Crônicas 

A DOIS

A DOIS

Não é preciso muito para que o mundo se acomode. Um mergulhado nas páginas de um livro, o outro viajando pela internet, sem pressa. Não há cobrança. Apenas um silêncio que não pesa.

Um domingo à tarde, quando o tempo se estica preguiçoso, pode ser mais pleno que uma festa. Porque há cumplicidade no simples ato de estar juntos sob o mesmo teto.

E quando a noite chega e as palavras resolvem brincar de madrugada, não há quem queira dormir cedo. A conversa vai e volta, se demora em lembranças, inventa futuros. O coração ganha aquela leveza rara — a de saber que, entre risadas e confidências, ou mesmo no silêncio, a vida encontra sentido.

Não é o que se diz, é o que se sente. Não é a festa, é a casa. Não é o barulho, é o eco de duas almas que se aconchegam para descansar uma na outra.

Edmir Saint-Clair

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Contos 

SÓ

 

Encostava-se no balcão e pedia uma cerveja. Sempre esperava que alguém o chamasse.

O Ricardo era assim, no Clipper, na Rua Carlos Góes, nos fins de tarde. Calado, falando o necessário, sempre esquivo. Simpático, mas esquivo. Morava na mesma rua e nunca o víamos acompanhado. Ninguém sabia nada a seu respeito além de que tinha um filho — que só via nas férias. O molequinho era bem mais extrovertido que o pai: chegava rindo, solícito com todos, e a galera do Clipper dava atenção especial a ele.

Ricardo recusava todos os convites para festas ou qualquer outro evento. A princípio pensávamos que tinha amigos em outro lugar. Com o tempo percebemos que nunca estava sequer arrumado para sair.

Sempre só.

Antevéspera de natal. Estava na fila dos Correios quando o vi despachando uma caixa grande. Acenei, ele retribuiu e, logo que despachou, veio fazer-me companhia na fila.

— Tudo bem? Mandando presentes?

 — Para meu filho. Está em São Paulo.

Aproveitei para convidá-lo.

— Vai um pessoal passar lá em casa. Solteiros, separados, largados em geral. O convite é da galera toda.

Ele agradeceu, baixando a cabeça. Me pareceu ter gostado.

Voltamos caminhando juntos pelo Leblon, da Praça Antero de Quental até a Rua Carlos Góes. Poucas vezes na vida percebi tanta solidão em alguém quanto naquele curto trajeto. Estava estampada na forma de caminhar, na maneira de falar de futebol, no desânimo de suas tentativas de riso. E, principalmente, no olhar.

Uma pessoa tão fechada que eu não sabia como dizer-lhe que, depois de tantos anos de chopp no Clipper, me sentia seu amigo.

Não falei.

Ao passarmos pelo bar, o chamei para uma cerveja, mas ele disse que tinha de ir. Parou alguns passos adiante e me chamou:

— Quero te agradecer pelo convite para o Natal. Muito obrigado.

Desta vez não conseguiu esconder. Deu-me um forte aperto de mão. Seus olhos brilharam úmidos. Olhou para baixo e seguiu seu caminho.

Contei a todos sobre o encontro com Ricardo e, juntos, decidimos dar-lhe um presente na noite de natal. A Tininha se prontificou a escolher e comprar, e fizemos uma vaquinha ali mesmo. Até o Seu Antonio, do Clipper, contribuiu — fato raríssimo.

Na véspera de natal, minha casa ficou cheia. Lá pelas tantas da madrugada, Tininha notou a ausência dele e concordamos que ele não viria mais. Lamentamos e o presente continuou ao pé da árvore de Natal.

Uma semana depois, a Tininha apareceu no Clipper chorando.

— Estava descendo de casa quando vi alguns móveis sendo colocados numa Kombi de mudança. Perguntei pro Seu João, o porteiro. Ele disse que eram do Ricardo — e que ele havia morrido na noite de Natal, atropelado.

Todos ali choraram a morte daquela pessoa solitária, que morreu sem saber que tinha amigos. Nem que ganharia um presente de Natal.

Nunca saberemos se ele estava indo ou não cear com a gente naquela noite.

Edmir Saint-Clair

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ensaios 

O ABISMO QUE NINGUÉM VÊ

O ABISMO QUE NINGUÉM VÊ

O ser humano é o único animal capaz de aprender com a experiência e, em seguida, decidir que prefere não ter aprendido nada.

Uma onça que atacar um porco-espinho adulto carregará para sempre no focinho as razões para nunca mais tentar. Não vai questionar. Não vai abrir um grupo de mensagens para debater se os espinhos existem de verdade. A lição entra pelo corpo e fica.

A gente é diferente. A gente aprende, desaprende, reescreve o que aprendeu, convence os outros de que também estão errados — e ainda encontra um nome bonito para isso: *Pensamento crítico.*

O cérebro opera com dois sistemas. Um é rápido, automático, emocional. O outro é lento, analítico, trabalhoso — e genuinamente desconfortável de usar. O problema é que o primeiro não avisa quando está funcionando.  Ele apenas funciona.

Os terraplanistas não são estúpidos. São pessoas com o sistema rápido em disparada, numa arquitetura de redes projetada para isso. Os algoritmos das redes sociais não foram construídos para informar. Foram construídos para capturar atenção. E atenção se captura com medo, com raiva, com a convicção de que existe um inimigo.

Uma mentira emocionalmente carregada sempre viajou mais rápido que um fato. Hoje tem infraestrutura.

A razão não precede a emoção. A emoção precede a razão. Sentimos antes de pensar. Decidimos antes de analisar. A racionalidade que exibimos depois é, com frequência, uma justificativa retroativa para o que o corpo já havia concluído.

Isso não é fraqueza. É biologia. O problema começa quando alguém descobre que pode usar essa biologia como arma.

Temos hoje inteligência artificial gerando vídeos convincentes de pessoas dizendo coisas que nunca disseram, autoridades científicas desmentindo a própria ciência com sotaque e rosto emprestados.

Vozes clonadas de médicos recomendando o que não recomendam — com as pausas certas.

O sarampo que havia sido erradicado voltou. A poliomielite voltou. E a desinformação, que antes se espalhava à velocidade humana, encontrou motor. O problema não é novo. A indústria é nova.

Vivemos num tempo em que tudo flui e nada solidifica — as referências escorregam antes de virar certeza, as convicções duram o tempo de um ciclo de notícias. O que não se antecipou é que a própria verdade se tornaria negociável. Não no sentido honesto da dúvida — aquela dúvida que é abertura, método, coragem de não saber. Mas no sentido mais rasteiro: a verdade como produto disponível em versões adaptadas ao gosto do consumidor. Você escolhe a sua.

 É fácil controlar quem acredita em qualquer coisa. Sempre foi. O que mudou é a escala.

  Há um abismo que cresce em silêncio. Quase ninguém fala sobre ele. Não é novo. Mas se aprofundou de forma que as distopias imaginadas como ficção começam a parecer otimistas.

 Enquanto parte da população usa a inteligência artificial para pensar melhor — verificar fontes, confrontar hipóteses, acessar conhecimento que antes exigia anos de estudo —, outra parte a usa para não precisar pensar. Para confirmar o que já acredita com velocidade e verniz de autoridade. Para produzir desinformação em escala industrial, com gramática impecável. A mesma ferramenta. Resultados opostos.

  O abismo não é de renda, embora a renda contribua. É de disposição. A disposição de suportar a experiência de não saber — e continuar procurando mesmo assim. É isso que separa a dúvida honesta da ignorância confortável. Uma é abertura. A outra é fechamento. Quem nunca cultivou essa disposição encontrou, nas redes de hoje, o ambiente perfeito para nunca precisar dela.

A ignorância nunca foi apenas ausência de informação. É um estado ativo. Exige manutenção. Requer que se recuse, a cada dia, o desconforto de revisar o que se pensa. Que se escolha, repetidamente, a certeza fácil sobre a verdade trabalhosa.

 Há uma forma de rebeldia nisso — mas não a rebeldia lúcida que olha para o absurdo e decide criar sentido apesar de tudo. É a rebeldia do deserto: recusa o mundo como ele é e propõe um menor, mais simples, mais controlável.

 A Terra plana é isso. Uma Terra que cabe na cabeça. O retorno do sarampo é isso. Uma vacina recusada porque a certeza, qualquer certeza, é mais confortável que a dúvida.

 A solução nunca esteve no passado. Evoluir com progresso humano verdadeiro significa, entre outras coisas, aprender a suportar a complexidade do real sem recorrer a simplificações assassinas. Significa desenvolver o pensamento lento como prática — não como habilidade de elite, mas como hábito cultivável, ensinável, humano. Hábitos mudam. Com tempo, com contexto, com educação que ensine a pensar — não apenas a repetir.

 O conhecimento não nos salva de tudo. 

Mas é a única coisa que já nos salvou de alguma coisa.

Edmir Saint-Clair

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Crônicas 

O QUE É DORMIR BEM?

O QUE É DORMIR BEM?

 

Afinal, o que é dormir bem? Será que sabemos a resposta?

O que a ciência nunca deixou de dizer — e que a gente teima em ignorar — é que o sono é parte fundamental da nossa qualidade de vida.

Durante o sono profundo, o cérebro ativa um sistema de limpeza — o sistema glinfático — que remove os resíduos acumulados ao longo do dia. Uma única noite mal dormida eleva em 30% a concentração de proteínas danosas ao nosso cérebro — entre elas, as associadas a doenças neurodegenerativas como o Alzheimer.

É durante o sono que a memória encontra forma definitiva. Que as emoções do dia são processadas e organizadas. O sistema imune se reconstitui, a pressão cai, e o corpo repara o que o dia não permitiu.

O corpo cobra.

Privação crônica de sono é fator de risco independente para infarto, diabetes tipo 2, obesidade, depressão e certos tipos de câncer. É o que os estudos mostram, sistematicamente, há décadas.

Mas um estudo de 2025 nos Proceedings of the Royal Society B derruba a narrativa mais comum: ao contrário do que se diz, as pessoas nas sociedades industrializadas dormem mais horas do que os caçadores-coletores — os Hadza da Tanzânia, por exemplo, dormem em média 6,2 horas, os Himba da Namíbia, apenas 5,5.

Nenhum deles tem Netflix.

O problema não é a quantidade. É o ritmo.

O que as sociedades modernas perderam — e as tribos conservaram — é a função circadiana: a sincronia entre o relógio biológico interno e o ciclo natural de luz e escuridão. Dormimos mais horas, mas fora de hora. Com luz artificial suprimindo a melatonina. Com telas dizendo ao nosso hipotálamo que ainda é dia às onze da noite.

O relógio funciona. Mas está errado.

O prof. Sergio Tufik, do Instituto do Sono da UNIFESP, foi direto: "A privação de sono é uma condição gravíssima, que afeta todas as funções do organismo." Seu estudo revelou que os paulistanos dormem, em média, seis horas e meia por noite — abaixo do mínimo recomendado de sete horas.

A gente acha que está bem, que já se acostumou. Kahneman, o psicólogo dos vieses cognitivos, diria que esse é exatamente o tipo de viés que nos faz subestimar danos graduais — aqueles que não doem de uma vez, mas se acumulam silenciosamente até virarem doença.

Pra mim, dormir bem é simples: uma noite tranquila, sem sobressaltos, e acordar me sentindo bem disposto e descansado. Ah, e sem despertador tocando.

Dormir bem é, antes de tudo, respeitar a nossa própria natureza.

E pra você, o que é uma noite bem dormida?

Edmir Saint-Clair


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ensaios  Reflexões 

O MEDO DA MUDANÇA

O MEDO DA MUDANÇA

"A mudança é a única coisa permanente." Heráclito (500 A.C.)".

"...e a incerteza, a única certeza".  Zigmund Bauman - (2.500 anos depois).

O medo está nos rondando o tempo todo, nos fazendo engolir sapos maiores que a boca. Sem que tenhamos consciência de quais são seus gatilhos, aparece, de repente, tentando encaixar as nossas atitudes e, pior, as dos outros também, em modelos que nem sabemos se servem aos nossos anseios. Tudo para termos a sensação de segurança.

Quanto mais previsível, quanto menos mudanças na rotina, mais seguro o ser humano se imagina. A, estranhamente, chamada zona de conforto, de conforto não tem nada. O nome certo é zona de tédio, uma ilusão maléfica causada pelo medo que a simples ideia da mudança provoca. Mas, as mudanças ocorrem o tempo todo, percebamos ou não. Não dependem da nossa vontade.

O medo da mudança é uma força poderosa e vive escondido nas pequenas coisas e é, na maioria das vezes, o grande responsável pelos nossos maiores sofrimentos.

 Ouvi de um amigo terapeuta algo que me ficou na cabeça e que os anos só reforçaram a verdade que traduz:

− "O ser humano se sente seguro vivendo uma rotina previsível, mesmo que isso signifique viver em péssimas situações, aparentemente insustentáveis, se vistas por alguém de fora mas, que ele já conhece e está acostumado. É péssimo, mas é um péssimo que ele conhece. Essa força é tão poderosa que a simples ideia de romper com a situação e partir para algo novo pode causar pânico em grande parte das pessoas. O ser humano prefere ficar no sofrimento conhecido a arriscar qualquer outra coisa que ele não conheça.”

Não raras vezes, nos deparamos com essa realidade em vários aspectos. Nas relações familiares, profissionais, amorosas, fraternas e quaisquer outras que se apresentem.

Admiro as pessoas que conseguem se desvencilhar rápido de situações incômodas. É claro que tudo tem sua peculiaridade e nada pode ser posto numa mesma sacola. Mas, existe uma linha, que pode ser facilmente perceptível e nem um pouco tênue, de onde, a partir dali, qualquer um tem certeza do dano que aquela situação está trazendo a um, ou a quantos mais estiverem envolvidos.

Seja em que âmbito for, chega um momento em que o desgaste é tão profundo e incomodo que a mudança é absolutamente inevitável e urgente. E, isso sempre gera insegurança, que é outro nome para o medo do novo.

Nas relações amorosas isso é ainda mais nítido. Do início da descida até se esborrachar todo no fim, a gente vem se ralando inteiro, ladeira abaixo. E, não raras vezes, essa ladeira dura anos. Imagine quanta ralação, quantos machucados daqueles bem doloridos poderiam ser evitados.

 E, todos sabemos, eles podem doer demais. O que esquecemos é que podemos, a qualquer momento, interromper essa descida ladeira abaixo e evitar sofrermos mais machucados. Saber interrompê-la antes que os traumas se aprofundem demais é o que decide como estaremos preparados para nossos próximos relacionamentos. Essa decisão é das mais sérias com as quais nos deparamos na vida: a hora de interromper definitivamente uma situação.

Há um momento que temos que dar um fim a uma situação de sofrimento e não olhar mais para trás. Por uma questão de sobrevivência e sanidade.

Saber a hora de parar de sofrer é fundamental para não perder a crença em si mesmo. É necessário acreditar que podemos não só produzir como tomar conta da nossa própria felicidade. E, antes, precisamos crer que somos capazes de nos proteger, de cuidar de nós mesmos, adequadamente. Porque, quantos mais machucados estivermos, mais tempo esses traumas levarão para cicatrizar. Isso significa que precisaremos de mais tempo para nos recompormos até estarmos prontos para uma nova relação. E a vida não espera. O tempo passa rápido. E, dependendo da intensidade e quantidade dos eventos traumáticos, e dos recursos disponíveis para enfrentá-los (terapias e redes de apoio), essa recomposição pode ser bastante demorada.

É importante sermos sinceros ao nos respondermos às nossas próprias perguntas. Precisamos saber pelo menos o que pensamos, de verdade, sobre nossos próprios assuntos e sentimentos. Precisamos estipular nossos limites. A Tolerância é necessária, sem ela não se vive em sociedade, não se aprende e nem se evolui. Mas, a partir de um tênue limite, passa a ser submissão, conformismo e covardia.

Vivemos como se houvesse um modo certo e outro errado de realizarmos nossa vida. Como se houvesse um gabarito. Não há. Ninguém nasce com manual ou destino traçado. Tudo que fazemos é inédito. Algumas vezes, é imprevisível, simplesmente porque ninguém fez daquele jeito antes. Do seu jeito, original e único.

Mudar dá medo. Principalmente, quando a decisão de mudança envolve coisas básicas como mudar de casa, ficar sozinho, trocar um emprego medíocre, mas que paga as contas, por um projeto que, se der certo, vai te dar a vida que você deseja (isso não está ligado a dinheiro necessariamente!). Mas que, também, pode dar errado.

E daí? Tudo pode dar errado, principalmente, o que está dando certo. Já que o que está dando errado, se mudar, só pode mudar para dar certo.

Se der errado é porque não mudou. Então, vai ter que mudar de novo. Até dar certo. E, pode ter certeza, uma das coisas que mais ajudam a persistir até que dê certo, é o bom humor. Sem ele a vida não tem graça. É preciso sonhar em ser feliz, pelo menos...

Ou seja, veja-se por que ângulo for, é preciso estar aberto à mudança sempre. Inclusive, para que o que já está dando certo, continue dando.


Edmir Saint-Clair

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Contos 

ACONTECEU NA VIRADA DO ANO E TODO MUNDO VIU

ACONTECEU NA VIRADA DO ANO E TODO MUNDO VIU
Noite da Passagem de Ano,

1 e meia da manhã, praia do Leblon.

           No início da década de 1970 , todas as praias da zona sul eram palco de um espetáculo muito, mas muito diferente dos fogos de Copacabana e das festas sofisticadas dos dias atuais. Naqueles anos, as praias eram tomadas pelos terreiros de umbanda.

A partir do entardecer do dia 31 de dezembro, começavam a chegar as comitivas que vinham para preparar seus altares, e cada grupo iniciava a montagem de seu próprio terreiro na areia.

Cercavam o pedaço escolhido com palmas brancas fincadas na areia que dessa forma, delimitavam o domínio. Cavavam pequenos buracos, no fundo dos quais acendiam as velas que, assim, ficavam protegidas da brisa que sempre sopra à noite, vinda do mar. Eram centenas e centenas de pequenas velas e suas luzes ondulantes, iluminando de forma mágica as areias, de uma praia do Leblon onde a iluminação pública amarelada não tinha nem 10 por cento da luminosidade atual. Aquela imagem marcou minha memória de criança, uma mistura entre a realidade e a ficção de um filme sobrenatural.

Os pais e mães de santo, junto com seus cambonos e devotos, enfeitavam e preparavam seus terreiros de forma extremamente caprichosa, e imbuídos de uma devoção profunda e explícita.

O início da arrumação coincidia com o final das tradicionais peladas de futebol de areia, disputadas no Leblon, entre homens alcoolizados, vestidos com roupas íntimas de mulher, sob o batuque animado de uma bateria de samba organizada e regida pelo genial percursionista Oscar Bolão, bateria essa, que pouco depois deu origem a Banda do Leblon, que, por sua vez, passou o bastão para o Bloco Empurra que Pega dos dias atuais.

Esse intermezzo, do início do pôr do sol até umas 8 horas da noite, era muito curioso.

O que acontecia, simultaneamente, durante o lusco fusco deste dia especial, era absurdo e surreal.

Os devotos já estavam finalizando os trabalhos de preparação dos altares, e iniciando as cerimônias que atravessariam as madrugadas e iriam até os primeiros raios de sol do primeiro dia do ano.  Enquanto, ao mesmo tempo, acontecia a maior bagunça da pelada de futebol de areia, másculo-feminino, com muito consumo de álcool e de tudo mais que pode haver de profano; estavam todos ali, lado a lado, convivendo harmoniosamente. O divino e o profano de mãos dadas, comemorando, felizes, cada um ao seu jeito.

Naquela época, o réveillon era comemorado como se fosse uma noite de carnaval normal. E não acontecia nas ruas ou nas praias. Os bailes concorridíssimos aconteciam nos clubes, hotéis e danceterias espalhadas por todos os bairros do Rio.

Era muito diferente do que é hoje, no século 21.

As praias eram tranquilas, era para onde as famílias iam depois de romper à meia-noite em casa. 

Enquanto os adultos corriam para as festas, os pais com filhos pequenos iam passear na praia em frente de casa mesmo, a da Leblon no nosso caso, onde ficávamos caminhando e observando os rituais de umbanda e candomblé que aconteciam nas areias.

Era um terreiro a cada 3 ou 4 metros, todos cheios de gente esperando para tomar passe das pretas e pretos velhos incorporados. Era o sincretismo religioso acontecendo ali na frente de todos. A classe média, em sua maioria católica, buscava bênçãos em outra religião, ali representada pela classe mais humilde e oprimida da cidade; os pobres e pretos. Era a única ocasião que me lembro de ver pessoas brancas abaixando a cabeça humildemente para receber o passe da doméstica que trabalhava em sua casa. Ali, os papéis se invertiam.

Eu era bem pequeno e toda aquela movimentação tão extraordinária se apresentava ainda mais fantástica para a imaginação fértil de uma criança.

Fiquei muito impressionado com as pessoas que, de repente, do nada, mudavam de voz e começavam a agir estranhamente, minha mãe me explicou que aquilo é quando um espírito entra numa pessoa em transe. Me deu medo, mas a curiosidade era muito maior. O cheiro de charuto e de defumadores só não era mais forte por causa da brisa marinha. Mas, marcou em minha memória olfativa.

Meus pais compraram algumas palmas brancas e entraram no sincretismo reinante. Meu pai deu uma palma para cada filho e fomos jogá-las no mar, para Iemanjá.  Foi divertido  molhar os pés pulando sete ondas e jogando as flores no mar. Quando estávamos voltando da beira para a calçada, começou uma confusão. Um homem grande e forte começou a gritar, visivelmente alterado e bêbado.

Ele olhava de forma desafiadora para os devotos dos terreiros enquanto gritava ameaçadoramente:

- Tudo isso é palhaçada!! Um monte de gente ignorante... fazendo teatrinho... fingindo "baixar o santo" ... só para enganar os trouxas...

Passou por um terreiro, abaixou-se e pegou uma imagem do local de oferendas e saiu andando de forma provocativa, enquanto os fiéis dos terreiros apenas o observavam sem esboçar reação ou intenção de revide. Apenas olhavam fixamente para aquele homem abominável. E fez-se um silêncio que eu nunca ouvira antes...As ondas do mar se calaram.

Só o arrogante não percebeu que, naquele momento, algo de muito estranho começava a acontecer...

Ele, imaginando ter dominado o ambiente, continuou bradando ainda mais impropérios quando percebeu que a imagem que roubara era exatamente a de Iemanjá.

Ele estava vestido todo de branco e talvez não soubesse que essa tradição se deve exatamente a Iemanjá.

Todas as pessoas daquele pedaço da praia pararam para ver aquele desequilibrado desafiar a fé de todos bradando em voz alta:    

- Desafio Iemanjá a fazer alguma coisa para provar que existe... 

E foi caminhando em direção ao mar, gritando que ia afogar Iemanjá em suas próprias águas.

Todos em volta estavam parados, acompanhando atentamente aquele espetáculo bizarro. Aos poucos, o burburinho foi silenciando, os atabaques dos terreiros parando, enquanto o homem adentrava o mar em direção à arrebentação, onde as ondas, muito pequenas naquela noite, estouravam sem oferecer risco algum. Um banco de areia fez com que o homem ultrapassasse a arrebentação ainda com água abaixo dos ombros.

De repente, surgiu uma onda do nada, assustadoramente grande e forte, e o engoliu. Apenas uma onda foi grande naquela semana inteira e foi, exatamente, aquela.

Quando após alguns minutos, o homem não voltou à tona, o burburinho na areia começou a virar gritos cada vez mais intensos e vários homens passaram correndo e mergulharam na água para socorrê-lo.

Meus pais não aguardaram o desfecho e nos tiraram rapidamente dali, nos levando de volta para casa. Mas, fiquei com aquilo na cabeça por dias.

Pouco tempo depois, soube que não haviam achado o corpo.

Eu vi e todo mundo viu.

Este trecho faz parte do livro CONVERSAS NECESSÁRIAS.

Edmir Saint-Clair 




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Contos 

O ROUBO QUE NUNCA ACONTECEU

O ROUBO QUE NUNCA ACONTECEU

     Ele precisaria dosar a agressividade, calma, objetividade e a rapidez. Era só seguir minuciosamente cada passo planejado.

Assim que o alvo atravessa as duas pistas da praia, vindo de sua rotineira corrida vespertina pela orla de Leblon e Ipanema, entra na Rua Cupertino Durão onde mora. Jair apressa o passo e rapidamente alcança o outro lado da rua, onde o alvo tem que passar, obrigatoriamente. Encosta-se numa das árvores, entre dois carros estacionados, e aguarda. Ninguém vindo de nenhum dos lados. O alvo passa e é abordado de forma agressiva, não deixando margem para reação alguma.

— Sérgio, está arma está engatilhada e pronta para disparar. Fique quieto e preste atenção. Vamos até a sua casa, andando devagar e conversando como dois velhos amigos. Se você fizer qualquer coisa errada morre. Ouviu? Responde! Ouviu?!

Jair foi bastante agressivo na aproximação, não deixando espaço para argumentações. Sérgio estava paralisado e apenas balbuciou um sim quase inaudível.

 Jair continua.

— Quanto mais nervoso você ficar mais perigoso fica para nós dois. Então fique calmo e tudo vai dar certo.

Com a arma dentro do agasalho, mas já devidamente apresentada a Sérgio, os dois continuam a andar na direção do elegante prédio do jovem deputado.

Sobem direto, sem parar na portaria. Morador não precisa se identificar. E, na maioria, nesses prédios, não se dá boa noite a porteiros. Sérgio mora sozinho.

Na ampla sala, Sérgio percebe que não é um assalto comum.

Ele nunca fora dos mais corajosos, por isso estava acostumado a ser submisso sem questionar. Jair o manda sentar-se no sofá da sala.

À essa altura, por todo o contexto percebido, Sérgio começa a desconfiar porque Jair está ali. Ainda bastante nervoso tenta amenizar o clima.

— Fique tranquilo, pode levar o que quiser. Não vou causar nenhum problema. Só, por favor, sem violência, pelo amor de Deus.

Sérgio tem a voz trêmula. Seu medo é visível e patético.

— Sérgio, sei que você tem meio milhão de dólares em cédulas e cheques de viagem aqui no seu apartamento. Sei a que horas, onde, e a mando de quem você pegou esse dinheiro. Sei que ninguém pode saber que esse dinheiro existe e muito menos que está aqui na sua casa.

Sérgio ficou completamente branco. Pensou que seria roubado, mas aquilo era bem mais do que isso. Definitivamente, não era um simples assalto. Havia algo por trás.

Ainda sem entender, Sérgio percebe que Jair já não parece tão violento quanto no início, mesmo assim não consegue parar de tremer. Sempre fora medroso. Era óbvio que não estava lidando com um ladrãozinho pé de chinelo. Pelo linguajar e pela postura, Jair é profissional. Talvez, das forças de segurança. Na verdade, não fazia ideia de quem se tratava e de onde surgira aquele homem.

Jair pega seu celular e começa a filmar Sérgio.

— Você vai gravar? Por quê?! Pergunta Sérgio.

— Se levanta e vai pegar a mala com o dinheiro. Diz Jair apontando o celular.

Sérgio hesita: — Não está mais aqui... o secretário do senador já pegou...

A voz de Sérgio falha e irrita Jair, que rapidamente

troca o celular pela pistola, engatilha e aponta para ele.

O corajoso deputado se transfigura apavorado, e imediatamente revela que a mala está dentro do armário do quarto.

Jair não segura o riso. Os dois se recompõem, Jair volta a falar manso e nota que o deputado havia mijado nas calças.

Sérgio entra em seu quarto, abre o armário, pega a mala, coloca-a sobre a cama e a abre. Jair grava tudo ininterruptamente com o celular. Enquadrando o quarto inteiro, alternando com closes da mala e dos retratos de família no quarto do deputado, para caracterizar, com detalhes, onde estão naquele momento.

A seguir, voltam para a sala e Jair continua gravando a mala aberta sobre a mesa de jantar e a sala inteira ao fundo.

Pronto, aquele vídeo não deixa dúvidas de que aquele dinheiro esteve com o deputado dentro de sua casa.

Jair recolhe a mala cheia de dólares. Diante do atônito e medroso deputado mijado, recoloca seu agasalho esportivo, guarda o celular e a pistola no bolso.

— Sérgio, agora vai ser o seguinte: daqui a duas horas vou enviar para você, pelo seu WhatsApp, o vídeo que fizemos agora. Ou seja, eu tenho a prova de que você estava com meio milhão de dólares em dinheiro vivo, e que, obviamente, não tem como explicar porque vieram parar aqui sem comprometer muita gente graúda.

Mostre esse vídeo para o seu "pessoal", porque ele também garante que você não pode ser preso para não delatar. Ou seja, não ter acontecido nada aqui será melhor para todo mundo.

Se eu souber que tem alguém atrás de mim, jogo esse vídeo na internet na hora, os jornalistas vão adorar e isso vai virar o próximo escândalo nacional da semana.

Sérgio ouviu calado.

Afinal, oficialmente, aquele dinheiro nunca existiu e ninguém poderia reclamá-lo sem se incriminar. Não tinha nada a dizer. Não podia fazer nada. A não ser aguardar o vídeo para garantir que continuaria vivo e interessante para o poder que representava.

Jair saiu do prédio tranquilamente, não sem antes perguntar ao simpático porteiro quanto estava o jogo do Flamengo contra o Botafogo no Maracanã:

— 4 x 0 para o Mengão, doutor! E ainda tá no primeiro tempo...

Era o que faltava para coroar aquela início de noite para Jair. Afinal, como diz a sabedoria popular: ladrão...que rouba ladrão...está perdoado!

Este trecho faz parte do livro CONVERSAS NECESSÁRIAS.

Edmir Saint-Clair

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Contos 

MISTÉRIO NO LEBLON

MISTÉRIO NO LEBLON
 Rio de Janeiro - Bairro do Leblon,
início do outono, 20h55m.

            Saio da academia Lucinha & Cláudio e atravesso a Rua Humberto de Campos em direção à Rua José Linhares, que fica a menos de cinquenta metros. Assim que dobro a esquina, vejo uma senhora idosa caminhando na direção contrária. Ela dá uma topada numa pedra portuguesa solta na calçada, se desequilibra e começa a acelerar o passo sem controle. O corpo frágil e cansado não consegue se reequilibrar. Ela vai cair.

Corro em sua direção para tentar ampará-la mas, antes que eu chegue perto o suficiente, surge do nada uma mulher muito esguia, de cabelos pretos curtos, que a segura, colocando-a de pé , sumindo em seguida.

Tudo não dura mais do que poucos segundos.

Fico petrificado com a cena. Sinto-me muito estranho, um desconforto cerebral físico, extremamente desagradável, como se tivesse levado uma pancada forte na cabeça, por dentro. Uma confusão agoniante. Uma perda total da noção do que é ou não realidade. Como uma pane inexplicável no meu sistema mental.

Como alguém aparece e desaparece do nada? Sim. Ela não surgiu e foi embora de forma gradual, como acontece naturalmente. Ela apareceu e desapareceu, como um flash fotográfico.

A senhora idosa mostra-se atônita e tão perplexa quanto eu. Quando conseguimos trocar olhares, são de puro espanto! Aproximo-me um pouco mais e pergunto-lhe o que tinha acontecido. Ela relata exatamente a mesma coisa que eu vi. Utiliza, inclusive, as mesmas expressões: “apareceu do nada” e “desapareceu do nada”. Ela descreve o que eu presenciei com a mesma precisão de detalhes que captei. Ou seja: quase nenhum. A velocidade do evento foi como a de um vídeo em câmera extremamente acelerada. 

Logo percebemos que há uma prova física e inequívoca do ocorrido: a senhora idosa veste uma blusa branca de mangas compridas. Nela, estão estampadas com nitidez duas marcas de mãos, perfeitamente visíveis e brilhantes, no exato local onde o “ser” a segurou. Olhamos para as marcas e, em seguida, um para o outro — ainda com expressões dominadas pela mais absoluta incredulidade.

Naquele momento soube que testemunhara algo fantástico e extraordinário. E que não existiam palavras capazes de descrever aquele flash inacreditável e bizarro.

Ficamos em silêncio, eu e a senhora idosa, tomando fôlego e reiniciando os pensamentos. Pouco depois, seguimos caminhando lentamente até a entrada do prédio para onde ela se dirigia. Ambos em choque e no mais absoluto silêncio.

Despedimo-nos com o olhar, sem trocar mais nenhuma palavra. Não havia nada a dizer. Nossos olhares se acenam, confirmando a cumplicidade que acabara de nascer.

Nunca mais a vi e nunca entendi o que havia acontecido.

- Edmir Saint-Clair





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