ORIENTADOR LITERÁRIO

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COERÊNCIA: O RESPEITO A SI MESMO


 "Seja amigo íntimo de si mesmo 

e nunca mais se sentirá sozinho." - Edmir Saint-Clair

- Estou sendo quem eu digo que sou?

Essa é uma pergunta que ninguém faz em voz alta. Mas todo mundo carrega.

É uma pergunta simples. E, muitas vezes, devastadora.

Vivemos na era da performance. Nunca foi tão fácil construir uma versão de si mesmo — e nunca foi tão tentador confundi-la com a versão real. O Instagram tem filtro para tudo: para a pele, para a luz, para a vida. O que não tem filtro é a nossa própria consciência quando deitamos no travesseiro.

A busca ansiosa por likes virou o termômetro afetivo de uma geração inteira. A foto só foi boa se engajou. A opinião só vale se viralizou. A conquista só existe se foi postada. Aos poucos, sem que a gente perceba, o centro de gravidade se desloca — saímos de nós mesmos e passamos a orbitar a aprovação dos outros. De outros que, na maioria das vezes, estão fazendo exatamente a mesma coisa.

É um espelho em frente ao outro. Infinito. E vazio.

Os filósofos já tinham um nome para isso. Muito antes do Instagram existir. Só que agora ganhou uma tela, alcance mundial e um algoritmo.

O filósofo dinamarquês Kierkegaard chamava isso de estágio estético — a vida vivida para a superfície, sem compromisso real com nada. Jean Paul Sartre tinha um nome mais duro: má-fé — a arte de fingir que não há escolha, quando na verdade nossas escolhas estão sendo feitas a cada momento da vida e, no fundo, temos plena consciência disso. Atualmente, isso tem uma outra expressão que talvez a defina melhor: desonestidade intelectual.

Postar uma versão editada de si mesmo não é crime. Mas acreditar nela é o grande problema, que pode ter um preço bem alto.

Quando a distância entre quem você é e quem você finge ser cresce demais, surge um mal-estar que a psicologia batizou de síndrome do impostor — aquela sensação persistente de que você não merece o lugar que ocupa, de que é uma fraude prestes a ser descoberta, de que qualquer dia alguém vai perceber que não existe nada embaixo da máscara que usamos.

Nas redes sociais, esse sentimento encontrou o ambiente perfeito para prosperar. Você constrói um personagem admirável — e passa a ter medo de não estar à altura dele. A conquista foi real, mas a versão postada foi maior. O argumento foi válido, mas veio acompanhado de uma pose que não era sua. O sorriso era verdadeiro — mas o contexto, não.

O personagem cresce. E você encolhe.

Porque a incoerência não gera culpa imediata. Ela trabalha devagar, por baixo, como uma infiltração invisível que vai corroendo as estruturas da personalidade. Um dia você percebe que não sabe mais o que pensa de verdade — ou se o que posta que pensa é fruto apenas do que funciona bem nas redes. Não sabe do que gosta de verdade — ou se o que posta que gosta é fruto do personagem que criou para combinar com a estética do perfil no Instagram. Não sabe quem é realmente você — e quem é o personagem criado para ter mais seguidores. Chega a um ponto em que você pode se tornar um estranho para si mesmo.

A identidade vai cedendo lugar ao personagem. E o personagem não descansa nunca — porque depende de audiência para existir.

O atrito entre quem você é e quem você aparenta ser corrói por dentro. A autoestima afunda. As decisões ficam mais difíceis — porque quem não confia em si mesmo transforma cada escolha numa armadilha. E uma identidade enfraquecida é terreno fértil para ansiedade, depressão e todos os outros distúrbios mentais que a sociedade atual padece.

A lucidez intelectual e o autoconhecimento são o único caminho para fugir dessa tendência humana de buscar um culpado que não seja nós mesmos. Fica fácil culpar o Instagram, o Facebook e outras redes. Mas elas não criam personagens — elas apenas oferecem o palco. Quem decide subir nele, o que vestir e o que representar somos cada um de nós. Somos, sempre, os únicos responsáveis por quem conseguimos ser, apesar dos pesares da vida.

A coerência é o antídoto.

É uma virtude autêntica e verdadeira que não precisa de plateia nem de métrica de engajamento. É aquela coisa pequena feita da forma certa quando ninguém está olhando — uma decisão tomada de madrugada, sem testemunha, sem like, sem story.

Quem vive com coerência não precisa lembrar o que disse ontem. Não precisa administrar versões. Não acorda com medo de ser descoberto — porque não há nada a esconder. O impostor some quando o personagem e a pessoa finalmente coincidem. É quando você assume o comando de decidir para si mesmo quem você é.

Quando deitamos no travesseiro, é a nós mesmos que temos de prestar contas. Não existe júri, não existe recurso, não existe advogado de defesa. E não tem apelação.  Só você e o seu próprio julgamento sobre o que você fez — com o que tinha, onde estava e sendo quem é em sua essência maior. Você é o seu próprio juiz e a coerência é sua lei maior.

Nossa maior contribuição para o mundo — e para nosso orgulho próprio — é agirmos da forma original e única que a nossa natureza nos dotou.

A coerência é a forma mais corajosa — e fiel — de se amar.

É respeitar profundamente a si mesmo.

Edmir Saint-Clair

VIÉS: NOSSO PONTO DE VISTA

Nossa visão do fato não é o fato.

Há pessoas que entram num bar convencidas de que escolheram a mesa, a bebida, a companhia e até a opinião que levarão para casa. É bonito. Quase comovente. A razão humana gosta de posar para foto.

Mas, na verdade, a grande maioria das vezes não escolhemos nenhum daqueles ítens, estamos apenas repetindo o que já estamos acostumados a fazer. E, sentamos achando que decidimos. Nas conversas repetidas, com as mesmas pessoas de sempre, muitas vezes, o que realmente fazemos é apenas reagir com o vocabulário pré-estabelecido, sem nem prestar atenção no que está sendo falado. É o piloto automático em sua atuação diária e rotineira. Nesse momento nada é racional, é nessa hora que nossos vieses assumem o controle pleno de toda a situação.

No bar, por exemplo, alguém comenta um assalto que aconteceu no bairro. Em poucos minutos, o clima na mesa é como se a cidade inteira estivesse à beira de uma guerra civil. As pessoas se inflamam. Não importa a estatística, o horário, a exceção, o contexto. A notícia mais recente sempre ocupa o lugar da realidade inteira. É o viés da disponibilidade está servido com o chope. O que está mais vivo na memória parece mais verdadeiro, mais frequente, mais urgente. A mente humana transforma lembrança em prova, susto em método, manchete em prioridade.

No encontro social, chega um desconhecido bem vestido, perfume caro, voz calma, olhar administrado. Antes mesmo que diga qualquer coisa relevante, já lhe emprestamos competência, equilíbrio, talvez caráter. É o efeito halo. Uma qualidade ilumina todas as outras, mesmo as que não existem. A boa aparência passa a funcionar como currículo moral. A simpatia vira evidência de qualidades. A elegância, de honestidade. Já o sujeito desajeitado, que derruba o guardanapo, é condenado antes do julgamento. A vida social é um tribunal de primeiras impressões, com toga, canapé e sem apelação.

No trabalho, a coisa piora, porque ali os vieses usam crachá.

Um chefe lança um número inicial numa reunião. “Acho que esse projeto não deve passar de cinquenta mil.” Pronto. A âncora foi jogada. A partir dali, qualquer debate girará em torno dela, mesmo que ninguém saiba de onde aquele número veio. Pode ter vindo de uma planilha, de uma intuição, de um sonho ruim, de uma conversa no elevador, das letras, das conchas, do tarô ou de Plutão retrógrado. Ainda assim, o primeiro valor contamina todos os outros. Chamam isso de planejamento. Às vezes, é apenas superstição com PowerPoint.

Nas amizades, o viés de confirmação trabalha com uma dedicação religiosa. Escolhemos sinais que confirmem aquilo que já decidimos sentir. Se estamos magoados, cada silêncio vira desprezo. Se estamos encantados, cada descuido vira distração charmosa. A mente não procura a verdade; procura testemunhas para a narrativa que já escreveu. E, quando encontra, exibe como quem encontrou um documento histórico dentro da própria gaveta.

Há amigos que deixam de ser amigos não por um fato, mas pela interpretação de um fato. Uma mensagem não respondida. Um convite esquecido. Um comentário atravessado. O acontecimento, em si, é pequeno; o viés, porém, sabe inflar pequenezas com rara competência. Em pouco tempo, aquilo que era apenas um atraso vira abandono. Aquilo que era cansaço vira desprezo. Aquilo que era distração vira sentença. E aquilo que era amizade vira vazio.

Na vida amorosa, então, os vieses entram com o pé na porta, sem pedir licença, abrem a geladeira, mexem nas memórias e ainda criticam a decoração.

A representatividade faz alguém concluir, depois de dois encontros, que o outro pertence a uma categoria já conhecida: os indisponíveis, os narcisistas, os inseguros, os salvadores, os perigosos, os que somem, os que voltam, os que dizem “vamos marcar” e jamais marcam. A pessoa real desaparece atrás do tipo. Julgamos o outro não pelo que ele é, mas pelo personagem que ele nos lembra. Às vezes, não nos relacionamos com alguém, mas com um arquivo antigo que esquecemos aberto.

A aversão à perda também governa muitos amores. Não ficamos apenas porque amamos; às vezes ficamos porque perder parece doer mais do que permanecer. A perda tem voz alta. O ganho é mais educado. A possibilidade de recomeçar quase sempre chega vestida de ameaça. Assim, muita gente chama de amor o medo de abandonar um investimento emocional antigo. Não quer a pessoa; quer não perder a versão de si que construiu ao lado dela.

O enquadramento da foto muda tudo. Dizer “terminamos porque já não havia amor” é uma coisa. Dizer “tivemos coragem de não falsificar a permanência” é outra. O fato pode ser o mesmo, mas a moldura reorganiza a dor. Na vida, muitas vezes não mudamos os acontecimentos; mudamos a legenda. E, com uma legenda melhor, suportamos quase qualquer fotografia.

Depois vem o viés retrospectivo, esse profeta atrasado. Quando a relação acaba, sempre aparece alguém para dizer: “Eu já sabia.” Sabia nada. Suspeitava, talvez. Torcia, talvez. Reorganizou os fatos depois do incêndio e agora desfila com um balde d’água vazio na mão. Depois que tudo acontece, a mente costura uma lógica aleatória e nós a aceitamos como verdade.

Também há o excesso de confiança, esse pequeno ditador íntimo. Achamos que conhecemos os outros, que sabemos onde determinada escolha vai dar, que desta vez não seremos enganados, que nossa intuição é afiada, que nossa análise é madura, que nosso coração, depois de tantos acidentes, aprendeu a dirigir. É nossa pequena redenção.

Daniel Kahneman nos oferece, no fundo, uma humilhação necessária: não somos tão lúcidos quanto imaginamos. Dentro de nós há um sistema rápido, automático e intuitivo, que decide antes que a razão chegue. Depois, entra o pensamento lento, mais analítico, mais cuidadoso, mas frequentemente preguiçoso. Ele chega tarde, olha a confusão feita e cria uma justificativa elegante.

Talvez seja isso o que chamamos de opinião: uma intuição antiga usando roupa nova.

O problema não está em termos vieses. Eles fazem parte da arquitetura da mente. Foram úteis em algum momento remoto, quando decidir rápido podia salvar a vida. O problema começa quando confundimos rapidez com verdade, impressão com evidência, lembrança com estatística, medo com prudência, desejo com lucidez.

Nossa visão dos fatos não é o fato.

A lucidez começa quando aceitamos essa diferença. Quando percebemos que nosso ponto de vista é apenas isso: um ponto, não o mapa inteiro. Um ângulo, não a arquitetura. Uma janela, não a paisagem completa.

No fim, viver com lucidez talvez seja aprender a desconfiar sempre de nossas certezas.

Edmir Saint-Clair


TRANSCENDER

 

Envolver, envolver-se e ser envolvido,

Misturar-se, fazer parte, somar-se, dividir-se.

Nada mais abstrato que romper os limites do ser.

Impossível, diz a ciência,

mas não a sapiência, que nem tudo pode resolver.

Mas nos resolvemos no nosso desejo de pertencer,

um dos mais abstratos mistérios do ser.

A transcendência leve, etérea, intocável,

além do mundano banal,

tem que ser consciente para tornar-se mistério.

Por isso, me envolvo, envolvo e sou envolvido,

e me diluo no todo.

Ainda não, mas irei,

me fundindo à maior das ciências,

sendo tudo e nada ao mesmo tempo,

sendo sempre e nunca, eternamente.

Edmir Saint-Clair


RELAÇÕES MÁGICAS

 

Relações verdadeiras e profundas fazem mágicas reais. Acontecem entre pessoas sensíveis que entram numa sintonia única e extraordinária, que desperta no âmago de suas almas, o melhor de cada uma delas, fazendo com que se apaixonem uma pela outra e ambas por si mesmas. Quanto mais se fazem bem, mas bem fazem cada um a si mesmo, aos outros e ao mundo...

São raras, mas existem. 

Edmir Saint-Clair

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A EMPATIA

 


         O ser humano sempre buscou, incansavelmente, estabelecer conexões profundas e verdadeiras entre seu universo interior, original e único, e o mundo que o cerca. É essa busca que nos impulsiona a nos comunicarmos, a expressarmos nossos pensamentos, sentimentos e ideias. 

    Para que essa comunicação seja efetiva, é necessário mais do que simplesmente trocar palavras. É necessário a empatia. E empatia se aprende tentando, se esforçando para alcançá-la, para senti-la. Forçando o nosso cérebro a estabelecer um processo de conexões neurais eficientes com essa finalidade específica.  É preciso ensinar o nosso cérebro . Simplificando, é preciso querer e trabalhar regularmente para atingir isso. Criar o hábito de pensar empaticamente. A empatia é uma habilidade superior que se pode desenvolver. É a potencialização de uma tendência natural do ser humano de se colocar no lugar do outro para tentar compreender uma situação. É ir além de sentir simplesmente uma compaixão passiva primária por uma condição alheia desfavorável. É mais do que isso. A empatia é capaz de gerar ação. É capaz de gerar significados maiores em todos os níveis de relacionamentos, e é capaz de dar um sentido maior à nossa existência.

    A empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro, de compreender sua perspectiva e suas experiências, sem julgamentos. Ela nos permite ouvir e sermos ouvidos, valorizar e sermos valorizados, aceitar e sermos aceitos. Muitas vezes, é a única forma de despertarmos em nós mesmos sentimentos e emoções que desconhecíamos possuir. É a partir da empatia que somos capazes de ver a complexidade e singularidade de cada indivíduo, incluindo a nossa própria, e de nos conectarmos com ela de maneira autêntica e profunda. Uma conexão profunda só se estabelece em uma via de mão dupla. Quanto mais compreendemos mais nos sentimos compreendidos.

Na realidade, nunca conseguiremos sentir, na própria pele, toda a real intensidade de uma dor que nos é alheia. Que não dói em nosso próprio corpo ou mente. Essa é a nossa limitação como humanos. Por isso, exercitar e fortalecer a empatia é o melhor que podemos fazer para compreender o outro.

Sem a empatia, a comunicação se torna superficial e vazia. As palavras se esvaziam de significados e os relacionamentos se tornam superficiais e distantes.

Quando não nos esforçamos para compreender o outro, perdemos oportunidades de criar laços verdadeiros e estabelecer relações estáveis e duradouras. Sem ela, nunca conseguiremos ser bons pais, filhos, amigos, amantes ou sequer vizinhos.

A empatia não é apenas uma habilidade, mas uma necessidade evolutiva. Ela nos permite criar a conexão profunda que todos buscamos, e a satisfação que vem de compreender e ser compreendido. É a realização efetiva de uma verdadeira troca acolhedora e fértil de nossas emoções. É através da empatia que podemos construir um mundo mais compassivo e autêntico, onde as relações verdadeiramente significativas e compensadoras podem florescer.

Só através do olhar empático podemos superar o racismo, a homofobia, a misoginia, a intolerância religiosa, o xenofobismo e tantas outras mazelas humanas.

E de potencializar nossas possibilidades de felicidade, agregar repertório ao nosso universo pessoal de experiências, e dar um sentido maior à nossa própria vida.


Edmir Saint-Clair

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não custa nada.

O SOFRIMENTO FANTASMA

 


O mundo está em sofrimento. 

O mundo animal e vegetal, aquático e terrestre 

estão degradados, aviltados e estuprados em suas essências.

Bilhões de escravos de poucos senhores. Senhores que também sofrem. Um sofrimento invisível e constante, onipresente e multi-estimulado.

Nossa civilização é nossa principal doença. A ausência de sentido faz milhares de vítimas fatais de si mesmas por dia.

Na era das relações líquidas, que Zygmunt Bauman descreve com tanta precisão, a nuvem de insegurança e medo que sempre pairou sobre a humanidade, cresceu muito e abarcou todos os tipos e níveis de relações, indiscriminadamente. O resultado é a sensação de desamparo absoluto e geral.

Mas, é mais do que isso. Todos sentem, mas não sabem o quê, exatamente,  sentem. Apenas sentem um incomodo terrível e inominável.

Algo concreto e, ao mesmo tempo, muito difuso, quase metafísico.

Não sabemos porque sofremos, apenas sabemos que sofremos. É um sofrimento tão visceral e tão escondido que nunca foi nomeado.

É um sentimento sem nome.

Uma sensação, uma emoção, um estado de angústia que é constantemente descrito, mas que nunca se chegou a um consenso sobre seu nome e aonde se esconde em nós.

E que ninguém conta para ninguém. E todos fingem que não sofrem, porque não sabem que o outro também sofre.

Por ajudar a esconder tudo isso de nós mesmos, é que fazem tanto sucesso os Facebooks, Instagrans, Tik toks, Tinders, WhatsApp e toda sorte de mídias sociais para todas as bolhas e taras.

É muito pesado admitir o próprio sofrimento, é melhor fingir que ele não existe, porque, afinal, nem sabemos porque ele existe e, apesar de seu peso insuportável, não temos forças para arregaçar as mangas, deixar todo o resto de lado e partir em busca de uma solução, qualquer solução, que faça a vida valer a pena.

A admissão de um sofrimento endógeno e inexplicado, que parece ser inato na maioria dos humanos, é um dos maiores tabus da contemporaneidade.

Me arrisco a dizer que esse sofrimento fantasma é a mãe de todos os tormentos.

Será que o âmago dessa questão continua sendo a nossa consciência da própria morte que, por nos causar tamanho pavor, termina por nos impedir de usufruir plenamente o esplendor da vida?

O ser humano não teme apenas a própria morte, teme, também, a morte de tudo e de todos que ama.

É muita morte para temer.

Precisamos nos ajudar a transformar esse labirinto em um caminho apreciável.

E só conseguiremos fazer isso, juntos.

 Edmir Saint-Clair


A BESTA HUMANA

A espécie humana só conseguiu prosperar por que desenvolveu a capacidade de raciocinar em grupo, de fazer perguntas e buscar respostas em grupo, para tudo que não compreendia no mundo que o rodeava. Estar em grupo era a única chance de sobreviver a um mundo cheio de perigos mortais.

Foram as perguntas e respostas compartilhadas que nos possibilitaram dominar todo o planeta. Foi pensando e agindo coletivamente que criamos defesas e estratégias que garantiram a sobrevivência de nossa espécie através dos tempos, mesmo sendo um dos seres mais lentos, fracos e indefesos da natureza.

A missão básica da existência é a evolução da espécie, o que significa criar condições que permitam que todas suas potencialidades possam ser afloradas, exploradas, desenvolvidas e aperfeiçoadas incessantemente. 

A seleção natural não admite mentiras. Apenas a verdade sobrevive.

Nossa jornada através dos tempos é uma aventura de colaboração entre indivíduos e de descobertas contínuas de novas possibilidades, na busca de segurança, equilíbrio e bem-estar.

Somos seres que são afetados por estímulos e interações múltiplas com outros indivíduos e com o habitat. Somos resultados desses afetos e do que resolvemos fazer a partir dos sentimentos e emoções que eles produzem em nós.

A capacidade de decidir conscientemente como agir, e não apenas reagir instintivamente aos afetos, é o que nos faz humanos. A soma das capacidades dos indivíduos foi o que acelerou a nossa evolução para uma progressão geométrica. Somar nossas capacidades multiplicou o progresso e prosperidade da espécie humana.

Essa é a nossa forma de evoluir, através de perguntas e respostas, erros e acertos, individuais e coletivos somados e combinados.

Através do conhecimento adquirido e transmitido de uma geração para as seguintes, esse processo se aperfeiçoa e se realiza através da interação com outros indivíduos e suas respectivas e diferentes perguntas, respostas e conclusões, todas aglutinadas debaixo desse gigantesco guarda-chuva chamado Ciências.

Quanto maior a cooperação maior o avanço da ciência e maior o salto evolutivo de toda a espécie.

Foi esse processo que nos trouxe até essa vida atual, cada vez mais segura e confortável.

Evoluímos absurdamente desde aquele antepassado frágil, fisicamente indefeso e presa facil de predadores. Uma época em que o medo, frio e a fome imperavam. Nós Conseguimos ultrapassar essa fase crucial, evoluindo e prosperando em todo o planeta.

Essa evolução nos tornou o que somos hoje mas, ainda estamos longe de ter alcançado um estágio que possamos chamar sequer de intermediário, numa escala que tenha como meta a completa interação e compreensão de nós mesmos e do planeta que habitamos.

Somos uma das espécies mais jovens surgidas na natureza. Num panorama maior, somos jovens ainda muito confusos e perdidos, buscando um sentido maior para a própria existência. Ultrapassamos o primeiro filtro quando nos tornamos a espécie dominante.

Aquele ser primitivo, amedrontado e indefeso, cujo cérebro está programado para reações primitivas e animalescas que o possibilitavam, sobretudo, continuar vivo, ainda continua atuando em cada um de nós, mesmo sem ter a menor necessidade.

A parte primitiva do nosso cérebro, preparada apenas para reações primárias rápidas como fugir ou lutar, ou reconhecer instantaneamente um amigo ou inimigo, continua agindo até hoje. Como uma iminência parda que, quando se manifesta, alcança um poder de destruição apavorante.

Precisamos lidar com isso, com nossa besta individual, e domá-la a qualquer custo. E só o autoconhecimento e o auto comprometimento podem realizar esse árduo trabalho.

A melhor ferramenta para prosseguirmos nessa jornada evolutiva se chama ciência, conhecimento e autoconhecimento. Se balizadas por uma metodologia apropriada e questionamento filosófico genuíno (em cujo conteúdo a ética seja o principal pilar), esse processo é capaz de gerar uma humanidade virtuosa, capaz de cuidar de si e de todo o planeta. E quem sabe, até de outros planeta

Podemos ter uma evolução brilhante, mas se cedermos à ignorância, ao misticismo, e à besta destruidora que carregamos em nossos cérebros, corremos um risco enorme de produzir uma hecatombe planetária e extinguirmos a nós mesmos. O maior perigo para a sobrevivência de toda a vida no planeta terra chama-se espécie humana.

Nada é mais perigoso para o mundo do que a maldade que nos habita.

A besta, que ainda vive em nós, precisa ser domada a todo e qualquer custo. Ela não precisa mais existir, não pode mais existir, é perigosa demais, uma ameaça constante que paira sobre todas as formas de vida do planeta.

E ela só pode ser vencida por cada indivíduo dentro de si mesmo. Só assim transcenderemos juntos rumo a uma era de paz e harmonia.

Esse é o maior de todos os desafios da espécie humana: domar a si mesmo.


- Edmir Saint-Clair

TODO MUNDO ENJOA DE MARSHMALLOW

 

Foi minha primeira adicção. Era vício mesmo, pensava em sundae de marshmallow o tempo todo. Tinha uns 10 anos e, em tempos de aula, só podia saboreá-los aos sábados e domingos, quando meu pai nos levava ao clube. No bar da piscina da AABB Lagoa, o sundae de marshmallow era delicioso, até porque eu não conhecia outro.

Mas, resumia-se a dois na semana, isso quando meus pais não arrumavam alguma outra atividade que não incluía o clube, aí a abstinência era ainda maior. Meu sonho era poder comer marshmallow até não aguentar mais.

Num certo sábado, quando já tinha uns 12 anos e podia escolher se sairia com eles ou ficaria em casa enquanto eles cumpriam os passeios recreativos com meus irmãos, resolvi ficar e cumprir o meu plano de anos, afinal, mais de um ano naquela idade era tanto tempo quanto uma década de hoje. Tinha economizado minha mesada e, finalmente, compraria uma lata inteira de marshmallow da Kibon e uma lata de castanha. Dispensei o sorvete, meu objeto de desejo era o marshmallow.

Fui ao supermercado e comprei uma lata exatamente igual as utilizadas nas lanchonetes e uma lata de castanhas.

Nos anos 1970, a maioria das casas tinha apenas uma televisão, na sala e, assim, era raro poder escolher o programa. Como meus pais e irmãos haviam saído, passei a tarde vendo televisão e comendo marshmallow com castanha. Realizando meu sonho com requintes de luxo e privacidade.

Quando parei de comer, estava totalmente empanzinado, já quase na metade da lata. Não cabia mais nem um pedaço de castanha partida.

Passados alguns instantes, o enjoo foi tomando corpo e aumentando rapidamente, me causando um extremo mal-estar. Meus pais chegaram a tempo de me ajudar a chegar ao banheiro e colocar tudo para fora. Passei a noite inteira mal indo do quarto para o banheiro, num vai e vem dos infernos, e ainda acordei enjoado no dia seguinte.

Literalmente, do dia para a noite, fui da paixão a aversão total ao marshmallow com tamanha intensidade que nunca mais consegui comer aquele melado branco e enjoativo, pelo qual, durante muitos meses, havia sonhado acordado.

De lá para cá, descobri que se pode enjoar de qualquer coisa, por mais que se goste dela. Seja abstrato ou concreto. Por muito ou por nada. Por ter demais ou ter de menos. Faz parte da natureza humana enjoar das coisas. Somos capazes de enjoar de tudo que há de melhor na vida. Seja de comer, de sentir, de ver, de ouvir, de cheirar ou de tocar. Simplesmente corremos sempre o risco de enjoar de qualquer coisa, às vezes, do nada, sem motivos.  Até da própria vida. Uma infeliz maldição.

A única coisa capaz de acabar totalmente com um sonho é realizá-lo. E nossa sina é viver sob o desafio desse grande paradoxo.

Não deveria ser assim, mas é.

Edmir St-Clair

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UM CLIQUE E NADA FOI COMO ANTES

Não estou me referindo a nenhum clique eletrônico. Refiro-me aquele que acontece dentro de nós.

Aquele raro momento em que percebemos o instante exato em que uma mudança interior se concretiza.

É o primeiro segundo logo após uma mudança definitiva na nossa instância mais profunda e que, a partir daquele instante, acarretará mudanças na nossa forma de atuar na vida e no mundo.

Aquele ponto em que percebemos que uma mutação interior acabou de se estabelecer definitivamente, um evento que criará novos padrões em nossas reações e comportamentos. Um Eu mais próximo da verdadeira essência do meu Eu mais profundo.

O momento em que mudamos, em que subimos mais um degrau em nossa busca interior.

Se manifesta em detalhes muito íntimos, como num cruzar de braços diferente de como sempre fazíamos antes daquele instante.

Tão diferente, que nos gera surpresa.

Não me lembro de tê-lo sentido as inúmeras vezes que, é de se esperar, deve ter acontecido antes para quem já viveu várias décadas.

Senti isso algumas poucas vezes na vida e nem sempre quando era de se esperar. Mas nunca como dessa vez.

Talvez porque, hoje, tenho mais consciência do agora, do que ocorre exatamente no momento presente, percepção, essa, que só conquistamos com o acúmulo de experiências que só o tempo nos proporciona. Quando a maturidade chega.

Dessa vez, me chegou através desse clique e de forma absolutamente clara. No banho, sentindo a água morna batendo em meu corpo, embaixo do chuveiro. O banho é um dos momentos mais agradáveis do dia, para mim. 

Adoro água, de preferência do mar, mas a do chuveiro também é ótima.

Sentindo a água morna batendo na cabeça, escorrendo pelo corpo, nem me lembro sobre o que pensava. Lembro-me apenas de ter mudado de posição embaixo do chuveiro.

 De repente, assumi uma postura corporal diferente, inédita.

Nada espetacular ou perceptível para qualquer outra pessoa que estivesse me observando.

Se estivesse sendo gravado por uma câmera, nem assim seria perceptível para qualquer outra pessoa, mesmo que me conhecesse muito bem.

Mas para mim, foi tão diferente que me causou grande surpresa. Quase um susto.

Foi Um cruzar de braços seguido de um reposicionamento do corpo, que culminou com uma postura geral completamente diferente. Chegou a me soar estranho. 

Naquele exato momento, senti perfeitamente a concretização interior de uma mudança profunda, definitiva e surpreendente.  Uma sensação de força, como se algo muito importante houvesse sido solucionado no interior da minha mente.

Algo aconteceu que me fez diferente do que era segundos antes.

 Gostei do que senti, achei delicioso mudar e quero mudar mais, visitar e conhecer todos os meus outros Eus possíveis.

O acúmulo desses cliques mágicos é o que nos traz maturidade, sabedoria e promovem a abertura de belas estradas que nos levam sempre na direção certa, a direção do autoconhecimento.

- Edmir Saint-Clair

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