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Contos Fantástico Carioca

GUARDE EM LOCAL SEGURO

 

O médico falou por quase dez minutos. Pedro e Carolina ouviram sem interromper.

Noah tinha dois anos e meio. A infecção nas meninges resistia ao quarto antibiótico. Uma criança não aguenta muito tempo.

— Ele está sem febre agora e acabou de acordar perguntando por vocês. Podem vê-lo, mas não o deixem se agitar. Está muito debilitado.

Ficaram com o filho até ele adormecer. Depois saíram.

Na garagem do prédio, Pedro desligou o motor e ficou com as mãos no volante, olhando para o concreto escuro. Carolina estava ao lado, a bolsa ainda no colo, os olhos fixos em nada.

Ninguém falou.

O choro veio devagar, como se precisasse de permissão. Primeiro dela — um soluço contido que tentou engolir e não conseguiu. Depois dele, mais fundo, o tipo de choro que um homem carrega anos sem soltar. Se abraçaram ali mesmo, no banco dianteiro, sem sair do cinto, e choraram até se esgotarem.

Quando conseguiu respirar sem tremer, Carolina limpou o rosto com força.

— Você demorou demais pra levar ele no hospital.

Pedro soltou as mãos do volante devagar.

Ela fechou os olhos na mesma hora, arrependida. Mas a frase já estava no carro.

Lá em cima, o apartamento os esperava com a árvore de Natal que haviam montado três semanas antes, quando Noah ainda corria pela sala.

Subiram. Tomaram banho, trocaram de roupa, não comeram. O médico havia prescrito calmante. Tomaram o dobro.

Não estavam em condições de dirigir. Carolina pediu um carro pelo aplicativo.

O interfone tocou enquanto esperavam o elevador. Pedro olhou para ela. Ela já sabia.

O motorista era um homem de meia-idade, comum. Tão comum que os dois esqueceriam seu rosto antes mesmo da corrida terminar. Não disse nada quando entraram. Seguiu pela Lagoa, depois pelo Aterro, o Rio em véspera de Natal passando pela janela como alguma coisa acontecendo do lado de fora da vida deles — as luzes nas árvores, grupos na calçada, um casal discutindo num sinal fechado enquanto uma menina dormia no colo do pai. A cidade inteira continuando.

O motorista parou em frente ao hospital. Abriu o porta-luvas, retirou um recipiente de cristal, quase translúcido, e estendeu o braço para o banco de trás sem se virar.

— Cole na parte de trás da orelha do Noah. Deixe por seis minutos. Depois retire e guarde em local seguro.

Pedro pegou o recipiente.

Silêncio.

— Como o senhor sabe o nome dele? — Carolina perguntou.

O motorista não respondeu.

Pedro chegou a tocar a maçaneta, mas hesitou.

Por um segundo absurdo, teve medo de perguntar qualquer coisa e perder aquilo.

Saíram.

Quando se viraram, o carro não estava mais lá.

O desespero acredita em tudo.

O médico os recebeu no corredor com a expressão de quem já havia escolhido as palavras com cuidado. A febre havia voltado. Ele começava a ceder. Permitiu que entrassem no CTI.

Noah dormia cercado de aparelhos. Dois anos e meio. O corpo tão pequeno que a cama parecia engoli-lo.

Pedro e Carolina sentaram cada um de um lado.

Ela abriu a mão sem olhar para ele.

Pedro não entregou o cristal imediatamente.

Ficou segurando o recipiente entre os dedos, olhando para o filho, como se ainda procurasse alguma parte racional do mundo onde aquilo não fosse ridículo.

— Pedro.

Ele soltou o ar devagar e colocou o recipiente na mão dela.

Carolina segurou o cristal por um momento. Depois retirou o adesivo com a ponta dos dedos, com o cuidado de quem manuseia algo sagrado ou algo perigoso — ela mesma não saberia dizer qual dos dois — e fixou-o na parte de trás da orelha esquerda de Noah.

Começaram a contar.

A cortina estava fechada. Os aparelhos faziam seu barulho regular, aquele som que a gente aprende a odiar em três dias de hospital. Lá fora, alguém caminhava pelo corredor sem pressa nenhuma.

No quarto minuto, Carolina teve vontade de arrancar aquilo da pele do filho.

No quinto, Pedro começou a acreditar.

Seis minutos é muito tempo quando você está segurando o mundo com as mãos.

Edmir Saint-Clair

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