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QUANTO MAIS VIDA MELHOR

 

        Há amizades que atravessam décadas como certas casas antigas: permanecem de pé, mas não sem reformas. Quem espera encontrar nelas exatamente a mesma mobília, os mesmos ruídos, a mesma desordem juvenil, talvez não esteja buscando amizade, mas taxidermia emocional. Porque o afeto verdadeiro não congela; ele amadurece ou, pelo menos, deveria. E, se amadurece, muda de tom, de ritmo, de necessidade.

Existe uma tentação sentimental em acreditar que os velhos amigos nos autorizam a voltar a ser quem fomos um dia no passado. Como se a intimidade fosse um salvo-conduto para a repetição, para a falta de polidez que o tempo nos ensina que não devemos ter com nossas relações mais caras. Mas não basta reunir meia dúzia de memórias, dois apelidos gastos e algumas histórias indecentes para ressuscitar a juventude. Nem sempre o que retorna vem carregado de vida. Às vezes, vem apenas como um assustado espasmo de quem implora para não olhar o espelho.

Há um ponto em que tentar repetir gestos de outros tempos deixa de ser espontaneidade e passa a ser negação. Não da alegria, que é sempre bem-vinda, mas do próprio curso da vida. Certos comportamentos, quando deslocados de seu tempo, não recuperam frescor: revelam esforço inútil. E esforço demais para parecer jovem produz melancolia disfarçada de euforia. O ridículo, nesse caso, não está em rir alto, exagerar um pouco ou cometer uma imprudência inocente. Está em imaginar que só há vitalidade onde ainda houver traços de uma juventude que não existe mais.

Amizades não são belas porque nos devolvem ao que fomos. São belas porque acompanham o que nos tornamos.

Porque suportam o peso das perdas, a mudança do corpo, o estreitamento de certas paciências, a ampliação dos silêncios. Já não se precisa do excesso para provar intensidade. Há vínculos que, quando amadurecem, trocam a estridência pelo acolhimento. E isso não é empobrecimento. É depuração.


Talvez uma das formas mais escondidas de vazio seja essa recusa visceral de envelhecer que se traveste de irreverência. A pessoa se agarra aos trejeitos, aos impulsos, ao vocabulário, ao repertório de um outro tempo como quem tenta detê-lo. Não percebe que o que comove na juventude não é o gesto, mas a sua coincidência com aquele momento da vida. Fora dali, o mesmo gesto pode soar não como liberdade, mas como desencontro patético.


Há uma elegância rara em aceitar que o tempo não nos diminui quando o acompanhamos de mãos dadas. Ao contrário: ele nos acrescenta espessura. Cada idade tem suas delicadezas, sua voltagem própria, seu modo particular de desejar, de rir, de se comover e de permanecer. O encanto não está em fraudar a passagem dos anos, mas em descobrir o que cada etapa nos oferece em troca daquilo que nos retira. Há perdas, sem dúvida. Algumas amizades passam, outras ficam. Como tudo na vida.

As que ficam são aquelas que não exigem de ninguém a encenação de uma versão antiga de nós mesmos. Porque todas as idades tem vida para ser vivida.E quanto mais vida, melhor.

Edmir Saint--Clair

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