casa, a primeira coisa que Dona Celestina viu foi o olho do filho inchado e muito vermelho. Não falou nada, mas fechou a cara, chamou Bilico para a cozinha e de lá só o vimos novamente quando eles foram embora, bem mais tarde. Lembro-me bem da expressão de choro dele quando se despediu da gente. Aquele sábado me marcou para sempre.

Naquela mesma noite, um misterioso e devastador incêndio irrompeu e tomou conta da favela onde eles moravam. Queimou por toda a madrugada e por muitas horas seguintes, consumindo tudo e deixando centenas e centenas de famílias sem teto e sem nada.

Era dia 11 de maio de 1969, Domingo, Dia das Mães. A casa de Dona Celestina e do Bilico pegou fogo e virou cinzas, junto com toda a favela da Praia do Pinto, que queimou inteira. Não sobrou nenhum barraco de pé. Dona Celestina nunca mais voltou.

Nunca mais soubemos deles.

— Edmir Saint-Clair


A história sobre o incêndio da favela Praia do Pinto:
A favela banida — Testemunha Ocular / IMS

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Poesia 

CANSAÇO

CANSAÇO

Baixei armas ao chão, onde já me sinto,

Pesa demais esse arsenal que me protege,

Desabotoei meu colete à prova de gente,

Porque não há mais gente 

                                        a minha volta, 

E sem gente não há dor


Descalcei as grossas botas que me afastam da areia

                                                Da minha praia

Deitei escudos, blindagens e artifícios dos meus medos,

                        E, finalmente, chorei,

                       Liberto de vencer.


- Edmir Saint-Clair


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Crônicas 

TÔ ACHANDO QUE É HOJE

TÔ ACHANDO QUE É HOJE

 

Sexta-feira não começa na sexta. Começa na quarta, quando alguém manda no grupo: “Sexta vai rolar ou vai flopar?”

 E ali já brota, feito espinha em adolescente, a ansiedade do amor em potencial. Ninguém admite, claro. Todos fingem maturidade, desapego e autocontrole, mas já estão escolhendo roupa mentalmente.

 Na quinta, o mundo entra em preparação. Homens ajeitam a barba como quem afia esperanças. Mulheres fazem a unha como quem desenha destino. Alguns ficam mais tempo na academia, tentando convencer o espelho. Cabelos, perfumes e camisas entram em negociação direta com o acaso. E, por garantia, com Iemanjá.

Há quem compre camisa nova. Há quem repita a velha, porque já deu sorte uma vez. Há quem diga que “vai só para encontrar os amigos”, frase que a gente usa quando não quer admitir que está disponível.

Porque ninguém vai apenas sair. Vai se candidatar ao beijo improvável, ao olhar demorado, à conversa que começa sobre qualquer bobagem e, de repente, muda o peso da noite. Tudo pode acontecer. Inclusive nada. E é justamente isso que mantém a gente arrumando a roupa toda semana.

Chega a noite. Os copos tilintam, os corpos se aproximam, os perfumes se misturam no ar. Os celulares somem nos bolsos por alguns minutos, e o coração vira bússola: será aqui? Será hoje? Será aquela pessoa que sorriu de lado e voltou para a conversa dela como se nada tivesse acontecido?

A sexta-feira promete mais do que pode entregar. Vem com luz baixa, música alta, gente bem vestida e uma autorização coletiva para acreditar no acaso. Como se o universo, depois de uma semana inteira de boleto, reunião, trânsito, senha e cansaço, abrisse uma pequena janela e dissesse: “Vai lá. Tenta.”

E a gente tenta. Tenta com a roupa, com o perfume, com a frase espirituosa guardada no bolso. Tenta com o olhar, com o silêncio, até com a indiferença de quem está quase pedindo para ser descoberto.

Às vezes dá certo. Duas pessoas que estavam no mesmo bar há uma hora sem se notar começam a falar. Um assunto qualquer vira ponte. Um riso derruba a distância. Um beijo acontece onde, minutos antes, havia só duas pessoas educadamente sozinhas.

Outras vezes, não. A pessoa interessante vai embora cedo. A conversa promissora morre na terceira frase. O olhar não responde. O acaso, esse gerente incompetente das grandes viradas, esquece o endereço.

De volta para casa, já de madrugada, tem um momento que ninguém posta: o espelho do banheiro às duas da manhã. Versão levemente amassada, um pouco cansada, ainda ligada.

 A noite não entregou o épico. Entregou o espelho, o cansaço e uma esperança que ainda insistia em ficar acordada.

Não foi hoje. Tudo bem.

Amanhã é sábado. E sábado, no fundo, é só a sexta com olheiras mais honestas e mais fé ainda no acaso.

Edmir St-Clair
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Poesia 

AMANTES

AMANTES


O toque acendeu o sol,

                                                        Dois sóis,

Quentes, atraentes, penetrantes,

Somando-se num calor ardente, pendente, arfante


Pele, seda, almas sussurrantes,

Atraindo-se, exalando seus perfumes provocantes,

Fêmea nua, natureza dominante


A carne quente, úmida, envolvente,

Sugando, atraindo, desejando urgente,

Acordando o desejo de se completar inteira,

Em cada poro, em cada arfar, em cada instante


Teu ar, meu ar, arfantes, 

dentro, fora,

                                            Inebriantes,

Somos insanos, alucinados, delirantes,

Cabendo juntos no mesmo universo latejante,

Somos a vida, somos amor, somos amantes.

Edmir Saint-Clair

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ensaios  Reflexões 

VIÉS: NOSSO PONTO DE VISTA

VIÉS: NOSSO PONTO DE VISTA

Nossa visão do fato não é o fato.

Há pessoas que entram num bar convencidas de que escolheram a mesa, a bebida, a companhia e até a opinião que levarão para casa. É bonito. Quase comovente. A razão humana gosta de posar para foto.

Mas, na verdade, a grande maioria das vezes não escolhemos nenhum daqueles ítens, estamos apenas repetindo o que já estamos acostumados a fazer. E, sentamos achando que decidimos. Nas conversas repetidas, com as mesmas pessoas de sempre, muitas vezes, o que realmente fazemos é apenas reagir com o vocabulário pré-estabelecido, sem nem prestar atenção no que está sendo falado. É o piloto automático em sua atuação diária e rotineira. Nesse momento nada é racional, é nessa hora que nossos vieses assumem o controle pleno de toda a situação.

No bar, por exemplo, alguém comenta um assalto que aconteceu no bairro. Em poucos minutos, o clima na mesa é como se a cidade inteira estivesse à beira de uma guerra civil. As pessoas se inflamam. Não importa a estatística, o horário, a exceção, o contexto. A notícia mais recente sempre ocupa o lugar da realidade inteira. É o viés da disponibilidade está servido com o chope. O que está mais vivo na memória parece mais verdadeiro, mais frequente, mais urgente. A mente humana transforma lembrança em prova, susto em método, manchete em prioridade.

No encontro social, chega um desconhecido bem vestido, perfume caro, voz calma, olhar administrado. Antes mesmo que diga qualquer coisa relevante, já lhe emprestamos competência, equilíbrio, talvez caráter. É o efeito halo. Uma qualidade ilumina todas as outras, mesmo as que não existem. A boa aparência passa a funcionar como currículo moral. A simpatia vira evidência de qualidades. A elegância, de honestidade. Já o sujeito desajeitado, que derruba o guardanapo, é condenado antes do julgamento. A vida social é um tribunal de primeiras impressões, com toga, canapé e sem apelação.

No trabalho, a coisa piora, porque ali os vieses usam crachá.

Um chefe lança um número inicial numa reunião. “Acho que esse projeto não deve passar de cinquenta mil.” Pronto. A âncora foi jogada. A partir dali, qualquer debate girará em torno dela, mesmo que ninguém saiba de onde aquele número veio. Pode ter vindo de uma planilha, de uma intuição, de um sonho ruim, de uma conversa no elevador, das letras, das conchas, do tarô ou de Plutão retrógrado. Ainda assim, o primeiro valor contamina todos os outros. Chamam isso de planejamento. Às vezes, é apenas superstição com PowerPoint.

Nas amizades, o viés de confirmação trabalha com uma dedicação religiosa. Escolhemos sinais que confirmem aquilo que já decidimos sentir. Se estamos magoados, cada silêncio vira desprezo. Se estamos encantados, cada descuido vira distração charmosa. A mente não procura a verdade; procura testemunhas para a narrativa que já escreveu. E, quando encontra, exibe como quem encontrou um documento histórico dentro da própria gaveta.

Há amigos que deixam de ser amigos não por um fato, mas pela interpretação de um fato. Uma mensagem não respondida. Um convite esquecido. Um comentário atravessado. O acontecimento, em si, é pequeno; o viés, porém, sabe inflar pequenezas com rara competência. Em pouco tempo, aquilo que era apenas um atraso vira abandono. Aquilo que era cansaço vira desprezo. Aquilo que era distração vira sentença. E aquilo que era amizade vira vazio.

Na vida amorosa, então, os vieses entram com o pé na porta, sem pedir licença, abrem a geladeira, mexem nas memórias e ainda criticam a decoração.

A representatividade faz alguém concluir, depois de dois encontros, que o outro pertence a uma categoria já conhecida: os indisponíveis, os narcisistas, os inseguros, os salvadores, os perigosos, os que somem, os que voltam, os que dizem “vamos marcar” e jamais marcam. A pessoa real desaparece atrás do tipo. Julgamos o outro não pelo que ele é, mas pelo personagem que ele nos lembra. Às vezes, não nos relacionamos com alguém, mas com um arquivo antigo que esquecemos aberto.

A aversão à perda também governa muitos amores. Não ficamos apenas porque amamos; às vezes ficamos porque perder parece doer mais do que permanecer. A perda tem voz alta. O ganho é mais educado. A possibilidade de recomeçar quase sempre chega vestida de ameaça. Assim, muita gente chama de amor o medo de abandonar um investimento emocional antigo. Não quer a pessoa; quer não perder a versão de si que construiu ao lado dela.

O enquadramento da foto muda tudo. Dizer “terminamos porque já não havia amor” é uma coisa. Dizer “tivemos coragem de não falsificar a permanência” é outra. O fato pode ser o mesmo, mas a moldura reorganiza a dor. Na vida, muitas vezes não mudamos os acontecimentos; mudamos a legenda. E, com uma legenda melhor, suportamos quase qualquer fotografia.

Depois vem o viés retrospectivo, esse profeta atrasado. Quando a relação acaba, sempre aparece alguém para dizer: “Eu já sabia.” Sabia nada. Suspeitava, talvez. Torcia, talvez. Reorganizou os fatos depois do incêndio e agora desfila com um balde d’água vazio na mão. Depois que tudo acontece, a mente costura uma lógica aleatória e nós a aceitamos como verdade.

Também há o excesso de confiança, esse pequeno ditador íntimo. Achamos que conhecemos os outros, que sabemos onde determinada escolha vai dar, que desta vez não seremos enganados, que nossa intuição é afiada, que nossa análise é madura, que nosso coração, depois de tantos acidentes, aprendeu a dirigir. É nossa pequena redenção.

Daniel Kahneman nos oferece, no fundo, uma humilhação necessária: não somos tão lúcidos quanto imaginamos. Dentro de nós há um sistema rápido, automático e intuitivo, que decide antes que a razão chegue. Depois, entra o pensamento lento, mais analítico, mais cuidadoso, mas frequentemente preguiçoso. Ele chega tarde, olha a confusão feita e cria uma justificativa elegante.

Talvez seja isso o que chamamos de opinião: uma intuição antiga usando roupa nova.

O problema não está em termos vieses. Eles fazem parte da arquitetura da mente. Foram úteis em algum momento remoto, quando decidir rápido podia salvar a vida. O problema começa quando confundimos rapidez com verdade, impressão com evidência, lembrança com estatística, medo com prudência, desejo com lucidez.

Nossa visão dos fatos não é o fato.

A lucidez começa quando aceitamos essa diferença. Quando percebemos que nosso ponto de vista é apenas isso: um ponto, não o mapa inteiro. Um ângulo, não a arquitetura. Uma janela, não a paisagem completa.

No fim, viver com lucidez talvez seja aprender a desconfiar sempre de nossas certezas.

Edmir Saint-Clair


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ensaios  Reflexões 

REMOTO CONTROLE

REMOTO CONTROLE

 

O pensamento também tem níveis de qualidade. 

Pode ser bom ou ruim.

Existem pensamentos ótimos e outros nem tanto. Existem até aqueles absolutamente inconfessáveis, por incontáveis motivos. E todos nós os temos, de todos os tipos.

 Assim como acontece com o ato de comer, nem sempre pensar mais significa pensar melhor ou estar mais preparado para tomar decisões. Pensar bem talvez fosse pensar quando necessário e somente o necessário, pressupondo que pudéssemos determinar o exato momento de parar de pensar. Sabemos que isso não nos é possível.

Sempre que um assunto se entranha em nossa mente, a tendência é que não consigamos desviar a atenção até estarmos mentalmente fatigados e, consequentemente, incapazes de decidir. Uma verdadeira indigestão mental por excesso de estímulo.

 Pensar demais talvez seja uma tentativa desesperada de controlar tudo aquilo que, por natureza, é imprevisível.

 Vivemos tempos líquidos, em que nada parece permanecer sólido tempo suficiente para nos oferecer segurança. Relações mudam, trabalhos mudam, valores mudam, tecnologias mudam, afetos mudam de endereço com uma velocidade que a nossa estrutura emocional nem sempre consegue acompanhar. Diante dessa instabilidade permanente, tentamos controlar os acontecimentos, as pessoas, os vínculos, as agendas, os riscos e tentamos até adivinhar o futuro nas cartas, nos búzios, no tarô e em Plutão. Mas essa tentativa é inócua, porque a vida não se submete aos nossos planos.

 Quanto mais o mundo escapa, mais a mente tenta aprisioná-lo. E, quanto mais tenta controlar, mais se frustra. Daí nasce boa parte da ansiedade contemporânea: não apenas do excesso de acontecimentos, mas da ilusão de que deveríamos ser capazes de administrá-los todos. A angústia talvez comece justamente aí, nesse atrito entre a fluidez do mundo e o nosso desejo desesperado de controlá-lo para nos sentirmos mais seguros.

Não sou um especialista no assunto, apenas um pensador veterano no uso da minha própria mente.

O bom desse tempo todo de vida é que os assuntos começam a se cruzar. Coisas que antes pareciam tão díspares, com o passar do tempo, podem se mostrar partes de uma mesma engrenagem de causas e consequências.

Uma das coisas que mais gosto de fazer é correlacionar eventos, lugares e pessoas, observando a forma como se entremeiam no enredo de nossas vidas. Há encontros que parecem nascer do acaso, mas que, vistos depois, ganham uma estranha coerência narrativa. 

Pessoas desconhecidas que se cruzam aleatoriamente no centro da cidade e, a partir dali, unem suas vidas. Do nada muda tudo. Lugares que pareciam não ter relação alguma entre si passam a fazer parte de uma mesma história. Uma cidade, uma viagem, uma conversa interrompida, uma decisão aparentemente pequena, tudo pode se transformar em ponto de passagem para acontecimentos que antes seriam inimagináveis.

 A vida tem essas interseções secretas, esses corredores invisíveis por onde o imprevisível circula sem pedir licença. Só o movimento contínuo das mudanças é capaz de propiciar certos encontros. Se tudo permanecesse fixo, se todos ficássemos imóveis dentro de nossas certezas, nada verdadeiramente inesperado nos alcançaria. Mas num mundo onde a mudança é a única certeza, essa imobilidade é impossível.

 A imprevisibilidade dos acontecimentos é o que nos força  a evoluir e a nos adaptar ao novo. É a evolução operando na nossa espécie. 

A forma como lidamos com esses imprevistos e a rapidez com que nos adaptamos às novas configurações determinam muito de nossa capacidade de vivenciar o que chamamos de felicidade: uma espécie de orgasmo existencial rápido e passageiro, mas capaz de fazer todo o resto valer a pena.

O segredo talvez seja buscar esses parênteses da vida: os momentos em que conseguimos ficar de fora, mesmo ainda estando dentro. Suspensos da própria vigilância e da inútil tentativa de controlar os acontecimentos.

 Viver tenso, viver vigilante, viver ansioso, viver com medo, viver preocupado. A gente aguenta fazer isso só por algum tempo. Depois, entra em depressão.

Edmir Saint-Clair

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ensaios  Reflexões 

O QUE É A CONSCIÊNCIA?

O QUE É A CONSCIÊNCIA?

 

“Para ver a ilha, temos que sair da ilha.” José Saramago

Se tivesse que escolher uma palavra para definir a existência humana, eu não hesitaria nem um segundo: consciência.

O sentido interior da percepção: visões, sons, pensamentos, sentimentos. A presença íntima da autoconsciência, esse estar ciente de si sendo você mesmo. Esse é o “problema difícil” da consciência. A senciência interna, nosso filme interior, a fronteira final da exploração humana.

Sou fascinado por todas as diversas maneiras pelas quais a consciência pode ser examinada. Sei que ela tem importância vital e essencial em nossa condição humana. O que não sei é: o que é a consciência?

Como explorá-la?

Geralmente, filósofos falam com filósofos, neurocientistas com neurocientistas. Muitas ideias interessantes, mas nenhum avanço definitivo. A consciência não é divisível, não funciona de forma compartimentalizada e estanque. A natureza não sabe que o ser humano a fraciona para tentar entendê-la. Nela, não existe física, química, filosofia, matemática, biologia e todas as disciplinas que o ser humano inventou para tentar compreendê-la. É tudo vida, é tudo natureza, é tudo uma coisa só interagindo consigo mesma. É tudo dentro. Não existe fora.

Podemos ampliar o discurso e olhar para a consciência, incluindo o problema difícil da experiência interior, através de diferentes filtros conceituais? Romper fronteiras, emancipar nosso pensamento?

Mas como começar do zero, com o mínimo de viés? Segundo Daniel Kahneman, a mente humana está longe de ser uma observadora neutra de si mesma e do mundo. Julgamos por atalhos, confundimos coerência com verdade e frequentemente superestimamos a solidez daquilo que pensamos saber. Isso torna ainda mais difícil qualquer tentativa de partir do zero.

Definir o que é a consciência é o primeiro passo óbvio. Mas a verdade é que ainda não conseguimos passar desse ponto. Ainda sequer conseguimos dar esse primeiro passo.

Sempre fui obcecado pela consciência a vida inteira. Quem é esse outro que vive acima de mim, sem deixar de ser eu mesmo? Quem é esse que me julga? Se sou eu mesmo, por que não me impeço de fazer merdas?

Leibniz disse que, se pudéssemos expandir o cérebro até o tamanho de um salão e caminhar dentro dele, ainda assim não encontraríamos a consciência. E a ciência não conseguiu encontrá-la até agora. Vasculha o cérebro há séculos, mas não encontra onde a consciência é produzida dentro dele.

A perspectiva de Wittgenstein

Acho que o filósofo que mais buscou compreender isso foi Ludwig Wittgenstein. O ponto central de seu argumento era o chamado “argumento da linguagem privada”. Resumindo seu pensamento, a linguagem é uma ferramenta extremamente precária, e nunca se pode afirmar que as pessoas compreendem o significado das palavras da mesma forma que você. A imprecisão das palavras é um problema insolúvel até agora.

Então, como saber que outras pessoas têm consciência da mesma forma que você?

Para Wittgenstein, a consciência não é uma “coisa gasosa interna” à qual você tem acesso privilegiado, mas que é problemática para todos os outros. Ela é tão problemática para você próprio quanto para os outros.

Só podemos observar e tentar entender melhor o que é a consciência através da própria consciência, e cada um só pode estudar a sua. Esse é o problema mais difícil. O grande escritor e, a meu ver, filósofo, José Saramago tem uma excelente e perspicaz percepção desse problema ao enunciar: “Para ver a ilha, temos que sair da ilha.” 

A resposta que mudará o rumo da humanidade e  nos dará um novo caminho para tentarmos sair desse beco sem saída no qual nos encontramos, é a que nos oferecer uma maneira confiável de investigar de forma isenta e objetiva, esse  fenômeno tão subjetivo. 

O problema é grande, difícil e até agora, não temos nem ideia se, realmente, haverá uma solução.

Sou um otimista. Acredito que o mesmo progresso tecnológico que nos permite hoje observar um cérebro funcionando em tempo real, fato impensável nos tempos de Freud, nos levará, um dia, a um conhecimento cada vez mais próximo da realidade do que acontece em nossos cérebros. E então surgirão respostas que nos levarão a novas perguntas, que nos levarão a novas respostas e a novas perguntas. E assim seguirá caminhando a humanidade.

 Edmir Saint-Clair

 

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Poesia  Reflexões 

TRANSCENDER

TRANSCENDER

 

Envolver, envolver-se e ser envolvido,

Misturar-se, fazer parte, somar-se, dividir-se.

Nada mais abstrato que romper os limites do ser.

Impossível, diz a ciência,

mas não a sapiência, que nem tudo pode resolver.

Mas nos resolvemos no nosso desejo de pertencer,

um dos mais abstratos mistérios do ser.

A transcendência leve, etérea, intocável,

além do mundano banal,

tem que ser consciente para tornar-se mistério.

Por isso, me envolvo, envolvo e sou envolvido,

e me diluo no todo.

Ainda não, mas irei,

me fundindo à maior das ciências,

sendo tudo e nada ao mesmo tempo,

sendo sempre e nunca, eternamente.

Edmir Saint-Clair


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