ORIENTADOR LITERÁRIO

O ORIENTADOR LITERÁRIO - especializado em redação criativa - desperte sua criatividade adormecida.

REMOTO CONTROLE

 

O pensamento também tem níveis de qualidade. 

Pode ser bom ou ruim.

Existem pensamentos ótimos e outros nem tanto. Existem até aqueles absolutamente inconfessáveis, por incontáveis motivos. E todos nós os temos, de todos os tipos.

 Assim como acontece com o ato de comer, nem sempre pensar mais significa pensar melhor ou estar mais preparado para tomar decisões. Pensar bem talvez fosse pensar quando necessário e somente o necessário, pressupondo que pudéssemos determinar o exato momento de parar de pensar. Sabemos que isso não nos é possível.

Sempre que um assunto se entranha em nossa mente, a tendência é que não consigamos desviar a atenção até estarmos mentalmente fatigados e, consequentemente, incapazes de decidir. Uma verdadeira indigestão mental por excesso de estímulo.

 Pensar demais talvez seja uma tentativa desesperada de controlar tudo aquilo que, por natureza, é imprevisível.

 Vivemos tempos líquidos, em que nada parece permanecer sólido tempo suficiente para nos oferecer segurança. Relações mudam, trabalhos mudam, valores mudam, tecnologias mudam, afetos mudam de endereço com uma velocidade que a nossa estrutura emocional nem sempre consegue acompanhar. Diante dessa instabilidade permanente, tentamos controlar os acontecimentos, as pessoas, os vínculos, as agendas, os riscos e tentamos até adivinhar o futuro nas cartas, nos búzios, no tarô e em Plutão. Mas essa tentativa é quase inócua, porque a vida não se submete aos nossos planos.

 Quanto mais o mundo escapa, mais a mente tenta aprisioná-lo. E, quanto mais tenta controlar, mais se frustra. Daí nasce boa parte da ansiedade contemporânea: não apenas do excesso de acontecimentos, mas da ilusão de que deveríamos ser capazes de administrá-los todos. A angústia talvez comece justamente aí, nesse atrito entre a fluidez do mundo e o nosso desejo desesperado de controlá-lo para nos sentirmos mais seguros.

Não sou um especialista no assunto, apenas um pensador veterano no uso da minha própria mente.

O bom desse tempo todo de vida é que os assuntos começam a se cruzar. Coisas que antes pareciam tão díspares, com o passar do tempo, podem se mostrar partes de uma mesma engrenagem de causas e consequências.

Uma das coisas que mais gosto de fazer é correlacionar eventos, lugares e pessoas, observando a forma como se entremeiam no enredo de nossas vidas. Há encontros que parecem nascer do acaso, mas que, vistos depois, ganham uma estranha coerência narrativa. 

Pessoas desconhecidas que se cruzam aleatoriamente no centro da cidade e, a partir dali, unem suas vidas. Do nada muda tudo. Lugares que pareciam não ter relação alguma entre si passam a fazer parte de uma mesma história. Uma cidade, uma viagem, uma conversa interrompida, uma decisão aparentemente pequena, tudo pode se transformar em ponto de passagem para acontecimentos que antes seriam inimagináveis.

 A vida tem essas interseções secretas, esses corredores invisíveis por onde o imprevisível circula sem pedir licença. Só o movimento contínuo das mudanças é capaz de propiciar certos encontros. Se tudo permanecesse fixo, se todos ficássemos imóveis dentro de nossas certezas, nada verdadeiramente inesperado nos alcançaria. Mas num mundo onde a mudança é a única certeza, essa imobilidade é impossível.

 A imprevisibilidade dos acontecimentos é o que nos força  a evoluir e a nos adaptar ao novo. É a evolução operando na nossa espécie. 

A forma como lidamos com esses imprevistos e a rapidez com que nos adaptamos às novas configurações determinam muito de nossa capacidade de vivenciar o que chamamos de felicidade: uma espécie de orgasmo existencial rápido e passageiro, mas capaz de fazer todo o resto valer a pena.

O segredo talvez seja buscar esses parênteses da vida: os momentos em que conseguimos ficar de fora, mesmo ainda estando dentro. Suspensos da própria vigilância e da inútil tentativa de controlar os acontecimentos.

 Viver tenso, viver vigilante, viver ansioso, viver com medo, viver preocupado. A gente aguenta fazer isso só por algum tempo. Depois, entra em depressão.

Edmir Saint-Clair

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