ORIENTADOR LITERÁRIO

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A LEVEZA DA IGNORÂNCIA OU A CONSCIÊNCIA DE EXISTIR?

A ideia deste texto nasceu em mim a partir de uma questão que vem surgindo nas redes: será que quem é mais ignorante vive de uma forma mais feliz, mais leve, menos atormentada? Ou será que aquele que escolhe uma vida mais intelectual, buscando conhecimento, mergulhando nas grandes questões da humanidade, filosóficas, científicas e existenciais, termina encontrando uma forma mais profunda de realizar a própria essência?

 Talvez, por trás dessa discussão, exista uma pergunta ainda maior: que tipo de consciência nasce quando alguém passa a questionar a própria vida?

 Acredito que parte dessas características pessoais tenha raízes profundas, talvez biológicas, talvez inscritas em predisposições que já trazemos desde muito cedo. Pelo que pude ler em pesquisas e textos de estudiosos do assunto, penso que já trazemos muitos desses traços desde nossa formação embrionária. É óbvio que o meio familiar e social influencia de maneira determinante no desenvolvimento dessas características. Mas, para mim, uma delas parece predominar sobre o curso que a personalidade pode tomar: a curiosidade.

 De um lado, existe a aparente leveza da ignorância. Quem não tem a curiosidade como característica inata não questiona muito o mundo ao seu redor e talvez sofra menos com certas inquietações. Não se angustia tanto com o absurdo da vida, não se perde nos labirintos da consciência, não sente o peso de perceber as contradições humanas. Há aí uma espécie de ingenuidade preservada, quase uma beleza infantil, um romantismo diante do mundo. Como se a vida tivesse de ser aceita e fim de conversa: sem atritos, sem rachaduras no espelho.

 Mas essa leveza também tem seu preço. A pessoa que não desenvolve a crítica, que não aprende a questionar aquilo que ouve, vê e recebe, corre o risco de se tornar parte da manada, sem nem saber que não tem ideias próprias. Segue ideias prontas, repete verdades emprestadas, obedece sem perceber que está obedecendo. A ignorância, nesse sentido, pode parecer confortável, mas também pode ser uma forma silenciosa de prisão.

 Do outro lado está aquele que busca conhecer. E conhecer é trocar a ilusão e as crenças pela verdade, pela realidade que se impõe. Quem se aprofunda nas perguntas fundamentais da existência perde um pouco daquele encanto simples. A lucidez cobra pedágio. Mostra a beleza, mas também mostra a crueldade. Mostra o cosmos, mas também mostra o abismo. Mostra a grandeza humana, mas também revela nossa barbárie.

 É aí que entram algumas figuras importantes desse debate. Rousseau aparece com a ideia do “bom selvagem”, sugerindo que há algo de puro no ser humano antes de ser moldado, deformado ou corrompido pela sociedade. Sócrates entra como o símbolo do questionamento, aquele que transforma a dúvida em método de vida. Seu “só sei que nada sei” não é uma desistência do saber, mas uma porta aberta para a investigação permanente.

 Nietzsche também poderia aparecer nesse salão de ideias, não como alguém que oferece conforto, mas como quem arranca os tapetes da segurança moral e obriga o ser humano a olhar para o abismo. Já Albert Camus traz a noção do absurdo: a vida talvez não venha com um sentido pronto, e ainda assim precisamos vivê-la, enfrentá-la, talvez até amá-la dentro de sua falta de explicação definitiva.

 Senti uma identificação profunda com Camus e com sua visão do absurdo e da ausência de um sentido prévio para a vida. Quando sua obra me deixou clara essa inexistência de um sentido anterior, ao mesmo tempo, acendeu um holofote em minha mente: aí está o sentido! O sentido de uma vida que não vem com sentido pronto talvez seja justamente este: dar sentido a ela. Um sentido pessoal, original e único. É maravilhar-se tentando entendê-la. É dar vazão à nossa curiosidade primária.

 Em algumas pessoas, essa curiosidade não aparece como simples interesse, mas como uma força interna difícil de silenciar. As perguntas não batem à porta: elas invadem a casa. Isso pode gerar sofrimento, deslocamento e inadequação, mas também pode abrir caminhos raros de criação, compreensão e profundidade.

 Carl Sagan e Marcelo Gleiser entram como vozes desse deslumbramento científico. Eles ajudam a lembrar que conhecer não é apenas sofrer. Conhecer também é se maravilhar. A ciência pode revelar nossa pequenez cósmica, mas essa pequenez não diminui o ser humano; ao contrário, pode torná-lo mais precioso. Somos matéria do universo tentando entender o próprio universo. Há algo de profundamente poético nisso. Conhecer é descobrir que fazemos parte de um show cósmico muito maior do que imaginamos.

 Mas então surge a pergunta central: onde está a consciência no meio de tudo isso?

 A consciência parece ser o grande mistério que costura todas essas pontas. Roger Penrose pode ser chamado para essa conversa justamente por tratar a consciência como um problema ainda não resolvido pelas explicações tradicionais. As teorias tentam descrevê-la, medi-la e localizá-la, mas há sempre algo que escapa. Como provar plenamente a consciência se é a própria consciência que tenta provar a si mesma?

 É o círculo sem fim da consciência se vendo. Ela é, ao mesmo tempo, o maestro, os músicos e a música. É quem rege, quem executa e aquilo que é executado. É o palco, a plateia e o espetáculo. Uma espécie de santíssima trindade não metafísica: não como dogma religioso, mas como imagem concreta de uma experiência humana. A consciência observa, participa e cria a própria observação.

 Nesse grande show cósmico, talvez estejamos mais ligados do que imaginamos. A ignorância pode oferecer uma leveza aparente, mas essa leveza talvez venha do não enfrentamento. O conhecimento pode trazer dor, mas também traz expansão. Ele tira a ingenuidade, mas pode devolver algo maior: a possibilidade de viver com mais presença, mais responsabilidade e mais profundidade.

 O ensaio que nasce dessa conversa não quer ser arrogante, nem professoral. Ele não quer colocar o intelectual acima do simples, nem transformar a ignorância em caricatura. Todos os seres humanos são importantes e igualmente necessários, cada qual com sua função fundamental e insubstituível para a sobrevivência da humanidade.

 A proposta é investigar sem preconceitos ou hierarquias, com a delicadeza e o cuidado que a questão solicita. É perguntar até que ponto a felicidade da ignorância é realmente felicidade ou apenas anestesia. E perguntar também se o sofrimento do conhecimento é apenas dor ou se pode ser uma forma mais intensa de beleza.

 No fundo, talvez a questão não seja escolher entre a leveza e a profundidade. Talvez seja entender que a vida humana se dá justamente nessa dança: entre a inocência que nos protege e a lucidez que nos revela; entre o conforto de não saber e o espanto de descobrir; entre a manada e a consciência; entre o absurdo e o deslumbramento.

 E talvez, quando a consciência percebe tudo isso, ela descubra que nunca esteve fora do espetáculo. Ela sempre foi tudo: a música, os músicos, os instrumentos, o maestro, a dança, o salão e a festa inteira.

Edmir Saint-Clair

O QUE É A CONSCIÊNCIA?

 

“Para ver a ilha, temos que sair da ilha.” José Saramago

Se tivesse que escolher uma palavra para definir a existência humana, eu não hesitaria nem um segundo: consciência.

O sentido interior da percepção: visões, sons, pensamentos, sentimentos. A presença íntima da autoconsciência, esse estar ciente de si sendo você mesmo. Esse é o “problema difícil” da consciência. A senciência interna, nosso filme interior, a fronteira final da exploração humana.

Sou fascinado por todas as diversas maneiras pelas quais a consciência pode ser examinada. Sei que ela tem importância vital e essencial em nossa condição humana. O que não sei é: o que é a consciência?

Como explorá-la?

Geralmente, filósofos falam com filósofos, neurocientistas com neurocientistas. Muitas ideias interessantes, mas nenhum avanço definitivo. A consciência não é divisível, não funciona de forma compartimentalizada e estanque. A natureza não sabe que o ser humano a fraciona para tentar entendê-la. Nela, não existe física, química, filosofia, matemática, biologia e todas as disciplinas que o ser humano inventou para tentar compreendê-la. É tudo vida, é tudo natureza, é tudo uma coisa só interagindo consigo mesma. É tudo dentro. Não existe fora.

Podemos ampliar o discurso e olhar para a consciência, incluindo o problema difícil da experiência interior, através de diferentes filtros conceituais? Romper fronteiras, emancipar nosso pensamento?

Mas como começar do zero, com o mínimo de viés? Segundo Daniel Kahneman, a mente humana está longe de ser uma observadora neutra de si mesma e do mundo. Julgamos por atalhos, confundimos coerência com verdade e frequentemente superestimamos a solidez daquilo que pensamos saber. Isso torna ainda mais difícil qualquer tentativa de partir do zero.

Definir o que é a consciência é o primeiro passo óbvio. Mas a verdade é que ainda não conseguimos passar desse ponto. Ainda sequer conseguimos dar esse primeiro passo.

Sempre fui obcecado pela consciência a vida inteira. Quem é esse outro que vive acima de mim, sem deixar de ser eu mesmo? Quem é esse que me julga? Se sou eu mesmo, por que não me impeço de fazer merdas?

Leibniz disse que, se pudéssemos expandir o cérebro até o tamanho de um salão e caminhar dentro dele, ainda assim não encontraríamos a consciência. E a ciência não conseguiu encontrá-la até agora. Vasculha o cérebro há séculos, mas não encontra onde a consciência é produzida dentro dele.

A perspectiva de Wittgenstein

Acho que o filósofo que mais buscou compreender isso foi Ludwig Wittgenstein. O ponto central de seu argumento era o chamado “argumento da linguagem privada”. Resumindo seu pensamento, a linguagem é uma ferramenta extremamente precária, e nunca se pode afirmar que as pessoas compreendem o significado das palavras da mesma forma que você. A imprecisão das palavras é um problema insolúvel até agora.

Então, como saber que outras pessoas têm consciência da mesma forma que você?

Para Wittgenstein, a consciência não é uma “coisa gasosa interna” à qual você tem acesso privilegiado, mas que é problemática para todos os outros. Ela é tão problemática para você próprio quanto para os outros.

Só podemos observar e tentar entender melhor o que é a consciência através da própria consciência, e cada um só pode estudar a sua. Esse é o problema mais difícil. O grande escritor e, a meu ver, filósofo, José Saramago tem uma excelente e perspicaz percepção desse problema ao enunciar: “Para ver a ilha, temos que sair da ilha.” 

A resposta que mudará o rumo da humanidade e  nos dará um novo caminho para tentarmos sair desse beco sem saída no qual nos encontramos, é a que nos oferecer uma maneira confiável de investigar de forma isenta e objetiva, esse  fenômeno tão subjetivo. 

O problema é grande, difícil e até agora, não temos nem ideia se, realmente, haverá uma solução.

Sou um otimista. Acredito que o mesmo progresso tecnológico que nos permite hoje observar um cérebro funcionando em tempo real, fato impensável nos tempos de Freud, nos levará, um dia, a um conhecimento cada vez mais próximo da realidade do que acontece em nossos cérebros. E então surgirão respostas que nos levarão a novas perguntas, que nos levarão a novas respostas e a novas perguntas. E assim seguirá caminhando a humanidade.

 Edmir Saint-Clair

 

TRANSCENDER

 

Envolver, envolver-se e ser envolvido,

Misturar-se, fazer parte, somar-se, dividir-se.

Nada mais abstrato que romper os limites do ser.

Impossível, diz a ciência,

mas não a sapiência, que nem tudo pode resolver.

Mas nos resolvemos no nosso desejo de pertencer,

um dos mais abstratos mistérios do ser.

A transcendência leve, etérea, intocável,

além do mundano banal,

tem que ser consciente para tornar-se mistério.

Por isso, me envolvo, envolvo e sou envolvido,

e me diluo no todo.

Ainda não, mas irei,

me fundindo à maior das ciências,

sendo tudo e nada ao mesmo tempo,

sendo sempre e nunca, eternamente.

Edmir Saint-Clair


A ANSIEDADE NOSSA DE CADA DIA

 

Trabalhei durante décadas entre Rio e São Paulo e pude observar com clareza como as duas cidades lidam de maneiras distintas com a opressão econômica e com a competitividade insana dos mercados, que acabam por produzir uma pressão psicológica cujas consequências, via de regra, comprometem a saúde mental.

Cidades tão próximas e tão distantes.

Rio e São Paulo são duas metrópoles marcadas por diferenças estruturais e culturais profundas. Cada uma desenvolveu sua própria maneira de sobreviver não apenas ao crime organizado e ao mal-estar contemporâneo, mas também àquele que talvez seja o grande fantasma da saúde mental em nosso século: a ansiedade doentia e sufocante para a qual a velocidade da vida tecnológica nos empurra, sem pausa, todos os dias.

No Rio, a violência e a insegurança se mostram de forma mais escancarada, mais evidente, mais física. Estão nos roubos em plena luz do dia, no estampido dos tiros, nos arrastões imprevisíveis. Em São Paulo, a violência assume outra forma, camuflada de oportunidade de progresso financeiro. Confunde-se com a busca insana por produtividade, com a disciplina submissa, com os assédios morais cotidianos e com a necessidade de sustentar uma performance instagramável e inatingível.

Numa, a vida parece sitiada pelo entorno; noutra, pela exigência de corresponder ao inalcançável.

Mas o Rio tem as praias, esse oásis quase espiritual onde o carioca ainda pode se refazer da brutalidade dos acontecimentos. O mar, a luz, o horizonte aberto, a maresia: tudo ali oferece uma forma de redenção, mesmo que parcial e eventual. Como se aquela paisagem impedisse a alma do carioca de desistir por completo.

São Paulo não concede essa trégua com a mesma generosidade. Seu sofrimento é mais funcional, mais discreto, mais adaptado à rotina dos negócios. Mais contido. Não interrompe: corrói. Não explode: infiltra-se. Espalha-se pelos cantos, pelos poros, pelas pessoas, pelos lugares.

No fim, as duas cidades apenas aprenderam a lidar, de modos distintos, com as doenças, as mazelas e a impessoalidade do mundo contemporâneo que esvazia a vida de sentido.

No Rio, esse mal fere mais à vista, toma de assalto, rouba qualquer migalha de tranquilidade que ainda resista à rotina agressora. Em São Paulo, ele se infiltra como um vírus invisível que contamina o concreto e os homens, transformando-os em peças substituíveis, banais, quase destituídas de vontade própria.

Edmir Saint-Clair

FORA DO COMPASSO - SUPERDOTAÇÃO

 

 "E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos 

por aqueles que não podiam escutar a música."  

Nietzsche

Há quem passe a vida inteira para descobrir que não era errado, era diferente.

Desde cedo, essas pessoas aprendem a desconfiar de si. Não porque tenham cometido grandes erros, mas porque seu modo de estar no mundo é diferente da maioria. Sentem demais, pensam demais, perguntam demais e percebem o que os outros sequer notaram.

Tudo o que excede a medida comum costuma ser tratado, primeiro, como incômodo; depois, como defeito. E, nisso, a  mediocridade é implacável.

Na infância estão entregues a pais, escolas e a uma sociedade despreparada para lidar com neurodivergências. O que é profundidade vira complicação. O que é intensidade vira exagero. O que é lucidez vira inquietação. O que é sensibilidade vira fraqueza. E assim se inicia, pouco a pouco, dia a dia, a pedagogia do estreitamento. A pessoa aprende a reduzir o gesto, a conter frases, a domesticar o espanto. Aprende a não ir tão fundo, porque profundidade demais afasta. Aprende a não mostrar tanto, porque visibilidade demais incomoda. Aprende, enfim, a tornar-se suportável.
O nome dessa mutilação é adaptação.

Com o tempo, instala-se um mal-entendido mais grave do que todos os outros. Já não são apenas os demais que interpretam mal aquela natureza; a própria pessoa passa a fazê-lo. E não há forma de solidão mais insidiosa do que essa: viver dentro de si como quem ocupa uma casa estranha.

A pessoa segue. Estuda, trabalha, ama como pode, fracassa um pouco, acerta um pouco, cumpre as cerimônias das idades. Por fora, nada necessariamente a distingue de modo espetacular. Mas por dentro permanece uma sensação difícil de explicar: a de que há sempre alguma dissonância entre o que se é e o modo como a vida exige que se seja. Não chega a ser tristeza. É, antes, uma sensação de desencontro contínuo.

Quando a hipótese de superdotação surge tarde, ela não vem como triunfo. Vem como revisão. Não há fanfarra na descoberta de uma chave que chega depois de tantas portas já fechadas. O que aparece, primeiro, não é orgulho, mas espanto. De repente, coisas antigas mudam de lugar. Certas feridas perdem o nome com que foram carregadas durante anos. Certas culpas se revelam mal atribuídas. Certos sofrimentos deixam de parecer fraqueza pessoal e passam a pertencer a outro campo: o da incompreensão, o do desajuste entre uma vida interior mais aguda e um ambiente incapaz de reconhecê-la.

É como se uma pessoa falasse um idioma que menos de 1 por cento de toda a humanidade consegue entender e falar fluentemente. Além disso, parece que esses menos de 1 por cento foram espalhados aleatoriamente pelo imenso mundo inteiro, tornando extremamente difícil encontrar um semelhante.

Não se trata de vaidade retrospectiva. Ao contrário: a descoberta tardia quase sempre nos torna apenas mais conscientes, no sentido mais nobre da palavra. Ela nos põe diante do quanto se viveu sob um diagnóstico vulgar da própria alma. O sujeito não se sente engrandecido; sente-se, muitas vezes, roubado. Não de glória. Não de excepcionalidade, mas de compreensão e de acolhimento. Dói ser diferente.

Porque há destinos que não se deformam por falta de talento, e sim por falta de leitura. A pessoa atravessa décadas sendo elogiada por capacidades parciais e, ao mesmo tempo, sendo mal compreendida naquilo que mais a constitui. Chamam-na inteligente, mas não alcançam sua fome de sentido. Chamam-na sensível, mas sem tocar a extensão de sua vida afetiva. Chamam-na exigente, quando talvez estivesse apenas tentando respirar num mundo excessivamente raso para ela. O elogio, nesses casos, não compensa o equívoco. Apenas o enfeita.

Talvez a pior consequência de nunca ter sido percebido como tal pela família, pelos amigos, pelos pares, não seja a ausência de reconhecimento externo. Seja a lenta construção de uma autobiografia injusta. A pessoa começa a contar a si mesma a versão empobrecida de sua própria história. Convence-se de que exagerou onde apenas sentiu com inteireza. De que complicou onde apenas viu demais. De que falhou em adaptar-se onde, na verdade, preservou alguma fidelidade silenciosa à própria essência.

Durante muito tempo, vive-se sob o império dessas falsas versões. E falsas versões da vida cobram caro.

Cobram em escolhas aquém de si, em vínculos onde nunca houve real encontro, em profissões que serviram à sobrevivência, mas não à própria essência. Cobram em fadiga moral, nessa exaustão de ter de simplificar-se para ser amado. Cobram em autocensura, essa disciplina triste de amputar o que não encontra acolhida. Cobram numa forma de culpa sem crime: a culpa de existir em frequência diversa, diferente. A culpa de ter nascido como é.

Quando esse nome chega tarde, ele traz alívio, sem dúvida. Há uma paz possível em finalmente compreender que nem tudo era desordem, nem tudo era excesso, nem tudo era falha de caráter. Há uma delicadeza nova em olhar para trás e reconhecer que talvez se tenha sido apenas mal lido. Mas o alívio não vem só. Traz consigo uma sombra inevitável: a consciência do tempo. Tempo gasto em corrigir a própria natureza para caber no conforto alheio.

Toda verdade tardia tem alguma coisa de redenção. Não porque anuncie o fim, mas porque nos obriga a rever o que ficou para trás sob outra luz. E essa luz, embora libertadora, não é indulgente. Ela mostra não apenas o que fomos, mas o que deixamos de ser para continuarmos pertencendo. Mostra a quantidade de energia investida em parecer simples, leve, administrável. Revela o preço de ter vivido por décadas uma tradução precária de si mesmo.

Há tristezas que nascem do sofrimento. Outras, mais finas, nascem da clareza. Da consciência.

Talvez por isso a descoberta tardia tenha essa dupla natureza: consola e fere. Consola, porque recolhe a dispersão numa forma finalmente inteligível. Fere, porque não restitui o que foi perdido sob o signo do engano. O passado não se deixa reescrever; no máximo, consente em ser relido. E há releituras que doem mais do que o próprio acontecimento, porque chegam quando já não se pode corrigir quase nada.

Ainda assim, alguma reparação existe. Não a reparação ingênua, que fantasia renascimentos completos. Mas outra, mais sóbria e mais alta: a interrupção da injustiça. Depois de certo ponto, a pessoa pode ao menos parar de acusar-se por ser o que é. Pode cessar a tentativa de reduzir-se para tranquilizar o mundo. Pode abandonar a antiga vergonha de sua intensidade, de sua complexidade, de sua maneira menos dócil de existir.

Isso não devolve a infância. Não refaz a família. Não corrige os anos gastos em equívocos. Mas devolve uma dignidade essencial: a de se saber quem é profundamente. E a dignidade insubstituível do autorreconhecimento.

Talvez seja isso o que mais importa quando encontramos uma gaveta na qual cabemos como uma luva. Afinal, ela existe e não se está mais sozinho dentro dela. Há outras pessoas, mesmo que poucas, há outros...
E então sobrevém uma forma rara de paz: não a paz dos inocentes, mas a dos que finalmente se compreendem.

No fim, talvez nunca tenha havido excesso. Houve apenas uma vida interior mais vasta do que as molduras oferecidas. E viver em molduras estreitas cria a ilusão de que a deformidade está no que transborda, nunca no limite do recipiente.

Descobrir-se tarde é olhar para trás e perceber que talvez nunca tenha faltado equilíbrio. Faltou um ambiente capaz de reconhecer que certas pessoas não funcionam em baixa voltagem. Não porque sejam melhores, mas porque nasceram diferentes. Mais porosas ao detalhe. Mais famintas de coerência. Mais vulneráveis ao tédio. Mais exigentes de sentido. Para quem passou uma vida inteira sendo lido no idioma errado, ser finalmente compreendido já tem o status de redenção. E, então, viver não dói mais.

É libertador saber que a nossa neurodivergência tem um nome, é redentor saber que os seres humanos que mais contribuíram para o progresso e qualidade de vida de toda a humanidade são da mesma tribo. Porque os portadores de superdotação geralmente não colhem fruto algum de suas altas habilidades mas, via de regra, deixam magníficas contribuições em todos os campos do conhecimento, para que todos os outros seres, humanos ou não, tenham uma vida melhor.

Edmir Saint-Clair