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QUEM TEM SAUDADE DO MERTHIOLATE ARDIDO?

 

Acho fantásticas as oportunidades únicas que as mídias sociais nos proporcionam para observar o comportamento humano. Não existe lugar onde as pessoas se exponham mais. Conheço pouquíssimas que conseguiram se manter à parte até agora.

Hoje, é a principal fonte de dados sobre hábitos, comportamentos e opiniões. Não fossem as limitações impostas pelos famosos algoritmos Facebook que limitam o alcance de cada perfil, os institutos de pesquisas nunca mais teriam que sair às ruas.  Quem se prepara para entender sobre pesquisa e estatística (pode-se estudar a matéria até a excelência sem gastar um centavo, pela internet) e sabe como interpretar esses dados, pode-se saber até a cor da roupa de baixo que a pessoa usa, quantas vezes vai ao banheiro ou transa por dia.

Tenho algum conhecimento técnico de como tabular e interpretar pesquisas, por ser publicitário. Como escritor, isso tem uma valia inestimável para subsidiar meus textos. 

Dentre algumas postagens recorrentes, uma tem me chamado a atenção em especial: a exaltação das surras de cinto, de sandálias havaianas e outras lembranças da truculência e agressividade de certas práticas "educacionais" de há não muitos anos. Causa-me estranheza a que ponto chega o saudosismo e a melancolia de alguns. Além, é claro, da falta de conhecimento sobre os incríveis avanços da ciência em todos as áreas do desenvolvimento humano. Nunca pensei que veria meus contemporâneos se tornarem tão reacionários e avessos a passagem do tempo, aos avanços dos conceitos, costumes e entendimentos sobre os processos que nos constituem, a ponto de fazerem declarações louvando surras de cinto e outras barbaridades praticadas e que, graças a evolução dos conhecimentos, foram banidas da esfera do aceitável. As mesmas pessoas que proclamavam a paz e o amor no final do século 20, hoje, se dizem saudosas da sandália estalando na pele. 

Quando vejo as havaianas, cintos e varas de marmelo sendo consideradas e saudadas como “ferramentas educacionais” que fazem falta, sinto muito mais pena do que raiva. Quem tem saudade de um tempo em que apanhava com aqueles apetrechos é porque deve estar, atualmente, apanhando muito mais dolorosamente da vida. Deve estar se sentindo tão excluído do mundo que o ruim de ontem lhe parece melhor do que o que a vida lhes oferece hoje. A raiva deve ser tanta que o desejo é sair dando porrada em tudo que lhes desagrada, pela solidão que a evolução lhes impõe, por não conseguir compreendê-la.

 Mas, essa obsolescência tem cura; o conhecimento e a autodeterminação.  Há sempre coisas novas a serem descobertas, coisas interessantes, sejam quais forem os interesses. Novidades estão sendo criadas, descobertas e pensadas todos os dias. E, não existe melhor forma de manter a importância da vida do que se importar com ela, do que cultivar a curiosidade.  Do que continuar tendo a sede de saber os porquês.

A certeza é a pior inimiga da evolução. Quem acumula muitas certezas e não deixa espaço para novas dúvidas e mudanças, se torna obsoleto. O obsoleto não tem mais importância, não tem serventia e já não conta mais, é carta fora do baralho.

Deve ser muito triste se sentir obsoleto, que é a mais dolorosa característica de quem perde o trem da história. Para esses, a passagem do tempo dói muito mais que o merthiolate ardido.

 - Edmir Saint-Clair

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