ORIENTADOR LITERÁRIO

O ORIENTADOR LITERÁRIO - especializado em redação criativa - desperte sua criatividade adormecida.

ANOITECI

 

    Meus últimos vínculos familiares haviam acabado de se quebrar. Em frente ao laptop, ouvindo o tema de Cinema Paradiso, senti o peso de minhas dores. São muitas, são todas que nunca esperei sentir, que lutei a vida inteira para não sentir, e que me levaram a desistir de sentir qualquer coisa só para não senti-las.

A música tem esse poder sobre mim, abrir minhas comportas colapsadas, fazendo-me cair diante de minhas tristezas e chorá-las. De nada adianta a raiva com que tento ocultá-las de mim. A raiva que sinto da dor e a raiva que sinto de mim por senti-las.

Não sou mais, há muito, o amante de corpo e alma se deliciando com a vida, com os encontros e com as manhãs cheias de sol. Não tenho mais luz para brilhar.

Já não gosto  das manhãs, sei o que pode vir depois delas. Gosto de acordar após o meio do dia, se possível bem depois, longe das manhãs. Sou entardecer, anoitecer, não manhãs. Há muito, nada nasce em mim. Só morre.

A noite me fascina, o breu, o silêncio, o nada.  Não há mais mistérios nas minhas noites, só descanso. Não há mais o que esperar das manhãs.

Anoiteci.

– Edmir Saint-Clair
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ACONTECEU NA VIRADA DO ANO E TODO MUNDO VIU


Noite da Passagem de Ano,

1 e meia da manhã, praia do Leblon.

           No início da década de 1970 , todas as praias da zona sul eram palco de um espetáculo muito, mas muito diferente dos fogos de Copacabana e das festas sofisticadas dos dias atuais. Naqueles anos, as praias eram tomadas pelos terreiros de umbanda.

A partir do entardecer do dia 31 de dezembro, começavam a chegar as comitivas que vinham para preparar seus altares, e cada grupo iniciava a montagem de seu próprio terreiro na areia.

Cercavam o pedaço escolhido com palmas brancas fincadas na areia que dessa forma, delimitavam o domínio. Cavavam pequenos buracos, no fundo dos quais acendiam as velas que, assim, ficavam protegidas da brisa que sempre sopra à noite, vinda do mar. Eram centenas e centenas de pequenas velas e suas luzes ondulantes, iluminando de forma mágica as areias, de uma praia do Leblon onde a iluminação pública amarelada não tinha nem 10 por cento da luminosidade atual. Aquela imagem marcou minha memória de criança, uma mistura entre a realidade e a ficção de um filme sobrenatural.

Os pais e mães de santo, junto com seus cambonos e devotos, enfeitavam e preparavam seus terreiros de forma extremamente caprichosa, e imbuídos de uma devoção profunda e explícita.

O início da arrumação coincidia com o final das tradicionais peladas de futebol de areia, disputadas no Leblon, entre homens alcoolizados, vestidos com roupas íntimas de mulher, sob o batuque animado de uma bateria de samba organizada e regida pelo genial percursionista Oscar Bolão, bateria essa, que pouco depois deu origem a Banda do Leblon, que, por sua vez, passou o bastão para o Bloco Empurra que Pega dos dias atuais.

Esse intermezzo, do início do pôr do sol até umas 8 horas da noite, era muito curioso.

O que acontecia, simultaneamente, durante o lusco fusco deste dia especial, era absurdo e surreal.

Os devotos já estavam finalizando os trabalhos de preparação dos altares, e iniciando as cerimônias que atravessariam as madrugadas e iriam até os primeiros raios de sol do primeiro dia do ano.  Enquanto, ao mesmo tempo, acontecia a maior bagunça da pelada de futebol de areia, másculo-feminino, com muito consumo de álcool e de tudo mais que pode haver de profano; estavam todos ali, lado a lado, convivendo harmoniosamente. O divino e o profano de mãos dadas, comemorando, felizes, cada um ao seu jeito.

Naquela época, o réveillon era comemorado como se fosse uma noite de carnaval normal. E não acontecia nas ruas ou nas praias. Os bailes concorridíssimos aconteciam nos clubes, hotéis e danceterias espalhadas por todos os bairros do Rio.

Era muito diferente do que é hoje, no século 21.

As praias eram tranquilas, era para onde as famílias iam depois de romper à meia-noite em casa. 

Enquanto os adultos corriam para as festas, os pais com filhos pequenos iam passear na praia em frente de casa mesmo, a da Leblon no nosso caso, onde ficávamos caminhando e observando os rituais de umbanda e candomblé que aconteciam nas areias.

Era um terreiro a cada 3 ou 4 metros, todos cheios de gente esperando para tomar passe das pretas e pretos velhos incorporados. Era o sincretismo religioso acontecendo ali na frente de todos. A classe média, em sua maioria católica, buscava bênçãos em outra religião, ali representada pela classe mais humilde e oprimida da cidade; os pobres e pretos. Era a única ocasião que me lembro de ver pessoas brancas abaixando a cabeça humildemente para receber o passe da doméstica que trabalhava em sua casa. Ali, os papéis se invertiam.

Eu era bem pequeno e toda aquela movimentação tão extraordinária se apresentava ainda mais fantástica para a imaginação fértil de uma criança.

Fiquei muito impressionado com as pessoas que, de repente, do nada, mudavam de voz e começavam a agir estranhamente, minha mãe me explicou que aquilo é quando um espírito entra numa pessoa em transe. Me deu medo, mas a curiosidade era muito maior. O cheiro de charuto e de defumadores só não era mais forte por causa da brisa marinha. Mas, marcou em minha memória olfativa.

Meus pais compraram algumas palmas brancas e entraram no sincretismo reinante. Meu pai deu uma palma para cada filho e fomos jogá-las no mar, para Iemanjá.  Foi divertido  molhar os pés pulando sete ondas e jogando as flores no mar. Quando estávamos voltando da beira para a calçada, começou uma confusão. Um homem grande e forte começou a gritar, visivelmente alterado e bêbado.

Ele olhava de forma desafiadora para os devotos dos terreiros enquanto gritava ameaçadoramente:

- Tudo isso é palhaçada!! Um monte de gente ignorante... fazendo teatrinho... fingindo "baixar o santo" ... só para enganar os trouxas...

Passou por um terreiro, abaixou-se e pegou uma imagem do local de oferendas e saiu andando de forma provocativa, enquanto os fiéis dos terreiros apenas o observavam sem esboçar reação ou intenção de revide. Apenas olhavam fixamente para aquele homem abominável. E fez-se um silêncio que eu nunca ouvira antes...As ondas do mar se calaram.

Só o arrogante não percebeu que, naquele momento, algo de muito estranho começava a acontecer...

Ele, imaginando ter dominado o ambiente, continuou bradando ainda mais impropérios quando percebeu que a imagem que roubara era exatamente a de Iemanjá.

Ele estava vestido todo de branco e talvez não soubesse que essa tradição se deve exatamente a Iemanjá.

Todas as pessoas daquele pedaço da praia pararam para ver aquele desequilibrado, arrogante, histérico e com atitudes tão desprezíveis, desafiar a fé de todos bradando em voz alta:    

- Desafio Iemanjá a fazer alguma coisa para provar que existe... 

E foi caminhando em direção ao mar, gritando que ia afogar Iemanjá em suas próprias águas.

Todos em volta estavam parados, acompanhando atentamente aquele espetáculo bizarro. Aos poucos, o burburinho foi silenciando, os atabaques dos terreiros parando, enquanto o homem adentrava o mar em direção à arrebentação, onde as ondas, muito pequenas naquela noite, estouravam sem oferecer risco algum. Um banco de areia fez com que o homem ultrapassasse a arrebentação ainda com água abaixo dos ombros.

De repente, surgiu uma onda do nada, assustadoramente grande e forte, e o engoliu. Apenas uma onda foi grande naquela semana inteira e foi, exatamente, aquela.

Quando após alguns minutos, o homem não voltou à tona, o burburinho na areia começou a virar gritos cada vez mais intensos e vários homens passaram correndo e mergulharam na água para socorrê-lo.

Meus pais não aguardaram o desfecho e nos tiraram rapidamente dali, nos levando de volta para casa. Mas, fiquei com aquilo na cabeça por dias.

Pouco tempo depois, soube que não haviam achado o corpo daquele homem arrogante e desprezível.

Aquele episódio me marcou profundamente.

Aconteceu bem na minha frente e me arrepio toda vez que me lembro.

Eu vi e todo mundo viu.

Este trecho faz parte do livro CONVERSAS NECESSÁRIAS.

Edmir Saint-Clair 




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UMA FÁBULA DE ANO NOVO



        Era uma vez um planeta triste no qual morava um homem muito alegre  que adorava inventar coisas. Numa certa manhã, sem motivo algum, ele resolveu inventar que dali a 7 dias, a partir daquele dia, tudo ia mudar à meia-noite.

- Por quê? perguntaram todos.
 - Porque mudar é sempre bom, respondeu ele

E conseguia convencer mais gente a cada esquina, pessoas que não só passavam a acreditar, como começavam a falar para todos que encontravam,  que uma grande festa tinha que acontecer para que todos no planeta resgatassem a alegria perdida.

Porque não? Pensavam todos. Verdade ou não, mal não faria.

E a ideia foi se disseminando de uma forma viral, crescendo em progressão exponencial, como nunca se vira antes naquele mundo triste.
As comunicações digitais sem fronteiras daquela civilização altamente desenvolvida, logo incluíram todo planeta triste na divulgação daquela ideiaque, àquela altura, já havia se transformado num movimento planetário.
A coisa toda era muito simples: a partir do final do por do sol, e durante toda a noite até o nascer de sol seguinte, todas as pessoas do planeta deveriam sair de casa com suas melhores roupas, deveriam cumprimentar todos que cruzassem seus caminhos. Mesmo que nunca tivesse visto aquela pessoa antes. E assim foi feito.
E, durante toda a noite, cada ser daquele planeta triste ofereceu e recebeu sorrisos e cumprimentos de quem nunca havia visto antes.
 As consequências imediatas foram as gentilezas mútuas que se seguiram. Com o passar das horas ninguém se contentava mais em dar apenas um sorriso ou fazer apenas uma gentileza. E toda a população daquele planeta triste se embriagou de sorrisos, gentilezas, elogios, agradecimentos e de tudo que provocasse o sorriso e a felicidade alheia. 

Se embriagaram de bondades, cada um mais sorridente e gentil que o outro. E extrapolaram no melhor sentido possível, incluindo espontaneamente parentes, amigos, conhecidos e todos que lhes cruzassem o caminho.
Foi a maior festa que já havia acontecido na história daquela civilização.
A noite acabou e o dia seguinte nasceu diferente de todos os anteriores na história daqueles seres.
Aquela invenção havia gerado uma explosão de alegria e de empatia que  jamais acontecera e fez cada indivíduo dar um

sorriso que não daria e ser mais gentil do que, normalmente, seria.  E as consequências foram todas.

 A partir daquela noite, e em todos os dias que se seguiram, a vida naquele planeta nunca mais foi triste.

Feliz Ano Novo!

Esteja em que planeta você estiver.

- Edmir Saint-Clair




OUTRAS VIDAS

 

    Um menino de seis anos nascido em Piracuruca, no Piauí, começou a descrever com precisão a vida de um alemão rico que morrera cinquenta anos antes na cidade de Punta del Este, no Uruguai.

O psicólogo Túlio Linhares, da Universidade de Campinas, investigou o caso com rigor científico, viajando três vezes ao local. Confirmou cada detalhe relatado: a casa de três andares à beira da água, a família Schmieden, os negócios de couro, a mala marrom e a morte nos anos 1940. A história tornou-se referência internacional porque desafia as fronteiras conhecidas da memória e da consciência.

A criança e as memórias impossíveis

4.680 quilômetros separam João Benício, uma criança de Piracuruca, no interior do Piauí, da cidade de Punta del Este, no Uruguai. Uma enorme distância geográfica, cultural e histórica. Mesmo assim, o menino começa a descrever com precisão a vida de um homem alemão rico, morto meio século antes de ele nascer, naquela cidade à beira do Rio da Prata.

Ele fala de uma casa de três andares construída sobre a água, com um píer onde barcos atracam. Atrás, haveria uma igreja. Ao lado, a propriedade de uma mulher famosa: Evita Dolores, conhecida na América do Sul e marcada por escândalos judiciais.

O detalhe mais intrigante surge quando o menino menciona a família Schmieden — donos da casa, ligados ao comércio de artigos de couro. João diz que o patriarca carregava sempre uma mala de couro marrom e só passava os verões naquela residência.

O olhar cético da ciência

Nada fazia sentido para seus pais, trabalhadores simples e católicos dedicados, cuja crença não inclui nada parecido com reencarnação. Como uma criança do sertão poderia inventar tais detalhes sobre um lugar que jamais visitara?

Em 1997, o psicólogo Túlio Linhares, da Universidade de Campinas, decide investigar. Cético por natureza, viaja até Piracuruca e entrevista o menino. Com um gravador de mão, anota e grava cada informação: a casa à beira da água, a igreja atrás, a vizinhança de Evita Dolores, a família Schmieden, a mala marrom, a morte entre 1940 e 1941.

Ao retornar ao gabinete, Túlio enfrenta a escolha: arquivar o caso como fantasia infantil ou testar cientificamente as afirmações. Opta pela segunda via.

A primeira viagem: a casa existe

A primeira ida a Punta del Este o surpreende. A residência de Evita Dolores é localizada sem dificuldades. Ao lado dela, exatamente como descrito, surge uma casa de três andares, construída sobre a água, com um píer na frente e uma igreja atrás. Estava abandonada, mas correspondia ponto a ponto à narrativa de João Benício.

Um vizinho idoso confirma: sim, um alemão morou ali décadas atrás. Mas, não havia mais nenhuma informação sobre a família que ali residira. A pista inicial se transforma em um enigma maior.

A confirmação histórica

Em 1998, Túlio retorna ao Uruguai. Consulta historiadores locais, especialistas na memória dos bairros de Punta del Este. Um deles confirma: a casa pertencia a um alemão da família Schmieden, casado com uma italiana, com três filhos. O homem era lembrado por sempre carregar uma mala de couro marrom e só ocupar a residência durante os verões. A família tinha negócios de couro em Montevidéu. A morte, registrada por volta de 1940, coincide com o relato do menino.

O detalhe final reforça o mistério: João Benício dizia que o nome do homem significava “bom homem” em alemão. Pesquisando, Túlio descobre que a expressão existia e era usada de forma respeitosa em tempos passados.

A terceira viagem: eliminando dúvidas

Determinando-se a fechar o quebra-cabeça, Túlio viaja uma terceira vez. Investiga registros de comunidades italianas ortodoxas e encontra indícios de que os filhos da família realmente receberam nomes italianos.

O quadro se completa: casa, localização, vizinhança, família, ocupação sazonal, negócios, mala, idioma, nomes. O menino brasileiro havia descrito com precisão elementos que nem mesmo historiadores locais lembravam de imediato.

A repercussão internacional

Os resultados são publicados em periódicos científicos e apresentados em conferências. Ian Stevenson, referência mundial nos estudos sobre reencarnação, elogia o trabalho como “exemplar, detalhado e verificável”.

O caso repercute em debates acadêmicos pelo mundo. Para alguns, é a prova de que memórias extra conscientes existem. Para outros, apenas coincidências estatísticas. Túlio mantém a posição equilibrada: não afirma que João Benício seja a reencarnação de ninguém, mas mostra que há fenômenos que escapam à lógica tradicional.

O ceticismo e a impossibilidade das explicações

Com a fama vêm as críticas. Pesquisadores analisam se a família poderia ter tido acesso a livros ou relatos sobre Punta del Este. Outros buscam conexões ocultas com alemães no Brasil. Nenhuma hipótese encontra sustentação.

A distância de 4.680 km, o isolamento da família no agreste do Piauí e a ausência de interesse em publicidade tornam improvável a fraude ou a coincidência. Para muitos estudiosos, a solidez metodológica do trabalho de Túlio transforma o episódio em um dos casos mais impressionantes já documentados.

O fim das memórias

Como em relatos semelhantes, as lembranças de João Benício desaparecem com a adolescência. Hoje adulto, vive uma vida comum, sem falar do que um dia marcou sua infância.

Na ciência, porém, o caso permanece. Para uns, prova de que a consciência pode sobreviver à morte. Para outros, um mistério ainda sem explicação.

O que se mantém indiscutível é o impacto: um menino pobre do sertão brasileiro descreveu com precisão a vida de um alemão morto a milhares de quilômetros, décadas antes de seu nascimento. E um pesquisador obstinado, aplicando o método científico, confirmou cada detalhe.

Mas o que João Benício realmente reviveu? Uma memória guardada em algum ponto desconhecido da mente? Uma coincidência impossível? Ou a prova silenciosa de que a vida não termina onde acreditamos que acaba?

A resposta permanece em aberto, perdida entre ciência e mistério — como uma casa abandonada à beira da água, onde ainda ecoam lembranças.

Edmir Saint-Clair  

Disclaimer

Esta é uma obra de ficção literária. Embora inspirada em atmosferas, relatos e mistérios que circulam pelo imaginário humano, não se apoia em fatos documentados nem tem compromisso com a realidade histórica. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas, lugares ou acontecimentos, é mera coincidência — ou talvez apenas o eco de outras vidas.

O MEDO DA MUDANÇA




"A mudança é a única coisa permanente." Heráclito (500 A.C.)".

"...e a incerteza, a única certeza".  Zigmund Bauman - (2.500 anos depois).

O medo está nos rondando o tempo todo, nos fazendo engolir sapos maiores que a boca. Sem que tenhamos consciência de quais são seus gatilhos, aparece, de repente, tentando encaixar as nossas atitudes e, pior, as dos outros também, em modelos que nem sabemos se servem aos nossos anseios. Tudo para termos a sensação de segurança.

Quanto mais previsível, quanto menos mudanças na rotina, mais seguro o ser humano se imagina. A, estranhamente, chamada zona de conforto, de conforto não tem nada. O nome certo é zona de tédio, uma ilusão maléfica causada pelo medo que a simples ideia de mudar provoca. Mas, as mudanças ocorrem o tempo todo, percebamos ou não. Não dependem da nossa vontade.

O medo da mudança é uma força poderosa e vive escondido nas pequenas coisas e é, na maioria das vezes, o grande responsável pelos nossos maiores sofrimentos.

Ouvi de um amigo terapeuta algo que me ficou na cabeça e que os anos só reforçaram a verdade que traduz:

− "O ser humano se sente seguro vivendo uma rotina previsível, mesmo que isso signifique viver em péssimas situações, aparentemente insustentáveis, se vistas por alguém de fora mas, que ele já conhece e está acostumado. É péssimo, mas é um péssimo que ele conhece. Essa força é tão poderosa que a simples ideia de romper com a situação e partir para algo novo pode causar pânico em grande parte das pessoas. O ser humano prefere ficar no sofrimento conhecido a arriscar qualquer outra coisa que ele não conheça.”

Não raras vezes, nos deparamos com essa realidade em vários aspectos. Nas relações familiares, profissionais, amorosas, fraternas e quaisquer outras que se apresentem.

Admiro as pessoas que conseguem se desvencilhar rápido de situações incômodas. É claro que tudo tem sua peculiaridade e nada pode ser posto numa mesma sacola. Mas, existe uma linha, que pode facilmente perceptível e nem um pouco tênue, de onde, a partir dali, qualquer um tem certeza do dano que aquela situação está trazendo a um, ou a quantos mais estiverem envolvidos.

Seja em que âmbito for, chega um momento em que o desgaste é tão profundo e incomodo que a mudança é absolutamente inevitável e urgente. E, isso sempre gera insegurança, que é outro nome para o medo.

Nas relações amorosas isso é ainda mais nítido. Do início da descida até se esborrachar no fim, a gente vem se ralando todo, ladeira abaixo. E, não raras vezes, essa ladeira dura anos. Imagine quanta ralação, quantos machucados daqueles bem ardidos poderiam ser evitados.

É bem doloroso. O que esquecemos é que podemos, a qualquer momento, interromper essa descida ladeira abaixo e evitar sofrermos mais machucados. Saber interrompê-la antes que os traumas se aprofundem demais é o que decide como estaremos preparados para nossos próximos relacionamentos. Essa decisão é das mais sérias com as quais nos deparamos na vida: a hora de parar. 

Há um momento que temos que dar um fim a uma situação de sofrimento e não olhar mais para trás. Por uma questão de sobrevivência e sanidade.

Saber a hora de parar de sofrer é fundamental para não perder a crença em si mesmo. É necessário acreditar que podemos produzir nossa própria felicidade. E, antes, precisamos crer que somos capazes de nos proteger, de cuidar de nós mesmos, adequadamente. Porque, quantos mais machucados estivermos, mais tempo esses traumas levarão para cicatrizar. Isso significa que precisaremos de mais tempo para nos recompormos até estarmos prontos para uma nova relação. E a vida não espera. O tempo passa. E, dependendo da intensidade e quantidade dos eventos traumáticos, e dos recursos disponíveis para enfrentá-los (terapias e redes de apoio), essa recomposição pode ser bastante demorada.

É importante sermos sinceros ao nos respondermos às nossas próprias perguntas. Precisamos saber pelo menos o que pensamos, de verdade, sobre nossos próprios assuntos e sentimentos. Precisamos estipular nossos limites. A Tolerância é necessária, sem ela não se vive em sociedade, não se aprende e nem se evolui. Mas, a partir de um tênue limite, passa a ser submissão, conformismo e covardia.

Vivemos como se houvesse um modo certo e outro errado de realizarmos nossa vida. Como se houvesse um gabarito. Não há. Ninguém nasce com manual ou destino traçado. Tudo que fazemos é inédito. Algumas vezes, é imprevisível, simplesmente porque ninguém fez daquele jeito antes. Do seu jeito, original é único.

Mudar dá medo. Principalmente, quando a decisão de mudança envolve coisas básicas como mudar de casa, ficar sozinho, trocar um emprego medíocre, mas que paga as contas, por um projeto que, se der certo, vai te dar a vida que você deseja (isso não está ligado a dinheiro necessariamente!). Mas que, também, pode dar errado. 

E daí? Tudo pode dar errado, principalmente, o que está dando certo. Já que o que está dando errado, se mudar, só pode mudar para dar certo. 

Se der errado é porque não mudou. Então, vai ter que mudar de novo. Até dar certo. E, pode ter certeza, uma das coisas que mais ajudam a persistir até que dê certo, é o bom humor. Sem ele a vida não tem graça. É preciso brincar de ser feliz, pelo menos...

Ou seja, veja-se por que ângulo for, é preciso estar aberto à mudança sempre. Inclusive, para que o que já está dando certo, continue dando.

Edmir Saint-Clair

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CONVERSAS NECESSÁRIAS

"Tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Mas faltam-me as conversas que não tive."
(Adaptação livre inspirada em “Tabacaria” Álvaro de Campos)

Todos nós temos pendências emocionais e existenciais. Assuntos que nos incomodam muito e que, por isso mesmo, evitamos pensar e abordar.
Algumas dessas questões envolvem pessoas importantes e queridas em nossas vidas. Importantes demais para que as deixemos se perder de nós, e nós delas, sem que aconteça uma tentativa de esclarecimento que deixe, ao menos, a alma mais leve. Alguma atitude que nos permita dizer:
— Eu tentei de verdade.

Quantas vezes nos pegamos divagando numa conversa imaginária com aquela ex-companheira ou ex-companheiro com quem vivemos um grande amor, mas tivemos um final confuso e cheio de mal-entendidos. Ou a conversa com o parente muito próximo com quem tivemos conflitos nunca esclarecidos. Às vezes, nos afastamos de pessoas queridas por nunca termos tido a iniciativa de ter uma conversa que pudesse trazer luz àquele assunto pendente. Apenas para esclarecer, para clarear a questão e buscar um entendimento. Sem vencidos, nem vencedores.

A vida nunca foi uma competição.
A maioria de nós tem a tendência a ir acumulando pendências emocionais. Questões mal resolvidas, que foram varridas para debaixo do tapete. Situações espinhosas que nos causam um mal-estar interior, das quais não nos damos conta na maior parte do tempo, mas que brotam nos momentos mais improváveis e desagradáveis, sempre atrapalhando alguma coisa boa.

Isso quando não vêm à tona tarde demais — quando já não há mais nada a ser feito.
Muitas vezes, não é má vontade ou descaso. É medo. Medo de não sermos compreendidos, medo de nos sentirmos fracos ao nos expor. Há também o orgulho ferido, a vergonha de voltar atrás, ou a crença equivocada de que já é tarde demais. Cada um carrega suas barreiras internas, e é justamente por isso que a conversa necessária exige coragem. Coragem para se despir das defesas e estender a mão.

Situações que poderiam ter sido esclarecidas e não foram provocam mais que frustração — provocam distanciamento. E, por isso, se retroalimentam, criando distâncias que se tornam intransponíveis. Que permanecerão para sempre — como nódoas que mancham todo dia branco. Aquela pontinha de espinho que nunca deixa de incomodar.

Uma coisa é certa: não adianta tentar tocar em frente uma relação que sofre com pendências. Não adianta tentar varrer para debaixo do tapete. Porque, na vida, não tem tapete — e o chão é sempre bem duro. E não tem embaixo, nem em cima. É tudo a mesma vida, uma coisa só. E uma só vez. Não tem reprise, não tem segunda chance.

Não podemos deixar tudo a cargo do tempo. Essas conversas necessárias precisam acontecer, antes que se transformem naquelas dores nas costas que nos paralisam sob o peso invisível do que não foi dito. Temos que correr atrás, agir para esclarecer nossos mal-entendidos com as pessoas queridas. Não podemos deixar algo tão importante por conta do acaso. É muito arriscado. A vida é uma só. O tempo passa sem parar, nem por um segundo, e, se deixarmos por conta dele, as distâncias podem se alongar até que a possibilidade de volta não exista mais. Não existe relação, em nenhum nível, que não possa ser estragada pela falta de esclarecimentos mútuos sobre assuntos mal resolvidos.

A mágoa deixa marcas, nódoas, cria barreiras e distâncias que o tempo não resolve — ao contrário, só alimenta. Esclarecer pendências com as pessoas queridas é necessário. O orgulho tolo — ou a infantilidade de querer ter razão — é uma escolha pouco inteligente e profundamente prejudicial. Uma conversa sincera, onde a única intenção seja o entendimento mútuo, é o único caminho para que a distância definitiva não se estabeleça.

Poder ver, através do olhar de quem amamos, a nossa versão mais bonita é um dos momentos mais sublimes e felizes que podemos experimentar na vida. Sentir que somos amados por quem amamos é ser feliz.

Reduzir essa possibilidade, ao se afastar de pessoas queridas, é abrir mão de uma parte imensa da felicidade que ainda nos será possível viver. Definitivamente, varrer pendências sentimentais com pessoas que nos são caras para debaixo de um tapete que não existe é um erro que pode nos custar muito caro.
Pode nos custar quem amamos.

REGENERADO

 

Ninguém o convidava mais para nenhum evento social do condomínio de alto luxo em que morava há pouco mais de quatro meses, na Barra da Tijuca. Era arquiteto e andava ganhando concorrências públicas aos montes, graças aos conhecimentos do pai e do sogro que,  juntos, lhe garantiam trabalhos. Ele era talentoso e sempre se dedicara aos estudos, nem precisaria das mamatas. Mas, nunca saberia disso, uma pena para sua autoestima. Esses trabalhos, ainda lhe garantiam boa mídia, que lhe garantia novos trabalhos, que lhe pagavam cada vez mais. Ou seja, ele estava mais do que garantido, numa espiral ascendente. Um perfeito produto das capitanias hereditárias cariocas.

Mas, de nada adiantava seu sucesso naquele reduto de iguais. Parecia que ninguém gostava de sua presença. Até que sua esposa lhe jogou na cara com todas as letras:

- A mulher do Dantas me falou que ninguém te aguenta porque você ganha todas.

- Como assim?

- Ela disse que em todas as dúvidas nas conversas você está sempre certo...ninguém aguenta mais.

Então, o problema era esse! Por isso, em tão poucos meses, ninguém comentava mais nada na frente dele...

Aquele condomínio era composto por moradores absolutamente iguais e qualquer um que apresente uma diferença perceptível é rejeitado. Se for escamoteado, tudo bem, todo mundo finge que não sabe.  Tipo; todo mundo é, mas todo mundo finge que não é, e todo mundo finge que acredita. Sinceridade, nem pensar, é feio.

O grande pecado de Felinto era raciocinar e ter uma certa cultura e, por isso, nunca tinha dúvidas e estava sempre certo sobre a maioria os temas nas conversas. Não que fosse um gênio, os outros é que deixavam muito a desejar...e não se importavam com isso. 

No meio daqueles $abichõe$, e em tempos de Google, uma dúvida não leva mais que 15 segundos para ser sanada. E fosse qual fosse o assunto não tinha erro, o Felinto estava sempre certo. Um belo sábado, em que ele chegou no bar dos tenistas, onde o pessoal se reunia, apesar de ninguém jogar tênis, uma discussão acalorada sobre em que ano foi lançado o Chevette acontecia.  Felinto não teve dúvida e falou:

-Dia 24 de abril de 1973.

Todos ficaram em silêncio. Sabiam que Felinto estava certo, ele sempre estava. E, na milésima vez, ninguém mais ousou contestar-lhe. Nem naquele dia, nem em qualquer outro. Havia sido a gota d'água. A partir dali, sempre que Felinto chegava num ambiente onde uma conversa acontecia, o silêncio baixava. Ninguém queria correr o risco de falar algo errado e passar a vergonha de ser corrigido em público pelo Felinto. Ficou conhecido como o "desmancha bolinho" do condomínio, onde ele chegava o grupo se dispersava rapidamente.

    Até que aquele dia,  sua esposa teve a ideia que salvaria suas vidas comunitárias. Combinaram a estratégia e a esposa ficou de conseguir uma oportunidade para que pudessem colocá-la em prática.

        Com pena do casal, as esposas do condomínio (esposa em condomínio da Barra não tem nome, é só esposa) resolveram ajudar a pobre da Marilda, esposa do Felinto.

Elas organizariam uma festa e não avisariam aos maridos que o casal Felinto e Marilda seria convidado. Quando todos já tivessem chegado, o casal rejeitado apareceria de surpresa,  não dando opção de fuga aos convidados.

Na ocasião, uma das esposas louras do condomínio combinou com Marilda que faria perguntas ao Felinto, e este teria que responder errado. Ela faria uma segunda, e de novo ele deveria errar. E assim por diante, até que sua fama estivesse completamente arruinada. Não seria difícil, os $abichõe$ de condomínios da Barra não são muito espertos para coisas que exijam raciocínio.

Chegada a grande noite, o casal esperou ansioso o horário combinado. Eles deveriam chegar apenas após os últimos convidados. Seguiram a risca as instruções. Como sempre, assim que entraram no deck da piscina onde se realizava o evento, o silêncio foi tomando conta do local. Quando eles já começavam a se sentir por demais incomodados, a anfitrião brada:

- Felinto, duvido que você saiba em que ano foi lançado o forno de micro-ondas?

Silêncio total. Além do inusitado daquela pergunta completamente aleatória e sem sentido, a anfitriã ousara mais do que qualquer um jamais se atreveria.

Felinto quase responde na bucha, mas sua mulher consegue dar-lhe um beliscão a tempo. Convicto como sempre, Felinto responde:

- 1957!

Seguem-se os 15 segundos mais torturantes da vida de Marilda. Felinto parece tranquilo enquanto todos os presentes consultam seus iPhones. De repente, ouve-se um grito como se fosse um gol do Flamengo no maracanã:

- Errooouuuuuu!!!!

Os presentes vibram e festejam. Marilda é a mais empolgada. Mas, antes que a vibração adormecesse, a anfitriã o desafia novamente:

- Felinto, em que ano inventaram o secador de cabelos?

Fez um silêncio ainda maior do que o primeiro.

Felinto hesita, contempla a face alegre da esposa e responde:

- 1932!

Não demorou muito até que todos os presentes explodissem num só grito:

- Errooooouuuuu!!!

    Outros se animaram e todos quiseram desafiar o Felinto, que vibrava cada vez que perdia. Marilda, finalmente, teve sua noite se sentindo  uma legítima moradora de um condomínio da Barra da Tijuca. 

    A partir daquela noite viveram felizes até um trair o outro. Ela com a vizinha do lado e ele com o vizinho do outro. Mas, nenhum dos dois se mudou do condomínio e continuam amigos e felizes até hoje. 

Edmir Saint-Clair

PARALISIA EXISTENCIAL


  “Só existe um jeito de ser feliz. É ser feliz do seu jeito. ” Edmir St-Clair

 Há períodos em que nos vemos tomados por uma espécie de paralisia existencial. Agoniante e insuportável. Um estado em que a vastidão de possibilidades da vida, em vez de inspirar, parece esmagar, e a liberdade de escolha se converte no peso da responsabilidade por cada caminho não seguido.

É como naquela brincadeira de criança em que, de repente, alguém grita “estátua” — e todos congelam na posição exata em que estão. Ninguém se mexe. A gente pensa, mexe os olhos, respira — mas não pode se mover, senão perde o jogo.

São muitas ideias, muitos projetos — e uma falta total de ação. Um turbilhão interno de vontades e planos que não encontra a ponte para a concretização no mundo.

Uma impossibilidade física de produzir, mesmo com toda a matéria-prima pronta, organizada na cabeça e energia saindo pelo ladrão. É como ter o mapa do tesouro, a bússola e a pá, mas sentir os pés cravados no chão, incapazes de dar o primeiro passo. A roda do carro roda, mas não consegue sair do atoleiro. Falta aquele clique que põe tudo em movimento. Mas não clicamos. Adiamos. Procrastinamos, não por preguiça, mas talvez por um temor profundo do que o movimento pode desencadear: o medo do erro, do julgamento, ou mesmo da transformação que a ação inevitavelmente traz. Não dá trabalho algum, mas não clicamos.

Não agimos. Não fazemos o que precisamos — nem o que queremos fazer. E cada não-ação alimenta um ciclo de frustração e autoquestionamento. A ansiedade aumenta, o bolo no peito sufoca, porque falta-nos a ação. A energia represada, que deveria fluir para produzir e realizar, volta-se contra nós, gerando um mal-estar crescente. Como se o nosso corpo não obedecesse ao comando. Uma desconexão entre o querer da mente e o poder do corpo, uma cisão que nos deixa reféns de nós mesmos.

É como se estivéssemos conscientes dentro de um corpo em greve. A mente anseia por agir, criar, mudar — mas os músculos, os gestos e as decisões permanecem inertes, como se algo dentro de nós tivesse puxado o freio de mão da existência. Uma agonia perturbadora, que pode chegar a extremos. A sensação de estar vivo, mas não estar vivendo plenamente, pode ser uma das dores mais sutis e, ao mesmo tempo, mais lancinantes da experiência humana.

Mais do que a cobrança do mercado de trabalho, temos a nossa própria cobrança interna — frequentemente ainda mais cruel. Um tribunal íntimo que julga cada hesitação, cada adiamento, com uma severidade que raramente aplicaríamos aos outros.

Esse compromisso compulsório com algo que nem sabemos direito o que é, mas que está presente o tempo inteiro, diariamente, em todos os campos de atuação, nos fazendo adoecer e causando, muitas vezes, distúrbios incapacitantes. A ansiedade paralisante é apenas uma delas. É a internalização de um ritmo frenético que não respeita nossos ciclos internos, nossas necessidades de pausa e reflexão.

O burnout, uma síndrome que já ultrapassou os limites das corporações e se espalha por todas as esferas da vida moderna, é o colapso emocional anunciado de uma mente exaurida. Um sinal de que os recursos internos se esgotaram diante de uma demanda incessante por performance.

O número de casos cresce de forma assustadora, alcançando adolescentes e profissionais das áreas mais diversas. Isso nos alerta para a urgência de repensar os valores que sustentam nosso modo de vida social.

O burnout, esse esgotamento generalizado, é um grito abafado de um indivíduo acuado diante de um sistema que exige produtividade ininterrupta, mas nega tempo, acolhimento e sentido. Um sistema que valoriza mais o ter e o fazer do que o ser e o sentir. Gera uma inquietação constante e silenciosa, que acumula sentimentos negativos sobre si mesmo — e subtrai porções significativas de nossa qualidade de vida e saúde. É um desgaste que corrói a autoestima e a alegria de viver. Não existe um motivo evidente que, por si só, justifique o estado permanente de tensão. Mas ele está lá, atrapalhando, incomodando e, às vezes, paralisando. Muitas vezes, essa tensão é o eco de expectativas não realistas, de comparações infindáveis ou de uma busca por uma perfeição inatingível.

Alguns dizem que é medo do sucesso; outros, que é medo do fracasso. Ambos os medos, no fundo, podem ser faces da mesma moeda: o receio de se expor, de ser vulnerável, de não corresponder ao que se espera ou ao que se autoimpõe.

E, por aí, se desenvolvem milhares de teorias que vendem como água no deserto, sob a forma de literatura de autoajuda. Soluções rápidas para dores complexas — que raramente tocam a raiz do problema: a forma como nos relacionamos conosco e com o mundo. O compromisso com o desempenho — imposto por todos os lados, reais e virtuais — é uma engrenagem cruel, que pode nos empurrar para uma vida pesada, ansiosa e exaustiva. Uma corrida sem fim por metas externas que nos distanciam de nossos propósitos mais íntimos.

Precisamos deixar de lado essa cobrança desumana que a “sociedade” — essa entidade fantasmagórica que age nas sombras dos nossos próprios pensamentos e que, muitas vezes, somos nós mesmos a alimentar — nos impõe.

Quanto menor nosso autoconhecimento, maior será essa influência negativa, manifestando-se nas várias formas desse transtorno paralisante. Sem uma bússola interna bem calibrada, ficamos mais vulneráveis às tempestades externas. E, com isso, a ansiedade pode chegar a níveis literalmente insuportáveis. Às vezes, até respirar fica difícil — como se o corpo, em sua sabedoria, manifestasse o sufocamento da alma.

Quanto maiores nosso autoconhecimento, nossa autoestima, as ferramentas psicológicas aprendidas e nossa rede de apoio humano — construída sobre laços de confiança e afeto genuíno —, menor será a influência desse condicionamento social cruel e determinante. É o cultivo de um jardim interno que nos fortalece e nos permite florescer, apesar das intempéries.

Cada indivíduo tem sua originalidade única, capilarizada por todo o seu ser físico e psíquico, gerando reações igualmente originais e únicas. Essa singularidade é nossa maior riqueza e merece ser compreendida e respeitada, não moldada a padrões externos.

Cada um tem seu jeito de compreender e de agir diante dos trilhões de eventos que se sucedem em nossas vidas. E cada jeito é uma expressão válida da experiência humana, com seus próprios tempos e ritmos.

Isso deixa claro que não só é impossível prever, como é mais difícil ainda padronizar, regrar e arbitrar sobre qualquer aspecto que envolva a natureza humana. Tentar encaixar a complexidade da vida em fórmulas rígidas é uma violência contra a própria essência do ser.

O indivíduo padrão simplesmente não existe. Não é humano, não é possível.

É uma criação cruel e fantasmagórica da mente humana. 

Um ideal inatingível que gera sofrimento e nos afasta de nossa essência verdadeira. Insistir em nos moldar a esse ideal é negar nossa essência, nossa originalidade. É viver como um rascunho de si mesmo, sempre em dívida com um modelo de um ser idealizado, que não existe.

A saída não é encontrar um caminho certo, porque não existe caminho certo — mas voltar a ouvir a própria voz. Aquela que, mesmo abafada, ainda sussurra dentro de você:

— Ei! ainda estou aqui.

 Edmir Saint-Clair