− Vamos morar em Brasília.
Ouvi claramente, mas custei a processar a informação. Ninguém naquela
mesa de jantar esboçou reação alguma. O silêncio foi sepulcral. Respirei fundo.
Levantei-me e percorri o caminho até sair pela porta de casa, anestesiado.
Estava em choque. O pensamento seguinte foi nos amigos, nas meninas que mal
começara a conhecer e nos meus planos, e deles não constava morar em Brasília.
Não sabia como lidar com aquela enxurrada de emoções e sentimentos que me
tomaram e fervilhavam por todo meu corpo.
A partir daquele instante minha vida mudaria para sempre e, por algum
motivo, eu percebi isso com uma clareza assustadora.
Resolvi que não contaria aos amigos. Não por enquanto. De preferência
nunca. Não sabia por quê. Talvez por receio de que eles não sentissem a mesma
tristeza que eu estava sentindo.
Mas a notícia se espalhou, meu irmão e irmã não pensavam como eu.
Meu primeiro amigo a saber me surpreendeu por sua reação: ficou triste e
demonstrou. Fiquei mais triste ainda, não esperava essa reação, ele era um
gaiato, fazia piada com tudo, mas dessa vez não fez.
As coisas estavam mudando. Os amigos e amigas foram cúmplices de
momentos de tristeza e outras emoções desconcertantes e inéditas que me
aconteceriam dali para frente, típicos daqueles melodramas adolescentes baratos
que eu detestaria não ter vivido pessoalmente. Se por um lado a tristeza era
presente, por outro, nunca havia me sentido tão querido por todos.
Meu pai tentou nos consolar, nos prometendo deixar o apartamento da família
intacto para que pudéssemos vir ao Rio sempre que possível. Não me consolou nem
um pouco esse prêmio de consolação. Mal sabia eu o quanto esse detalhe seria maravilhoso para mim num futuro muito próximo.
Na noite véspera de Natal, depois de passarmos a meia-noite cada um em
sua respectiva casa dos pais, fomos nos encontrar na casa do Marquinho. Cada um
de meus amigos, em separado, me falou alguma coisa carinhosa que marcou aquela
noite de forma indelével.
Antes de voltar para casa, caminhei sozinho pela praia da minha cidade
chamada Leblon. Caminhei por minha infância, meus primeiros amigos na Rua José
Linhares, na Bartolomeu Mitre, por minha adolescência no Campestre (clube
tradicional do Leblon), no Santo Agostinho... Lugares icônicos do bairro e da
Cidade Maravilhosa: o bar Clipper, a lanchonete BB Lanches, Balada Sucos, Petit
Fours, Pizzaria Guanabara (Baixo Leblon). Cada rua e cada canto com suas muitas
histórias, todas partes inseparáveis de mim.
O tempo começou a passar mais rápido e nunca mais passaria devagar.
Nunca mais.
Dia da partida.
Pedi a todos que não fossem ao aeroporto, que se despedissem de mim ali
mesmo, na praia. Há semanas eu me despedia, estava cansado, muito cansado. O
voo para Brasília estava marcado para o final da tarde.
Acordei cedo e a primeira coisa que pensei foi nos meus óculos escuros.
Meus olhos já acordaram chorando. Me demorei na cama, me demorei no banheiro,
me demorei na esperança de que o tempo se demorasse também.
Desde o dia em que soube que iria embora, comecei a prestar mais atenção
em tudo e em todos que me rodeavam a vida toda e que até aquele momento eram
apenas parte da paisagem diária. Desde o porteiro até os portugueses do bar,
Seu Joaquim e Seu Antônio. Não posso esquecer-me da Dona Maria!
Parecem os nomes mais óbvios para personagens caricatos de portugueses
donos de Botequim no Rio. Mas, esses são de pessoas absolutamente reais que
tinham exatamente esses nomes. E, são ainda mais peculiares do que qualquer
personagem fictício já criado. Uma das coisas que eu sempre achei curioso
demais neles, era o fato de, durante anos a fio, encontrar com eles tarde da
noite, depois de fecharem o bar, andando muito lentamente pela rua principal do
Leblon, e sempre na mesma formação: o Seu Antônio na frente carregando uma
sacola, seguido pela Dona Maria, a uns dois passos atrás, sempre carregando
mais sacolas do que ele. Um hábito curioso e estranho. Eles não andavam juntos.
Eles andavam separados, indo para o mesmo lugar. Eram casados e já aparentavam
idade.
O terceiro sócio do bar, o Seu Joaquim, era um capítulo à parte.
Completamente lesado. Ele era tão confuso que alguns sacanas davam uma nota de
cinco para pagar algo de 10 e ainda levavam troco.
O certo é que naqueles dias tudo e todos haviam adquirido um significado
profundo e já faziam parte da minha saudade. Parei no bar para comprar cigarros
e até a atrapalhação do seu Joaquim com o troco, que sempre me irritava, desta
vez me provocou ternura. Cheguei à praia mais cedo que o de costume e caminhei
pela areia, perto do mar, até o final do Leblon. Como sempre fizera, mas nunca
como naquela manhã.
Eu estava começando a trilhar um caminho que ainda não conhecia.
Havia passado toda minha vida naquelas areias sob os olhares dos
gigantes de pedra que, agora, pareciam estar tristes por minha partida. Os
gigantes eram o morro Dois Irmãos, no final do Leblon, nossos guardiões, meus
irmãos...
Olhei, tentando reter aquela imagem, fotografá-la, aprisionar na memória
cada detalhe daquelas montanhas sagradas. Fixar-me naquela paisagem, imprimi-las
na parte mais profunda do meu ser, me agarrando a elas como se fossem
desaparecer no minuto seguinte.
Caminhando de volta, comecei a encontrar os amigos. Ritinha foi a
primeira a me encontrar, ela me fizera sentir amado naquele verão, quando o sol
dourou nossa pele e nos fez feliz. Meus amigos foram chegando aos poucos e, um
a um, sentaram-se ao meu lado, calados. Uma incomum formação visual de garotos
e pranchas de surf coloridas e alinhadas na beira do mar da praia do Leblon.
Cada um com suas pranchas, mas ninguém dentro d'água. O mar estava vazio.
Despedi-me e fui para casa, estava muito difícil ficar ali.
Chegou à hora. Entrei no carro e fomos para o Aeroporto do Galeão, eu,
meus pais e meus irmãos. Ao chegar à entrada, a primeira coisa que vi foram meus
amigos, tinham ido de surpresa no carro do Bode e na Kombi lotada do porteiro
de um dos prédios do Condomínio dos Jornalistas. Foi um dos momentos mais
emocionantes que vivi em toda minha vida. Como foi bom vê-los. Uma emoção
profunda. Inesperada, comovente e inesquecível.
Eu sabia que estava vivendo um dos momentos mais marcantes da minha
vida. Uma consciência da importância daquele momento, da eternidade daqueles
instantes.
Meu desejo era abraçar todos ao mesmo tempo e nunca mais ir embora dali,
viver para sempre no saguão do Aeroporto do Galeão. Mas, eu tinha que ir
embora.
A vocês, meus amigos e amigas, minha mais profunda gratidão por me
fazerem sentir tão querido e tão amado. Vocês, assim como os gigantes de pedra,
estarão para sempre em minhas lembranças e em minha alma eternamente.
A você, doce Ritinha, obrigado pelo desmaio no aeroporto, por seu
carinho e pelo seu lindo coração.
Muito obrigado pelo amor de todos vocês.
Uma semana depois, eu estava de volta!

