Foram
descobrindo a vida juntos numa parceria e intimidade que só a pureza de quem
nunca amara antes poderia proporcionar. Riam de seus próprios desconhecimentos
de seus corpos, tornando tudo uma brincadeira excitante, deliciosa e sem
expectativas demasiadas.
Consequência
natural, numa sociedade que não dava muitas opções, casaram-se muito cedo.
A
ascensão profissional de ambos, a leveza e a cumplicidade cresciam na mesma
proporção. Se davam bem. Combinavam sem esforço.
Num
dado momento, como em toda relação, a rotina, antes um orgulho pela
sincronização e conveniência para ambos, se instalou de uma forma perfeita
demais.
Tão
perfeita, que era impossível melhorá-la. Até as manhãs de mau humor aconteciam
em forma de revezamento, de maneira que um estava sempre são, para compensar o
descompensado.
Haviam
encontrado um ponto de equilíbrio que poucos casais conseguem alcançar. Eram a
exceção que confirmava a regra de que casamentos são feitos para fracassar.
A
relação deles contrariava a tudo e a todos.
Após
15 anos, eram os únicos do extenso grupo de amigos do bairro natal, no qual
ainda moravam, que permaneciam casados. Se juntasse com o tempo de namoro,
passava de 20 anos.
O fato
é que os amigos viviam comentando sobre a harmonia perfeita do casal, alguns
com espanto, outros com inveja e outros com elocubrações regadas a muito
álcool.
Até
que aquele “incomodo alheio" pela felicidade do casal começou a chegar até
eles, de forma fragmentada e de maneira cada vez mais incômoda e invasiva.
Emprenhados,
por fragmentos de conversas carregadas de muito veneno e servidas como
caipirinhas entre amigos, o casal foi sendo contaminado pela dúvida.
Foram
presas muito fáceis da inveja humana.
Só haviam conhecido um ao outro. A
desconfiança que começou a nascer, não foi com relação ao outro, mas com a
avaliação que cada um fazia de si mesmo.
Como poderiam
saber se realmente eram felizes tudo que poderiam ser, ou se apenas imaginavam
que aquilo era felicidade, já que não tinham nenhuma experiência que pudessem
usar como comparação ou referência.
Sempre
foram muito amigos e se prometeram a sinceridade que só a confiança extrema
comporta.
Não
tardou para que os questionamentos tomassem conta de todas as horas. Sempre
compartilhados, sem que nenhum dos dois conseguisse respostas.
Não
sabiam mais dizer se eram felizes ou se haviam entrado na perigosa zona de
conforto, última moda nas conversas psicologizadas.
E o que era leve, não era mais. Os silêncios
não eram mais os mesmos, e é no silêncio que um casal mais se entende.
Numa
conversa angustiada, mas cheia de sinceridade, sentimentos e carinho, decidiram
que deveriam se separar naquele momento, para que pudessem ter alguma chance de
se reencontrar num futuro em que já haveriam de ter suas respostas.
Mas,
não se deve deixar a felicidade nas mãos do acaso.
É
preciso abraçá-la, fazendo o impossível, para que ela nunca queira ir embora.
Nunca
mais se reencontraram e se arrependeram daquela decisão pelo resto de suas
vidas.
Edmir
Saint-Clair
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