RÁDIO 101 SMOOTH JAZZ - N.Y.

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A DESPEDIDA

  

Eu faria 17 naquele ano e era feliz. O verão dourava a pele e a vida corria fácil. Até o dia em que meu pai chegou do trabalho e falou sem a menor cerimônia:

− Vamos morar em Brasília. 

Ouvi claramente, mas a ficha demorou a cair. Ninguém naquela mesa de jantar esboçou reação alguma. O silêncio foi sepulcral. Respirei fundo, levantei-me e percorri o caminho até sair pela porta de casa anestesiado. Estava em choque. O pensamento seguinte foi nos amigos, nas meninas e nos meus planos. Definitivamente, deles não constava morar em Brasília. Não sabia como lidar com aquela enxurrada de emoções e sentimentos que fervilhavam por todo meu corpo.

A partir daquele instante minha vida mudaria para sempre e,  por algum motivo, eu percebi isso com uma clareza assustadora. 

 Resolvi que não contaria aos amigos. Não por enquanto. De preferência nunca.

Não sabia porquê. Talvez por receio de que eles não sentissem a mesma tristeza que eu estava sentindo.

O primeira a saber me surpreendeu por sua reação. Ficou triste e demonstrou. Fiquei mais triste ainda. Não esperava essa reação, ele era um gaiato, fazia piada com tudo. Mas dessa vez não fez. As coisas estavam mudando. 

Os amigos e amigas foram cúmplices de momentos de tristeza e outras emoções desconcertantes e inéditas que me aconteceriam dali pra frente, típicos daqueles melodramas adolescentes baratos que eu detestaria não ter vivido pessoalmente. Se por um lado a tristeza era presente, por outro, nunca havia me sentido tão querido por todos.

Na noite véspera de Natal, depois de passarmos a meia-noite cada um em sua respectiva casa dos pais, fomos nos encontrar na casa do Marquinho. Cada um de meus amigos, em separado, me falou alguma coisa carinhosa que marcaria aquela noite de forma indelével.

Antes de voltar pra casa, caminhei sozinho pela praia da minha cidade chamada Leblon. Caminhei por minha infância, meus primeiros amigos na Rua José Linhares, na Bartolomeu Mitre, por minha adolescência no Campestre, no Santo Agostinho, no Clipper, no BB lanches, Balada Sumos, Petit Fours... Cada rua com suas muitas histórias. Minhas.

O tempo começou a passar mais rápido. E nunca mais passaria devagar.  

        Dia da partida. Pedi a todos que não fossem ao aeroporto, que se despedissem de mim ali mesmo, na praia. Há semanas eu me despedia, estava cansado, muito cansado. O vôo para Brasília estava marcado para o final da tarde. Acordei cedo e a primeira coisa que pensei foi nos meus óculos escuros. Me demorei na cama, me demorei no banheiro, me demorei.       

Desde o dia em que soube que iria embora, começara a prestar mais atenção em tudo e em todos que me rodeavam a vida toda e que até aquele momento eram apenas parte da paisagem diária. Desde o porteiro até os portugueses do bar, Seu Joaquim e Seu Antônio. Não posso esquecer-me da D. Maria! 

Parecem os nomes mais óbvios para personagens caricatos de portugueses donos de Botequim no Rio. Mas, esses são de pessoas absolutamente reais que tinham exatamente esses nomes. E, são ainda mais peculiares do que qualquer personagem fictício já criado. Uma das coisas que eu sempre achei curioso demais neles, era o fato de, durante anos a fio, encontrar com eles tarde da noite, depois de fecharem o bar, andando muito lentamente pela rua principal do Leblon, e sempre na mesma formação; o Seu Antônio na frente carregando uma sacola, seguido pela D. Maria, a uns dois passos atrás, sempre carregando mais sacolas do que ele. Um hábito curioso e estranho. Eles não andavam juntos. Eles andavam separados, indo para o mesmo lugar. Eram casados e já aparentavam idade.

O terceiro sócio do bar, o Seu Joaquim, era um capítulo à parte. Completamente lesado. Ele era tão confuso que alguns sacanas davam uma nota de cinco para pagar algo de 10 e ainda levavam troco. 

O certo é que naqueles dias tudo e todos haviam adquirido um significado especial e já faziam parte da minha saudade. Parei no bar para comprar cigarros e até a atrapalhação do seu Joaquim com o troco, que sempre me irritava, desta vez me provocou ternura. Cheguei à praia mais cedo que o de costume e caminhei pela areia, perto do mar, até o final do Leblon. Como sempre fizera, mas nunca como naquela manhã. Eu começara a trilhar um caminho que ainda não conhecia.

Passara toda minha vida naquelas areias sob os olhares dos gigantes de pedra que, agora, pareciam estar tristes por minha partida. Os gigantes eram 2 Irmãos. Meus irmãos. 

Olhei, tentando reter aquela imagem, fotografá-la, aprisionar na memória cada detalhe daquelas montanhas sagradas. Fixar-me naquela paisagem, imprimi-las na parte mais profunda do meu ser, me agarrando a elas como se fossem desaparecer no minuto seguinte.

Caminhando de volta, comecei a encontrar os amigos. Ritinha foi a primeira a me encontrar, ela me fizera sentir amado naquele verão, quando o sol dourou nossa pele e nos fez feliz. Meus amigos foram chegando aos poucos e, um a um, sentaram-se ao meu lado, calados. Cada um com suas pranchas, mas ninguém dentro d'água. Uma incomum formação visual de garotos e pranchas alinhados na beira do mar da praia do Leblon. Todos calados ao meu lado.

Despedi-me e fui para casa, estava difícil ficar ali.

Chegou à hora. Entrei no carro e fomos para o Aeroporto do Galeão. Meus pais e irmãos. Ao chegar à entrada, a primeira coisa que vi foram meus amigos, tinham ido de surpresa no carro do Bode (Bode não Carlinhos! Que Carlinhos? O Bode) e na Kombi lotada do porteiro de um dos prédios do Condomínio dos Jornalistas. Foi um dos momentos mais emocionantes que vivi em toda minha vida. Como foi bom vê-los. Uma emoção profunda. Inesperada, comovente, inesquecível. 

Eu sabia que estava vivendo um dos momentos mais marcantes da minha vida. Uma consciência da importância daquele momento, da eternidade daqueles instantes.

 Meu desejo era abraçar todos ao mesmo tempo e nunca mais ir embora dali, viver para sempre no saguão do Aeroporto do Galeão. Mas, eu tinha que ir embora.

A vocês, meus amigos e amigas, minha mais profunda gratidão por me fazerem sentir tão querido e tão amado. Vocês, assim como os gigantes de pedra, estarão para sempre em minhas lembranças e em minha alma eternamente. À você, doce Ritinha, obrigado pelo desmaio no aeroporto, por seu carinho e pelo seu lindo coração. 

Muito Obrigado pelo amor de todos vocês.

Uma semana depois eu estava de volta. 

Mas, minha vida nunca mais foi a mesma.


- Edmir Saint-Clair

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