Rio de Janeiro - Bairro do Leblon,
início do outono, 20h55m.
Saio da academia Lucinha & Cláudio e atravesso a Rua Humberto de Campos em direção à Rua José Linhares, que fica a menos de cinquenta metros. Assim que dobro a esquina, vejo uma senhora idosa caminhando na direção contrária. Ela dá uma topada numa pedra portuguesa solta na calçada, se desequilibra e começa a acelerar o passo sem controle. O corpo frágil e cansado não consegue se reequilibrar. Ela vai cair.
Corro em sua direção para tentar ampará-la mas, antes que eu chegue perto o suficiente, surge do nada uma mulher muito esguia, de cabelos pretos curtos, que a segura, colocando-a de pé , sumindo em seguida.
Tudo não dura mais do que poucos segundos.
Fico petrificado com a cena. Sinto-me muito estranho, um desconforto cerebral físico, extremamente desagradável, como se tivesse levado uma pancada forte na cabeça, por dentro. Uma confusão agoniante. Uma perda total da noção do que é ou não realidade. Como uma pane inexplicável no meu sistema mental.
Como alguém aparece e desaparece do nada? Sim. Ela não surgiu e foi embora de forma gradual, como acontece naturalmente. Ela apareceu e desapareceu, como um flash fotográfico.
A senhora idosa mostra-se atônita e tão perplexa quanto eu. Quando conseguimos trocar olhares, são de puro espanto! Aproximo-me um pouco mais e pergunto-lhe o que tinha acontecido. Ela relata exatamente a mesma coisa que eu vi. Utiliza, inclusive, as mesmas expressões: “apareceu do nada” e “desapareceu do nada”. Ela descreve o que eu presenciei com a mesma precisão de detalhes que captei. Ou seja: quase nenhum. A velocidade do evento foi como a de um vídeo em câmera extremamente acelerada.
Logo percebemos que há uma prova física e inequívoca do ocorrido: a senhora idosa veste uma blusa branca de mangas compridas. Nela, estão estampadas com nitidez duas marcas de mãos, perfeitamente visíveis e brilhantes, no exato local onde o “ser” a segurou. Olhamos para as marcas e, em seguida, um para o outro — ainda com expressões dominadas pela mais absoluta incredulidade.
Naquele momento soube que testemunhara algo fantástico e extraordinário. E que não existiam palavras capazes de descrever aquele flash inacreditável e bizarro.
Ficamos em silêncio, eu e a senhora idosa, tomando fôlego e reiniciando os pensamentos. Pouco depois, seguimos caminhando lentamente até a entrada do prédio para onde ela se dirigia. Ambos em choque e no mais absoluto silêncio.
Despedimo-nos com o olhar, sem trocar mais nenhuma palavra. Não havia nada a dizer. Nossos olhares se acenam, confirmando a cumplicidade que acabara de nascer.
Nunca mais a vi e nunca entendi o que havia acontecido.
- Edmir Saint-Clair
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