O PORTAL DA PEDRA BRANCA
"Nada chega aos pés do absurdo sobre o qual toda consciência de qualquer realidade humana é tecida." — Edmir Saint-Clair
A
notícia chegou por mensagem no Facebook, enviada por um conhecido cujo nome
Pedro mal conseguia associar a um rosto. Apenas um parágrafo. A data do velório
já havia passado.
Ela
tinha morrido dez dias antes. Perdendo a capacidade de respirar, disseram, até
que os pulmões decidiram parar. Pedro leu duas vezes. Ficou olhando para a tela
do celular como se a tela fosse mudar de ideia.
Estavam
separados há dois anos. Tinham parado de se falar. Isso não tornava ela
menos presente na história dele — nem
tornava Pedro menos ausente na hora em que ela precisou. Havia sido casado
quatro vezes. Nunca tinha perdido ninguém assim.
Não
assim.
O
diagnóstico veio três meses depois, durante exames de rotina. Câncer no fígado,
possíveis metástases. O médico usou palavras que Pedro conhecia. Saiu do
consultório, entrou no carro e ficou parado no estacionamento até perceber que
o movimento à sua volta havia quase cessado.
Não
ligou para os filhos. Um estava em Brasília, a outra em Barcelona — cada um com
a própria vida construída longe daquela do pai. Não queria interromper isso,
não queria ter que explicar.
Pedro
morava no início da Rua Bela Floresta, num ponto onde a cidade ainda não
decidiu se é asfalto ou mata. A rua termina num condomínio encostado na Reserva
— doze mil e quinhentos hectares de floresta dentro do Rio, mapeados,
estudados, documentados em cada detalhe. A maior floresta urbana do mundo. A
Pedra Branca lá no fundo, mil e vinte e cinco metros de granito precambriano —
quinhentos milhões de anos antes de qualquer ser humano ter tido qualquer ideia
sobre qualquer coisa.
Ele
começou a caminhar pela trilha por não ter mais nada melhor para fazer.
* * *
Era
outono, e às cinco da tarde a copa das árvores já havia feito anoitecer antes
da noite chegar. A trilha perdia a cor antes de perder a luz — o verde
escurecia primeiro, depois as pedras, o céu sendo o último a se render.
Pedro vagava
pela mata todo dia. Havia começado duas semanas depois do diagnóstico, com a
intenção específica de conhecer o que nunca havia conhecido, uma floresta
original de verdade, com toda a transcendência dos milhões de anos que a
formaram. A Reserva ficava a cinco minutos de sua casa a pé. Ia sem relógio,
voltava quando o corpo pedia.
Naquele
dia foi o olho que pediu.
Entre
duas árvores grandes, perto de um monolito de granito que ele havia passado
dezenas de vezes sem dar atenção, havia uma claridade que não deveria estar
ali. Não era reflexo do sol — o sol não chegava mais àquele ponto da trilha.
Não era lanterna, não era celular de outro caminhante. Era outra coisa. O tipo
de luz que o cérebro tenta classificar e no terceiro segundo admite que não
consegue.
Pedro
parou.
A
claridade continuava.
Deu
alguns passos em direção ao monolito. A luz ficava mais definida conforme ele
se aproximava — não maior, não mais intensa, só mais inegável. Vinha de baixo,
entre a pedra e a base de um dos troncos. De um ponto que a sombra deveria ter
tomado há meia hora.
Ficou
parado perto o suficiente para confirmar que não havia explicação imediata.
Então
recuou. Não com medo — com a prudência de quem aprendeu, em algum ponto da
vida, que as coisas que importam pedem mais de uma visita.
Voltou
pelo resto da trilha antes que o escuro da mata chegasse.
Naquela
noite não disse nada a ninguém.
Não
havia ninguém a quem dizer.
* * *
Voltou
dois dias depois, antes do anoitecer.
Pegou
o celular com a bateria carregada e caminhou pela trilha com a atenção
diferente de quem já sabe o que está procurando — embora não soubesse ainda o
que estava procurando de verdade.
O
monolito estava onde havia estado sempre. A grande árvore ao lado — Pedro
percebeu, pela primeira vez, o tamanho real daquela árvore colossal. O tronco
tinha uma circunferência que dois ou três homens de braços abertos não dariam
conta de abraçar. A casca era rugosa, escurecida pelos séculos, com sulcos
profundos como cicatrizes muito antigas. As raízes saíam da base como contrafortes,
como se a terra precisasse de ancoragem extra para segurar aquilo.
Pedro
acendeu a lanterna do celular.
Entre
o tronco e a face do monolito havia um espaço — não uma abertura, não uma
porta, nada que chamasse atenção. Uma fresta. O ponto onde a madeira e a pedra
haviam crescido uma em direção à outra durante séculos e chegado a um acordo
tácito: ficar a uns sessenta centímetros de distância, nem mais nem menos.
A
luminosidade vinha de dentro dessa fresta.
Pedro
se posicionou de lado, encostou as costas na pedra, e entrou.
* * *
A
passagem era estreita nos primeiros metros — espaço para um corpo virado de
lado, a pedra fria do granito de um lado, a casca áspera do jequitibá do outro.
Depois de menos de dois metros descendo numa inclinação suave, a passagem se
abriu.
Pedro
parou.
A
lanterna alcançava uns oito metros à frente. Além disso, escuridão — não
paredes, não teto, não chão visível. A caverna continuava além do alcance da
luz, e aquela escuridão era a escuridão das coisas que nunca viram claridade.
Avançou
devagar, prestando atenção no chão de pedra lisa sob os pés. A inclinação
continuava — suave, constante. A temperatura caía conforme descia. O ar era
frio e, estranhamente, fresco — não o ar parado das cavernas fechadas, mas ar
com movimento, como se a caverna respirasse por alguma abertura que Pedro não
conseguia localizar.
O som
chegou antes da imagem: o gotejamento regular de água caindo sobre água.
O
laguinho estava numa câmara que a caverna formava naturalmente. Era pequeno —
uns dois metros de diâmetro, não mais. A água caía do teto em fios finos e
regulares, como se a pedra transpirasse com método. O fundo era pedra clara,
quase translúcida.
Pedro
apagou a lanterna do celular.
Não
ficou escuro.
O
laguinho continuava visível. Era a fonte de luz de toda aquela câmara — uma
luminescência que subia da água sem calor, sem oscilação, sem nada que Pedro
conseguisse reconhecer. Não havia organismos visíveis. Não havia fonte externa.
Era a água sendo luminosa.
Pedro
ficou parado por um tempo que não soube medir.
Depois
reacendeu a lanterna e procurou o resto.
* * *
O
laguinho tinha um vertedor natural na borda — uma abertura estreita por onde a
água escorria para mais fundo. Pedro iluminou para dentro. Via alguns metros de
canal escavado na pedra, depois curva, depois nada.
Não
foi por ali.
Havia
outra abertura na parede lateral da câmara. Pedro entrou.
* * *
O
salão era comprido e baixo — teto a uns dois metros e meio, paredes de granito
bruto, chão plano. Nas paredes, dos dois lados, prateleiras escavadas na
própria rocha — recuos regulares, paralelos, como se alguém tivesse retirado a
pedra em camadas horizontais precisas para criar espaços de armazenamento.
Pedro passou a lanterna de uma extremidade à outra. Havia mais de trinta metros
de prateleiras de cada lado.
Todas
com livros.
Não
eram livros modernos. Volumes com capas de material que Pedro não soube nomear
— não couro, não tecido, não papel. Algo entre os três, com textura que parecia
antiga sem parecer frágil. Pegou um. O peso era menor do que esperava. Abriu.
As
páginas se iluminaram.
Não
com força — com a luminosidade suficiente para ler, como se o papel soubesse
para que servia e resolvesse cooperar. Pedro olhou para os símbolos nas páginas
iluminadas.
Não
eram letras. Não eram ideogramas. Não eram nada que remetesse a nada.
Fechou
o livro. A luz das páginas se apagou. Abriu outro. As páginas se iluminaram.
Tirou
a garrafa d'água do bolso e colocou algumas gotas sobre uma página aberta. As
gotas escorregaram da superfície como se a página fosse vidro. Não deixaram
marca. A página estava seca antes que Pedro guardasse a garrafa.
Entre
os livros, nas prateleiras, havia outros objetos.
Peças
de formatos sem nome imediato — não ferramentas, não recipientes, não
ornamentos, nada que o cérebro classificasse em dois segundos. Num deles ficou
mais tempo: um objeto longo, fino, levemente curvo, de material que parecia nem
pedra nem metal nem osso mas tinha propriedades dos três. Pesava errado — mais
leve do que aparentava, ou mais pesado. Não dava para decidir. Seus sentidos
falhavam.
Ficou
no salão por um tempo.
Depois
voltou pelo mesmo caminho, pela câmara do lago, pela passagem estreita, pela
fresta entre o jequitibá e o granito, pela trilha, pela Rua Bela Floresta, para
casa.
* * *
Naquela
noite pesquisou a Reserva. Depois pesquisou as espécies de árvores nativas da
Mata Atlântica. Encontrou um artigo da Fiocruz de outubro de 2025, com foto: um
jequitibá-rosa identificado no interior da Reserva. Era exatamente igual ao que
ele encontrara. Quarenta metros de altura. Sete metros de circunferência.
Quinhentos anos de idade.
Leu
que a espécie praticamente se esconde no ambiente em que habita.
Havia
passado por ele dezenas de vezes.
Não
tinha visto.
* * *
Voltou
no dia seguinte. E no dia depois. E no seguinte.
Nos
primeiros dias carregava apenas o celular. Depois comprou uma pequena lanterna
portátil. Depois passou a carregar uma mochila leve — bateria extra, garrafa
d'água, bloco de notas. Fotografou cada prateleira. Cada lombada. Cada objeto.
Fotografou os símbolos das páginas em dezenas de livros, centenas de páginas,
com luz artificial e com as páginas iluminadas, de ângulos diferentes, com e
sem flash.
Submeteu
as imagens às melhores inteligências artificiais disponíveis.
O
resultado nunca era o mesmo. Uma encontrava estrutura, gramática, sintaxe — uma
língua real, sem paralelo em nada já decifrado desde os sumérios. Outra via
apenas ruído: os padrões que a mente impõe ao acaso quando precisa de sentido.
Uma terceira não se comprometia.
Depois
pesquisou a caverna.
Contatou
o Instituto administrador da Reserva. Consultou órgãos de geografia estadual e
federal. Procurou registros das tribos que habitaram o maciço antes da
colonização. Leu tudo que havia sobre a geologia do granito precambriano, sobre
as cavernas documentadas — havia apenas uma, a Caverna Carlos Bandeira, trinta
metros de extensão, nada de luminescência, nada de biblioteca.
Silêncio
absoluto. A caverna nunca havia sido documentada, nunca registrada, nunca
mencionada em lugar algum. As tribos brasileiras não tinham linguagens
escritas. A biblioteca não vinha delas. E aquilo não era indígena, não era
colonial, não era de nenhuma civilização que a humanidade houvesse catalogado
nos cinco mil anos em que tentou catalogar civilizações.
Havia
naquele lugar alguma coisa que só ele sabia. Não havia uma pessoa no mundo que
soubesse o que ele sabia — nem os filhos, nem os médicos, nem os antigos
colegas de agência que ainda mandavam mensagem em grupo sobre nada. A caverna
era a primeira coisa na vida de Pedro que pertencia inteiramente a ele. Não a
uma campanha, não a um cliente, não a um casamento, não a uma empresa.
A ele.
Num
dia percebeu que havia saído de casa exclusivamente para ir até a caverna.
* * *
Num
fim de tarde, sentado à mesa da cozinha enquanto observava a Rua Bela Floresta
desaparecer lentamente atrás das árvores, Pedro percebeu que não queria mais
carregar aquilo sozinho. Pegou o telefone e ligou para Clara. Pensou em
desligar antes que ela atendesse.
Não
desligou.
Encontraram-se
dois dias depois num café da Gávea.
Clara
chegou alguns minutos antes do horário combinado. Pedro a viu através da
vitrine, sentada perto da janela, observando o movimento da rua com a mesma
atenção tranquila de quem passou trinta anos decidindo, num relance, o que numa
imagem era verdade e o que era truque.
Mostrou
as fotografias sem introduções.
Clara
passou as imagens devagar, uma após a outra. Parava, ampliava detalhes, voltava
para fotografias anteriores e permanecia alguns segundos em silêncio antes de
seguir adiante. Demorou-se especialmente nas páginas iluminadas, depois nos
objetos, voltando por fim aos símbolos.
— Não
parece inventado.
Pedro
não respondeu.
— Não
estou dizendo que compreendo o que estou vendo. Estou dizendo que existe
consistência.
Continuou
observando as imagens.
— Os
padrões se repetem. Há estrutura. Há uma lógica interna. Seja lá o que for
isso.
Ergueu
os olhos.
— Onde
fica?
Pedro
contou — a trilha, o monolito, o jequitibá, a passagem escondida entre a pedra
e o tronco, o lago luminoso e a biblioteca. Clara ouviu tudo sem interromper e,
quando ele terminou, permaneceu alguns instantes olhando para a mesa.
—
Quero ver.
Pedro
assentiu.
—
Antes disso, preciso te contar outra coisa.
Falou
do câncer com a mesma objetividade com que havia descrito a caverna. Fígado.
Possíveis metástases. Exames de rotina. Não havia contado aos filhos.
Clara
ouviu em silêncio. Quando ele terminou, ela permaneceu algum tempo observando a
xícara entre as mãos.
— Há
quanto tempo você sabe?
—
Alguns meses.
Ela
assentiu devagar.
— E
está carregando tudo isso sozinho?
Pedro
deu de ombros.
A
pergunta parecia servir igualmente para a doença e para a biblioteca.
Foram
à Reserva na manhã seguinte.
Pedro
caminhou na frente. Enquanto avançavam pela trilha, falou sobre o jequitibá —
os quinhentos anos de idade, os sete metros de circunferência, o artigo da
Fiocruz que encontrara semanas antes. Clara observava mais do que perguntava.
Quando
chegaram ao monolito, Pedro sentiu imediatamente a ausência.
A
claridade não estava ali.
Mesmo
assim aproximou-se da fresta e entrou entre a pedra e o tronco. Encontrou
apenas granito, raízes e terra compactada. Nada além disso. Saiu alguns
segundos depois.
Clara
aproximou-se, examinou a base da árvore, passou a mão pela pedra e observou
demoradamente o espaço estreito entre as duas superfícies. Depois entrou e,
quando voltou, limitou-se a balançar a cabeça.
Ficaram
algum tempo em silêncio. A mata já começava a escurecer com a chegada do fim da
tarde, e Pedro continuava olhando para a fresta como quem espera que uma
explicação apareça atrasada.
Ela
não apareceu.
— Eu
acredito em você — disse Clara.
Pedro
não respondeu.
Não
era isso que ele precisava ouvir.
* * *
Voltou
sozinho dois dias depois.
A
claridade estava lá.
Desceu
pela passagem, atravessou a câmara do lago luminoso e chegou ao salão. A
biblioteca permanecia exatamente como a encontrara pela primeira vez. As
prateleiras escavadas na pedra. Os volumes alinhados. O silêncio.
Escolheu
um livro ao acaso e o abriu. As páginas iluminaram-se.
Ficou.
Os
símbolos continuavam ilegíveis — nada ali entrava pelos olhos, nada se deixava
ler. Mas alguma coisa o atravessou enquanto permanecia parado com o livro
aberto. Não uma frase, não uma imagem, não palavra alguma. Algo anterior à
palavra, sem forma que a mão pudesse copiar ou a boca repetir. Esteve inteiro
por um instante. Depois escorreu, como escorre o conteúdo de um sonho no
momento exato em que se tenta contá-lo.
Tentou
segurar. Não havia o que segurar.
Fechou
o livro e ficou sentado por algum tempo ouvindo a água escorrer em algum ponto
distante da caverna.
Voltou
para casa antes do escuro.
Naquela
noite sentou-se à mesa da cozinha com o caderno aberto à frente, sem intenção
definida. A mão começou a escrever antes que ele decidisse escrever.
Já
percebem a própria consciência em si, mas ainda estão longe de saber de onde
vem o observador que a contempla...
A
frase parou ali. Era a letra dele. A origem, não. Não tinha lido aquilo em
lugar nenhum, não lembrava de ter pensado naquilo. A coisa que o atravessara na
caverna, sem forma nem som, tinha encontrado as palavras só agora — na mão, não
na cabeça.
Clara
não tinha visto nada.
* * *
Clara
ligou uma semana mais tarde, perguntou pelos exames e pela trilha. Pedro
respondeu pouco, como sempre fazia, mas respondeu. Depois vieram outras
conversas. Algumas sobre a Reserva. Outras não. Nenhuma delas pareceu
importante naquele momento.
* * *
Duas
semanas depois retornaram à Reserva.
A
claridade não apareceu.
A
passagem permaneceu fechada.
Pedro
observou durante alguns instantes o espaço entre o jequitibá e o granito,
enquanto Clara observava Pedro com a atenção silenciosa de quem procura
compreender algo que talvez não possa ser compreendido. Depois voltaram pela
trilha quase sem conversar — o som dos próprios passos pareceu suficiente para
os dois.
* * *
Voltou
sozinho dois dias depois. A claridade estava lá.
Desceu
até o salão. Escolheu outro volume. As páginas iluminaram-se.
A
mesma coisa o atravessou. Ou outra — não havia como saber, porque o que chegava
não deixava forma suficiente para comparar com o que tinha chegado antes.
Apenas a certeza, enquanto durava, de que algo havia sido dito. E depois o
silêncio de quem tentou segurar água com as mãos abertas.
Já não
levava o bloco de notas para a caverna. Tinha entendido que ali não havia o que
anotar — que o registro, quando vinha, vinha depois, em casa, e não dependia
dele.
Pedro
fechou o livro e permaneceu algum tempo sentado no chão.
Naquela
noite a mão escreveu de novo.
Ainda
estão no início da construção de um livre arbítrio real...
A
frase interrompeu-se ali, como a outra. Pedro olhou para o caderno e voltou a
fechá-lo. Já não tentava entender de onde vinha. Já não tinha a mesma urgência
de entender coisa alguma.
* * *
Nos
meses seguintes continuou indo quase todos os dias à Reserva. Sozinho, sempre.
A caverna continuava aparecendo apenas para ele. As visitas permaneciam
solitárias: a descida pela passagem, o tempo parado diante dos livros, o
retorno para casa.
Em
algumas noites a mão ainda escrevia. Frases curtas, interrompidas, sempre no
meio de algo maior. A última delas foi:
Ainda
separam o tempo do espaço, e a si mesmos daquilo que são...
Depois
disso, nas noites em que se sentava à mesa e abria o caderno, a folha
continuava em branco.
A trilha
era a mesma. O corpo, não.
* * *
Clara
ligou para Daniela numa tarde.
Não
disse tudo. Disse o suficiente.
Daniela
chegou numa quinta-feira. Gabriel dois dias depois. Pedro estava na cozinha
quando Daniela entrou — ficaram um instante sem saber bem o que fazer, e depois
o abraço aconteceu.
Nos
dias que se seguiram, Pedro cozinhou com os filhos, riu de histórias antigas,
pareceu — pela primeira vez em muito tempo — inteiramente presente.
Não
voltou à caverna.
Pedro
estava presente.
* * *
Pedro
acordou enquanto os dois filhos ainda dormiam e ficou um momento deitado
ouvindo o silêncio da casa — aquela qualidade de silêncio que só existe quando
há outras pessoas dormindo — antes de se levantar e ir para a cozinha, onde
começou a preparar o café da manhã sem pressa, colocando o café no coador,
cortando as frutas devagar sobre a tábua de madeira, abrindo a cesta do pão, e
enquanto o aroma do café tomava o ambiente foi organizando a mesa com o cuidado
de quem tem tempo de sobra: os pratos no lugar certo, as xícaras viradas para
cima ao lado das colheres, a manteiga, o mel que sabia que Daniela gostava
desde pequena e que havia comprado especialmente quando os filhos chegaram.
Quando
tudo estava pronto serviu a própria xícara e ficou em pé ao lado da janela
bebendo devagar, olhando a Rua Bela Floresta ainda quieta lá fora, e quando
terminou lavou a xícara e a deixou secando ao lado da pia, enxugou as mãos no
pano de prato, foi ao quarto e tirou a mochila do gancho onde sempre ficava —
bateria extra, garrafa d'água, os mesmos itens de sempre — ajustou a alça com o
gesto de quem não precisa mais pensar naquilo e saíu da casa deixando a mesa
posta para os filhos que ainda dormiam.
Caminhou
pela Rua Bela Floresta com o passo tranquilo de quem conhece cada
irregularidade do calçamento, entrou na trilha onde a mata foi fechando a copa
sobre a cabeça e a luz foi mudando de qualidade, o verde escurecendo aos
poucos, a temperatura caindo um grau ou dois como sempre caía naquele trecho, e
foi chegando ao jequitibá pelo caminho que havia feito centenas de vezes — os
contrafortes que saíam da terra como âncoras, a casca escurecida pelos séculos,
os sulcos que Pedro conhecia de cor — e apoiou a mochila na base do tronco
entre as raízes, como sempre fazia.
A
fresta entre o tronco e o granito estava aberta.
Pedro
encostou as costas na pedra e entrou.
* * *
Sob o
silêncio da maior floresta urbana do mundo.
Edmir
Saint-Clair
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