A multidão contemplava, embevecida, aquele show de
luz e sombras, enquanto o sol se deitava aos poucos, aconchegado pelo Dois
Irmãos. O mar, o sol e a montanha reunidos no mesmo espetáculo sublime e diário da
natureza carioca. Assim que me posicionei sobre a pedra, vi aquela garota linda
— e ela também me viu.
A partir daquele instante, fiquei alheio a tudo que acontecia
ao redor. Ela me fitava de forma acintosa e eu também. Menos de dez metros nos
separavam, além das dezenas de pessoas entre nós. Apenas nos olhávamos
fixamente, e a distância não impedia que isso fosse absurdamente evidente: nossas pupilas haviam
se conectado além de tudo e todos. Além de nós mesmos. Não sorrimos, não
piscamos, não fizemos menção alguma de nos aproximarmos — ficamos imóveis,
absurdamente focados. Como num transe profundo. Algo que eu não conhecia estava acontecendo, profundo e arrebatador.
Enquanto ainda havia luz suficiente para distinguir
traços no escuro, permanecemos ali, ligados por algo indescritível e inédito — até o sol se pôr completamente e a vida virar noite. Saímos
misturados à multidão, sem que nos encontrássemos.
Passaram-se quarenta anos.
Mais uma vez, um pôr do sol no Arpoador, num verão que só existe no Rio. Após uma vida inteiro, lá estava eu e lá estava ela. A reconheci pela luminosidade dos olhos quando cruzamos nossos olhares. Ela também.
Agora, um
homem e uma mulher já envelhecidos. Depois de toda uma vida, estávamos no mesmo
lugar, à mesma distância, diante de um momento tão sublime quanto aquele que
jamais esqueci.
Novamente, mergulhamos no mesmo transe de antes,
enquanto a natureza repetia seu espetáculo de verão. Permanecemos exatamente
como há quarenta anos.
As minhas pupilas engolidas pelas dela — e as dela
pelas minhas — à distância, saciando uma fome antiga da alma. Não nos
aproximamos. Não valia a pena tocar aquela lembrança tão bonita, profunda e
intensa com as ásperas mãos que as mazelas da vida haviam calejado .
Sabíamos que estávamos sentindo exatamente a mesma coisa. A experiência que os anos nos haviam ensinado nos fazia ter certeza disso. O mesmo sentimento habitava nossos corpos naquele momento, pela segunda vez. Intocado.
O inexplicável, o etéreo e o sublime se encontraram em nós, nos arremessando à uma dimensão singular onde nossos sentimentos se entrelaçaram num abraço de almas, num poema silencioso e perfeito escrito, com rara sensibilidade, pela magia da vida.
Até que o sol se pôs por completo, quando cada um levou o outro consigo para sempre.
Mesmo sem nunca
termos nos conhecido, sabíamos que compartilhávamos aquele mesmo sentimento inexplicável, profundo e intocável.
Edmir St-Clair



