RÁDIO 101 SMOOTH JAZZ - N.Y.

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A PRIMEIRA MORTE

 

Heitor era um jovem tímido e retraído, tinha um sorriso largo e fácil. Não era de falar muito. Um cara normal que adorava ser um cara normal. Amigo dos bons, daqueles que comprava nossas brigas ou corria junto. Mas, nunca deixava ninguém na mão.

Jogava bola, nem melhor nem pior do que a maioria. Um zagueiro zagueiro, que dava de bico na bola para onde o nariz apontava. Participante diário das peladas, não se destacava, nem queria.

Até aquele dia, quando ao intervir a favor de uma garotada mais nova, como era tradição no bairro, que discutia com um porteiro que confiscara a bola da molecada, foi surpreendido por uma facada covarde e traiçoeira desferida pelo porteiro embriagado que acabara de rasgar a bola com sua peixeira. Foi levado para o Hospital Miguel Couto pelos amigos. O banco traseiro do carro ficou ensopado de sangue.

Após a longa cirurgia, os médicos não quiseram fazer prognósticos.

Ninguém acreditava que o pior pudesse acontecer. Ele era jovem, forte e saudável. Era um de nós.

Os dias se passaram e ele obteve uma pequena melhora sem, no entanto, deixar a UTI. A notícia a angústia e a preocupação pioravam. E ele também. Grupos de amigos iam, constantemente, visitá-lo no Miguel Couto e, como ele não podia receber visitas na UTI, tínhamos que burlar a vigilância para poder vê-lo e acenar de longe, através da janela de vidro. Ele sempre acenava de volta.

Jovens se acham imortais e ninguém acreditava que ele também não fosse. Infelizmente, não era. O Heitor morreu. O impacto foi desorientador para nossa turma de adolescentes.

Choramos muito.  Inconsoláveis. Nossos pais choraram conosco e isso aumentou ainda mais o peso e a gravidade daquele evento inédito em nossas vidas, não havia instância a qual recorrer contra aquela fatalidade. Foi pesado. Havia abraços se confortando, sem consegui-lo. Havia incredulidade, perplexidade e muita tristeza. Uma onda de choque se abateu sobre todos nós. A morte mostrou sua cara e todos ficamos apavorados. Ela existia e era terrível.  Era para sempre. Todos nós sofremos uma mudança profunda e irreversível após aquela perda. 

Heitor tinha 18 anos e foi a primeira morte que nossa adolescência enfrentou.

 

Edmir Saint-Clair

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