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O QUE É A CONSCIÊNCIA?

 

“Para ver a ilha, temos que sair da ilha.” José Saramago

Se tivesse que escolher uma palavra para definir a existência humana, eu não hesitaria nem um segundo: consciência.

O sentido interior da percepção: visões, sons, pensamentos, sentimentos. A presença íntima da autoconsciência, esse estar ciente de si sendo você mesmo. Esse é o “problema difícil” da consciência. A senciência interna, nosso filme interior, a fronteira final da exploração humana.

Sou fascinado por todas as diversas maneiras pelas quais a consciência pode ser examinada. Sei que ela tem importância vital e essencial em nossa condição humana. O que não sei é: o que é a consciência?

Como explorá-la?

Geralmente, filósofos falam com filósofos, neurocientistas com neurocientistas. Muitas ideias interessantes, mas nenhum avanço definitivo. A consciência não é divisível, não funciona de forma compartimentalizada e estanque. A natureza não sabe que o ser humano a fraciona para tentar entendê-la. Nela, não existe física, química, filosofia, matemática, biologia e todas as disciplinas que o ser humano inventou para tentar compreendê-la. É tudo vida, é tudo natureza, é tudo uma coisa só interagindo consigo mesma. É tudo dentro. Não existe fora.

Podemos ampliar o discurso e olhar para a consciência, incluindo o problema difícil da experiência interior, através de diferentes filtros conceituais? Romper fronteiras, emancipar nosso pensamento?

Mas como começar do zero, com o mínimo de viés? Segundo Daniel Kahneman, a mente humana está longe de ser uma observadora neutra de si mesma e do mundo. Julgamos por atalhos, confundimos coerência com verdade e frequentemente superestimamos a solidez daquilo que pensamos saber. Isso torna ainda mais difícil qualquer tentativa de partir do zero.

Definir o que é a consciência é o primeiro passo óbvio. Mas a verdade é que ainda não conseguimos passar desse ponto. Ainda sequer conseguimos dar esse primeiro passo.

Sempre fui obcecado pela consciência a vida inteira. Quem é esse outro que vive acima de mim, sem deixar de ser eu mesmo? Quem é esse que me julga? Se sou eu mesmo, por que não me impeço de fazer merdas?

Leibniz disse que, se pudéssemos expandir o cérebro até o tamanho de um salão e caminhar dentro dele, ainda assim não encontraríamos a consciência. E a ciência não conseguiu encontrá-la até agora. Vasculha o cérebro há séculos, mas não encontra onde a consciência é produzida dentro dele.

A perspectiva de Wittgenstein

Acho que o filósofo que mais tentou nos convencer disso foi Ludwig Wittgenstein. O ponto central de seu argumento era o chamado “argumento da linguagem privada”. Resumindo seu pensamento, a linguagem é uma ferramenta extremamente precária, e nunca se pode afirmar que as pessoas compreendem o significado das palavras da mesma forma que você. A imprecisão das palavras é um problema insolúvel até agora.

Então, como saber que outras pessoas têm consciência da mesma forma que você?

Para Wittgenstein, a consciência não é uma “coisa gasosa interna” à qual você tem acesso privilegiado, mas que é problemática para todos os outros. Ela é tão problemática para você próprio quanto para os outros.

Só podemos observar e tentar entender melhor o que é a consciência através da própria consciência, e cada um só pode estudar a sua. Esse é o problema mais difícil. O grande escritor e, a meu ver, filósofo, José Saramago tem uma excelente e perspicaz percepção desse problema ao enunciar: “Para ver a ilha, temos que sair da ilha.” A pergunta importante, a que valeria prêmio, é: como?

Sou um otimista. Acredito que o mesmo progresso tecnológico que nos permite hoje observar um cérebro funcionando em tempo real, fato impensável nos tempos de Freud, nos levará, um dia, a um conhecimento cada vez mais próximo da realidade do que acontece em nossos cérebros. E então surgirão respostas que nos levarão a novas perguntas, que nos levarão a novas respostas e a novas perguntas. E assim seguirá caminhando a humanidade.

 Edmir Saint-Clair