SÓ
Encostava-se no balcão e pedia uma cerveja. Sempre esperava que alguém o chamasse.
O Ricardo era assim, no Clipper, na Rua Carlos Góes, nos fins de tarde. Calado, falando o necessário, sempre esquivo. Simpático, mas esquivo. Morava na mesma rua e nunca o víamos acompanhado. Ninguém sabia nada a seu respeito além de que tinha um filho — que só via nas férias. O molequinho era bem mais extrovertido que o pai: chegava rindo, solícito com todos, e a galera do Clipper dava atenção especial a ele.
Ricardo recusava todos os convites para festas ou qualquer outro evento. A princípio pensávamos que tinha amigos em outro lugar. Com o tempo percebemos que nunca estava sequer arrumado para sair.
Sempre só.
Antevéspera de natal. Estava na fila dos Correios quando o vi despachando uma caixa grande. Acenei, ele retribuiu e, logo que despachou, veio fazer-me companhia na fila.
— Tudo bem? Mandando presentes?
— Para meu filho. Está em São Paulo.
Aproveitei para convidá-lo.
— Vai um pessoal passar lá em casa. Solteiros, separados, largados em geral. O convite é da galera toda.
Ele agradeceu, baixando a cabeça. Me pareceu ter gostado.
Voltamos caminhando juntos pelo Leblon, da Praça Antero de Quental até a Rua Carlos Góes. Poucas vezes na vida percebi tanta solidão em alguém quanto naquele curto trajeto. Estava estampada na forma de caminhar, na maneira de falar de futebol, no desânimo de suas tentativas de riso. E, principalmente, no olhar.
Uma pessoa tão fechada que eu não sabia como dizer-lhe que, depois de tantos anos de chopp no Clipper, me sentia seu amigo.
Não falei.
Ao passarmos pelo bar, o chamei para uma cerveja, mas ele disse que tinha de ir. Parou alguns passos adiante e me chamou:
— Quero te agradecer pelo convite para o Natal. Muito obrigado.
Desta vez não conseguiu esconder. Deu-me um forte aperto de mão. Seus olhos brilharam úmidos. Olhou para baixo e seguiu seu caminho.
Contei a todos sobre o encontro com Ricardo e, juntos, decidimos dar-lhe um presente na noite de natal. A Tininha se prontificou a escolher e comprar, e fizemos uma vaquinha ali mesmo. Até o Seu Antonio, do Clipper, contribuiu — fato raríssimo.
Na véspera de natal, minha casa ficou cheia. Lá pelas tantas da madrugada, Tininha notou a ausência dele e concordamos que ele não viria mais. Lamentamos e o presente continuou ao pé da árvore de Natal.
Uma semana depois, a Tininha apareceu no Clipper chorando.
— Estava descendo de casa quando vi alguns móveis sendo colocados numa Kombi de mudança. Perguntei pro Seu João, o porteiro. Ele disse que eram do Ricardo — e que ele havia morrido na noite de Natal, atropelado.
Todos ali choraram a morte daquela pessoa solitária, que morreu sem saber que tinha amigos. Nem que ganharia um presente de Natal.
Nunca saberemos se ele estava indo ou não cear com a gente naquela noite.
Edmir Saint-Clair
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