Com
o passar dos anos, todos vamos sofisticando a forma como processamos nossas
experiências pessoais. Estamos constantemente fazendo isso. Eventualmente,
revisitamos experiências anteriores e as resignificamos. Graças a essas experiências,
acabamos por ganhar um conhecimento empírico a respeito de nós mesmos que nos
permite ser mais assertivos em nossos posicionamentos e opiniões. À evolução
desse processo é o que chamamos de amadurecimento.
Nesses
tempos de quarentena, é inevitável que esse processo de lembrar eventos
adormecidos seja potencializado.
Como
conseqüência imediata, sentimos recrudescer os mesmos sentimentos que
experimentamos na ocasião original. Está aí uma excelente oportunidade para
resignificarmos esses incômodos fantasmas que nos atrapalham quase sem
percebermos. Assim, como, também, reforçar aqueles positivos que reforçam
nossas crenças pessoais e autoestima.
Tenho
revisitado, na memória, muitos desses eventos e recontatado vários amigos, que
não via há tempos, pelas redes sociais.
Pena
nem todos percebem e aproveitam, de forma inteligente, tudo o que a passagem do
tempo pode nos proporcionar.
Ficar
velho todos os que não morrerem antes ficarão. Mas, amadurecer não, exige
trabalho interno, é mérito. Ser uma pessoa madura dá trabalho, não é pra
qualquer um. É preciso ser gentil, ser amigo dos amigos e ter atitudes que
aumentam a auto-estima e o respeito alheios. Ser gente boa oferece muitas vantagens,
mas quem é gente boa de verdade não o é por elas. É porque amadureceu.
Sim,
amadurecer é gostoso e faz muito bem à autoestima e funciona, também, para que
nossos amigos continuem a gostar e a confiar em nós. Mudar é gostoso e
desafiador. Muitas vezes nos leva a ter surpresas muito boas conosco mesmos,
nos descobrindo melhores do que antes. E o que é ser melhor? Isso é um parâmetro
personalíssimo e de importância fundamental, um derivado da maturidade, o autoconhecimento. Exige uma pré-disposição para aceitar e introjetar as constantes mudanças pelas quais passamos como resultado de nossas experiências diárias.
Nunca
entendi alguém bater no peito e declarar que “sempre fui assim e não vou
mudar”! Mesmo sendo um imbecil que
ninguém suporta...
Amadurecer
significa, também, aprender como cada um de nossos amigos gosta ou não gosta de
ser tratado. Aprendemos a sofisticar nossa empatia. E, é um dever de cada um desenvolvê-la
constantemente, caso contrário corremos o risco de nos tornarmos inconvenientes,
chatos e repetitivos.
Envelhecer
sem amadurecer é aprisionar nossa criança num corpo de velho.
Houve
época em que eu tinha certo ranço e muita dificuldade ao ter que lidar com
certos amigos de adolescência que não tinham amadurecido. Ao contrário, depois
dos 50 pareciam ter regredido. Era quase insuportável ter aturá-los em certos eventos, e isso é muito
triste.
Não
sou psicólogo para ficar construindo teorias de como e porque acontece isso com
algumas pessoas, mas testemunho constantemente esse fato.
Uma
coisa é um encontro de amigos num churrasco, onde todos estão ali para ser
criança mesmo, para brincar e se divertir. Não é dessas ocasiões que estou
falando.
Estou
falando daqueles que não mudam sua forma de tratar o mundo por não terem
percebido que o passar do tempo trás a necessidade de novas posturas e
atitudes, mesmo, e principalmente, com os velhos amigos.
É
inteligente e agradável aprendermos o valor da gentileza, do carinho e da
confiança, que são valores que levam ao aprofundamento das amizades. Não existe
nada mais compensador do que reverenciar e ser reverenciado pelos amigos.
O
tempo passa, e algumas brincadeiras e comportamentos, que eram comuns quando em crianças e
adolescentes, não tem mais lugar quando nos tornamos adultos. Por mais óbvio,
nem todos atentam para esse aspecto nevrálgico das relações.
Muitas
vezes, nos reencontros, presenciais ou virtuais, esse é um ponto que pode
causar muito embaraço quando nos deparamos com pessoas que não perceberam essas
sutilezas, essa lapidação que a vida nos exige.
É
comum, quando somos jovens demais, praticarmos brincadeiras grosseiras e
provocativas entre amigos. São apelidos, rótulos e outras coisas que, não são agradáveis mas que, suportamos porque é normal suportar naquela idade, faz parte da nossa cultura. Mas, quando a idade
adulta chega, nos tornamos cada vez mais avessos àquelas mesmas grosserias e
provocações. E os costumes e percepções mudam, evoluem, coletivamente também.
Mas,
nem todos pensam, se desenvolvem e amadurecem nesse sentido. Alguns continuam com as mesmas
grosserias e provocações de quando tinham 15 anos. Naquela época era chato, mas
todos riam. Trinta anos depois, é só muito chato e inconveniente. Ridículo e decepcionante.
Hoje,
não tenho mais o ranço que tinha desses amigos perdidos na terra do nunca. Ao
contrário, sinto empatia. Deve ser muito difícil e sofrido ser uma criança aprisionada
num corpo de velho. E,
só existe um remédio para isso; amadurecer.
Quando a gente amadurece, em vez de detestar envelhecer, descobre que as
coisas boas podem não acabar nunca.
Ainda
bem que, por outro lado, existem também aqueles reencontros que fazem nossa alma brilhar e descobrir novos
talentos de velhos amigos.
Mas não consigo deixar de sentir uma certa tristeza quando reencontro amigos que nunca cresceram. Estão deixando de aproveitar uma excelente parte da vida.