ORIENTADOR LITERÁRIO

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FORA DO COMPASSO - SUPERDOTAÇÃO

 

 "E aqueles que foram vistos dançando
 foram julgados insanos por aqueles 
que não podiam escutar a música."  
Nietzsche


Há quem passe a vida inteira para descobrir que não era errado, era diferente.

Desde cedo, essas pessoas aprendem a desconfiar de si. Não porque tenham cometido grandes erros, mas porque seu modo de estar no mundo é diferente da maioria. Sentem demais, pensam demais, perguntam demais e percebem o que os outros sequer notaram.

Tudo o que excede a medida comum costuma ser tratado, primeiro, como incômodo; depois, como defeito. E, nisso, a  mediocridade é implacável.

Na infância estão entregues a pais, escolas e a uma sociedade despreparada para lidar com neurodivergências. O que é profundidade vira complicação. O que é intensidade vira exagero. O que é lucidez vira inquietação. O que é sensibilidade vira fraqueza. E assim se inicia, pouco a pouco, dia a dia, a pedagogia do estreitamento. A pessoa aprende a reduzir o gesto, a conter frases, a domesticar o espanto. Aprende a não ir tão fundo, porque profundidade demais afasta. Aprende a não mostrar tanto, porque visibilidade demais incomoda. Aprende, enfim, a tornar-se suportável.
O nome dessa mutilação é adaptação.

Com o tempo, instala-se um mal-entendido mais grave do que todos os outros. Já não são apenas os demais que interpretam mal aquela natureza; a própria pessoa passa a fazê-lo. E não há forma de solidão mais insidiosa do que essa: viver dentro de si como quem ocupa uma casa estranha.

A pessoa segue. Estuda, trabalha, ama como pode, fracassa um pouco, acerta um pouco, cumpre as cerimônias das idades. Por fora, nada necessariamente a distingue de modo espetacular. Mas por dentro permanece uma sensação difícil de explicar: a de que há sempre alguma dissonância entre o que se é e o modo como a vida exige que se seja. Não chega a ser tristeza. É, antes, uma sensação de desencontro contínuo.

Quando a hipótese de superdotação surge tarde, ela não vem como triunfo. Vem como revisão. Não há fanfarra na descoberta de uma chave que chega depois de tantas portas já fechadas. O que aparece, primeiro, não é orgulho, mas espanto. De repente, coisas antigas mudam de lugar. Certas feridas perdem o nome com que foram carregadas durante anos. Certas culpas se revelam mal atribuídas. Certos sofrimentos deixam de parecer fraqueza pessoal e passam a pertencer a outro campo: o da incompreensão, o do desajuste entre uma vida interior mais aguda e um ambiente incapaz de reconhecê-la.

É como se uma pessoa falasse um idioma que menos de 1 por cento de toda a humanidade consegue entender e falar fluentemente. Além disso, parece que esses menos de 1 por cento foram espalhados aleatoriamente pelo imenso mundo inteiro, tornando extremamente difícil encontrar um semelhante.

Não se trata de vaidade retrospectiva. Ao contrário: a descoberta tardia quase sempre nos torna apenas mais conscientes, no sentido mais nobre da palavra. Ela nos põe diante do quanto se viveu sob um diagnóstico vulgar da própria alma. O sujeito não se sente engrandecido; sente-se, muitas vezes, roubado. Não de glória. Não de excepcionalidade, mas de compreensão e de acolhimento. Dói ser diferente.

Porque há destinos que não se deformam por falta de talento, e sim por falta de leitura. A pessoa atravessa décadas sendo elogiada por capacidades parciais e, ao mesmo tempo, sendo mal compreendida naquilo que mais a constitui. Chamam-na inteligente, mas não alcançam sua fome de sentido. Chamam-na sensível, mas sem tocar a extensão de sua vida afetiva. Chamam-na exigente, quando talvez estivesse apenas tentando respirar num mundo excessivamente raso para ela. O elogio, nesses casos, não compensa o equívoco. Apenas o enfeita.

Talvez a pior consequência de nunca ter sido percebido como tal pela família, pelos amigos, pelos pares, não seja a ausência de reconhecimento externo. Seja a lenta construção de uma autobiografia injusta. A pessoa começa a contar a si mesma a versão empobrecida de sua própria história. Convence-se de que exagerou onde apenas sentiu com inteireza. De que complicou onde apenas viu demais. De que falhou em adaptar-se onde, na verdade, preservou alguma fidelidade silenciosa à própria essência.

Durante muito tempo, vive-se sob o império dessas falsas versões. E falsas versões da vida cobram caro.

Cobram em escolhas aquém de si, em vínculos onde nunca houve real encontro, em profissões que serviram à sobrevivência, mas não à própria essência. Cobram em fadiga moral, nessa exaustão de ter de simplificar-se para ser amado. Cobram em autocensura, essa disciplina triste de amputar o que não encontra acolhida. Cobram numa forma de culpa sem crime: a culpa de existir em frequência diversa, diferente. A culpa de ter nascido como é.

Quando esse nome chega tarde, ele traz alívio, sem dúvida. Há uma paz possível em finalmente compreender que nem tudo era desordem, nem tudo era excesso, nem tudo era falha de caráter. Há uma delicadeza nova em olhar para trás e reconhecer que talvez se tenha sido apenas mal lido. Mas o alívio não vem só. Traz consigo uma sombra inevitável: a consciência do tempo. Tempo gasto em corrigir a própria natureza para caber no conforto alheio.

Toda verdade tardia tem alguma coisa de redenção. Não porque anuncie o fim, mas porque nos obriga a rever o que ficou para trás sob outra luz. E essa luz, embora libertadora, não é indulgente. Ela mostra não apenas o que fomos, mas o que deixamos de ser para continuarmos pertencendo. Mostra a quantidade de energia investida em parecer simples, leve, administrável. Revela o preço de ter vivido por décadas uma tradução precária de si mesmo.

Há tristezas que nascem do sofrimento. Outras, mais finas, nascem da clareza. Da consciência.

Talvez por isso a descoberta tardia tenha essa dupla natureza: consola e fere. Consola, porque recolhe a dispersão numa forma finalmente inteligível. Fere, porque não restitui o que foi perdido sob o signo do engano. O passado não se deixa reescrever; no máximo, consente em ser relido. E há releituras que doem mais do que o próprio acontecimento, porque chegam quando já não se pode corrigir quase nada.

Ainda assim, alguma reparação existe. Não a reparação ingênua, que fantasia renascimentos completos. Mas outra, mais sóbria e mais alta: a interrupção da injustiça. Depois de certo ponto, a pessoa pode ao menos parar de acusar-se por ser o que é. Pode cessar a tentativa de reduzir-se para tranquilizar o mundo. Pode abandonar a antiga vergonha de sua intensidade, de sua complexidade, de sua maneira menos dócil de existir.

Isso não devolve a infância. Não refaz a família. Não corrige os anos gastos em equívocos. Mas devolve uma dignidade essencial: a de se saber quem é profundamente. E a dignidade insubstituível do autorreconhecimento.

Talvez seja isso o que mais importa quando encontramos uma gaveta na qual cabemos como uma luva. Afinal, ela existe e não se está mais sozinho dentro dela. Há outras pessoas, mesmo que poucas, há outros...
E então sobrevém uma forma rara de paz: não a paz dos inocentes, mas a dos que finalmente se compreendem.

No fim, talvez nunca tenha havido excesso. Houve apenas uma vida interior mais vasta do que as molduras oferecidas. E viver em molduras estreitas cria a ilusão de que a deformidade está no que transborda, nunca no limite do recipiente.

Descobrir-se tarde é olhar para trás e perceber que talvez nunca tenha faltado equilíbrio. Faltou um ambiente capaz de reconhecer que certas pessoas não funcionam em baixa voltagem. Não porque sejam melhores, mas porque nasceram diferentes. Mais porosas ao detalhe. Mais famintas de coerência. Mais vulneráveis ao tédio. Mais exigentes de sentido. Para quem passou uma vida inteira sendo lido no idioma errado, ser finalmente compreendido já tem o status de redenção. E, então, viver não dói mais.

É libertador saber que a nossa neurodivergência tem um nome, é redentor saber que os seres humanos que mais contribuíram para o progresso e qualidade de vida de toda a humanidade são da mesma tribo. Porque os portadores de superdotação geralmente não colhem fruto algum de suas altas habilidades mas, via de regra, deixam magníficas contribuições em todos os campos do conhecimento, para que todos os outros seres, humanos ou não, tenham uma vida melhor.

Edmir Saint-Clair

QUANTO MAIS VIDA MELHOR

 

        Há amizades que atravessam décadas como certas casas antigas: permanecem de pé, mas não sem reformas. Quem espera encontrar nelas exatamente a mesma mobília, os mesmos ruídos, a mesma desordem juvenil, talvez não esteja buscando amizade, mas taxidermia emocional. Porque o afeto verdadeiro não congela; ele amadurece ou, pelo menos, deveria. E, se amadurece, muda de tom, de ritmo, de necessidade.

Existe uma tentação sentimental em acreditar que os velhos amigos nos autorizam a voltar a ser quem fomos um dia no passado. Como se a intimidade fosse um salvo-conduto para a repetição, para a falta de polidez que o tempo nos ensina que não devemos ter com nossas relações mais caras. Mas não basta reunir meia dúzia de memórias, dois apelidos gastos e algumas histórias indecentes para ressuscitar a juventude. Nem sempre o que retorna vem carregado de vida. Às vezes, vem apenas como um assustado espasmo de quem implora para não olhar o espelho.

Há um ponto em que tentar repetir gestos de outros tempos deixa de ser espontaneidade e passa a ser negação. Não da alegria, que é sempre bem-vinda, mas do próprio curso da vida. Certos comportamentos, quando deslocados de seu tempo, não recuperam frescor: revelam esforço inútil. E esforço demais para parecer jovem produz melancolia disfarçada de euforia. O ridículo, nesse caso, não está em rir alto, exagerar um pouco ou cometer uma imprudência inocente. Está em imaginar que só há vitalidade onde ainda houver traços de uma juventude que não existe mais.

Amizades não são belas porque nos devolvem ao que fomos. São belas porque acompanham o que nos tornamos.

Porque suportam o peso das perdas, a mudança do corpo, o estreitamento de certas paciências, a ampliação dos silêncios. Já não se precisa do excesso para provar intensidade. Há vínculos que, quando amadurecem, trocam a estridência pelo acolhimento. E isso não é empobrecimento. É depuração.


Talvez uma das formas mais escondidas de vazio seja essa recusa visceral de envelhecer que se traveste de irreverência. A pessoa se agarra aos trejeitos, aos impulsos, ao vocabulário, ao repertório de um outro tempo como quem tenta detê-lo. Não percebe que o que comove na juventude não é o gesto, mas a sua coincidência com aquele momento da vida. Fora dali, o mesmo gesto pode soar não como liberdade, mas como desencontro patético.


Há uma elegância rara em aceitar que o tempo não nos diminui quando o acompanhamos de mãos dadas. Ao contrário: ele nos acrescenta espessura. Cada idade tem suas delicadezas, sua voltagem própria, seu modo particular de desejar, de rir, de se comover e de permanecer. O encanto não está em fraudar a passagem dos anos, mas em descobrir o que cada etapa nos oferece em troca daquilo que nos retira. Há perdas, sem dúvida. Algumas amizades passam, outras ficam. Como tudo na vida.

As que ficam são aquelas que não exigem de ninguém a encenação de uma versão antiga de nós mesmos. Porque todas as idades tem vida para ser vivida.E quanto mais vida, melhor.

Edmir Saint--Clair

RELAÇÕES MÁGICAS

 

Relações verdadeiras e profundas fazem mágicas reais. Acontecem entre pessoas sensíveis que entram numa sintonia única e extraordinária, que desperta no âmago de suas almas, o melhor de cada uma delas, fazendo com que se apaixonem uma pela outra e ambas por si mesmas. Quanto mais se fazem bem, mas bem fazem cada um a si mesmo, aos outros e ao mundo...

São raras, mas existem. 

Edmir Saint-Clair

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