ORIENTADOR LITERÁRIO

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A ANSIEDADE NOSSA DE CADA DIA

 

Trabalhei durante décadas entre Rio e São Paulo e pude observar com clareza como as duas cidades lidam de maneiras distintas com a opressão econômica e com a competitividade insana dos mercados, que acabam por produzir uma pressão psicológica cujas consequências, via de regra, comprometem a saúde mental.

Cidades tão próximas e tão distantes.

Rio e São Paulo são duas metrópoles marcadas por diferenças estruturais e culturais profundas. Cada uma desenvolveu sua própria maneira de sobreviver não apenas ao crime organizado e ao mal-estar contemporâneo, mas também àquele que talvez seja o grande fantasma da saúde mental em nosso século: a ansiedade doentia e sufocante para a qual a velocidade da vida tecnológica nos empurra, sem pausa, todos os dias.

No Rio, a violência e a insegurança se mostram de forma mais escancarada, mais evidente, mais física. Estão nos roubos em plena luz do dia, no estampido dos tiros, nos arrastões imprevisíveis. Em São Paulo, a violência assume outra forma, camuflada de oportunidade de progresso financeiro. Confunde-se com a busca insana por produtividade, com a disciplina submissa, com os assédios morais cotidianos e com a necessidade de sustentar uma performance instagramável e inatingível.

Numa, a vida parece sitiada pelo entorno; noutra, pela exigência de corresponder ao inalcançável.

Mas o Rio tem as praias, esse oásis quase espiritual onde o carioca ainda pode se refazer da brutalidade dos acontecimentos. O mar, a luz, o horizonte aberto, a maresia: tudo ali oferece uma forma de redenção, mesmo que parcial e eventual. Como se aquela paisagem impedisse a alma do carioca de desistir por completo.

São Paulo não concede essa trégua com a mesma generosidade. Seu sofrimento é mais funcional, mais discreto, mais adaptado à rotina dos negócios. Mais contido. Não interrompe: corrói. Não explode: infiltra-se. Espalha-se pelos cantos, pelos poros, pelas pessoas, pelos lugares.

No fim, as duas cidades apenas aprenderam a lidar, de modos distintos, com as doenças, as mazelas e a impessoalidade do mundo contemporâneo que esvazia a vida de sentido.

No Rio, esse mal fere mais à vista, toma de assalto, rouba qualquer migalha de tranquilidade que ainda resista à rotina agressora. Em São Paulo, ele se infiltra como um vírus invisível que contamina o concreto e os homens, transformando-os em peças substituíveis, banais, quase destituídas de vontade própria.

Edmir Saint-Clair