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Crônicas

COPA DO MUNDO

 

Ele desceu do avião no Galeão com a cabeça ainda em Pequim.

Vinte e quatro horas de voo e conexões fazem isso com a gente.

Foram precisos uns trinta segundos dentro do terminal para perceber que havia chegado a um lugar diferente do Brasil que conhecia. O funcionário da alfândega estava sorrindo, o que por si só já é evento raro o suficiente para aparecer nos noticiários.

Foram quase três horas de carro até o Leblon — o Rio de Copa do Mundo num domingo ao meio-dia não é lugar para quem tem pressa. Em Botafogo, uma rua inteira fechada por um churrasco que não era de ninguém em especial e era de todo mundo ao mesmo tempo. No túnel, alguém havia pintado “HEXA: AGORA VEM!!!!!!” Num boteco na Jardim Botânico, o pagode rolava solto e a frequência era grande e bastante animada.

O recepcionista do hotel estava com a camisa da seleção por baixo do blazer — uma solução diplomática negociada com a gerência, que era também brasileira e portanto incapaz de dizer não. Da janela do décimo quinto, a Delfim Moreira era um mar de verde e amarelo.

O homem ficou na janela por talvez três minutos.

Depois deitou na cama ainda com a roupa do avião ainda no corpo, pensando que ia descansar um pouco antes de ver o jogo.

Dormiu por mais de dez horas seguidas. Era o que vinte e quatro horas de Pequim ao Rio fizeram com o corpo dele.

Na manhã, acordou zonzo, ainda perdido no tempo e desceu para o café da manhã com a fome de quem não comia coisa decente desde o dia anterior.

O restaurante estava silencioso. As mesas estavam ocupadas, as pessoas comiam — mas havia uma ausência no ar que ele não conseguia nomear. Nenhuma bandeira. Nenhuma camisa amarela. O recepcionista com a camisa social de sempre, como se a animação da véspera nunca tivesse existido. As pessoas olhavam para o prato com aquela concentração de quem prefere não olhar para nada.

Ficou confuso por um bom tempo. Reviu mentalmente o trajeto do dia anterior — o churrasco, o velho do pagode, a Delfim tomada de gente. Tinha acontecido mesmo aquele frenesi coletivo?

Demorou mais uns vinte minutos para entender. O jornal no saguão do hotel deixou tudo bem claro. O Brasil havia perdido por dois a um para a Noruega. Às cinco da tarde do dia anterior, enquanto a cidade vibrava diante de cada televisor — ele estava dormindo no décimo quinto andar com a roupa do avião.

Havia chegado num universo e acordado em outro. E o mais curioso é que não havia nenhum vestígio do primeiro no segundo. Como se a cidade tivesse feito uma faxina emocional durante a madrugada e devolvido tudo ao lugar de sempre — que é o de não ter nada a comemorar.

Edmir Saint-Clair

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