ORIENTADOR LITERÁRIO

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1985 - MEU ROCK IN RIO

 Janeiro de 1985. Verão quente, ano novinho em folha e o maior festival de Rock de todos os tempos há pouco mais de uma hora de distância de pular do meu mais improvável sonho para o maior palco que eu já havia visto na minha frente.

Uma linha especial de ônibus foi criada, exclusivamente, para levar o público do festival, coletando-o a partir de vários pontos determinados do Rio de Janeiro.

Eu e uma galera gigante do Leblon, terminamos de lotar um dos ônibus logo no primeiro ponto. A tensão, a expectativa e a proximidade de algo tão especial gerava o tipo de ansiedade mais saudável que existe, aquela que nos faz entender totalmente a expressão "rindo à toa".  No ônibus cheio, os sorrisos à mostra eram tão evidentes, que a impressão é que alguém contou uma hilária e interminável piada. Qualquer movimento virava motivo para uma gargalhada.

Chegamos ao local do festival ainda dia claro, poucos minutos antes dos portões serem abertos. Todos os dias o ritual era o mesmo. Os portões se abriam, passávamos pelas roletas e pela revista da segurança, que só estava interessada em coibir armas e objetos metálicos.

Cigarros podiam, de todos os tipos.

O pôr do sol foi deslumbrante, com ultraleves voando por sobre um público jovem e absolutamente extasiado diante da grandiosidade de tudo em volta. A paisagem, o sol se pondo nas montanhas da cidade maravilhosa e os primeiros acordes da música tema do festival tocando numa altura e qualidade de som que o Brasil nunca havia ouvido.

"Todos numa direção, numa só voz, numa canção

Todos num só coração, num céu de estrelas...

Se a vida começasse agora, se o mundo fosse nosso de vez,

Se a gente não parasse mais de sonhar...de cantar....de viver."

E todos cantavam com a propriedade contagiante e autêntica dos jovens dos anos 1970 e 80, que viviam numa cidade que desejava Paz e Amor e acreditava nisso, por mais ingênuo que, hoje, isso possa parecer.

E, foi nesse clima que assisti a um show mágico e maravilhoso do cantor James Taylor, num sábado ainda sem chuva, num céu completa e absurdamente estrelado, sentado ao lado de dezenas de amigos que ouviram aquelas mesmas músicas, comigo, nas festinhas de adolescentes.

Foi um dos shows mais emocionantes que já presenciei.

Aquela noite, houve uma catarse gigante entre o público e um James Taylor extasiado diante de 250 mil pessoas que cantavam junto suas músicas. Ele estava vindo de um período de declínio acentuado na carreira, e naquela noite, aconteceu sua redenção.

 O sucesso daquela apresentação teve uma repercussão tão grande e impressionante que impulsionou novamente sua carreira, e ele sentiu isso ainda no palco, durante a apresentação.

E externou essa emoção através da sua arte, presenteando o público com uma apresentação emocionada, emocionante e perfeita, e muito mais longa do que o que estava previsto.

Tocou e cantou com o entusiasmo de um iniciante, todos os seus grandes sucessos, não faltou nenhum.

 O que se passou foi sublime, uma poesia em forma de vida.

Público e artista vivendo, durante mais de duas horas e meia, a mesma intensidade de emoções que ficaria, para sempre, na história de ambos.

O primeiro Rock in Rio me presenteou, ainda, com um show inesquecível da banda inglesa QUEEN, onde foi feita a histórica filmagem do coro de mais de trezentas mil pessoas cantando a música “Love of My Life”, perpetuando aquele como um dos grandes momentos da carreira da Banda e do lendário Fred Mercury.

Presenciei ele, e todos os músicos da banda QUEEN, ficarem em absoluto estado de graça e completamente extasiados com o que estavam assistindo. A emoção deles era visível. 

Eu vi, estava lá e cantei junto.

E, no último dia, assisti, pela primeira vez, a banda que mais toca a minha alma: a lendária banda inglesa YES.

A emoção mágica que senti vendo aquela apresentação incrível e deslumbrante, permanece até hoje.

Foi perfeito para fechar o último dia do maior festival de Rock de Todos os Tempos.

Essa é a minha parte da história de um Festival que ficou para a história de muitas e muitas gerações e virou uma lenda no mundo inteiro.

Edmir Saint-Clair

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            Recebi várias manifestações com relação a crônica "Meu Rock in Rio - 1985",

todas tão cheias de lembranças intensas quanto as minhas.

Aqui, uma edição com imagens da época e a música tema.

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PREDADOR

 

O tempo vai  arrancando pedaços,

Imperceptíveis, ou que fazem mancar para sempre,

Quando não tira de si, tira de outro,

E leva junto nacos de almas,

Perdidas, descoloridas, insípidas,

Pedaços abandonados no caminho,

Do mundo grande, que diminui, consumido,  

                                                              que se definha,

Deserto de tudo que acolhe, 

Pedaços em memórias duvidosas,

Do que um dia foi todo o universo.


UM MINUTO

 

De silêncio, de paixão, de prazer. O minuto anterior ao gozo, o gozo, um minuto de êxtase, de felicidade, sem saber onde termina meu corpo e começa o seu. O olhar que muda a vida em um minuto. O minuto feito de sessenta eternidades, mas a eternidade terá sempre o último minuto. Cabe-nos viver intensamente todas as nossas eternidades. Tudo que torna a vida maravilhosa não dura mais que um minuto. Mas a dor é longa, e consome quase todos os nossos minutos. O presente é sempre o minuto seguinte, mas só o percebemos depois que passa, porque não sabemos ser eternos. Mas haverá sempre o minuto seguinte.

O minuto de paz nos teus olhos, no silêncio da noite, no sorriso que brotou espontâneo. O minuto feito de sessenta eternidades. A eternidade antes do primeiro beijo, antes de desvendar teu corpo, antes de poder dizer que te amo, antes de sentir teu amor.

A eternidade depois do último beijo, depois de me acostumar com teu corpo, depois de descobrir que ainda te amo, depois de sentir tua ausência. A eternidade de chorar sozinho e o vazio profundo após a última lágrima.

O último minuto com você, e o desejo desesperado de retornar ao primeiro. Passamos a vida inteira atrás desses minutos, dessas sessenta eternidades, que farão o resto todo  valer a pena. Mas, só percebemos o valor do primeiro quando chegamos ao último e, então, já haverão se passado muitas eternidades.

O último minuto em que nos amamos foi feito de sessenta despedidas, todas sem que soubéssemos. E a dor, com o poder que só a dor tem, multiplicou sessenta por sessenta por sessenta eternidades, e ainda estou a espera do último.

Em que minuto te perdi?

- Edmir Saint-Clair

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MUITO ALÉM DO PRÓPRIO UMBIGO

 

     “Não sei como será a terceira guerra mundial, mas sei como será a quarta: com pedras e paus.” Albert Einstein

        Além da Rússia, dos Estados Unidos e de todas as potências europeias, a China também está no cenário bélico atual de maneira cada vez mais insidiosa — o que pode levar o mundo a um ponto ainda mais crítico na tensão em torno de uma guerra atômica. Ou evoluímos, ou, não sei não... pode dar merd4.

As tensões internacionais têm aumentado de forma perigosa e, sem ser alarmista, de uma maneira assustadora e rápida, contrapondo, como nunca antes, forças atômicas capazes de aniquilar a vida no planeta. Todas as potências nucleares do mundo estão em rota de colisão — e algumas já colidindo.

Vem-me à cabeça um pensamento que me acompanha há décadas. Na verdade, é um raciocínio em que comparo o estágio evolutivo-civilizatório humano com as etapas da vida de um indivíduo comum.

É simples: tomo por base o surgimento do Homo sapiens, que corresponderia ao nascimento de um indivíduo, e as eras seguintes da evolução da espécie seriam os diferentes estágios do crescimento humano. Ou seja: primeiro aprende a se levantar e ficar ereto, depois a andar, a falar, a se comunicar; depois entra na primeira infância, adolescência, juventude, maturidade — até chegar ao estágio máximo de progresso intelectual possível ao tempo de vida de um ser humano.

Por isso, para alcançar a era da sabedoria — que corresponderia à fase madura da evolução de um indivíduo — só será possível se a humanidade a alcançar como um todo.

É preciso que todos a alcancem de forma universal, o que só é possível através das contribuições individuais — e que delas se beneficiem de forma integral, pessoal e social.

Como resultado de um progresso construído pela humanidade como um todo, ao longo de milhares de anos, por caminhos abertos por todas as gerações precedentes, que foram deixando seus legados para que as gerações seguintes agregassem suas contribuições individuais e, assim, garantissem a continuidade dos avanços e conquistas.

Para que isso aconteça, temos que resolver a intrincada — e, até agora, insolúvel — equação de satisfazer a todos e a cada um, ao mesmo tempo. Não só para os humanos, mas incluindo todo o planeta.

Na minha aleatória opinião, a humanidade ainda está no início da adolescência: medindo forças, tamanhos, pesos, testando limites e desafiando a morte — briguentos, inconsequentes, irresponsáveis e loucos. Governados pelos hormônios. Vivendo como se não houvesse nem amanhã nem gerações futuras que terão que arcar com as nossas inconsequências.

A lei do humano mais forte é ainda mais cruel e impiedosa que a da natureza. Porque, entre os homens, as armas modernas — ditas convencionais — multiplicaram covardemente seu poder de matar indiscriminadamente populações inteiras e de destruir países e seus povos. Isso sem falar no pesadelo das armas atômicas!

Mesmo vivendo cada vez mais, poucos conseguem chegar ao estágio da maturidade, por falta de conhecimento sobre si mesmos e sobre a vida.

Porque não se importaram com o que é mais importante.

A maioria só envelhece — sem nada ter aprendido ou acrescentado.

Sem ter contribuído para a evolução da espécie.

Submergem na mediocridade, sem questionamento algum, apenas seguindo o rebanho — sem nada de pessoal a acrescentar.

Todos nós fazemos parte dessa jornada rumo à era da sabedoria, e todos temos como tarefa dar nossa contribuição pessoal para que tudo continue caminhando... e a contribuição de cada um — só esse “um”, individualmente — poderá dar.

Cada um de nós é original e único, e carrega em si uma pequena, mas insubstituível, peça do complexo quebra-cabeça da existência.

Mas poucos conseguem entender que o sentido da vida vai muito além... do próprio umbigo.

Edmir Saint-Clair


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AMAR E SER FELIZ - (Felicidade, desesperadamente)



           Fruto do mais legítimo acaso, caiu-me nas mãos um livro particularmente necessário para mim, naquele momento.

Identifiquei-me profundamente com os pensamentos ali expressos. Trata-se da transcrição de uma palestra do filósofo francês contemporâneo André Comté- Sponville.

 O nome do livro é Felicidade, desesperdamente.

Ele faz um passeio pela história da filosofia, e através da ótica de várias escolas filosóficas, discorre sobre as emoções humanas e, mais particularmente, sobre como o sentimento que chamamos de amor afeta diretamente nossos pensamentos e ações.

O livro me fez compreender o que sempre pensei e nunca havia conseguido enunciar e entender de forma tão clara e objetiva.

A identificação com a condução do raciocínio em torno do tema proposto pelo escritor foi completa. A primeira coisa que me fez ver, é que eu havia, finalmente, compreendido o que é amar de verdade, para mim. Não no sentido de intensidade, mas, no sentido de profundidade e amplitude. E, principalmente, no sentido da ação.

O amor saudável é aquele que desperta, espontaneamente, nossas melhores características pessoais. O lado mais humano, amigo, parceiro. É o que provoca a atitude de fazer o outro feliz em cada interação. É o cuidado de utilizar a percepção, que a sintonia com a pessoa amada provoca, para chegar aos mais deliciosos, profundos e nobres requintes do amor. 

E, por causa dessas atitudes bonitas para com o ser amado, nos vemos mais bonitos, iniciando um ciclo muito saudável. Nossa autoestima aumenta, o que nos faz amar o amor que sentimos pela outra pessoa. E, esse ciclo se estende ao sermos retribuídos e, por isso, amamos ainda mais a pessoa que nos faz sentir todo esse prazer de viver. Isso aumenta e se fortalece a medida em que transformamos esse amor em novas atitudes, nos fazendo capazes de sentir felicidade pela felicidade do outro.  Isso vai aprofundando cada vez mais um aspecto extremamente acolhedor e compensador numa relação: cultuar as afinidades.

Cada um do seu jeito, com as suas verdades. Unidos apenas pela felicidade de estar juntos. Pela alegria e o prazer que o amor pode proporcionar. 

É preciso aprender a amar saudavelmente e isso leva tempo. E, na maioria das vezes, dói aprender.

 A felicidade não existe para o amor dos imaturos, do desejo egoísta que quer o objeto porque não o tem. Do que quer a posse, o controle, o poder de manipular o outro através dos sentimentos.

Estes estão condenados a infelicidade.

Acredito no amor saudável que traz consigo a possibilidade real de felicidade. Que nos faz sentir alegria apenas com o pensamento de que a pessoa amada existe, e também nos ama. A simples ideia da existência do outro já é razão de se sentir alegria.

No amor saudável não existe posse. Existe desejo.

Não existe obrigação. Existe vontade.

Cada encontro acontece porque o desejo impulsionou. Porque traz prazer e alegria. Resultado de elementos químicos secretados se combinando e produzindo sinapses que inundam o cérebro com sensações arrebatadoras e quase incontroláveis. É o impulso do desejo no seu estado mais primitivo.

Quando este estado é potencializado pela sensação de se sentir o objeto de desejo do nosso objeto de desejo o prazer é indescritível, é o momento mais mágico da vida.

O amor saudável é capaz de produzir a sensação de felicidade além da própria felicidade; é o sentir felicidade pelo felicidade do outro tornando-a parte integral da nossa própria e assim, duplicar as possibilidades e a intensidade das felicidades compartilhadas. 

Dito dessa forma parece simples. Mas, definitivamente não é.

Exige muito aprendizado e vontade de ser e fazer a nossa vida e a de quem amamos, ser uma caminhada que valha a pena ser compartilhada.

- Edmir Saint-Clair


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O MONGE DE COPACABANA

Jorge havia passado sete anos no Tibet. Não porque fosse um espiritualista nato, mas para fugir de uma grave acusação envolvendo brigas de gangues que haviam culminado em homicídio. Ele não tivera participação direta no evento, mas fazia parte da turma que participou do crime e não tinha como provar que não estava no local no momento do ocorrido. Sem lhe restar esperança, sua família o sugeriu uma fuga para algum lugar onde não pudesse ser encontrado.

Jorge tinha um primo que se tornara, há pouco, monge no Tibet, que lhe ofereceu abrigo até que as coisas serenassem no Brasil. Para um praticante de lutas e frequentador assíduo de brigas de rua ou qualquer coisa parecida, seria uma mudança absoluta e, muitos apostaram, impossível.

Sem opção, Jorge partiu rumo ao Tibet. A caminho do mosteiro onde ficaria hospedado, teve acesso as últimas notícias sobre o julgamento de seu caso. Ele havia sido sentenciado há 8 anos de prisão, em regime fechado. Jorge deu graças a Deus por estar tão longe, não suportaria nem um mês numa penitenciária brasileira. Esse pensamento serenou sua alma.

Sete anos depois, Jorge aterrissa no galeão de volta a sua cidade natal e já resolvido com a justiça brasileira. É seu recomeço.

Sente-se um homem completamente diferente daquele valentão ridículo que fora um dia. Os ensinamentos que recebera o transportaram para outra dimensão dentro de si mesmo. No caminho até a casa dos pais, em Copacabana a primeira coisa que reconheceu foi a decadência do aeroporto, que já estava decadente há sete anos. A segunda, foi o cheiro da baía de guanabara saindo da ilha do governador. Nada mudara, mas, para ele, tudo mudara. Lembrou-se de um dos princípios básicos da sabedoria tibetana: quando você muda por dentro, tudo por fora muda junto.

Era verdade, nada do que via o incomodava mais.

Assim que terminou de tomar o café da manhã de boas-vindas que os pais lhe haviam preparado, resolveu ir até a praia de Copacabana, sua areia natal. Seus novos ares monásticos eram puro êxtase com tudo a sua volta. Os pais, o velho porteiro do prédio, a secretária doméstica que o viu crescer e todos que o viam exclamavam sobre a mudança impressionante que Jorge havia sofrido.

Jorge, a cada observação de alguém, pensava:

“A mudança interior, realmente, provoca muitas mudanças no mundo ao redor."

Chegou na praia, sentou-se, colocou seu celular e sua carteira ao lado e assumiu a postura tradicional de meditação. Havia poucas pessoas naquele dia nublado. Fechou os olhos e, ao som do barulho das ondas, meditou profundamente, Estava em paz.

Quando abriu os olhos, seu celular, sua carteira e toda calma e serenidade, que havia trazido do Tibet, haviam sumido.

Copacabana não é para amadores, nem para monges.

Depois disso, Jorge desistiu de fundar um templo para meditação e abriu mais uma academia de Jiu-Jitsu em Copacabana.

Edmir St-Clair

A PRIMEIRA FORMATURA DA FAMÍLIA

 

Ele nunca vira sua mãe tão feliz. A formatura do irmão mais novo rompia uma histórica limitação familiar que nunca tivera um membro formado na faculdade. A cerimônia prometia ser emocionante e ninguém da família deixara de ser convidado.

Na chegada ao local, estavam todos compenetrados e um tanto constrangidos com o requinte ao qual não estavam acostumados. O padrinho alugara um terno mais caro do que o de seu casamento com a madrinha. Tia Lúcia, a costureira da família, estava orgulhosa do fruto de seu árduo trabalho nos últimos 6 meses. Valera a pena, todas as mulheres da família estavam chiquérrimas.

Ele se sentiu leve e pleno quando viu a família ocupar uma fila inteira no enorme auditório da faculdade. Fora o excesso de perfumes, estavam todos com a alma e o corpo em vestes de gala, para testemunharem aquele evento que realizava a todos.

Quando o irmão mais novo caminhou em sua direção, vestido com a beca dos formandos, teve vontade de soltar o maior grito e abraço que já dera em alguém na vida.

O abraço silencioso e só não foi mais longo porque a organização requisitava a presença dos participantes no palco para dar início a cerimônia de formatura.

Ele se sentou na poltrona ao lado da mãe e, quando as luzes da sala se apagaram, se deram as mãos frias, trêmulas e fundidas na mesma emoção.

E viveram, a família inteira junta, um dos momentos mais felizes que viveram.

Edmir St-Clair

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FERA




 Destruir o berço, a mata, a essência,

Que acalenta, com sons , cores e frutos

O futuro que é da vida, não nos pertence.

 

Matar a mãe, cuspir no prato que o alimenta,

Suicidar-se, matar o futuro que é do filho,

Da beleza, do sonho, de todos que ainda virão.

 

A ganância, grande herança do nada,

Nos torna cegos, sem ver belezas

E rezamos, infiéis hipócritas,

Carrascos do ventre que nos gerou.

 

E perdidos os homens, tão sem caminho,

Se matam, matando tudo, seu próprio ninho.

Natureza que cria, que cura, que chora,

Pelo filho que lhe devora as entranhas.

- Edmir Saint-Clair

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O MISTÉRIO DO METEORITO EL ALI CONTRABANDEADO PARA A CHINA

Revisão e adaptação Edmir Saint-Clair a partir de matéria da Scientific American

O IMPACTO

Milênios atrás, um fragmento do céu cruzou o leste da África.

Nascido da colisão de asteroides antigos, o meteorito caiu com mais um baque do que um estrondo em um vale árido, onde hoje camelos pastam perto da vila de El Ali, na Somália.

Chamado pelos locais de Shiid-birood — “a rocha de ferro” — o meteorito El Ali pesa 13,6 toneladas de ferro e níquel.

Por gerações, foi um marco. Inspirou canções, lendas e poemas.

Uma delas conta que o vale era um paraíso verde até que seus habitantes deixaram de acreditar em Waaq, o deus local, que os puniu lançando pedras vulcânicas.

O meteorito teria sido o último aviso de sua ira. Durante séculos, moradores o martelaram, arrancando flocos metálicos ou afiando lâminas. Crianças o montavam como se fosse um cavalo. Até que, um dia, o céu foi roubado da terra.

O DESAPARECIMENTO

Hoje, o El Ali está longe de casa.

Vídeos tremidos mostram a rocha armazenada na China, onde negociantes tentam vendê-la por milhões — inteira ou em pedaços. Como chegou lá? A trajetória do nono maior meteorito do mundo envolve contrabando, corrupção e morte.

Em agosto de 2025, o Ministério da Cultura da Somália apelou à UNESCO, pedindo o reconhecimento do meteorito como patrimônio nacional e sua devolução. A resposta ainda não veio. O destino da rocha cósmica é um ponto de interrogação.

O ACHADO E A COBIÇA

Durante décadas, a pedra foi ignorada por todos, exceto pelos pastores que viviam sob sua sombra. Na Segunda Guerra, o exército italiano quis removê-la; depois, a ONU e grupos locais tentaram o mesmo. Mas a vila resistiu — até 2019.

Naquele ano, caçadores de opalas encontraram o meteorito e o relataram à Kureym Mining and Rocks Company, empresa de mineração sediada em Mogadíscio. Retiraram uma amostra de 90 gramas, apelidaram-na “Nightfall”, enviaram para Nairóbi — e confirmaram o óbvio: era uma rocha extraterrestre.

A GUERRA CHEGA AO CÉU

Em fevereiro de 2020, o meteorito foi removido de El Ali. A região é dominada pelo grupo extremista al-Shabaab, afiliado à al-Qaeda. Relatos falam em tiroteios e mortes durante a extração; outros chamam de exagero. O certo é que, pouco depois, a rocha foi levada à cidade de Buq Aqable e vendida à Kureym por cerca de US$ 264 mil.

Durante o transporte para Mogadíscio, o caminhão foi interceptado por forças do governo. O meteorito foi apreendido e analisado pelo geólogo Abdulkadir Abiikar Hussein — mas, misteriosamente, sumiu novamente. Em dezembro de 2020, estava de volta às mãos da mineradora.

A CIÊNCIA E A SOMBRA

Em 2021, o pesquisador Nicholas Gessler e o geólogo Chris Herd, da Universidade de Alberta, receberam amostras da rocha. Eles acreditavam colaborar com um estudo legítimo. Não sabiam que a pedra trazia o cheiro do sangue e da pilhagem. Suas análises revelaram três novos minerais nunca vistos na Terra — elaliíta, elkinstantonita e olsenita.

O El Ali pertence à classe IAB, formada por colisões no cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter — mares de magma metálico onde a química do cosmos se reinventou. “É um achado cientificamente extraordinário”, disse Herd. “Mas o contexto ético é desconcertante.”

O CONTRABANDO

Gessler se tornou um detetive cósmico. Rastreou vídeos, mensagens, documentos. Descobriu que, no fim de 2022, o meteorito foi embarcado em Mogadíscio e, meses depois, desembarcou na China.

Hoje, acredita-se que esteja em Yiwu, província de Zhejiang, sendo vendido por US$ 200 o quilo — ou US$ 3,2 milhões pelo bloco inteiro.

“Foi uma operação de saque cultural, disfarçada de negócio legal,” declarou Dahir Jesow, deputado somali. A documentação da Kureym teria sido emitida a posteriori, apenas para cobrir o roubo.

COLONIALISMO CÓSMICO

Não é a primeira vez que o céu é saqueado. Em 1897, o explorador americano Robert Peary levou três meteoritos da Groenlândia — vendidos ao Museu Americano de História Natural por US$ 40 mil. Quatro inuítes que o acompanharam morreram de tuberculose em Nova York.

A história se repete: a curiosidade científica como pretexto para a pilhagem.

AS LEIS DO VAZIO

As leis sobre meteoritos são um labirinto. Nos EUA, pertencem ao dono da terra; em áreas públicas, ao Smithsonian. A Convenção da UNESCO de 1970 tenta regular o comércio de artefatos culturais — mas a Somália não é signatária. A região de El Ali é regida pela Sharia, e estudiosos nem sabem como a lei islâmica interpreta meteoritos. Se a UNESCO reconhecer o El Ali como patrimônio somali, sua venda se tornará ilegal. Até lá, o comércio continua.

O MERCADO DAS ESTRELAS

O tráfico de meteoritos cresce como um novo ouro negro. Entre 2019 e 2021, autoridades chinesas apreenderam toneladas de rochas extraterrestres contrabandeadas da África.

“A preocupação é que o El Ali seja moído em chaveiros”, lamenta Gessler.

A Kureym tenta vender o meteorito de volta ao governo somali — única forma de legitimar o retorno. O Museu Nacional da Somália, reaberto em 2020 após trinta anos de guerra, sonha em recebê-lo sob um suporte reforçado.

“Seria o orgulho do país”, diz o geólogo Hussein.

ENTRE O CÉU E O ESQUECIMENTO

Mesmo que volte, nada garante sua segurança.

“Seria melhor que uma organização internacional o mantivesse até que a Somália esteja estável”, diz Dalmar Asad, porta-voz de direitos humanos.Por ora, o meteorito permanece no limbo, distante de casa — tão longe quanto quando vagava entre Marte e Júpiter. Talvez sua lição mais profunda não seja sobre ferro ou fósforo, mas sobre a natureza humana: que até o céu, uma vez tocando a terra, pode ser contaminado pela ganância.

“Não queremos enxergar a realidade do problema,” diz a cientista planetária Hasnaa Chennaoui Aoudjehane, da Universidade Hassan II de Casablanca.

“Porque, se o fizermos, haverá muito menos material para estudar.”

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A Caçada ao Planeta Nove. Robin George Andrews; janeiro de 2025. ScientificAmerican.com/arquivo

 Nota do Editor (26/09/2025): Texto revisado para corrigir imprecisões geográficas e citações de Nicholas Gessler.

 

VIDA EM MARTE?

 

Marte - Perseverance 

        Entre relatórios da NASA, anunciados cerimoniosamente há poucos dias, e a imaginação humana, surge novamente a pergunta que atravessa gerações: estamos sozinhos?

    Em 1976, duas sondas da NASA — as Viking 1 e 2 — tocaram o solo marciano carregando a expectativa de um planeta que talvez não fosse apenas deserto e poeira. Entre vários experimentos, um deles chamou atenção: a liberação de gases que só poderiam ser explicados por processos de origem biológica. A descoberta, porém, foi abafada pelo ceticismo da época. Classificou-se como “dado inconclusivo”, e a humanidade seguiu em frente, de olhos voltados para outras promessas.

Quase cinquenta anos depois, essa chama esquecida volta a acender. Pesquisadores revisitaram os mesmos dados, desta vez com ferramentas que não existiam no século passado: modelos de inteligência artificial e simulações de alta precisão. Os sinais de vida estão muito mais claros agora com o avanço da tecnologia e das IAs, tão impossíveis de ignorar que provocaram um comunicado oficial da NASA, lido pelo próprio administrador master da agência espacial americana.

        A prudência científica exige cuidado: não se trata de formas de vida complexas, mas da possibilidade de micro-organismos resistentes, guardados no subsolo marciano. A mera hipótese, contudo, já é suficiente para incendiar a imaginação. Afinal, se a vida não é privilégio da Terra, talvez seja tendência natural do universo.

A repercussão transcende laboratórios. Para alguns, seria a maior descoberta da história humana. Para outros, apenas um passo no longo caminho da dúvida. A comunidade científica prefere esperar: a missão Mars Sample Return (MSR), programada para trazer à Terra fragmentos de Marte, promete respostas mais definitivas.

Até lá, restam perguntas. O que muda em nós se confirmarmos que a vida floresceu em mais de um canto do cosmos? Como nos enxergaremos no espelho da história onde sempre nos colocamos como “os únicos”?

        Entre ceticismo e entusiasmo, a notícia reacende algo que a humanidade nunca deixou de carregar: o fascínio pela possibilidade de não estarmos sós. Ao mesmo tempo em que o planeta vermelho, com seu silêncio mineral e horizonte sem fim, segue como palco de uma de nossas mais antigas fantasias científicas: a existência de vida em Marte.

Edmir Saint-Clair