ORIENTADOR LITERÁRIO

O ORIENTADOR LITERÁRIO - especializado em redação criativa - desperte sua criatividade adormecida.

MUITO ALÉM DO PRÓPRIO UMBIGO

 

     “Não sei como será a terceira guerra mundial, mas sei como será a quarta: com pedras e paus.” Albert Einstein

        Além da Rússia, dos Estados Unidos e de todas as potências europeias, a China também está no cenário bélico atual de maneira cada vez mais insidiosa — o que pode levar o mundo a um ponto ainda mais crítico na tensão em torno de uma guerra atômica. Ou evoluímos, ou, não sei não... pode dar merd4.

As tensões internacionais têm aumentado de forma perigosa e, sem ser alarmista, de uma maneira assustadora e rápida, contrapondo, como nunca antes, forças atômicas capazes de aniquilar a vida no planeta. Todas as potências nucleares do mundo estão em rota de colisão — e algumas já colidindo.

Vem-me à cabeça um pensamento que me acompanha há décadas. Na verdade, é um raciocínio em que comparo o estágio evolutivo-civilizatório humano com as etapas da vida de um indivíduo comum.

É simples: tomo por base o surgimento do Homo sapiens, que corresponderia ao nascimento de um indivíduo, e as eras seguintes da evolução da espécie seriam os diferentes estágios do crescimento humano. Ou seja: primeiro aprende a se levantar e ficar ereto, depois a andar, a falar, a se comunicar; depois entra na primeira infância, adolescência, juventude, maturidade — até chegar ao estágio máximo de progresso intelectual possível ao tempo de vida de um ser humano.

Por isso, para alcançar a era da sabedoria — que corresponderia à fase madura da evolução de um indivíduo — só será possível se a humanidade a alcançar como um todo.

É preciso que todos a alcancem de forma universal, o que só é possível através das contribuições individuais — e que delas se beneficiem de forma integral, pessoal e social.

Como resultado de um progresso construído pela humanidade como um todo, ao longo de milhares de anos, por caminhos abertos por todas as gerações precedentes, que foram deixando seus legados para que as gerações seguintes agregassem suas contribuições individuais e, assim, garantissem a continuidade dos avanços e conquistas.

Para que isso aconteça, temos que resolver a intrincada — e, até agora, insolúvel — equação de satisfazer a todos e a cada um, ao mesmo tempo. Não só para os humanos, mas incluindo todo o planeta.

Na minha aleatória opinião, a humanidade ainda está no início da adolescência: medindo forças, tamanhos, pesos, testando limites e desafiando a morte — briguentos, inconsequentes, irresponsáveis e loucos. Governados pelos hormônios. Vivendo como se não houvesse nem amanhã nem gerações futuras que terão que arcar com as nossas inconsequências.

A lei do humano mais forte é ainda mais cruel e impiedosa que a da natureza. Porque, entre os homens, as armas modernas — ditas convencionais — multiplicaram covardemente seu poder de matar indiscriminadamente populações inteiras e de destruir países e seus povos. Isso sem falar no pesadelo das armas atômicas!

Mesmo vivendo cada vez mais, poucos conseguem chegar ao estágio da maturidade, por falta de conhecimento sobre si mesmos e sobre a vida.

Porque não se importaram com o que é mais importante.

A maioria só envelhece — sem nada ter aprendido ou acrescentado.

Sem ter contribuído para a evolução da espécie.

Submergem na mediocridade, sem questionamento algum, apenas seguindo o rebanho — sem nada de pessoal a acrescentar.

Todos nós fazemos parte dessa jornada rumo à era da sabedoria, e todos temos como tarefa dar nossa contribuição pessoal para que tudo continue caminhando... e a contribuição de cada um — só esse “um”, individualmente — poderá dar.

Cada um de nós é original e único, e carrega em si uma pequena, mas insubstituível, peça do complexo quebra-cabeça da existência.

Mas poucos conseguem entender que o sentido da vida vai muito além... do próprio umbigo.

Edmir Saint-Clair


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AMAR E SER FELIZ - (Felicidade, desesperadamente)



           Fruto do mais legítimo acaso, caiu-me nas mãos um livro particularmente necessário para mim, naquele momento.

Identifiquei-me profundamente com os pensamentos ali expressos. Trata-se da transcrição de uma palestra do filósofo francês contemporâneo André Comté- Sponville.

 O nome do livro é Felicidade, desesperdamente.

Ele faz um passeio pela história da filosofia, e através da ótica de várias escolas filosóficas, discorre sobre as emoções humanas e, mais particularmente, sobre como o sentimento que chamamos de amor afeta diretamente nossos pensamentos e ações.

O livro me fez compreender o que sempre pensei e nunca havia conseguido enunciar e entender de forma tão clara e objetiva.

A identificação com a condução do raciocínio em torno do tema proposto pelo escritor foi completa. A primeira coisa que me fez ver, é que eu havia, finalmente, compreendido o que é amar de verdade, para mim. Não no sentido de intensidade, mas, no sentido de profundidade e amplitude. E, principalmente, no sentido da ação.

O amor saudável é aquele que desperta, espontaneamente, nossas melhores características pessoais. O lado mais humano, amigo, parceiro. É o que provoca a atitude de fazer o outro feliz em cada interação. É o cuidado de utilizar a percepção, que a sintonia com a pessoa amada provoca, para chegar aos mais deliciosos, profundos e nobres requintes do amor. 

E, por causa dessas atitudes bonitas para com o ser amado, nos vemos mais bonitos, iniciando um ciclo muito saudável. Nossa autoestima aumenta, o que nos faz amar o amor que sentimos pela outra pessoa. E, esse ciclo se estende ao sermos retribuídos e, por isso, amamos ainda mais a pessoa que nos faz sentir todo esse prazer de viver. Isso aumenta e se fortalece a medida em que transformamos esse amor em novas atitudes, nos fazendo capazes de sentir felicidade pela felicidade do outro.  Isso vai aprofundando cada vez mais um aspecto extremamente acolhedor e compensador numa relação: cultuar as afinidades.

Cada um do seu jeito, com as suas verdades. Unidos apenas pela felicidade de estar juntos. Pela alegria e o prazer que o amor pode proporcionar. 

É preciso aprender a amar saudavelmente e isso leva tempo. E, na maioria das vezes, dói aprender.

 A felicidade não existe para o amor dos imaturos, do desejo egoísta que quer o objeto porque não o tem. Do que quer a posse, o controle, o poder de manipular o outro através dos sentimentos.

Estes estão condenados a infelicidade.

Acredito no amor saudável que traz consigo a possibilidade real de felicidade. Que nos faz sentir alegria apenas com o pensamento de que a pessoa amada existe, e também nos ama. A simples ideia da existência do outro já é razão de se sentir alegria.

No amor saudável não existe posse. Existe desejo.

Não existe obrigação. Existe vontade.

Cada encontro acontece porque o desejo impulsionou. Porque traz prazer e alegria. Resultado de elementos químicos secretados se combinando e produzindo sinapses que inundam o cérebro com sensações arrebatadoras e quase incontroláveis. É o impulso do desejo no seu estado mais primitivo.

Quando este estado é potencializado pela sensação de se sentir o objeto de desejo do nosso objeto de desejo o prazer é indescritível, é o momento mais mágico da vida.

O amor saudável é capaz de produzir a sensação de felicidade além da própria felicidade; é o sentir felicidade pelo felicidade do outro tornando-a parte integral da nossa própria e assim, duplicar as possibilidades e a intensidade das felicidades compartilhadas. 

Dito dessa forma parece simples. Mas, definitivamente não é.

Exige muito aprendizado e vontade de ser e fazer a nossa vida e a de quem amamos, ser uma caminhada que valha a pena ser compartilhada.

- Edmir Saint-Clair


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O MONGE DE COPACABANA

Jorge havia passado sete anos no Tibet. Não porque fosse um espiritualista nato, mas para fugir de uma grave acusação envolvendo brigas de gangues que haviam culminado em homicídio. Ele não tivera participação direta no evento, mas fazia parte da turma que participou do crime e não tinha como provar que não estava no local no momento do ocorrido. Sem lhe restar esperança, sua família o sugeriu uma fuga para algum lugar onde não pudesse ser encontrado.

Jorge tinha um primo que se tornara, há pouco, monge no Tibet, que lhe ofereceu abrigo até que as coisas serenassem no Brasil. Para um praticante de lutas e frequentador assíduo de brigas de rua ou qualquer coisa parecida, seria uma mudança absoluta e, muitos apostaram, impossível.

Sem opção, Jorge partiu rumo ao Tibet. A caminho do mosteiro onde ficaria hospedado, teve acesso as últimas notícias sobre o julgamento de seu caso. Ele havia sido sentenciado há 8 anos de prisão, em regime fechado. Jorge deu graças a Deus por estar tão longe, não suportaria nem um mês numa penitenciária brasileira. Esse pensamento serenou sua alma.

Sete anos depois, Jorge aterrissa no galeão de volta a sua cidade natal e já resolvido com a justiça brasileira. É seu recomeço.

Sente-se um homem completamente diferente daquele valentão ridículo que fora um dia. Os ensinamentos que recebera o transportaram para outra dimensão dentro de si mesmo. No caminho até a casa dos pais, em Copacabana a primeira coisa que reconheceu foi a decadência do aeroporto, que já estava decadente há sete anos. A segunda, foi o cheiro da baía de guanabara saindo da ilha do governador. Nada mudara, mas, para ele, tudo mudara. Lembrou-se de um dos princípios básicos da sabedoria tibetana: quando você muda por dentro, tudo por fora muda junto.

Era verdade, nada do que via o incomodava mais.

Assim que terminou de tomar o café da manhã de boas-vindas que os pais lhe haviam preparado, resolveu ir até a praia de Copacabana, sua areia natal. Seus novos ares monásticos eram puro êxtase com tudo a sua volta. Os pais, o velho porteiro do prédio, a secretária doméstica que o viu crescer e todos que o viam exclamavam sobre a mudança impressionante que Jorge havia sofrido.

Jorge, a cada observação de alguém, pensava:

“A mudança interior, realmente, provoca muitas mudanças no mundo ao redor."

Chegou na praia, sentou-se, colocou seu celular e sua carteira ao lado e assumiu a postura tradicional de meditação. Havia poucas pessoas naquele dia nublado. Fechou os olhos e, ao som do barulho das ondas, meditou profundamente, Estava em paz.

Quando abriu os olhos, seu celular, sua carteira e toda calma e serenidade, que havia trazido do Tibet, haviam sumido.

Copacabana não é para amadores, nem para monges.

Depois disso, Jorge desistiu de fundar um templo para meditação e abriu mais uma academia de Jiu-Jitsu em Copacabana.

Edmir St-Clair

A PRIMEIRA FORMATURA DA FAMÍLIA

 

Ele nunca vira sua mãe tão feliz. A formatura do irmão mais novo rompia uma histórica limitação familiar que nunca tivera um membro formado na faculdade. A cerimônia prometia ser emocionante e ninguém da família deixara de ser convidado.

Na chegada ao local, estavam todos compenetrados e um tanto constrangidos com o requinte ao qual não estavam acostumados. O padrinho alugara um terno mais caro do que o de seu casamento com a madrinha. Tia Lúcia, a costureira da família, estava orgulhosa do fruto de seu árduo trabalho nos últimos 6 meses. Valera a pena, todas as mulheres da família estavam chiquérrimas.

Ele se sentiu leve e pleno quando viu a família ocupar uma fila inteira no enorme auditório da faculdade. Fora o excesso de perfumes, estavam todos com a alma e o corpo em vestes de gala, para testemunharem aquele evento que realizava a todos.

Quando o irmão mais novo caminhou em sua direção, vestido com a beca dos formandos, teve vontade de soltar o maior grito e abraço que já dera em alguém na vida.

O abraço silencioso e só não foi mais longo porque a organização requisitava a presença dos participantes no palco para dar início a cerimônia de formatura.

Ele se sentou na poltrona ao lado da mãe e, quando as luzes da sala se apagaram, se deram as mãos frias, trêmulas e fundidas na mesma emoção.

E viveram, a família inteira junta, um dos momentos mais felizes que viveram.

Edmir St-Clair

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FERA




 Destruir o berço, a mata, a essência,

Que acalenta, com sons , cores e frutos

O futuro que é da vida, não nos pertence.

 

Matar a mãe, cuspir no prato que o alimenta,

Suicidar-se, matar o futuro que é do filho,

Da beleza, do sonho, de todos que ainda virão.

 

A ganância, grande herança do nada,

Nos torna cegos, sem ver belezas

E rezamos, infiéis hipócritas,

Carrascos do ventre que nos gerou.

 

E perdidos os homens, tão sem caminho,

Se matam, matando tudo, seu próprio ninho.

Natureza que cria, que cura, que chora,

Pelo filho que lhe devora as entranhas.

- Edmir Saint-Clair

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O MISTÉRIO DO METEORITO EL ALI CONTRABANDEADO PARA A CHINA

Revisão e adaptação Edmir Saint-Clair a partir de matéria da Scientific American

O IMPACTO

Milênios atrás, um fragmento do céu cruzou o leste da África.

Nascido da colisão de asteroides antigos, o meteorito caiu com mais um baque do que um estrondo em um vale árido, onde hoje camelos pastam perto da vila de El Ali, na Somália.

Chamado pelos locais de Shiid-birood — “a rocha de ferro” — o meteorito El Ali pesa 13,6 toneladas de ferro e níquel.

Por gerações, foi um marco. Inspirou canções, lendas e poemas.

Uma delas conta que o vale era um paraíso verde até que seus habitantes deixaram de acreditar em Waaq, o deus local, que os puniu lançando pedras vulcânicas.

O meteorito teria sido o último aviso de sua ira. Durante séculos, moradores o martelaram, arrancando flocos metálicos ou afiando lâminas. Crianças o montavam como se fosse um cavalo. Até que, um dia, o céu foi roubado da terra.

O DESAPARECIMENTO

Hoje, o El Ali está longe de casa.

Vídeos tremidos mostram a rocha armazenada na China, onde negociantes tentam vendê-la por milhões — inteira ou em pedaços. Como chegou lá? A trajetória do nono maior meteorito do mundo envolve contrabando, corrupção e morte.

Em agosto de 2025, o Ministério da Cultura da Somália apelou à UNESCO, pedindo o reconhecimento do meteorito como patrimônio nacional e sua devolução. A resposta ainda não veio. O destino da rocha cósmica é um ponto de interrogação.

O ACHADO E A COBIÇA

Durante décadas, a pedra foi ignorada por todos, exceto pelos pastores que viviam sob sua sombra. Na Segunda Guerra, o exército italiano quis removê-la; depois, a ONU e grupos locais tentaram o mesmo. Mas a vila resistiu — até 2019.

Naquele ano, caçadores de opalas encontraram o meteorito e o relataram à Kureym Mining and Rocks Company, empresa de mineração sediada em Mogadíscio. Retiraram uma amostra de 90 gramas, apelidaram-na “Nightfall”, enviaram para Nairóbi — e confirmaram o óbvio: era uma rocha extraterrestre.

A GUERRA CHEGA AO CÉU

Em fevereiro de 2020, o meteorito foi removido de El Ali. A região é dominada pelo grupo extremista al-Shabaab, afiliado à al-Qaeda. Relatos falam em tiroteios e mortes durante a extração; outros chamam de exagero. O certo é que, pouco depois, a rocha foi levada à cidade de Buq Aqable e vendida à Kureym por cerca de US$ 264 mil.

Durante o transporte para Mogadíscio, o caminhão foi interceptado por forças do governo. O meteorito foi apreendido e analisado pelo geólogo Abdulkadir Abiikar Hussein — mas, misteriosamente, sumiu novamente. Em dezembro de 2020, estava de volta às mãos da mineradora.

A CIÊNCIA E A SOMBRA

Em 2021, o pesquisador Nicholas Gessler e o geólogo Chris Herd, da Universidade de Alberta, receberam amostras da rocha. Eles acreditavam colaborar com um estudo legítimo. Não sabiam que a pedra trazia o cheiro do sangue e da pilhagem. Suas análises revelaram três novos minerais nunca vistos na Terra — elaliíta, elkinstantonita e olsenita.

O El Ali pertence à classe IAB, formada por colisões no cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter — mares de magma metálico onde a química do cosmos se reinventou. “É um achado cientificamente extraordinário”, disse Herd. “Mas o contexto ético é desconcertante.”

O CONTRABANDO

Gessler se tornou um detetive cósmico. Rastreou vídeos, mensagens, documentos. Descobriu que, no fim de 2022, o meteorito foi embarcado em Mogadíscio e, meses depois, desembarcou na China.

Hoje, acredita-se que esteja em Yiwu, província de Zhejiang, sendo vendido por US$ 200 o quilo — ou US$ 3,2 milhões pelo bloco inteiro.

“Foi uma operação de saque cultural, disfarçada de negócio legal,” declarou Dahir Jesow, deputado somali. A documentação da Kureym teria sido emitida a posteriori, apenas para cobrir o roubo.

COLONIALISMO CÓSMICO

Não é a primeira vez que o céu é saqueado. Em 1897, o explorador americano Robert Peary levou três meteoritos da Groenlândia — vendidos ao Museu Americano de História Natural por US$ 40 mil. Quatro inuítes que o acompanharam morreram de tuberculose em Nova York.

A história se repete: a curiosidade científica como pretexto para a pilhagem.

AS LEIS DO VAZIO

As leis sobre meteoritos são um labirinto. Nos EUA, pertencem ao dono da terra; em áreas públicas, ao Smithsonian. A Convenção da UNESCO de 1970 tenta regular o comércio de artefatos culturais — mas a Somália não é signatária. A região de El Ali é regida pela Sharia, e estudiosos nem sabem como a lei islâmica interpreta meteoritos. Se a UNESCO reconhecer o El Ali como patrimônio somali, sua venda se tornará ilegal. Até lá, o comércio continua.

O MERCADO DAS ESTRELAS

O tráfico de meteoritos cresce como um novo ouro negro. Entre 2019 e 2021, autoridades chinesas apreenderam toneladas de rochas extraterrestres contrabandeadas da África.

“A preocupação é que o El Ali seja moído em chaveiros”, lamenta Gessler.

A Kureym tenta vender o meteorito de volta ao governo somali — única forma de legitimar o retorno. O Museu Nacional da Somália, reaberto em 2020 após trinta anos de guerra, sonha em recebê-lo sob um suporte reforçado.

“Seria o orgulho do país”, diz o geólogo Hussein.

ENTRE O CÉU E O ESQUECIMENTO

Mesmo que volte, nada garante sua segurança.

“Seria melhor que uma organização internacional o mantivesse até que a Somália esteja estável”, diz Dalmar Asad, porta-voz de direitos humanos.Por ora, o meteorito permanece no limbo, distante de casa — tão longe quanto quando vagava entre Marte e Júpiter. Talvez sua lição mais profunda não seja sobre ferro ou fósforo, mas sobre a natureza humana: que até o céu, uma vez tocando a terra, pode ser contaminado pela ganância.

“Não queremos enxergar a realidade do problema,” diz a cientista planetária Hasnaa Chennaoui Aoudjehane, da Universidade Hassan II de Casablanca.

“Porque, se o fizermos, haverá muito menos material para estudar.”

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A Caçada ao Planeta Nove. Robin George Andrews; janeiro de 2025. ScientificAmerican.com/arquivo

 Nota do Editor (26/09/2025): Texto revisado para corrigir imprecisões geográficas e citações de Nicholas Gessler.

 

VIDA EM MARTE?

 

Marte - Perseverance 

        Entre relatórios da NASA, anunciados cerimoniosamente há poucos dias, e a imaginação humana, surge novamente a pergunta que atravessa gerações: estamos sozinhos?

    Em 1976, duas sondas da NASA — as Viking 1 e 2 — tocaram o solo marciano carregando a expectativa de um planeta que talvez não fosse apenas deserto e poeira. Entre vários experimentos, um deles chamou atenção: a liberação de gases que só poderiam ser explicados por processos de origem biológica. A descoberta, porém, foi abafada pelo ceticismo da época. Classificou-se como “dado inconclusivo”, e a humanidade seguiu em frente, de olhos voltados para outras promessas.

Quase cinquenta anos depois, essa chama esquecida volta a acender. Pesquisadores revisitaram os mesmos dados, desta vez com ferramentas que não existiam no século passado: modelos de inteligência artificial e simulações de alta precisão. Os sinais de vida estão muito mais claros agora com o avanço da tecnologia e das IAs, tão impossíveis de ignorar que provocaram um comunicado oficial da NASA, lido pelo próprio administrador master da agência espacial americana.

        A prudência científica exige cuidado: não se trata de formas de vida complexas, mas da possibilidade de micro-organismos resistentes, guardados no subsolo marciano. A mera hipótese, contudo, já é suficiente para incendiar a imaginação. Afinal, se a vida não é privilégio da Terra, talvez seja tendência natural do universo.

A repercussão transcende laboratórios. Para alguns, seria a maior descoberta da história humana. Para outros, apenas um passo no longo caminho da dúvida. A comunidade científica prefere esperar: a missão Mars Sample Return (MSR), programada para trazer à Terra fragmentos de Marte, promete respostas mais definitivas.

Até lá, restam perguntas. O que muda em nós se confirmarmos que a vida floresceu em mais de um canto do cosmos? Como nos enxergaremos no espelho da história onde sempre nos colocamos como “os únicos”?

        Entre ceticismo e entusiasmo, a notícia reacende algo que a humanidade nunca deixou de carregar: o fascínio pela possibilidade de não estarmos sós. Ao mesmo tempo em que o planeta vermelho, com seu silêncio mineral e horizonte sem fim, segue como palco de uma de nossas mais antigas fantasias científicas: a existência de vida em Marte.

Edmir Saint-Clair 


O PÁSSARO QUE DORME COM MEIO CÉREBRO ACORDADO

 

Imagine atravessar oceanos inteiros sem parar, voando por dias, 

e ainda conseguir dormir no meio do caminho. 

Pois é exatamente isso que algumas aves fazem — entre elas, as fragatas e os albatrozes.

Esses viajantes do céu desenvolveram um truque extraordinário: conseguem dormir com apenas metade do cérebro por vez. Enquanto um hemisfério repousa, o outro continua acordado, controlando o voo e mantendo os olhos atentos ao horizonte.

É o chamado sono uni-hemisférico, um tipo de descanso que permite seguir em frente mesmo no meio do nada — um equilíbrio perfeito entre vigilância e entrega.
Durante o voo, essas aves tiram breves cochilos, de poucos segundos, geralmente quando o vento está favorável e as correntes de ar sustentam o corpo sem esforço.

A natureza, com sua sabedoria silenciosa, criou uma solução genial: descansar sem parar, dormir sem cair, confiar sem perder o controle.

Enquanto nós precisamos de cama, silêncio e escuridão, a fragata e o albatroz dormem em pleno voo, embalados pelo vento e pelo som do mar lá embaixo, e podem continuar fazendo isso por muitos dias sem necessidade de pousar.

Edmir Saint-Clair

PLIMPTOM 322 - O ENIGMA DE MILÊNIOS

    Na penumbra controlada de uma sala de museu, repousa uma pequena placa de argila. À primeira vista, nada mais que um fragmento gasto pelo tempo, coberto de símbolos cuneiformes gravados como cicatrizes antigas. Mas basta um olhar atento para perceber: aqueles sinais não são meros vestígios do acaso — são números. E números, quando se alinham com precisão, contam histórias que o tempo não conseguiu apagar.

Chamam-na Plimpton 322. Veio da Babilônia, há quase quatro milênios. Um artefato discreto, que passou despercebido em estantes universitárias até que olhos modernos ousaram decifrá-la. O que parecia uma lista de exercícios revelou-se uma sequência perfeita de relações pitagóricas — mil anos antes de Pitágoras.

É como se uma mente invisível, oculta sob o pó da Mesopotâmia, tivesse deixado um código. Um eco remoto de um conhecimento que não evolui em linha reta, mas em pulsos: desaparece, ressurge, se transforma. O protagonista que se debruça sobre aquelas colunas não encara apenas uma peça de argila — encara uma fenda no tempo, uma rachadura por onde escapa a suspeita perturbadora:
E se a nossa civilização fosse apenas o eco adormecido de um conhecimento antigo, soterrado sob as incontáveis camadas das passagens das eras?


A PLACA QUE NÃO DEVERIA EXISTIR

À primeira vista, nada nela chama atenção: apenas um fragmento de argila, quebrado nos cantos, coberto por fileiras de símbolos que parecem riscos sem sentido. Por décadas, permaneceu esquecida numa prateleira da biblioteca da Universidade Columbia, em Nova York — parte da coleção do bibliófilo George Arthur Plimpton, que lhe daria o nome sem imaginar a dimensão do que havia guardado.

Até que alguém notou o impossível. Aquelas marcas não eram rabiscos — eram números, dispostos com rigor. Seguiam uma ordem precisa, geométrica, impossível de ser acidental. Cada sequência revelava triângulos retângulos perfeitos, relações exatas entre lados e hipotenusas — mil anos antes de Pitágoras formular o que chamamos de Teorema.

Mas o que mais espanta não é a semelhança, e sim a diferença.
Os babilônios não usavam a base decimal, como nós, e sim o sistema sexagesimal (base 60) — o mesmo que sobrevive hoje na medição de ângulos e do tempo. Em vez de frações, utilizavam combinações de números inteiros. Isso significa que, na Plimpton 322, todas as relações pitagóricas aparecem sem restos, sem aproximações: proporções puras, exatas, elegantes.

Enquanto a trigonometria grega se apoiava em ângulos, a babilônica trabalhava com razões numéricas diretas — uma matemática funcional, voltada ao uso prático.
Não há indício de experimentação ou ensaio; o que vemos ali é o produto de um conhecimento já maduro, construído sobre tradições anteriores.

O autor daquela tábua não estava apenas calculando.
Estava registrando. E, talvez sem perceber, deixou no barro a prova de um domínio técnico que parecia impossível para o seu tempo — uma matemática nascida do pó, mas que ainda hoje se sustenta com a precisão de uma máquina.


A MATEMÁTICA DA PEDRA E DO BARRO

A Plimpton 322 não é apenas um objeto curioso. É uma ferramenta. Suas colunas registram proporções que serviam para dividir terras, projetar templos, escavar canais e erguer estruturas com precisão que ainda hoje surpreende engenheiros. Aqueles números não foram escritos para contemplação teórica — eram instrumentos de trabalho, aplicados a problemas concretos do cotidiano de uma civilização que compreendia, com exatidão intuitiva, a linguagem da forma e da medida.

O que mais intriga é a ausência de rascunho.
Não há hesitação, não há traço de tentativa ou erro. A placa não marca o nascimento de uma ciência, mas o auge de uma tradição matemática já amadurecida — o registro final de um conhecimento que vinha sendo aperfeiçoado por gerações.

É como abrir um manual de instruções sem prefácio, onde só resta o miolo do saber. Um vestígio de um sistema completo, cujas origens se perderam sob o pó das civilizações desaparecidas.

Essa constatação leva a uma pergunta inevitável: de onde veio esse domínio?
Terá sido uma criação isolada da Babilônia, ou o eco distante de algo ainda mais antigo, transmitido por vias que o tempo apagou?

Cada linha gravada na argila é uma senha para decifrar a lógica de um mundo desaparecido. Canais de irrigação alinhados como traços sobre a terra, muros que não se desviam um único grau, templos erguidos segundo proporções que continuam harmoniosas milênios depois. Tudo indica o domínio de uma geometria silenciosa, rigorosa, que não deveria existir naquela época — a matemática dos construtores do impossível.

E se esta tábua for apenas a ponta de um corpo de conhecimento que o planeta engoliu?
Se este fragmento sobreviveu por acaso, quantos outros se desfizeram antes mesmo de termos nomes para descrevê-los?


O SILÊNCIO DAS RUÍNAS

Se aquela pequena tábua chegou até nós, foi por puro acaso. Quantas outras, talvez mais completas, não se dissolveram em cinzas, soterradas por enchentes, incêndios ou pelos tremores que fizeram gigantescos pedaços de terra se abrirem, engolindo cidades inteiras e tudo o que nelas se pensou ou sonhou? O esquecimento não foi apenas humano — foi planetário.

Durante milhões de anos, asteroides colidiram com o planeta, alterando sua composição e atmosfera; movimentos tectônicos rasgaram a crosta da Terra, continentes se separaram, e o clima oscilou entre infernos vulcânicos e eras glaciais. O planeta inteiro reescreveu sua própria geografia, apagando as marcas do que veio antes. O que restou das antigas civilizações talvez esteja hoje submerso sob camadas de rocha, gelo e silêncio.

As enchentes do Eufrates, a erosão das margens, a fragilidade da argila diante da água e do fogo — tudo isso foi apenas a superfície visível de um esquecimento muito maior. Um esquecimento que não se mede em séculos, mas em eras.

E se tanto já se perdeu apenas por obra da natureza, imagine o que se extinguiu com o incêndio da Biblioteca de Alexandria, quando séculos de saber acumulado foram consumidos em poucos dias. O maior eclipse da memória humana.

O silêncio que se seguiu não é conspiratório. É geológico, cósmico, inevitável.
O que chamamos de História é apenas o que sobreviveu às catástrofes, o que o acaso poupou. São fragmentos dispersos, restos de um diálogo interrompido entre o homem e o conhecimento.

Durante séculos, arqueólogos e assiriólogos analisaram a tábua sem chegar a conclusões definitivas. Os cálculos eram complexos demais, e o padrão permanecia obscuro.
A situação começou a mudar apenas com o avanço das Inteligências Artificiais.
Com sua capacidade de processar milhões de combinações em segundos, os algoritmos compararam colunas, refizeram proporções e identificaram simetrias invisíveis ao raciocínio humano.

Foi assim que se comprovou o que antes era apenas hipótese: a Plimpton 322 não é uma lista de exercícios, mas um sistema matemático organizado, capaz de gerar triângulos retângulos perfeitos por meio de razões inteiras — algo que a matemática grega só alcançaria muito tempo depois.


O PESO DO ESQUECIMENTO

A redescoberta do conteúdo da Plimpton 322 não resolve o mistério. Apenas o amplia.
Saber que há mais de quatro mil anos já existia um sistema matemático avançado levanta mais perguntas do que respostas. De onde veio esse conhecimento? Como pôde surgir em uma época em que o mundo conhecido ainda tateava entre o mito e a observação empírica?

A explicação mais plausível continua sendo a mais simples: o desaparecimento é a regra, não a exceção.
Civilizações inteiras já foram apagadas por fatores que escapam ao controle humano — erupções, secas, terremotos, variações climáticas, guerras, quedas de asteroides com consequências cataclísmicas. Cada catástrofe reconfigura a história e redefine o que chamamos de “origem”. E isso sem contarmos a possibilidade da autodestruição — a mais sofisticada de todas as forças de aniquilação.

A Plimpton 322, nesse contexto, é menos um objeto arqueológico e mais um lembrete.
Ela mostra que o conhecimento humano é intermitente. Surge, floresce e desaparece, como se o próprio planeta se encarregasse de apagar seus rastros periodicamente. O que hoje chamamos de progresso talvez não seja uma linha ascendente, mas uma sucessão de retomadas — lampejos ocasionais de algo que a Terra insiste em soterrar. Como se, após cada quase extinção, os sobreviventes tivessem que começar tudo de novo.

Mesmo com toda a capacidade de cálculo da era digital, a verdade é que sabemos pouco sobre o que veio antes. O avanço tecnológico não dissolveu o enigma — apenas mudou o ponto de observação.
Agora somos nós que olhamos para o passado como quem observa ruínas através de uma lente de precisão, sem perceber que também seremos ruína.

O que a Plimpton 322 revela não é apenas a sofisticação dos antigos, mas a vulnerabilidade do próprio saber humano.
Tudo o que produzimos — nossos arquivos, bancos de dados, linguagens e máquinas — também depende da estabilidade da matéria, e esta, cedo ou tarde, cede.

No fim, talvez o verdadeiro ensinamento daquela tábua de argila seja este:
não há conhecimento definitivo.
Há apenas tentativas de registrar o que o tempo, invariavelmente, tratará de apagar.


ECOS DE CIVILIZAÇÕES ESQUECIDAS

A Plimpton 322 é apenas um fragmento — uma pista, não uma conclusão. Mas o que ela sugere é difícil de ignorar: a possibilidade de que o conhecimento humano tenha atravessado ciclos, desaparecido e renascido diversas vezes sob novas formas de sociedade.

Cada escavação arqueológica revela vestígios que parecem não se encaixar na linha cronológica oficial: instrumentos, estruturas, mapas ou registros cuja complexidade excede o que se esperava de seu período histórico. Essas anomalias não provam a existência de civilizações avançadas, mas tampouco permitem descartá-la.

A ciência trabalha com evidências, e o que falta são justamente elas — as provas materiais que o tempo se encarregou de destruir.
Se considerarmos os milhões de anos de atividade geológica e o número incontável de catástrofes que remodelaram a crosta terrestre, é racional admitir que boa parte do que existiu simplesmente não deixou rastros acessíveis.
Tudo o que conhecemos é o que restou em uma fina camada arqueológica — uma fração do passado que sobreviveu por acaso.

Em um planeta ativo e instável, a ideia de uma civilização anterior à nossa não é fantasia, mas estatística.
Basta observar a rapidez com que a própria humanidade moderna produz, expande-se e ameaça colapsar.
Se um evento global apagasse a atual infraestrutura — energia, dados, cidades —, em poucas dezenas de milhares de anos quase nada restaria. O que, sob a perspectiva de bilhões de anos, poderia ter acontecido milhares de vezes — sempre a partir do zero.

É plausível, portanto, imaginar que o mesmo possa ter ocorrido antes.
Talvez civilizações anteriores tenham alcançado patamares de conhecimento que não chegaram até nós.
Talvez o que chamamos de “avanço tecnológico” seja apenas o mais recente capítulo de um livro muito mais antigo, escrito e reescrito sob diferentes formas de existência.

A Plimpton 322, nesse cenário, deixa de ser uma curiosidade e passa a ser um vestígio — um eco remoto de uma mente humana que já compreendia, com impressionante clareza, princípios que acreditávamos modernos.

No fim, é possível que estejamos apenas redescobrindo o que já foi descoberto antes.
E que a verdadeira história da civilização não seja uma linha, mas uma espiral que gira sobre o mesmo ponto, a cada era, tentando se lembrar de quem foi.


O ENIGMA DE ARGILA

A Plimpton 322 é, em essência, um lembrete material de algo que o tempo tenta nos ensinar desde o início: o conhecimento não é cumulativo, é cíclico.
Cada geração acredita avançar, mas apenas recupera fragmentos de algo que o planeta já arquivou e apagou inúmeras vezes.

A tábua babilônica prova que a inteligência humana já foi capaz de formular conceitos matemáticos complexos em épocas em que isso parecia impossível.
Ela demonstra que o pensamento racional antecede o registro formal da história e que a mente humana, em qualquer era, tende a buscar padrões, ordem e previsibilidade — os mesmos impulsos que hoje orientam nossas tecnologias.

As Inteligências Artificiais e as novas tecnologias, com certeza, nos trarão muitas novidades em todas as áreas.
A Plimpton 322 é apenas uma pequena peça de um quebra-cabeças que, quem sabe, poderá nos apresentar novas descobertas sobre nossa verdadeira origem.

Edmir Saint-Clair