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Crônica

TÔ ACHANDO QUE É HOJE

 

Sexta-feira não começa na sexta. Começa na quarta, quando alguém manda no grupo: “Sexta vai rolar ou vai flopar?”

 E ali já brota, feito espinha em adolescente, a ansiedade do amor em potencial. Ninguém admite, claro. Todos fingem maturidade, desapego e autocontrole, mas já estão escolhendo roupa mentalmente.

 Na quinta, o mundo entra em preparação. Homens ajeitam a barba como quem afia esperanças. Mulheres fazem a unha como quem desenha destino. Alguns ficam mais tempo na academia, tentando convencer o espelho. Cabelos, perfumes e camisas entram em negociação direta com o acaso. E, por garantia, com Iemanjá.

Há quem compre camisa nova. Há quem repita a velha, porque já deu sorte uma vez. Há quem diga que “vai só para encontrar os amigos”, frase que a gente usa quando não quer admitir que está disponível.

Porque ninguém vai apenas sair. Vai se candidatar ao beijo improvável, ao olhar demorado, à conversa que começa sobre qualquer bobagem e, de repente, muda o peso da noite. Tudo pode acontecer. Inclusive nada. E é justamente isso que mantém a gente arrumando a roupa toda semana.

Chega a noite. Os copos tilintam, os corpos se aproximam, os perfumes se misturam no ar. Os celulares somem nos bolsos por alguns minutos, e o coração vira bússola: será aqui? Será hoje? Será aquela pessoa que sorriu de lado e voltou para a conversa dela como se nada tivesse acontecido?

A sexta-feira promete mais do que pode entregar. Vem com luz baixa, música alta, gente bem vestida e uma autorização coletiva para acreditar no acaso. Como se o universo, depois de uma semana inteira de boleto, reunião, trânsito, senha e cansaço, abrisse uma pequena janela e dissesse: “Vai lá. Tenta.”

E a gente tenta. Tenta com a roupa, com o perfume, com a frase espirituosa guardada no bolso. Tenta com o olhar, com o silêncio, até com a indiferença de quem está quase pedindo para ser descoberto.

Às vezes dá certo. Duas pessoas que estavam no mesmo bar há uma hora sem se notar começam a falar. Um assunto qualquer vira ponte. Um riso derruba a distância. Um beijo acontece onde, minutos antes, havia só duas pessoas educadamente sozinhas.

Outras vezes, não. A pessoa interessante vai embora cedo. A conversa promissora morre na terceira frase. O olhar não responde. O acaso, esse gerente incompetente das grandes viradas, esquece o endereço.

De volta para casa, já de madrugada, tem um momento que ninguém posta: o espelho do banheiro às duas da manhã. Versão levemente amassada, um pouco cansada, ainda ligada.

 A noite não entregou o épico. Entregou o espelho, o cansaço e uma esperança que ainda insistia em ficar acordada.

Não foi hoje. Tudo bem.

Amanhã é sábado. E sábado, no fundo, é só a sexta com olheiras mais honestas e mais fé ainda no acaso.

Edmir St-Clair

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