—
Bom dia, Seu Tatá! — saudou o porteiro.
—
Bom dia, campeão!
É
assim que o Sr. Otávio é conhecido por todos naquele quarteirão de Copacabana:
Seu Tatá. Gozava da simpatia geral — dos vizinhos, dos ambulantes e dos
comerciantes, tanto os legalizados quanto os ilegais. Após o falecimento de
Dona Olinda, em vez de se isolar, passou a circular mais pelo bairro.
Conversava com todos. Mas o que poucos sabiam é que sua maior incentivadora
para seguir em frente morava dentro de um porta-retrato, sobre a mesinha de
cabeceira. Todas as vezes que se arrumava para sair, a imagem dela lhe mandava
um beijinho, deixando um leve rastro embaçado no vidro do porta-retrato, como
um sopro carinhoso.
Seu
Tatá não tinha filhos, morava sozinho e a aposentadoria lhe bastava. Contudo, o
fator determinante para sua recuperação após a viuvez foi o reencontro com a
fotografia mágica de Dona Olinda. A imagem não apenas começou a lhe enviar
mensagens, mas também a participar ativamente de cada nova descoberta em sua
vida. Antes mesmo de se aventurar pelas redes sociais, havia o ritual matinal
de escolher a roupa do dia. Seu Tatá exibia as opções em frente à mesinha de
cabeceira. Uma camisa excessivamente florida? A foto de Dona Olinda parecia
adquirir uma sutil sombra de desaprovação — e, às vezes, ela cruzava os braços
dentro da moldura. Uma camisa azul, sua cor predileta? O sorriso na fotografia
se alargava visivelmente, quase como um "Essa mesma, meu velho!", com
um leve inclinar de cabeça e o polegar levantado em aprovação. Outro evento
significativo foi o reencontro com amigos da juventude, ainda vivos, facilitado
pela filha de um vizinho, que o persuadiu a adquirir um notebook e criou perfis
para ele em todas as redes sociais. Tudo isso, naturalmente, com o incentivo
diário da foto de Dona Olinda. Sempre que o percebia animado, a imagem dela o
presenteava com um sorriso radiante, e um brilho sutil parecia cintilar em seus
olhos fotografados.
Ele
se deslumbrou com as novas possibilidades. Passava horas a fio procurando
antigos amigos, namoradas, conhecidos, recortes de jornais de época, vídeos
antigos e tudo o mais que compunha sua memória afetiva. Em algumas tardes,
viajava no tempo — ele e a fotografia de sua eterna companheira se divertiam
observando o efeito da passagem dos anos nos rostos dos amigos reencontrados no
Facebook.
Segundo
seu médico, Seu Tatá apresentava melhoras em todos os índices e marcadores que
os exames clínicos podiam revelar. Seu estado de espírito parecia ter sido
rejuvenescido, como se tivesse mergulhado na fonte da juventude. Para completar
o quadro de renovação, encontrou cinco amigos de longa data, ainda vivos,
através do Facebook, e que, para sua alegria, ainda residiam em Copacabana.
Passaram a se encontrar diariamente na praça do Bairro Peixoto, onde se
divertiam, jogavam cartas e compartilhavam memórias e vivências.
Seu
Tatá parecia ter retornado à juventude. Até o dia em que despertou com o ruído
de máquinas pesadas exatamente sob sua janela. Era no terreno ao lado, que
estava sendo preparado para ser um galpão de estacionamento. Ele suportou o
barulho por vários dias, embora aquilo o irritasse profundamente. Mas, o que
fazer? Ao menos, o incômodo cessava por volta das cinco horas da tarde. A foto
de Dona Olinda, habitualmente sorridente, já demonstrava impaciência com a
barulheira incessante; seu sorriso fotográfico parecia um pouco mais tenso a
cada dia de obra.
Até
o dia, ou melhor, a noite, em que a concretagem do piso estava em sua fase
final. Três máquinas, semelhantes às grandes enceradeiras domésticas de
outrora, invadiram a noite com seus ruídos, não excessivamente altos, mas
extremamente irritantes. Diariamente, Seu Tatá precisava remover a poeira fina
que a obra depositava sobre os móveis. Com especial atenção à fotografia da
amada. A imagem dela parecia ter alergia ao pó — dava uma discreta tremidinha
dentro do porta-retrato, como se segurasse um espirro iminente ou, por vezes,
franzisse o narizinho com evidente desagrado.
Quando
Seu Tatá despertou de um cochilo, por volta das oito horas da noite, as
máquinas ainda operavam, o que intensificou sua irritação. A foto de Dona
Olinda não estava para gracejos naquela noite; visivelmente contrariada, a boca
antes sorridente agora era uma linha reta e severa. Com certeza, aqueles
operários inconvenientes se estenderiam até as dez da noite com aquele barulho.
Se não parassem, ele acionaria a polícia. Afinal, para isso existia a Lei do
Silêncio – ao menos em sua época, existia, e as pessoas, assim como as obras,
respeitavam certas convenções de boa vizinhança. A foto no porta-retratos anuiu
prontamente, a cabeça da imagem parecendo inclinar-se minimamente em um gesto
afirmativo.
Às
dez e meia da noite, não havia qualquer sinal de que as máquinas seriam
desligadas. A essa altura, Seu Tatá estava profundamente irritado, sentindo uma
fúria que há muito não experimentava. Dona Olinda, por meio de sua expressão na
foto, sugeriu que ele chamasse a polícia; sua feição era de pura indignação.
Ele pegou o telefone, mas hesitou — achou que não adiantaria. A polícia
demoraria a chegar – se é que chegaria – e, até lá, os operários já teriam
encerrado o trabalho, tornando inúteis tanto a irritação do casal quanto o
chamado telefônico. Contudo, ele precisava fazer alguma coisa. Dona Olinda
concordou, mas fazer o quê? A foto sorriu com um brilho maroto nos olhos e
indicou a cozinha com um sutil movimento do queixo. Eles sempre se entenderam
pelo olhar.
Ele
foi até a geladeira, recordando-se de como era bom ter sido um moleque de
Copacabana. Dona Olinda conhecia bem o seu velho. A foto o apoiou com um
sorriso de canto de boca e o dedo indicador em riste; e, para selar a
cumplicidade, Seu Tatá jurou ter visto a imagem dela piscar um olho, como nos
velhos tempos de travessuras juvenis conjuntas. Só de pensar no que faria, sua
pressão arterial diminuiu, a glicose baixou e quase teve uma ereção. A foto
adorou este detalhe, o sorriso dela pareceu se alargar ainda mais.
Pegou
uma caixa de ovos cheia, apagou as luzes do apartamento, fechou as cortinas,
mas não as janelas. E começou a atirar os ovos nos três homens que operavam as
máquinas e em mais um que os fiscalizava.
Lançava
os projéteis e se escondia, rindo sem parar. Cada ovo arremessado arrancava uma
gargalhada. E o velho tinha uma mira excelente — o que provocou uma crise de
riso impagável no casal.
Não
foram necessários mais do que meia dúzia de ovos para que a primeira máquina
fosse desligada, seguida pelas outras. No porta-retratos, Dona Olinda exibia um
sorriso doce, pleno de aprovação e orgulho; a imagem parecia até mais corada e
vibrante.
Naquela
noite, Seu Tatá dormiu como um anjo e sonhou com Dona Olinda a noite inteira. Ao
acordar, encontrou uma pequena flor sobre a mesinha de cabeceira. Não se lembrava
de tê-la colocado ali. Mas sorriu.
E a foto também.
Edmir Saint-Clair


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