Contos  contos fantásticos 

SEM EXPLICAÇÃO

SEM EXPLICAÇÃO

 

        A depressão o havia consumido por meses, transformando seu mundo em uma névoa cinza e opressiva. Tudo mudou naquela noite em que sonhou com Clarinha, sua primeira paixão, a menina de cabelos cacheados e sorriso contagiante que o fazia sorrir até nos dias mais sombrios de sua infância.

No dia seguinte, ele acordou com uma sensação diferente. A campainha tocou, e quando Noah abriu a porta, seu coração quase parou. Era Clarinha, tão linda quanto ele se lembrava, apesar de terem se conhecido aos 9 anos, ela conservava o mesmo sorriso e os olhos puxadinhos.

Pouco conversaram, a despeito dos vinte anos que separava a remota lembrança, a paixão que os invadiu foi tão intensa e mútua que a partir daquele momento se jogaram em um relacionamento tão intenso que beirava a irracionalidade. A partir do momento em que ela entrara naquele apartamento, simplesmente não saíra mais de sua vida. E Noah desejava que ela nunca mais saísse. No entanto, Clarinha impôs uma condição: ninguém poderia saber sobre ela e o relacionamento deles.

Clarinha sempre cheirava a algo suave e inebriante, um perfume que parecia flutuar pelo apartamento de Noah, mesmo quando ela não estava presente. Staël, sua irmã, notou isso imediatamente quando visitou seu apartamento. O cheiro era tão forte que ela não pôde deixar de perguntar a Noah se ele havia começado a namorar alguém.

Ele não respondeu.

Quando estava indo embora, andando pelo corredor até o elevador, ela encontrou um chaveiro com o nome do irmão e uma chave, que parecia ser do apartamento de Noah. Para não incomodar mais o irmão e decidida a não fazer perguntas, ela guardou a chave em sua bolsa, sem dar muita atenção ao fato. No próximo encontro devolveria a chave.

Noah começou a desconfiar dos sumiços de Clarinha, que passava os dias fora de casa, só retornando à noite, sempre deixando claro que não admitia perguntas.

Staël estava cada vez mais preocupada com o comportamento errático do irmão. Era óbvio que ele estava se relacionando com alguém que o estava absorvendo cada vez mais.

A tensão entre Noah e Staël aumentou até que ele finalmente revelou a existência de Clarinha.

Staël lembrou-se da menina que haviam conhecido na infância, uma menina mais velha que sempre demonstrava uma afeição exagerada por Noah, e se mudara quando eles tinham por volta de uns 11/12 anos. Ela se lembrava de como os dois eram fofos juntos, mas não fazia ideia de como eles haviam se reencontrado depois de tantos anos. Achou muito estranho quando soube que ela tinha simplesmente tocado a campainha do apartamento do irmão ressurgindo do passado sem mais explicações.

Quando Noah contou a Clarinha que havia revelado seu segredo a Staël, a reação dela foi inesperada e desproporcional. Ela saiu correndo, desaparecendo pelo corredor como se fosse uma sombra. A partir daquela noite, Clarinha não apareceu mais, deixando Noah mergulhado em uma profunda depressão.

Staël, cada vez mais preocupada com o irmão, decidiu ajudá-lo a encontrar Clarinha.

Através das mídias sociais, conseguiu entrar em contato com uma amiga daquela época que lhe conseguiu o contato da irmã mais nova de Clarinha, ressaltando que não tinha contato e nem notícias de como estariam atualmente. Staël passou à noite inteira no notebook pesquisando todas as pistas possíveis. 

Enquanto isso, em sua casa, Noah sentiu o celular vibrar. Era Clarinha, falando objetivamente e sem rodeios:

- Se você quiser ficar comigo, deve deixar tudo para trás e vir me encontrar.

Sem pensar, Noah escreveu uma longa carta para Staël explicando tudo e saiu, determinado a seguir Clarinha.

No dia seguinte, Staël tocou a campainha do apartamento de Noah, mas não obteve resposta. Preocupada, ela usou a chave que encontrara anteriormente no corredor e entrou. No quarto, encontrou a carta de Noah, que detalhava todo o relacionamento com Clarinha e sua decisão de ir embora com ela.

Conforme ia lendo a carta, Staël ia ficando cada vez mais gelada.

Na bolsa, ela tinha uma impressão de um jornal antigo, fruto de sua pesquisa na noite anterior, datado de 20 anos atrás, cuja manchete dizia: "Menina de 12 anos é encontrada morta em escola pública. "

Staël leu a carta novamente, os olhos arregalados de horror. Clarinha havia morrido quando era criança ainda. Como Noah poderia estar num relacionamento tão intenso e avassalador com uma pessoa que não deveria existir mais.  

A chave que servia na porta do apartamento de Noah, o perfume constante, a insistência de Clarinha em manter o relacionamento em segredo conforme o irmão lhe contara... Staël não via lógica nenhuma naquilo. Será que Noah estava num surto psicótico e imaginara tudo aquilo?

Mas havia algo ainda mais perturbador. Quando Staël voltou para o apartamento, ela encontrou outra carta, escondida entre os pertences de Noah. Essa era de alguém com letra de criança que assinara Clarinha, e dizia:

"Eu sempre estive mais perto do que você podia imaginar, Noah. Eu nunca deixei de amá-lo, mesmo depois de partir. Nosso amor sempre foi eterno, você sempre foi meu. Agora, é hora de você me seguir."

Staël teve um pressentimento muito forte de que algo muito errado estava acontecendo e não era de agora.

Foi até o porteiro do prédio, que era bem antigo no serviço e conhecia muito bem tanto Noah quanto ela. Perguntou se ele conhecia a nova namorada de Noah. O porteiro lhe respondeu que havia muitos meses que não o via com ninguém e que ninguém o procurava fazia tempo, confirmando o isolamento no qual o irmão vivia. Ela teve a ideia de ver as gravações das câmeras de segurança do prédio. Qualquer imagem que registrasse a saída ou entrada do irmão acompanhado de Clarinha bastaria para aliviá-la de tantas dúvidas e angústias.

Após rever as imagens dos últimos dez dias, o que durou horas mesmo em velocidade triplicada, ela confirmou que nenhuma mulher, ou qualquer outra pessoa, havia sequer passado pela porta do apartamento de Noah. Na última gravação em que o irmão aparece, ele está saindo sozinho do apartamento, entrando no elevador onde desce igualmente sozinho até a câmera do lado de fora do prédio registrar sua imagem afastando-se do edifício.

Desde esse dia, ela nunca mais soube do paradeiro do irmão.

 Edmir Saint-Clair
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O PORTAL DA PEDRA BRANCA

O PORTAL DA PEDRA BRANCA

"Nada chega aos pés do absurdo sobre o qual toda consciência de qualquer realidade humana é tecida." Edmir Saint-Clair

            A notícia chegou por mensagem no Facebook, enviada por um conhecido cujo nome Pedro mal conseguia associar a um rosto. Apenas um parágrafo. A data do velório já havia passado.

Ela tinha morrido dez dias antes. Perdendo a capacidade de respirar, disseram, até que os pulmões decidiram parar. Pedro leu duas vezes. Ficou olhando para a tela do celular como se a tela fosse mudar de ideia.

Estavam separados há dois anos. Tinham parado de se falar. Isso não tornava ela menos  presente na história dele — nem tornava Pedro menos ausente na hora em que ela precisou. Havia sido casado quatro vezes. Nunca tinha perdido ninguém assim.

Não assim.

O diagnóstico veio três meses depois, durante exames de rotina. Câncer no fígado, possíveis metástases. O médico usou palavras que Pedro conhecia. Saiu do consultório, entrou no carro e ficou parado no estacionamento até perceber que o movimento à sua volta havia quase cessado.

Não ligou para os filhos. Um estava em Brasília, a outra em Barcelona — cada um com a própria vida construída longe daquela do pai. Não queria interromper isso, não queria ter que explicar.

Pedro morava no início da Rua Bela Floresta, num ponto onde a cidade ainda não decidiu se é asfalto ou mata. A rua termina num condomínio encostado na Reserva — doze mil e quinhentos hectares de floresta dentro do Rio, mapeados, estudados, documentados em cada detalhe. A maior floresta urbana do mundo. A Pedra Branca lá no fundo, mil e vinte e cinco metros de granito precambriano — quinhentos milhões de anos antes de qualquer ser humano ter tido qualquer ideia sobre qualquer coisa.

Ele começou a caminhar pela trilha por não ter mais nada melhor para fazer.

* * *

Era outono, e às cinco da tarde a copa das árvores já havia feito anoitecer antes da noite chegar. A trilha perdia a cor antes de perder a luz — o verde escurecia primeiro, depois as pedras, o céu sendo o último a se render.

Pedro vagava pela mata todo dia. Havia começado duas semanas depois do diagnóstico, com a intenção específica de conhecer o que nunca havia conhecido, uma floresta original de verdade, com toda a transcendência dos milhões de anos que a formaram. A Reserva ficava a cinco minutos de sua casa a pé. Ia sem relógio, voltava quando o corpo pedia.

Naquele dia foi o olho que pediu.

Entre duas árvores grandes, perto de um monolito de granito que ele havia passado dezenas de vezes sem dar atenção, havia uma claridade que não deveria estar ali. Não era reflexo do sol — o sol não chegava mais àquele ponto da trilha. Não era lanterna, não era celular de outro caminhante. Era outra coisa. O tipo de luz que o cérebro tenta classificar e no terceiro segundo admite que não consegue.

Pedro parou.

A claridade continuava.

Deu alguns passos em direção ao monolito. A luz ficava mais definida conforme ele se aproximava — não maior, não mais intensa, só mais inegável. Vinha de baixo, entre a pedra e a base de um dos troncos. De um ponto que a sombra deveria ter tomado há meia hora.

Ficou parado perto o suficiente para confirmar que não havia explicação imediata.

Então recuou. Não com medo — com a prudência de quem aprendeu, em algum ponto da vida, que as coisas que importam pedem mais de uma visita.

Voltou pelo resto da trilha antes que o escuro da mata chegasse.

Naquela noite não disse nada a ninguém.

Não havia ninguém a quem dizer.

* * *

Voltou dois dias depois, antes do anoitecer.

Pegou o celular com a bateria carregada e caminhou pela trilha com a atenção diferente de quem já sabe o que está procurando — embora não soubesse ainda o que estava procurando de verdade.

O monolito estava onde havia estado sempre. A grande árvore ao lado — Pedro percebeu, pela primeira vez, o tamanho real daquela árvore colossal. O tronco tinha uma circunferência que dois ou três homens de braços abertos não dariam conta de abraçar. A casca era rugosa, escurecida pelos séculos, com sulcos profundos como cicatrizes muito antigas. As raízes saíam da base como contrafortes, como se a terra precisasse de ancoragem extra para segurar aquilo.

Pedro acendeu a lanterna do celular.

Entre o tronco e a face do monolito havia um espaço — não uma abertura, não uma porta, nada que chamasse atenção. Uma fresta. O ponto onde a madeira e a pedra haviam crescido uma em direção à outra durante séculos e chegado a um acordo tácito: ficar a uns sessenta centímetros de distância, nem mais nem menos.

A luminosidade vinha de dentro dessa fresta.

Pedro se posicionou de lado, encostou as costas na pedra, e entrou.

* * *

A passagem era estreita nos primeiros metros — espaço para um corpo virado de lado, a pedra fria do granito de um lado, a casca áspera do jequitibá do outro. Depois de menos de dois metros descendo numa inclinação suave, a passagem se abriu.

Pedro parou.

A lanterna alcançava uns oito metros à frente. Além disso, escuridão — não paredes, não teto, não chão visível. A caverna continuava além do alcance da luz, e aquela escuridão era a escuridão das coisas que nunca viram claridade.

Avançou devagar, prestando atenção no chão de pedra lisa sob os pés. A inclinação continuava — suave, constante. A temperatura caía conforme descia. O ar era frio e, estranhamente, fresco — não o ar parado das cavernas fechadas, mas ar com movimento, como se a caverna respirasse por alguma abertura que Pedro não conseguia localizar.

O som chegou antes da imagem: o gotejamento regular de água caindo sobre água.

O laguinho estava numa câmara que a caverna formava naturalmente. Era pequeno — uns dois metros de diâmetro, não mais. A água caía do teto em fios finos e regulares, como se a pedra transpirasse com método. O fundo era pedra clara, quase translúcida.

Pedro apagou a lanterna do celular.

Não ficou escuro.

O laguinho continuava visível. Era a fonte de luz de toda aquela câmara — uma luminescência que subia da água sem calor, sem oscilação, sem nada que Pedro conseguisse reconhecer. Não havia organismos visíveis. Não havia fonte externa. Era a água sendo luminosa.

Pedro ficou parado por um tempo que não soube medir.

Depois reacendeu a lanterna e procurou o resto.

* * *

O laguinho tinha um vertedor natural na borda — uma abertura estreita por onde a água escorria para mais fundo. Pedro iluminou para dentro. Via alguns metros de canal escavado na pedra, depois curva, depois nada.

Não foi por ali.

Havia outra abertura na parede lateral da câmara. Pedro entrou.

* * *

O salão era comprido e baixo — teto a uns dois metros e meio, paredes de granito bruto, chão plano. Nas paredes, dos dois lados, prateleiras escavadas na própria rocha — recuos regulares, paralelos, como se alguém tivesse retirado a pedra em camadas horizontais precisas para criar espaços de armazenamento. Pedro passou a lanterna de uma extremidade à outra. Havia mais de trinta metros de prateleiras de cada lado.

Todas com livros.

Não eram livros modernos. Volumes com capas de material que Pedro não soube nomear — não couro, não tecido, não papel. Algo entre os três, com textura que parecia antiga sem parecer frágil. Pegou um. O peso era menor do que esperava. Abriu.

As páginas se iluminaram.

Não com força — com a luminosidade suficiente para ler, como se o papel soubesse para que servia e resolvesse cooperar. Pedro olhou para os símbolos nas páginas iluminadas.

Não eram letras. Não eram ideogramas. Não eram nada que remetesse a nada.

Fechou o livro. A luz das páginas se apagou. Abriu outro. As páginas se iluminaram.

Tirou a garrafa d'água do bolso e colocou algumas gotas sobre uma página aberta. As gotas escorregaram da superfície como se a página fosse vidro. Não deixaram marca. A página estava seca antes que Pedro guardasse a garrafa.

Entre os livros, nas prateleiras, havia outros objetos.

Peças de formatos sem nome imediato — não ferramentas, não recipientes, não ornamentos, nada que o cérebro classificasse em dois segundos. Num deles ficou mais tempo: um objeto longo, fino, levemente curvo, de material que parecia nem pedra nem metal nem osso mas tinha propriedades dos três. Pesava errado — mais leve do que aparentava, ou mais pesado. Não dava para decidir. Seus sentidos falhavam.

Ficou no salão por um tempo.

Depois voltou pelo mesmo caminho, pela câmara do lago, pela passagem estreita, pela fresta entre o jequitibá e o granito, pela trilha, pela Rua Bela Floresta, para casa.

* * *

Naquela noite pesquisou a Reserva. Depois pesquisou as espécies de árvores nativas da Mata Atlântica. Encontrou um artigo da Fiocruz de outubro de 2025, com foto: um jequitibá-rosa identificado no interior da Reserva. Era exatamente igual ao que ele encontrara. Quarenta metros de altura. Sete metros de circunferência. Quinhentos anos de idade.

Leu que a espécie praticamente se esconde no ambiente em que habita.

Havia passado por ele dezenas de vezes.

Não tinha visto.

* * *

Voltou no dia seguinte. E no dia depois. E no seguinte.

Nos primeiros dias carregava apenas o celular. Depois comprou uma pequena lanterna portátil. Depois passou a carregar uma mochila leve — bateria extra, garrafa d'água, bloco de notas. Fotografou cada prateleira. Cada lombada. Cada objeto. Fotografou os símbolos das páginas em dezenas de livros, centenas de páginas, com luz artificial e com as páginas iluminadas, de ângulos diferentes, com e sem flash.

Submeteu as imagens às melhores inteligências artificiais disponíveis.

O resultado nunca era o mesmo. Uma encontrava estrutura, gramática, sintaxe — uma língua real, sem paralelo em nada já decifrado desde os sumérios. Outra via apenas ruído: os padrões que a mente impõe ao acaso quando precisa de sentido. Uma terceira não se comprometia.

Depois pesquisou a caverna.

Contatou o Instituto administrador da Reserva. Consultou órgãos de geografia estadual e federal. Procurou registros das tribos que habitaram o maciço antes da colonização. Leu tudo que havia sobre a geologia do granito precambriano, sobre as cavernas documentadas — havia apenas uma, a Caverna Carlos Bandeira, trinta metros de extensão, nada de luminescência, nada de biblioteca.

Silêncio absoluto. A caverna nunca havia sido documentada, nunca registrada, nunca mencionada em lugar algum. As tribos brasileiras não tinham linguagens escritas. A biblioteca não vinha delas. E aquilo não era indígena, não era colonial, não era de nenhuma civilização que a humanidade houvesse catalogado nos cinco mil anos em que tentou catalogar civilizações.

Havia naquele lugar alguma coisa que só ele sabia. Não havia uma pessoa no mundo que soubesse o que ele sabia — nem os filhos, nem os médicos, nem os antigos colegas de agência que ainda mandavam mensagem em grupo sobre nada. A caverna era a primeira coisa na vida de Pedro que pertencia inteiramente a ele. Não a uma campanha, não a um cliente, não a um casamento, não a uma empresa.

A ele.

Num dia percebeu que havia saído de casa exclusivamente para ir até a caverna.

* * *

Num fim de tarde, sentado à mesa da cozinha enquanto observava a Rua Bela Floresta desaparecer lentamente atrás das árvores, Pedro percebeu que não queria mais carregar aquilo sozinho. Pegou o telefone e ligou para Clara. Pensou em desligar antes que ela atendesse.

Não desligou.

Encontraram-se dois dias depois num café da Gávea.

Clara chegou alguns minutos antes do horário combinado. Pedro a viu através da vitrine, sentada perto da janela, observando o movimento da rua com a mesma atenção tranquila de quem passou trinta anos decidindo, num relance, o que numa imagem era verdade e o que era truque.

Mostrou as fotografias sem introduções.

Clara passou as imagens devagar, uma após a outra. Parava, ampliava detalhes, voltava para fotografias anteriores e permanecia alguns segundos em silêncio antes de seguir adiante. Demorou-se especialmente nas páginas iluminadas, depois nos objetos, voltando por fim aos símbolos.

— Não parece inventado.

Pedro não respondeu.

— Não estou dizendo que compreendo o que estou vendo. Estou dizendo que existe consistência.

Continuou observando as imagens.

— Os padrões se repetem. Há estrutura. Há uma lógica interna. Seja lá o que for isso.

Ergueu os olhos.

— Onde fica?

Pedro contou — a trilha, o monolito, o jequitibá, a passagem escondida entre a pedra e o tronco, o lago luminoso e a biblioteca. Clara ouviu tudo sem interromper e, quando ele terminou, permaneceu alguns instantes olhando para a mesa.

— Quero ver.

Pedro assentiu.

— Antes disso, preciso te contar outra coisa.

Falou do câncer com a mesma objetividade com que havia descrito a caverna. Fígado. Possíveis metástases. Exames de rotina. Não havia contado aos filhos.

Clara ouviu em silêncio. Quando ele terminou, ela permaneceu algum tempo observando a xícara entre as mãos.

— Há quanto tempo você sabe?

— Alguns meses.

Ela assentiu devagar.

— E está carregando tudo isso sozinho?

Pedro deu de ombros.

A pergunta parecia servir igualmente para a doença e para a biblioteca.

Foram à Reserva na manhã seguinte.

Pedro caminhou na frente. Enquanto avançavam pela trilha, falou sobre o jequitibá — os quinhentos anos de idade, os sete metros de circunferência, o artigo da Fiocruz que encontrara semanas antes. Clara observava mais do que perguntava.

Quando chegaram ao monolito, Pedro sentiu imediatamente a ausência.

A claridade não estava ali.

Mesmo assim aproximou-se da fresta e entrou entre a pedra e o tronco. Encontrou apenas granito, raízes e terra compactada. Nada além disso. Saiu alguns segundos depois.

Clara aproximou-se, examinou a base da árvore, passou a mão pela pedra e observou demoradamente o espaço estreito entre as duas superfícies. Depois entrou e, quando voltou, limitou-se a balançar a cabeça.

Ficaram algum tempo em silêncio. A mata já começava a escurecer com a chegada do fim da tarde, e Pedro continuava olhando para a fresta como quem espera que uma explicação apareça atrasada.

Ela não apareceu.

— Eu acredito em você — disse Clara.

Pedro não respondeu.

Não era isso que ele precisava ouvir.

* * *

Voltou sozinho dois dias depois.

A claridade estava lá.

Desceu pela passagem, atravessou a câmara do lago luminoso e chegou ao salão. A biblioteca permanecia exatamente como a encontrara pela primeira vez. As prateleiras escavadas na pedra. Os volumes alinhados. O silêncio.

Escolheu um livro ao acaso e o abriu. As páginas iluminaram-se.

Ficou.

Os símbolos continuavam ilegíveis — nada ali entrava pelos olhos, nada se deixava ler. Mas alguma coisa o atravessou enquanto permanecia parado com o livro aberto. Não uma frase, não uma imagem, não palavra alguma. Algo anterior à palavra, sem forma que a mão pudesse copiar ou a boca repetir. Esteve inteiro por um instante. Depois escorreu, como escorre o conteúdo de um sonho no momento exato em que se tenta contá-lo.

Tentou segurar. Não havia o que segurar.

Fechou o livro e ficou sentado por algum tempo ouvindo a água escorrer em algum ponto distante da caverna.

Voltou para casa antes do escuro.

Naquela noite sentou-se à mesa da cozinha com o caderno aberto à frente, sem intenção definida. A mão começou a escrever antes que ele decidisse escrever.

Já percebem a própria consciência em si, mas ainda estão longe de saber de onde vem o observador que a contempla...

A frase parou ali. Era a letra dele. A origem, não. Não tinha lido aquilo em lugar nenhum, não lembrava de ter pensado naquilo. A coisa que o atravessara na caverna, sem forma nem som, tinha encontrado as palavras só agora — na mão, não na cabeça.

Clara não tinha visto nada.

* * *

Clara ligou uma semana mais tarde, perguntou pelos exames e pela trilha. Pedro respondeu pouco, como sempre fazia, mas respondeu. Depois vieram outras conversas. Algumas sobre a Reserva. Outras não. Nenhuma delas pareceu importante naquele momento.

* * *

Duas semanas depois retornaram à Reserva.

A claridade não apareceu.

A passagem permaneceu fechada.

Pedro observou durante alguns instantes o espaço entre o jequitibá e o granito, enquanto Clara observava Pedro com a atenção silenciosa de quem procura compreender algo que talvez não possa ser compreendido. Depois voltaram pela trilha quase sem conversar — o som dos próprios passos pareceu suficiente para os dois.

* * *

Voltou sozinho dois dias depois. A claridade estava lá.

Desceu até o salão. Escolheu outro volume. As páginas iluminaram-se.

A mesma coisa o atravessou. Ou outra — não havia como saber, porque o que chegava não deixava forma suficiente para comparar com o que tinha chegado antes. Apenas a certeza, enquanto durava, de que algo havia sido dito. E depois o silêncio de quem tentou segurar água com as mãos abertas.

Já não levava o bloco de notas para a caverna. Tinha entendido que ali não havia o que anotar — que o registro, quando vinha, vinha depois, em casa, e não dependia dele.

Pedro fechou o livro e permaneceu algum tempo sentado no chão.

Naquela noite a mão escreveu de novo.

Ainda estão no início da construção de um livre arbítrio real...

A frase interrompeu-se ali, como a outra. Pedro olhou para o caderno e voltou a fechá-lo. Já não tentava entender de onde vinha. Já não tinha a mesma urgência de entender coisa alguma.

* * *

Nos meses seguintes continuou indo quase todos os dias à Reserva. Sozinho, sempre. A caverna continuava aparecendo apenas para ele. As visitas permaneciam solitárias: a descida pela passagem, o tempo parado diante dos livros, o retorno para casa.

Em algumas noites a mão ainda escrevia. Frases curtas, interrompidas, sempre no meio de algo maior. A última delas foi:

Ainda separam o tempo do espaço, e a si mesmos daquilo que são...

Depois disso, nas noites em que se sentava à mesa e abria o caderno, a folha continuava em branco.

A trilha era a mesma. O corpo, não.

* * *

Clara ligou para Daniela numa tarde.

Não disse tudo. Disse o suficiente.

Daniela chegou numa quinta-feira. Gabriel dois dias depois. Pedro estava na cozinha quando Daniela entrou — ficaram um instante sem saber bem o que fazer, e depois o abraço aconteceu.

Nos dias que se seguiram, Pedro cozinhou com os filhos, riu de histórias antigas, pareceu — pela primeira vez em muito tempo — inteiramente presente.

Não voltou à caverna.

Pedro estava presente.

* * *

Pedro acordou enquanto os dois filhos ainda dormiam e ficou um momento deitado ouvindo o silêncio da casa — aquela qualidade de silêncio que só existe quando há outras pessoas dormindo — antes de se levantar e ir para a cozinha, onde começou a preparar o café da manhã sem pressa, colocando o café no coador, cortando as frutas devagar sobre a tábua de madeira, abrindo a cesta do pão, e enquanto o aroma do café tomava o ambiente foi organizando a mesa com o cuidado de quem tem tempo de sobra: os pratos no lugar certo, as xícaras viradas para cima ao lado das colheres, a manteiga, o mel que sabia que Daniela gostava desde pequena e que havia comprado especialmente quando os filhos chegaram.

Quando tudo estava pronto serviu a própria xícara e ficou em pé ao lado da janela bebendo devagar, olhando a Rua Bela Floresta ainda quieta lá fora, e quando terminou lavou a xícara e a deixou secando ao lado da pia, enxugou as mãos no pano de prato, foi ao quarto e tirou a mochila do gancho onde sempre ficava — bateria extra, garrafa d'água, os mesmos itens de sempre — ajustou a alça com o gesto de quem não precisa mais pensar naquilo e saíu da casa deixando a mesa posta para os filhos que ainda dormiam.

Caminhou pela Rua Bela Floresta com o passo tranquilo de quem conhece cada irregularidade do calçamento, entrou na trilha onde a mata foi fechando a copa sobre a cabeça e a luz foi mudando de qualidade, o verde escurecendo aos poucos, a temperatura caindo um grau ou dois como sempre caía naquele trecho, e foi chegando ao jequitibá pelo caminho que havia feito centenas de vezes — os contrafortes que saíam da terra como âncoras, a casca escurecida pelos séculos, os sulcos que Pedro conhecia de cor — e apoiou a mochila na base do tronco entre as raízes, como sempre fazia.

A fresta entre o tronco e o granito estava aberta.

Pedro encostou as costas na pedra e entrou.

* * *

Sob o silêncio da maior floresta urbana do mundo.

 

Edmir Saint-Clair

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O CHARUTO APAGADO

O CHARUTO APAGADO

 

A porta tinha marcas de três mundos diferentes.

As mais antigas eram da facção — quando os rapazes vieram cobrar uma dívida que não era de Neyla, mas a dívida não sabia disso. Depois vieram as da polícia, numa batida de madrugada. E, entre umas e outras, as de Julião — três, talvez quatro vezes, em diferentes estados de fúria.

Nenhum dos três havia perguntado se ela permitia a entrada.

Neyla se olhou no espelho enquanto esperava o filho. O olho direito quase fechado. O lábio partido. Na sala, Raylane dormia no sofá com o gesso na perna, a respiração pequena e regular.

Maicon chegaria a qualquer momento.

Julião aparecia quando bem entendia. Não havia aviso — havia, de repente, o barulho de alguém com as chaves na fechadura, mesmo quando ele não tinha mais chaves e precisava arrombar. Chegava com a roupa de quem dormira em qualquer lugar, varava o dia na cama, acordava para beber. Em casa, a voz crescia até o ponto que todos ali sabiam de cor.

Na rua, calado como qualquer pessoa.

Eram a segunda família. A filial, diziam os vizinhos. Mas a segunda família não recebia menos pancadas — e aprendera que contestar doía mais do que ceder.

Raylane era filha de uma noite em que Neyla havia dito não.

Era o segundo mês de Maicon no caixa do supermercado. O primeiro salário havia terminado nas mãos do pai, que revirou as coisas da mãe até encontrar. O segundo ainda estava no próprio bolso quando entrou e viu o estado em que o rosto de Neyla estava.

Fechou as mãos. Socou a própria cabeça.

Neyla o abraçou. Choraram juntos sem falar — o tipo de choro que já passou do ponto em que palavras ajudam. Maicon tirou a mochila das costas, deixou no sofá rasgado, deu um beijo no rosto da mãe e saiu pela porta.

Sem deixar o dinheiro.

Ela tentou segurá-lo pela camisa. Não conseguiu. Havia nele algo que ela não reconhecia — o corpo duro, o olhar esvaziado de vida. Aquele filho que ela conhecia de cor estava, naquele momento, inacessível.

A porta fechou.

Mãe Cecília apareceu antes que o barulho dos passos de Maicon se apagasse na escada.

A vizinha era pequena, as mãos grandes de quem trabalha com ervas há mais tempo do que a maioria das pessoas naquele bairro havia vivido — a mesma que o tráfico havia proibido de fazer seus rituais, por determinação do pastor evangélico que agora proibia os cultos afros na comunidade. Não perguntou nada. Entrou, olhou para o rosto de Neyla, e colocou a compressa fria no lado do olho inchado com a precisão de quem sabe exatamente onde a dor mora.

Ficou em silêncio enquanto Neyla segurava a compressa. Antes de sair, parou na soleira e olhou para a porta marcada — as cicatrizes antigas da madeira, as voltas frouxas da fechadura. Depois olhou para Neyla.

— Vai rezar — disse. Não era conselho. Era instrução.

Saiu sem mais nada.

O Complexo não dormia.

Em dezembro, menos ainda. As vielas tinham cheiro de churrasco e lona molhada, de cerveja e perfume baratos, de esgoto e fritura — o cheiro que é de todo lugar e de nenhum outro ao mesmo tempo. Nas janelas abertas, pagode, funk e evangélico disputavam o ar sem que ninguém ganhasse. Dois homens conversavam encostados no muro, copos na mão, relaxados, como se o mundo estivesse em ordem.

O mundo estava em ordem.

Era apenas a ordem dali — tão absurda quanto a de qualquer outro lugar da cidade.

Maicon conhecia cada palmo daquelas vielas. Havia crescido ali. Sabia quais esquinas eram das igrejas e quais eram do tráfico — e sabia que a distância entre umas e outras era de dez metros, às vezes menos. Normal. A Igreja havia convertido todo o comando do tráfico naquela comunidade.

Foi pelos fundos.

A raiva não era barulhenta. Era densa — um corpo dentro do corpo. Não pensava em Julião. Já havia passado disso. Caminhava com o olhar fixo em nada, vendo tudo, processando apenas o que precisava: o próximo passo, a próxima viela, o próximo rosto. Só pensava que aquela fora a última vez que suportaria a imagem de sua mãe apanhando.

Os rostos foram aparecendo.

Os aviõezinhos primeiro — meninos de doze, treze anos, nos mesmos postes de sempre, com os mesmos tênis novos que eram o único luxo que aquele serviço pagava. Olharam para Maicon com o reconhecimento vago de quem vê alguém que já foi dali. Ele passou sem parar.

Mais fundo.

As vielas iam ficando mais estreitas, as paredes mais úmidas, os cheiros mais fortes e a luz das janelas mais escuras. O pagode ficou para trás. O funk sumiu. O que sobrou foi o som do próprio passo e o zumbido distante de algum gerador. E os rapazes, cada vez mais velhos, fumando e cheirando seus produtos, e pesadamente armados.

Na viela que subia para o QG no mirante, havia também policiais fardados completamente à vontade e integrados ao bando. Confraternizavam, fumavam e cheiravam os mesmos produtos. Ninguém os olhava diferente.

A mesma farda que havia arrombado a porta de Neyla de madrugada.

Maicon passou sem olhar.

Aquelas imagens tiraram qualquer dúvida que ainda lhe restava.

— Preciso de um ferro.

O homem olhou. Não demorou.

O segundo salário passou de uma mão para outra debaixo de uma lâmpada que mal funcionava. O que veio em troca era pequeno, o pesado frio do aço de um 38.

Maicon voltou pelas vielas sem olhar para os lados. Atrás dele, o Complexo continuava intacto — as crianças, o churrasco, o pagode, os evangelhos, a bola de plástico boiando na vala. Tudo funcionando, tudo em ordem, cada coisa no seu lugar.

Era esse o absurdo.

Não havia nada fora do lugar.

Subiu as escadas de volta para casa.

Em casa, Neyla acendeu a vela e ajoelhou.

Não havia número para ligar. A polícia que havia arrombado aquela porta de madrugada não era uma polícia a quem se pede socorro. Não havia parente, vizinha, assistente social, fila para enfrentar, formulário para preencher.

Então rezou.

Rezou com a fé que é o último recurso de quem não tem nenhum outro.

Quando Julião voltou bêbado e se jogou na cama sem emitir mais que um grunhido, ela não se levantou.

Trancou a porta com todas as voltas que a fechadura ainda era capaz de dar — não muitas, depois de tudo que aquela madeira tinha aguentado — e guardou as chaves nos seios.

Continuou ajoelhada, diante da imagem da santa e da vela acesa.

O chute de Maicon soou como todos os outros chutes que aquela porta havia recebido.

A madeira cedeu.

Ele entrou com a arma engatilhada e foi direto para o quarto. Neyla o interceptou a poucos passos da porta do quarto. Os dois olharam para a cama ao mesmo tempo.

Julião estava mumificado. A pele colada aos ossos, os lábios retraídos, o rosto congelado em algo que não era expressão — era a ausência de tudo que havia sido retirado. Como se a última imagem houvesse arrancado mais do que a alma.

O cheiro do charuto apagado ao lado do corpo impregnava todo o ambiente, como se dissesse: estive aqui.

Não havia mais ninguém no quarto.

Edmir Saint-Clair

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Poesia 

É PERMITIDO

 É PERMITIDO
É permitido andar descalço, sem camisa , 

pisar na grama e rolar de rir sem motivo nenhum

É permitido andar nas nuvens,  Viver no mundo da lua,

Pensar na morte da bezerra  e sonhar acordado

                E pode contar estrelas à vontade...

É permitido chorar de tristeza, de alegria, de amor, 

   e De saudade,

 Ou por qualquer outra emoção, 

  Inclusive, que não sejam as suas próprias,


É permitido morrer de paixão todas as vezes 

que o mundo acabar,

porque amar se aprende amando, vivendo e sentindo,

intensamente, 

cada gota de vida que ele nos traz. 

O amor sempre nos faz mais vivos que nunca.

É permitido errar, pedir perdão, perdoar e viver em paz,

É permitido viver como você mesmo, ser quem quiser ser,

 seja lá quem você for, ou, simplesmente deseja ser 


É permitido amar, odiar, compreender, não compreender, 

ser feliz e infeliz. 

Porque Infelizmente, isso a gente não escolhe,

                                       Depende de tantas coisas... 

Não depende só da gente,

Por isso, é permitido morrer, 

Porque o contrário de viver não é morrer,

o contrário de viver é não amar a vida.


   – Edmir Saint-Clair

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Poesia 

DENTRO DE MIM

DENTRO DE MIM

Dentro de mim tem meu quarto

Nele minha casa,

Na minha casa tem a minha rua,

Nela muitas avenidas,

Nas avenidas está meu bairro,

Dentro dele minhas cidades

Nessas cidades existem muitos países,

Dentro de cada um mundos inteiros.

E neles, todo o universo.

Dentro de mim.

- Edmir Saint-Clair

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Crônicas  Memórias 

O PRIMEIRO ROCK'N RIO - 1985 -

O PRIMEIRO ROCK'N RIO - 1985 -
Janeiro de 1985. Verão quente, ano novinho em folha e o maior festival de Rock de todos os tempos há pouco mais de uma hora de distância de pular do meu mais improvável sonho para o maior palco que eu já havia visto na minha frente.

Uma linha especial de ônibus foi criada, exclusivamente, para levar o público do festival, coletando-o a partir de vários pontos determinados do Rio de Janeiro.

Eu e uma galera gigante do Leblon, terminamos de lotar um dos ônibus logo no primeiro ponto. A tensão, a expectativa e a proximidade de algo tão especial gerava o tipo de ansiedade mais saudável que existe, aquela que nos faz entender totalmente a expressão "rindo à toa".  No ônibus cheio, os sorrisos à mostra eram tão evidentes, que a impressão é que alguém contou uma hilária e interminável piada. Qualquer movimento virava motivo para uma gargalhada.

Chegamos ao local do festival ainda dia claro, poucos minutos antes dos portões serem abertos. Todos os dias o ritual era o mesmo. Os portões se abriam, passávamos pelas roletas e pela revista da segurança, que só estava interessada em coibir armas e objetos metálicos.

Cigarros podiam, de todos os tipos.

O pôr do sol foi deslumbrante, com ultraleves voando por sobre um público jovem e absolutamente extasiado diante da grandiosidade de tudo em volta. A paisagem, o sol se pondo nas montanhas da cidade maravilhosa e os primeiros acordes da música tema do festival tocando numa altura e qualidade de som que o Brasil nunca havia ouvido.

"Todos numa direção, numa só voz, numa canção

Todos num só coração, num céu de estrelas...

Se a vida começasse agora, se o mundo fosse nosso de vez,

Se a gente não parasse mais de sonhar...de cantar....de viver."

E todos cantavam com a propriedade contagiante e autêntica dos jovens dos anos 1970 e 80, que viviam numa cidade que desejava Paz e Amor e acreditava nisso, por mais ingênuo que, hoje, isso possa parecer.

E, foi nesse clima que assisti a um show mágico e maravilhoso do cantor James Taylor, num sábado ainda sem chuva, num céu completa e absurdamente estrelado, sentado ao lado de dezenas de amigos que ouviram aquelas mesmas músicas, comigo, nas festinhas de adolescentes. Foi um dos shows mais emocionantes que já presenciei.

Aquela noite, houve uma catarse gigante entre o público e um James Taylor extasiado diante de 250 mil pessoas que cantavam junto suas músicas. Ele estava vindo de um período de declínio acentuado na carreira, e naquela noite, aconteceu sua redenção.

 O sucesso daquela apresentação teve uma repercussão tão grande e impressionante que impulsionou novamente sua carreira, e ele sentiu isso ainda no palco, durante a apresentação.

E externou essa emoção através da sua arte, presenteando o público com uma apresentação emocionada, emocionante e perfeita, e muito mais longa do que o que estava previsto.

Tocou e cantou com o entusiasmo de um iniciante, todos os seus grandes sucessos, não faltou nenhum.

 O que se passou foi sublime, uma poesia em forma de vida.

Público e artista vivendo, durante mais de duas horas e meia, a mesma intensidade de emoções que ficaria, para sempre, na história de ambos.

O primeiro Rock in Rio me presenteou, ainda, com um show inesquecível da banda inglesa QUEEN, onde foi feita a histórica filmagem do coro de mais de trezentas mil pessoas cantando a música “Love of My Life”, perpetuando aquele como um dos grandes momentos da carreira da Banda e do lendário Fred Mercury.

Presenciei ele, e todos os músicos da banda QUEEN, ficarem em absoluto estado de graça e completamente extasiados com o que estavam assistindo. A emoção deles era visível. 

Eu vi, estava lá e cantei junto.

E, no último dia, assisti, pela primeira vez, a banda que mais toca a minha alma: a lendária banda inglesa YES. A emoção mágica que senti vendo aquela apresentação incrível e deslumbrante, permanece até hoje.

Foi perfeito para fechar o último dia do maior festival de Rock de Todos os Tempos.

Essa é a minha parte da história de um Festival que ficou para a história de muitas e muitas gerações e virou uma lenda no mundo inteiro.

Edmir Saint-Clair

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            Recebi várias manifestações com relação a crônica

"O Primeiro Rock in Rio - 1985",

todas tão cheias de lembranças intensas quanto as minhas.

Aqui, uma edição com imagens da época e a música tema.

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Contos  Fantástico Carioca 

GUARDE EM LOCAL SEGURO

GUARDE EM LOCAL SEGURO

 

O médico falou por quase dez minutos. Pedro e Carolina ouviram sem interromper.

Noah tinha dois anos e meio. A infecção nas meninges resistia ao quarto antibiótico. Uma criança não aguenta muito tempo.

— Ele está sem febre agora e acabou de acordar perguntando por vocês. Podem vê-lo, mas não o deixem se agitar. Está muito debilitado.

Ficaram com o filho até ele adormecer. Depois saíram.

Na garagem do prédio, Pedro desligou o motor e ficou com as mãos no volante, olhando para o concreto escuro. Carolina estava ao lado, a bolsa ainda no colo, os olhos fixos em nada.

Ninguém falou.

O choro veio devagar, como se precisasse de permissão. Primeiro dela — um soluço contido que tentou engolir e não conseguiu. Depois dele, mais fundo, o tipo de choro que um homem carrega anos sem soltar. Se abraçaram ali mesmo, no banco dianteiro, sem sair do cinto, e choraram até se esgotarem.

Quando conseguiu respirar sem tremer, Carolina limpou o rosto com força.

— Você demorou demais pra levar ele no hospital.

Pedro soltou as mãos do volante devagar.

Ela fechou os olhos na mesma hora, arrependida. Mas a frase já estava no carro.

Lá em cima, o apartamento os esperava com a árvore de Natal que haviam montado três semanas antes, quando Noah ainda corria pela sala.

Subiram. Tomaram banho, trocaram de roupa, não comeram. O médico havia prescrito calmante. Tomaram o dobro.

Não estavam em condições de dirigir. Carolina pediu um carro pelo aplicativo.

O interfone tocou enquanto esperavam o elevador. Pedro olhou para ela. Ela já sabia.

O motorista era um homem de meia-idade, comum. Tão comum que os dois esqueceriam seu rosto antes mesmo da corrida terminar. Não disse nada quando entraram. Seguiu pela Lagoa, depois pelo Aterro, o Rio em véspera de Natal passando pela janela como alguma coisa acontecendo do lado de fora da vida deles — as luzes nas árvores, grupos na calçada, um casal discutindo num sinal fechado enquanto uma menina dormia no colo do pai. A cidade inteira continuando.

O motorista parou em frente ao hospital. Abriu o porta-luvas, retirou um recipiente de cristal, quase translúcido, e estendeu o braço para o banco de trás sem se virar.

— Cole na parte de trás da orelha do Noah. Deixe por seis minutos. Depois retire e guarde em local seguro.

Pedro pegou o recipiente.

Silêncio.

— Como o senhor sabe o nome dele? — Carolina perguntou.

O motorista não respondeu.

Pedro chegou a tocar a maçaneta, mas hesitou.

Por um segundo absurdo, teve medo de perguntar qualquer coisa e perder aquilo.

Saíram.

Quando se viraram, o carro não estava mais lá.

O desespero acredita em tudo.

O médico os recebeu no corredor com a expressão de quem já havia escolhido as palavras com cuidado. A febre havia voltado. Ele começava a ceder. Permitiu que entrassem no CTI.

Noah dormia cercado de aparelhos. Dois anos e meio. O corpo tão pequeno que a cama parecia engoli-lo.

Pedro e Carolina sentaram cada um de um lado.

Ela abriu a mão sem olhar para ele.

Pedro não entregou o cristal imediatamente.

Ficou segurando o recipiente entre os dedos, olhando para o filho, como se ainda procurasse alguma parte racional do mundo onde aquilo não fosse ridículo.

— Pedro.

Ele soltou o ar devagar e colocou o recipiente na mão dela.

Carolina segurou o cristal por um momento. Depois retirou o adesivo com a ponta dos dedos, com o cuidado de quem manuseia algo sagrado ou algo perigoso — ela mesma não saberia dizer qual dos dois — e fixou-o na parte de trás da orelha esquerda de Noah.

Começaram a contar.

A cortina estava fechada. Os aparelhos faziam seu barulho regular, aquele som que a gente aprende a odiar em três dias de hospital. Lá fora, alguém caminhava pelo corredor sem pressa nenhuma.

No quarto minuto, Carolina teve vontade de arrancar aquilo da pele do filho.

No quinto, Pedro começou a acreditar.

Seis minutos é muito tempo quando você está segurando o mundo com as mãos.

Edmir Saint-Clair

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