"Seja amigo íntimo de si mesmo
e nunca mais se sentirá
sozinho." - Edmir Saint-Clair
Existe uma pergunta que ninguém faz em voz alta. Mas todo mundo carrega.
Estou sendo quem eu digo que sou?
É uma pergunta simples. E, muitas vezes, devastadora.
Vivemos na era da performance. Nunca foi tão fácil construir
uma versão de si mesmo — e nunca foi tão tentador confundi-la com a versão
real. O Instagram tem filtro para tudo: para a pele, para a luz, para a vida. O
que não tem filtro é a nossa própria consciência quando deitamos no
travesseiro.
A busca ansiosa por likes virou o termômetro afetivo de uma
geração inteira. A foto só foi boa se engajou. A opinião só vale se viralizou.
A conquista só existe se foi postada. Aos poucos, sem que a gente perceba, o
centro de gravidade se desloca — saímos de nós mesmos e passamos a orbitar a
aprovação dos outros. De outros que, na maioria das vezes, estão fazendo
exatamente a mesma coisa.
É um espelho em frente ao outro. Infinito. E vazio.
Os filósofos já tinham um nome para isso. Muito antes do
Instagram existir. Só que agora ganhou uma tela, alcance mundial e um
algoritmo.
O filósofo dinamarquês Kierkegaard chamava isso de estágio
estético — a vida vivida para a superfície, sem compromisso real com nada. Jean
Paul Sartre tinha um nome mais duro: má-fé — a arte de fingir que não há
escolha, quando na verdade nossas escolhas estão sendo feitas a cada momento da
vida e, no fundo, temos plena consciência disso. Atualmente, isso tem uma outra
expressão que talvez a defina melhor: desonestidade intelectual.
Postar uma versão editada de si mesmo não é crime. Mas
acreditar nela é o grande problema, que pode ter um preço bem alto.
Quando a distância entre quem você é e quem você finge ser
cresce demais, surge um mal-estar que a psicologia batizou de síndrome do
impostor — aquela sensação persistente de que você não merece o lugar que
ocupa, de que é uma fraude prestes a ser descoberta, de que qualquer dia alguém
vai perceber que não existe nada embaixo da máscara que usamos.
Nas redes sociais, esse sentimento encontrou o ambiente
perfeito para prosperar. Você constrói um personagem admirável — e passa a ter
medo de não estar à altura dele. A conquista foi real, mas a versão postada foi
maior. O argumento foi válido, mas veio acompanhado de uma pose que não era
sua. O sorriso era verdadeiro — mas o contexto, não.
O personagem cresce. E você encolhe.
Porque a incoerência não gera culpa imediata. Ela trabalha
devagar, por baixo, como uma infiltração invisível que vai corroendo as
estruturas da personalidade. Um dia você percebe que não sabe mais o que pensa
de verdade — ou se o que posta que pensa é fruto apenas do que funciona bem nas
redes. Não sabe do que gosta de verdade — ou se o que posta que gosta é fruto
do personagem que criou para combinar com a estética do perfil no Instagram.
Não sabe quem é realmente você — e quem é o personagem criado para ter mais
seguidores. Chega a um ponto em que você pode se tornar um estranho para si
mesmo.
A identidade vai cedendo lugar ao personagem. E o personagem não descansa nunca — porque depende de audiência para existir.
O atrito entre quem você é e quem você aparenta ser corrói
por dentro. A autoestima afunda. As decisões ficam mais difíceis — porque quem
não confia em si mesmo transforma cada escolha numa armadilha. E uma identidade
enfraquecida é terreno fértil para ansiedade, depressão e todos os outros
distúrbios mentais que a sociedade atual padece.
A lucidez intelectual e o autoconhecimento são o único
caminho para fugir dessa tendência humana de buscar um culpado que não seja nós
mesmos. Fica fácil culpar o Instagram, o Facebook e outras redes. Mas elas não
criam personagens — elas apenas oferecem o palco. Quem decide subir nele, o que
vestir e o que representar somos cada um de nós. Somos, sempre, os únicos
responsáveis por quem conseguimos ser, apesar dos pesares da vida.
A coerência é o antídoto.
É uma virtude autêntica e verdadeira que não precisa de
plateia nem de métrica de engajamento. É aquela coisa pequena feita da forma
certa quando ninguém está olhando — uma decisão tomada de madrugada, sem
testemunha, sem like, sem story.
Quem vive com coerência não precisa lembrar o que disse
ontem. Não precisa administrar versões. Não acorda com medo de ser descoberto —
porque não há nada a esconder. O impostor some quando o personagem e a pessoa
finalmente coincidem. É quando você assume o comando de decidir para si mesmo
quem você é.
Quando deitamos no travesseiro, é a nós mesmos que temos de
prestar contas. Não existe júri, não existe recurso, não existe boa impressão a
causar. Só você e o seu próprio julgamento sobre o que você fez — com o que
tinha, onde estava e sendo quem é em sua essência maior.
Nossa maior contribuição para o mundo — e para nosso orgulho
próprio — é agirmos da forma original, única e intransferível que a nossa
natureza nos dotou.
A coerência é a forma mais corajosa — e íntima — de se
amar.
Edmir Saint-Clair
