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Crônicas

O QUE É DORMIR BEM?

 

Afinal, o que é dormir bem? Será que sabemos a resposta?

O que a ciência nunca deixou de dizer — e que a gente teima em ignorar — é que o sono é parte fundamental da nossa qualidade de vida.

Durante o sono profundo, o cérebro ativa um sistema de limpeza — o sistema glinfático — que remove os resíduos acumulados ao longo do dia. Uma única noite mal dormida eleva em 30% a concentração de proteínas danosas ao nosso cérebro — entre elas, as associadas a doenças neurodegenerativas como o Alzheimer.

É durante o sono que a memória encontra forma definitiva. Que as emoções do dia são processadas e organizadas. O sistema imune se reconstitui, a pressão cai, e o corpo repara o que o dia não permitiu.

O corpo cobra.

Privação crônica de sono é fator de risco independente para infarto, diabetes tipo 2, obesidade, depressão e certos tipos de câncer. É o que os estudos mostram, sistematicamente, há décadas.

Mas um estudo de 2025 nos Proceedings of the Royal Society B derruba a narrativa mais comum: ao contrário do que se diz, as pessoas nas sociedades industrializadas dormem mais horas do que os caçadores-coletores — os Hadza da Tanzânia, por exemplo, dormem em média 6,2 horas, os Himba da Namíbia, apenas 5,5.

Nenhum deles tem Netflix.

O problema não é a quantidade. É o ritmo.

O que as sociedades modernas perderam — e as tribos conservaram — é a função circadiana: a sincronia entre o relógio biológico interno e o ciclo natural de luz e escuridão. Dormimos mais horas, mas fora de hora. Com luz artificial suprimindo a melatonina. Com telas dizendo ao nosso hipotálamo que ainda é dia às onze da noite.

O relógio funciona. Mas está errado.

O prof. Sergio Tufik, do Instituto do Sono da UNIFESP, foi direto: "A privação de sono é uma condição gravíssima, que afeta todas as funções do organismo." Seu estudo revelou que os paulistanos dormem, em média, seis horas e meia por noite — abaixo do mínimo recomendado de sete horas.

A gente acha que está bem, que já se acostumou. Kahneman, o psicólogo dos vieses cognitivos, diria que esse é exatamente o tipo de viés que nos faz subestimar danos graduais — aqueles que não doem de uma vez, mas se acumulam silenciosamente até virarem doença.

Pra mim, dormir bem é simples: uma noite tranquila, sem sobressaltos, e acordar me sentindo bem disposto e descansado. Ah, e sem despertador tocando.

Dormir bem é, antes de tudo, respeitar a nossa própria natureza.

E pra você, o que é uma noite bem dormida?

Edmir Saint-Clair


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