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O CHARUTO APAGADO

 

A porta tinha marcas de três mundos diferentes.

As mais antigas eram da facção — quando os rapazes vieram cobrar uma dívida que não era de Neyla, mas a dívida não sabia disso. Depois vieram as da polícia, numa batida de madrugada. E, entre umas e outras, as de Julião — três, talvez quatro vezes, em diferentes estados de fúria.

Nenhum dos três havia perguntado se ela permitia a entrada.

Neyla se olhou no espelho enquanto esperava o filho. O olho direito quase fechado. O lábio partido. Na sala, Raylane dormia no sofá com o gesso na perna, a respiração pequena e regular.

Maicon chegaria a qualquer momento.

Julião aparecia quando bem entendia. Não havia aviso — havia, de repente, o barulho de alguém com as chaves na fechadura, mesmo quando ele não tinha mais chaves e precisava arrombar. Chegava com a roupa de quem dormira em qualquer lugar, varava o dia na cama, acordava para beber. Em casa, a voz crescia até o ponto que todos ali sabiam de cor.

Na rua, calado como qualquer pessoa.

Eram a segunda família. A filial, diziam os vizinhos. Mas a segunda família não recebia menos pancadas — e aprendera que contestar doía mais do que ceder.

Raylane era filha de uma noite em que Neyla havia dito não.

Era o segundo mês de Maicon no caixa do supermercado. O primeiro salário havia terminado nas mãos do pai, que revirou as coisas da mãe até encontrar. O segundo ainda estava no próprio bolso quando entrou e viu o estado em que o rosto de Neyla estava.

Fechou as mãos. Socou a própria cabeça.

Neyla o abraçou. Choraram juntos sem falar — o tipo de choro que já passou do ponto em que palavras ajudam. Maicon tirou a mochila das costas, deixou no sofá rasgado, deu um beijo no rosto da mãe e saiu pela porta.

Sem deixar o dinheiro.

Ela tentou segurá-lo pela camisa. Não conseguiu. Havia nele algo que ela não reconhecia — o corpo duro, o olhar esvaziado de vida. Aquele filho que ela conhecia de cor estava, naquele momento, inacessível.

A porta fechou.

Mãe Cecília apareceu antes que o barulho dos passos de Maicon se apagasse na escada.

A vizinha era pequena, as mãos grandes de quem trabalha com ervas há mais tempo do que a maioria das pessoas naquele bairro havia vivido — a mesma que o tráfico havia proibido de fazer seus rituais, por determinação do pastor evangélico que agora proibia os cultos afros na comunidade. Não perguntou nada. Entrou, olhou para o rosto de Neyla, e colocou a compressa fria no lado do olho inchado com a precisão de quem sabe exatamente onde a dor mora.

Ficou em silêncio enquanto Neyla segurava a compressa. Antes de sair, parou na soleira e olhou para a porta marcada — as cicatrizes antigas da madeira, as voltas frouxas da fechadura. Depois olhou para Neyla.

— Vai rezar — disse. Não era conselho. Era instrução.

Saiu sem mais nada.

O Complexo não dormia.

Em dezembro, menos ainda. As vielas tinham cheiro de churrasco e lona molhada, de cerveja e perfume baratos, de esgoto e fritura — o cheiro que é de todo lugar e de nenhum outro ao mesmo tempo. Nas janelas abertas, pagode, funk e evangélico disputavam o ar sem que ninguém ganhasse. Dois homens conversavam encostados no muro, copos na mão, relaxados, como se o mundo estivesse em ordem.

O mundo estava em ordem.

Era apenas a ordem dali — tão absurda quanto a de qualquer outro lugar da cidade.

Maicon conhecia cada palmo daquelas vielas. Havia crescido ali. Sabia quais esquinas eram das igrejas e quais eram do tráfico — e sabia que a distância entre umas e outras era de dez metros, às vezes menos. Normal. A Igreja havia convertido todo o comando do tráfico naquela comunidade.

Foi pelos fundos.

A raiva não era barulhenta. Era densa — um corpo dentro do corpo. Não pensava em Julião. Já havia passado disso. Caminhava com o olhar fixo em nada, vendo tudo, processando apenas o que precisava: o próximo passo, a próxima viela, o próximo rosto. Só pensava que aquela fora a última vez que suportaria a imagem de sua mãe apanhando.

Os rostos foram aparecendo.

Os aviõezinhos primeiro — meninos de doze, treze anos, nos mesmos postes de sempre, com os mesmos tênis novos que eram o único luxo que aquele serviço pagava. Olharam para Maicon com o reconhecimento vago de quem vê alguém que já foi dali. Ele passou sem parar.

Mais fundo.

As vielas iam ficando mais estreitas, as paredes mais úmidas, os cheiros mais fortes e a luz das janelas mais escuras. O pagode ficou para trás. O funk sumiu. O que sobrou foi o som do próprio passo e o zumbido distante de algum gerador. E os rapazes, cada vez mais velhos, fumando e cheirando seus produtos, e pesadamente armados.

Na viela que subia para o QG no mirante, havia também policiais fardados completamente à vontade e integrados ao bando. Confraternizavam, fumavam e cheiravam os mesmos produtos. Ninguém os olhava diferente.

A mesma farda que havia arrombado a porta de Neyla de madrugada.

Maicon passou sem olhar.

Aquelas imagens tiraram qualquer dúvida que ainda lhe restava.

— Preciso de um ferro.

O homem olhou. Não demorou.

O segundo salário passou de uma mão para outra debaixo de uma lâmpada que mal funcionava. O que veio em troca era pequeno, o pesado frio do aço de um 38.

Maicon voltou pelas vielas sem olhar para os lados. Atrás dele, o Complexo continuava intacto — as crianças, o churrasco, o pagode, os evangelhos, a bola de plástico boiando na vala. Tudo funcionando, tudo em ordem, cada coisa no seu lugar.

Era esse o absurdo.

Não havia nada fora do lugar.

Subiu as escadas de volta para casa.

Em casa, Neyla acendeu a vela e ajoelhou.

Não havia número para ligar. A polícia que havia arrombado aquela porta de madrugada não era uma polícia a quem se pede socorro. Não havia parente, vizinha, assistente social, fila para enfrentar, formulário para preencher.

Então rezou.

Rezou com a fé que é o último recurso de quem não tem nenhum outro.

Quando Julião voltou bêbado e se jogou na cama sem emitir mais que um grunhido, ela não se levantou.

Trancou a porta com todas as voltas que a fechadura ainda era capaz de dar — não muitas, depois de tudo que aquela madeira tinha aguentado — e guardou as chaves nos seios.

Continuou ajoelhada, diante da imagem da santa e da vela acesa.

O chute de Maicon soou como todos os outros chutes que aquela porta havia recebido.

A madeira cedeu.

Ele entrou com a arma engatilhada e foi direto para o quarto. Neyla o interceptou a poucos passos da porta do quarto. Os dois olharam para a cama ao mesmo tempo.

Julião estava mumificado. A pele colada aos ossos, os lábios retraídos, o rosto congelado em algo que não era expressão — era a ausência de tudo que havia sido retirado. Como se a última imagem houvesse arrancado mais do que a alma.

O cheiro do charuto apagado ao lado do corpo impregnava todo o ambiente, como se dissesse: estive aqui.

Não havia mais ninguém no quarto.

Edmir Saint-Clair

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