A RECEITA DA FELICIDADE
Todos os dias, pipocam nas redes de comunicação milhares de textos sobre o tema “Felicidade”.
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Foram descobrindo a vida juntos numa parceria e intimidade que só a pureza de quem nunca amara antes poderia proporcionar. Riam de seus próprios desconhecimentos de seus corpos, tornando tudo uma brincadeira excitante, deliciosa e sem expectativas demasiadas. Consequência natural, numa sociedade que não dava muitas opções, casaram-se muito cedo.
A ascensão profissional de ambos, a leveza e a cumplicidade cresciam na mesma proporção. Se davam bem. Combinavam sem esforço. Num dado momento, como em toda relação, a rotina, antes um orgulho pela sincronização e conveniência para ambos, se instalou de uma forma perfeita demais.
Tão perfeita, que era impossível melhorá-la. Até as manhãs de mau humor aconteciam em forma de revezamento, de maneira que um estava sempre são, para compensar o descompensado. Haviam encontrado um ponto de equilíbrio que poucos casais conseguem alcançar. Eram a exceção que confirmava a regra de que casamentos são feitos para fracassar.
A
relação deles contrariava a tudo e a todos.
Após
15 anos, eram os únicos do extenso grupo de amigos do bairro natal, no qual
ainda moravam, que permaneciam casados. Se juntasse com o tempo de namoro,
passava de 20 anos.
O fato é que os amigos viviam comentando sobre a harmonia perfeita do casal, alguns com espanto, outros com inveja e outros com elocubrações aleatórias regadas a muito álcool. Até que aquele “incomodo alheio" pela felicidade do casal começou a chegar até eles, de forma fragmentada e de maneira cada vez mais incômoda e invasiva.
Emprenhados,
por fragmentos de conversas carregadas de muito veneno e servidas como
caipirinhas entre amigos, o casal foi sendo contaminado pela dúvida.
Foram presas muito fáceis da inveja humana. Só haviam conhecido um ao outro. A desconfiança que começou a nascer, não foi com relação ao outro, mas com a avaliação que cada um fazia de si mesmo.
Como poderiam
saber se realmente eram felizes tudo que poderiam ser, ou se apenas imaginavam
que aquilo era felicidade, já que não tinham nenhuma experiência que pudessem
usar como comparação ou referência.
Sempre foram muito amigos e se prometeram a sinceridade que só a confiança extrema comporta. Não tardou para que os questionamentos tomassem conta de todas as horas. Sempre compartilhados, sem que nenhum dos dois conseguisse respostas. Não sabiam mais dizer se eram felizes ou se haviam entrado na perigosa zona de conforto, última moda nas conversas psicologizadas.
E o que era leve, não era mais. Os silêncios
não eram mais os mesmos, e é no silêncio que um casal mais se entende.
Numa
conversa angustiada, mas cheia de sinceridade, sentimentos e carinho, decidiram
que deveriam se separar naquele momento, para que pudessem ter alguma chance de
se reencontrar num futuro em que já haveriam de ter suas respostas.
Mas, não se deve deixar a felicidade nas mãos do acaso. É preciso abraçá-la, fazendo o impossível, para que ela nunca queira ir embora.
Nunca
mais se reencontraram e se arrependeram daquela decisão pelo resto de suas
vidas.
Edmir
Saint-Clair
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Nele minha casa,
Na minha casa tem a minha rua,
Nela muitas avenidas,
Nas avenidas está meu bairro,
Dentro dele minhas cidades
Nessas cidades existem muitos países,
Dentro de cada um mundos inteiros.
E neles, todo o universo.
Dentro de mim.
- Edmir Saint-Clair
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A ideia deste texto nasceu em mim a partir de uma questão que vem surgindo nas redes: será que quem é mais ignorante vive de uma forma mais feliz, mais leve, menos atormentada? Ou será que aquele que escolhe uma vida mais intelectual, buscando conhecimento, mergulhando nas grandes questões da humanidade, filosóficas, científicas e existenciais, termina encontrando uma forma mais profunda de realizar a própria essência?
Talvez, por trás dessa discussão, exista uma pergunta ainda maior: que tipo de consciência nasce quando alguém passa a questionar a própria vida?
Acredito que parte dessas características pessoais tenha raízes profundas, talvez biológicas, talvez inscritas em predisposições que já trazemos desde muito cedo. Pelo que pude ler em pesquisas e textos de estudiosos do assunto, penso que já trazemos muitos desses traços desde nossa formação embrionária. É óbvio que o meio familiar e social influencia de maneira determinante no desenvolvimento dessas características. Mas, para mim, uma delas parece predominar sobre o curso que a personalidade pode tomar: a curiosidade.
De um lado, existe a aparente leveza da ignorância. Quem não tem a curiosidade como característica inata não questiona muito o mundo ao seu redor e talvez sofra menos com certas inquietações. Não se angustia tanto com o absurdo da vida, não se perde nos labirintos da consciência, não sente o peso de perceber as contradições humanas. Há aí uma espécie de ingenuidade preservada, quase uma beleza infantil, um romantismo diante do mundo. Como se a vida tivesse de ser aceita e fim de conversa: sem atritos, sem rachaduras no espelho.
Mas essa leveza também tem seu preço. A pessoa que não desenvolve a crítica, que não aprende a questionar aquilo que ouve, vê e recebe, corre o risco de se tornar parte da manada, sem nem saber que não tem ideias próprias. Segue ideias prontas, repete verdades emprestadas, obedece sem perceber que está obedecendo. A ignorância, nesse sentido, pode parecer confortável, mas também pode ser uma forma silenciosa de prisão.
Do outro lado está aquele que busca conhecer. E conhecer é trocar a ilusão e as crenças pela verdade, pela realidade que se impõe. Quem se aprofunda nas perguntas fundamentais da existência perde um pouco daquele encanto simples. A lucidez cobra pedágio. Mostra a beleza, mas também mostra a crueldade. Mostra o cosmos, mas também mostra o abismo. Mostra a grandeza humana, mas também revela nossa barbárie.
É aí que entram algumas figuras importantes desse debate. Rousseau aparece com a ideia do “bom selvagem”, sugerindo que há algo de puro no ser humano antes de ser moldado, deformado e corrompido pela sociedade. Sócrates entra como o símbolo do questionamento, aquele que transforma a dúvida em método de vida. Seu “só sei que nada sei” não é uma desistência do saber, mas uma porta aberta para a investigação permanente.
Nietzsche também poderia aparecer nesse salão de ideias, não como alguém que oferece conforto, mas como quem arranca os tapetes da segurança moral e obriga o ser humano a olhar para o abismo. Já Albert Camus traz a noção do absurdo: a vida talvez não venha com um sentido pronto, e ainda assim precisamos vivê-la, enfrentá-la, talvez até amá-la dentro de sua falta de explicação definitiva.
Senti uma identificação profunda com Camus e com sua visão do absurdo e da ausência de um sentido prévio para a vida. Quando sua obra me deixou clara essa inexistência de um sentido anterior, ao mesmo tempo, acendeu um holofote em minha mente: -aí está o sentido!
O sentido de uma vida que não vem com sentido pronto talvez seja justamente este: dar sentido a ela. Um sentido pessoal, original e único. É maravilhar-se tentando entendê-la. É dar vazão à nossa curiosidade primária.
Em algumas pessoas, essa curiosidade não aparece como simples interesse, mas como uma força interna difícil de silenciar. As perguntas não batem à porta: elas invadem a casa. Isso pode gerar sofrimento, deslocamento e inadequação, mas também pode abrir caminhos raros de criação, compreensão, profundidade e êxtase.
Carl Sagan e Marcelo Gleiser entram como vozes desse deslumbramento científico. Eles ajudam a lembrar que conhecer não é apenas sofrer. Conhecer também é se maravilhar. A ciência pode revelar nossa pequenez cósmica, mas essa pequenez não diminui o ser humano; ao contrário, pode torná-lo mais precioso. Somos matéria do universo tentando entender o próprio universo. Há algo de profundamente poético nisso. Conhecer é descobrir que fazemos parte de um show cósmico muito maior do que imaginamos.
Mas então surge a pergunta central: onde está a consciência no meio de tudo isso?
A consciência parece ser o grande mistério que costura todas essas pontas. Roger Penrose pode ser chamado para essa conversa justamente por tratar a consciência como um problema ainda não resolvido pelas explicações tradicionais. As teorias tentam descrevê-la, medi-la e localizá-la, mas há sempre algo que escapa. Como provar plenamente a consciência se é a própria consciência que tenta provar a si mesma?
É o círculo sem fim da consciência se vendo. Ela é, ao mesmo tempo, o maestro, os músicos e a música. É quem rege, quem executa e aquilo que é executado. É o palco, a plateia e o espetáculo. Uma espécie de santíssima trindade não metafísica: não como dogma religioso, mas como imagem concreta de uma experiência humana. A consciência observa, participa e cria a própria observação.
Nesse grande show cósmico, talvez estejamos mais ligados ao todo do que conseguimos imaginar. A ignorância pode oferecer uma leveza aparente, mas essa leveza talvez venha do não enfrentamento. O conhecimento pode trazer dor, mas também traz expansão. Ele tira a ingenuidade, mas pode devolver algo maior: a possibilidade de viver com mais presença, mais responsabilidade, mais profundidade e mais intensidade.
O ensaio que nasce dessa conversa não quer ser arrogante, nem professoral. Ele não quer colocar o intelectual acima do simples, nem transformar a ignorância em caricatura. Todos os seres humanos são importantes e igualmente necessários, cada qual com sua função fundamental e insubstituível para a sobrevivência da humanidade.
A proposta é investigar sem preconceitos ou hierarquias, com a delicadeza e o cuidado que a questão solicita. É perguntar até que ponto a felicidade da ignorância é realmente felicidade ou apenas anestesia. E perguntar também se o sofrimento do conhecimento é apenas dor ou se pode ser uma forma mais intensa de beleza.
No fundo, talvez a questão não seja escolher entre a leveza e a profundidade. Talvez seja entender que a vida humana se dá justamente nessa dança: entre a inocência que nos protege e a lucidez que nos revela; entre o conforto de não saber e o espanto de descobrir; entre a manada e a consciência; entre o absurdo e o deslumbramento.
E talvez, quando a consciência perceber tudo isso, ela descubra que nunca esteve fora do espetáculo. Na verdade, ela sempre foi, não só tudo, como também, o todo: a música, os músicos, os instrumentos, o maestro, a dança, o salão e a festa inteira.
Edmir Saint-Clair
Eu tinha uns 12 anos e acabara de ganhar meu primeiro violão no último natal. Passava a maior parte do tempo entre a praia, as peladas à tarde e o violão no resto do tempo. Dias cheios, quentes e inesquecíveis.
O condomínio dos Jornalistas, no Leblon, fervia de crianças e adolescentes. Dos seis aos vinte havia gente de todas as idades. Bem no centro do condomínio havia um rinque de patinação que servia, principalmente, para o pessoal ficar sentado nas bordas. No centro, tinha de tudo, menos gente patinando. À noite, a festa continuava com brincadeiras de polícia e ladrão com 50 crianças em cada time correndo por uma área que corresponde a um quarteirão inteiro do Leblon cheio de árvores e com espaço à vontade. Era uma festa diária e interminável.
Os quase adolescentes como
eu, ficavam conversando e tocando violão, tentando chamar a atenção das meninas. Eu ficava olhando e tentando
repetir a posição dos dedos no meu violão. Eu levava jeito e em pouco tempo
estava tocando algumas coisas mais simples, Carpenters, James Taylor,
Carole King e outros adocicados do gênero. Dos brasileiros eram poucos que
faziam sucesso na nossa roda; Novos Baianos surgindo, Milton Nascimento e o clube da esquina,
Mutantes e o Terço eram as exceções.
Mas, quem fazia sucesso naquelas férias era James Taylor. Naquele dia, depois da décima repetição de “You've got a friend” senti que era hora de subir para casa, naquela época ainda tinhamos hora determinada pelos pais para voltar.
Quando cheguei à minha portaria, já estava esperando o elevador um cara alto, jovem, muito magro e com os cabelos penteados de um jeito engraçado. Puxou conversa quando viu meu violão. Falou que era da Bahia e estava na casa dos primos, Horácio e Heloísa, que eu conhecia desde sempre, apesar de serem mais velhos do que eu. Disse que era cantor e que iria se apresentar no Festival Internacional da Canção da Rede Globo. Fiquei entusiasmado com aquilo, o cara era muito simpático e gente boa, o que não era comum, já que os “caras mais velhos” não davam a menor importância para pirralhos como eu. Quando chegou meu andar, abri a porta, me voltei para ele e perguntei:
- Como é seu nome? Vou
assistir você na TV.
Ele respondeu sorrindo:
- Raul Seixas.
- Edmir Saint-Clair
Formávamos um grupo grande quando chegamos ao restaurante japonês na Av. Niemeyer, em frente ao colégio Stella Maris. Uma noite quente de sábado estava começando.
Nesse verão, a Casa encantada tinha hóspedes ingleses; Geoff, Dave, Katrina Hellen. Amigos e músicos londrinos muito queridos, ingleses com alma carioca, que vieram conhecer o Brasil. Nenhum lugar é melhor para isso, no Leblon, do que o Condomínio dos Jornalistas.
Dentre os amigos que foram se acomodando no “reservado” – que era um charme da época esses espaços reservados nos restaurantes japoneses do Rio), estava meu amigo Bode. Bode não, Carlinhos. Que Carlinhos? O Bode.
Para entrar no reservado, é necessário tirar os sapatos e deixá-los do lado de fora da porta. Todos acomodados, bebidas e muito saquê foram pedidos, a conversa foi ficando cada vez mais animada e divertida.
Os ingleses não falavam uma palavra de português e os brasileiros nenhuma de inglês. Claro que alguns de nós falávamos as duas. Mas, no correr da noite e dos saquês, isso se mostrou não ser importante.
O Bode
era dos que arranhava um inglês sofrível, a despeito disso, passaria a noite
inteira em altos papos com o Geoff, que apesar de não entender português se
defendia bem na mímica. O Bode era um cara que se pode chamar de “safo”. Se
virava, nem sempre com sucesso, na maioria das situações perigosas. Tinha uma
coragem de aventureiro, era um desbravador nato. E, trapalhão...
Era o único da galera com coragem para saltar de qualquer altura, às vezes a aterrissagem é que não era o que se pode chamar de sucesso. Mas, do chão nunca passou. Não foi à toa que sua vocação o transformou num voador profissional de Parapente, algum tempo depois.
Todos ali dentro daquele reservado interagiam como amigos de infância. Alguns eram. Impressionante como saquê melhora a fluência em inglês e português. Os ingleses estavam rindo como se entendessem as piadas, e os brasileiros também!
Em mim, a sensação era que a cidade inteira estava sorrindo. Eu estava morando em Londres desde o ano anterior e vim passar o carnaval no Rio de Janeiro, trazendo os ingleses.
O Mito, meu parceiro musical e amigo de infância do Leblon, também morava em Londres e veio no mesmo bonde.
Olhei em volta e todos ali naquele reservado me eram muito queridos. Minha irmã estava ali, rindo e transbordando alegria como sempre. Meu compadre Dedé, além do Mito, Tuca e do nosso querido Bode. Amigos muito importantes uns para os outros. O tempo se encarregaria de me mostrar que aquele se tratava de um momento raríssimo e, por isso, inesquecível.
Fartos
de comida e muito saquê, pedimos a conta para partir para outra etapa da noite.
Conta paga, abrimos a porta do reservado, nos sentamos nos degraus para calçar
os respectivos sapatos.
Todos
calçados, de pé, prontos para irmos embora. Menos o Bode que, com um dos pés do
tênis na mão, andava pra lá e pra cá procurando o outro pé.
A
princípio, ninguém se deu conta, mas com o passar do tempo e da procura, nada
foi achado...
O Bode foi ficando nervoso e revirava tudo em volta, em busca do tênis Reebok importado, de cano alto e novinho, última moda no Rio em 1986.
O gerente
do restaurante mobilizou outros funcionários e a procura foi minuciosa. E nada
foi achado. O gerente não sabia o que fazer ou falar; o resto do pessoal estava
em pleno acesso de riso, ríamos a ponto de perder o fôlego, e o Bode revoltado
com o roubo do pé do tênis dele, esbravejava e gesticulava inquieto e agitado.
Quanto mais ele e os funcionários se movimentavam pelo restaurante mais
engraçada a cena ficava.
O
gerente chegou a perguntar para ele:
− O Senhor Tem certeza que chegou com o tênis aqui?
O Bode
parou diante da pergunta completamente estapafúrdia, e respondeu ironicamente:
− Não
Senhor, eu saí de casa calçando só um pé do tênis, olha como fica bonito!
E
mostrou um pé calçado e o outro sem calçado.
O
gerente pediu desculpas pela pergunta leviana e concordou que não fazia o menor
sentido.
Era
tão surreal a situação, que o Bode e o gerente não aguentaram e começaram a rir
também...
Afinal, porque alguém roubaria apenas 1 pé do tênis?
Por
fim, o gerente deu-lhe um cartão assinado e prometeu que, se o tênis não fosse
encontrado, o restaurante o
reembolsaria.
O Bode
era um cara do bem e da paz, e quando estávamos nos dirigindo aos carros
estacionados, ele já estava de bom humor e rindo junto com a gente.
A imagem dele, naquela noite, caminhando com um pé calçado e o outro descalço é hilária e inesquecível.
Coisas que só aconteciam com o Bode. Bode não, Carlinhos.
Que Carlinhos?
O Bode.
- Edmir Saint-Clair
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Há uma diferença entre se olhar de dentro
e se
olhar de fora.
Talvez grande parte da confusão da vida esteja aí: no tempo absurdo que passamos tentando entender quem somos a partir do olhar dos outros. Como se a nossa existência precisasse ser aprovada por uma plateia invisível, essa comissão julgadora sem rosto, sem nome, mas sempre com uma opinião barulhenta sobre tudo.
A gente nasce sem saber que está sendo observado. Depois cresce achando que só existe porque está sendo visto.
É um desastre anunciado.
Se olhar de fora é viver como se houvesse uma câmera ligada o tempo inteiro, filmando nossas escolhas, nossas roupas, nossas derrotas, nossos amores, nossas desistências, nossos recomeços, nossos silêncios. Uma câmera cruel, dessas que nunca pega o melhor ângulo. E o pior é que, muitas vezes, essa câmera nem existe. É só a nossa cabeça tentando adivinhar o julgamento alheio.
E a nossa cabeça, convenhamos, quando resolve inventar sofrimento, é uma roteirista de talento.
O olhar de fora tem suas utilidades. Ninguém vive sozinho no mundo. Precisamos ter alguma noção do impacto que causamos, dos limites que atravessamos, das consequências dos nossos gestos. O outro também serve de espelho. Às vezes, inclusive, enxerga em nós aquilo que passamos anos tentando negar.
Nem todo olhar externo é prisão. Alguns nos acordam.
O problema começa quando passamos a acreditar mais no reflexo do que no corpo.
A pessoa olha para si e já não pergunta: “Eu estou bem?”
Pergunta: “Será que pareço bem?”
Não pergunta: “Eu quero isso?”
Pergunta: “O que vão achar se eu quiser?”
Não pergunta: “Isso me faz feliz?”
Pergunta: “Isso combina com a ideia que os outros fazem de mim?”
E assim, aos poucos, sem alarde, a vida deixa de ser vivida por dentro e passa a ser administrada por fora. Menos desejo, mais postura. Menos verdade, mais legenda. Menos vida, mais apresentação.
É exaustivo.
Se olhar de dentro é mais difícil. Muito mais. Porque, do lado de dentro, não dá para fingir por muito tempo. Do lado de fora ainda se ajeita a camisa, se sorri na hora certa, se inventa uma segurança qualquer. Do lado de dentro, não. Lá dentro a bagunça aparece: os medos antigos, os desejos que não confessamos, as covardias que justificamos com frases bonitas, as escolhas adiadas, os amores que mantemos por hábito, as tristezas que empurramos para debaixo do tapete até o tapete já não dar conta.
Olhar-se de dentro exige coragem porque não há testemunhas. E, sem testemunhas, não há personagem.
Só sobra a pessoa.
E isso assusta.
Mudar exige silêncio. Performar exige plateia. A maioria escolhe a plateia.
Porque, para quem olha de fora, uma vida organizada pode parecer uma vida feliz. Casa arrumada, emprego estável, casamento em pé, amigos nas fotos, viagens ocasionais, frases de otimismo publicadas no momento exato. Tudo nos conformes. Tudo apresentável.
Mas do lado de dentro pode haver alguém sentado no escuro, segurando um copo vazio, tentando lembrar em que momento deixou de desejar a própria vida.
E ninguém vê.
O olhar de fora costuma ser apressado. Vê o resultado, não vê o processo. Vê a separação, não vê os anos de solidão a dois. Vê a demissão, não vê o corpo recusando levantar da cama para ir a um lugar que virou adoecimento. Vê a mudança brusca, não vê o longo apodrecimento anterior.
Vê a explosão, não vê o pavio.
E ainda assim opinam.
Sempre opinam.
Talvez porque opinar sobre a vida dos outros seja uma forma eficiente de não investigar a própria. Enquanto se aponta o dedo para fora, evita-se colocar a mão para dentro. E mexer dentro de si dá trabalho. Tem poeira, tem coisa quebrada, tem lembrança que corta. Não é passeio. É escavação.
Mas é lá que alguma coisa ainda respira.
Não a vida bonita, necessariamente. Essa é outra ilusão. Há quem ache que olhar para dentro é encontrar uma essência luminosa, pura, coerente, uma versão definitiva e perfumada de si mesmo. Não é. Às vezes, olhar para dentro é encontrar inveja, ressentimento, vaidade, medo, preguiça, vontade de desistir, vontade de voltar, vontade de sumir.
E tudo bem.
O lado de dentro não precisa ser bonito. Precisa ser verdadeiro.
Porque só se transforma aquilo que se reconhece.
O olhar de fora quer aparência. O olhar de dentro quer verdade. E a verdade, quando aparece, raramente entra pedindo licença. Ela chega empurrando móveis, levantando poeira, fazendo barulho. Mas depois, se a gente aguenta o primeiro susto, ela também abre alguma janela.
Há pessoas que passam a vida inteira tentando ser bem vistas. E conseguem. São admiradas, elogiadas, respeitadas, citadas como exemplo em almoços de família. Mas, quando ficam sozinhas, não se suportam. Há outras que parecem desalinhadas aos olhos do mundo: erram, mudam de rota, decepcionam expectativas, somem por um tempo, voltam diferentes. E, apesar disso, ou exatamente por isso, conseguem dormir em paz.
Não sei se há vitória maior do que conseguir dormir em paz.
Porque, no fim, a plateia vai embora. Sempre vai. As pessoas voltam para suas próprias urgências, suas contas, seus medos, suas pequenas tragédias domésticas. Ninguém fica nos observando tanto quanto imaginamos. Essa talvez seja uma das libertações mais difíceis: perceber que estamos muito menos no centro do mundo do que supõe a nossa vaidade e muito mais sozinhos diante das nossas escolhas do que permite a nossa covardia.
O que vão pensar de nós importa menos do que pensamos.
O que pensamos de nós importa mais do que suportamos admitir.
E talvez seja por isso que certas concessões custem tão caro: terminam do lado de fora, mas continuam morando dentro da gente.
Ninguém se livra totalmente do olhar alheio. Somos feitos também de linguagem, convivência, afeto, reconhecimento. Queremos ser amados, aceitos, compreendidos. Isso é humano. O perigo é transformar esse desejo em prisão. É entregar ao outro a chave da nossa casa interna.
Porque aí qualquer um entra.
Entra o julgamento do amigo, a expectativa dos pais, a comparação com desconhecidos, o aplauso de quem nos prefere falsificados. E quando percebemos, estamos vivendo uma vida decorada por outras pessoas.
Se olhar de dentro é retomar a posse.
É fechar a porta por alguns minutos e perguntar, com honestidade quase brutal:
“O que é meu aqui dentro e o que eu aceitei carregar só para não desagradar?”
Essa pergunta, sozinha, já desmonta muita mobília.
Nem sempre dá para responder na hora. Às vezes, a resposta leva anos. Às vezes, vem disfarçada de cansaço, de insônia, de irritação sem motivo, de tristeza recorrente, de uma vontade inexplicável de ir embora. O corpo costuma saber antes da cabeça. Ele é menos diplomático. Quando a alma engasga, ele tosse.
E a gente deveria escutar mais.
Se olhar de fora pode ajudar a corrigir a postura. Mas só se olhar de dentro nos devolve alguma direção.
Há uma hora em que precisamos parar de nos assistir vivendo e começar, de fato, a viver. Com menos pose. Menos legenda. Menos preocupação com a fotografia moral que os outros farão de nós.
A vida não é uma vitrine. E, quando vira, a gente acaba ficando do lado errado do vidro: exposto, iluminado, imóvel.
Talvez maturidade seja isso: sair da vitrine e voltar para casa.
Não para uma casa perfeita, arrumada, pronta para receber visitas. Mas para a casa real. Com infiltrações, lembranças, objetos fora do lugar e uma janela possível. A casa de dentro. Aquela onde já não precisamos representar.
Edmir Saint-Clair
Ele desceu
do avião no Galeão com a cabeça ainda em Pequim.
Vinte e
quatro horas de voo e conexões fazem isso com a gente.
Foram
precisos uns trinta segundos dentro do terminal para perceber que havia chegado
a um lugar diferente do Brasil que conhecia. O funcionário da alfândega estava
sorrindo, o que por si só já é evento raro o suficiente para aparecer nos
noticiários.
Foram quase
três horas de carro até o Leblon — o Rio de Copa do Mundo num domingo ao meio-dia
não é lugar para quem tem pressa. Em Botafogo, uma rua inteira fechada por um
churrasco que não era de ninguém em especial e era de todo mundo ao mesmo
tempo. No túnel, alguém havia pintado “HEXA: AGORA VEM!!!!!!” Num boteco na Jardim
Botânico, o pagode rolava solto e a frequência era grande e bastante animada.
O
recepcionista do hotel estava com a camisa da seleção por baixo do blazer — uma
solução diplomática negociada com a gerência, que era também brasileira e
portanto incapaz de dizer não. Da janela do décimo quinto, a Delfim Moreira era
um mar de verde e amarelo.
O homem
ficou na janela por talvez três minutos.
Depois
deitou na cama ainda com a roupa do avião ainda no corpo, pensando que ia
descansar um pouco antes de ver o jogo.
Dormiu por
mais de dez horas seguidas. Era o que vinte e quatro horas de Pequim ao Rio fizeram
com o corpo dele.
—
Na manhã,
acordou zonzo, ainda perdido no tempo e desceu para o café da manhã com a fome
de quem não comia coisa decente desde o dia anterior.
O
restaurante estava silencioso. As mesas estavam ocupadas, as pessoas comiam —
mas havia uma ausência no ar que ele não conseguia nomear. Nenhuma bandeira.
Nenhuma camisa amarela. O recepcionista com a camisa social de sempre, como se a
animação da véspera nunca tivesse existido. As pessoas olhavam para o prato com
aquela concentração de quem prefere não olhar para nada.
Ficou
confuso por um bom tempo. Reviu mentalmente o trajeto do dia anterior — o
churrasco, o velho do pagode, a Delfim tomada de gente. Tinha acontecido mesmo
aquele frenesi coletivo?
Demorou mais
uns vinte minutos para entender. O jornal no saguão do hotel deixou tudo bem
claro. O Brasil havia perdido por dois a um para a Noruega. Às cinco da tarde
do dia anterior, enquanto a cidade vibrava diante de cada televisor — ele
estava dormindo no décimo quinto andar com a roupa do avião.
Havia
chegado num universo e acordado em outro. E o mais curioso é que não havia
nenhum vestígio do primeiro no segundo. Como se a cidade tivesse feito uma
faxina emocional durante a madrugada e devolvido tudo ao lugar de sempre — que
é o de não ter nada a comemorar.
Edmir Saint-Clair