Diz a
lenda que certa grife mundial, cansada de vender bolsas que custavam mais que
apartamentos, resolveu testar um limite ainda não explorado: o da estupidez
vaidosa da humanidade.
O
plano era simples — tão simples que beirava a genialidade. Criaram um produto
chamado A CAIXA. Só isso. Nenhuma descrição, nenhuma promessa além da
propaganda oficial:
“Nada menos do que muito poucos merecem.”
O
preço? Astronômico, naturalmente. Acessível apenas para quem já não sabia
mais onde gastar dinheiro.
O
anúncio de que seriam produzidas apenas mil unidades desencadeou uma corrida
insana. Iniciou-se a venda no escuro: ninguém sabia o que estava comprando, mas
todos estavam dispostos a pagar. A fila de pretendentes atravessava
continentes. Bancos suíços receberam transferências milionárias antes mesmo de
confirmarem os nomes. Políticos, artistas, donos das maiores hi-techs, sheiks
do petróleo e magnatas de todas as nacionalidades apelaram a todas as conexões
possíveis para garantir um lugar entre os compradores eleitos.
Em
pouco tempo, instalaram-se negociações discretas nos bastidores: convites
trocados por favores, promessas de influência, silenciosos acordos de
conveniência. O privilégio de estar entre os mil compradores passou a valer
tanto quanto — ou até mais do que — a própria Caixa.
Em
poucas horas, a lista de espera foi totalmente preenchida. E o mercado negro
por um lugar na fila explodiu, atingindo valores indecentes.
O
lançamento aconteceu em Nova York, no Madison Square Garden, transformado em
templo da futilidade moderna. Sheiks árabes com turbantes cravejados de ouro,
nobres europeus entediados, bilionários de todos os continentes: todos lá,
ansiosos para botar as mãos naquilo que não sabiam o que era.
Mil
compradores, mil caixas personalizadas. Segundo a grife, cada uma conteria um
produto único, personalizado e exclusivo que representaria exatamente o valor
de cada comprador para o mundo.
Luzes,
drones, fogos de artifício. Um mestre de cerimônias, com voz de trovão,
anunciou:
—
Senhoras e senhores, eis o reflexo de quem vocês são!
Um
batalhão de homens vestidos com smoking negro e postura solene entrou no enorme
salão e passou a entregar cada caixa ao seu proprietário. A CAIXA era de
madeira de lei escura, solene, e entalhada com o nome de cada comprador
aplicado em ouro puro. Em cada mesa havia um pequeno biombo, para que cada
magnata tivesse privacidade ao verificar o que havia dentro de sua caixa.
No
instante da revelação, cada um dos mil compradores abriu sua caixa dourada
personalizada, com o nome encrustado em pedras de rubi finamente lapidadas e
elegantemente dispostas na tampa, acima da logomarca famosa, com a respiração
suspensa.
O que
encontraram lá dentro não foi uma joia, nem um artefato exclusivo, tampouco
algum segredo da eternidade.
Dentro
de cada caixa havia apenas uma folha de papel timbrado. Nela, em letras grandes
e solenes, lia-se:
Você vale a mesma coisa que qualquer outra
pessoa.
A
surpresa foi grande — um choque íntimo, quase uma bofetada filosófica. Mas
nenhum deles ousou demonstrar. Afinal, quem pagaria milhões para admitir em
público que não valia mais do que qualquer outro?
Mais
abaixo, em letras menores, uma instrução irrefutável:
“Não
conte a ninguém o que você recebeu, nem pergunte o que os outros receberam. Nos
comprometemos a nunca revelar o que você mereceu ganhar.”
Após o
choque inicial, cada um dos compradores começou a encenar sua explosão de
alegria diante da Caixa. O que se seguiu foi um espetáculo de hipocrisia:
atuações dignas de Oscar. Cada qual tentava exibir mais felicidade, mais
encantamento, mais êxtase que o outro. Sorrisos falsos, lágrimas de emoção
forçada, abraços teatrais.
A
plateia, composta de convidados e jornalistas, aplaudia com fervor, convencida
de presenciar um momento histórico. As câmeras captaram lágrimas cintilantes e
gestos de êxtase, transformando a farsa em verdade televisiva. Enquanto isso,
os compradores seguiam à risca as instruções de sigilo, cada um se achando o
maior idiota do mundo — mas sem deixar transparecer. E, claro, certos de que
todos os outros haviam recebido algo muito mais valioso.
E
assim, todos calaram-se envergonhados. Cumpriram à risca a ordem impressa,
protegendo o segredo que os envergonhava.
No dia
seguinte, jornais noticiaram o lançamento como o “espetáculo de marketing da
década”. E a grife, naturalmente, anunciou um novo lote de caixas — agora pelo
dobro do preço.
Ninguém
jamais ousou romper o silêncio.
Edmir Saint-Clair